Forksford
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Após acordar de um sono que parecia ter durado anos, Kat tentava pensar o mais claramente possível. Fora horrível ter assistido àquela sessão de tortura. Só conseguira se manter lúcida graças à jovem loira. Ela aparecera novamente após a sessão.
–Compartilho de sua dor e sofrimento, mas não deve sucumbir. Não pode. E não irá. Vejo em seu coração o que sua mente desconhece. Creia em si mesma, Katherine Realms — a jovem sorria fraternalmente para ela, apesar de uma pequena lágrima brilhar em sua face lisa e branca como porcelana.
–Como posso ser tudo o que diz se nem acordada para defender meus amigos eu consigo ficar? Já é a segunda vez que desmaio e só Deus sabe o que aconteceu comigo e com eles! Eu não sei o que fazer — a frustração e o desespero abalavam o coração de Kat. Estar tão vulnerável e inútil era angustiante.
Ela caiu de joelhos, sentindo-se completamente impotente e frágil. Queria chorar por seu amigo até não poder mais.
A jovem ajoelhou-se lentamente e pegou o rosto da morena com as mãos macias, olhando para Kat com seus olhos cor de safira.
–Chorar e ter sentimentos não é fraqueza. Não poderia salvá-lo, pois corria o risco de ter recebido o mesmo tratamento. Você foi inteligente. Nada além do que fez poderia ter sido feito.
–Mas...
–Não se martirize pelo o que aconteceu. Deve resistir com o que tem de mais poderoso: sua mente. Palavras bem ditas poderão fazer mais efeito do que usar a força bruta. E você, mais do que ninguém aqui, domina as palavras e o poder delas.
Novamente, um sorriso fraternal e caloroso apareceu nos lábios da jovem loira. Sua beleza era agradável ao olhar, e seu toque, delicado.
Kat percebeu que só de ter a loira por perto já a acalmava. A verdade em suas palavras era indiscutível. De fato, Kat não era uma escritora de sucesso apenas por ação do destino. Assim, aos poucos, controlou sua respiração e assentiu.
O sorriso da loira aumentou ainda mais.
–Fico feliz que tenha decidido me ouvir. Agora, acorde. Está pronta para enfrentar o que está por vir.
–Mas... ainda não me disse seu nome — o sentimento de solidão começava a crescer em Kat.
–Elika. E não se preocupe, — continuou a loira, parecendo ler os pensamentos de Kat — eu estarei com você aonde for.
Por fim, deu um beijo na testa da morena, que fechou os olhos.
Ao abrir os olhos, estava no mesmo cômodo que estava quando desmaiara. De longe, fora a conversa mais sincera e estranha que tivera em toda a sua vida. Jamais alguém dissera tamanhas verdades sobre ela, ainda mais alguém que ela não conhecia.
Elika, pensou, obrigada.
O ambiente continuava o mesmo: sombrio e misterioso. Mas não parecia tão horripilante, agora que Kat se sentia mais forte e racional.
O barulho da pesada porta preencheu novamente o cômodo. O enorme homem provavelmente estava lá para checar se Kat já estava acordada.
Chegou a hora.
O homem andava pesadamente e parou ao lado de Kat, ainda deitada na cama com o braço amarrado, e olhou para ela sem esboçar nenhuma emoção.
Com uma voz grave e penetrante, perguntou:
– Está mais calma? — seu rosto era inexpressivo.
– Sim, creio que sim. — Seu tamanho não me assusta mais.
Surpreendentemente, o homem fechou os olhos e suspirou. Quando voltou a olhar para ela, seu rosto estava tomado pela tristeza.
– Peço o seu perdão... Sabe que detesto fazer isso com você, mas não tenho escolha quando fica daquele jeito.
Kat tentou não demonstrar sua surpresa, o que acabou sendo um desafio.
– Não se preocupe, eu estou bem. Apenas dormi um pouco mais, só isso. Não estou machucada. — disse, sorrindo levemente.
Enfim, uma fraqueza! Ainda que estivesse completamente perdida sobre o que o homem pensava sobre ela, Kat percebeu que deveria entrar no jogo como uma atriz. Ele, apesar de enorme e ameaçador, parecia ter sentimentos como qualquer humano. E isto poderia ser a chave para a salvação e liberdade dela e de seus amigos.
O sorriso pareceu ser o suficiente para o sujeito. Com movimentos rápidos e precisos, desatou o nó que prendia o braço da jovem e virou para mexer alguma coisa que ela não conseguia ver.
Era um alívio para a morena poder mexer livremente seu braço mais uma vez. O músculo estava dolorido após tanto tempo parado na mesma posição, mas logo voltaria ao normal. Seu punho estava avermelhado e a pele, sensível. Pelo visto, tentar se soltar a força não fora a melhor das ideias. Enquanto esfregava levemente a região sensível, Kat abriu um leve sorriso e disse com uma voz branda e suave:
– Obrigada — de fato, não era difícil demonstrar gratidão pela ação dele.
Kat se sentou na beirada da cama, mas não fez questão de fazer nada além disso. Ela sabia que deveria ser obediente e passiva até o momento certo. Além do mais, deixar um homem daquele tamanho furioso seria a decisão menos inteligente que poderia tomar.
Ao se virar para a morena, o homem segurava uma pequena tigela branca e uma colher de prata. Entregou os dois objetos para que ela pudesse tomar a sopa que estava contida no recipiente. Não estava muito quente e nem muito fria; estava perfeita. Embora seu estômago estivesse clamando desesperadamente por alimento, Kat não teve pressa, apesar do sabor magnífico da sopa. Tinha que ficar atenta a cada movimento que o sujeito fazia, pois qualquer pista sobre ele poderia ser vital para sua fuga.
Com um pano branco e uma outra tigela com água nas mãos, o homem sentou ao lado de Kat e começou a limpar um ferimento na testa da moça.
Ela demorou duas colheradas para lembrar que, logo no início da noite, caíra de cara no chão. O pano estava umedecido com água morna e o toque do homem era incrivelmente delicado.
Em silêncio, enquanto a jovem se alimentava, o sujeito limpava o ferimento com todo o cuidado possível, molhando levemente o pano com água morna para conseguir limpar melhor o sangue seco.
Após alguns minutos, a tigela de sopa estava vazia e não havia mais sangue para limpar.
– Obrigada — disse mais uma vez.
O homem pegou a tigela e a colher das mãos da morena e colocou em cima de uma cômoda próxima. Quando voltou a se sentar, olhava para as mãos que seguravam o pano branco, agora levemente manchado com o sangue dela. Ele parecia estar em algum tipo de conflito interno, pois seu rosto era de angústia.
Reunindo toda sua força e bondade, Kat colocou sua mão sobre a do homem e o encarou enquanto ele ainda olhava fixamente para o pano.
– O que foi? Por que está triste?
– Eu a machuquei. Não havia outra forma, mas eu a machuquei.
– Está tudo bem. Eu estou bem, não vê? Não fique assim, eu estou bem.
Um suspiro percorreu o enorme corpo do homem. Soltou uma de suas mãos para colocá-la em cima da de Kat.
– Sabe que eu faria qualquer coisa para a manter a salvo. Sempre fiz isso e farei até o fim de meus dias.
– E eu fico agradecida por ter um guardião tão dedicado quanto você.
Para estar se importando tanto comigo, com certeza devo ter uma importância muito grande para ele. Preciso descobrir o que é.
Kat fez uma pequena careta de confusão, torcendo para que o sujeito mordesse a isca.
E mordeu.
– O que a incomoda?
– Não consigo me lembrar das coisas.
– Talvez seja culpa da queda. Ou melhor, minha culpa. Eu sinto muito por isso — novamente a angústia o atacou e o sentimento de culpa parecia consumi-lo.
– Fique calmo, por favor. Estou aqui e estou bem — suas palavras e o som de sua voz estavam fazendo efeito: ele começava a relaxar novamente.
– Você poderia me ajudar a lembrar? Da nossa história, de tudo? — o pedido parecia intrigá-lo, pois ele provavelmente estava se perguntando o motivo.
Antes que ele tivesse tempo o suficiente para pensar, Kat pediu novamente:
– Por favor? Não gostaria de esquecer de quem somos e nem de tudo que nos levou até aqui.
– Eu a machuquei tanto assim? — o rosto enorme do sujeito se deformou em uma expressão de culpa.
– Não foi nada, deve ser passageiro, me sinto muito bem. Mas, por favor, conte-me nossa história. Quero escutar sua voz.
– Tem certeza disso?
Ela não sabia se estava entrando, de fato, no papel ou se estava realmente começando a sentir pena dele. Qualquer que fosse a resposta, ela não poderia cometer nenhum erro. Kat acariciou a gigante mão do sujeito e a apertou levemente. Respirando fundo, respondeu com convicção e doçura:
– Tenho.
– Então, que assim seja. Mas antes, tenho que terminar um assunto pendente. Assim que tudo for resolvido, contarei tudo o que quiser. Preciso ir agora.
O homem levantou seu enorme corpanzil da cama e saiu do cômodo, sem dizer mais nada, deixando Kat mergulhada em seus pensamentos.
Espero conseguir respostas para toda essa loucura. Que Deus me ajude!
**********
Esposa?
Tifanny ainda mantinha o garfo no ar. A revelação a deixara perplexa.
– Esposa? Qual o problema? — a expressão do homem era mais vazia do que séria. — Não gostou do que preparei para você? — ele aumentara o tom de voz e parecia estar começando a ficar bravo.
A não ser que queira sofrer, é melhor responder alguma coisa. Cuidado com as palavras, avisou a voz anônima.
– N-n-não... — gaguejou. O tamanho das dimensões do homem a intimidavam muito.
O que foi, então? — berrou o sujeito.
Ele não é muito paciente. Seja mais inteligente se quiser sobreviver!
Pela primeira vez, Tif resolveu ceder à loucura. Afinal, não conseguia enxergar alternativa melhor. Se ficara louca de vez, não sabia dizer. E também não tinha tempo para decidir sobre isso, pois a cada segundo que demorava a responder, o homem ficava mais nervoso.
Lentamente, pousou o garfo no prato. Respirou fundo, virou seu rosto para encarar e perguntou com o tom mais alto e claro que pôde:
– Não foi nada. Não sabia que estava vindo.
O medo ainda era perceptível em sua voz, mas, ao que parecia, seu rosto não a denunciara, pois o sujeito suavizou a expressão, embora ainda permanecesse sério.
– Perdoe-me por não tê-lo esperado. Eu estava faminta e não sabia quando chegaria.
Boa menina! Não se deixe abalar pelo tamanho dele. Seu coração não é de pedra, comentou a voz.
A humildade contida nas palavras de Tif pareceu acalmar o homem. Ele não parecia mais nervoso e explosivo. Se tivesse que utilizar seu talento como atriz para sobreviver, então que assim fosse.
– Percebo que estava com fome. Gostou do que fiz para você, esposa? — a voz grave e profunda do sujeito ainda dava calafrios em Tif, mas ao menos não parecia tão ameaçadora como antes.
– Ah, sim, gostei muito. Obrigada.
– Vou lhe ensinar como se faz. Já que é minha esposa, deve agir como tal.
Havia algo diferente na voz dele que ela ainda não identificara exatamente o que era, mas sabia que a tal diferença estava lá a cada palavra que ele dizia. Parecia ser um sotaque, ou o estranho contraste que aparecia entre a formalidade de suas palavras com a banalidade de seus significados. Porém, algo incomodava a ruiva acima de qualquer outra coisa. Não resistindo à tentação e à curiosidade, perguntou:
– Por que me chama de esposa?
O sujeito abriu um sorriso. Apesar de parecer ter se divertido com a pergunta, seu tamanho e forma davam a ele uma macabridade enorme. Assim, mesmo aparentemente relaxado e descontraído, ele parecia monstruoso, ameaçador e assustador.
– Porque você é minha esposa. — respondeu o homem.
A dúvida da moça ficou visível em sua expressão. O sujeito então se posicionou atrás dela, colocando suas pesadas e enormes mãos nos ombros da jovem sem pressioná-los.
– Porque era a única forma de salvá-la; de salvar sua alma.
Aquilo fora a coisa mais estranha que ouvira em toda sua vida. Antes que pudesse proferir uma palavra, o homem continuou:
– Sei que não é a primeira vez que vem aqui. E sei que não vinha sozinha. Você vinha com aquele sujeito ruivo para e faziam coisas pecaminosas. — ele pressionou os ombros de Tif ao pronunciar a última palavra e um espasmo percorreu seu corpo. — Eu não podia permitir isso por mais tempo. Tive que intervir antes que o mal consumisse suas almas permanentemente.
– O que... O que quer dizer? Não consigo entender — por mais que seu coração estivesse batendo loucamente, Tif falou com a voz mais delicada e curiosa que conseguia.
– Não finja que não entendeu! — berrou o homem.
A voz do sujeito soou como um trovão, preenchendo o cômodo com sua força e gravidade e deixando Tiffany pasma e arrepiada dos pés a cabeça. Ela não esperava uma reação assim e o choque foi inevitável.
– Você sabe exatamente do que estou falando. Suas ações impuras com aquele sujeito ruivo não poderiam durar por mais. Eu não poderia permitir, ainda mais aqui.
Como ele sabe o que eu fazia com Max? Há quanto tempo ele anda nos observando e como ele fazia isso?
– Essas... ações de vocês dois não poderiam continuar. Eu tinha que intervir e fazer de tudo para que voltassem a serem considerados puros. — com o voz menos alterada, o homem parecia refletir para si mesmo.
– E o que tinha que ser feito? Ele olhou seriamente para ela.
– Há mais de um ritual para purificar a alma de uma pessoa. Escolhi o que seria mais eficaz e mais forte para vocês dois, considerando que há muito tempo estão impuros.
Ela perguntou novamente e mais séria e assustada do que gostaria de demonstrar:
– O que tinha que ser feito?
Ele parou, por um momento, com o olhar baixo. Movendo a cabeça devagar, olhou para ela. Seus olhos azuis encontram os olhos verdes dela e os penetraram de tal forma que parecia que ele estava olhando diretamente para a alma dela.
– Sacrifício
Fale com o autor