Forksford
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Finn demorou a encontrar a saída do sótão. A lua não iluminava muito bem o lugar o que tornava tudo mais difícil e desesperador. O frio que sentia não era normal, até mesmo para quem estava molhado até os ossos, mas não deu importância para isso. Tinha que ir atrás das meninas e descobrir se estavam bem. Esbarrou em alguns objetos e caixas que não conseguiu identificar, mas finalmente esbarrou no objeto certo: a escada que dava acesso para o andar de baixo. Abriu o sótão e empurrou a escada para baixo e desceu. Não escutou um só barulho sequer, nem uma voz, passos... Nada.
Alguma coisa estava errada. Esse silêncio não fazia sentido.
Onde estavam todos?
Começou a ir em direção a sala, pois fora o último lugar que vira Max e as meninas.
Escutou um barulho e paralisou. Alguma coisa de madeira rangia atrás de si. Virou-se rapidamente a tempo de receber um golpe no maxilar da escada que voltara a dobrar e subir até o sótão. A dor era suportável, mas ainda assim Finn cuspiu pragas e palavrões.
Como se já não bastassem lobos, agora sou atacado por uma escada!, pensou enraivecido.
Enquanto pressionava o local com as mãos, numa mera tentativa de amenizar a dor, Finn curvou-se e olhou para o chão. Seu rosto perdeu a cor ao ver uma pequena trilha de sangue que seguia pelo corredor e desaparecia na metade do caminho, um pouco mais a frente de onde a escada encostara no chão.
Deu alguns passos seguindo a trilha até que encontrou um pequeno ferro. Abaixou-se para pegá-lo, mas parecia que o objeto estava colado ao chão. Numa segunda tentativa, Finn puxou o ferro com mais força do que antes.
Um alçapão foi revelado.
Mesmo que não quisesse admitir, ele sabia que alguém que sangrava foi arrastado para dentro desta abertura escura e silenciosa.
Restava apenas saber quem tivera essa "sorte".
Um som viera da sala, desviando a atenção de Finn. Ele se dirigiu para lá, caminhando com cautela e atento a qualquer outro som ou escada que pudesse lhe dar outro golpe certeiro. Aos poucos, a visualizar uma moça de cabelos castanhos de frente para a lareira e de costas para ele, em pé, parada. Ela tremia muito, mas parecia que não conseguia mover um músculo sequer para sair do lugar.
*******
Cloe não conseguia acreditar no que vira. Em um momento, suas amigas estavam atrás dela, paralisadas de medo. No outro, elas simplesmente sumiram. Como isso podia ser possível?
Mesmo armada, se sentia desprotegida e frágil. Além disso, estava sozinha em uma cabana que mal conhecia.
Três dos seus amigos sumiram e os outros dois estavam do lado de fora tentando encontrar alguma forma de fugirem dali.
Havia duas opções: se arriscar e tentar ajudar seus amigos ou se esconder e tentar sobreviver a aquilo tudo.
A morena não sabia o que fazer.
O pânico e a indecisão fizeram com que seus músculos travassem e tremessem sem parar e a cada segundo que passava, mais ela era dominada por esses sentimentos. Cloe não conseguia pensar, ouvir, sentir e muito menos falar. A única coisa que conseguia fazer era ficar parada, tremendo.
Um tremor maior fez a garota despertar, mas não por muito tempo. Então ela sentiu uma pressão crescente que vinha dos dois braços e alguém falou seu nome. Enfim ela se deu conta que alguém a sacudia e chamava seu nome várias vezes.
– Cloe! O que houve aqui? Onde estão os outros? Cloe! — a pessoa perguntava e a chamava desesperadamente, enquanto mãos frias como gelo a seguravam pelos braços e a sacudiam.
– Eu... Eu não... — começou — Eu não sei o que... — ela arfava ao dizer cada palavra.
Sentiu que a pessoa que a segurava a levantou alguns centímetros do chão, deixando-a cair logo em seguida. O impacto de seus pés com o piso de madeira fez sua cabeça pender para frente, mas foi eficaz para tirá-la do transe.
Cloe levantou a cabeça, olhando ao se redor assustada, até focalizar os olhos ansiosos de Finn.
– Mas o que... Finn? É você? O que está fazendo aqui? — ela perguntava, completamente desnorteada.
– Onde estão os outros? Max, Tif e Kat, eles estavam aqui com você, onde eles estão?
Assim que citou os nomes, a expressão da garota mudou completamente. Ela começou a lembrar do que tinha acontecido, detalha por detalhe, e desabou no chão, mergulhando o rosto nas mãos, chorando.
– Cloe, olhe para mim. — disse Finn, se abaixando para ficar frente a frente com ela. Ele pegou o rosto dela, forçando-a a olhar para ele.
Ainda com lágrimas saindo de seus olhos, Cloe olhou para o amigo.
– Eu sei que não está sendo fácil, mas eu preciso de você com a cabeça no lugar! Se quisermos ajudar os outros, não podemos surtar agora! Agora me conte o que aconteceu!
A moça então narrou com dificuldade e em meio a soluços que Max sumira e logo em seguida as amigas.
– Eu não sei para onde eles foram, Finn! — disse, ao terminar.
Uma expressão pensativa tomou o rosto de Finn enquanto ele ouvia o relato.
– Esta arma é do Max, certo? — perguntou, por fim. A moça concordou — Eu acho que sei para onde nossos amigos foram. Mas vou precisar que você se acalme antes e procure uma lanterna para mim, tudo bem?
– T-tudo bem.
Enquanto Cloe procurava uma lanterna na sala mal iluminada pela lua, Finn arrancou várias tiras finas de sua camisa branca. Duas tiras ele amarrou rapidamente na perna numa tentativa de diminuir o sangramento.
Demorou alguns minutos, mas Cloe conseguiu encontrar uma lanterna no chão, embaixo de uma cômoda. O objeto deve ter rolado para baixo do móvel após ter caído da mão de Max, mas a garota não pensou nisso. Ligou a lanterna e caminhou até Finn, entregando-a para ele.
Com o restante das tiras o rapaz prendeu a lanterna na espingarda de caça.
Ao terminar, levantou-se e caminhou até o início do corredor, virando-se para Cloe.
– Cloe, é crucial que você continue assim, calma. Nós temos que entrar naquele alçapão — disse apontando — e lá estará bem escuro. Preciso que fique o mais perto de mim possível. Não quero perder mais ninguém hoje, entendeu? Não vai acontecer nada com você desde que fique perto de mim.
A amiga hesitou por um instante, mas concordou, se aproximando dele. Finn colocou a arma numa posição confortável e pronta para atirar e caminhou até o alçapão. Antes que entrassem nele, Cloe puxou sua camisa. Ela havia se lembrado de um pequeno detalhe...
– Onde está o Kevin? Ele estava com você! — perguntou ansiosa.
Finn parou e olhou para ela. E então respondeu:
– Eu não sei! Nos separamos e não sei para onde ele foi! — omitiu Finn. Ele sabia que não era o momento para contar toda a verdade.
O medo fazia seu raciocínio ficar lento, então Cloe aceitou a resposta do amigo.
Eles teriam tempo para chorar por Kevin.
Ou não.
Finn apontou a lanterna para a escuridão. Havia alguns degraus para descer.
O cheiro de mofo aumentava a cada degrau que desciam. Cloe sentiu suas narinas arderem, mas não deu atenção a isso. Tinha que ficar próxima a Finn, custe o que custasse.
Assim que seus pés tocaram o chão úmido, Cloe escutou um baque, como se um enorme saco pesado de areia tivesse sido jogado.
Alguns segundos depois, o alçapão se fechou, produzindo um som ensurdecedor.
A escuridão ficou mais forte. A única salvação para Cloe não gritar era a luz da lanterna.
Não havia alternativa. Tinham que prosseguir.
********
Quando acordou, sentia uma dor aguda na cabeça e sua visão estava um pouco turva. Seria melhor que tivesse continuado assim, pois percebeu que estava em um local longe de ser considerado agradável.
As paredes do cômodo eram pintadas de uma tinta escura difícil de ser identificada devido a má iluminação de velas, mesmo com inúmeras delas espalhadas por toda parte. Não havia porta alguma, pelo menos não uma que conseguisse visualizar. O chão era frio e estranhamente úmido. Na parede oposta a que estava, um corpo repousava em uma grande cama de casal que parecia ser tão antiga quanto a casa. Se era um cadáver ou não, era difícil dizer. O cheiro de podridão impermeava o aposento de maneira avassaladora.
Sentiu algo quente escorrer por sua nuca, mas ao tentar tocar a região, sua mão foi impedida de prosseguir por um gélido e pesado objeto.
Só depois disso percebeu seu real estado. Grossas algemas prendiam seus pulsos, um de cada lado da cabeça, enquanto outras duas prendiam seus tornozelos, forçando suas dormentes pernas a ficarem unidas e dobradas.
Isso não era bom. Não era nada bom.
Começou a tentar recordar o que aconteceu desde que desmaiara, mas as lembranças eram vagas e difíceis de decifrar. Imagens sem sentido algum invadiam sua mente.
Enquanto lutava para manter sua mente lúcida, escutou um barulho próximo.
Passos pesados se aproximavam lentamente.
Esse som... Já o ouvira antes, mas de onde era, não sabia dizer.
Uma porta que ficava na mesma parede a qual acorrentaram seus braços e pernas se abriu e uma névoa começou a avançar pelo cômodo. De repente, sua respiração mudou. Seu corpo parecia não lhe pertencer mais, pois por mais que quisesse manter sua atenção no que estava acontecendo, sua cabeça começava a pesar, tal como seus olhos.
Escutou o barulho de um ferro caindo ao chão e uma voz grave sussurrava palavras rápidas e inaudíveis.
Quando abriu os olhos, viu sua amada, segurando um ferro com a ponta em brasa.
– O que está fazendo aqui? — tentou dizer. As palavras saíram, mas parecia que até sua língua ficara dormente.
A garota estava apenas em pé, segurando o objeto na mão, olhando em seus olhos.
– Por favor, me tire daqui, por favor! Temos que sair daqui! — dizia enquanto tentava se soltar dos ferrolhos, mas foi inútil.
A garota se ajoelhou.
– O que está esperando? Vá procurar as chaves! — disse, em desespero. O que deu nela? Por que ela não me responde?
Ela então inclinou a cabeça para o lado, sorrindo, como se estivesse analisando satisfeita alguma coisa.
Ao ver aquele sorriso, calou-se e parou de se mexer para encarar a morena.
– Meu Deus, mas o que deu em v... — sua fala foi cortada por uma onda de dor que vinha de seu peito enquanto um forte cheiro de carne queimada inundava suas narinas e um grito feminino preenchia seus ouvidos.
Embora não tivesse pleno controle de seu corpo, um urro de dor saiu de sua garganta.
Assim que a dor parou, sua cabeça pendeu e seus olhos se fecharam.
*******
– Não sabia que era tão bom assim, Don Juan – comentou Kat em meio a suspiros.
– Você ainda não viu nada. Meu tratamento de verdade mal começou – disse Finn e ambos sorriram maliciosamente.
Ela o abraçou forte. Quando voltou a olhar para ele, não foi o rosto de Finn que viu.
Uma garota olhava para ela com doçura. Os longos e loiros cabelos desciam ondulados até as costas. Usava um vestido branco solto, tão longo que cobria seus pés, de mangas que iam até os cotovelos. Seus olhos, inicialmente brancos, eram azuis como safiras. Ao olhar aquele rosto jovem que não devia ter mais de 16 anos, Kat sentiu que queria protegê-la de tudo.
– Quem é você? O que está fazendo? Cadê o Finn? — perguntava Kat, desnorteada.
– Logo saberá. — respondeu a garota, abrindo um sorriso acolhedor — Você é mais forte do que pensa, Kat. — disse, por fim, e passando a mão no rosto de Kat, do queixo até os cabelos.
Abriu os olhos. Podia jurar que sentira a mão macia e delicada da jovem em seu rosto.
Seu corpo estava dolorido, sua cabeça latejava e estava confusa com o que sonhara. Cair de cara no chão, literalmente, não fora uma boa ideia. Sua visão não era clara e piscou várias vezes para tentar melhorá-la. Pôde perceber que o lugar era muito escuro, apesar da quantidade absurda de velas acesas que estavam lá.
Por mais que tentasse, não conseguia se mover. A sensação era a de que dormira por décadas.
Só após este pensamento que Kat se deu conta de que estava em uma cama, com um dos braços amarrados ao espelho.
Como eu vim parar aqui?, o pânico a preenchendo a cada segundo. Ser capturada e acordar em uma cama só podia significar uma coisa...
Estremeceu.
Ficou em transe por alguns instantes, até que escutou pesados passos, seguidos por um rangido de porta se abrindo.
Como uma criança que não tem sono faz quando os pais vão até seu quarto conferir se está dormindo, Kat fechou os olhos, voltou para a mesma posição que acordou e rezou para que sua atuação funcionasse. Com seu braço esquerdo amarrado, a única alternativa era ficar de lado e virada para fora da cama.
Graças à escuridão do cômodo, seria possível abrir os olhos o suficiente para observar qualquer coisa que acontecesse e se proteger se fosse preciso, ao menos tentar.
Uma figura enorme entrou no cômodo. Demorou alguns segundos para perceber que era a mesma figura que vira mais cedo, quando foi ao lago com seus amigos. Novamente, não conseguiu ver detalhes da figura, mas após se acostumar com a pouca luz do cômodo, conseguiu identificar braços e pernas, concluindo que era humano. Os traços eram grandes demais para serem femininos, então seu palpite era que se tratava de um homem, muito forte, por sinal.
Alguma coisa vermelha brilhava em sua mão.
O homem caminhou e parou próximo à cama, mas de costas para Kat. Ele caiu de joelhos no chão com tamanha força que Kat achou que tinham quebrado, largando no chão o objeto que segurava, produzindo um som metálico. Enterrou o rosto nas mãos, e começou a sussurrar palavras rapidamente.
Ela não distinguira bem as palavras, mas reparou que o homem apoiara a cabeça na base de uma enorme cruz que ficava na parede. Assim, fez um novo palpite: ele estava rezando. Como alguém poderia encontrar paz suficiente num lugar como esse para rezar, ela não sabia dizer. Depois de alguns minutos, o homem se levantou e pegou novamente o ferro.
Agora mais próximo, Kat viu que se tratava de uma barra de ferro. A coisa vermelha e brilhante era a ponta da barra em formato de cruz que fora aquecida pelo fogo e estava em brasa.
Mas o que... Seu raciocínio foi interrompido quando seus olhos focalizaram um de seus amigos acorrentados a parede oposta a que estava.
Aconteceu rápido demais.
Tudo aconteceu muito depressa. Kat viu o homem ir até seu amigo, que fazia inúmeras perguntas a ele, como se o conhecesse. O sujeito se ajoelhou e, segundos depois, cravou o ferro em brasa no peito dele, como um senhor de gado faz para marcar seu rebanho.
Estava em um terrível dilema: tentava ajudar seu amigo chamando a atenção do enorme homem ou continuava quieta para não ser a próxima a ser marcada como um boi?
Antes que pudesse se decidir, um urro de dor invadiu sua mente e ecoou sem fim, deixando-a desnorteada e confusa.
Ela gritou junto, desesperada e com lágrimas caindo sem parar. Queria levantar e libertar o amigo, mas o nó em seu braço apertava a cada puxão que ela dava para tentar se soltar. O cheiro de carne queimada inundou o cômodo e a fez sentir náuseas. Era tão forte que Kat não aguentou. Assim que seu amigo desmaiou, ela se virou para vomitar.
Quando acabou de esvaziar seu estômago, sentiu uma enorme mão segurar a parte de cima de sua cabeça. Sentiu pequena dor, equivalente a uma picada de formiga, e começou a ficar com a visão turva.
Não tinha ideia do que estava acontecendo, mas seu corpo ficava cada vez mais mole a cada segunda, como se suas forças estivessem sendo drenadas dele. Sua cabeça caiu pesada no travesseiro e ela reconheceu que era inútil lutar agora.
Antes que fechasse os olhos, uma lágrima escapou.
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