Forksford
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Eles caminhavam lenta e cautelosamente, até porque não era sábio correr sem rumo por um local que não conheciam e com um maníaco a solta. A lanterna era a única forma que tinham para enxergar o caminho, ou parte dele.
Os degraus do alçapão os levaram a um corredor com paredes de madeira e um teto relativamente alto. Assim, mais parecia que estavam em outro cômodo do que embaixo da cabana.
Finn tentava garantir que era seguro prosseguir a cada passo que dava, pois sabia que qualquer movimento brusco dele faria Cloe gritar. Ele era a única proteção que ela tinha e não a abandonaria por nada.
– Finn, n-não estou vendo saída — comentou Cloe, ainda tentando se manter calma. Ela parou de andar e encostou-se na parede para descansar. Contudo, a parede começou a girar e a garota caiu no chão.
Finn olhou para trás e viu que a parte da parede que se movera era, na verdade, uma passagem secreta. Viu as pernas da amiga do lado de fora e o resto de seu corpo estava dentro da passagem.
– Cloe, você está bem?
– Sim, só caí de mau jeito. — respondeu enquanto esfregava o pulso — O que faremos agora?
– Não consigo enxergar muito a frente, mas acho que este túnel é muito extenso e já andamos uns bons metros. Não podemos nos distanciar tanto da cabana sem ter certeza que os outros não estão por aqui. — ao terminar, ajudou a amiga a levantar.
Assim que ficou de pé, Cloe voltou a ficar atrás do moreno, alerta a qualquer coisa. Deram alguns passos para dentro do cômodo revelado e a porta voltou a girar até parar em sua posição original.
A luz da lanterna não iluminava o cômodo completamente, mas puderam perceber alguns detalhes a mais do lugar.
Não havia móvel algum. Ao invés disso, havia diversas correntes com grilhões presas às paredes e duas portas, uma oposta a outra. Um enorme saco de negro tecido estava em um dos cantos. Caminharam lentamente até ele e Finn, curioso, abriu um pouco o saco para poder ver o que estava dentro. Assim que o fez, cobriu o nariz e a boca, lutando para não vomitar, e empurrou Cloe para trás.
Ela não precisava ver aquilo.
Dentro do saco, havia grandes pedaços de carne... humana.
Diversas partes, além de braços e pernas estavam ali, amontoadas e cobertas de sangue, um manjar dos deuses para qualquer carnívoro. O cheiro que aquilo emanava era devastador.
– O que tem ali? — perguntou Cloe, também cobrindo o nariz e a boca.
– Não importa! — respondeu, ríspido. Ao ver os olhos arregalados da amiga, continuou — Me desculpe. Mas não olhe ali dentro para seu próprio bem.
Finn hesitou por um momento: não sabia qual porta escolher.
Siga seu coração, disse uma voz em sua cabeça.
Ficou confuso, de início, mas logo começou a caminhar até a porta da parede a direita e parou. Menos de um centímetro separava sua mão da maçaneta e antes mesmo que pudesse tocá-la, a porta se abriu violentamente.
Um sopro gélido passou pelo seu corpo em direção à porta e sua intensidade aumentava a cada instante. Ambos tiveram que começar a fazer força para manterem-se no mesmo lugar.
O vento estava muito forte, a ponto de fazer as correntes trepidarem nas paredes sem parar e os amigos sentirem seus pés deslizarem para frente.
Quando Cloe ia gritar alguma coisa, o barulho ensurdecedor das correntes parou e o vento cessou. Ambos se entreolharam com o mesmo pensamento em mente:
O que diabos foi isso?
Antes que pudessem se recompor, sentiram uma pressão estranha em seus troncos. Mal esboçaram qualquer expressão e foram sugados para o outro cômodo, como se uma corda tivesse laçado ambos pelo tronco e estava puxando-os para dentro.
**********
Finn abriu os olhos aos poucos. Seu rosto doía devido ao impacto com o chão gelado. Sentiu uma certa dificuldade para respirar, pois algo comprimia seu tórax. Ao tentar passar a mão nas costas, seus dedos enroscaram levemente em algumas mechas de cabelo. Então se deu conta que sevira de travesseiro para suavizar a queda de Cloe. Ela também recobrara a consciência e se levantava com um pouco de dificuldade devido à tontura.
– Mas o que foi aquilo? — perguntou a moça enquanto colocava a mão na cabeça numa tentativa de recuperar o equilíbrio.
– Não tenho ideia. Mas não temos tempo a perder para tentar descobrir. Vamos continuar.- retrucou o rapaz.
O cômodo em que estavam era um pouco mais iluminado que o anterior — o suficiente para enxergarem sem grandes problemas. Mas seria melhor se isso não fosse possível.
Como se já não fosse horrível o bastante ver um enorme saco cheio de partes de corpos, agora estavam cercados pelas cabeças dos possíveis "ex-donos" daquelas partes humanas.
Os olhos de Cloe estavam tão arregalados que pareciam que sairiam das órbitas a qualquer momento. Suas mãos tremiam levemente enquanto cobriam sua boca. Finn estava tão abalado que quase deixou a arma cair no chão.
Inúmeros potes de vidro, cada qual com uma cabeça, ocupavam seus lugares em prateleiras que preencinham cada parede do cômodo do teto ao chão. Qualquer um que tivesse a mórbida vontade de contar quantas cabeças estavam ali, facilmente passaria de cem na contagem.
Enquanto encarava aquela decoração macabra, Finn sentiu a mão trêmula e fria de Cloe pegando seu braço e o sacudindo para chamar sua atenção. Ao virar-se para ela, a garota apontava para o canto de uma das prateleiras, sem conseguir dizer uma única palavra. Seu cérebro ainda estava lento devido ao choque e por isso Finn demorou alguns segundos para começar a entender.
A prateleira para qual Cloe apontava estava como todas as outras, com vários potes de vidro com uma cabeça humana mergulhada em algum líquido meio translúcido. Contudo, havia algo diferente nela: havia seis potes preenchidos apenas com o líquido.
A mensagem era clara: eles eram os próximos.
Independente de quão horrível é esse lugar, não se esqueça que alguém precisa de você, disse uma voz na cabeça de Finn, a mesma voz que ele ouvira quando estavam no outro cômodo.
Seja forte e procure nas paredes, disse a voz, por fim, desaparecendo novamente, deixando Finn mais confuso e desesperado do que nunca.
O atleta não tinha outra ideia melhor. Aos poucos forçou seus músculos das pernas para caminhar até uma das paredes.
Ver tantas cabeças decepadas de perto era pior ainda do que vê-las de longe; era quase insuportável. Algumas aparentavam ter recebido um cuidado maior ao serem "armazenadas", pois o líquido era perfeitamente límpido. Outras poucas eram exceção: insetos mortos e pequenos pedaços de pele boiavam no líquido. Ainda assim, o responsável por todas aquelas mortes fora muito cuidadoso ao guardar as cabeças.
Tentando se controlar ao máximo para não vomitar e ignorar a expressão de cada cabeça a sua volta, Finn entregou a arma para Cloe e começou a analisar e a tatear a parede. Não tinha ideia do que estava procurando, mas sentia que saberia quando encontrasse. Seus dedos estavam tão gelados que ele mal pôde sentir o quão fria era aquela parede de pedra.
Enquanto Finn tateava cegamente a parede, Cloe o encarava com espanto e dúvida. O choque fora tão grande para ela que sua voz sumira completamente, forçando-a a esperar em silêncio até que o amigo lhe explicasse o que estava fazendo. Ela apertava e girava as mãos em torno do cano da espingarda, ciente do que fazia para evitar um disparo acidental, mas visivelmente nervosa e ansiosa. Detestava o fato de não compreender nada que acontecia. Em meio a onda de dúvidas que revirava sua mente, Cloe teve uma certeza: não moveria um músculo para sair do lugar e ajudar Finn. Não suportaria ficar tão próxima daqueles potes sem ficar louca ou vomitar tudo que estava em seu estômago.
O que estou procurando? Meu Deus, devo ter enlouquecido. O desespero começava a crescer dentro do moreno.
Não seja tão cético. Se quiser resgatá-la, terá que acreditar mais em si mesmo, retrucou a voz.
Não sei qual é o pior sinal de loucura: procurar algo que não conheço a mando de uma voz imaginária ou discutir com ela.
Continue acreditando que não sou real e não sairá daqui vivo.
– Finn?
O rapaz olhou em volta e viu Cloe cutucando seu ombro. Sua expressão era de preocupação e o tocava com o dedo com tanta delicadeza que mais parecia que ele era uma bomba pronta para explodir a qualquer instante.
– O que... o que houve?
– Eu que pergunto o que houve! Você ficou parado como se tivesse congelado e nem parecia me ouvir! Não me assuste assim de novo, por favor! — suplicou Cloe.
Ele assentiu e virou-se para a parede, esticando a mão para recomeçar sua busca. Assim que seus dedos médio e indicador tocaram uma pedra que estava ao lado de um dos suportes da estante a altura de seu peito, Finn sentiu a pedra deslizar para a direita. Um buraco foi revelado e dentro dele havia uma pequena alavanca.
Hesitante, puxou a alavanca.
Com um gemido, a parede de pedra atrás dele girou levemente, como se a tranca que a mantinha parada fora removida quando ele acionou a alvanca.
Bom, até que minha loucura está servindo para algo, pensou.
Tenha fé. Está indo bem, disse a voz com um tom quase imperceptível de satisfação.
Após passarem pela parede, eles se depararam com um corredor. Não era largo, mas era estreito o suficiente para que eles continuassem a caminhar da mesma forma: um atrás do outro. O corredor dobrou à direita, depois à esquerda, esquerda, direita... As curvas pareciam não ter fim. Quando começou a pensar que seria melhor voltar, Finn viu uma porta. Assim como todas as outras, a porta era de madeira lisa e, por mais conservada que estivesse, era visível que era tão antiga quanto a cabana. Antes que perdesse tempo especulando sobre o que estaria no próximo cômodo, o rapaz segurou com força a maçaneta e a girou sem hesitar.
**********
Em meio ao silêncio e a escuridão, tudo parecia perder o sentido.
Não fazia ideia de onde estava, de quem era... Sua mente estava mais confusa do que nunca. Não se lembrava de nada desde que fora... puxada pelos tornozelos.
Depois de ter tentado resistir e sentir um forte impacto na nuca, só conseguia se lembrar de algumas sensações aleatórias: uma pressão gélida e constante, um calor subindo por sua nuca e uma forte dor em suas mãos.
– Que dor de cabeça, o que... o que aconteceu?
– Você resistiu. O importante é que esteja calma e segura de quem é.
– Mas o que... Quem... Onde estou? Cadê todo mundo?
– Isso não é relevante agora. Você tem outras preocupações mais
– Do que está falando? Quem é você?
– Você terá que lutar, mas não fisicamente. Obviamente, isso não foi e nem será eficiente. E sou quem sou.
– O que quer dizer? Por que não quer falar seu nome?
– Não é importante saber quem sou. Fique calma, as resposta virão. Você está no lugar em que está. Só saberá se abrir os olhos. E não esqueça: saiba quem você é de verdade e acredite nisso.
A frase ecoou em sua cabeça por um tempo enquanto abria os olhos e esperava sua visão voltar a ficar clara. A confusão em sua cabeça ficou pior após esse estranho sonho. Nada fazia sentido e tudo indicava que isso só iria piorar.
– Não sei por quanto tempo mais irei aguentar esses mistérios — disse consigo mesma. — Quero ir embora daqui!
As sensações que sentira quando estava inconsciente voltaram aos poucos e ficaram ainda mais intensas do que antes.
Quando olhou para suas mãos, descobriu por que elas latejavam tanto. As pontas de seus dedos estavam em carne viva e doloridas. Perdera uma de suas unhas quando tentava... Finalmente compreendia alguma coisa.
Suas mãos estavam feridas e doloridas porque tentara cravar as unhas no chão de madeira e resistir ao que a puxava. A pele de seus tornozelos fora levemente arrancada pelos grilhões que outrora os prendiam e ardiam um pouco toda vez que mexia os pés. Sua nuca doía porque recebera um forte golpe logo que suas pernas caíram dentro do buraco no chão e, por esse motivo, não conseguira ver nada desde então.
Enquanto avaliava seus ferimentos e dores, concluiu que estava bem e sentiu um alívio rápido. Se tinha sorte ou não de estar viva, isso descobriria mais tarde.
Depois que despertou por completo e terminou de avaliar seu estado, olhou em volta para saber, de uma vez por todas, onde estava. A notícia não era das melhores.
O cômodo era tenebroso e lhe deu calafrios.
Quadros enormes e imponentes, quase intimidadores, preenchiam as paredes com imagens das mais variadas, contudo, com um assunto em comum: todas representavam cenas sobre o Apocalipse e como poucos da humanidade conseguiam se salvar.
A mobília parecia ser tão antiga quanto a cabana — ou mais que ela — e se encontrava em um estado quase lamentável. A mesa de jantar ocupava a maior parte do lugar e era acompanhada por dez cadeiras tão simples e escuras quanto a própria mesa. Se não fosse pela grossa camada de poeira que cobria cada superfície, os móveis seriam tão escuros quanto petróleo.
O fogo das velas sobre a mesa tremulou.
Uma névoa levemente esverdeada, quase imperceptível, começou a circular lentamente pelo chão e a se espalhar pelo cômodo, causando uma sensação gélida que desceu por toda sua coluna.
Apesar do estranho aspecto do lugar e da sensação inexplicável, qualquer preocupação sua desapareceu ao focalizar o incrível jantar que estava preparado. Bifes empilhados em um suculento monte de carne vermelha atraíam seu olhar mais do que tudo. Só então reparou como sentia fome.
Não faça isso, disse uma voz em sua cabeça — a mesma com quem conversara durante o sono.
Estou com fome! Que mal há em saciar essa vontade? Tem muito tempo que comi, retrucou para si e para a voz.
Você não sabe do que se trata. Raciocine.
Estou exausta e faminta. Por que deveria dar ouvidos a você que dá desculpas para não dizer o próprio nome? Pare de perturbar, seja você quem for!
Ainda que não compreendesse por que tinha discutido com sua imaginação, ignorou esse pensamento sem receio e se levantou. Sua fome estava mais forte do que jamais sentira na vida e um belo monte de carne suculenta a esperava.
Último aviso: não faça isso! Haverá consequências!
Por que não me deixa em paz? Eu sei cuidar de mim!
Após uma pequena pausa, a voz retrucou com um leve tom de decepção e tristeza.
Que assim seja.
A jovem caminhou até a cadeira que ficava na ponta da mesa e se sentou. O prato branco sem adornos, o grande copo e os talheres de ferro estavam muito bem limpos, criando um contraste intrigante com a imundice da mesa.
Ainda ignorando tudo ao seu redor, mesmo que seus instintos clamassem para que fizesse o contrário, pegou o maior pedaço que pôde encontrar e colocou em seu prato.
Com a voracidade de um animal selvagem, mordeu o maior pedaço que sua boca lhe permitia.
O sabor era incrível. A carne estava no ponto certo: não estava crua e nem cozida demais, pois ainda liberava um pouco de sangue a cada mastigada.
Deu um longo suspiro de alívio.
Nunca sentira nada igual. O prazer aumentava a cada nova mordida, o que era inexplicável.
Nunca comi algo tão maravilhoso! Só posso estar sonhando!
Um único bife não fora suficiente. Pegou um segundo pedaço e depois repetiu novamente.
Em nenhum momento sentira qualquer desejo de beber algum líquido. O tempero e o sangue da carne misturados prendiam demais sua atenção para que se importasse com qualquer outra necessidade biológica.
Antes que pudesse colocar o último pedaço do terceiro bife na boca, escutou um barulho de uma pesada trava de ferro ser girada.
Tarde demais, disse a voz, pesarosa. Ele chegou.
O garfo ficara suspenso no ar a meio caminho de sua boca ligeiramente aberta.
Mal começara a colocar os pensamentos em ordem, uma porta se escancarou com um estrondo. A passagem estava tão bem camuflada pela cor escura nas paredes e a baixa luminosidade que não notaria a presença da tal porta se ela não tivesse sido aberta.
A figura que entrava no aposento era enorme, mal parecia humana. Sua cabeça era cilíndrica e de um cinza muito escuro. Seus braços pareciam ter mais de dois metros de envergadura e sua altura, quase três metros. As mãos visíveis eram enormes o suficiente para pegar uma bola de basquete como um adulto pega uma laranja. Um casaco preto e surrado cobria seu corpo largo, mas era quase óbvio que era incrivelmente forte. Nos pés, botas de caça pretas e surradas, castigadas pelo uso excessivo e por carregar uma carga tão pesada.
Caminhando pesadamente, como se cada um de seus pés estivessem presos à bigornas de chumbo, a figura foi em direção à moça paralisada na cadeira — que lutava contra si mesma para mover algum músculo, sem êxito.
Enquanto se aproximava, a garota conseguiu ver que a cabeça estranha e perfeitamente cilíndrica da figura era, na verdade, uma máscara feita de lata, com dois retângulos cortados na frente para os olhos — mesmo que não conseguisse vê-los. Quando estava próximo o suficiente para que a jovem escutasse sua respiração profunda e levemente ruidosa, a figura retirou a máscara.
O rosto da criatura, agora reconhecível como do sexo masculino, era liso e sem qualquer pelo, nem onde deveriam ficar as sobrancelhas que caíam por sobre os olhos, nem no couro cabeludo. Seus olhos eram azuis muito escuros e sem expressão. O nariz era grande e reto, dando uma seriedade ainda maior ao rosto. Seus lábios eram grossos e possuíam pequenas feridas causadas pelo ressecamento.
Segurava a máscara e, com a mão livre, segurou o rosto da jovem. Seus lábios se abriram e as palavras que saíram deles tinham um tom perturbadoramente grave:
– Gostou da comida, esposa?
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