Notas iniciais
Olá! Sem mais delongas, vamos aos recadinhos! _ Obrigada por todos os comentários! Vocês são uns lindos! Os que ainda estão pendentes serão respondidos logo. _ Passamos dos 100 acompanhamentos! Novamente só podemos agradecer a vocês! _ Esse capítulo é dedicado ao Robô Ed e ao Pierre Ro por terem recomendado a história! _ Não se esqueçam de entrar no grupo da história ou curtir a página no Facebook. Boa leitura.

Apesar de todas as obrigações que lhe cabiam, quando estava em Godfrey, somente um pensamento se fazia presente em sua mente. Não importava se existiam questões mais urgentes a tratar para com o reino, para ele só havia uma urgência que julgava relevante. Sabia que só conseguiria realizar as tarefas que estava encarregado depois de satisfazer suas necessidades e desejos, depois de saciar a saudade que o corroía por dentro. Aquilo era como um vício, cada vez mais e mais necessário e, mesmo sabendo que era errado e que podia perder tudoque tinha conquistado por conta disto, não tinha a menor intenção de encontrar a cura.

Andava rapidamente pelos imensos e suntuosos corredores do castelo. Ainda que estes sempre fossem sombriosmesmo durante o dia, agora davam a impressão de estarem, de certa forma, ainda mais escuros que o habitual. A luz alaranjada dos candelabros entregava qualquer movimentação, refletindo contra o metal e produzindo uma longa sombra ao chão. Tentava ser o mais discreto e silencioso possível apesar do tilintar incessante de sua armadura, sempre tomando cuidado para que ninguém o visse circulando por ali.

Seu título de Comandante da Guarda Real de Ekatomb não lhe concedia privilégios para transitar livremente além do salão do trono de qualquer reino, exceto quando recebesse ordens para tal, coisa que não tinha naquele instante. Sabia dos riscos que corria, mas tinha aprendido a deixar de temer e passado a gostar da adrenalina que o perigo, por menor que fosse, proporcionava. E se envolver com Lyra era perigoso de todos os modos possíveis, apenas a presença da vampira já era uma ameaça por si mesma.

Estava apenas a mais alguns metros de seu destino final quando escutou passos ecoando ritmados pelo chão. Escorou-se rapidamente atrás de uma das pilastras e esgueirou-se para ver quem se aproximava. Não demorou muito para a figura da mulher virar no corredor onde estava e então, por fim, respirou aliviado.

Ela trajava um de seus habituais vestidos carmesins, de mangas longas e ombros desnudos, o tecido abraçava perfeitamente suas curvas, ressaltando-as. O corte elegante somado a um bordado de pedrarias pelo corpete, mesmas pedras estas que se encontravam na delicada tiara em sua cabeça, lhe conferiam aquela aura tão marcante. Para ele, a Princesa podia ser mais uma dos deuses que o Continente era devoto, sua beleza e personalidade eram mais que suficiente para tal. E não havia dúvidas que ele seria o seu fiel mais fervoroso.

— Saia, eu sei que você está aí — ela pronunciou calmamente, como se conversasse com alguém que estivesse caminhando ao seu lado. — Senti sua presença de longe, já lhe falei para ser mais discreto.

— Alteza, — respondeu, parando a frente dela e ajoelhando-se com a cabeça baixa — faço o possível para tal, apesar de a armadura não ajudar muito. — Ele levantou o olhar para ela com um sorriso torto nos lábios.

— Levante-se — ordenou, o semblante sério, destoando do jeito brincalhão e descontraído do homem.

O Comandante ergueu-se e a encarou no fundo dos olhos. Adorava ver o brilho surgir nas íris cor de esmeralda e em seguida um sorriso abrir-se em seus lábios, sentia como se conseguisse alcançar além dos muros que a Princesa erguia, sentia como se com ele, ela deixasse de ser uma nobre e fosse apenas ela mesma na mais pura essência. Observou-a aproximar-se lentamente. A vampira levou uma das mãos ao rosto de Ichabord, afagando suavemente.

— Não sei por que insiste em perambular com este monte de metal. Seria tão mais fácil para nós não perder tempo com isso — disse num sussurro. Ficou na ponta dos pés e colou seus lábios brevemente nos dele, que passou um dos braços a volta da cintura esguia de Lyra, puxando-a junto de si, colando sua testa na dela.

— Perdão, alteza. Irei fazer como ordena.

— Assim espero, Lorde Kirsch. — Soltou-se dos braços do guarda e, habilmente, começou a destravar e soltar as placas da armadura, jogando-as sobre um tapete na tentativa de abafar o ruído do choque.

— Pede-me discrição, mas o barulho que está fazendo acordaria o castelo inteiro — disse, emitindo uma leve risada.

— Apenas... Calado. — Ela o encarou com o olhar estreito e os lábios levemente crispados. A expressão dela foi intensa o suficiente para deixa-lo sério, com o corpo retesado. Sabia que não só ele como todos os outros temiam contrariá-la, pois não era de engolir brincadeiras. Tal atitude perante sua ação, arrancou-lhe ruidosas gargalhadas, o que deixou-ocom o semblante confuso.

Empurrou-o contra a parede de pedra lisa, provocando um baque surdo que ecoou no corredor do castelo que estava imerso no silêncio. A vampira depositou leves beijos e mordidas no pescoço de Kirsch, que arfou e sentiu o corpo arrepiar-se com o contato. Lyra destravava habilmente a parte inferior da armadura que caiu ao chão produzindo um ruído ensurdecedor.

— Se continuar desta maneira vão nos descobrir — sussurrou com a voz meio rouca. Lutava consigo mesmo entre concentrar-se somente nos toques da Princesa ou manter-se alerta para qualquer movimentação.

— Deixe que descubram, assim terei o prazer de ver algumas cabeças rolarem. — Ela não desgrudava o olhar dele, gostava de coloca-lo naquelas situações, acuado, dividido entre o certo, entre o que era o seu dever e os clamores de seu corpo. — Cada servo que passar por este corredor, será um a menos a quem terei que pagar algo. Melhor para mim, não acha?

— Sim, alteza. — As mãos da princesa percorriam cada parte do corpo dele que estava ao alcance, num lento e suave afago. Nunca fora um homem com grande autocontrole e, ao acaricia-lo desde a altura dos joelhos, subindo pela parte interna de sua coxa, arranhando-o suavemente ao fazê-lo, a vampira levou o Caçador ao limite.

A envolveu em seus braços e a ergueu, invertendo as posições com a loira, deixando-a presa entre a parede e seu corpo. Ela envolveu as pernas entorno da cintura de Kirsch, agora dando mordidas pelo pescoço e ombros do Comandante que por pouco não deixariam marcas profundas, enquanto ele lutava contra os laços do vestido, desatando-os e baixando o tecido, despindo a princesa dos quadris para cima. A boca dele avidamente foi de encontro à pele alva e fria de Lyra, em direção aos seios firmes. Rapidamente, Lyra o afastou, puxando-o pelos cabelos e o obrigando a olhá-la nos olhos. As íris verdes agora brilhavam, afiadas, o que fez o corpo dele arrepiar-se, não de prazer, mas sim como um alerta.

— Não tão rápido, Lorde Kirsch. Temos assuntos pendentes — disse, a voz apesar de melodiosa possuía um quê de autoritária.

— Porque não os deixamos para depois? — rebateu de imediato, fazendo menção de voltar ao ponto onde havia parado. A princesa o impediu, arrancando assim um suspiro frustrado do Senhor Comandante. Arrependeu-se de sua atitude assim que percebeu o semblante da vampira.

— Porque eu o conheço e sei muito bem que irá se dizer cansado demais para esses assuntos. — Apesar do delicado carinho que fazia em sua nuca, Lyra tinha o olhar estreito e os lábios torcidos em uma careta de desgosto. Ichabord baixou o olhar envergonhado, sabia que ela detestava ser contrariada.

— Perdão, alteza. Não irá se repetir.

— Ótimo. — Um leve esboço de sorriso perpassava no rosto da loira que, sem mais delongas, foi direto ao ponto. — Agora me diga: Quais as intenções de Hemlock?

— Encontrar o rei desaparecido, obviamente. — Ele deu de ombros.

— Ora, você não quer que eu acredite que é apenas isso.

— Alteza, sabe que não posso compartilhar as informações de outros reinos, é contra o código e...

— E o que? — ela o interrompeu bruscamente, visivelmente irritada — Que eu saiba como um Caçador você tem repúdio a minha raça, intitulado e famoso matador de criaturas da noite,no entanto está aqui em condições nem um pouco honrosas com uma vampira seminua em seu colo. Também como Comandante da Guarda Real prometeu neutralidade e lealdade aos três reinos e novamente encontra-se envolvido com a realeza de um deles. Quem é você para falar de honra e moral quando não respeita sequer pelo menos um dos preceitos os quais jurou seguir?

— Ainda assim minhas habilidades me dão credibilidade para tal — ele respondeu, soltou-a e se afastou um passo para trás. Queria defender-se das acusações, mas sabia que cada palavra era a mais pura verdade. Ele fora corrompido pelo desejo, pela beleza e pelo amor. Ela o corrompera. Todos os dias se perguntava como conseguia amar aquela mulher a sua frente.

— Certamente, elas são tudo que você possui. Fora isso não passa de uma mera marionete nas mãos dos poderosos, um pedaço de carne que será jogado fora quando não tiver mais serventia. — Disparou as palavras, ainda no mesmo tom calmo de antes, ajeitando o vestido ao fazê-lo.

— Lyra, não pode me...

— Trate-me por meu título — ela o cortou novamente. A reação de Ichabord foi encolher-se um pouco, lutava contra a vontade de sair dali, mas não se rebaixaria mais ainda.

— Alteza, posso ter meus pecados, mas não sou um fantoche. — Ele a olhava com o semblante sério, a postura rígida com as mãos para trás. Ação que arrancou um leve sorriso de canto da vampira, ele estava tentando não desmoronar.

— Oh, não? — Ela o encarou profundamente nos olhos. O brilho que os olhos castanhos emitiam de tristeza, os verdes transbordavam em satisfação. Deu um passo a frente, aproximando-se novamente dele, o indicador deslizando pelo contorno de uma veia saltada no pescoço do Caçador. — Deixe-me beber de você.

—Não — respondeu firmemente. Tinha consciência de que ela o estava testando. Apesar de sua vontade de ceder aos desejos dela, de alimentá-la como sempre fazia, não se dobraria desta vez. Sairia dali com o que restava de seu orgulho intacto.

— Alimente-me. — Colou o corpo junto ao dele, afagando seu rosto suavemente.

— Não insista. — Suspirou, os dentes trincados, as mãos cerradas em punho. O fato de um sorriso prepotente estar estampado no rosto dela, combinado com o costumeiro olhar afiado o enervava, mas não tinha coragem de enfrenta-la, amava-a demais para contraria-la mais do que já o fazia naquele instante.

— Por favor. — Ainda sustentava o olhar. Ichabord sentiu como se através de seus olhos ela conseguisse chegar até a sua alma, invadindo seus pensamentos e tomando o controle de seu próprio corpo para ela.

Lyra percebeu a postura dele ir relaxando, os olhos dele perderam a vivacidade, ficando cada vez mais opacos até darem a impressão de que não havia mais vida habitando aquele corpo. Sorriu vitoriosa, ela o tinha nas mãos.

Com um aceno de cabeça em concordância, Kirsch inclinou a cabeça para o lado, expondo a pele morena de seu pescoço. Sem cerimônias e dispensando as delicadezas, a princesa cravou suas presas fundo, rasgando a pele num grande corte. Tratava-o como mais uma de suas presas, como um qualquer. O bebeu avidamente, em grandes e longos goles, cada vez mais e mais.

Ichabord despertou do torpor o qual Lyra o havia posto, antes que pudesse ter tempo de reagir e afastá-la, sentiu uma dor invadir violentamente sua cabeça, o fazendo urrar de dor. Ela o tinha sugado rápido demais provocando-lhe uma forte vertigem, seu corpo tremia, ficando a cada gole mais fraco. Não tinha mais forças para lutar, o peso de seu corpo estava sendo sustentado por Lyra que o segurava firmemente junto a si, agarrada como um animal em seu pescoço. O corpo dele ardia, as veias secas, seu corpo perdendo a vida aos poucos, seu coração batendo descompassado e lento. Seria aquele seu fim? Não podia afirmar, mas esperava que fosse. Mesmo que ela o tenha bebido inúmeras vezes, nunca o tinha tratado daquela forma, a dor era insuportável, mas ao mesmo tempo era estranho o fato daquela dor lhe provocar igual prazer.

Estava à beira da inconsciência quando ela desgrudou de seu pescoço. Obrigou-se a encará-la e se deparando com a visão macabra daquela bela mulher, com fios de cor escarlate escorrendo do canto da boca, em linhas contínuas até que estas encontrassem o tecido de suas vestes, misturando-se perfeitamente com o tom do pano. Agora lhe parecia compreensível porque a princesa costumava usar tanto aquela cor.

— Como havia dito, apenas uma marionete — ela sussurrou em seu ouvido, afagando seu cabelo desgrenhado com um sorriso de deleite no rosto. — De um modo ou de outro, você sempre irá se dobrar perante a mim.

— Não podia... — ele pigarreou, a voz débil, extremamente rouca e falhada — Não podia ter feito isso comigo — disse com dificuldade, encarando-a com as forças que lhe restavam.

— Ora meu querido, eu posso fazer o que eu quiser. — Ela riu, por trás da voz doce um tom cortante. Ela puxou um pequeno frasco metálico que estava preso no forro da saia de seu vestido e o jogou no chão à frente de Ichabord. — Isso é tudo Lorde Kirsch, faça o favor de chamar Gustaf, ele está caçando no bosque aqui ao lado, diga para ir aos meus aposentos. E vá reportar ao rei o que quer que seja que tenha vindo fazer aqui. Adeus.

A princesa afastou-se a passos rápidos e largos, de volta pelo mesmo caminho pelo qual tinha vindo. Ele tentou balbuciar algo, mesmo não passando de um sussurro, sabia que ela era capaz de escutá-lo, porém o ignorou completamente, deixando-o sozinho em meio à escuridão e silencio do castelo, estirado ao chão.

Pegou o frasco com certa dificuldade e retirou a tampa, o cheiro logo invadiu suas narinas o enjoando. Apesar da vontade de jogar o conteúdo no chão em desprezo, sua vida estava em jogo. Ela o tinha o deixado em um estado tão deplorável que se não tomasse aqueles poucos goles, não iria resistir por muito tempo mais.

O sangue era denso e tinha um sabor mais intenso que o sangue humano, mas assim que a primeira gota desceu pela sua garganta ele recordou-se o motivo pelo qual o líquido era tão viciante e alvo de tanta cobiça. Logo sentiu o calor voltar a irradiar por sua pele, a sensação de cansaço e dor esmaecer lentamente. Seus sentidos ficaram mais aguçados e rapidamente sentiu-se capaz de levantar. Sabia que os efeitos da substância não parariam por aí, por isso era tão perigosa. Mas já estava acostumado com as poucas doses que ela o fornecia.

Por fim, recolheu os pedaços de sua armadura, recolocando-as no lugar, presas firmemente em seu corpo e caminhou o mais rápido possível para longe do castelo.

* * *

Andava a passos largos, pesados e ritmados, bosque adentro. O tilintar da pesada armadura branca e prateada era como música aos seus ouvidos, contava mentalmente a cada som que o metal produzia, em uma tentativa de afastar a raiva e calar os pensamentos.

— Você é um tolo, jogou fora uma noite com ela por conta de um juramento! Que dia para resolver ser moralmente correto! — ele se repreendia, soltando grunhidos e bufos. — Tantas vezes você desrespeitou o código, porque dessa vez seria diferente? Você não é um cavalheiro perfeito, nunca o foi!

Deslizava as mãos pelo rosto, afastando as gotas de suor da testa, a face fechada em uma carranca. O Comandante da Guarda Real mais se assemelhava a uma criança irritada que tivera seu pedido negado, que propriamente um homem de nome e respeito por todo continente.

Este era o resultado da influência da princesa de Godfrey sobre ele. Não importava quem era o portador da razão, no fim das contas se não fosse ao modo dela não seria de modo algum. Tinha completa consciência disso, era ingênuo da parte dele acreditar que após tanto tempo de cumplicidade ela cederia em rigidez. Sempre seria aquela mulher que coloca a ambição acima de qualquer outro desejo. E sempre seria aquela mulher a qual ele seria irrevogavelmente apaixonado.

— Isso é humilhante! Por que ainda me presto a fazer estas coisas? Acatando ordens e realizando desejos de uma menina mimada — disse entredentes, desferindo um forte soco contra uma das árvores ao seu redor, arrancando diversas lascas.

Conforme a dor do golpe contra a madeira irradiava-se por sua mão, ele soltou um suspiro pesado, voltando a si. Sabia que sempre seria daquele modo, que a natureza dela era sedutoramente inconstante e cruel. E ele tinha se apaixonado por aquela mulher... Não importava o quanto dissesse a si mesmo que poderia transforma-la, estaria somente alimentando uma doce ilusão.

Recostou-se contra o tronco de uma árvore, deslizando os dedos por entre os fios longos e negros de seu cabelo, respirando lenta e profundamente. Estava cansado tanto mental, quanto fisicamente, mesmo com o sangue de Lyra em seu organismo. O caminho era longo e a armadura pesada demais, seu corpo clamava por descanso depois do dia intenso que tivera, mas não daria a Princesa o gosto de se deixar ser humilhado mais do que já fora.

Parecia uma sombria zombaria, quase conseguia escutar as gargalhadas de satisfação da vampira ecoando em sua cabeça. Ele precisaria de muito mais sangue para se sentir com completa vitalidade, mesmo que o efeito do que havia tomado ainda não tivesse passado. Ela o mandara a quilômetros de distância para vê-lo desistir na metade do caminho, mas não iria ceder.

Sobressaltou-se ao ouvir um leve silvo e então o barulho de algo cravando-se na madeira bem ao lado de sua cabeça. Seu olhar percorreu cuidadosamente a mata a sua frente e, mesmo com a visão potencializada, não conseguiu enxergar mais que uns bons metros a sua frente de tão escuro. A floresta era demasiado densa que nenhuma luz, nem mesmo um feixe prateado da brilhante lua cheia, se infiltrava por entre as copas das árvores.

Seu rosto de fechou num semblante desgostoso, quando o eco invadiu seus ouvidos. A mesma risada fria e cortante e igualmente melodiosa e rouca, porém num tom mais grave que a voz delicada da Princesa. Então a figura emergiu das sombras, revelando um homem alto e musculoso de pele alva e cabelos dourados e ondulados até a altura dos ombros, trajando uma calça e camisa simples de linho negro. Era Gustaf, irmão gêmeo de Lyra.

Mesmo que a histórias da semelhança entre os dois parecesse fantasiosa a princípio, quem tivesse a oportunidade de conhece-los – e sobreviver para contar a história depois – veria que os boatos não faziam jus. Eram semelhantes não só em aparência, mas também em personalidade, gostos e manias. Eram o perfeito reflexo um do outro.

Gustaf caminhava lentamente em direção a ele, a mesma aura imponente, o mesmo sorriso zombeteiro nos lábios e aquele conhecido olhar estreito e afiado. Até mesmo a voz e o modo de falar. Porém, arriscaria dizer que, apesar de iguais em teoria, Lyra conseguia ser ainda mais sedutora e igualmente mortal.

— Caçador, o que faz tão longe do reino? — Apesar de educado, o tom de voz dele estava carregado de zombaria. Viu que o vampiro preparava a besta para mais um disparo e então percebeu o que estava acontecendo.

Todos eram somente brinquedos nas mãos dos irmãos. Vez ou outra surgiam histórias sussurradas pelos cantos do reino. Histórias onde o final era sempre o mesmo, não importava as circunstâncias, a pessoa nunca mais era vista novamente.

Kirsch começou a se perguntar quando tinha se deixado ficar tão cego ao ponto de não perceber o que acontecia ao seu redor. Ficou tão seduzido pelo charme de Lyra que, somente agora, acuado em meio à mata, enxergou que ele era só mais um dos muitos que promoviam uma diversão sádica aos gêmeos. Realmente o era? Parte dele negava, recusava-se a acreditar nisso. Dizia para si mesmo que não tinha como eles planejarem essa encenação, visto que a chegada dele ao reino de Godfrey não fora anunciada.

Lyra queria castiga-lo por não ter cedido às suas ordens e aos seus caprichos. O tinha mandado até ali para que entendesse isso. Tamanha era a cumplicidade com Gustaf que não era necessária troca de palavras. Ele sabia o motivo de Ichabord estar ali e cumpriria as ordens mudas de sua irmã. Porém, não se dobraria nem se deixaria vencer, recuperando seu orgulho e a admiração da princesa.

— Ordens da Princesa. Ela requer a sua presença, alteza — respondeu simplesmente, o semblante sério e adotando a postura de um oficial, recuperando a sua aura. Podia se mostrar fraco diante da vampira, mas nunca na frente de qualquer outro, principalmente de Gustaf Godfrey, conhecia a fama do Príncipe e Ichabord tinha seus próprios títulos a manter.

— Não sabia que tinha sido promovido de Senhor Comandante da Guarda Real a mensageiro de Godfrey. Devo parabeniza-lo pelo feito? — O Caçador grunhiu, um som profundo como um animal, fazendo com que um sorriso feroz despontasse no rosto do vampiro.

Ele caminhava a passos lentos na direção de Ichabord que o imitava, andando para o lado oposto. Era como uma dança, um cerco. Rodavam naquele espaço, os olhos estreitos e fixos um no outro, o cenho franzido. Os corpos tensos, preparados para se defender quando o outro resolvesse atacar e, para que isso acontecesse, aguardavam apenas uma brecha, por menor que essa fosse, do adversário.

Gustaf tomou a inciativa de iniciar o confronto. Ergueu a besta e atirou, dessa vez mirando no pescoço de Kirsch. Aos olhos comuns, o gesto não seria mais que um borrão, tamanha era a velocidade. Porém, aos olhos de Ichabord, devido ao sangue vampírico em seu organismo, o gesto não passou de um movimento comum. Conseguia enxergar perfeitamente a flecha voando em sua direção. Desviou do objeto que continuou sua trajetória perdendo-se em meio a mata.

Aproveitando-se da oportunidade, Gustaf avançou sobre o Caçador, segurando-o pela placa de peito da armadura e o lançando contra o tronco de uma árvore. Arfou com o choque brusco, perdendo o ar momentaneamente. Caiu no chão agachado, pronto para se erguer e revidar o ataque. Desembainhando a espada de prata, ergueu-a preparando-se para golpear o vampiro.

Todo o cansaço que ainda restava em seu corpo, desapareceu. A raiva e a adrenalina agitavam seu corpo que, combinadas com o sangue de Lyra, lhe davam a impressão de estar mais forte. Sentia a impulsividade e a sede de ver sangue sendo derramando tomando conta de si. Estava mais ágil, os reflexos afiados, enxergando tudo nos mínimos detalhes. Sorriu satisfeito.

Nunca tinha estado em batalha com a influência de sangue vampírico. Agora entendia porque em tempos de guerra tantos vampiros apareciam mortos ou então ascendiam socialmente, detendo um patrimônio que surgira de maneira inexplicável. A sensação de poder que a substância produzia desaparecia com qualquer medo ou hesitação. Sentia como se fosse inalcançável e imbatível. Produzia uma confiança exacerbada e extremamente viciante.

Tomou impulso na direção de Gustaf que também já tinha em mãos sua espada aparando o golpe de Kirsch. Fechou os olhos com força, incomodado pela proximidade com a prata pura da lâmina o empurrando para trás e também recuando alguns passos.

Murmurou impropérios, irritado com a condição de seu oponente. Estava lidando com o melhor Caçador de vampiros do Continente. Não bastassem as habilidades por si só, Lyra ainda tinha lhe feito o favor de transformá-lo num lutador com ainda mais destreza e excelência em combate. Pensou em uma saída daquela situação, não queria abandonar a luta como um covarde, mas também não queria pagar para ver se conseguiria manter sua cabeça sobre o pescoço. Resolveu então cansá-lo primeiro, quanto mais o corpo dele se agitasse, mais rápido o efeito do sangue passaria.

Levantou a mão e ao fazer um aceno, saíram das sombras três cavaleiros da Guarda de Godfrey, com suas armaduras esmaltadas em negro e ornamentos dourados. Em posição seguravam na mão direita o escudo negro com o brasão de Godfrey, a mão esquerda repousando sobre o punho das espadas embainhadas.

— Vamos ver se é digno de seu título de matador de vampiros. — Gustaf pronunciou em voz alta, ecoando como um trovão na mata silenciosa. — Ou se é apenas um humano fraco que não sabe onde pisa.

Os soldados, em sincronia, desembainharam a espada e levaram o escudo a frente do corpo. Gustaf encarava Ichabord com um sorriso presunçoso.

— Ataquem.

Notas finais
Gostaram? Odiaram? Deixem suas opiniões, elogios, críticas, teorias e o que mais quiserem nos comentários. Esperamos vocês no próximo capítulo. Beijos Amélia & Layla