Forgotten

3 O estranho estrangeiro


Notas iniciais
Olá, pessoas! Sinceramente, acho triste ser tão difícil receber algum reconhecimento por uma história original aqui, por essa razão o livro está sendo postado no Wattpad, mas como ainda tenho esta minha antiga conta - e mantendo os livros antigos -, vou continuar compartilhando minhas aventuras literárias. Espero que gostem da Holly!

Professor.

Um pouco atordoada tentando encontrar o motivo de minha recente paralisia, permaneço tão impassível quanto o novo personagem diante de mim, o qual me encara com os castanhos e claros olhos. Ele aguarda pacientemente, de forma que se torne até mesmo estranho e assustador. O brilho no olhar é como o de uma criança que almeja o doce favorito.

O mais intrigante disso tudo é que, apesar da inexplicável aversão que os habitantes deste lugar têm em relação a mim, esse homem de impecáveis vestimentas e chapéu-coco, resolve aproximar-se e apresentar-se. Deveria ser comum, assim ele faz parecer. No entanto, o que vivenciei causa toda essa sensação de desconfiança.

Bem, é uma resposta plausível para o involuntário estremecer de meu corpo.

Abro e fecho a boca repetidas vezes na tentativa de articular algo. Por fim, acabo soltando a indagação mais inteligente da qual sou capaz neste instante:

— Como? — tombo minha cabeça levemente para o lado.

A expressão do homem de chapéu-coco torna-se mais divertida. Ele joga a bengala levemente para o ar, rapidamente, o objeto sobe e a mão enluvada segura firme no cabo de madeira.

Distraio-me com os movimentos circulares que o homem faz com a bengala logo em seguida, mas sua voz chama minha atenção novamente, fazendo meus olhos irem de encontro aos seus.

— É um prazer finalmente. — ele repete roboticamente.

Observo quando ele dá um elegante passo na minha direção. Eu recuo, quase tropeçando em uma irregularidade do chão. O homem dá um giro e se ajoelha na minha frente, tirando seu chapéu em um extravagante cumprimento enquanto põe-se de pé sem dificuldades ou falhas no processo.

— Pode me chamar de Professor. — ele ergue seus olhos castanhos para mim. Os centímetros entre nós me faz recuar, intimidada pela sua altura. Um sorriso satisfeito brota em seus finos lábios rosados.

Eu hesito.

— Professor?! — repito com uma voz esganiçada. Pigarreio e tento outra vez, mais baixo e lento. — Professor...

O "Professor" agita a cabeça, confirmando enquanto aloca o chapéu engraçado novamente em sua cabeça.

— Hm... — vacilo, começando a brincar com minhas mãos. Gaguejo. — C-certo... Quem é você?

Uma de suas sobrancelhas se ergue.

— Oras... Não me fará repetir, irá? — sua voz, suave e grave ao mesmo tempo, possuí um tom calmo. Ele troca a bengala de uma mão para outra. — Eu me chamo Professor e não, antes que pense em perguntar, não sou como todos esses seres medíocres desta... Deste lugar.

Eu olho para meus próprios sapatos.

— Bom... Isso é aparente. — murmuro.

— EI! — o Professor exclama indignado. — Eu ouvi isso, mocinha.

Suas expressões são tão exageradas que chega a ser cômico. Troco o peso do meu corpo de um pé para o outro e cruzo os braços. O Professor parece satisfeito. Então, ele dá um sorriso genuíno.

— Pois bem — ele ajeita seu paletó, apesar de estar perfeitamente vestido. — Vamos, vamos! Sei que está cheia de dúvidas nessa sua cabecinha de vento. Apesar de gostar de joguinhos, não me agrada quando sou uma peça no tabuleiro esperando pela sua... — ele me olha da cabeça aos pés. — Como disse mesmo que era o seu nome?

Eu hesito tentando processar as palavras rapidamente ditas pela sua voz tão agradável de ouvir. Ainda que sua personalidade agitada seja um pouco irritante.

— Eh... Eu não disse. — respondo confusa. Franzo o cenho. — Eu também não sei o meu nome... — digo corando.

— Como não sabe? — o Professor diz com falsa indignação conforme faz movimentos exagerados com as mãos. Ele para. — Oh, céus...

Seus olhos castanhos, quase que alaranjados de tão claros, me fitam por longos segundos até que eu diga. Seus dedos ameaçam tocar minhas bochechas.

— O que foi? O que há de errado? — preocupo-me.

— POW! — recebo um peteleco no meio de minha testa. — Você não se lembra. Oh, que... Surpresa. Eu já esperava por isso, na verdade. Sim, eu já esperava. Eu sabia.

Uma brisa fria levanta meus cabelos loiros. Tombo a cabeça para o lado e digo com um riso escapando com as palavras.

— Como poderia ser uma surpresa se o senhor já estava esperando por isto? — questiono.

O homem troca a bengala para sua mão livre e segura a aba de seu chapéu-coco por um momento. Um brilho distante e indecifrável afasta de mim aquele personagem elétrico e acrescenta-lhe alguns anos.

— Minha preciosa, é cedo para tentar pensar logicamente. — diz sem olhar para mim. — Aliás, tarde. — suas íris voltam-se para a minha face. — Acho que você entende o que é o mundo perder o sentido, ainda que esteja mergulhada na ignorância.

— O senhor diz como se fosse minha culpa. — interrompo horrorizada. — Eu não escolhi isso. Simplesmente acordei está manhã e não era mais a mesma. — hesito. — Eu nem me lembro do que é ser eu mesma.

O Professor semicerra seus olhos e ajeita sua postura.

— E quer lembrar? — ele sorri. Há algo em seu sorriso que me incomoda, um sentimento que não consigo reconhecer. — Quer se lembrar, criança?

Não penso duas vezes.

— É claro. Por que eu não iria querer?

Antes que sua voz interrompa o espaço preenchido pela vida urbana, ele hesita e alarga seu sorriso mais do que eu achei que pudesse ser possível.

— Tão ingênua quanto uma criança deve ser. — Seus dedos roçam as madeixas loiras e cacheadas ao redor de meu rosto. Não pisco, não me movo. Sigo seus movimentos com os olhos apenas. — Bom, se está tão determinada quanto ao que quer, eu não irei lhe ajudar.

Ele se afasta e vira as costas para mim. Eu me distraio por um instante, minha atenção presa ao seu caminhar sobre a grama, com uma leveza tal como se seus pés flutuassem sobre esta.

Então eu me dou conta do que ouvi.

— Espere... Hã?

Professor se vira para mim. Arregalo os olhos e o sentimento de medo invade meu corpo como uma doença.

— Perdão? — diz ele limpando a poeira inexistente de suas vestes.

— Como não vai me ajudar? — sinto minha garganta fechar. Está ficando mais frio. — Não pode me deixar sozinha, por favor, senhor. Eu não tenho ideia de quem eu...

Interrompo minha fala, surpresa com a risada fria e áspera que revela uma voz mais grave do que antes eu ouvia. Arrepio-me e engulo em seco.

— Claro que eu posso, minha preciosa.— a bengala completa círculos em seu dedo. — Mas, entenda. Eu não posso te ajudar.

— Por quê? — indago com insistência.

— Oras... — o Professor me dá um sorriso sem jeito, quase como se estivesse envergonhado. — Porque assim não teria graça.

Ergo minhas sobrancelhas.

Ok, este homem quer me tirar do sério? Isto me parece bem obvio, na verdade. O seu olhar o entrega e eu sei que demonstrar suas intenções de me provocar é intencional. Eu me sinto tão tola.

Antes que eu possa argumentar de volta, o Professor interrompe minha linha de raciocínio.

— Oh, tudo bem... — ele suspira vencido. Olha para meu rosto para conferir minha reação, mas eu apenas o encaro de volta sem entender. — Vamos lá. Não estrague tudo, está bem?

Eu assinto, ainda que eu não faça ideia do que significa "tudo".

— Você não pode, definitivamente, não pode — ele se aproxima e enfatiza cada palavra. Sinto-me uma criança quando ele agarra meus ombros. — Sair por ai falando com as pessoas como uma barata tonta. É irritante e entediante. — então ele afina a voz exageradamente e contorce a face em caretas. — "Ah, estou perdida", "Quem sou eu?", "Ajude-me!".

Afasto-me, livrando-me do aperto de suas mãos envoltas pela seda branca.

— Ei! Eu não falo assim. — protesto.

— Olha quem está falando! De repente, virou uma especialista em si mesma! — ele abre os braços dramaticamente. Sua voz é carregada de ironia. — Você não sabe do que está falando. Você não sabe nada sobre você. É uma amadora. Não insulte minhas habilidades de atuação.

Cruzo os braços e continuo escutando. Não tem como ter uma conversa séria com este cara, a não ser que ele introduza uma. Por conseguinte, que haja paciência.

— Tem que investigar. — resume. — Use seu pequeno cérebro e aproveite da sua "invisibilidade".

— Aproveitar da minha... — interrompo na metade. — Mas como posso fazer isso?

— Vamos pequena Holly — Professor me induz em sua linha de pensamento. — Se não consegue pensar, escute. Use seus ouvidos.

Ele se afasta e meu olhar cai ao chão. Esse homem está me dizendo para que eu ouça a conversa dos outros sem permissão? Por mais que eu não me veja no direito de fazer isto?

Engulo em seco. Não posso fazer isso, mas parece melhor do que esperar por uma ajuda que não virá. Ninguém iria me ver ou ouvir. Eu não correria riscos. Seria fácil, muito fácil. Ainda assim, errado. Eu penso que...

Espere um instante.

— Professor! — eu exclamo, mas quando olho para cima novamente, o homem do chapéu-coco não está mais em meu campo de visão.

Umedeço meus lábios e brinco nervosamente com as mãos. Fito um espaço vazio na praça por um tempo. A luz dourada do sol bate em meu rosto, mas não me incomoda. Distraio-me o suficiente reafirmando com minha renovada memória que aquela pessoa, o homem do chapéu-coco, deu-me um nome.

Vamos pequena Holly.

Sinto-me sem fôlego. Eu tenho certeza de que ouvi bem, mas...

Escuro

Medo

Ar

Sangue

H O L L Y


Uma ventania mais forte tira-me de meus pensamentos. Fecho meus olhos e levo meus dedos até as pálpebras. Sinto-me zonza. Não consigo controlar a tremedeira de meus membros e com dificuldade, permaneço de pé. A sequência de flashes, fragmentos de minha memória, acredito, veio como um forte soco no estômago e uma pancada na cabeça simultaneamente.

Demoro algum tempo enquanto espero pela estabilidade. Sento-me no banco e tento respirar. Quando tudo volta ao normal, dou-me conta do que acaba de acontecer, mas não reflito sobre isso. Sei que se eu o fizer, será mais doloroso e mais perguntas irão surgir. Então, eu procuro manter o controle e não pensar.

Acompanhando o vento, três pequenas borboletas negras passam por cima do meu ombro.

Use seus ouvidos.

Não é como se eu tivesse muitas opções.

E sem saber direito o que estou fazendo, sigo as borboletas.

Notas finais
Espero que tenham gostado deste capítulo. O livro terá muitos capítulos, é uma história grande. Ainda terá o segundo, o qual chamarei de Reminder. Espero que tenham gostado desta parte! Estamos apenas começando. Deixem suas críticas logo abaixo e favoritem ♥ Obrigada pela atenção Até mais e beijos azuis