Notas iniciais
Olá, galera! Como estão? - Agradecemos muito aos comentários, favoritos e acompanhamentos. Vocês são divosos! *-* - Não esqueçam de curtir a página e visitar o grupo para mais informações (links estão no disclaimer da história) - Os comentários pendentes serão respondidos. Prometo! -q Boa leitura!!

Tinha requerido muita força de vontade para ir à Floresta. E ainda mais para permanecer inerte diante de todos os insultos da fada — nem sempre verbalizados. Porém ele convencera-se de que era o certo a se fazer. Não, não o certo por motivos morais, era o certo para seus próprios desejos. Ela era tão tola, tão manipulável, tão fácil de por em sua mão para estraçalhá-la. Mas, agora, ele necessitava que a fada saísse de sua inércia, de seu estado de conformidade pelo que tinha ocorrido vinte anos antes. Ele a movia, direcionando sua força, mantendo-se perto o suficiente do olho do furacão. Pois era o que Katrina sempre lhe parecia: um furacão. Uma tempestade. Mansa numa hora, impetuosa e repleta de fúria noutra.

Sentia-se satisfeito com o que tinha causado. Uma parte de si gostava de apreciar o caos, mas a maior parte regozijava-se em causá-lo. Com expressão impassível, Hector teria permanecido em seu humor usual, não fosse a noite que se aproximava, inquietante.

Maldição. Mesmo que não fosse lua cheia ele podia sentir o brilho prateado sobre sua mente, fazendo com que a besta em si gritasse, tomasse seu senso, revirasse cada recanto de sua lógica e a distorcesse. Ele odiava aquilo. Odiava as noites antes e depois da lua cheia. As antes pela inquietude de saber o que viria, as depois pela sensação animalesca que não parecia querer largá-lo.

Ao olhar pela janela daquele quarto apertado, decidiu sair. Não podia garantir a si mesmo que não quebraria cada recanto da estalagem, tão e somente por necessitar de um escape. Precisava deixar seus instintos agirem e simplesmente não pensar. Era a fera querendo dominá-lo e ele não permitiria que assim o fizesse.

Caminhou. Com passos pesados, ruidosos. Floresta adentro, aprofundando-se naquele território que parecia tão místico e misterioso para tantos, que fora seu lar por um bom período da sua vida.

Ele sabia quanta sorte tinha? A oportunidade única que lhe fora dada? Era, possivelmente, o único humano criado por seres fantásticos, convivendo com o que muitos jamais tinham sequer posto os olhos. Por vezes pensava que tinha jogado essa chance fora, noutras, convinha acreditar que tudo o que era fazia parte de um mal maior. Ou um mal necessário.

Afinal, o que seria do bem sem seu antagônico?

Foi então que percebeu onde estava, não antes de notar a figura pálida, iluminada por aquele luar doentio. Parecia translúcida, atida numa melancolia que pertencia apenas a ela, um fantasma a atormentá-lo.

— Me deixa em paz! — esbravejou, irracional, pensando que a fada era outra alucinação, um fantasma que volta e meia aparecia para assombrá-lo.

Ela se voltou para ele, visivelmente surpresa, falando com sua voz sussurrada.

— Se busca paz, este é o último lugar onde vai encontrá-la.

Foi ao fitar os olhos cinzas que o fulminavam naquela escuridão que ele percebeu que ela era real.

— A culpa é minha se você aprecia andar nos horários de uma cortesã? — rebateu, machucando a própria mão a socar uma árvore, querendo com o gesto recuperar um pouco de senso. Não estava com paciência, muito menos para os comentários dela.

Katrina deu uma risada seca, com um meio sorriso frio cravado em sua face de mármore.

— Ora, querido, parece que as conhece bem. Diga-me: qual a diferença entre um mercenário e uma cortesã? Os dois me parecem exatamente o mesmo: compráveis.

— A diferença entre um mercenário e uma cortesã é que um usa os outros, o outro é usado. Você melhor do que ninguém deveria saber disso.

— Se é isso que dizes para se conformar — ela respondeu, indiferente, voltando-se de costas para ele, parecendo mais interessada na paisagem que em qualquer outro tópico.

Foi só então que notou onde estava. O maldito lago da fronteira. Achava inacreditável o dom que ela tinha de se martirizar indo para todos os lugares que lembravam sua família assassinada. A lua minguante refletia na água escura, as árvores curvavam-se sobre a superfície, parecendo espectros sedentos à noite. As pedras nas margens, grandes, lisas, brigavam com o musgo pelo chão e com as folhas que caiam serenamente, em um eterno outono.

O mercenário não esquecera de como eles costumavam ir ali. Sequer de como sentavam-se às margens, ouvindo os ensinamentos do pai da fada — quando ainda costumavam ouvi-los. O tempo que ainda eram muito novos para se odiar tanto.

— Como está a rainha? — ele perguntou, aproximando-se. As mãos ao lado do corpo, os olhos em um ponto infinito. Relaxado, soltou a frase com despretensão, sabendo o efeito que causava nos ouvidos dela — Ela realmente não se importou com nossa família.

Hector não precisou ver seu rosto para sentir sua raiva, os ventos a denunciavam, rodopiando sob seus pés. Katrina se voltou para ele, os olhos mais escuros que o habitual, e teceu um voo rápido até parar a sua frente, centímetros de seu rosto. Pareceu ponderar por um instante, até sussurrar cortante o suficiente para provocar um arrepio:

— Não ouse manchar minha linhagem achando que por ser um bicho de estimação tem algum direito sobre ela.

O mercenário continuou a olhá-la. Não era louco o suficiente para falar qualquer outra coisa. Não que ele temesse por sua vida, porém ainda lembrava-se do que estava em jogo, do que queria construir. Ou melhor, destruir.

— Como queira — cuspiu as palavras — Majestade.

A fada o ignorou, crispando os lábios. Muitas vontades se debatiam em seu interior, mas ela apenas mostrou-se desconfortável e desgostosa. Sabia que ele agia daquela maneira tão e somente para fazê-la perder o senso, para irritá-la até o limite de sua loucura. Respirou fundo, determinada a não dar ouvidos a ele e, ao invés de rebater, terminou dando um suspiro resignado e se afastando novamente, rumo à margem do lago.

— O que queres? — perguntou, após um instante, ao se sentar com os olhos fixos na água escura.

— Nada. Apenas vim conferir se continuava viva.

— Então já podes sumir de novo.

Hector pensou ter ouvido um “como sempre” resmungado da boca dela, mas não teve tempo para confirmar. Um grito cortou a noite. Um som que eriçava os pelos de sua nuca. Um aviso que lhe dizia que a noite estava apenas a começar.

***

Em um lugar qualquer, instantes antes, uma figura cambaleava sobre folhas secas. O ferro tinha queimado suas asas, impedindo-a de voar. Também tinha queimado suas mãos e braços enquanto tentava se desvencilhar da rede metálica. Entretanto, ela não reclamaria agora. Precisava aproveitar a oportunidade.

Então correu.

Correu como jamais o tinha feito, aos tropeços, suplantando a dor de cada passada com a necessidade de sobreviver. Correu como se as sombras da Floresta a perseguissem, como se a qualquer momento uma besta pudesse sair das sombras. Correu ao ouvir os latidos e as vozes, até não ver mais ninguém atrás de si, até ouvir a voz de um dos seus captores:

— Fadinha, não prolongue o inevitável. Você não pode fugir.

A fada não respondeu. Adentrou a parte mais densa, passando ofegante por entre árvores tortas. Pensando em todas as possíveis rotas que poderia fazer para despistá-los. Olhou para trás, por cima do ombro, e não os viu. Mudou a direção de seus passos e quase caiu. Exausta, encostou-se em uma árvore com a respiração entrecortada.

Seu corpo inteiro doía, suas pernas reclamavam da corrida, seus olhos ardiam ante as lágrimas que queriam escapar. Entretanto, recusava-se a chorar agora. Inspirou, tossiu um par de vezes, clareou a mente e ouviu o silvo de um disparo.

Sequer teve tempo de recuperar o fôlego, largou-se no chão. O dardo cravou na árvore, pouco acima de sua cabeça. Sua garganta secou, o medo a invadiu.

Tinha certeza que a tinham encontrado.

— Está perdendo a mira, meu amigo. — uma voz disse, alto o suficiente para que ela ouvisse.

— Não quis acertá-la — outra resmungou em resposta.

— Agora decidiu brincar com as presas?

Uma risada rouca foi a resposta, enquanto a fada sentia o desespero se apossar de seu corpo. Tarde demais, notou o segundo disparo, o dardo entrou em seu joelho, a dor lancinante a deixou paralisada. Ela quis gritar, mas nenhum som saiu, as lágrimas escorriam por seu rosto, silenciosas e mórbidas. Sem forças, sentiu-se cair por sobre a perna machucada, lentamente. Incapaz de sustentar o próprio peso.

Contudo, ainda estava lúcida. O suficiente para ouvir os passos em sua direção, lentos, ruidosos, contando os segundos para o seu fim. Os dedos em seu rosto a enojaram, enxugando de maneira tenra as lágrimas em seu rosto. Ela engoliu em seco, incapaz de produzir qualquer som. O homem a fitou e depois se aproximou de seu ouvido ao dizer:

— Não se preocupe, fadinha. Serei rápido.

Então o grito preso venceu o nó em sua garganta e o som lamurioso e alto rompeu o silêncio da noite — na mais perfeita nota de horror.

***

O grito ecoou pela floresta, até as duas figuras à beira do lago. Por instinto, o mercenário voltou a cabeça naquela direção e, no segundo que voltou a fitar a fada a sua frente, viu uma expressão indecifrável no rosto, as asas claras abertas em alerta.

— Onde pensa que vai?

— De onde veio esse grito?

— Sudeste — ele respondeu automaticamente.

— Como imaginei — ela falou e antes que ele fosse capaz de responder impulsionou-se em direção ao céu.

— Que merda, Katrina! — esbravejou para o nada, enquanto corria em direção à fonte daquele grito.

Segui-la custou-lhe mais tempo que tinha imaginado, ainda que tivesse sido bastante rápido. Seu corpo não reclamava do esforço, estava habituado, mas sua mente duelava com a fera pensando no que estava ocorrendo, omitindo o pensamento do que poderia ocorrer.

Quando finalmente chegou ao final de uma trilha precária, orientou-se pelo cheiro, correndo por entre as árvores espaçadas, até avistá-la novamente, abaixada, de costas, estupidamente vulnerável.

— Ficou louca?! — gritou, atraindo a atenção da fada para si.

Katrina não respondeu, apenas o fitou por diversos instantes. Por fim, se levantou devagar.

— Está morta — ela proferiu, a voz baixa e quebradiça, parecendo fazê-lo apenas para si mesma.

Hector se aproximou, parando ao lado dela com os olhos no corpo estendido. Havia sangue e entranhas para todos os lados, o corpo estava marcado por queimaduras e lacerações, as asas estavam longe do torso, arrancadas com brutalidade, apenas o rosto permanecia incólume, congelado em uma expressão de pavor.

— Não fique encarando — resmungou ele para a conselheira, ao ver que ela era incapaz de desviar o olhar — não vai lhe fazer bem.

Os olhos cinzas o miraram, piscando um par de vezes antes de dizer:

— E desde quando te importas com o que me faz bem?

Hector a ignorou, ajoelhando ao lado da criatura morta e analisando o corpo por um instante.

— Precisamos tirar isto daqui, antes que algum animal devore.

— Deixe-a onde está — falou ela devagar — preciso informar a Dárius, a Sareena, a qualquer um que possa ajudar.

— E Ashara? Não vai informá-la? — perguntou, notando o desespero que se apossava da voz dela, e ao receber apenas um olhar gélido por resposta emendou — Ah, está sumida.

— Ela não vai ajudar — Katrina retrucou.

Parecia exausta. Ela se virou de costas para ele, perdida em seus próprios pensamentos, massageando as têmporas com os olhos fechados.

Hector ponderou por um instante, era a hora perfeita para agir, o momento em que a fada estava fragilizada com os fantasmas de sua mente, uma oportunidade única. Como uma víbora, deu um meio sorriso cínico. Ergueu-se devagar e se aproximou pelas costas da conselheira, pondo as mãos em seus ombros. Katrina se retraiu com a proximidade, suas costas se tensionando. Mas não o rechaçou, apenas o ouviu dizer de forma aveludada e atipicamente doce:

— Sabe, Katrina... podemos mudar isto. Podemos tirar a rainha do trono, vingar sua família. Posso te dar o que precisa — Hector deu um riso seco, sem humor — pode achar que eu sou a escória, um verme, mas eu sei matar — ele passou a mão pela nuca dela, provocando arrepios, e acrescentando em tom tão baixo em seu ouvido que ela poderia jurar que imaginava — e eu posso lhe ensinar.

Ela se virou, encarando-o perplexa. Afastando-se com inúmeras perguntas por fazer. O que ele queria? Não era tonta para acreditar que ele faria algo apenas pelo bel-prazer. Era um mercenário afinal, não derramava sangue sem um gordo pagamento. Tudo para ele tinha um preço, e se não era ouro, ela desejava saber seus intentos. A fada estava prestes a questioná-lo, quando outra figura se aproximou deles, voando poucos centímetros acima do chão, surpreendendo ambos.

— O que aconteceu aqui? — a recém-chegada perguntou, autoritária. Olhou do corpo ao chão para sua conselheira com perguntas estampadas em seu rosto redondo, emoldurado por longos cabelos castanhos, os quais adquiriam um tom acobreado apenas na luz do sol da manhã. Seu rosto estava pálido, e não era necessário olhar para as asas em vários tons de laranja que se retraiam febris nas costas para saber que estava nervosa.

— Rainha — Katrina a saudou, de maneira automática — Outra morte. Como se pode notar.

— Outra?! — um homem, saído detrás de Ashara, perguntou. Vinha caminhando tranquilamente, ainda que coxeasse sobre a perna esquerda.

— Sim, lorde Szabó.

— Pobre criatura — refletiu a Liboiron baixinho, olhando para o corpo destroçado e, após uma careta, desviou o olhar. Deparando-se com Hector com os braços cruzados ao canto, envolvido pelas sombras da floresta — O que ele faz aqui?

O mercenário deu de ombros, supostamente desinteressado.

— Acompanho Katrina.

A rainha parecia prestes a falar algo, porém a Vulchanov interrompeu-a:

— O que faremos?

Ashara voltou a atenção para a conselheira, arqueando uma sobrancelha.

— Como assim o que faremos? Não há nada que se possa fazer.

— Discordo, podemos e devemos informar aos elfos, majestade. Por hora, apenas nós somos os alvos, mas quanto tempo levará até que eles também sejam atacados? De toda forma, lorde Dárius poderia nos ajudar...

— Eles a proíbo expressamente de comentar qualquer coisa sobre isto! ― contrapôs com certa histeria na voz ― Principalmente com os elfos. Isto é problema nosso e como tal resolveremos a nossa maneira.

— Rainha, isto não é prudente! — exclamou a conselheira, tentando se controlar a cada palavra — Quantas mais de nós terão que morrer para que perceba que precisamos de ajuda?

— Isto não é problema teu, Katrina. Não enquanto eu ainda for a rainha e você, a conselheira.

Um silêncio desconfortável se instaurou, no qual ambas as fadas se fitavam. Ashara então exalou um suspiro, falando com indiferença:

— Szabó, queime o corpo. Não houve nada por aqui.

O dragonesi pareceu surpreso por um instante, mas logo se aproximou da fada morta. Katrina fez uma reverência e falou irritada:

— Não ficarei para assistir a esta violação.

Ao vê-la voar, Hector olhou para os outros dois.

— Devia começar pelas asas, é a parte que queima mais fácil — comentou para o dragonesi, em tom de deboche, e se afastou. Não havia mais nada a ser feito por ali.

Ashara observou sua prima voar, o semblante vazio e repleto de desgosto. Talvez se contasse seus motivos a Katrina, obtivesse compreensão. Porém não podia, não agora, não quando havia muito mais em jogo.

— Não posso fingir indiferença para sempre — refletiu.

— Desistirá deles?

— Não! Óbvio que não! — exclamou, olhando para o dragonesi, levou as mãos ao rosto, enxugando lágrimas teimosas que beiravam seus olhos e concluiu em um sussurro exasperado — Não sei o que fazer, Szabó!

Szabó permitiu que o silêncio reinasse por um instante, enquanto o fogo escapava de sua boca, guiado por suas mãos. Mais devagar do que pretendia, viu as chamas consumirem o corpo da fada morta. Dado por satisfeito com a ordem cumprida, aproximou-se de Ashara, pondo as mãos sobre seus ombros, beijando-lhe o pescoço com ternura.

— Descanse... Não conseguirá pensar em nada assim.

A rainha concordou com um aceno, sentindo-se reconfortada pela presença dele.

Não soube dizer por quanto tempo permaneceu junto a presença de Szabó, ele a ajudara a por a mente no lugar. Mais tarde, decidiu retornar a Corbris, sem saber de onde tinha reunido coragem para fazê-lo. Aquela cidade a sufocava. Era irônico que o fizesse, para todos Corbris era sinônimo de segurança, liberdade. E ela apenas via a coroa em sua cabeça como grilhões em seus calcanhares.

Teve a sorte de, no palácio, não se deparar com ninguém. Tão gatuna quanto pode, foi para seus aposentos, largando-se sobre a cama, deixando os pensamentos a afogarem, não demorou até ouvir batidas na porta. E arqueou uma sobrancelha, se ninguém a tinha visto, como sabiam que estava em seu quarto?

— Entre.

Passou-se um longo segundo, até que a outra fada se tornou presente. Era Katrina.

— Prima — saudou com um sorriso cansado.

— Rainha — respondeu ela de forma mecânica — Venho notificar-lhe que parto amanhã.

— Como?! — a Liboiron a fitou assustada, enquanto a Vulchanov parecia medir cada palavra.

— Em sua ausência, o rei Sandor Hemlock sumiu na Floresta. Assim sendo, foi solicitada uma reunião dos Três Reinos a qual eu fui escolhida representante pelo Conselho de Todos.

— Está bem — Ashara falou após um breve silêncio.

A Vulchanov engoliu em seco. Exalou um suspiro e comentou:

— Ashara — parou por um segundo, enquanto a Liboiron a encarou, escolhendo as palavras — peço, por favor, que não suma durante este período. Posso suportar que o faça quando estou aqui. Posso suportar que o faça e jamais me dê uma explicação. Mas nosso povo precisa de uma líder... E este posto é seu.

— Está bem — repetiu, fazendo a conselheira exalar um suspiro, curvar-se respeitosamente e se dirigir à saída sem dizer mais nenhuma palavra. Porém, antes que ela alcançasse os corredores, ouviu Ashara dizer — Quando nos perdemos, Katrina? Costumávamos ser tão amigas...

— Quando parte de mim morreu e parte de ti sumiu.

A Vulchanov não soube dizer se a outra tinha escutado sua réplica, tampouco ficou para observar. Apenas regressou a seus aposentos, rezando à Haela para que pusesse a cabeça no lugar.

***

Ao voltar para estalagem, Hector arquitetava. A besta não o tinha deixado pensar por um segundo sequer, mas ele precisava clarear os pensamentos, premeditar o próximo passo. Apesar de enfurecido e animalesco, tinha mente afiada, e quando não estava sobre o efeito da lua, pensava no que faria a seguir.

Entrou na lugar que se alojava com brutalidade. Não ligava para o barulho que fazia, tampouco para se outros se incomodavam. Estava exausto, mal humorado. Por um momento quase teve a fada em suas mãos, mas no instante seguinte ela lhe escapava por entre os dedos. Tê-la onde queria era quase como tentar capturar fumaça com as mãos. Rosnou baixo, para si, entrando no quarto e se deparando com uma figura encapuzada.

Quando o elfo baixou o capuz, exibindo o cabelo negro e a tiara prateada, Hector atreveu-se a esboçar um meio sorriso.

— Ora, esta é uma visita inesperada! — exclamou zombeteiro.

Dárius respirou fundo, impaciente.

— Parece que Aidan falhou terrivelmente em sua educação, Hector, mas não tenho tempo para incuti-la na sua cabeça. Minha visita é breve.

— Diga a que veio.

— Vim lhe fazer um pedido.

Os olhos do mercenário faiscaram, mesmo na penumbra, e ele proferiu:

— Envolve ouro? Sabe que não faço nada de graça.

O elfo ignorou sua pergunta, continuando calmamente:

— Na verdade, vim cobrar-lhe uma promessa antiga, rapaz. Uma que fizeste a meu amigo antes de sua morte.

Em um instante, o face do homem se contorceu em irritação, enquanto ele cruzava os braços a frente do corpo e dizia rude:

— A fada está viva, não está? Já cumpro minha promessa apenas por não esganá-la cada vez que nossos caminhos se cruzam.

— A situação agora é diferente.

— Explique — exigiu.

— Ela irá ao Grande Conselho, muito longe da Floresta para que eu possa mantê-la a salvo.

— E onde isto me inclui?

— Irás com ela.

Não era um pedido, ou uma ordem. O elfo lhe dava uma notificação. Como se dissesse o óbvio. O mercenário o fitou por um momento, até esboçar uma expressão indecifrável.

— Ela não irá gostar disto.

— Sorte a tua jamais te preocupares com o que ela gosta ou não — o grão-senhor devolveu com um sorriso mínimo, abrindo a porta e dizendo antes de sair — Eles partem ao alvorecer. Não se atrase.

Notas finais
Gostaram? Amaram? Odiaram? Nos deixe saber! Nos vemos nos comentários. Bises, Layla & Amélia.