Forgotten
2 Garota invisível
Notas iniciais
From the Stalls — Angus And Julia Stone
Ajeitei-me para poder observar o relógio de um homem. Eu sabia que não adiantaria começar um diálogo novo, do mesmo jeito que de nada me serviria saber como os ponteiros estavam dispostos, mas eu já estou sem nada para fazer, então, simplesmente saciei um pequeno impulso. Afinal, que objeto estranho, o relógio. Tão complexo e, para meu estado de amnésia atual, tão inútil.
Mas qualquer coisa para que, mesmo momentaneamente, eu possa me distrair da situação em que me encontro.
Eu me sinto um verdadeiro fantasma neste lugar. Eu devo ter algo de errado, pois ninguém ousa interagir comigo. Seria algum preconceito ou estou violando algum código proposto pelos moradores? Não importa. Ainda assim, não deveria ser comum ignorar uma visitante, porque claramente não sou daqui.
Bem, posso ser, porém eu não me lembro. Prefiro pensar que não pertenço a estas ruas e que não trato os outros com indiferença, pois isto é grosseiro. Disso tenho certeza.
Abordei diversos sujeitos conforme me locomovia, mas nenhum deles deu-me atenção. É como se eu não existisse. A cada vez que alguém passava por meus pedidos de ajuda, a cólera preenchia meu rosto com o calor.
Quanto mais tempo eu fico aqui, mais frustrada eu me sinto. Tudo me irrita profundamente: As nuvens carregadas, pessoas apressadas, os sons altos provocados por carros e motos, as luzes que começam a acender no topo dos esguios postes.
Em algum momento, eu paro na beira de uma calçada e sento-me ao meio-fio. Fecho os olhos em uma tentativa ridícula de fugir de toda aquela visão. É estressante. Penso em como o universo, destino, seja lá o que for que esteja no controle por trás de tudo isso, está sendo cruel comigo. A única coisa que eu quero é sair desse ciclo.
É pedir demais?
Abraço-me apesar de não sentir frio. Observo meus próprios pés, os tênis rosados neles calçados estão sujos de lama, o que é estranho e não faz sentido, considerando que não andei por nenhum lugar em que eu pudesse manchá-los daquela forma. Minha calça jeans tem riscos coloridos, provavelmente feitos à caneta. São linhas tortas e que não representam nada se não descuido ou tédio — não tenho certeza.
É estranho que até agora eu não tenha parado para olhar minha própria figura. É uma distração de qualquer forma.
Uma brisa faz com que meus cachos loiros batam em minha face. Nesse momento, um cão labrador preto para ao meu lado. Olhos voltados para o meu rosto. Eu o encaro de volta enquanto o animal fareja o ar ao meu redor.
Eu me pergunto se ele consegue sentir minha presença ali. Infelizmente, um cachorro não pode me ajudar. Meu olhar paira a frente e o cão, após alguns segundos, coloca-se diante da minha visão, língua para fora, respiração ofegante e rabo agitado. Ele é grande e bonito. Observo uma coleira vermelha ao redor de seu pescoço. Há um nome em uma plaquinha dourada.
Lacey.
Eu encaro o animal por um longo tempo. Ele continua a mover o rabo. Aproxima o focinho de minha mão.
— Talvez cães sejam melhores do que humanos. — comento com base nas minhas últimas experiências. Hesitante, passo meus dedos pelo topo de sua pequena cabeça. — Está perdido também, não está?
Toco o pedaço de couro que o envolve, o cão choraminga. O focinho roça em minhas pernas. Suspiro e me sinto satisfeita. Tenho me sentido muito solitária. Isolada, apesar de estar rodeada de pessoas. É a primeira vez que um ser vivo interage comigo desde que despertei naquela igreja. Permito que um pequeno e rápido sorriso se forme em meu rosto.
— Não temos muita sorte. — tombo minha cabeça para o lado. Recebo uma lambida em minha mão como uma resposta.
Repentinamente, o cão perdido se afasta de mim, soltando um latido. Ouço o barulho de uma bicicleta e quando viro meu corpo, um rapaz de cabelos cacheados e castanhos avança sobre mim.
— Ei! — eu solto.
Levanto-me do chão em um instinto, desviando quando o garoto estaciona a bicicleta amarela na beirada da calçada, exatamente onde eu estava sentada há alguns segundos. Encarei o rapaz com indignação.
— Você não me viu aqui, idiota? — aproximo-me. Por sua vez, o garoto apenas se afasta retirando os fones de ouvido. De repente, o que eu disse parece uma piada para mim. É fácil esquecer que sou invisível quando, na verdade, sou aparentemente igual a todos aqui.
Levanto meu pé em direção à bicicleta, golpeando-a com raiva. O garoto reage ao estrondo e volta a passos apressados para o objeto derramado à calçada e ajeita-a.
A este ponto eu já estou caminhando para longe, minha pele queima com o misto de emoções.
É tão injusto.
Meus olhos se enchem com lágrimas e eu começo a soluçar descontroladamente. Eu não aguento mais. E não tenho opções para desistir. Desistir significa aturar esses ciclos infinitamente até a morte. A não ser que a morte também resolvesse me ignorar. Seria demais para que eu pudesse suportar.
Meus pés interrompem o percurso. Tudo fica turvo e novamente, sou puxada para um mar confuso de vozes e cores. Silhuetas distorcidas que poderiam ser pessoas. Luzes que cegam. Escuridão que causa a perdição. Tudo ao mesmo tempo.
Quente.
Estrelas.
Verde.
Medo.
Solidão.
Muito quente.
A estranha realidade volta a ser focalizada pela minha mente. Esses tipos de flashes me enchem de expectativas todas as vezes em que ocorrem. Novamente, consigo captar apenas poucos elementos. É frustrante, mas me dá esperanças de que minha memória esteja em algum lugar em meu subconsciente, esperando que algo a desperte para que assim eu possa me lembrar de tudo.
O labrador, Lacey, está tentando chamar minha atenção lambendo minha mão e cutucando minhas pernas com o focinho. Já até mesmo havia me esquecido de minha mais nova companhia.
Respiro fundo, fecho os olhos e acalmo-me. Eu fico muito nervosa quando um evento desses ocorre. Abaixo os olhos para Lacey.
— Ei... — digo-lhe. — Está tudo bem.
E por alguma razão, ele me segue. Isso me deixa mais tranquila para enfrentar o mundo. Presto mais atenção aos detalhes do que às pessoas desta vez. Neste lado há uma quantidade maior de comércios do que de casas. Há uma distância razoável, avisto uma praça verde que me chama a atenção.
Relaxo os ombros e permaneço de pé observando.
— Gostaria de pelo menos saber onde eu estou. — suspiro.
Lacey passa por mim e começa a correr atrás de pássaros, quase derrubando uma criança no caminho. Olho ao redor e aproximo-me de uma banca de jornal. Um velho senhor está manuseando uma caixa de música por trás de um pequeno balcão de revistas. Eu não tento falar com ele, apenas me abaixo para olhar as revistas e tentar adquirir alguma informação.
Desde que despertei, não tentei ler nada. Forço um pouco a vista em confusão quando me encontro com as pequenas letras. De início esqueço-me do significado de algumas palavras. É como um código, mas aos poucos o deja vu me leva a compreensão do inglês.
É dia 21 de novembro do ano de 2010. Meu cérebro persiste me dizendo que há algo errado com aquela data, mas eu ignoro o instinto e procuro por mais informações além da retirada de tropas americanas do Iraque e o novo filme do Tim Burton com o Johnny Depp.
Desisto e olho ao redor a procura de Lacey. O cachorro corre até a praça e eu vou atrás com passos lentos e calculados. Tomo cuidado para não esbarrar nas pessoas. Desvio de um dos pássaros que corta meu caminho.
Meus pés afundam na grama que cobre a praça. Há brinquedos em um canto, que são rodeados por três crianças e uma mulher. Ainda com a presença destes personagens, o local parece deprimentemente calmo.
Eu me aproximo de um banco de madeira solitário embaixo de uma árvore cujas folhas se espalham pelo ar, criando uma pequena cobertura sobre o assento. Uma garota de cabelo curto, liso e negro está sentada com um livro em mãos. Eu olho para a capa do livro, obviamente não reconheço o título. Percebo que com minha aproximação os ombros da jovem contraem e seus dedos seguram o livro com mais firmeza.
Meu coração dispara.
Eu tenho medo de pronunciar-me, mas nada tenho a perder, exceto um pouco de dúvida.
— Com licença? — murmuro para a garota.
Ela não olha para mim, mas percebo o movimento em sua garganta quando ela engole em seco. Suas pálpebras tremem. Seus pés batem no chão.
Está nervosa e eu compartilho do sentimento. Começo a brincar com minhas mãos devido ao impulso.
— Você pode me ver. — concluo e o tom de minha voz se eleva, deixando a menina mais agitada. — Não pode?
O que acontece em seguida era totalmente inesperado uma vez que tenho sido ignorada por todos os habitantes desta cidade. A garota abre os lábios e eu não consigo mais controlar minha respiração.
— Vá embora. — ela simplesmente solta.
Meus ombros se encolhem.
— Oh meu Deus. — digo. — Você pode me ver. — estou sorrindo.
A garota parece impaciente, mas eu ignoro. Encho-me de esperanças, é inevitável.
— Você tem que me ajudar. — continuo. — Por favor. Ninguém quer me ajudar. Eu não me lembro de quem sou, não sei onde estou. Preciso de ajuda, por favor. — o desespero toma minha voz e atropela as palavras umas nas outras, de forma que dificulte o entendimento de minhas falas.
Ela ainda não olha para mim.
— Saia de perto de mim! — ela exclama, fechando o livro.
O som ecoa na minha mente. Sinto minhas expectativas evaporarem uma a uma.
— Desculpe? — digo confusa. — Eu não... Eu disse alguma coisa que...?
Mas ela não está disposta a me ouvir mais.
A garota se levanta e começa a se afastar, mas eu estou em pânico o suficiente para ultrapassar os limites que ela está impondo a mim. Eu estou cansada de ter as pessoas me ignorando. Não posso deixar uma oportunidade como esta passar assim.
— Espere! — eu grito para a moça e me jogo em sua direção, tropeço em meus próprios pés e quando estou prestes a tocar em seu braço, a garota apressa seus passos para longe de mim. — Eu só...
— NÃO SE APROXIME! — ela berra no meio da praça, chamando atenção de algumas pessoas.
Lacey começa a latir ao meu lado.
Sinto inveja. Por mais que eu grite, ninguém olhará para mim. Meus lábios tremem e eu não consigo mover meus pés. Estou decepcionada olhando minha última esperança se afastar. Tento me mover, mas algo me impede. É como uma força invisível que me prende a terra.
Depois que a garota realmente desaparece, esta força liberta minhas pernas.
Caio de joelhos na grama e Lacey choraminga ao meu lado. Seu focinho passa pela cortina de cachos claros que tampa uma parte do meu rosto e o cão começa a lamber minha bochecha, onde uma lágrima escorre.
A decepção abre espaço para a raiva e eu começo a dar socos no chão e grunhir.
— Por que isso está acontecendo comigo?! — eu grito para o nada. Lacey apenas me observa em meu momento de ira.
Levando-me do chão e chuto uma lixeira vazia, Lacey se afasta, correndo para longe de mim. Não tenho sanidade para processar a atitude do animal. Apenas continuo dialogando com o nada.
— É tão difícil dar uma simples informação?! — estou ofegando. Lágrimas escorrem descontroladamente. — São todos loucos neste lugar?
E por mais incrível e assustador que isso possa parecer, o nada me responde:
— Minhas mesuras, meu anjo, mas a única louca aparente é você.
Arregalo os olhos e tampo minha boca, segurando uma exclamação. Um homem com um sorriso sonhador e brilho divertido nos olhos castanhos me encara. Ele usa um paletó negro por cima de uma camisa social de tecido claro. Um chapéu-coco esconde a maior parte de seu cabelo negro. Sua pele pálida demonstra uma idade que ultrapassa os trinta. Sua mão esquerda apoia-se em uma ilustre bengala.
— Olá, minha preciosa. — ele retira o chapéu-coco e faz uma reverência. Sua voz de veludo flui com um sotaque britânico — É um prazer finalmente nos encontrarmos. Chame-me de Professor.
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