Forever My Children
1 Capítulo I
Notas iniciais

A manhã estava começando, mas já formava um grupo considerável dos que tinham acordado. Dentre esses, se encontravam na sala em que costumavam fazer as refeições, a maior parte da Shinsegumi, os Shimura e Kagura, que, no entanto, dormia sobre o braço, não se preocupando em ser mal-educada enquanto babava. A conversa fluía normalmente, começando mais uma semana que seria bem cheia e trabalhosa.
A cidade estava sendo reconstruída aos poucos e, por esse motivo, o dojo de Otae e Shinpachi havia se transformado na moradia temporária da maior parte dos que estavam na linha de frente da guerra, como a Kiheitai, parte do Joui comandado por Katsura e, obviamente, os moradores mais desordeiros do Distrito Kabuki. O quartel general da Shinsegumi havia sido cedido a moradores de Edo, que haviam tido suas casas destruídas, e por isso os policiais também estavam ali. O local estava bem cheio e costumava ter bastante movimento durante o dia inteiro, já que os mais baderneiros de Kabukicho se encontravam no mesmo lugar. Isso, contudo, não atrapalhava em nada o sentimento de alívio e descontração que reinava por ali, considerando que finalmente haviam vencido a guerra e agora as coisas iriam voltar ao normal.
Completavam-se dois dias desde que Gintoki, junto dos outros quatro companheiros da Shouka Sonjuku, derrotou Utsuro. Mesmo que o ser não tivesse sido morto, já era um alívio saber que estava impedido de continuar com seus objetivos. Utsuro se encontrava agora ainda inconsciente, já que a altana extraterrestre utilizada contra ele, mesmo não o matando definitivamente, possuía efeitos adversos sobre o organismo do imortal.
E era exatamente sobre isso que os presentes no café da manhã agora conversavam.
― Mas você tem certeza de que aquele Utsuro está morto? – perguntou novamente Shinpachi, ainda não gostando da ideia de um monstro como aquele estar hospedado em sua casa.
― Absoluta. – Umibozu, que chegara ali na noite anterior, confirmou. ― O Utsuro que conhecemos nessa guerra está morto e não voltará mais. Agora basta saber o que irá acontecer. Pode ser que ele volte a sua personalidade original, se podemos assim dizer, ou pode ser que uma nova personalidade surja. Ou ainda que alguma das anteriores renasça. Eu não faço ideia. – afirmou dando uma mordida em seu bolinho de arroz. ― A única certeza que tenho é que aquele Utsuro está morto.
― Mas então há a possibilidade de renascer uma personalidade tão assassina quanto a que foi morta! – exasperou-se o de óculos.
― Sim. – o yato deu de ombros, não dando muito importância ao desespero dos presentes com a confirmação.
― Mas só saberemos quando ele acordar, não é mesmo? – pronunciou-se Sougo, em seu tom costumeiramente tedioso. ― Então vamos nos preocupar com isso depois. – desdenhou o assunto.
― Acho que podemos passar a nos preocupar agora, capitão Okita. – a voz de Yamazaki surgiu na porta, que separava o quarto em que o suposto Utsuro estava da sala em que se encontravam, chamando a atenção de todos.
― Não me diga que... – começou, supondo, Hijikata, ganhando a confirmação do subordinado.
― Ele acordou.
(...)
― E então? Você ainda está a fim de destruir a Terra? – Umibozu perguntou, prostrado ao lado da cadeira em que haviam o prendido, pronto para atacar qualquer fosse o movimento dele. Embora realmente duvidasse muito que o homem que estava à sua frente fosse tentar qualquer coisa parecida.
― No momento acredito que eu não esteja propenso a fazer isso. – respondeu tranquilamente.
― Bem, então podemos soltá-lo. – anunciou Umibozu, para a surpresa de todos.
― Umibozu-san! Não seja imprudente! – Yamazaki se alarmou. ― Como vamos ter certeza de que ele não está mentindo?!
― Ele não me parece estar mentindo. – Kondou ponderou, analisando, de braços cruzados.
― Kondou-san, para alguém como você, as pessoas nunca estão mentindo. – Hijikata comentou, tragando seu cigarro, observando a cena da porta.
― É verdade, Kondou-san. – Shinpachi concordou, sendo completado por Kagura, que sugava seu sukombu.
― É! Porque o Gorila é um idiota.
― Eu não disse isso! – o otaku gritou ao seu costume.
O comandante riu.
― Eu realmente costumo agir como um de vez em quando. – concordou descontraído.
― E então? O que vamos fazer? Deixá-lo amarrado sob tortura pelos próximos séculos? – Sougo sugeriu entediado.
― Eu agradeceria se não seguissem essa sugestão. – a voz do prisioneiro voltou a ecoar, ainda de forma tranquila, embora agora sorrindo para a multidão que se encontrava ali para decidir seu destino.
O quarto estava lotado, considerando que praticamente todos os atuais moradores do dojo observavam a situação. Os únicos que não se encontravam ali eram os que estavam de ressaca por conta da noite anterior.
E foi exatamente esses a quem Umibozu se referiu em seguida.
― Vá acordar os idiotas. – pediu à Kagura.
No entanto, não foi preciso Kagura se retirar do lugar, porque um grito muito agudo e barulhento provavelmente já havia acordado o bairro inteiro. Com isso, quase todos seguiram de volta ao cômodo em que antes estavam e não entenderam muita coisa da cena que ali se desenrolava.
Dois garotos estavam atracados com um terceiro no chão, enquanto uma menina e outro garoto observavam a cena, ainda parecendo perplexos com o que quer que fosse que estivesse acontecendo ali.
― Foi você quem arranjou confusão com ela! A culpa é sua! – bradou o de cabelos escuros curtos e olhos verdes vivos, enquanto tentava socar o de cabelos prateados e bagunçados.
― Nem vem com essa, seu maldito! Foi o Zura que disse que ela tinha a cara de um chi*po! – retrucou tentando se defender dos golpes dos dois e atacar de volta.
― Zura jyanai! Katsura da! E não coloque a culpa em mim! Foi você quem fez ela perder a paciência!
― Oe. – chamou um tanto receoso o quarto garoto, dotado de cabelos cinza, também bagunçados, e uma cicatriz cortando seu rosto. ― Será que poderiam parar? Temos mais com o que nos preocupar além de quem foi a culpa disso tudo. – tentou intervir, embora sem sucesso. ― Oe! – chamou mais uma vez, vendo que não havia alcançando seu objetivo.
Iria chamar pela terceira, agora perdendo a paciência, mas fora interrompido pelo barulho da cadeira de madeira se partindo sobre os três. Arregalou os olhos, junto de todos os espectadores, ao ver a única menina dentre os cinco com um pedaço de um dos pés do móvel em mãos e os garotos briguentos largados no chão.
― Por que fez isso?! – exasperou-se Oboro.
Nobume apenas deu de ombros.
― Você não estava conseguindo pará-los, então resolvi ajudar. – explicou aparentando toda a inocência de uma criança.
― Mas não precisava deixá-los inconscientes! – retrucou, se aproximando dos meninos, para tentar acordá-los.
― Oe. – Hijikata se pronunciou, mas fora ignorado pelas duas crianças, que agora tentavam reanimar os outros. ― OE. – chamou impaciente, finalmente conseguindo atenção. Os dois olharam em direção a pequena multidão, parecendo só então perceber a presença dela. ― O que diabos está acontecendo?!
― Não fazemos ideia. – ambos responderam ao mesmo tempo, logo voltando a chamar e sacolejar os três inconscientes, o que fez uma veia grossa saltar na testa do vice-comandante.
― Oe, Oe. – dessa vez fora Shinpachi quem falara. ― Vocês são mesmo o Gin-san, o Takasugi-san, o Katsura-san, a Nobume-san e o Oboro-san? – questionou falando muito rápido, ainda não acreditando no que via.
― Sim. – responderam simplesmente.
― Ohoo! O Gin-chan agora tá menor que eu! – riu-se Kagura, se aproximando das crianças.
― Se você tentar me zoar com isso, eu vou mesmo enfiar esse guarda-chuva no seu nariz. – a voz desleixada ecoou. Os três acordavam ainda meio zonzos, resmungando enquanto levavam a mão à cabeça ou à nuca, onde a cadeira havia batido. ― Por que fez isso, sua maluca?! – exasperou-se com Nobume.
― Pra vocês pararem de brigar. – reafirmou simplesmente.
Gintoki, junto dos outros dois, iria retrucar, mas foram interrompidos antes.
― Podemos nos preocupar com isso depois. Agora precisamos dos cinco aqui no quarto. – Umibozu lembrou.
― Ele acordou. – Shinpachi respondeu ao olhar de indagação das recentes crianças.
Não foi preciso dizer muito mais. Os cinco se encaminharam em silêncio para o cômodo ao lado, um tanto temerosos com o que veriam. Não gostariam de ter que enfrentar aquele homem novamente. O resultado, entretanto, foi surpresa.
Surpresa nos olhos de cada um daqueles pequenos e surpresa ainda maior nos olhos do homem ainda preso à cadeira.
(...)
Assim que saíram do quarto, deixando apenas alguns membros da Shinsegumi de olho no prisioneiro e fechando a porta, tudo o que os presentes no cômodo podiam ouvir era uma confusão de vozes do outro lado da porta. Não faziam ideia do que estava acontecendo.
Ele, por sua vez, tentava pensar na situação, enquanto haviam lhe dado aquele tempo.
Aparentemente, haviam se passado dois dias desde que fora derrotado por seus discípulos. Ainda estava surpreso, ele mesmo, por estar ali. Não acreditava que seria liberto de sua própria prisão interna novamente, mas parece que estava enganado. Aquele eu estava realmente morto e não voltaria mais, o que, sinceramente, ele não sabia se era um alívio ou uma desilusão.
Obviamente sabia o quão terrível era aquele homem, mas também sabia que provavelmente ele era sua única esperança de acabar com aquela vida sem fim, se é que poderia ser chamada de vida.
Ainda assim, estava feliz por estar de volta. Poderia cumprir sua promessa e finalmente voltar a compartilhar os fardos tão pesados que havia posto sobre seu discípulo. Sem dúvidas, ele e seus companheiros eram a única coisa que o faziam realmente pensar no quanto valia a pena estar ali.
Shouyou poderia sorrir naquele momento, ao pensar sobre isso, se a porta não tivesse sido aberta novamente e a visão que enxergava não tivesse preenchido sua mente com a imensa surpresa.
Primeiro pensou que estivesse vendo coisas e que seu cérebro saudoso estivesse pregando uma peça; depois pensou estar talvez ainda inconsciente e aquilo não passasse de um sonho maravilhoso. Só então, quando viu a surpresa que se apoderava de si transpassar os olhos das cinco crianças à sua frente, é que percebeu que não era sonho ou ilusão ou qualquer coisa parecida.
Sorriu, provavelmente, o sorriso mais amável que havia dado desde que acordara.
― Olá, meus queridos samurais.
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