Notas iniciais
Olá! Como vocês estão? Bem, vamos direto aos recadinhos: _ Primeiramente gostaríamos de pedir desculpas pela demora em postar um novo capítulo. Eu (Amélia) estava responsável por escrever este capítulo, mas passei por muitos problemas pessoais e semanas de prova o que não deixou eu aprontar o capítulo em tempo hábil. _ Obrigada por todos os comentários, vocês são uns lindos! _ Sabemos que tem comentários com resposta pendente, pelo mesmo motivo do atraso do capítulo, não deu tempo de responder e acabou acumulando. Pedimos paciência e que entendam a situação, ninguém vai deixar de ser respondido ok? _ Não se esqueçam de curtir a página no facebook ou entrar no grupo também no facebook para informações adicionais da história e algumas novidades que chegarão em breve. _ Capítulo dedicado à Victoria van Bruyn e à Aurora Martell por terem recomendado a história! Boa leitura!

O som calmo e harmonioso invadiu seus ouvidos. Já sabia a melodia de cor tantas foram as vezes em que a escutara. Não que fosse algo fácil de se ouvir, perdera a conta das ocasiões em que precisava esconder-se em meio às cortinas, atrás de pilastras ou a entreouvir atrás da porta tocar aquela bela canção. Raro mesmo eram as vezes em que podia se dar ao deleite de ouvi-la cantar, a voz doce e rouca ecoando em mesmo volume e timbre do delicado vibrar das cordas da harpa.

Seguiu a música até adentrar um enorme salão ricamente decorado com enormes faixas de tecido de cor carmesim onde podia se ver bordado uma adaga negra e enrolada a ela uma serpente verde. O brasão de Godfrey estava estampado em qualquer direção que se olhasse. Archotes feitos em suportes de bronze estavam colocados entre as janelas, fornecendo uma luz fraca e alaranjada ao ambiente que mesclava-se ao tom prateado da lua que infiltrava-se pelas janelas do lado oposto. As paredes eram recheadas de quadro em molduras de ouro retratando cenas da criação de sua raça segundo as lendas. Na parede ao fundo uma enorme lareira tinha o fogo aceso crepitando e aquecendo o ambiente frio.

A frente do fogo, sentada em um banco elevado encontrava-se sua irmã, com o semblante calmo, os olhos fechados e a leve linha entre as sobrancelhas que sempre aparecia quando esta estava concentrada ou pensativa. O Jogo de luzes criava uma padronagem encantadora contra o tecido negro do vestido simples, os longos cabelos loiros estavam soltos, levemente bagunçados, sem nenhum adorno.

Sorriu largamente. Somente a vira assim, uma ou duas vezes. Nunca se permitia ser vista de guarda baixa, todos apenas conheciam a postura ameaçadora e igualmente atraente e elegante, poucos eram aqueles que tinham o prazer de flagrá-la em momentos, como ela mesma costumava intitular, de fraqueza. Normalmente pararia de tocar e adotaria a armadura costumeira que era sua personalidade, mas desta vez, mesmo estando a apenas alguns passos de alcançá-la, ela continuou tocando, como se não houvesse ninguém mais ali, até que a canção chegasse ao seu fim.

— Você tem um dom com a música, não compreendo porque não deixa que a vejam. Iria ser aclamada por multidões por seu talento. — disse a cumprimentando com um leve aceno de cabeça. Apesar da situação, não deixou a formalidade de lado, sabia como sua irmã era rigorosa com etiqueta e a ultima coisa que desejava no momento era que ela se distanciasse dessa personalidade. Escolhera exatamente este momento, pois sabia que ela seria compreensiva quanto ao que iria lhe confidenciar.

— Existem coisas que devemos guardar apenas para nós, Katherine. — A mulher lançou um olhar acolhedor para a caçula, com um leve sorriso no rosto. — Algum ponto em nós mesmos precisa ser escondido do mundo, ele será nosso refúgio.

— Até mesmo daqueles que amamos? — A vampira lançou um olhar confuso para a irmã, a mesma marca de expressão entre as sobrancelhas tornou-se aparente.

— Principalmente daqueles que amamos. — A loira estendeu a mão para Katherine e a puxou gentilmente para sentar-se ao seu lado. — Para alguns este sentimento significa força. Para mim, é apenas a prova de quanto a mente, corpo e alma podem ser fracos. Faz com que você deixe seus medos transparecerem, o faz agir com cautela quando é necessário ser impulsivo, nos faz agir sem pensar nos momentos em que é necessário cuidado. A alma precisa ser pura em algum ponto, querida irmã. É justamente esse lado intocado de nós mesmos, que nos impedirá de perder a sanidade nos momentos difíceis.

— Mas eu quero entender esse lado da alma, Lyra. Quero retirar todas as máscaras. — A expressão de Katherine era de dor e tristeza, ela abaixou a cabeça, deixando os longos e lisos cabelos encobrirem seu rosto, ocultando as poucas lágrimas que insistiram em cair.

— Está se referindo ao garoto Rumancek, não está? — mesmo com a voz calma e baixa, a menor levantou a cabeça assustada, os olhos arregalados de medo como uma criança que fora pega no flagra. Lyra gargalhou da expressão da irmã, afagando suavemente o rosto dela. — Pensou que eu não sabia? Ora, por favor. Nada neste reino me passa despercebido. Eu sei de seus encontros na floresta ao norte.

— Lyra eu lhe imploro, não conte para... — o tom voz dela era urgente, a voz esganiçada por medo.

— Não contarei. Também tenho meus pecados Katherine. Quem sou eu para julgar os seus?

A menina suspirou aliviada, mas mesmo assim hesitou por alguns instantes, ponderando se realmente deveria contar ou não sobre suas intenções. Por fim ajeitou a postura, e olhou diretamente nos olhos da outra, decidida.

— Eu quero conhecer o lado oculto de Ethan. Eu quero ver o que há por baixo da máscara... Quero conhecer o outro ele, aquele que somente aparece quando a estrela de Hagaris brilha em plenitude no céu.

— Kath, não creio que esta seja uma boa ideia. Eles se tornam bestas, inconscientes e assassinas, uma mordida e morrerá. É perigoso aproximar-se dele. Você pode até pensar que algum traço de humanidade o fará reconhece-la, mas a verdade é que ele o lado animal nos enxerga como iguais e só desejam nosso sangue pintando o chão em tons de vermelho.

— Mas eu preciso conhecê-lo... Eu preciso amá-lo por completo.

— Creio que ele partilha de mesma opinião. Se ele também a ama, não gostaria de causar-lhe mal algum.

Katherine perdeu as esperanças e levantou-se, virando de costas e caminhando lentamente em direção à saída. As lágrimas voltaram a rolar por seu rosto, dessa vez estavam intensas e incontroláveis. Seu interior estava devastado, sabia que se não encontrasse apoio em sua irmã, não o teria com mais ninguém. Abraçou o próprio corpo na esperança de afastar a tristeza e seguiu com a coluna curvada e os passos arrastados, como costumava fazer quando estava chateada. Quando estava para fechar as pesadas portas duplas, ouviu a voz da irmã ecoando ao longe.

— Não seja tola. Retirar as máscaras cedo demais pode ser um erro, mas nada impede que a levantemos um pouco para vislumbrar na penumbra o que há por debaixo.

***

Estava dispersa ao mundo à sua volta, mas intensamente concentrada em seus barulhentos pensamentos. Ainda remoía a conversa com Lyra, várias e várias vezes em sua mente. Tentava encontrar significados ocultos nas palavras ou qualquer coisa que pudesse ajudá-la a fazer o próximo movimento, estava perdida em si mesma e em seus sentimentos.

Encontrava-se caminhando pela mata, a noroeste do castelo, na direção de um pequeno vilarejo de pescadores à beira mar. Precisava se alimentar, pois seu corpo lhe pedia, mas também porque ao tirar uma vida, todo o ruído em sua cabeça cessava, não conseguia pensar em mais nada a não ser no prazer de saciar sua sede e seguir seus instintos. Seguir a sua natureza era o que a fazia sentir-se livre, mesmo que não admitisse para si.

Não costumava caçar com frequência, pois abominava a postura de sua família de matar por puro deleite e entretenimento. Muitas das vezes abatia um animal de grande porte quando a sede era forte. Tinha consciência de que tal atitude a tornava pateticamente vulnerável a qualquer ameaça, visto que também não era boa lutadora. Porém, simplesmente era incapaz de interromper abruptamente o destino de alguém, interromper sonhos e dilacerar famílias por culpa de sua condição, somente por ser mais forte e não poderem defender a si nem aqueles a quem amam.

— Você não é mais forte que ninguém, Katherine. Alimentando-se de animais, irá definhar aos poucos. É a perfeita princesa indefesa... — resmungou em tom baixo, abraçada ao próprio corpo, os lábios crispados como de costume quando estava irritada.

Imersa em meio a essa luta interna, foi trazida de volta à realidade ao ouvir o barulho de folhas e galhos sendo esmagados por pés que se aproximavam rapidamente. Estava desprotegida em meio a uma grande clareira, olhou ao redor por uns instantes sem saber o que fazer. Não queria e nem tinha condições no momento de enfrentar o que quer que fosse naquele momento, mas também seus instintos lhe falavam para ir atrás, averiguar e matar. Sua curiosidade falou mais alto, porém a dosou com um pouco de cautela e decidiu por ficar e ver com seus próprios olhos o que era aquele som apressado, quase desesperado vindo em sua direção. Empoleirou-se nos galhos de uma árvore à margem da floresta densa, escondida entre as folhas e mergulhada na escuridão.

Não tardou para que a figura de um homem aparecesse e parasse no limite da área descampada. Ele arfava, o corpo tremendo, visivelmente cansado pelo esforço, as mãos apoiadas nos joelhos levemente flexionados.

Katherine estreitou o olhar e moveu-se um pouco em busca de uma visão melhor. A silhueta a sua frente lhe era vagamente familiar. A pele morena e o corpo musculoso, os cabelos curtos e negros. Foi quando o homem acalmou a respiração e finalmente colocou-se de pé, levantando o rosto, que o reconheceu.

Era Ethan.

Não conteve o sorriso por vê-lo, queria abraça-lo e aproveitar aquele momento inusitado, como se necessitasse daquilo para sanar todas os dilemas em sua mente, para afirmar a si mesma que o amor entre eles daria certo, mesmo com todos os empecilhos.

Começou a descer da árvore, mas parou antes de entrar no campo de visão do Rumancek. Algo nele chamou sua atenção, como um alerta. Percebeu que ele estava tenso, os punhos cerrados e o cenho franzido em irritação.

Deu um passo para frente, entrando na clareira, parando ao centro e erguendo o olhar para o céu. Seu corpo banhado pela luz prateada da lua seria uma visão encantadora, não fosse pelo calafrio que percorreu sua espinha como um aviso, um alerta para se afastar dali imediatamente.

“Retirar as máscaras cedo demais pode ser um erro, mas nada impede que a levantemos um pouco para vislumbrar na penumbra o que há por debaixo.”Ouviu as palavras de sua irmã como um sussurro em seu ouvido.

E então compreendeu o que ela quis dizer. Não deveria arriscar-se, entregar-se como uma perfeita presa a seu caçador, mas sim observar ao longe, como ela costumava fazer, como uma caçadora.

Ethan soltou um grito carregado de dor, a coluna curvando-se para trás as mãos em garra. Caindo de joelhos sobre a grama, apoiou seus braços no chão, a cabeça baixa. Encolheu-se, gritando novamente. A voz dessa vez saiu mais rouca e mais alta, o timbre um pouco mais agudo.

Katherine não desviava o olhar. Assistiu as roupas que ele trajava rasgarem-se, deixando-o completamente despido, porém percebeu que isso se devia ao fato dele estar maior. A massa do corpo de Ethan aumentava à medida que ia tomando uma postura cada vez mais animal. Escutava os ossos dele estalando, e moldando-se a uma forma nova. Logo em seguida, uma longa pelagem negra o cobriu por completo.

A vampira continuava imóvel, o olhar fixo onde poucos segundos antes estivera seu amado, boquiaberta porém com um leve sorriso nos lábios. Tinha visto o lado oculto e sombrio de Ethan.

Estava assustada com toda a bestialidade da cena dolorosa e grotesca, assustada pela forma como era o instinto em sua pura essência, a verdadeira natureza quando esta nos dominava. Porém encontrava-se em igual medida encantada, ao vê-lo transformar-se e percebeu que o amava em todas as suas formas.

O animal sentou-se sobre as patas traseiras e levantou a cabeça em direção à lua soltando um longo uivo, lançando-se logo em seguida na mata escura com agilidade e destreza.

***

O ruído dos passos ecoavam, quebrando o silêncio, abafados pelo imenso tapete de cor vermelho escarlate que cortava o chão de pedra clara, como uma infinita faixa, a se perder de vista, nos imensos e escuros corredores do castelo. A única iluminação provinha de alguns poucos archotes pontuados a vários metros de distância uns dos outros e da pouca luz que infiltrava-se através do vidro das enormes janelas que iam do chão até o alto teto, terminando em arcos pontudos, esculpidos em relevo.

Andava rápida e ritmadamente, as mãos deslizando pelo rosto e pelos cabelos loiros e curtos. Estava estressado pela longa e cansativa noite, que fora completamente tomada por seus afazeres como Rei. No decorrer dos últimos dias, desde o seu despertar até o último segundo de escuridão, tinha se pressionado a cuidar pessoalmente de todos os detalhes e de deixar tudo em ordem para quando partisse em viajem dali a mais duas noites. Passava horas a fio na sentado em seu trono, não se alimentava ou fazia qualquer coisa para seu próprio prazer e entretenimento, apenas ouvia os clamores de seu povo, executava sentenças e assinava acordos e documentos como o perfeito monarca deveria fazer.

Sentia o peso da exaustão sobre seus ombros, não era sábio se deixar ficar tão fraco em um momento como esse, onde ninguém estava a salvo, onde os ânimos estavam agitados e o som dos tambores anunciando o confronto já eram entoados em sintonia com a batida dos corações. Quando dentro de seus próprios domínios haviam pessoas que estavam apenas atrás de alguma uma oportunidade, por menor que esta fosse, para retirar a coroa de sua cabeça.

A sensação das veias ardendo e a gengiva coçar o tomaram, não pela primeira vez naquela noite. Todo seu corpo doía, clamando por alimento, querendo ser saciado. Fechou os olhos por um momento e respirou fundo, acalmando-se, calando seus pensamentos e controlando seus instintos. Todo seu corpo pedia pelo calor e pelo gosto metálico do sangue descendo lentamente pela garganta, o líquido o preenchendo por dentro, transformando-se em força, agilidade e beleza.

— A coroa e o poder são mais importantes, ao anoitecer você saciará sua sede. Não se atropele, aja com cautela. — Repetia várias vezes para si mesmo num murmúrio. — Não é hora para ser inconsequente. Não seja uma presa, você é o caçador... O caçador.

Olhou através de uma das janelas e viu que o céu já se encontrava cinzento, as árvores do bosque ao lado do castelo já tinham o contorno pintado de dourado pela luz do sol no horizonte. Tinha mais algum tempo hábil para fazer uma caçada nos arredores, mas sabia que precisava de uma pessoa por inteiro, talvez duas ou três e, infelizmente, o dia não o esperaria retornar para raiar. Mesmo com a sua resistência, no estado em que se encontrava não queria tomar riscos desnecessários, nem expor a si e suas habilidades à vista de qualquer um que estivesse de passagem.

— E mesmo debilitado ainda é mais forte que qualquer um de sua raça. — Desviou o olhar para o chão e voltou a andar, rindo fracamente. — Ora Willian, você é mesmo uma criatura admirável.

Ainda imerso em pensamentos e controlando-se, adentrou seus aposentos com a cabeça baixa e o olhar vago, dirigindo-se para uma grande cômoda ricamente decorada com entalhos na madeira escura. Soltou o broche de ouro e esmeraldas que prendia sua longa capa negra, desabotoando as vestes de seda de mesma cor ornamentada com bordados em fios de ouro, despindo-se completamente e puxou uma das gavetas do móvel a sua frente retirando dali uma calça de linho também negro e vestindo-a.

— Noite atribulada, meu Rei? — a voz doce e calma chegou a seus ouvidos como uma conhecida e acolhedora melodia.

Todo o cansaço e raiva sumiram de seu semblante e foram substituídos por um largo sorriso ao dar meia volta, o olhar indo direto na direção de onde o som ecoou. Todo o ruído em seu pensamento cessou, tudo que via e ouvia era a bela figura da mulher a sua frente e rindo delicadamente, enquanto penteava os longos e ondulados cabelos loiros, sentada em um pequeno banco estofado em veludo vermelho de frente ao espelho. O reflexo de seu corpo permitia que Bill a admirasse por completo, cada pedaço de pele alva completamente nua.

A mulher sorriu envergonhada com o olhar direcionado a ela encolhendo-se levemente e baixando o olhar, somente para voltar a admirá-lo com as orbes verdes cintilando travessas. Mesmo vivendo ao lado dele por centenas de anos. Ainda sentia-se como aquela menina que era quando seus olhos pousaram sobre ele pela primeira vez, mas também como a mesma mulher que ele a transformou em seu primeiro dia juntos.

— Não me avisaram sobre seu retorno — disse, dando alguns passos na direção dela, aproximando-se e levando uma das mãos ao delicado rosto acariciando-o.

— Pedi para que não lhe interrompessem, assim que passei pelos portões do castelo chegou aos meus ouvidos história de como andas concentrado em seus afazeres. Achei que seria melhor lhe fazer uma surpresa.

— E foi a melhor coisa que poderia ter feito para salvar minha noite. — Ele deslizou a mão que estava no rosto da mulher por seu braço, segurando por fim a dela e a puxou, levantando-a e colando seu corpo junto ao dele. Olhava-a no fundo dos olhos, sustentando um sorriso bobo no rosto. — Senti sua falta, minha Rainha.

Ela apenas juntou seus lábios no dele em um beijo suave e calmo, carregado de saudade pelos meses separados e cheio de paixão como sempre costumava ser. Bill segurou-a pela cintura e começou a dar alguns passos para trás, na direção da cama, porém ela o parou e o afastou, ao empurrá-lo levemente para trás. Riu ao ver o semblante confuso dele, virando-se e caminhando na direção da varanda do quarto.

— Entre, minha querida.

Uma jovem, muito bela de pele escura e cabelos cheios em longos cachos adentrou o quarto, tinha o andar hesitante e assim que os olhos assustados dela repousaram sobre o Rei, baixou a cabeça sem ousar direcionar o menor relance que fosse em sua direção. A Rainha passou um braço a sua volta, num abraço confortante e um sorriso no rosto, levantando o da menina para que ela a olhasse.

— Fique calma, está tudo bem. Quer voltar atrás em nosso acordo?

— Na... Não, Majestade. Só estou... Acuada, os relatos e cochichos não fazem jus à beleza de vocês. — ela disse, a voz falhada, num murmúrio que para muitos seria inaudível, mas que os dois vampiros escutaram perfeitamente, fazendo-os sorrir abertamente.

— Que acordo é esse, Ayra? — perguntou Bill curioso para a esposa, cruzando os braços a frente do corpo a espera do que viria a seguir.

— Ora, apenas pensei que poderíamos ter uma noite mais divertida, se assim for de seu agrado — disse, dando alguns passos e colocando-se atrás da jovem. Puxou o laço que prendia o tecido do vestido de linho esfarrapado da camponesa no pescoço. O tecido escorregou pelo corpo e amontoando-se aos seus pés, revelando um corpo curvilíneo, de pequenos e firmes seios e coxas grossas. — Isso antes de descobrir que não tem se alimentado propriamente, tenho certeza que ela lhe servirá por hora.

A menina arregalou os olhos ao ouvir as últimas palavras da rainha, fez menção de começar a correr para fora daquele lugar. Porém era inútil, eles eram ágeis e ela apenas uma humana. Antes que pudesse dar o segundo passo, Ayra a segurou pelo pescoço a erguendo alguns centímetros do chão. A menina gritava e se debatia, as lágrimas rolando por seu rosto, com as mãos tentando debilmente soltar-se do aperto da Rainha.

Os Godfrey trocaram um olhar. Olhar este carregado de luxúria, cumplicidade e desejo. A vampira jogou a menina contra o chão de pedra, o corpo arrastando-se adquirindo vários arranhões parando somente ao encontrarem como obstáculo os pés de Bill.

O rei ajoelhou-se, segurando-a firmemente pelos cabelos e a puxando de maneira brusca, virando-a e obrigando a encará-lo. Quanto mais intenso se tornava o choro e soluços, mais ele se divertia com tudo aquilo, o olhar brilhando sádico, faminto. Podia sentir o calor que irradiava do corpo dela, ouvia a pulsação acelerada pelo medo. Afastou com gentileza uma mecha que estava caída sobre o rosto da jovem. Um sorriso galanteador estampado no rosto deixava a mostra suas presas, lembrando-a de que apesar da beleza quase angelical, ele era o monstro que lhe tiraria a vida.

— Uma pena, certamente as coisas seriam mais interessantes — disse, em um falso lamento, os dedos percorrendo uma veia saltada no pescoço mulato. Ele aproximou o rosto do dela, sussurrando: — Não se preocupe, irá acabar logo.

A menina não emitia mais som algum, apenas chorava em silêncio, mesmo estando imóvel, ele ainda a mantinha presa num aperto firme. Deslizou os lábios levemente na pele macia da bochecha, descendo lentamente pelo pescoço até alcançar um dos seios. Ao cravar suas presas, um grito agudo ecoou pelo cômodo, tentava a todo custo afastar o vampiro de si, mas não era forte o suficiente para isso.

Assim que o líquido começou a descer por sua garganta, o corpo de Bill estremeceu, sentia o calor deixar o corpo em seus braços e espalhar-se por seu interior. O desejo por sangue era tamanho que a besta que havia em si o dominou. O olhar estava vago, sugava-a avidamente, afundando os dentes cada vez mais na carne, dilacerando-a. Mesmo que as batidas do coração já estivessem fracas, pouco se importou com o fato, continuou a bebê-la mesmo depois de o coração ter parado, até não haver mais sangue circulando pelas veias.

Afastou-se, filetes de sangue escorriam pelo canto de sua boca, numa linha contínua, maculando a pele alva, até seu peito. Conforme seu corpo sentia-se preenchido, ele voltava a si, abandonando a postura animalesca, recompondo-se na velha e invejável elegância que sempre exalava.

Ayra aproximou-se com um sorriso no rosto, o beijando rapidamente. Afagava os cabelos, a essa altura desgrenhados, do marido que a envolveu com carinho pela cintura em um abraço.

— Senti sua falta — ela sussurrou, seu rosto contra o peito dele, sentindo aquele velho conhecido cheiro amadeirado.

— Eu também. Teremos que aproveitar esses dias, partirei em breve. — Ele suspirou, acariciando as costas de Ayra.

— E para onde irá? — ela afastou-se bruscamente, o cenho franzido em estranhamento por aquela novidade.

— Haverá uma reunião do Grande Conselho dentro de dois dias. Preciso comparecer.

— Mas ao chegar me informaram sobre todas as novidades, conversei com Aurel e ele me disse apenas sobre o sumiço do rei. — Ela segurou uma das mãos e o puxou até a cama, onde sentou-se ainda o olhando atordoada com aquela informação.

— Aurel não sabe que haverá uma reunião do Grande Conselho. O corvo com a mensagem nunca chegou em suas mãos. Porém, tenho meus meios de saber das coisas, além de nosso Lorde. — Ele deu de ombros simplesmente, como se aquela explicação bastasse.

— Então o que aconteceu com a mensagem? — assim que perguntou, encontrou a resposta no olhar e no sorriso torto de Bill. — Ah...

— Lyra — disseram em uníssono.

— Ela quando quer consegue ser geniosa, uma brilhante jogadora. — ele disse, deitando-se na cama, os braços atrás da cabeça, fitando o teto. — Porém, não pense ela que pode me tomar por tolo. Se tem algo que me torna infinitamente mais sábio e letal são os anos de experiência, um dia ela ainda acabará pagando caro por sua ambição.

— Você não seria capaz de machucar nossa filha... Seria? — a voz saiu um pouco aguda e falhada, temerosa só de imaginar a possibilidade de ver duas pessoas que tanto ama, disputando um coroa.

— Oh, minha querida... Já fui capaz de coisas tão piores para estar aqui, agora... Não se iluda, você bem sabe que um dia esse momento chegará — disse, apoiando-se sobre um dos braços e afagando o rosto de Ayra que carregava um semblante desolado.

— Mas ela é nossa filha! — ela disparou, lágrimas começavam a escorrer pesadas por seu rosto. — Nossa primeira filha! Como você pode pensar nisso, Bill...

— É preciso... Você sabe de minha dívida e sabia qual era o preço a ser pago. A pagarei com o sangue dela.

— Pague com o de outra pessoa! Qualquer um! — ela dizia, entre os soluços a voz falhando, cada vez mais rouca.

— É necessário ser o sangue de um igual, minha querida. Do mais forte, daquele que é o meu reflexo, daquele que está destinado a repetir os meus passos. Só aí então, eu serei livre de minhas correntes.

Notas finais
Gostaram? Deixem suas opiniões nos comentários! Até mais! Amélia & Layla