CAIO NARRANDO [[[
Quando desconfortável, o que era quase sempre, fazia uma cara feia de expressão fechada e quase emblemática. Ali na festa, enquanto todos dançavam na pista de dança improvisada no carpete da sala de estar, Théo sentava-se num canto, afastado. As luzes frenéticas piscando e iluminando irregularmente seu rosto sóbrio, de olheiras pesadas e olhar de solidão insondável.
Volta e meia olhava para seu próprio copo de plástico e questionava-se onde estava a embriaguez, com quem havia contado para se livrar de seus próprios pensamentos. O álcool era ruim; não fizera efeito, ou, se fizera, só tornara as coisas ainda piores, mais apáticas. Tudo aquilo ao seu redor era de uma futilidade quase desprezível, todo o luxo daquela casa; aquela piscina, aqueles quadros grandes e minimalistas de gente rica, e até mesmo aquele carpete estupidamente confortável. As pessoas, então, eram-lhe ainda mais desinteressantes; profunda e terrivelmente desinteressantes. Não sabia por que decidira ir àquela festa. Ou talvez soubesse — mas certamente não compreendia.
Dois impulsos contrários e opostos. O desejo sutil e pouco consciente de me encontrar, como quem se esbarra casualmente com alguém, enganando até a si mesmo de que não criava para aquele momento grandes expectativas, de que não era seduzido pela minha presença. E, ao mesmo tempo, uma vontade gritante de me tirar dos pensamentos; de afogar todas aquelas ideias confusas e agridoces no álcool. Théo era uma contradição ambulante. Enquanto sua necessidade de distância, de isolamento emocional o fazia sentir aliviado por eu não ter ido à festa, havia também dentro do peito uma frustração melancólica e realista que parecia se apossar do mundo. As coisas eram cinzentas, cruas, reais; as pessoas, vazias; o convívio humano era um grande baile de máscaras frívolo e teatral.
E foi, no entanto, quando apareci pela porta da frente segurando uma sacola de presentes, bastante tímido e deslocado, que todo o calor de sua vida foi retomado numa intensidade infernal. Sentiu seu coração palpitar pela nuca e todos os seus pensamentos serem jogados pela janela. De repente, não havia mais nada dentro de sua cabeça — o tudo havia se convertido em nada. Eu, logo eu, a fonte de todos os seus problemas, havia sido o responsável também pelo despejo completo deles, pelo esvaziamento completo de sua tormenta mental.
Eu era o motivo de sua guerra interna, e era também a causa de sua paz.
— Oi — disse eu, ao me aproximar e sentar ao seu lado. Tive de falar alto pois o volume atingia já um nível desagradável.
Théo mexeu a cabeça um pouco, como um hétero que faz pouco caso de alguém, mas cumprimenta para não ser mal educado.
— Você parece um tanto emburrado.
Ele não fazia contato visual comigo — porque, claro, não conseguia, embora estivesse obtendo muito êxito em fazer parecer que era simplesmente porque não fazia questão.
Deu de ombros.
— Essa galera é meio bosta.
Não pude deixar de rir.
— Ah. Foi mal. Esqueci que você é bem amigo de alguns deles.
— Meh — resmunguei. — Na teoria, sim.
— Ué? Te vi cumprimentando umas pessoas ao chegar.
— Então o senhor estava me observando?
Ele então ficou extremamente emburrado, como se eu houvesse insultado sua mãe. Eu disse que estava apenas brincando. Continuou com cara de quem não come há dias.
— Oxe. — Levantei e fui pegar uma bebida, deixando-o sozinho com seu mau humor.
“Eu não te entendi aquela noite”, eu disse a ele, meses mais tarde, enquanto conversávamos sobre este dia e ele o narrava sob sua perspectiva.
“Sempre fui péssimo para lidar com meus sentimentos”, explicou.
Pelos olhos do futuro, pude então saber o que seu coração sentiu no passado. Enquanto jazíamos abraçados na cama, contou: “Não era como se eu sentisse algo específico quando você estava perto; bem ao contrário, você me fazia sentir tudo, Caio; você me arrancava à força da inércia, da insensibilidade, do mundo frio e incolor, e me ateava em brasas. Eu não sabia como reagir senão ficando puto — não com você, mas comigo mesmo. Ao seu lado, era como estar chapado; era como se a realidade ficasse tão intensa que eu podia me sentir fritando nela.
“E, agora, estando aqui com você, podendo te abraçar por trás, te apertar como a um travesseiro, poder cheirar seu pescoço, sentir seu perfume e a maciez da sua pele... Tudo isso era impensável.”
Sorri e fortaleci o abraço, sentindo-o fortalecer de seu lado. Era espontâneo. Eu não podia evitar.
“Você é o centro do meu mundo, Caio.”
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