Forgotten Faces
13 Face To Face With The Past
Notas iniciais
Boa leitura.
POVJacky.
O sol surgia entre as nuvens dando um tom alaranjado ao horizonte. A manha acordara repentinamente lançando seus primeiros raios que transpassavam a pequena arredondada janela do avião. Deixei que meu olhar se perdesse em tal paisagem exuberante enquanto descansava a cabeça na poltrona, meu bom senso dizia que não passava de 06h00min. A essa altura percebi que já poderia religar o celular e sabia que precisava dar notícias a todas sobre a minha ideia de última hora, e também queria muito saber sobre Cristina, se pelo menos estava bem. Assim que a tela se ascendeu pude ver várias chamadas não atendidas e duas mensagens de Cristina.
A primeira dizia que havia recebido o guincho e o taxi e perguntava, em sua sutilidade de costume, onde eu tinha me enfiado. Já na segunda ela era perceptível a raiva e o desespero por não ter notícias minhas, ela falou ter me esperado por cerca de uma hora até o taxista dizer que eu havia ficado no aeroporto. Agora ela exigia explicações urgentes e também informava que já estava no nosso ônibus com as outras.
Já as várias chamadas se alternavam entre Lexie, Rose e o telefone do ônibus. Eu sabia bem o que me esperava do outro lado da linha, mas mesmo assim disquei o número e esperei que a ligação fosse completada para o celular de Lexie.
- GRAÇAS A DEUS SUA LOUCA! ONDE VOCÊ SE METEU?! TEM NOÇÃO DO QUÃO PREOCUPADA A GENTE TÁ ATRAS DE VOCÊ JACKY?- A voz alterada de Lexie ecoou em meu ouvido e chegou a ser percebida pelo homem de paletó sentado na poltrona ao lado, que dirigiu um olhar insatisfeito por ser perturbado. – ME DA UM MOTIVO... SÓ UM MOTIVO PARA EU NÃO ACABAR COM A TUA VIDA SUA FILHA DA PUTA ...
- Você não sabe onde eu estou. – Ouvi um grunhir estranho vir de sua garganta e então tentei me explicar o mais rápido possível. – Por enquanto. – Suspirei. — Lexie, eu tô no avião...
- Avião? Que porra...
- Para a Califórnia Lexie! – Passei a mão algumas vezes pela testa nervosa pela situação. Seu tom de voz diminuíra porém mantinha a tensão inicial.- Eu tô indo atrás dele.
- Onde exatamente?
- Não interes..
- ONDE JACKY ?! – Ela se exaltara de novo.
- Huntington Beach.
Um silêncio perturbador atravessou a linha, mordi o lábio esperando outra repreensão de Lexie que na verdade acabou por responder com uma voz preocupada.
- Jacky, você disse que nunca mais voltaria lá. Tá comendo merda?
- Não tenho escolha.
- Tem. Ficar aqui!
- Não, eu tenho que fazer isso! Olha eu já fodi com tudo milhares de vezes, me deixa fazer algo certe dessa vez.
- Algo certo?! Você... Como... – Ela respirou para conseguir formular algo. – Isso não vai fazer bem nenhum a você. Muito pelo contrário, esse lugar é sua ferida exposta Jacky...
- Eu disse que iria até o inferno por aquele idiota. – Fui firme em minhas palavras.
Mais silêncio.
- Você tem dinheiro?
- Acho que sessenta dólares e um cartão de crédito.
- Tá completo?
- Quase, só usei pra comprar a passagem. Tenho bem mais do que preciso.
- Quando você volta?
- Eu não sei Lexie... Olha se eu precisar de alguma coisa eu vou te ligar, está bem? Não se preocupe eu sei me virar.
- Não quer que eu vá com você? Olha me de notícias. Por favor, se cuida. – Ela se deu por vencida exausta.
- Pode deixar Lexie, e, por favor, avisa tudo pra Cristina ela deve estar caótica.
- Você não faz idéia.
Depois de resolver tudo relaxei completamente na poltrona deixando que minhas pálpebras descansassem e aos poucos todos os meus sentidos foram se esvaindo.
Meu sono foi interrompido com a chamada rouca do autofalante anunciando o pouso. Espreguicei lentamente olhando no relógio novamente, um cochilo de apenas duas horas não era bem o que eu queria depois de perder a noite toda nessa complicação, mas teria que ser o suficiente por enquanto. Levantei lentamente deixando a fina coberta vermelho-cobre de lado e me dirigindo ao banheiro. Precisava dar uma checada no meu estado geral antes de deixar o avião. Entrei no cubículo mal iluminado, meus ouvidos estavam entupidos com a pressão e minha cabeça pulsava tonta ainda com a ressaca do sono. Depois de usar o banheiro quase quebrei o espelho ao olha-lo observando milimetricamente meu estado.
O cabelo totalmente despenteado dava um toque selvagem á maquiagem borrada em volta do meu olho que estava avermelhado pelas poucas horas de descanso. A roupa era a mesma do show e em estado deplorável, amarrotada e húmida de suor. Respirei fundo e decidi que precisava dar um jeito na minha aparência para que não saísse do aeroporto direto para um hospício. Lavei o rosto tirando o excesso de maquiagem e todas as bordas borradas deixando apenas uma fina linha preta acima dos cílios para não ficar com a cara totalmente limpa. Passei os dedos entre as mechas escuras do cabelo tirando grandes nós e emaranhados, diminuindo seu volume depois o prendendo em um coque desarrumado com o elástico sempre depositado em meu pulso. Agora, em relação a roupa eu não tinha outra escolha a não ser esperar desembarcar e conseguir achar alguma loja de conveniências no aeroporto.
Voltei ao meu lugar sentindo-me mais aliviada, prendi o cinto da poltrona como o aviso mandava e fiquei observando a aproximação do solo. A cidade era comparável a uma maquete, vários quarteirões eram visíveis com suas moradias coloridas e simetricamente sincronizadas perto da praia, porém afastando a visão para a área periférica já era perceptível a carência e desorganização do subúrbio. O clima de Huntington Beach era ensolarado e fresco dando um ar alegre a cidade e a população praiana, que faziam a fama do local com seus surfistas e concursos de modelo.
A beleza do local mascarava sua verdadeira face, a pobreza e diferenças sociais rondavam por anos essa cidade. Preconceito era o pior deles. Era estranho estar de volta depois de tanto tempo, confesso que não mudara muito dês de a minha partida mas ainda me sentia desnorteada em minha própria terra afinal não me trazia boas lembranças.
O desembarque foi tranquilo, saímos bem em frente a uma praça de alimentação o que não havia percebido que precisava até sentir meu estômago roncar violentamente fazendo com que duas mulheres me olhassem de canto de olho. Sentei em uma das pequenas mesinhas de plástico e pedi um sanduíche de lombo canadense com suco de laranja, enquanto esperava meu pedido fiquei observando o local. Uma faixa branca escrita “Benvindo à Huntington Beach!” em azul adornava a saída do grande saguão para o estacionamento, o aeroporto era simples, entretanto muito bem organizado. Depois de olhar alguns quadros de aviso e balcões lotados de gente pude avistar uma galeria de pequenas lojinhas, provavelmente souvenires e miniaturas da orla para turistas retardados que colecionam tal tipo de coisa, percebi então que lá acharia algo limpo e mais adaptado ao clima para vestir podendo me livrar dessas calças compridas que me faziam assar junto com a blusa meia manga preta de tachinhas, isso porque já havia retirado a jaqueta vermelha de couro e apoiado no ombro. Minha testa escorria apesar do ar condicionado da lanchonete, mais alguns minutos e meu lanche estava esfumaçando em minha frente.
Estava delicioso, afinal fome é o melhor tempero. Depois de devorar como um animal o sanduíche, deixei o local me levando diretamente para as pequenas lojinhas do lado oposto da saída em que iria em breve. Passei por várias lojas me decepcionando com cada peça que encontrara, blusas altamente coloridas com frases marotas sobre Huntington Beach como “Estive em HB e lembrei de você” ou “O melhor lugar para quem quer amar- HB”. Pelo menos um short jeans escuro e desfiado eu havia conseguido nessa brincadeira toda. Finalmente encontrei uma pequena lojinha perto das últimas, provavelmente bem ignorada pelos turistas por não terem saco de andar até o final. Entrei e pude ver uma moça lendo jornal, sentada atrás do balcão. Era jovem, provavelmente da minha idade, óculos de sol na cabeça e um pequeno top rosa choque cobria seios fartos que insistiam em pular para fora. Ela me olhou de cima a baixo fazendo uma careta discreta.
- Fica a vontade. – Foi a única coisa que ouvi saindo de sua boca recheada de gloss.
Não me dei o trabalho de agradecer, olhei pelas araras alguma coisa menos chamativa porém todas as lojas pareciam receber o mesmo carregamento de blusas porcamente estampadas.
- Com licença – Me aproximei da mulher no balcão. – Você não teria nada menos colorido ou chamativo? Uma regata básica por exemplo...
Ela me encarou com cara de poucos amigos, pelo visto não fazia ideia de quem eu era, e fiquei grata de não ter alguém como ela escutando nossas músicas. Deu um pulinho da alta cadeira em que estava e bufando foi até uma pequena pilha de blusas azuis retirando a última fileira uma regata azul marinho bem escuro com a sigla “HB” bem pequena bordada em branco no lado superior esquerdo.
- É o que tem moça. – ela jogou para mim voltando ao seu lugar.
Bom, até agora era o melhor que eu tinha conseguido, sem falar que já tinha perdido muito tempo nisso tudo. Levei a blusa até o caixa e entreguei os quinze dólares do valor pedido. Voltei todo o caminho e fui até o banheiro do aeroporto , lá fiz questão de passar uma água no corpo antes de vestir a roupa nova e enfiando a velha na sacola, pude felizmente ir até a saída.
Em frente a porta de vidro parei alguns segundos para organizar os pensamentos. Agora tinha que tentar adivinhar onde conseguiria achar Jimmy. Acho que se tratando dele, seria provável que passaria em casa antes para dar notícia a seus pais. Ele sempre fora muito carinhoso, principalmente com a mãe. Ao passar pela porta senti na mesma hora o velho cheiro da água do mar misturada com um perfume floral que rondava a cidade. O cheiro da minha infância. Senti o estômago embrulhar um pouco, balancei a cabeça e fui até um taxi.
Eu não fazia ideia se eles ainda moravam na mesma casa, mas preferi correr o risco. Dei o endereço que lembrava e me joguei no banco de trás. Pude reconhecer facilmente muitas das ruas em que passamos mesmo estando um bocado diferentes. De longe passamos pela encruzilhada que levava ao antigo Huntington Beach High School e pude avista o prédio em sua cor bronze e palmeiras vívidas que demonstravam a entrada, fora apenas alguns segundos mas que me trouxeram a tona vários pensamentos. Mal sabia eu que o pior ainda estava por vir. Andando ainda, o taxi fez uma curva inesperada quatro quarteirões antes do bairro de Jimmy.
- O que houve? – Perguntei inquieta.
- Estão arrumando os buracos dessa rua, vou passar por outro lugar.
O problema era que esse outro lugar era exatamente minha antiga rua. Sempre moramos perto e eu já imaginava que teria que passar por aqui, mas não teria que entrar. Apertei o punho contra o estofado e prendi a respiração. A rua era praticamente a mesma, casas contornadas por cercas de corrente, algumas bem enferrujadas, e de pouca pintura. Era um bairro humilde e muitas já se encontravam em um estado bem pior. Jardins entulhados e cheguei a reconhecer uma senhora que estava a tomar sol na varanda. Dona Suellen, uma moça beirando os quarenta na época que fazia ótimos biscoitos de nata. Sempre que algo acontecia na minha casa ela me dava alguns tentando me alegrar, sempre fora uma mulher de bom coração, mas dês que fora deixada pelo marido se isolava de todos. Bem no meio da rua pude avistar minha antiga residência. Pedi que o motorista parasse por alguns segundos, eu precisava olhar de perto aquele lugar. A grama estava alta, provavelmente não era cortada há muito tempo, lixo se escondia em sua extensão, ocultando móveis apodrecidos e vários engradados de cerveja. As persianas das janelas da frente estavam dependuradas e quebradas, algumas pregadas com tábuas de madeira em uma inútil tentativa de tapar o sol. Sai do taxi e me aproximei à velha e corroída caixa de correio, prestando bastante atenção era possível ver o contorno da palavra “Flammer” já desgastada pelo tempo. Pousei minha mão sobre o latão enferrujado tentando me lembrar de alguma coisa boa. Era em vão. O pequeno portãozinho de aço da entrada estava a muito arrombado e naturalmente aberto. Cheguei a pensar se a casa havia sido abandonada, seria possível? Entrei tomando cuidado para não pisar em nada e evitando fazer qualquer barulho suspeito, contornei a casa chegando à lateral onde vi minha antiga janela fechada. Levei a mão até a vidraça turva e forcei-a para abrir. Ainda tinha o mesmo problema de sempre. Com facilidade pude subir para o parapeito e olhar por dentro do velho e antigo quarto, mal pude conter o espanto quando reparei que estava do mesmo jeito que tinha deixado, tirando que não se tinha mais nenhum pôster e retrato que eu mantinha nas cômodas. A velha colcha xadrez cobria a cama, porém com uma grossa camada de poeira sob a mesma. Minha escrivaninha era a mesma ,mas meus livros e cadernos haviam sumido e davam lugar a duas garrafas de vinho barato e várias marcas de copo. O armário estava entreaberto e pude ver enormes caixas de papelão mal fechadas empilhadas em seu interior. Todos meus pertences pessoais haviam sido removidos, e davam lugar a coisas aleatórias. Tive vontade de entrar e mexer em tudo, talvez recuperar alguma coisa velha que tinha sido esquecida no meio de todo aquele entulho, mas sabia que seria arriscado demais. Decidi então descer e voltar para o taxi, minha curiosidade já havia sido saciada, ou pelo menos a maior parte. Desci depositando as solas desgastadas de volta ao solo seco, fechei a janela e me virei para voltar. Foi nesse momento em que me joguei para trás colando as costas na parede tomada pelo susto do que acabara de encarar. Um homem velho de olhos avermelhados e barba mal feita me encarava segurando uma pequena garrafa de cerveja. Ele franzia o cenho em uma careta de descontentamento o cabelo mesclado de negro com grisalho estava desgrenhado com algumas guimbas de cigarro perto da orelha. Era uma figura monstruosa, desgrenhada e nojenta, em outras palavras, meu pai. Não foi difícil reconhece-lo, aquele olhar enojador ficara marcado na minha memória assim como a profunda cicatriz que atravessava seu nariz (obra da minha mãe junto à uma faca de cozinha depois de outra briga em que ele fora para cima dela).
- Quem é vivo sempre aparece. – Ele se aproximou. – Ou devo dizer que o passarinho voltou ao ninho?- Me mantive em silêncio, não consegui pensar em nada para dizer no momento. Estava tudo acontecendo muito rápido. – Veio dar um abraço no velho?
Notei que não havia qualquer outro movimento ali, um pensamento rápido me correu e então perguntei.
- Cadê a mamãe? – Arqueei a sobrancelha como quem não queria nada. – Cansou de servir como saco de carne pra você e se mandou?
Ele gargalhou. Uma gargalhada altamente doentia e rouca. – Aquela vadia? – Mudei para uma expressão de raiva. Por mais que ela fosse idiota, era a única que tinha o mínimo de preocupação comigo lá dentro. – Agora está explicado...
- Explicado?
- O porquê de você não ter aparecido no enterro.
Gelei. Esperava que não fosse exatamente o que eu tinha entendido. Pisquei algumas vezes e engoli em seco recompondo-me e mantendo-me firme.
- Ela...
- Tá morta sua garota miserável! – Gargalhou novamente. – Mortinha da silva, faz o que? Cinco anos? E você, como sempre essa pirralha mal agradecida que só quer saber do próprio rabo... Nem apareceu no enterro da velha. Mas você não ia se importar não é? – Ele deu uma longa golada na garrafa e cambaleou algumas vezes antes de continuar – Sempre odiou esse lugar, sempre foi “a coitadinha”. Sabia que ela sentiu muito a sua falta? Chegou a procurar pela cidade, mas eu sempre soube que você era mais esperta que isso..
Suas palavras ricochetearam em mim, eu deixei tudo para trás. Esse era o ponto, não tinha o direito de me sentir mal por nada e era estranho o modo como isso me atingira. Bem ou mal, ela era a minha mãe e eu me importei com ela o tempo que vivi lá. Me sentia a pior filha do mundo e isso não era novidade. Ela me procurou! Ela se importou o suficiente para isso, outro fator que agora pesava minha consciência.
- Como isso aconteceu? – tentei perguntar o mais firme possível.
- Aquela mulher infeliz se importava mais com os outros do que com ela mesma. No início foi só uma tosse... Mas ela estava ocupada demais pra perceber. Então tudo se agravou e não tínhamos dinheiro sobrando pra tratar, achei melhor então deixar pra lá. Voltamos pra casa e em algumas semanas ela bateu as botas.
- Talvez se você parasse de encher o rabo de bebida... TIVESSE ALGUM DINHEIRO SOBRANDO PRA ELA! ELA TRABALHAVA COMO UMA CONDENADA PRA SUSTENTAR UM VAGABUNDO COMO VOCÊ E EM TROCA DEIXA ELA MORRER COMO SE FOSSE UM ANIMAL QUALQUER?
- Olha só, a pequena tá se mostrando de novo... Você acha que tem o direito de levantar o tom de voz pra mim sua vadiazinha? – Ele se aproximou levantando a garrafa prestes a joga-la em minha direção. Sai da parede e corri para o outro lado deixando que o vidro se espatifasse contra a parede. – Eu devia ter te espancado mais quando tinha chance... EU DEVIA TER TE MATADO QUANDO TIVE CHANCE!
Ele não conseguia correr, mas cambaleava para cima de mim. Não era difícil desviar, mas no momento eu estava tomada por raiva e pânico.
- Sim, você devia! Mas foi idiota o bastante pra não faze-lo. – Dei as costas e fui andando apressadamente para o taxi.
Ele parou, tonto e exausto. Apoiou-se em um pedaço de madeira e continuou olhando enquanto eu corria.
- Pois saiba que foi tudo sua culpa! Se você não tivesse fugido ela nunca teria ficado até tarde procurando por você, ela nunca teria adoecido! Imprestável, só consegue causar mal a todo mundo! O melhor foi você ter ido embora mesmo e ter dado paz a minha vida! MEU MAIOR ERRO FOI TER POSTO VOCÊ NESSA MERDA DE MUNDO! TOMARA QUE SE JUNTE A UA MÃE LOGO... NO INFERNO!
Nesse momento fechei a porta e pude ver o olhar preocupado do taxista pelo retrovisor.
- Quer que eu chame a polícia moça?
- Não, tá tudo bem. – Eu estava ofegante, respiração dessincronizada. Pedi que ele continuasse o caminho, e disse que o pagaria pelo tempo parado também.
Um dos meus maiores problemas é simplesmente concordar com tudo que meu pai disse. Eu sou um desperdício de espaço, eu matei a minha mãe e não sabia disso. E se eu tivesse levado--a comigo? Ou buscado-a depois que consegui algum dinheiro? Merda, eu sou uma idiota. Ela me nunca irá me perdoar, se preocupou tanto com alguém que a deixou morrer sozinha com aquele traste. Não, ele também a matou! Mas nunca deveria tê-la deixado com ele, eu sei que ele nunca daria um centavo para ajuda-la.
Minha mente estava um caco, a cabeça começara a latejar e junto á isso o pensamento de que aquela viagem fora um erro. Bati a cabeça contra o vidro gelado e me perdi em algumas lembranças, em meio delas pude ver Jimmy, o antigo. Ele sorrindo e fazendo suas palhaçadas de sempre, e me dando seu sorriso em todas as horas. Os abraços, as brigas bobas, os beijos. Tudo isso me acalmou e fez pensar mais claramente. No final não estava aqui para rever aquele verme, estava aqui por algo bem maior e mais relevante e isso ajudou a me recompor.
Paramos em frente a velha casa branca com uma enorme garagem, jardim da frente bem cuidado assim como a senhora Sullivan sempre mantinha. Na caixa de correio o nome da família se encontrava e nesse momento senti alívio profundo. Desci do carro e entreguei o dinheiro para o motorista, com isso acabei com o resto de notas que sobraram na minha carteira. Avistei o veículo se afastar e encarei a casa por mais alguns minutos. Boas lembranças vinham dali, realmente muito boas. Eu e Jimmy costumávamos a ensaiar bateria na garagem dele, um pouco antes dos ensaios da banda, assim que acabávamos a Senhorita Sullivan trazia diversos biscoitos e sanduíches para nós e os garotos que chegavam. Era divertido, principalmente quando junto à eles vinham garrafas de vodka e whisky.
Cheguei até a pequena elevação que se fazia uma varanda e apartei a campainha. Dois longos minutos se passaram até que um homem careca de óculos atendesse a porta. Ele exibia um gentil sorriso no rosto e uma expressão calma, de cara pude ver que era o pai de Jimmy.
- Pois não? – Ele disse casualmente.
- Olá Senhor Sullivan. Acho que não vai me reconhecer, não é? – Falei timidamente e tentei dar um velho sorriso infantil.
Ele me encarou por alguns segundos pensativo, depois arregalou os olhos e veio até mim para um caloroso abraço.
- Senhorita Daniel’s! – Sim, ele me chamava pelo mesmo apelido. – Quanto tempo não a vejo! Como tem passado? Meu Deus! Barbara, corre aqui. Vem ver quem veio visitar a gente!
Passos apressados desceram a escada no interior da casa, logo depois a figura baixinha de cabelos curtos apareceu na porta. Ela também não me reconheceu de início.
- Olha bem amor, é a Jacky! Lembra? A amiguinha do Jimmy! Como você cresceu menina! – Ele continuava alegre e contente.
- Minha filha! Que bom poder te ver sã e salva! – Ela me abraçara apertado, tão gostoso quanto antes. Eles eram quase que meus pais adotivos e eu mantinha um carinho especial pelos dois. Nesse momento me senti mal por ter perdido total contato com ambos, e deixando-os preocupados, mas sei que no fundo eles entendiam. – Você está bem? Comendo direitinho? Há! Eu to sabendo da sua banda também! Estão ficando famosas sabia? Mas vamos entrar, eu vou preparar um lanche pra gente, temos muita coisa pra conversar.
Entrei e me acomodei no sofá de couro em frente a tv. A casa estava bem diferente, a decoração era mais moderna, várias fotos de Jimmy e a banda cobriam a parede atrás de mim, sem falar em alguns troféus em amostra nas prateleiras de louça. Eram pais bem orgulhosos, e diferentes da época em que Jimmy fora expulso de quase todas as escolas em que estudara e desistiu dos estudos. Os tempos mudam, no fundo eu era a única que acreditava no potencial dele, e sabia que ele não precisava de toda aquela bobagem para subir na vida. O senhor Sullivan sentouy do meu lado e conversamos por muito tempo, logo a senhora Sullivan se juntou a nós e assim ficamos por bastante tempo. Umas quatro horas da tarde e ei já havia contado toda a minha vida (e reencontro com Jimmy somado com desentendimento da Leana) para eles. Agora estávamos quietos e a senhora Sullivan se mostrava indignada.
- Pois eu sempre soube que aquela mulher não prestava, sempre tive a pulga atrás da orelha! Pobre Jimmy, meu filho! Você tem que falar com ele... – Ela suspiros e remexeu a xícara de chá que tinha nas mãos. – Pena que ele já passou por aqui, foi mais cedo.
- Mas vocês tem alguma ideia de onde ele possa estar agora? Eu estou perdida aqui. Tudo é velho, mas ao mesmo tempo novo pra mim.
- Já tentou ligar para ele? – o Sr. Sullivan endagou curioso.
- É complicado, ele não quer atender. Ele acha que se me deixar em paz vai ser melhor... Mas não é verdade... E eu preciso dizer isso a ele.
- Bom, tem esse lugar em que eles costumam se reunir... Mas não sei se eles já foram para lá. Costumam passar antes naquele velho estúdio onde começaram a gravar, lembra?
- Estive lá algumas vezes. – Disse.
- Pois bem, James falou que iria para lá antes de seguir viagem, no início achamos estranho eles quererem ir para a Europa tão cedo, mas agora as coisas parecem fazer mais sentido.
Merda.
Depois de uma longa despedida e recomendações de juízo, segui andando para tal estúdio. Agora estava sem carro e dinheiro, portanto o jeito era a pé, mesmo que isso levasse meia hora até lá. Com essa visita revitalizei a alma e pude seguir tranquila, meu único medo era chegar tarde outra vez, porque agora se ele fosse embora, eu não teria como ir atrás dele.
E isso era o suficiente para me fazer desmoronar, mais uma vez.
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