Forgotten

4 Fleur de Lune


Notas iniciais
Personagens novos e algumas intrigas refletem neste capítulo! Espero que gostme Boa leitura! ♥

O transito de pessoas era maior naquele lado da cidade – uma longa, porém estreita, rua de comércios. A princípio, eu não estava olhando para aonde eu estava caminhando. Meus olhos permaneciam atentos na figura das pequenas borboletas negras que sobrevoavam perto de minha cabeça. Elas parecem feitas de sombras.

Neste momento, estou distraída na frente de uma floricultura, parada diante de alguns arranjos de flores brancas. São tão bonitas e claras que parecem brilhar. Foram elas que chamaram minha atenção para a Fleur de Lune – buquês e artigos para jardinagem. É uma loja espaçosa cujo movimento é tranquilo. Adesivos se destacam na vidraçaria, aonde posso ver uma garota de calça jeans, casaco cinza, cachos loiros e grandes olhos verdes e claros.

Afasto-me das flores e aproximo-me do vidro. A garota vem na minha direção com um rosto espantado e curioso. Ela segue meus movimentos. Meu coração acelera com a certeza de que ela me viu. O modo como ela me encara, como um animal cuidadoso, e a forma como ela se move na mesma velocidade que eu, mantenho-me em um curto transe.

Então, uma coisa muito peculiar acontece ao mesmo tempo em que sou invadida por uma sensação totalmente nova. Um frio violento atravessa meu corpo no instante em que vejo uma juba ruiva, literalmente, atravessando o corpo da menina loira. Arregalo os olhos e recuo assustada. Meu corpo inteiro estremece. Deixo a garota de lado e percebo aquela mesma cabeleira, vermelha como o fogo, balançando na medida em que uma mulher avança para dentro da Fleur de Lune.

Dos sinos na porta, um tinido se propaga. Hesito em uma confusão mental e quando saio desta, meus pés se apressam para passar pela porta que se fecha em câmera lenta.

No interior da floricultura, é tudo claro e tem cheiro de terra e plantas. Fico parada por um tempo na entrada observando aquela mesma mulher enquanto ela vasculha uma prateleira. Não sei exatamente o porquê estou aqui, mas permaneço atenta a cada detalhe em vez de ir embora.

Os sinos da entrada anunciam a presença de novos clientes. As vozes de dois adolescentes, uma garota e um garoto, chamam a minha atenção. Esqueço-me da ruiva por agora.

— É rapidinho – a garota diz para sua companhia. – Vou só comprar algumas sementes e um regador novo para minha mãe e poderemos ir.

O rapaz suspira impaciente. Ele segura uma bolsa de gelo perto de seu olho.

— Falou. Mas anda logo. – respondeu seco.

Neste instante eu me lembro do que o Professor me disse. Fico um pouco nervosa enquanto a voz calma e grave ecoa em meus pensamentos.

Use seus ouvidos.

Eu me aproximo dos dois, dando uma rápida olhada para a mulher ruiva – não entendo esta preocupação com uma moça que mal conheço. Estremeço.

A não ser que eu me lembre.

Sacudo a cabeça, livrando-me de minhas dolorosas expectativas.

Volto-me para o casal. Em vez de se irritar, a menina gargalha em deboche.

— Ainda está bravinho por causa da surra que o De Angelis te deu? Quem mandou mexer com o filho do homem mais rico e influente da cidade?

— Cala a boca e compre logo o que precisa. – apesar do tom ameaçador que o garoto usava ao falar, a menina não se intimidava. – Não me olhe assim. Você sabe que aquele babaca do Spencer merecia uma bela surra. E eu consegui acertar ele.

— Ronald, é sério. Se o Sr. Jenner não tivesse interferido...

Ronald bufa e revira seus olhos escuros. Em seguida, ele interrompe a fala da amiga com uma voz aguda forçada.

— Você ia virar enlatado de Ronald. – provoca. – Tá. Já cansei de ouvir isso hoje.

Sigo os dois. A menina desvia sua atenção para uma pilha de vasos de plástico. Percebo que ela esconde um sorriso sapeca.

— Eu ia dizer que você ia virar o peru de Natal de Spencer De Angelis.

— Spencer De Demonis, você diz.

A menina ri e por algum motivo, isto me aquece por dentro. A risada dela é tão contagiante que eu sorrio também. Então, o rosto dela fica sério. A franja de seu cabelo curto e escuro forma uma sombra em cima de seus olhos.

— O que foi? – Ronald toca seu braço. – Ei, Jessica...

— Ela já me disse algo parecido. – os olhos escuros e brilhantes se voltaram para o garoto. A luz artificial do local faz sua pele negra reluzir. Havia algo misterioso em seu semblante – Você sabe...

A forma como ela abaixa o tom para falar faz o ar ficar mais pesado. Contraio os ombros.

O jovem ao seu lado umedece os lábios e parece prender a respiração. Ele assente ao desviar do olhar da amiga.

— Eu... Meio que me inspirei nela para a confusão de hoje. – Ronald assume. – A diferença é que... Acho que pareceu menos legal quando eu resolvi arrumar encrenca com o De Angelis.

A morena riu com tristeza.

— Ei... – ela chamou sua atenção. – Foi bem legal até... Claro, seria mais legal se você virasse enlatado. Já imagino a sua cara de idiota amanhã na escola.

— Vai se ferrar, Jess. – o rapaz disse aumentando seu tom de voz. O clima entre eles pareceu se estabilizar.

Eu me afasto. Era estranho estar tão perto das pessoas e elas nem ao menos repararem em mim. Claro, tenho que admitir que é muito vantajoso, mas eu prefiro não estar em uma situação como aquela.

Infelizmente, minhas preferências não são consideradas pelo ser supremo que controla isso tudo.

Apenas gostaria de saber quem seria esta "ela" da qual aqueles dois falavam com tanta hesitação e cuidado.

Um estrondo faz com que todos no local parem suas atividades e voltem seus olhares para o caixa da loja. Encostada na parede ao lado de algumas revistas de jardinagem e pás, eu observo a cena curiosamente.

Uma funcionária, uma jovem baixa de pele parda, com os olhinhos escuros e levemente puxados, jogava-se por cima do balcão para segurar um monitor que estava indo em direção ao chão. Uma caixinha havia espalhado várias moedas pelo chão. Sinto pena da garota e depois, olho para a mulher com os cabelos ruivos e cacheados.

Eu me aproximo delas hesitante. A mulher ruiva, cujo rosto parece cansado e infeliz, respira pesadamente. Os artigos que havia coletado das estantes estavam caídos aos seus pés dentro de dois sacos marrons. Os olhos claros e arregalados me fizeram recuar alguns passos.

— Não ouse se intrometer na minha vida! – sibilou a mulher, seus olhos lacrimejavam. – Sua fofoqueirinha medíocre!

A garota puxava o monitor de volta para o balcão lentamente, seus olhos jamais desgrudando do rosto da mais velha. Um homem com o mesmo uniforme verde tentou aproximar-se da ruiva.

— Sra. Winter, por favor, acalme-se... – o funcionário pediu. – Poderia tomar um copo d'água, sente-se por aqui.

— VÁ PARA O INFERNO COM A SUA ÁGUA – escandalizou o homem enquanto agitava os braços no ar para afastá-lo dela. – VÃO PARA O INFERNO TODOS VOCÊS.

A moça parda abre e fecha a boca repetidas vezes, porém nenhuma palavra saia pela sua boca. Suas bochechas estavam violentamente coradas. Seus ombros erguiam-se com cada grito da senhora ruiva.

— Quer saber?! – gritou a ruiva. – Vocês não sabem de nada! São todos idiotas que não tem o que fazer senão tomar conta da vida dos outros. Não se metam comigo, ouviram?! Eu vou ACABAR com o próximo fofoqueiro que me aparecer. EU TENHO UMA ARMA!

Ela se abaixou para pegar suas sacolas, lançou um último olhar furioso na direção da menina no caixa e, com passos largos, avançou para a saída, esbarrando em um garoto de cabelos cacheados e camisa xadrez que entrava no mesmo instante. Abaixei os olhos e cerrei minhas mãos em punhos.

Indaguei-me silenciosamente o que poderia deixar uma mulher tão desequilibrada daquela forma. O funcionário — que tentara controlar a situação há alguns instantes — procurava desculpar-se pelo transtorno. O garoto que acabara de entrar na floricultura passou por mim e começou a ajudar a menina no caixa.

— Ei, Nora Jafari – a voz do garoto faz com que meus olhos apontem diretamente para seu rosto. Analiso-o por alguns segundos. Seus cachos são levemente acobreados. Seu queixo pequeno tem uma linha divisória.

— Ei, Ansel Norton. – a menina deu um sorriso fraco e nervoso. Ainda estava alterada pelo último episódio. Sua voz tremeu um pouco, mas não saiu baixa.

Eles trocaram mais algumas palavras. O rapaz abaixou-se para catar as moedas ao lado da funcionária. Observei mais alguns minutos, até mesmo ousei chegar bem perto do rosto do garoto.

Ansel Norton. Sim, eu me lembrava dele. Não pelo nome, mas pela aparência e pelos fones brancos pendurados.

Era o cara da bicicleta.

Olhei-o mais de perto e afastei-me. Sim, com certeza era ele.

Sou invadida por uma revolta e um desejo imenso de não ser invisível para poder dizer algumas coisinhas para este moço. Apesar de saber que, se ele tivesse me visto, não teria jogado sua bicicleta para cima de mim, a teimosia insistia em alimentar a culpa que eu jogo sobre aquela figura.

Suspiro.

Não é justo.

— Eu deveria voltar depois? – ele pergunta para a funcionária enquanto ambos se erguem do chão.

A garota nega com a cabeça imediatamente. Percebo que suas mãos tremem um pouco. Sua mente parece dividida entre o presente e o momento que se passou há alguns minutos.

— Sem chance. – Nora disse. – O dia em que Ansel Norton não pegar suas flores semanais, não sei o que será do universo.

O cara da bicicleta alarga seus lábios em um sorriso sem dentes. Ele parece envergonhado. Suas bochechas coram levemente.

— Eu... Não... – ele se embola com as palavras. Se eu não estivesse irritada com ele, diria que o acho uma graça. Um garoto delicado como as flores brancas que Nora Jafari está segurando e pondo sobre o balcão. – Bem...

Nora pisca para ele.

— Relaxe, Norton. – diz para acalmá-lo. – Eu te entendo. É o seu conforto, não é mesmo?

Os ombros largos do rapaz se abaixam quando ele suspira profundamente. Ele não diz nada. A menina atrás do balcão encara seus olhos com compaixão. Ela está prestes a dizer alguma coisa quando uma mulher rechonchuda de pele escura surge dos fundos da loja com uma voz esganiçada.

— Por favor, não me diga que aquela lunática da Olívia Winter veio aqui arrumar confusão de novo – disse a mulher exasperada. Ela usava uma blusa com estampa de tigre e calças pretas. Brincos de argola balançavam em suas orelhas e o cabelo castanho estava perfeitamente penteado, alcançando seus ombros. – Na próxima vez que eu a ver, eu juro, vou arrancar a pele daquela maluca.

— Senhora Belmont. – Nora a cumprimenta enquanto realiza a compra das flores.

Sra. Belmont arqueja.

— Atrapalhando os negócios. É isso que ela faz quando não está perturbando a vida de alguém. – põe a mão gordinha na cintura.

— Obrigado, Nora. – Ansel diz pegando as flores.

— Diga para ela que mandei lembranças. – responde em despedida.

Ansel simplesmente confirma com a cabeça inexpressivamente e afasta-se. Eu olho enquanto ele sai e depois, volto minha concentração para o diálogo que se segue com a Sra. Belmont e Nora Jafari.

— Tenho até pavor de imaginar o que acontece naquela... – Sra. Belmont continua reclamando. Suspira. – Chame aquilo do que quiser, exceto de casa, de lar. Pobrezinha da pequena Sadie... Não é atoa que a garota é um problema ambulante.

Nora não retira seus olhos do monitor. Ela termina de atender um idoso quando se volta para a mulher atrás dela.

— Acha que ela ficará bem? – pergunta com certo receio. Reforço minha atenção agora que estou debruçada sobre o balcão. – Essa menina...

A Sra. Belmont revirou seus olhos escuros e esbugalhados e fungou. Com um gesto com a mão respondeu:

— Desde o dia em que Sadie nasceu nos braços dos Winter, qualquer um pode ter a certeza de que aquela garota nunca esteve bem e nunca vai estar.

Estremeço e uma onda de fragmentos de memória me atinge, fazendo com que eu me curve com a tonteira. Escorrego para o chão e estico as pernas segurando as laterais de minha cabeça.

Couro

Marrom

Sorriso

Preconceito

Cigarro

Procuro controlar a respiração. Em minha cabeça pulsa uma dor que diminui na medida em que eu focalizo o cenário ao meu redor. Quando finalmente recobro os sentidos, levanto-me com certa dificuldade. Minhas mãos tremem enquanto meus pés se movem na direção da saída. Puxo a porta e os sinos tocam. Paro para ver se alguém reparou a minha movimentação, mas está tudo correndo normalmente dentro e fora da Fleur de Lune.

Talvez eu deva concordar com o tal Professor.

Apenas escutar pode ser muito interessante.

Notas finais
Gostaram? Deixem suas críticas logo abaixo, apenas não queimem meu coração. Obrigada pela atenção ♥ Beijos Azuis Logo teremos mais!