Notas iniciais
Olá! Vamos aos recados? Sim! - Os comentários pendentes serão respondidos, de verdade, a falta de tempo não está me deixando respondê-los apropriadamente, mas logo o farei (Layla falando aqui); - Agradecemos a todos que acompanham, comentam e favoritam a história, vocês são uns amores; - Acessem a página, grupo e tumblr para informações extras do universo de Forjados em Sangue; - Em breve, divulgaremos também um spin-off, fiquem atentos! Boa leitura!

O cavalo resfolegou assim que seu cavaleiro desceu da sela, e o príncipe não se importou de puxá-lo em direção à margem do lago com truculência. Precisava escapar daquele castelo, mesmo que fosse para um galope matinal, acompanhado de um incômodo e inapto cavalariço. Na verdade, não tinha demorado a deixá-lo para trás, em um ritmo que sabia que apenas seu corcel era capaz de fazer. Ao parar, desceu da sela e amarrou as rédeas do animal ao tronco de uma árvore seca, acariciando-o.

Sebastian suspirou, olhando para o céu límpido, o pequeno lago que permanecia em paz, com suas águas mansas e a vegetação rasteira ao redor. Ressentia-se por fugir naquele momento do caos que estava seu reino. Seu reino, era até engraçado pensar como tal, por mais que sempre ouvisse a linha de sucessão, jamais teria imaginado que tais responsabilidades viriam tão cedo.

Porém, deveria ter algo à coroa de Hemlock, uma maldição talvez, para o homem que a ousava colocar na cabeça. Seu bisavô partiu cedo, seu avô morreu após as núpcias e seu pai não era exatamente velho para sumir daquele modo senil. Ele não duvidava que houvesse um feitiço sobre a coroa, uma praga lançada por sua avó, nas loucuras que a velha costumava fazer quando ninguém a estava olhando.

— Não deveria sumir assim, Sebas. Nossa mãe pode achar que sumiu como nosso pai — a voz doce o fez se virar, para analisar quem a pronunciava.

Ele sorriu ao ver Coraline, com um belo vestido vermelho, saltando do alazão marrom que a trouxera até ali, ajeitando o tecido da saia em um segundo, enquanto os cabelos — de um castanho acobreado — caiam-lhe a frente do rosto. Ela ergueu o olhar para ele, sorrindo com aqueles lábios em formato de coração, parecidos aos de sua mãe. Tinha uma pele leitosa, com sardas visíveis apenas a uma proximidade intimista, o rosto redondo, delicado, e um sorriso que o aquecia de alguma forma.

— Minha doce Cora, eu não me importo — falou, voltando-se novamente para o lago — Este castelo ainda há de me sufocar.

Ela se aproximou dele, parando ao seu lado, acompanhando o seu olhar para um ponto no horizonte, visitando algum entre as planícies e o castelo que, ainda longe, impunha-se.

— O castelo ou as duas rainhas loucas? — perguntou, fitando-o com um meio sorriso.

Sebastian deu uma risada seca, voltando-se para ela, levando uma mão a seu rosto e fitando seus olhos castanho-claros.

— Ambos.

— É temporário. Logo serás rei, então poderá mandá-las para os confins destas terras. Longe o suficiente para que não perturbem nossa paz. Quanto ao castelo, mude a decoração!

O príncipe deu um suspiro, afastando-se dela por um momento e falando com amargor:

— Então estarei casado. De quê nos adiantaria?

— Meu adorado irmão, sempre podemos escapar — Cora comentou com uma piscadela — Invente para tua esposa uma caçada, quanto ao meu noivo, deve ser fácil enganá-lo.

Sebastian deu um sorriso de canto, voltando a fitar a irmã.

— Tua mente me fascina.

— Sei disto. — retrucou simplesmente ­— Mas agora regressemos, ou Jasper anunciará para os quatro ventos que ele é o legítimo herdeiro e, ao pôr-do-sol, estará coroado por nossa avó. Sabes bem como ela é.

— Sim, sei. — comentou, então ao tirar a mão do rosto dela deu um longo suspiro e completou — Achei que a coroa me daria ao menos o direito de beijar a donzela.

Cora deu um sorriso doce e falou enigmática:

— Teu cavalariço já nos alcança.

A expressão no rosto dele foi do mais puro descontentamento, mesmo que isso se visse apenas num suave crispar dos lábios finos. Ele segurou a mão da princesa, depositando os lábios nos nós dos dedos, então a fitou, deixando que seus olhos claros percorressem os dela e sussurrou, acariciando as costas de sua mão:

— Então peço que imagine meus lábios sobre os teus, doce Cora, recanto de onde eles jamais deveriam sair.

Ela lhe deu um sorriso tenro e, após ajudá-la a montar, ele partiu rumo ao castelo, encontrando o jovem cavalariço desnorteado no meio do caminho.

***

Jasper deleitava-se com o atraso do irmão. Não fossem os olhos da corte sobre sua família, ele faria um brinde ao evento. De fato, talvez o fizesse mais tarde, junto às criadas do castelo, com a plebe que não se importaria com o motivo, contanto que a bebida fosse de graça. O príncipe conversava com um investidor preocupado com suas mercadorias, tratando de acalmá-lo frente ao alarde que se fazia, o caos que tomava o reino.

— Alteza, com todo o respeito, não posso trazer meus tecidos para cá em meio a esta bagunça!

— Acalme-se, lorde Arleo, isto há de se resolver logo, o Grande Conselho foi convocado.

— Uma semana. Não posso esperar mais que uma semana.

— Lorde Arleo! — a voz de Anne Hemlock interrompeu quaisquer discussões, enquanto a velha se aproximava dos dois com uma expressão severa — Não está tratando de negócios com uma criança, não é?

— Não creio que o príncipe Jasper seja uma criança.

— Ah, neste reino velho, vinte anos é apenas o início de nossas vidas. Porém não espero que esteja discutindo negócios em um momento tão frágil quanto este.

— Sempre é hora de se discutir bons negócios, lady Hemlock.

— Ora, frente ao desaparecimento de meu único filho, queres insinuar que teus tecidos são mais preciosos? — fez-se de ofendida, levando a mão ao peito em um gesto puramente teatral.

— Jamais o faria, senhora — o homem falou de prontidão, vendo o quanto se encontrava acuado perante os dois membros da família real.

— Então não preencha este salão com suas preocupações frívolas, quando claramente temos problemas mais severos.

O mercador curvou-se e saiu, quando o fez, tanto quanto consternado, Anne se aproximou de Jasper com uma expressão indecifrável no rosto.

— Onde está seu irmão?

Quis perguntar-lhe quais dos irmãos ela se referia, porém estava claro que era Sebastian, o precioso herdeiro do trono.

— Não faço a menor ideia — respondeu dando de ombros.

Mal tinha falado e a porta do salão se abriu num rompante, todas as cabeças voltando-se para ver quem entrava. Jasper revirou os olhos para Sebastian que atravessava a corte como se fosse o rei do mundo. Ele não era, ou não seria rei algum por muito tempo. O herdeiro parou a frente do trono, analisando-o por um segundo, então sentou-se, parecendo bem despojado ao fazê-lo.

— Não devias se sentar neste trono, meu filho — Elizabeth falou baixinho, apenas para que os mais próximos ouvissem, pendendo o corpo para o lado em direção ao filho.

Sebastian imitou o gesto, inclinando-se em direção à mãe e respondendo de maneira controlada:

— Sou o herdeiro, minha mãe, e na ausência de meu pai, seu legítimo substituto. Rogo aos deuses para que essa ausência seja temporária, porém não fugirei de meu dever.

Então voltou-se a sua postura ereta, para a extrema irritação de Elizabeth e ordenou que todos saíssem, permitindo à família real um momento a sós.

— Onde estava? — Anne arguiu, ríspida.

— No lago. Cavalgando.

— Ficou louco, Sebastian? Seu pai sumiu e você cavalga matutinamente como se nada tivesse acontecido! — exclamou Elizabeth.

— Não precisa me lembrar que meu pai está sumido, mãe. Mas parece que devo lembrá-la constantemente que eu sou o representante deste reino e estou certo que um pequeno atraso é desculpável. Agora, o que tínhamos a tratar?

— Nossas mensagens foram respondidas, o Grande Conselho foi convocado e agora precisamos destacar um representante para a reunião — respondeu Jasper de modo mecânico, após ter jurado ouvir um resmungo da Rainha Velha.

— Imagino que eu devo ir, afinal, as responsabilidades do reino recaem sobre meus ombros.

— Não acredito que deva. — interveio Anne — Este desaparecimento de Sandor pode ser obra tanto de Godfrey quanto de Rumancek e se somes nesta reunião nosso reino ficaria ainda mais frágil.

— Mas se não mandarmos alguém próximo o suficiente da coroa, nos mostraremos alvos fáceis.

— Olhe para sua mãe, ela não tem condições de lidar com essa reunião. Eu sou muito velha para isto, Cora e Roman muito novos! Por que não mandar Jasper? Ele é o segundo na linha de sucessão e nos mostramos firmes e unidos confiando uns nos outros.

Jasper se surpreendeu com a sugestão dada por sua avó e olhou para o irmão gêmeo. Por zombaria do destino, eles eram idênticos, com os mesmos cabelos castanhos cortados rente a nuca, o mesmo rosto anguloso e altivo, os mesmos traços firmes. Quando mais novos eram confundidos a todo momento, exceto por seus pais e a velha bruxa. Sebastian franziu as sobrancelhas, massageando a testa por um segundo.

Passou vários segundos com o rosto franzido, numa expressão entre o descontentamento e a reflexão, até que por fim disse, em um suspiro pesado:

— Está bem. Mas quero todos os informes do conselho, tudo o que foi dito, como todos agiram. Providenciaremos uma escolta para ele — então fitou diretamente o irmão — Jasper, espero que realmente faça por merecer essa confiança.

O gêmeo mais novo esboçou um sorriso cínico, devolvendo o olhar e falando com tranquilidade.

— Ao seu dispor, meu irmão.

— Ótimo — resmungou Sebastian, soando mal humorado, e acrescentou olhando para Anne — Enquanto isto, acredito que irei a Rumancek, apressar meu casamento com a princesa Ravel. Temos que pensar em todas as possibilidades e dei minha palavra ao Lorde Francis e à Lady Asher de Rumancek.

Jasper trincou os dentes, mas ninguém notou. Quando ele quase praguejou baixo, furioso, Anne concordou com os desmandos do herdeiro. O gêmeo mais novo odiava que Sebastian tivesse tudo o que ele desejava, a coroa, o reino e, principalmente, a noiva. Tinha em si a plena certeza que Ravel era a única a quem ele dispunha admiração, de todas as damas, de todas as mulheres que já tinha cortejado — que eram muitas — e muitas das quais tinha levado a seus aposentos. Nas duas ocasiões que a tinha visto, a princesa Rumancek lhe pareceu uma jóia perdida nas montanhas de seu reino, algo a ser conquistado e tratado com esmero por nada menos que um rei.

Porém, ele não era rei e ela não era sua noiva.

— Providencie uma escolta própria também, não deve ir sozinho àquele reino — Elizabeth recomendou, no exato instante que Cora entrou no salão.

— Irmã — falaram os gêmeos em uníssono.

— Perdoem-me o atraso — disse sucinta — Encontrei com Lorde Enzo e ele entregou-me isso. Disse que veio em um corvo de Rumancek — mostrou o pergaminho em suas mãos, atravessando o salão em direção a Sebastian, sendo interrompida por Anne que tomou o pergaminho e após lê-lo abriu um pequeno sorriso.

— Parece que a ida ao reino de sua noiva não será necessária. Rainha Asher e a princesa Ravel virão até nós em breve — expôs a velha, vitoriosa.

Sebastian respirou fundo, mas não se deu por vencido e, olhando para a mulher, falou com firmeza:

— Ótimo! Assim posso lidar de nossos problemas locais e resolver de uma vez o assunto do casamento. Porém, sendo assim, não acho que Jasper deveria ir só. Sei que temos mesma idade, mas precisamos de alguém com experiência para lidar com os outros representantes.

— Está insinuando que não sou capaz de lidar com eles? — Jasper ouviu-se exclamar antes que pudesse se conter.

— Não. Claro que não! — Sebastian emendou, um tanto quanto debochado — O que exponho é que jamais foste em reunião deste porte, Jasper. Precisamos de alguém que esteja acostumado a estes ambientes, estas negociações. Lidamos com a vida de nosso pai! Não é um encontro casual!

­— O que tens em mente? — Elizabeth perguntou para o filho, parecendo exausta.

— Que alguém o acompanhe, mesmo que para isso tenhamos que demorar mais a enviar um representante. E não penso que exista indicação melhor que nossa avó.

Anne ponderou por um segundo, certa de que seu neto tinha algo mais em mente. Sebastian logo se voltou para ela, questionando-a em silêncio. Era a próxima jogada, o próximo passo. Tudo dependeria de sua resposta. A Rainha Velha encarou o herdeiro, tentando desvendar as intenções por detrás de seu gesto.

Coraline encarou Sebastian, tentando manter o rosto impassível quando na verdade queria gritar com ele. Sua atenção, entretanto, logo foi para a avó, que disse com calma:

— Se é assim que preferes, irei. Mas, por favor, meu neto, arrume uma boa carruagem. Meus ossos não suportam mais viagens tão longas.

— Tudo está resolvido então? — Elizabeth perguntou. Quando os demais assentiram Jasper lançou a pergunta:

— Onde está Roman?

Coraline olhou para ele, arqueando uma sobrancelha suavemente ao comentar:

— Roman disse que não se encontrava bem, mas que não é nada para se preocupar.

O gêmeo mais novo parecia prestes a falar mais algo, mas foi interrompido pela voz da rainha, que falou com tom exausto:

— Agora, se me permitem, meus filhos, vou descansar.

Ninguém objetou quando Elizabeth saiu do salão, tampouco quando Anne curvou-se como pode e acompanhou a sobrinha, deixando os três irmãos a sós.

— Sebas, poderia ter uma palavra com você? — Cora perguntou docemente, então olhou para Jasper — Longe de curiosos.

O príncipe se ergueu do trono, descendo a pequena escadaria que o deixava mais alto que todo o salão, então se aproximou da irmã, oferecendo-lhe o braço ao falar:

— É claro.

Os dois caminharam pelos corredores do castelo em completo silêncio, deixando Jasper só, até o quarto de Sebastian. De decoração sóbria, com cortinas pesadas de um vermelho muito escuro, era uma exceção em meio a todos os quartos da realeza. Com poucos quadros nas paredes, muito espaço livre entre a imensa cama e a escrivaninha cheia de rabiscos e a janela aberta, com um vento calmo oriundo das pradarias do leste. Não era um quarto luxuoso o suficiente para um príncipe, mas ele não gostava quando queriam encher seu espaço com decorações em excesso.

Sebastian sentou-se na ponta da cama, sinalizando para que Cora sentasse a seu lado, mas ela não o fez. Ao invés disso, cruzou os braços em frente ao busto e falou:

— Diga-me, pelos deuses, Sebastian, que possuis um plano. Abdicar da ida ao Grande Conselho é uma loucura!

— Doce Cora, claro que tenho. Enquanto nossa avó concentra suas energias nesta busca e neste conselho, acredito que está na hora de nos fortalecer — deu um sorriso mínimo, puxando-a pela mão e olhando em seus olhos — E que maneira melhor de fazê-lo senão pela mãe de minha noiva?

— Então por isto que mandou ela e Jasper para a toca dos lobos? — retrucou ela, indiferente.

— Em parte — respondeu com um suspiro — Nosso pai não é eterno, tampouco acredito que haja grandes chances dele regressar vivo da Floresta Negra.

— Achas que ele morreu?

— Não, mas não me surpreenderia se ele aparecesse morto em breve. Ninguém sai da floresta com facilidade, Cora, e a verdade é que o reino está um caos e se não pusermos ordem nisto, damos espaço para nossa avó incitar revoluções. Nós dois sabemos que ela quer a coroa mais que tudo.

— Todos sabem. Só o tonto do Jasper não enxerga isto.

— Ele enxerga, mas ficará do lado que pode ganhar mais. Por enquanto, este lado é o da Rainha Velha.

Cora arqueou uma sobrancelha, mas depois sentou-se ao lado do irmão e encostou a cabeça em seu ombro, enlaçando os dedos de ambos em um aperto confortável. Desde sempre, Sebastian e ela eram unha e carne, ainda mais quando eram ignorados por sua mãe e avó, afinal, Jasper sempre fora o "predileto" devido aos seus dons, enquanto aos outros dois cabia a mínima atenção. E, após nascer, Roman também não foi diferente neste aspecto. Talvez por isso os três irmãos — Sebastian, Coraline e Roman — fossem tão unidos.

— Roman realmente estava se sentindo mal? — perguntou ele, após um momento em silêncio.

— Não... Quando passei em seu quarto ele me disse que ia ao mercado. Não perguntei o motivo, mas todos queremos fugir um pouco desse castelo, não é?

Sebastian respirou fundo, falando com um tom cansado:

— Sim. Só espero que ele regresse antes de nossa mãe perceber sua falta. Aliás, o que ele foi fazer no mercado?

— Encontrar-se com alguém, acho. Não cheguei a perguntar quando o vi.

O príncipe crispou os lábios com algum descontentamento, temia que seu irmão se envolvesse com alguém que não deveria. Mas não iria por rédeas no Hemlock mais novo. Quem era ele para dizer que havia limites para paixões? Estava envolvido com Cora há alguns bons anos. Sorriu consigo para isso, passando a mão no rosto da irmã e erguendo o olhar dela para o seu, estava prestes a beijá-la quando uma voz se fez presente no quarto, fazendo com que se afastassem.

— Meus adorados irmãos! Que prazer incomensurável é encontrá-los aqui, juntos deste modo — desdenhou Jasper, após escorar-se deliberadamente na porta com os braços cruzados e um sorriso presunçoso.

— Qual mal há em passar algum tempo com nossa doce irmã, Jasper?

O outro riu baixo, entrando no quarto e falando de um modo debochado:

— Já pensou que pena seria a corte saber deste casinho de vocês?

Foi a vez de Cora rir, com frieza, olhando-o com desafio.

— Jasper, não deveria sair falando tanta bobagem. Irão pensar que estás conspirando contra a coroa. E o caminho para conspiradores é apenas um, sabes, não é? — cortou a garganta com o polegar, dramaticamente.

— Isto é uma ameaça, minha querida irmã? Saiba que nossa avó e nossa mãe ficariam muito descontentes ao ouvi-la — deu de ombros, indiferente, mordendo a fruta que trazia em mãos.

— Como se eu me importasse com o que aquela velha pensa — resmungou Cora.

— Sebastian, quem sabe com seu novo posto de rei temporário não podes arrumar algumas moedas, então fingirei que nada vi.

— Não tem do que falares, Jasper. E para quê queres mais ouro?

— O de sempre: mulheres e vinho — rebateu, rindo, vendo uma expressão descontente nos olhos do irmão.

— Ainda serás envenenado por tuas paixões alcoólicas.

— Veneno, irmão, é a arma para os covardes, não te ensinaram isto?

Sebastian esboçou um sorriso, passando o braço pelo ombro de seu gêmeo e dizendo com tranquilidade ao caminhar para os corredores:

— Ai está o teu engano, querido irmão. Veneno é a arma para os que são espertos demais para se enaltecer com o sangue derramado.

***

Quando a noite caiu e o movimento nas cidades cessou, uma carruagem negra parou frente aquela estalagem torta, com protestos veementes dos cavalos, enquanto uma figura encapuzada descia — auxiliada pelo cocheiro. Seus olhos varreram a escuridão rapidamente, enquanto os lábios se curvavam em desgosto. Não esperava pisar ali novamente e sabia que era arriscado, principalmente se vista.

— Espere-me. Voltarei logo. — ordenou, ríspida.

O homem concordou com um aceno breve e se distanciou, enquanto ela dava passos para a estalagem. Era uma figura baixa, um pouco curvada, parecia caminhar com dificuldade sobre o terreno irregular e, tinha plena certeza, estava muito longe do castelo.

Não precisou bater, a porta se encontrava entreaberta, com uma luz doentia saindo pela fresta, a conversa alta intercalada por um silêncio sepulcral. Empurrou-a, ouvindo o lamento surdo e logo, e caminhou perante aquele hall de entrada com o mesmo andar frágil que demonstrara inicialmente. A madeira velha rangia sob seus pés, a poeira cobrindo cada centímetro de chão. Ela analisou o salão, franzindo os lábios e direcionando seus passos a um balcão capenga, onde um homem largo observava a tudo.

— O que deseja? — ele perguntou, rude.

— Um bom abutre.

— Não é um pedido comum, senhora.

— Apenas se não houver o suficiente para pagar.

— Se tem ouro o suficiente, venha comigo.

Desceu uma escada estreita, cujas tábuas protestavam todo o tempo, o homem seguia a sua frente, com uma lamparina de óleo em suas mãos. Passaram por um corredor estreito, úmido, com nenhuma iluminação além da fornecida pela lamparina. Ao fim, estavam a frente de uma porta escura e velha, na qual ele bateu duas vezes.

— Há alguém para você.

Então se foi, sem ouvir resposta, deixando a mulher encapuzada imersa na escuridão por um curto instante, até que a porta se abriu e o mercenário a olhou com uma expressão zombeteira em seus olhos azuis:

— Não esperava vê-la tão cedo.

— O sentimento é recíproco — retrucou, cortante, passando por ele e entrando na saleta — Mas tenho outro trabalho para você.

O mercenário a olhou por um segundo, um predador que analisava sua presa. Havia divertimento em seu rosto, ainda que muito bem disfarçado. Ele caminhou com passadas largas até a mesa posta no fundo da pequena sala. Sentando-se e pondo os pés despreocupadamente sobre a tábua, não indicou que ela se sentasse, o faria se assim quisesse e ele não se importava nem um pouco com o tipo de tratamento que deveria dar à realeza.

— Serei bem pago?

— Depende de como executar o serviço.

— Estou ouvindo.

Anne Hemlock tirou o capuz, sentando-se a sua frente com uma postura elegante, erguendo o queixo e contorcendo os lábios em desaprovação. O mercenário apenas pegou uma adaga sobre a mesa, girando-a entre os dedos, enquanto a ouvia falar:

— Estou certa que já ouviu sobre o desaparecimento de meu filho. — não foi uma pergunta, tampouco ele se ateve a responder, então ela prosseguiu — O que eu quero é que ele não volte.

— Quer então que o mate?

— Faça o que achar necessário, contanto que seja discreto. Enquanto ele continuar desaparecido, continuará recebendo.

Os olhos azul-elétricos pareceram faiscar quando ela lançou o saco sobre a mesa e um sorriso mínimo apareceu em seu rosto. Ele tirou os pés da mesa, abrindo a bolsa com satisfação, não chegou a contar precisamente, mas fazia uma boa noção da quantia.

Os lábios de Hector se curvaram em um sorriso, enquanto sua voz pronunciava com calma:

— É um prazer fazer negócios com você, Rainha.

Notas finais
Então, o que acharam? Nos vemos nos comentários! Beijos! Layla & Amélia