Forbidden
9 Capítulo 9
Notas iniciais
O sol já estava para nascer quando Arya conseguiu arrastar seu pés até seus aposentos na Fortaleza de Maegor. Apesar da exaustão, se mover silenciosamente era tão natural para ela como respirar.
Abrir a porta do quarto das filhas sem fazer barulho então, era mais fácil ainda. As duas dormiam tranquilas e esparramadas cada uma na sua cama. As camas tão próximas quanto era possível. Viviam brigando mas eram inseparáveis até na hora de dormir.
Mas não foi sobre elas que o olhar de Arya se demorou. Foi sobre o homem dormindo de mal jeito na única poltrona que havia no quarto de Visenya e Nymeria.
Ela sabia que Gendry estava em Porto Real. Que ele estava na Fortaleza Vermelha. E que provavelmente o encontraria ali. Vigiando o sono delas. Das duas garotinhas impossíveis que eles dois tinham colocado no mundo.
Ele trajava vestes elegantes. Deveria ter vindo do jantar do Grande Salão. E acabara dormindo ali. Com o pescoço incrivelmente torto, apoiado em uma das mãos.
Arya pensou em acorda-lo, pois ele iria amanhecer com um terrível torcicolo, caso ela não fizesse isso. Mas tudo que realmente fez foi dar meia volta e fechar a porta tão silenciosamente quanto a abrira.
Ela precisava de um banho. Estava suja. Cansada. Havia sangue seco em suas mãos. E gritos de horror em sua cabeça. Dos homens que havia torturado em busca de mais pistas. Mais respostas.
O sangue pelo menos, poderia ser lavado. Quanto aos gritos, aos barulhos de ossos se partindo, ela já estava acostumada com eles. Continuariam ecoando até sumirem. Até não a incomodarem mais.
E isso nunca demorava muito para acontecer. Os rostos, as ações, as súplicas, nunca a assombravam de verdade. Nunca tiravam seu sono. Essa parte de humanidade já havia se perdido dela, à muito, muito tempo.
Arya entrou no quarto de banho, aliviada por ver que haviam tinas com água ali. Frias, com certeza. Mas serviriam.
Ela despejou a água na banheira, o mais silenciosamente que podia, tirou as roupas e mergulhou, esfregando os braços e cabelos com sabão, colorindo a água de um fraco tom de vermelho.
Antes que a porta se abrisse, antes que o barulho dos passos fosse minimamente audível para uma pessoa normal, a mão de Arya voou para o cabo da adaga que repousava numa cadeira ao lado da banheira.
— Ouvi um barulho – Gendry murmurou ao vê-la ali, a voz sonolenta. Os olhos azuis atentos à mão de Arya soltando a adaga.
— Tentei não acordá-los. Desculpe – Arya falou, observando-o parado, uma mão ainda agarrada à maçaneta da porta. Os cabelos levemente amassados. A barba negra bem aparada reluzindo à luz das velas.
Cada vez mais parecido com o Rei Robert. Exceto por não ter o mesmo excesso de peso. Arya não pôde deixar de pensar. A idade fez do esposo uma cópia magra do falecido pai. Mas aquela cópia não gargalhava com a facilidade do original.
Gendry permaneceu parado onde estava, encarando-a sem demonstrar nada, mesmo quando ela levantou da banheira, mesmo quando deu passos molhados ao longo do recinto à procura de uma toalha.
Ele soltou a mão da porta e deu um passo para dentro, não na direção dela, mas na de um móvel de madeira que havia ali, pegando uma toalha limpa e jogando para ela.
Arya torcia os cabelos curtos com uma mão, quando aparou com a outra a toalha que voava no ar.
— Vejo que ganhou algumas cicatrizes novas – ela o ouviu dizer. Não se movendo nenhum centímetro para mais perto dela, mesmo que os olhos azuis analisassem cada pedaço do seu corpo.
Sim. O olhar dele percorria o seu corpo nu. Ela notava. E ele sabia que ela notava. Mas aquele olhar...não havia desejo nele. Nenhuma gota de calor sequer. Talvez, bem longe, bem disfarçado, um pouco de preocupação. E só. As palavras dele eram o que eram. Uma simples afirmação. Não havia nada mais ali.
— Ossos do ofício. Nada demais – ela respondeu, enxugando os cabelos com a toalha e só então se enrolando nela.
Gendry lhe deu um meio sorriso que ela só poderia definir como amargo.
Ela sabia que a tempestade estava vindo. Podia sentir que em breve estariam brigando, discutindo pelas coisas de sempre, cada um com seus argumentos. Nunca conseguindo convencer um ao outro.
Mas, naquele momento, naquele silêncio incômodo, com ela seminua e ele parado de braços cruzados, o Lorde das Terras da Tempestade parecia tão cansado e indisposto à isso tudo quanto ela.
— Elas se comportaram? – Arya perguntou, precisando dizer ou fazer alguma coisa, já que ele não se movia.
— Na medida do possível, sim. Quando o Rei não está presente elas ficam mais difíceis – Gendry falou, muito consciente que ela se aproximava dele.
— Jon tem jeito com crianças. Sempre teve. Principalmente com as que são difíceis, como eu fui – Arya mencionou, lembrando de si própria. Da longínqua infância em Winterfell. De como Jon sempre fora amigo. De como entendia que ela era diferente. E sabia lidar com isso.
Mais um passo. Ela deu mais um passo para perto dele. E da porta. Ela poderia estar indo na direção de qualquer um dos dois, ele não poderia saber. Nem ela sabia.
— O Rei é um bom homem – Gendry falou, algo endurecendo suas feições – Acho que elas gostam mais dele do que de mim – ele disse, sem disfarçar a tristeza, virando as costas para Arya e saindo do quarto de banho.
Arya esperou ele estar longe o bastante para deixar sua respiração voltar a fluir. Tudo bem. Talvez eles ainda brigassem naquela mesma noite.
Ela caminhou até o quarto e o encontrou lá, remexendo em seus baús, pegando algumas peças de roupa. Seus movimentos eram calmos. Nada à superfície que demonstrasse que ele estava com raiva. Mas tudo demonstrando que ele não tinha a intenção de permanecer ali.
— Não precisa sair – Arya falou, pegando algo confortável para dormir. Se vestindo na frente dele – Vou dormir por poucas horas. Não mais que três, antes de ter que sair de novo. Se não quiser dividir a cama comigo, posso dormir em outro lugar.
Gendry olhou para ela em silêncio. Na certa pesando se havia algum convite implícito naquelas palavras.
— Sem expectativas. Só dividir uma cama para dormir. Acho que não nos odiamos tanto assim, para não conseguirmos fazer nem isso – ela completou, dando de ombros, deitando de um lado da cama.
Ela o observou sair calado e voltar minutos depois, trocado, o rosto úmido como se ele tivesse acabado de se refrescar. Ele se deitou em silêncio do lado vazio da cama sem olhar para ela.
— Não odeio você, Arya – Gendry falou, no lugar de dizer boa noite, virando as costas para ela e se embrulhando.
— Também não odeio você. Não de verdade – Arya respondeu. Vendo as costas dele ficando tensas por um momento.
— Porque você só pode descansar por três horas? – ela o ouviu perguntar, minutos depois, quando já achava que ele havia dormido. Não havia cobrança na pergunta. Ele havia escolhido bem o tom que usava.
— Está sem sono? – Arya perguntou.
— Está se esquivando de responder? – ele devolveu.
— Não me agrada falar com suas costas – Arya rebateu. E esperou. Até ele finalmente suspirar resignado e se virar um pouco. Não para ela. Mas pelo menos deixando o rosto à vista enquanto parecia mais interessado no teto acima deles.
— Tenho trabalho à fazer antes de viajar. E viajo amanhã – Arya soltou, imaginando se a briga começaria agora.
— O Rei me disse. Pediu desculpas por ter que mandar você nessa missão justo agora. Seja ela qual for – Gendry falou.
Arya respirou aliviada. Jon fizera aquilo por ela. Ela tinha certeza. Tentando amenizar, demonstrando ao marido dela que sua ausência seria por ordem dele e não algo planejado por ela.
— Estou em falta com ele. Meu sobrinho esteve em grande perigo por duas vezes. Duas vezes. Na primeira, fui pega totalmente de surpresa. Na segunda, eu estava chegando perto, mas não fui rápida o suficiente para descobrir o plano, para desbaratá-lo antes. Mas não vai haver uma terceira — Arya desabafou, com firme determinação.
— Pode dizer para onde vai, pelo menos? – ele perguntou, agora olhando nos olhos dela.
— Quer saber onde procurar meu corpo caso eu não volte? – Arya o questionou, com um meio sorriso.
— Isso não tem graça – ele rebateu, com o maxilar rígido. Os olhos azuis frios.
— Dorne. Vou para o Dorne. E se eu não voltar, não vá atrás de mim. Elas...elas precisam do pai. Por mais que gostem de Jon, elas amam você – Arya disse para ele, precisando desviar o olhar da umidade que fazia os olhos dele brilharem mais agora.
— Não vou precisar procurar por você. Azar de quem estiver no seu caminho – Gendry falou, parecendo engolir em seco – Vamos dormir – ele virou de costas para ela mais uma vez.
Arya suspirou frustrada. Eles já haviam se magoado tanto. Já haviam dito coisas tão horríveis um para o outro ao longo daqueles anos. Mas ainda assim, ela havia dito a verdade. Não o odiava. Não desejava o mal dele, muito menos ser a causa da sua tristeza, apesar de não poder fazer nada quanto aquilo.
Apesar de tudo, se ele a tocasse, ela não recuaria. Não o rejeitaria. Não quando eram tão bons justamente naquilo. Unicamente naquilo. No físico da coisa toda. A cama era o único lugar onde se entendiam quando tudo ao redor era um completo desastre.
Não. Ela não o rejeitaria. Não estando à tanto tempo sem contato íntimo com ele ou com qualquer um. Nunca o traíra. Pelo menos não nesse aspecto. E da sua parte, também nunca havia tentado descobrir se ele já havia feito isso, se já havia dormido com outras.
Ele ainda era um homem jovem. Vigoroso. Bonito. Vivia sozinho em Ponta Tempestade. Se tivesse tomado alguma amante ela não poderia culpá-lo. Acusá-lo. Não de verdade. Não tinha direito de se ressentir. De cobrar nada. Sabia disso.
— Sabe que consigo sentir seus punhos agarrando o lençol, não sabe? Quase posso ouvir sua mente acelerada trabalhando em alguma coisa...- a voz de Gendry começou a dizer, ainda de costas para ela – Se quer dizer algo diga logo, antes de...
Gendry se calou quando ela tocou no ombro dele. Ele se virou para encará-la. E se deparou com a expressão que ele conhecia tão bem. A mesma que, anos atrás, quando ele não passava de um garoto sonhador apaixonado por ela, fazia suas pernas vacilarem.
Arya Stark não tinha uma cara sensual para aqueles momentos. Tudo nela era apenas...intensidade. Querer. Os olhos profundos simplesmente miravam algo que ela queria. Segundos antes do corpo começar a buscar seu intento. Qualquer que fosse ele. Quer seja alcançar alguém para obter respostas, matar alguém para fazer justiça ou satisfazer vingança ou simplesmente para beijar alguém, como ela parecia querer fazer agora.
Gendry não a afastou de cara quando os lábios dela encontraram com os seus. Não tinha força suficiente para isso. E enquanto pensava em como fazer para não corresponder, ela já estava sobre ele, tornando sua resistência ainda mais difícil.
Mas quando as mãos dela tocaram em seu peito por baixo do blusão, ele as segurou. Não a tirou de cima dele, mas as segurou, com mais força do que pretendia, principalmente quando ouviu a risada dela.
— Não me diga que não quer. Corpos falam. E eu sinto o seu – Arya o provocou, apertando as pernas sobre o quadril dele.
— Arya— Gendry a chamou em tom de aviso — Saia de cima de mim— ele pediu, enfatizando cada palavra, ainda segurando os braços dela.
— Porque? Podemos continuar brigando depois...É só sexo— ela declarou, não atendendo o pedido dele. Permanecendo onde estava, apertando-o mais e sentindo sua reação ao movimento dela.
Gendry se sentou. E se aproximou dela, soltando os pulsos que segurava. Como se fosse beijá-la. Os lábios próximos o suficiente para fazer isso, se fosse o que ele desejasse.
— Esse é o problema — ele sussurrou com frieza, tirando ela de cima dele, levantando da cama de uma vez – Se eu quisesse só sexo, preferiria pagar uma profissional – ele falou, agarrando um travesseiro e um lençol, pronto para sair do quarto.
— Posso não ser tão boa quanto uma profissional, mas pelo menos seria de graça – Arya rebateu, levantando também.
— Não é de graça. Com você, nunca é de graça— Gendry falou, com um sorriso irônico, caminhando até ela com raiva, os dois ficando testa com testa – O preço sou eu. Meus sentimentos. Como eu me sinto quando segundos depois a cama fica vazia – ele falou, com mágoa e raiva, apontando para o próprio peito – E não estou mais disposto a pagar esse preço — ele disse, se afastando dela de novo, saindo em direção à porta.
— Fique— Arya pediu, aliviada por ver os passos dele sendo interrompidos. Ainda de costas. Mas parado.
— Você por acaso, vai ficar também? — Gendry perguntou, encarando-a de novo – Pelo que entendi você precisa sair em poucas horas. Vai viajar. Para a longe. Como sempre. Mudou de planos? – ele questionou, sem nenhuma esperança de que houvesse mudado de fato.
— Fique – ela repetiu. Sem conseguir dizer que talvez ela não voltasse. Que talvez estivesse indo de encontro ao fim. Não que ela não fosse cumprir sua missão. Ela cumpriria. Cumpriria sua parte do trato com a Rainha. Só não sabia se voltaria viva.
Mas nada saía de sua boca. Nenhuma admissão. Nenhuma palavra que deixasse claro que ela queria um último momento com o único homem que ela já havia amado, Que ali, agora, ela tinha o mesmo sentimento de urgência que a levou a procurá-lo antes da Batalha de Winterfell.
— Boa noite, Arya – foi tudo o que ela ouviu em resposta ao seu pedido, antes da porta bater.
—*-
— Bom dia, Alteza! Hora de acordar — a voz animada de Lady Jane não combinava nada com o humor de Lyanna naquela manhã.
Resmungando um bom dia à Jane, Lyanna se levantou e se deixou levar pelo enfadonho processo dos últimos, e dos próximos dias. A multidão de servas, as roupas, os enfeites. Diferente de ontem, hoje ela deixou que a arrumassem omo o programado.
Não que não tivesse vontade de se vestir exatamente igual ao dia anterior, com seus couros e suas calças, mas parecer mais feminina poderia ajudar nos seus planos. Nas medidas que precisaria tomar.
— Pelos Sete! Vossa Alteza está com mais olheiras do que de costume – Jane constatou, tocando no rosto dela com desgosto – Ficou lendo até tarde de novo, não foi? – ela revira os olhos, mirando os livros na cabeceira da cama de Lyanna como se fossem seus inimigos.
Não. Não foi. Lyanna quase respondeu.
Na verdade não dormi porque estava pensando no meu irmão. Ela definitivamente não respondeu isso também. Mas as palavras estavam ali na sua mente.
Ela não havia pregado o olho repassando cada palavra da conversa que havia tido com Rhaegar, mesmo que tentasse se convencer a não ficar fazendo isso.
Ela já havia conseguido ignorar. Tantas e tantas vezes. Não pensar. Não sentir. Desviar. Toda uma infinidade de verbos e ações que a ajudassem a não alimentar nada daquilo. Mas na noite anterior havia sido em vão. Nem os livros conseguiram entretê-la o suficiente para manter os pensamentos longe daquele terreno perigoso, e obviamente o resultado estava estampado na sua cara.
Depois de se arrumar e tomar seu desjejum em seu próprio quarto, Lyanna saiu determinada da sua ala. O Torneio ia começar. Duraria uma semana. E ao final daquela semana, daqueles míseros sete dias, ela teria que escolher um marido.
E ela escolheria. E pouco tempo depois iria embora dali. E deixaria para trás essa sensação ruim no seu peito.
A verdade é que o fato de ter repassado na própria cabeça a conversa dela com o irmão, mais ou menos uma centena de vezes na madrugada anterior, tinha feito ela chegar à algumas conclusões sobre dois assuntos diferentes.
O primeiro deles era que certas coisas ali, era melhor ignorar. Ela podia estar vendo duplo sentido onde não tinha. Sim. Provavelmente estava. Mas caso não estivesse, as atitudes que tomaria resolveriam isso do único jeito que dava para resolver.
Quanto ao segundo... Ela não podia deixar para lá. Rhaegar tinha seu próprio ouro. E ela não fazia ideia de onde o ouro vinha. E era muito ouro.
Ela tinha coisas para perguntar para ele. Muitas coisas. E isso era um grande problema. Por que ao mesmo tempo que precisava falar com ele, ela também queria manter distância. Precisava manter. Pelo menos até aquela sensação esquisita passar.
— Filha? – ela ouviu a voz do seu pai pigarrear, parecendo constrangido. Ela tinha atravessado o castelo tão absorta em seus pensamentos, que não tinha se dado conta de já ter chegado aos portões principais.
Ou de que seu pai estava tentando falar com ela.
— Bom dia, pai – Lyanna o cumprimentou, com uma discreta mesura.
— Se eu for ao seu quarto hoje, vai estar disposta a conversar comigo? – Jon perguntou. O rosto sério parecia mais jovem ao fazer aquela expressão de quase súplica. De alguém que sabia que tinha que pedir desculpas.
Rhaegar puxou isso dele também. Não foi só da mamãe.
Rhaegar. Como posso já estar pensando nele? Olhando pro rosto do meu pai? Qual é o meu problema? E aliás, onde ele está? Lyanna pensava e brigava consigo própria. Enquanto olhava ao redor e não via sinal do irmão.
— Filha...por favor...- o pai estava repetindo. Por causa do silêncio dela. Parecia querer abraça-la, mas estava inseguro.
— Tudo bem, pai – ela finalmente respondeu. Sem sorrir para ele. Podiam conversar, sim. Superar aquilo. Mas não ia liberar sorrisos para ele agora. Não tinha vontade. Não ainda. Ela quase podia senti-lo segurando-a, puxando seu braço e a obrigando a ficar para trás, ali naquele mesmo lugar.
— Onde está Rhaegar? – Lyanna se viu falando. Além de precisar perguntar algumas coisas para ele e ao mesmo tempo querer evitá-lo ao máximo, ela ainda estava preocupada. Qualquer sumiço, qualquer atraso já disparava sinos alertas em sua cabeça.
— Ele estava logo ali... – Jon se virou, olhando para Dany – ...conversando com sua mãe. Não sei onde já pode ter se enfiado.
— Vamos? – Dany se aproximou, sugerindo – É um caminho um pouco longo daqui até o Portão do Dragão.
O Torneio havia tomado proporções tão grandes que precisava acontecer fora de Porto Real. Simplesmente não havia lugar adequado na capital para reunir uma multidão de gente de todos os cantos do Reino.
— E Rhaegar? — Jon perguntava, olhando ao redor, não vendo o filho em lugar nenhum.
— Vai depois, uma escolta vai aguardá-lo. Vamos na frente – Dany falou, encarando Jon, sabendo que em segundos ele se oporia.
— De jeito nenhum. Ele vai comigo. Conosco. Do meu lado. Vamos atravessar a cidade toda para chegar no local do torneio. Não quero ele fazendo esse percurso sozinho – Jon argumentou, preocupado.
— Ele não vai atravessar sozinho. Ele está com Arya nesse momento – Dany falou, dando à entender que Arya iria com o filho, quando na verdade ele estava apenas falando com ela. Checando alguns detalhes para fazer o que queria e que ela havia deixado.
— O que aquele garoto está aprontando, Dany? Com a sua conivência, ainda por cima? – Jon encarou a esposa, Dany lhe concedeu um meio sorriso.
— Deixe ele. Não é nada demais. Ele vai estar seguro. Eu não deixaria se não tivesse certeza disso – ela enfatizou, erguendo as sobrancelhas para Jon.
— Deixaria o quê, Dany? – Jon perguntou, estreitando os olhos cinzentos para ela.
— Ir separado de nós – foi o que ela se limitou a responder.
Lyanna ouvia calada. Rhaegar estava aprontando alguma. E a mãe deles era cúmplice. E talvez por isso...não podia ser algo perigoso. Podia?
— Estou com a sensação de que ele está fugindo das explicações que estou esperando – Jon resmungou, acenando para que trouxessem as montarias deles – Ele não vai escapar de me dizer de onde veio aquela coroa – Ele esclareceu, olhando de Dany para Lyanna – Se souberem de algo me digam agora – ele alertou.
Lyanna e Dany se entreolharam. As duas sabiam. E Jon parecia ver isso.
— Lyanna? – ele insistiu, sabendo bem que a filha não era de esconder nada dele.
— Não sei de nada, pai – ela falou, engolindo em seco. Não sabia porque estava protegendo Rhaegar. Mas queria ela mesmo fazer mais perguntas antes de dizer qualquer coisa que o deixasse em maus lençóis com o pai deles.
— Converse com ele mais tarde, Jon. Vamos logo. Quanto mais cedo saímos, mais cedo começa, mais cedo termina – Dany sugeriu, imaginando ser um argumento razoável o suficiente para convencer o marido.
Jon suspirou e acenou discretamente em concordância e os três subiram em seus cavalos.
—*-
O Portão do Dragão estava reformado e reforçado desde à época em que o Fosso dos Dragões, não muito longe dali, também havia sido reconstruído. A robusta estrutura do novo fosso, no topo da colina de Rhaenys, era visível de qualquer lugar que se olhasse dali.
Do Portão em diante, algumas centenas de metros à diante, a Estrada do Rei rumo a Muralha se iniciava. E ali, nas proximidades da capital, ela agora era margeada por esbeltos ciprestes, nas margens da estrada larga e bem cuidada, que fervilhava de gente curiosa para ver a comitiva real passando.
Lyanna, contudo, achava que a missão era quase impossível para os populares que se amontoavam ali. Eles eram ladeados por uma fileira tão compacta de Imaculados armados até os dentes, com suas longas lanças e seus escudos, que com certeza dificultava a visão das pessoas, mesmo que eles estivessem sobre cavalos.
Uma gigantesca estrutura de madeira havia sido levantada rente aos muros externos da capital, alta e circular, ocupando um espaço enorme.
Uma verdadeira arena feita para acomodar as milhares de pessoas que desejavam assistir o Torneio pelo décimo oitavo aniversário do Príncipe e da Princesa dos Setes Reinos.
Bandeiras da Casa Targaryen, igualmente grandes, pendiam da estrutura, uma ao lado da outra, como enormes cortinas que cobriam os pilares de madeira que apoiavam as arquibancadas, proporcionando uma visão impressionante.
Quando entraram na arena, ela já estava completamente lotada. E o barulho lá era ensurdecedor.
Lyanna nunca havia visto nada como aquilo, em toda a sua vida. Aquela quantidade de gente espremida no mesmo lugar. Fileiras tão altas que ela se perguntava como aquilo tudo conseguia aguentar em pé.
Gritos de Mãe dos Dragões e Longa vida ao Rei se sobrepunham enquanto as pessoas olhavam admiradas para o casal de Lobos Gigantes que os acompanhava. O povo apontava para Lys e para Black, como havia acontecido quando atravessaram a cidade rumo ao Septo. Os lobos mostravam os dentes em troca, não pareciam gostar da atenção.
Bem de frente para o centro da arena havia uma estrutura elegante, de madeira e pedra também com vários andares, para a qual se dirigiam.
No pavimento mais baixo, havia uma sacada arredondada se projetava para a arena, com muitas cadeiras. Assentos para o Rei e a Rainha ao centro e para os nobres da Grandes Casas e amigos próximos do Trono de Ferro.
Em poucos minutos todos estavam acomodados. Todo o Pequeno Conselho já estava lá, toda a família Tarly, todas as damas de companhia, todos os convidados estrangeiros. Todos os nobres das Grandes Casas. Todos se curvaram diante da entrada deles no recinto.
Lyanna ocupou seu assento, bem à frente, feliz de ver Jane ocupando seu lado esquerdo. O assento à sua direita permanecia vazio provavelmente reservado à Rhaegar.
O dos seus pais ficava um pouco mais recuado da borda, Mais para o fundo da estrutura, mas também mais elevado, o que com certeza lhes proporcionaria uma visão perfeita.
Ela não deixou de notar que todos os jovens haviam sido, mais vez, acomodados próximos uns dos outros. Jovem Ned e Robb, Jaime Lannister e Aemon Tarly, talvez pela idade, estavam enfileirados em um canto.
Mas todos os outros estavam ao lado ou atrás de onde ela e o irmão ficariam. Sir Jason Arryn estava às suas costas. Ao lado de Arthur Tully. Sam ocupava o assento ao lado da cadeira vazia. Jon atrás dele, Dickon ao seu lado.
Suas damas, Sarah e Melissa, estavam ao lado de Dickon. E depois delas, a princesa Q’ira. E o seio de fora.
Lyanna tentou não olhar duas vezes na direção da mulher e da sua roupa constrangedora. Arianna Arryn estava sentada ao lado de Jane, parecendo se perguntar porque estava ali, bem na primeira fileira.
Não faltava mais ninguém. Apenas e tão somente Rhaegar.
Lyanna olhou para trás, para a mãe, com uma pergunta silenciosa, quando ouviu o rugido dos dragões cortando os céus.
Todos olharam para o alto, observando os três dragões voando. Até que apenas um deles começou a voar em círculos cada vez mais baixos, cada vez mais próximos da arena.
Lyanna não precisava ver mais de perto para saber qual dragão fazia isso. Não precisava ver o brilho reluzente das escamas acobreadas para saber que se tratava de Stormfire.
Nenhuma surpresa também quando o dragão voou tão baixo que foi possível ver claramente Rhaegar sobre ele. Em pé. De armadura.
Quando a multidão se deu conta do que via, o barulho foi ainda maior, foi muito maior, do que quando ela e os pais haviam entrado na arena.
Jovem Dragão! Jovem Dragão! Um coro em uníssono se fazia ouvir.
Mas foi quando Stormfire pousou no meio da arena, rugindo, abrindo a envergadura das suas asas e sendo acompanhado pelos rugidos nos céus de Drogon e Khaleeth, foi quando o irmão pulou de cima do seu dragão, com agilidade, mal dobrando os joelhos com o impacto, mesmo estando coberto por uma reluzente armadura negra e vermelha, que a arena realmente explodiu em gritos.
Lyanna aplaudia educadamente a entrada exibicionista do irmão. Como todos os outros. Tentava ignorar o arrepio que sentia ao ver a multidão gritando o nome de Rhaegar, ao ver Stormfire levantar voo para fora da arena, uma cortina de poeira fina e terrosa se erguendo e encobrindo a caminhada de Rhaegar rumo ao camarote real.
Era isso então que ele estava aprontando com a ajuda da mãe deles. Uma entrada intimidadora. Que passasse uma mensagem em alto e bom som. Não sentimos medo. Não importa que tenha sido atacado ontem. Não deixaremos de voar sobre nossa capital. Nem sobre lugar nenhum.
Era isso que estava escrito no olhar orgulho da mãe. Era por isso que Drogon ainda rugia. Ainda circulava por ali, grande, poderoso e ameaçador.
A poeira suspensa no ar não deixava Lyanna ver para onde o irmão tinha ido, mas não demorou muito ele atravessou o camarote, não sem antes se curvar diante do pai e da mãe.
Quando ocupou a cadeira vazia ao lado dela, grande parte da armadura não estava mais ali, mas algumas peças permaneceram. No peitoral. Nos ombros, mas não nas pernas. Couro e ferro se completando.
— Miladys, milordes – Rhaegar disse, olhando ao redor, em um cumprimento amplo aos presentes – Irmã— ele se dirigiu à ela, com uma inclinação de cabeça profunda, idêntica à que fez aos seus pais, o que não passou despercebido para os convidados de honra.
Lyanna se viu obrigada a oferecer sua mão à ele para diminuir a estranheza do gesto para os outros. Ela não era rainha. Estava abaixo dele na sucessão. Ele era o Príncipe de Pedra do Dragão. Não devia fazer mesuras à ela, já que os dois eram, na melhor das hipóteses, iguais.
Por isso a mão estendida para que ele a pegasse e a beijasse. Para que todos pensassem que o Príncipe era apenas cavalheiro e gentil com a única irmã. Nada mais do que isso.
O problema era que ela agora estava terrivelmente consciente da mão quente que segurava a sua e dos lábios que encostavam na sua pele, mesmo que brevemente, antes do irmão finalmente se sentar.
Porque estou reagindo desse jeito? Ontem ele fez a mesma coisa. Quando entramos na sala do trono para recebemos os presentes, quando me posicionou diante da minha cadeira, também se inclinou. Porque que apenas hoje estou procurando gestos e formas de amenizar o que ontem eu achei normal? Lyanna se questionava.
— Você sabe como chamar atenção— ela disse ao irmão, não se contendo, precisando dizer alguma coisa que ajudasse a espantar o estado de nervosismo que ameaçava dominá-la.
— Essa frase é minha, Princesa – Jon Tarly respondeu, divertido, se inclinando na direção deles dois, da fileira de trás – Bela chegada, Alteza. Todas as garotas do reino estão desmaiadas agora.
Sim. Jon tinha dito isso quando Rhaegar dançava com Lady Diana. Lyanna havia comentado que o irmão havia nascido para aquilo. Para ser o centro das atenções. E bem, depois do que tinha acabado de ver, Rhaegar com certeza pensava da mesma forma. Que a Mãe tivesse compaixão do juízo das garotas do Reino.
— Precisava arrumar um momento para usar a minha nova armadura, já que não me deixam competir – Rhaegar respondeu à ela, encarando-a nos olhos, o sorriso com covinhas dando o ar da graça. Lyanna desviou o olhar o mais rápido que pode.
— Exibido – ela murmurou. Sem voltar a olhar para ele. Mas vendo pela visão periférica cada movimento das mãos dele passando pelos cabelos prateados bagunçados em razão do voo.
— O que vamos ter primeiro? – Jon Tarly perguntou – Não estou por dentro da programação. Só sei que não são as justas, porque meus dois queridos irmãos ainda estão aqui.
— Combate livre – Rhaegar explicou – Cinco grupos de cinquenta homens vão lutar dentro desses espaços que estão sendo delimitados ali – ele apontou, para grandes quadrados pintados com tinta vermelha no chão da arena.
— Isso é selvagem. Não existem regras. Não é uma disputa de cavalheiros – Sir Jason Arryn observou, os olhos verdes feito gavião analisando a multidão de homens que começava a surgir na arena, se posicionando dentro dos quadrados vermelhos.
— Existem regras sim, Sir Jason. Os dez homens que restarem de pé dentro das linhas vermelhas, avançam para a final amanhã. O que sobrar de pé amanhã, leva vinte dragões de ouro para casa – Sam interveio, explicando com simplicidade.
— Desculpe se estou surpreso ao ver que essa foi a modalidade escolhida para abrir o maior Torneio da história dos Sete Reinos, Tarly. Sei que existem regras. Quase nenhuma, você há de concordar. Isso é coisa de bárbaros. Vale tudo ali dentro. Me perdoe se não aprecio – Sir Jason rebateu Sam, com um sorriso frio no rosto.
Lyanna ouvia tudo calada. Não discordava de Jason Arryn. Aquilo era coisa de bárbaros. Mas ela fazia ideia de porque estavam começando com aquela modalidade.
— Escolhemos essa modalidade, Sir Jason, porque é assim que os homens e as mulheres que não tem uma vida privilegiada, como nós tivemos, com mestres de armas à nossa disposição, se defendem e lutam. Espadas, justas, arco e flecha virão depois. Com suas preciosas regras de cavalaria e seu requinte. Mas essa festa é também para o povo. Nada mais justo que o torneio comece com a modalidade que eles mais gostam – Rhaegar observou, sem olhar para o herdeiro do Vale, que sabiamente permaneceu calado.
— Tem mulheres ali?— Lady Melissa perguntou, parecendo mortificada – Pelos Sete. Que horror! – ela completou, quando Sam gesticulou afirmativamente.
— As inscrições foram abertas para quem quisesse. Homens ou mulheres. E como foram milhares, os inscritos passaram por várias eliminatórias até sobrarem esses cinco grupos que estão aqui hoje – Sam explicou, com seu jeito contido. Sem fazer muito juízo de valor quanto à competição.
— O que iremos ver ali então? Se não podem usar armas? – a princesa Q’ira perguntou, parecendo divertida com a discussão que a modalidade estava gerando entre eles.
Jon Tarly sorriu diante da pergunta da princesa estrangeira, mal disfarçando o quanto estava adorando ter um motivo para encarar Q’ira Daxos Emeros e o seu seio de fora.
— Socos. Dedo no olho. Braços e pernas agarrados aos pescoços. Puxões de cabelo. Mordidas – Jon começou a elencar, contando nos dedos as possibilidades – Um espetáculo!— ele concluiu, arrancando sorrisos da princesa qarthena e de Rhaegar.
— E o que estão esperando para começar? Estou ansiosa para ver como vai ser – Q’ira falou, para o horror das damas ao seu redor.
— O Rei e a Rainha – Sam explicou, mais uma vez, todos olhando para trás instintivamente, para o lugar onde Jon e Daenerys se sentavam.
— Não vai haver coroação antes? – Arianna Arryn falou baixinho, quase inaudivelmente, parecendo mais que havia pensado alto do que qualquer outra coisa.
— Não, milady. Apenas no final. Se o campeão das justas assim o quiser fazer – Rhaegar respondeu à ela, fingindo não ver que a garota do Vale parecia tremer na cadeira apenas porque ele a estava respondendo – Não temos uma Rainha do Amor e da Beleza oficial, já que minha pobre irmã não tem parentes homens autorizados a defender nas justas a nomeação prévia que deveria ser dela – Rhaegar continuou explicando, com uma pontinha de raiva, mas tentando minimizar a questão.
Ele não podia competir. E seu pai até podia, mas não gostava de competições. Sem falar que o Rei não era bom em justas, mas sim com a espada. E ainda que fosse, Rhaegar desconfiava que o pai não gostava nem um pouco da ideia de ele mesmo colocar uma coroa de flores, independente da cor, na cabeça de uma Lyanna. Em um torneio. Seria demais para ele.
— Tenho certeza de que a Princesa será coroada, não importa quem ganhe – Sir Jason Arryn voltou a falar – A não ser, claro, que um cavaleiro casado acabe se tornando o campeão. Não seria adequado – ele completou, com uma expressão clara de que iria fazer tudo para ele ser o campeão.
— Bem, acho que até um cavaleiro casado poderia fazer isso. Inédito é que não seria. Lyannas podem mexer com as cabeças dos homens em Torneios – Jon Tarly brincou, levando uma cotovelada de Dickon, que o olhava com incredulidade.
— Não sou minha avó, Jon. E não faço questão dessa nomeação. Sintam-se à vontade, cavalheiros, para coroar quem realmente desejarem nomear como Rainha do Amor e da Beleza – Lyanna falou, querendo colocar um ponto final naquele assunto.
Tudo que ela não precisava naquela manhã, era ser relembrada da história de amor, guerra e tragédia dos seus avós. Ela não precisava ser lembrada da história trágica que aqueles nomes carregavam. Os nomes dela. E...do irmão.
— Alteza, eu desconfio que você seja muito parecida com ela. Mas, para nossa sorte, o único Rhaegar que conhecemos vai estar aqui em cima – Jon provocou, sentindo o olhar dos dois irmãos reais sobre ele e rindo ainda mais.
Rhaegar não acreditava no que ouvia.
Onde eu estava com a cabeça quando confirmei meus sentimentos por Lyanna logo para Jon? Para Jon Tarly? Sou um idiota.
Se Jon dissesse uma só palavra a mais, Rhaegar o arrastaria dali e socaria sua cara. E Jon parecia ter visto isso no olhar dele, porque havia parado de sorrir.
— Vai começar – Arthur Tully comentou, timidamente, olhando para trás.
O Rei e a Rainha estavam de pé, com taças erguidas nas mãos, na direção do público. Talvez a Rainha estivesse dizendo que o Torneio estava oficialmente aberto, mas não deu para escutar.
Não quando o barulho da arena ganhou vida mais uma vez e não silenciou mais. A disputa em combate livre havia acabado de começar.
—*-
Uma hora depois, dez homens emergiram de cada uma das demarcações, se curvando na direção do camarote real, todos em um estado deplorável. Dentes faltando, dedos quebrados. Um horror violento ao qual Dany preferia não ter assistido.
— O que eu perdi?— Arya perguntou à Jon e Daenerys, se aproximando deles. Gendry ao seu lado. As duas pequenas ao lado do pai, quase saltitantes.
— Você com certeza teria gostado – Jon falou, sorrindo para a irmã, principalmente vendo ela com sua família. Era algo raro de se contemplar.
— Majestades— Gendry os cumprimentou, solenemente. O braço sobre os ombros de Nymeria e de Visenya.
— Milorde – Daenerys respondeu de volta – Miladys – a Rainha cumprimentou as duas pequenas herdeiras das Terras da Tempestade.
As meninas se curvaram com pressa e meio sem jeito. Daenerys não conseguiu conter um sorriso.
— O que vamos ter agora? – Arya perguntou à Jon, evitando contato visual com o marido. O desjejum deles em família já havia sido constrangedor demais depois dos acontecimentos da noite passada.
— Arco e flecha – Jon respondeu à irmã, quando Visenya irrompeu em lágrimas.
— O que foi, minha pequena? Porque você está chorando? – Jon perguntou à sobrinha, preocupado – Ela se desvencilhou dos braços do pai e correu para o colo dele.
— Eu queria competir, mas não me deixaram, quando tentei me inscrever, me disseram que eu...que eu era muito pequena— ela falou, chorosa, fungando nas vestes de Jon, como se tivessem dito para ela o maior absurdo do mundo.
— Eu vi garotos da nossa idade participando das preliminares, Tio-Rei, juro que vi. Não me deixaram participar só porque sou menina e porque eu ia vencer – Visenya continuou contando para Jon, agora sentada em seu colo.
— Mentira Visy. Não deixaram você participar porque você acertou uma flecha na bunda do homem responsável pelas inscrições ao invés de vir contar para nosso Tio-Rei como eu queria fazer! – Nymeria revelou, dando de ombros – O homem correu atrás de nós com um machado, parecia um louco – a garotinha sorria, achando graça e provocando a outra.
— Você acertou uma flecha no homem, pequena? – Jon perguntou, com a voz severa, controlando a vontade que tinha de sorrir.
— Duas Tio-Rei. Foram duas – Nymeria se intrometeu de novo. Dany precisou levantar para não sorrir da história.
— E você queria que eu fizesse o que? Que eu deixasse ele me partir no meio com uma machado, sua burra? Ele correu atrás de mim! Acertei outra no pé dele e devia ter enfiado uma no seu também, sua fofoqueira! Odeio você, Nym! Odeio! – Visenya gritou com a irmã, querendo sair do colo de Jon e partir pra cima dela. Jon não deixou.
— Se acalme, pequena – Jon disse, com autoridade, mantendo-a no mesmo lugar – Vamos fazer o seguinte. Que tal se organizarmos uma competição apenas com os mais jovens? Você, Ned, Robb, Aemon e Jaime e sua irmã? – Jon sugeriu.
— Que graça tem isso? Eu vou ganhar fácil. E não vai ser em um Torneio— Visenya rejeitou a ideia, voltando a chorar.
— Quem disse que não vai ser em um Torneio? Organizamos aqui, na frente de todo mundo – Jon apontou para o centro da arena – Tem certeza que vai ganhar? – ele cochichou a última parte no ouvido da sobrinha. Ela revirou os olhos. Jon sorriu.
— Podemos deixar para o último dia e convidar mais crianças, mais competidores, o que você acha? – Gendry sugeriu, fazendo os olhos de Visenya se iluminarem. Ela olhou do tio para o pai, com o rostinho animado.
— Pronto. Está resolvido. Lorde Baratheon vai organizar um torneio infantil de arco e flecha para todos vocês participarem – Jon concluiu, olhando de Gendry para ela, deixando a garota pular do seu colo e se voltar para o pai.
— Vai ter prêmio, Tio-Rei? – Nymeria quis saber, parecendo muito interessada.
— Um dragão de ouro para o vencedor – Jon falou, vendo os olhos da pequena Nym se arregalando.
— Dois – Visenya pediu, os olhos azuis brilhando com uma astúcia que Jon duvidava ser normal numa criança daquele tamanho.
— Feito – Jon concordou, satisfeito em ver a sobrinha pular nos braços de Gendry e logo depois sair correndo de mãos dadas com a irmã para procurar assentos vagos. Jon, Dany, Arya e Gendry finalmente puderam sorrir.
—*-
Rhaegar sabia que Lyanna sacudia uma das pernas impacientemente por baixo das vestes longas e pesadas. Não que desse para ver. Mas só pela expressão dela, pela forma como ela ora batucava os dedos na cadeira, ora apertava as mãos com força, ele sabia que ela estava contando os minutos para poder sair dali. Não só dali, mas de perto dele.
Nem as provocações habituais eles haviam trocado. Nada além das palavras iniciais, quando ele havia chegado.
Aquela era Lyanna no seu nível máximo de fortaleza impenetrável. Quando algo acontecia entre os dois, ela se fechava. Não olhava direito para ele. Não falava direito com ele.
Não era a primeira vez que isso acontecia nos últimos anos. Mas no que dependesse de Rhaegar, seria a última.
Não fosse o Torneio, seria mais difícil. Ela iria se esconder e andar sorrateiramente pelo castelo. Mas dessa vez ela não podia fazer isso. Os dois estavam cheios de eventos e, na maioria deles, estariam juntos. Os outros pretendentes também, mas isso não importava. Ela não poderia ignorá-lo em público. Nem poderia fugir e se enfiar na biblioteca. E ele tinha que tirar proveito disso.
Quando a primeira rodada da competição de arco e flecha acabou, todos foram convidados a subir aos pavimentos superiores, que eram espaços mais fechados, onde comidas e bebidas estariam sendo servidas aos nobres convidados do Rei e da Rainha.
Rhaegar não se surpreendeu quando Lyanna levantou apressada e passou à frente de todos. Ela não podia achar que aquilo o deteria.
Os mais velhos foram encaminhados para o mais alto dos andares, seguindo o casal de monarcas. Rhaegar e os mais jovens para o mais baixo, acima do camarote aberto. Operação casamento à todo vapor, em todos os detalhes do Torneio. Ele concluíra, ao ver aquela divisão. Não que achasse ruim. Na verdade, achava ótimo.
Quando entrou no espaço requintado, com poltronas espalhadas, uma mesa farta e uma pequena varanda para a arena, Rhaegar notou a irmã de costas, no canto mais distante da porta, parecendo olhar para a arena com muita atenção da pequena varanda.
A escolha do lugar, a postura das costas dela, as mãos apertando a pedra fria, o fato de nenhuma das damas de companhia estar ali, tudo dizia quero ficar sozinha. Mas foi direto para lá que ele caminhou.
Rhaegar ficou do lado dela, recostado nas pedras. Se ela não queria olhar no rosto dele, ele não ia facilitar. Quando ele cruzou os braços à frente do corpo, os lábios de Lyanna se comprimiram de frustração.
— Está zangada comigo? – Rhaegar perguntou, o mais inocente que conseguia.
— Porque estaria? – ela respondeu, não o encarando nos olhos.
— Queria ter vindo na sua dragão também? – ele sugeriu, tentando fazê-la falar pelo menos.
— Iria estragar seu momento, com certeza – Lyanna respondeu, apertando a pedra com mais força.
— Não envolvi você porque seria mais difícil. Nosso pai não deixaria. Não queria colocar mais tensão entre vocês dois diante de outra recusa. Sei que ainda estão estremecidos – Rhaegar explicou. E era verdade.
Quando ele cogitou a ideia de ir até a arena do Torneio em Stormfire, em mostrar para as pessoas que ele não seria intimidado a não voar sobre sua cidade, ele quis que ela estivesse ao lado dele. Mas ele sabia que não teria dado certo.
— Ele quer saber de onde veio o ouro para comprar a minha coroa – Lyanna mudou de assunto, ainda com o olhar fixo na multidão nas arquibancadas – Perguntou para mim se eu sabia de alguma coisa. Eu disse que não— ela continuou, com um breve e resignado olhar para ele.
— Ele vai me encurralar a qualquer momento. Já esperava por isso – Rhaegar falou, relaxadamente, dando de ombros.
— Nosso pai vai querer saber como você conseguiu tanto ouro, Rhaegar. Aliás, eu também gostaria muito de saber – Lyanna falou, agora sim o encarando de vez.
Rhaegar não conteve o sorriso vitorioso. Sabia que ela não ia conseguir ficar o tempo todo olhando para a arena.
— Não pretendo explicar a ninguém nada além do que já contei à você. Não agora – ele disse, vendo aquela expressão que era só para ele surgir no rosto da irmã. Olhos cinzentos estreitados, braços cruzados na frente do corpo.
Ela não fazia ideia, mas um dia, quando tudo se resolvesse, quando os dois estivessem juntos e ela fizesse aquela cara para ele, ele ainda iria fazer aqueles braços teimosos se descruzarem e o agarrarem, quando a beijasse na frente de todos.
— Se você tem tanto ouro, porque deixou que nossa mãe e eu oferecêssemos nossas joias para resolver a questão do abastecimento da capital? Porque não ofereceu a fortuna que você alegar ter? – Lyanna o questionou, irritada com a postura dele, com o jeito que ele a olhava, com ele todo, na verdade.
— Sabia que você perguntaria isso – um sorriso de canto se ampliou no rosto de Rhaegar – Bem, minha fortuna é para meu uso pessoal. Talvez...talvez...eu acabasse usando ela nessa questão. Mas, não posso negar que não era o que eu queria – Rhaegar desencostou das pedras que limitavam a varanda, Lyanna deu um passo para mais longe dele.
— Não entendo você. Passou horas trabalhando com o Mestre da Moeda no orçamento do reino, para cortar despesas, para viabilizar essa reforma, os novos poços...
— Sim, passei. Porque acredito que o dinheiro dos impostos é que deve custear esse tipo de coisa. Da mesma forma que acredito que o dinheiro dos impostos não deve custear o que eu visto, como e compro. Pedra do Dragão não é como Solarestival. Não é rentável o suficiente para se manter. Como governantes que zelam pela ordem, acho justo que o dinheiro do povo seja usado para manter nossos exércitos, mas não para manter a Fortaleza Vermelha, por exemplo. E é por isso que eu quero ter minha própria fonte de renda, para poder mudar isso, quando estiver ao meu alcance – ele explicou, vendo a irmã o analisar em silêncio. Ele quase podia ver as engrenagens daquela cabeça afiada pesando cada palavra que ele havia dito.
Ele precisava, já havia precisado aliás, do seu próprio ouro para outras coisas também, mas não estava mentindo para ela. Era aquilo que ele queria para o futuro distante, para quando fosse ele o ocupante do Trono de Ferro.
— Sua ideia...tem bastante mérito – Lyanna concordou, um pouco menos na defensiva com ele, ainda que soubesse que deveria estar totalmente na defensiva.
— Obrigado, Alteza. Vindo de você, significa muito – Rhaegar brincou. E realmente significava.
— Boa sorte com nosso pai. Não sei se ele vai ser tão compreensivo quanto eu. Não com suas ideias, mas com a falta de informação sobre esse ouro – ela explicou, sabendo que não adiantaria insistir com ele – Mas ele sabe, assim como eu, que você será um grande Rei – ela acrescentou, a voz um pouco mais baixa, encarando os olhos violeta vívidos do irmão.
— Vou tentar— ele disse, sério – Mas sei que um grande Rei não se faz sozinho. Ele precisa de um bom Pequeno Conselho. De uma boa Mão... e, é claro, de uma grande Rainha – Rhaegar falou, vendo os muros da irmã voltando a se erguer.
— Você vai ter tudo isso. Não tenho dúvida – Lyanna comentou, se voltando para o interior do recinto, para os outros jovens que haviam ali, para os rostos conhecidos e para os não tão conhecidos, que tentavam não olhar muito na direção deles dois – Lady Diana parece ser interessante. Inteligente. E de boa índole – Lyanna acrescentou, engolindo em seco.
— Esqueceu bonita. E boa dançarina— Rhaegar completou, tentando provocá-la – Acha que devo escolhê-la para ser minha mulher? – ele perguntou, satisfeito em ver as pupilas de Lyanna dilatando sutilmente com aquelas últimas duas palavras.
— Não quero me intrometer em sua escolha – Lyanna se apressou em dizer – Mas sim, acho que ela é a melhor candidata – Lyanna falou, tentando dizer aquilo com leveza, com naturalidade. Afinal, ela realmente achava.
— Não sei...tem outras qualidades que eu gostaria que a minha futura esposa tivesse...- Rhaegar falou, colando as mãos nos bolsos displicentemente, vendo Lyanna arquear as sobrancelhas como se ele estivesse dizendo algum absurdo.
— Você quer demais então, irmão – Lyanna falou, com a garganta seca, fechando a expressão para ele. Se as coisas que Rhaegar vinha dizendo tinham duplo sentido, ela não tinha como ter certeza. Mas ela também conseguia jogar aquele jogo.
— Talvez. Mas sempre consigo o que eu quero – Rhaegar rebateu, segurando o olhar dela no seu, sem sorrisinhos.
— Não dessa vez— Lyanna falou, vendo um pouco de insegurança preencher aqueles olhos violeta por alguns segundos – Afinal, você não tem tempo.... – ela continuou dizendo, mas algo apertou seu peito quando viu a insegurança naquele olhar atrevido virar algo que ela achou ser...medo.
— ...para procurar melhor... – ela completou. Saindo de perto dele e caminhando na direção de Jane enquanto ainda tinha forças para fazê-lo.
—*-
— Algum problema, Princesa? – Jane perguntou baixinho à Lyanna, assim que ela se aproximou e cruzou o braço com o de sua dama de companhia.
Lyanna negou. Jane lhe deu um de seus sorrisos compreensivos. Ela queria olhar para trás. Ver se Rhaegar ainda estava na varanda. Se estava olhando para ela. Mas não o fez. Ela era a Princesa dos Sete Reinos. E precisava agir como tal. Precisava circular pelo lugar, conversar e interagir, como uma boa anfitriã faria.
Eles não eram muitos. Melissa, Sarah, Diana e Arianna estavam próximas de um círculo de poltronas, aparentemente tentando conversar. Sam, Jon, Dickon, Sir Jason, Arthur e Rhaegar, com Jaime e Aemon no seu pé, estavam agora mais próximos da mesa, comendo e bebendo, todos dando atenção à Princesa Q’ira, que pelo visto não pretendia se juntar ao grupo das mulheres, para onde Lyanna e Jane agora se dirigiam.
Quando se aproximaram, pegaram a conversa entre as jovens ladys já andando. E não parecia estar tomando um rumo agradável.
— Mas deve ser difícil, não é? Estar com a sua idade e ainda não ter marido. Você tem vinte e dois anos, já deveria ser mãe – Melissa falava para uma envergonhada Arianna Arryn, que olhava para os pés e corava profusamente.
— Sou muito tímida. E...olhem para mim. Não sou bonita – Arianna falou, baixinho, com a voz triste.
— Você é bonita, Lady Arianna. Não fale assim. Mesmo sendo tímida, tenho certeza que tem outras qualidades – Lady Diana tentava consolá-la, com um sorriso doce e terno.
— Eu...eu sou muito boa em costuras, bordados, tecidos...e só...- Arianna falou, desanimada. Melissa riu maldosamente. Diana Lannister a encarou com uma expressão severa.
— Eu adoraria ver algo que você tenha feito, milady – Diana falou, com um sorriso ainda mais cálido para a garota do Vale.
— E eu adoraria usar algo que você tenha feito, Lady Arianna. Por favor, faça algo para mim – Lyanna se aproximou falando, as quatro moças fazendo breves mesuras para ela.
— Se-seria uma honra, Princesa— Lady Arianna gaguejou, olhando surpresa para Lyanna. Diana Lannister parecia respirar aliviada.
— Como seu pai lida com isso? – Melissa insistia, gostando de torturar a pobre garota com sua condição de donzela.
— Ele...ele me deu um ultimato...antes de virmos para a capital. Disse que se eu não conseguir um pretendente...disse que vai me mandar para a ordem das Irmãs Silenciosas – Arianna falou, olhando para os pés, limpando as lágrimas que pareciam querer lhe escapar.
— Isso é horrível – soltou Sarah, parecendo tocada. Melissa continha um sorriso debochado.
— Vai acabar acontecendo – Lady Arianna disse, olhando para o grupo de rapazes, o rosto um espelho de desânimo.
— Eles formam um belo grupo, não é? A maioria, pelo menos – disse Melissa, avaliando os rapazes.
Lyanna imaginou que ela deveria estar excluindo dois Tarlys da lista. Sam talvez. E Jon, com certeza. Dickon era o mais bonito e galante dos Tarlys. E Sarah, sua amiga mais próxima, era interessada nele. E os outros realmente eram bonitos.
— Seu irmão é muito bonito, Lady Arianna – Melissa comentou, olhando da garota para o irmão – Você não se parece nada com ele – completou, com um sorrisinho.
Diana, Jane e Lyanna praticamente bufaram ao mesmo tempo para Melissa. Que criatura desagradável ela era. Mas foi Sarah quem mudou de assunto.
— Essa princesa...não sei nem pronunciar o nome dela direito... Vocês acham mesmo que usam essas roupas absurdas em Qarth? Que as mulheres lá se vestem...assim? – Sarah questionou. A nortenha provavelmente estava odiando ver Dickon conversando tão próximo da mulher estonteante de seio de fora.
— Se chama tokkar. E sim, é uma veste tradicional por lá – Lyanna explicou.
— Acho um descaramento. Uma falta de vergonha – Sarah comentou, bufando inconformada – Olhem para eles, estão todos olhando. Até o ruivinho tímido. E as crianças. Jaime e Aemon são só crianças.
— Já tentei chamar Jaime. Ele me ignorou brilhantemente – Diana confessou, parecendo um pouco constrangida também.
— Homens são todos iguais. Desde pequenos – Melissa falou, olhando com veneno para a Princesa Q’ira.
— Não exagere, Melissa – Jane suspirou.
— Se seu noivo estivesse ali não estaria olhando também, querida Jane? – Melissa provocou – Aliás, falando nele, quando serão as bodas? Já faz tanto tempo que você está noiva...Você deveria nos dar conselhos. É a única aqui que já conseguiu um compromisso – a ruiva falou, olhando agora para a própria Lyanna.
Lyanna estava com uma resposta entalada na garganta para as grosserias de Melissa, quando ouviu um discreto pigarro atrás de si. Era Sam. Ela podia ler nos olhos dele que ele queria falar algo com ela e que as outras garotas ali o intimidavam.
Mas antes que os dois pudessem dizer qualquer palavra um para o outro, Rhaegar arrastava o resto do grupo até ali.
—*-
— Achei que vocês dois iam pular no pescoço um do outro na frente de todo mundo, Alteza. Estava muito interessante... – Jon Tarly cochichou para Rhaegar, assim que ele se juntou ao grupo dos rapazes, se referindo, obviamente, a conversa dele com Lyanna na varanda.
— Falando em conversas...o que foi aquilo mais cedo, Jon?— Rhaegar ignorou o comentário dele – Toda aquela história nos comparando com os meus avós? Perdeu o juízo?— Rhaegar já o puxava para um pouco mais longe dos demais. Para conversarem com um pouco mais de privacidade enquanto a princesa Q’ira monopolizava a atenção dos outros rapazes.
— Desculpe, Alteza. Não resisti— Jon disse, contendo um sorriso.
— Isso não tem graça. Já ameacei quebrar sua cara mais de uma vez, da próxima não vou ameaçar – Rhaegar disse para ele, entre os dentes.
— Estou à sua disposição, meu Príncipe. Sou um bom amigo. Tenho certeza que uma boa briga vai lhe ajudar. Vossa Alteza anda muito...tenso – Jon falou, com o máximo de seriedade que conseguia juntar. Rhaegar o empurrou pelo ombro, bufando – Aliás...vou poder revidar aos golpes reais que planeja me dar? Ou devo apanhar quieto?
— Se chegar à esse ponto, seu cretino, revide. Se é para brigarmos que seja de verdade – Rhaegar falou, suspirando – Mas falando sério. Não faça mais aquilo de novo. Não me ajuda em nada. Só deixa ela ainda mais na defensiva – ele pediu, recebendo de Jon uma taça cheia de vinho.
— Tudo bem Alteza. Mas falando sério também...Não acha que...sei lá...o espírito do seu avô...vive em você? Fez você se interessar por ela? Ou foram os nomes? Você se sente você mesmo, o tempo todo? – Jon perguntou, analisando Rhaegar como se ele fosse um fantasma assombrado.
— Você está me perguntando se eu estou possuído pelo espírito do meu avô? Estou entendendo bem?— Rhaegar perguntou, erguendo as sobrancelhas, olhando para Jon com incredulidade.
— Hum...é... – Jon falou, cocando a cabeça, sorrindo descaradamente – É muita coincidência, Alteza. Nunca se perguntou isso?
— Que os Sete me ajudem— Rhaegar bufou – Nossos nomes não importam, seu idiota. Não estou possuído por ninguém. Nascemos um para o outro. Não tem nada a ver com a história passada de ninguém.
— Tão romântico— Jon piscou os olhos dramaticamente – Se é o que você acha... – Jon deu de ombros, claramente divertido.
Os dois voltaram para mais perto do grupo, para não chamar atenção. Rhaegar fingia interesse nos comentários da Princesa Q’ira sobre o combate livre de mais cedo, enquanto observava Lyanna de canto de olho, conversando com as outras garotas. Quando Sam se afastou do grupo e caminhou até ela.
Rhaegar devia não se importar. Devia deixar o melhor amigo tentar. Mas ele não conseguia. Não era altruísta o suficiente para ver qualquer tentativa de proximidade e não sentir o desejo pungente de se intrometer.
— Vou propor algo parecido em Qarth. Tenham certeza – Q’ira dizia, sorrindo largamente.
— Estou ansioso para ouvir o que as outras donzelas acharam do combate ao estilo livre – Rhaegar sugeriu – Estamos muito distantes delas – ele falou, oferecendo um braço para Q’ira, que o aceitou prontamente, enquanto caminhavam até Lyanna, os outros o seguindo.
— O que teremos depois desse intervalo, Alteza? – Q’ira perguntava, com sua voz de veludo.
— As justas – Rhaegar respondeu – Talvez Sam, Sir Jason e Dickon já sejam sorteados e possamos vê-los em ação – Rhaegar mencionou, olhando para os três, agora que formavam um grupo só.
Sam parecia piscar mais que o necessário, ainda olhando para Lyanna e ela para ele. Rhaegar sentia culpa pelo amigo. Mas o peito ardia em ciúmes e ele nem sempre conseguia controlar aquilo da forma mais nobre.
— E vocês são bons, senhores? Quero saber em quem devo apostar meu ouro – Q’ira perguntou aos três, soltando Rhaegar com uma piscadinha que fez Melissa suspirar mais forte, enquanto circulava analisando Sam, Dickon e Sir Jason – Em quem apostaria, Alteza?
— Sam é o melhor que já vi – Rhaegar disse, simplesmente. O amigo o encarou por um momento. Rhaegar sorriu para ele – É verdade— Rhaegar enfatizou – Acho que todos os outros vão precisar de muita sorte para derrotá-lo.
— A melhor sorte de cavalheiro é o lenço de uma mulher, não é? Ou estou enganado? – Jon começou, adorando ser o responsável por um clima constrangedor – Quem dos três já conseguiu um? Aproveitem as donzelas diante de vocês, meus caros.
— Já tenho o meu – Dickon anunciou. Ele estava corado, olhando para Sarah. Que também parecia acometida de mais calor do que normal.
Sam e Sir Jason se entreolharam. E ficou bem claro para o grupo que os dois queriam o lenço da mesma pessoa. Lyanna. Rhaegar não sabia o que faria se a irmã puxasse um lenço de suas vestes e desse para um deles ali.
— Os costumes de vocês são engraçados – Q’ira analisou – Gosto disso. Nunca pensei que os Westerosis fossem tão galantes – ela ronronou – Diga-me, Alteza. Se você fosse competir, pediria o lenço de quem para lhe dar sorte? – a princesa qarthena perguntou.
Essa mulher e Jon Tarly conseguiriam destruir o mundo juntos, só com as palavras impertinentes. Rhaegar praguejou mentalmente.
Ele quase respondeu. Mas quando viu que o sangue do rosto de Lyanna parecia ter sumido e que ela olhava para ele apreensiva, achou melhor não dizer a verdade.
— Pediria o da minha mãe – Rhaegar falou sorrindo – Ela é brava como ninguém. Me daria muita sorte. Tenho certeza – ele falou, estendendo o braço para Q’ira mais uma vez – Creio que está na hora de descermos – Rhaegar anunciou, querendo acabar com aquele assunto de vez.
Todos o acompanharam rumo às escadas que levariam ao pavimento inferior, ao camarote aberto de onde vieram. Todos menos Lyanna. Jane permanecendo parada ao seu lado. Eles trocaram um breve olhar, mas Rhaegar não se deteve.
—*-
Lyanna se jogou numa poltrona assim que ela e Jane ficaram sozinhas. Suas pernas tremiam demais para que ela conseguisse dar um passo sequer.
Por um momento, ela achou que Rhaegar ia dizer seu nome. Que ia dizer que escolheria pedir o lenço dela. E aquilo a assustou de verdade. Todas essas coisas, esses gestos de cavalaria, eram baseados no romantismo. Passavam uma mensagem. Significavam que um cavaleiro cortejava uma dama. Que se interessava por ela. Do jeito mais primitivo que alguém se interessa por outra pessoa.
Estou vendo coisas onde não tem. Estou ficando maluca. Deuses me ajudem. Preciso tomar uma atitude. Disse que tomaria e realmente tenho que tomar.
— Princesa...você está bem? – Jane perguntou, com jeito.
— Sente-se Jane. Preciso lhe perguntar uma coisa. E...espero que não me leve à mal – Lyanna começou. Se precisava realmente fazer o que estava pensando em fazer. Jane poderia ajudá-la.
Jane obedeceu, sentando-se de frente para ela, parecendo preocupada.
— Você já beijou seu noivo?— Lyanna perguntou baixinho, sem arrodeios. Jane arregalou os olhos. Pelo rubor que se formou em suas bochechas, Lyanna imaginou que a resposta seria sim.
— Algumas vezes – Jane respondeu – Espero que não pense mal de mim Princesa. Não passou disso.
Lyanna revirou os olhos. Jane poderia ser dramática quando queria. Claro que ela não faria aquilo.
— Não penso mal de você. Não quando estou pensando em fazer a mesma coisa – Lyanna confessou. Os olhos de Jane se arregalaram mais. Se é que era possível.
— Como foi? O que você sentiu? Me diga alguma coisa. Qualquer coisa – Lyanna pediu, olhando para a porta e vendo Lys parada lá, como a perfeita guarda que era.
— Ah...foi...bom. Eu realmente gosto do meu noivo. Ele faz meu coração bater mais rápido... Não consigo explicar direito o que senti – Jane falou, mordendo um pouco os lábios, olhando para o chão.
— Por favor, tente – Lyanna pediu, tocando na mão dela.
— Eu me senti...como se o chão tivesse sido puxado dos meus pés – Jane soltou um risinho bobo. E ela não era de risinhos bobos. Nunca tinha sido. Lyanna riu junto com ela – A primeira vez nós só encostamos os lábios rapidamente. Mas a segunda...foi um beijo de verdade. Foi estranho no começo, mas...
— ...mas? – incentivou Lyanna. Ela nunca tinha visto a amiga corar tão profusamente quanto corava agora.
— ...depois...- Jane baixou ainda mais a voz – Eu não conseguia pensar em outra coisa. Não queria parar de beijá-lo – Jane cobriu o rosto com as mãos – Princesa...É algo muito, muito perigoso antes do casamento. Eu senti muito...calor.
— Calor?— Lyanna repetiu. Ela tinha entendido. A descrição das sensações.
— Quem Vossa Alteza quer... – Jane começou a perguntar, olhando para trás mais uma vez e se interrompendo ao ver alguém parado diante de Lys.
— Poderia falar com você um instante, Alteza? – Sam perguntou, parado à porta aberta, Lys interrompendo a passagem.
— Desça Jane. Me espere no pé da escada. Se alguém subir, não impeça, mas suba junto e converse alto. Não me demoro – Lyanna instruiu Jane, que parecia pregada na poltrona de tão surpresa.
— Princesa... – Jane arfou, levantando-se relutantemente quando Lyanna arregalou os olhos para ela com veemência.
Sam ainda estava parado na porta. Ele só deu um passo para dentro quando Jane cruzou com ele, encarando-o nos olhos como uma mãe zelosa faria.
Lyanna ficou de pé. Tensa. Juntando coragem.
— Queria falar algo comigo? – ela perguntou, apertando as próprias mãos.
Sam acenou com a cabeça, parecia tão desconcertado quanto ela. Seus olhos castanhos pareciam muito alertas. E ele passava a mão pelos cabelos repetidas vezes.
— Sim, Alteza – Sam falou. Parado diante dela.
— Estamos sozinhos. Me chame pelo nome, Sam – Lyanna pediu, sentando-se numa poltrona mais larga. Larga o suficiente para que ele se sentasse ao seu lado. Lyanna apontou para o espaço vazio. E agarrou uma mão na outra de novo. Preciso fazer isso. Preciso fazer.
— Tenho uma pergunta para lhe fazer – Sam falou, ao se sentar.
— Ótimo. Coincidentemente...tenho uma pergunta para lhe fazer também – Lyanna disse, sorrindo para ele. Bem ela achava que estava sorrindo. Era difícil dizer. Ela sentia o rosto esticando pelo menos.
— Você me concederia a honra de competir com seu lenço? – Sam falou. De um fôlego só. Lyanna piscou mais rápido do que parecia ser possível.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Claro, Sam – ela respondeu, enfiando a mão no bolsinho secreto das vestes, pegando o lenço que havia ali e entregando nas mãos dele, deixando a mão um pouco mais ali. Preciso fazer isso. Preciso fazer isso. — Não que eu ache que você precisa de alguma sorte nessa competição.
— Todo homem precisa – Sam disse, com um sorriso nervoso – E a sua pergunta? – Sam lembrou. O polegar dele acariciava a mão de Lyanna, timidamente.
— Você quer me beijar?— Lyanna também falou, de um fôlego só. Sam soltou a mão dela, assustado – Quero dizer...você gostaria de fazer isso? Porque...se você...quisesse...eu...eu deixaria... – ela tentou se explicar melhor, mesmo achando que não estava conseguindo nem um pouco.
— Quero dizer...eu acho que seria bom...antes de ter que escolher...não me leve à mal...- Lyanna continuou balbuciando, enquanto Sam olhava para ela, parecendo não acreditar no que ouvia.
— Pelo Sete, Sam! Fale alguma coisa... – Lyanna pediu, angustiada.
— Você pretende fazer isso com os outros também? – Sam perguntou, parecendo genuinamente curioso, mas com o olhar leve. Ele estava brincando com ela, agora que o susto parecia estar passando.
— Não acho que meu pai aprovaria – Lyanna sorriu – Mas não. Não pensei em fazer a mesma coisa com os outros...apenas...com você – ela esclareceu – Se você quiser também...claro.
Estou pedindo para ser beijada. Deuses a que ponto cheguei. Lyanna gritava com si mesma dentro da sua mente. Cobrindo o rosto com as mãos, sentindo vontade de encostar a cabeça nos joelhos. Ou melhor de enfiar a cabeça em um buraco. E não tirar mais de lá.
— Bem...eu seria um louco se não quisesse – ela ouviu Sam falando, a mão gentil dele tocando na sua, descobrindo seu rosto e ficando ali, levantando o rosto dela para ele.
Os dois olharam para a porta. Lys havia se levantado, mas permanecia parada diante da porta entreaberta do recinto. O barulho da multidão entrando pela varanda indicando que as justas haviam começado.
Lyanna fechou os olhos e esperou. Nervosa. Sentindo a respiração de Sam se aproximar dela.
— Tem certeza disso? – ele perguntou, com um fiapo de voz.
Sim. Preciso disso. Lyanna pensava, enquanto balançava a cabeça confirmando, ainda de olhos fechados, sentindo Sam acariciando seu rosto.
Até que os lábios dos dois se encontraram. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. E...nada. Ela não sentia nada. Nada do que Jane havia descrito.
Na quarta vez, Sam a segurou mais perto. E ela abriu os lábios para ele, com uma ousadia que nunca imaginou ter na vida, sentindo o gosto dele de verdade. Deixando que a língua dele explorasse sua boca.
Não adiantou muita coisa.
—*-
Sua irmã talvez não tivesse nenhuma ideia de que quando se tratava dela, os sentidos dele trabalhavam em dobro.
O que ele havia dito para Jon, não eram palavras vãs. Ele realmente acreditava que eles tinham nascido um para o outro. Ele sentia isso nos ossos. Uma conexão inexplicável. Um fio que os unia. E que não era só de sangue ou só de irmandade. Era muito mais.
Quando saiu do pavimento superior do camarote real, Rhaegar viu no olhar de Lyanna um brilho de determinação, de resistência à ele, que o fez estremecer.
Quando alguns minutos se passaram e ela não ocupou o assento ao lado dele, Rhaegar sentiu, sentiu de verdade, um puxão em seu peito. Um instinto que mandava ele se levantar, que mandava ele subir as escadas de volta até encontrá-la.
A sensação foi tão forte que ele não conseguiu não obedecer àquilo. E quando levantou, a primeira coisa que detectou foi a ausência do melhor amigo.
Rhaegar engoliu em seco e caminhou em meio aos convidados de honra, até o fundo, até a base da escada que o levaria para cima, quando Jon o acompanhou.
Felizmente, ele estava sério. Sam estava sentado ao seu lado. Jon com certeza viu quando o irmão levantou do assento. Com certeza viu para onde ele havia ido. E se ele parecia tenso ao ver Rhaegar ali, isso só podia significar que Jon também havia ligado os pontos.
— Alteza! – Lady Jane se assustou ao ver Rhaegar e Jon ali.
Rhaegar a encarou com frieza. Com o coração aos saltos ao se dar conta de porque Jane estaria ali vigiando a escada. Quando deu o primeiro passo para o degrau, Jane o deu junto com ele. Ele parou. Ela parou também.
— Saia silenciosamente, Lady Jane – Rhaegar mandou. Não falando com ela como um amigo. Ele gostava de Jane. Mas agora, ele falava com ela como Sua Alteza Real.
Ele manteve o olhar duro para a Dama de Companhia da sua irmã, até que ela cedesse. Até que baixasse a fronte e o obedecesse.
— Rhaegar...- Jon o chamou, a voz tenso. Com certeza preocupado com o que poderia acontecer.
— Sam é seu irmão e por isso não vou proibi-lo de me acompanhar, Jon. Mas suba calado. Ou então não suba — Rhaegar disse, avançando para os degraus.
A porta do primeiro pavimento estava entreaberta. Lys a vigiava, deitada no chão. Assim que o viu a loba se colocou de pé, mas Rhaegar fez um sinal de silêncio para ela e agradeceu aos céus por ela obedecê-lo.
Rhaegar não podia entrar. Não podia fazer isso. Lyanna era livre para escolher. Ele sempre disse isso para si mesmo. Mas ele também não conseguia descer. Não conseguia virar as costas.
Ele escutava a irmã e o melhor amigo conversando baixo. Não entendia nenhuma palavra, já que estavam longe da porta. Mas era a voz dos dois. Eram os dois.
Até que ele olhou melhor para a porta. Para a fresta da porta entreaberta. Que permitia ver exatamente onde os dois estavam sentados, como se o universo conspirasse contra seus sentimentos.
Ele não ouvia. Mas via. Via Lyanna pegando um lenço. Via ela entregando o lenço para Sam e deixando que ele acariciasse a sua mão.
Eles continuaram conversando assim, de mãos dadas, até Sam largar a mão de Lyanna, surpreso com alguma coisa. Quando ela cobriu o rosto, aquele fio invisível entre os dois fez o coração de Rhaegar doer de novo.
E Rhaegar entendeu o que ela faria. As paredes, os muros que ela insistia em erguer estavam ruindo. Não estavam adiantando mais. E ela precisava de outra arma. De outra coisa que o mantivesse de fora. Que afastasse o que ela também sentia.
Rhaegar deu um passo para trás quando viu o beijo. Mesmo sentindo que iria acontecer. Mesmo racionalmente entendendo o que levava Lyanna a fazer aquilo. Mesmo que uma parte dele o lembrasse que ele também já havia feito a mesma coisa no passado. Que sim, ele já havia beijado outras mulheres na esperança de esquecê-la.
Mas nada ajudava a diminuir o buraco que aquilo abria no seu peito, porque ver aquilo deixava bem claro que ele nunca conseguiria. Nunca conseguiria vê-la nos braços de outro. Aquilo era prova suficiente.
Suas mãos tremiam de vontade de abrir a porta, de tirar Sam de perto dela. De socar a cara do homem mais fiel e leal que ele já conhecera, além do próprio pai.
— Chega. Vamos— Rhaegar mal emitiu som ao dizer aquelas palavras. A visão do beijo entre Lyanna e Sam se aprofundando o atingiu com tanta força que ele desceu sem enxergar direito.
Jon o acompanhava de perto, parecendo extremamente aliviado por se afastarem daquela porta sem que as coisas tivessem acabado em violência.
Rhaegar não teria feito nada com Sam. Não por falta de vontade, mas porque não sentia as mãos. Não sentia o chão sobre os seus pés. E podia jurar que não sentia mais o coração batendo também.
—*-
Assistir ao resto das justas foi um grande sacrifício. Nenhum conhecido foi sorteado. E Rhaegar não conseguiu mais de sentar. Não conseguiu mais ficar perto de Lyanna. Ele não confiava em si próprio para isso.
Quando ela desceu, quando se sentou ao lado dele, ele se levantou e subiu. E esperou lá de cima o final. Quando acabou, ele saiu sem esperar por ninguém. Não atendendo o chamado de sua mãe. Não atendendo o chamado do seu pai. Ninguém.
Stormfire estava ali perto. Era dele que Rhaegar precisava. Do vôo. Do vento. Da distância. E ele voou até a noite cair. Só quando se sentiu cansado demais, ele se permitiu voltar para casa.
Ele sabia que encontraria um grande problema esperando por ele. Quando colocou os pés na Fortaleza Vermelha, ele imediatamente foi até seus pais e ouviu em silêncio suas reclamações, ignorando a forma como a sua mãe o olhava. Com uma preocupação assustada.
E ele sabia porque ela o olhava assim. Ele podia ser tudo menos apático. E ele tinha certeza que era assim que ele estava. Que era assim que ele ouvia a bronca que levava.
Quando o dispensaram, ele arrastou os pés para sua ala da Fortaleza de Maegor, querendo um banho e sua cama. Querendo apenas apagar e acordar no dia seguinte, e descobrir que tudo não tinha passado de um pesadelo.
Que Lyanna não estava tão determinada a rejeitar o que havia entre eles dois a ponto de envolver Sam naquilo. A ponto de beijar Sam.
Deuses. Ela havia beijado Sam. Meu melhor amigo. Várias vezes. Havia deixado Sam acariciar sua mão. Tocar em seu rosto. Tudo que ele mais queria fazer.
Mas quando saiu do banho, contando o segundos para cair na sua cama, Jon Tarly entrou pela sua porta com uma garrafa e dois copinhos.
— Vim trazer isso. Beba. Tem alguém nos esperando – Jon falou, servindo um copo e colocando na mão dele.
Rhaegar virou sem pensar duas vezes.
— Não vou pra lugar nenhum. Quero deitar – Rhaegar rebateu. O copo já estava cheio de novo. E o conteúdo já descia por sua garganta.
— Quer, mas não vai. Ou não me chamo Jon Tarly!
—*-
— O que diabos aquele garoto tem na cabeça? — Jon disse, assim que ele e Daenerys entraram no quarto, fechando a porta com força – Será que ele não pode me dar um único dia de paz? Como ele sai daquele jeito, sem falar com ninguém e fica sumido por horas? E ainda volta dando de ombros para tudo que eu falo, parecendo que voltou sem língua!
— Ele está bem. Vivo e em casa agora. Trate de se acalmar – Dany falou, tirando as mãos de Jon dos cabelos grisalhos, antes que não sobrasse nenhum fio ali.
— Aquele garoto ainda vai me matar. Já estou velho e parece que ele não cresce – Jon reclamou, Dany soltou um risinho.
— Ele cresceu sim. E tenha certeza, você aguenta – ela deu batidinhas consoladoras no ombro do marido e se sentou na ponta da cama, remoendo suas próprias preocupações com o filho – O dia terminou bem, apesar disso – Dany suspirou.
— Onde o seu capitão se enfiou? O dia estava bom só por eu não ter que ficar olhando para a cara dele – Jon falou, tirando as vestes.
— Ele não é meu capitão. Não seja infantil. E Ele estava ajudando Arya. Ela botou na cabeça que todos os lugares mais altos da cidade tem que ser monitorados para não servirem de esconderijo para arqueiros. E como ela queria se assegurar de que tudo estava como ela planejou antes de partir amanhã, mandei que ele ajudasse – Dany explicou.
— Obrigado – Jon murmurou. Sabia que ela havia feito aquilo por ele.
— De nada— Dany respondeu – Queria que você tivesse um dia mais tranquilo depois de ontem. Só esqueci de combinar com meu filho – ela completou, suspirando, com um sorriso cansado.
— Acha que ele está fugindo da conversa sobre a coroa que deu para Lyanna? – Jon perguntou, coçando a barba.
— Não. Nunca vi Rhaegar assim. Tem alguma coisa errada. Ele não é de fazer isso. Ele sabia o que todos iriam pensar com um sumiço desse, saindo no dragão – Dany ponderou. Agora era ela que quase puxava os cabelos de preocupação.
— Será então que foi por causa das justas? Por não poder competir? – Jon sugeriu. O filho realmente havia voltado com uma expressão triste. Com os olhos vazios. Não combinava com ele.
— Não sei. Será? Acho que não. Tem algo preocupando ele. Posso sentir. Tomara que não seja nada relacionado à escolha...Bem...Vou tentar conversar com ele amanhã. Vamos tomar o desjejum juntos não é? – Dany buscou confirmação.
— Sim. Toda a família. Arya e Gendry também e meus sobrinhos. Ela parte depois disso, para essa missão orquestrada por vocês duas...– Jon confirmou, se deitando.
— Ela e Gendry...
— O que tem os dois? – Jon perguntou.
— Não viu como passaram o dia se olhando? – Dany perguntou, terminando de se despir também, vestindo uma leve roupa de dormir.
— Como se quisessem se matar? Não, não prestei atenção – Jon falou, observando cada movimento de Daenerys.
— Hum. Isso também. Em alguns momentos. Mas em outros...Achei que estava mais para como se quisessem...outra coisa – Dany falou, se deitando também.
— Tem certeza? – Jon não escondia a surpresa. Ver sua irmã conseguir voltar a se relacionar com o próprio marido seria uma benção inesperada.
— Tenho— Dany riu, se agasalhando em baixo da coberta do marido – Lorde Baratheon estava com a mesma cara que você está agora.
—*-
Onde ele está? Onde ele está? A pergunta se repetia na cabeça de Lyanna sem parar.
Rhaegar havia saído em Stormfire há horas. E ninguém sabia onde ele estava. E ela estava uma pilha de nervos por isso.
Pelo menos ele estava de armadura. Não aconteceu nada. E onde está Jane que não volta?
Lyanna havia pedido que Jane saísse para saber do irmão, se já havia alguma notícia. Mas ela já havia saído há muito tempo. Lyanna não aguentava mais esperar ali.
Quando já havia se levantado para sair, sua Dama de Companhia entrou pela porta e Lyanna se sobressaltou. Pela expressão dela, ela tinha notícias.
— O Príncipe apareceu. Estava falando com suas Majestades. Está no salão comum agora, com Jon Tarly, estão bebendo lá, com aquela princesa estrangeira. Sua Alteza parece bem – Jane lhe falou. Lyanna se deixou afundar em uma poltrona, respirando fundo.
Ele está bem. Ele está bem. Graças aos Sete. Já esta até bebendo acompanhado de uma bela mulher. Está tudo bem. Lyanna fechou os olhos de alívio. Mas quando os abriu de novo, viu Jane retorcendo as mãos.
— O que foi Jane? – Lyanna perguntou – Tem mais alguma coisa?
— Ah...Princesa...preciso contar um a coisa...
— Estou vendo que precisa. Você está para arrancar seus dedos. Diga de uma vez Jane – Lyanna ordenou.
— O Príncipe...ele...viu. Ele me mandou sair da escada. Em silêncio. Não pude fazer nada. Ele subiu...ele e Jon Tarly...eles viram....Vossa Alteza... – Jane tentava falar, parecendo arrasada.
— Eu e Sam? – Lyanna levantou da poltrona, mas seu coração parecia ter despencado e ficado nas almofadas.
— Me perdoe, Alteza. Ele me mandou sair. Ordenou. Me olhou de um jeito que eu...Ele percebeu. Na hora que me viu, me mandou sair em silêncio — Jane desatou a falar, quase aos prantos.
Lyanna sentiu a garganta fechar. Era isso que eu queria, não era? Enterrar qualquer possibilidade. Qualquer...coisa. Talvez realmente tivesse conseguido.
— Ele está no salão do nosso andar, você disse? – Lyanna se ouviu perguntando. Não sabia porque, mas queria ir até ele. Precisava olhar para ele.
— Sim – Jane disse, mirando seus próprios pés.
— Vamos. Vamos até lá – Lyanna falou.
— O que você vai fazer Alteza? Vai brigar com o Príncipe? – Jane perguntou, nervosa. Parecendo que não queria fazer parte daquilo.
Lyanna não respondeu. Só saiu do seu quarto, com Jane fielmente atrás dela. E dessa vez, nenhuma vozinha dentro de si a mandou ficar. Enquanto caminhava até o salão comum do andar deles, nenhuma vez ela se viu tentada a diminuir os passos, a voltar.
Só posso estar louca. Beijei Sam. E Rhaegar viu. Eu deveria estar feliz. Se Rhaegar...Se há algo além... Serviu para ele ver que eu... É para isso que estou indo lá? Para ver como ele vai me olhar? Se está magoado? Se eu entendi corretamente as conversas que temos tido? Ou se vai me tratar normal e me provar que eu que estou ficando louca?
Talvez fosse isso. Ela não sabia direito. Só sabia que suas mãos não vacilaram quando abriram a porta do salão comum procurando pelos olhos violeta do irmão.
— Alteza! Lady Jane! Que surpresa! Vieram se juntar à nós? – Jon Tarly perguntou se levantando da cadeira, com o sorrisinho malicioso de sempre. Ele, Rhaegar e a Princesa Q'ira estavam sentados, bebendo e sorrindo.
Lyanna notou que Rhaegar deixou de sorrir assim que Jon falou seu nome, e que ele sequer olhou na direção dela. Sua barriga parecia despencar dentro de si.
— Vim ver meu irmão, agora que ele resolveu aparecer – Lyanna falou, se aproximando da mesa, mas Rhaegar continuava não olhando para ela.
Jon já afastava duas cadeiras e Lyanna, por falta de uma ideia melhor, acabou se sentando. Jane também, parecendo que sua cadeira tinha pregos. Sua dama de companhia parecia mortificada por estar ali.
— Estou bem. Não precisava ter se incomodado – Rhaegar respondeu, gelado. As palavras eram para ela, mas o tom de voz era um que ela nunca tinha ouvido dele.
Jane e Jon pareciam olhar de um para o outro, observando Lyanna encarando Rhaegar e sendo ignorada. Os dois estavam tensos, na expectativa do que iria acontecer.
O silêncio embaraçoso só se quebrou quando Q'ira resolveu falar.
— Vamos continuarr? Eu estava gostando do jogo! – pediu Q'ira, olhando bem ao redor da mesa, para as quatro pessoas ali com ela.
— Que jogo? – Lyanna perguntou. Não queria jogar nada, mas se havia ignorado a dispensa implícita de Rhaegar, precisava pelo menos tentar interagir.
— Você diz algo sobre si e o outro tem que dizer se é mentira ou verdade. Se errar bebe....se acertar... a outra pessoa bebe. Muito simples— Jon explicou, enchendo os copos deles três e olhando interrogativamente para Lyanna e Jane.
— Ecstava na minha vez! — Q'ira falou, se enrolando com o sotaque e a pronúncia do idioma comum. Efeito do que já tinha bebido, com certeza – Se prrepare, Prríncipe! — ela dizia para Rhaegar, o sondando com aqueles olhos espertos e sensuais.
— Estou pronto – Rhaegar falou, encarando Q'ira. Ignorando a vontade de olhar para Lyanna, sentada ali, sem dizer nada. O que ela está fazendo aqui? Porque me tortura desse jeito?
— Eu canto divinamente bem, como uma prrofissional— Q'ira falou, dando um sorrisinho para Rhaegar e esperando, sentindo a avaliação dele.
— Essa brincadeira é ridícula — Lyanna murmurou, torcendo para que pelo menos assim ele olhasse para ela, que fosse o suficiente para que o irmão a chamasse de chata, que pelo menos implicasse com ela. Que deixasse ela ter um vislumbre do que se passava pela cabeça dele.
— Como uma profissional? – Rhaegar repetiu, ignorando o comentário de Lyanna. Ele não conseguiria olhar para ela e não dizer o que estava entalado em sua garganta – Acho que é...mentira – Ele disse, vendo Q'ira lhe dirigir um sorriso felino.
— Beba! – ela falou, presunçosa.
— Prove! – Rhaegar bateu com a mão na mesa. Lyanna se sobressaltou em sua cadeira. Ele e a Princesa Qathena estavam se fuzilando com o olhar, medido forças, mas de um jeito que não era sério.
— Beba primeiro. E só então eu lhe concederei a honra, Alteza — Q'ira propôs. Rhaegar cedeu e virou o copo.
Q'ira pegou a garrafa e tornou a enchê-lo assim que Rhaegar o pousou na mesa.
— Uma aprresentação exclusiva minha, Prríncipe Drragão, vale pelo menos dois copos – ela explicou. Rhaegar riu.
— Vou beber, princesa. Mas eu decido se vale realmente dois copos. Se achar que não, você vai ter que beber também.
— Justo — Q'ira disse, estendendo a mão para ele apertar, Rhaegar achou engraçado – O que foi? Não é assim que se cumprimentam aqui? Estamos fechando um...acordo...não é? – ela perguntou, balançando a mão de novo.
Rhaegar a apertou. E acenou em concordância para ela. A demora para desfazerem o aperto de mãos, revirou a barriga de Lyanna. O que estava acontecendo ali?
Q'ira se levantou, alisando as roupas douradas que destacavam sua pele morena e reluzente. Rhaegar arrastou a cadeira para ficar de frente para ela, cruzando uma perna sobre a outra, pronto para ouvi-la.
— O que deseja, Alteza? Algo alegre ou triste? — Q'ira perguntou, limpando a garganta.
Rhaegar deu um sorrisinho de canto para ela, parecendo pensar. Ele olhou rapidamente para Lyanna. Ela o encarava, sem piscar. Ele desviou o olhar.
— Triste. Cante algo triste – Rhaegar pediu, bebendo mais.
— Tem certeza, Alteza? – Q’ira parecia surpresa com a escolha dele – Conheço algumas canções bem tristes. Posso acabar quebrando o seu coração – ela falou para Rhaegar, os longos cílios negros piscando exageradamente para ele.
— Impossível, princesa – Rhaegar rebateu na mesma hora, com um sorriso triste no rosto – Meu coração já está quebrado— ele disse, olhando nos olhos de Lyanna, admirando o seu rosto, mesmo que isso trouxesse à mente a lembrança dos lábios dela colados nos de Sam.
Lyanna tremia na cadeira quando os olhos violeta do irmão fisgaram os dela. Ela tinha ido até ali para isso. Para conferir os sentimentos dele. Mas ouvi-lo dizendo aquilo. Que seu coração estava quebrado...
Q'ira começou a cantar enquanto Rhaegar ainda a encarava. Ela não estava mentindo. Tinha uma voz impressionante. E cantava algo triste e melódico, em alto valiriano, que fazia os pelos dos braços de Lyanna se arrepiarem.
É a canção. A voz. A melodia. Não é por ele. Não é... Ela dizia para si mesma, quando Q'ira se aproximou da cadeira de Rhaegar, sedutoramente. Ainda cantando.
Lyanna se sentiu vazia quando ele a deixou tocar em seu rosto, em seu queixo, virando o olhar dele para si, tirando aquilo dela.
A princesa Qarthena cantava erguendo o rosto de Rhaegar para o seu, cantava olhando para ele. Abaixando seu rosto lentamente na direção dele. Fazendo o coração de Lyanna disparar no seu peito.
Ela não ia ficar ali vendo aquilo.
Sob o olhar atento de Jon, Lyanna arrastou a cadeira para trás e se levantou. Jane a imitou. A voz melodiosa e rouca de Q'ira ainda preenchia o ambiente. E Rhaegar parecia estar hipnotizado.
Lyanna se afastou sem se despedir. E quando cruzou a porta, olhou rapidamente para trás, apenas para ver os lábios da princesa estrangeira próximos demais dos do seu irmão.
Apenas para ver que ele não se movia do lugar, que seus olhos estavam fechados, como se ele esperassem pelo momento em que Q’ira o tocaria. Como se ansiasse por isso.
Lyanna fechou os seus olhos também, para não ver. Para não sentir. E caminhou apressada de volta para onde deveria ter ficado.
—*-
Seu alto valiriano não era tão bom quando o de Lyanna, mas ele entendia quase tudo que ouvia. E a música parecia ser feita para ele. Para o miserável coração ferido que ele carregava no peito.
Rhaegar estava perdido na letra da canção, quando sentiu a respiração de Q'ira misturada com a sua. Ela estava próxima. Próxima demais.
— Abra os olhos, Príncipe – Ela pediu, no ouvido dele, assim que terminou os últimos acordes. Se sentando em seu colo.
— E então? – ela quis saber, cruzando as mãos no pescoço de Rhaegar. Ele continuou com as mãos onde estavam. Pendendo ao lado seu próprio corpo, sem tocar nela.
— Dois copos seriam pouco, princesa. Sua voz é maravilhosa – Rhaegar admitiu – Eu adoraria ouvir mais – Ele pediu, olhando para a porta fechada. Para a cadeira vazia. E se sentindo ainda mais triste do que já estava.
— Mais?— Q’ira sorria, deliciada com o pedido, acompanhando o olhar dele ir voltar da porta – Nunca imaginei que um Príncipe tão bonito, sofresse por amor. Todas as mulheres do mundo não estão aos seus pés? – ela perguntou, analisando o rosto de Rhaegar.
— Não, não estão – Rhaegar respondeu, pegando o copo de novo, Jon ainda estava lá, parecendo se decidir se ficava ou se saía e deixava eles dois sozinhos. Rhaegar o olhou de um jeito que dizia fique.
— Quer ter alguém que não pode ter, Alteza? – Q’ira perguntou de novo. Rhaegar poderia jurar que Jon havia arregalado mais os olhos.
— Talvez – Rhaegar falou, suspirando, jogando a cabeça mais para trás, mais para longe dela.
— Odeio quando isso acontece – Q’ira falou, com um olhar solidário, tirando as mãos do pescoço dele, se servindo de mais bebida também, mas ainda em seu colo – Na verdade, estou me sentindo assim também. Quando aceitei o convite do Trono de Ferro para comparecer à essa comemoração, eu sabia que, apesar dos rumores de que procuravam uma esposa para o Príncipe, eu jamais seria escolhida. Sei que sua gente não gosta de rainhas estrangeiras. Mas quis vir mesmo assim. Estava entediada em Qarth. E botei na cabeça que poderia conseguir pelo menos beijar alguém com sangue valiriano nas veias. Sou encantada pelas histórias da Antiga Valiria— Q’ira acrescentou, com a voz divertida e sedutora.
Rhaegar suspirou fundo. Já estava se preparando para dizer que seria difícil ela conseguir o intento dela. Ele ainda não estava bêbado o suficiente para se deixar beijar, para anestesiar o que sentia por Lyanna.
— Acha que eu tenho chance com o Rei? – Q’ira perguntou. Jon cuspiu longe a bebida que tomava. Rhaegar piscava rápido se perguntando se tinha ouvido direito.
— Com meu pai?— ele repetiu, tentando não sorrir. Jon parecia não estar se controlando tão bem quanto ele.
— Você é maravilhoso, Alteza, não me leve a mal... – ela disse, alisando o peito de Rhaegar – Mas tenho uma queda por homens mais velhos. E aquela barba, aqueles olhos gelados...me dão arrepios — Q’ira sorria maliciosamente, mordendo o lábio, parecia até mesmo estar corando.
Rhaegar e Jon trocaram um breve olhar. Ele aproveitou para se levantar. Q’ira não parecia magoada. Mas ainda esperava uma resposta.
— Princesa...meu pai...não toma amantes – Rhaegar disse, por fim, coçando a cabeça.
— Nunca? – ela parecia espantada – Eu já tinha percebido que ele não é um Rei como os que já vi, mas ainda assim... – ela suspirou.
— Ele e minha mãe se amam. Não foi um casamento político, apesar de muita gente achar que foi, já que eram os últimos Targaryens...Mas ele realmente se apaixonaram. Nunca vi meu pai olhar para outra mulher...- Rhaegar explicou. Pensando nos pais, e de certa forma, sentindo inveja deles.
—...e se o Rei já tivesse olhado, não ia fazer muita diferença, porque a Rainha teria transformado essa mulher em cinzas – Jon acrescentou, rindo alto.
— Eu também faria o mesmo, se ele fosse meu – Q’ira deu de ombros, não parecendo nada intimidada.
— Cuidado, Q’ira. O ciúme da minha mãe é conhecido. Eu não arriscaria nada...- Rhaegar alertou.
— Talvez dê certo se eu cantar para ele, o que acha? – ela falou, sorrindo, bebendo mais.
— Acho que você pode tirar a roupa na frente dele e não vai dar em nada, Princesa. Com todo respeito – Jon Tarly falou, fazendo-a rir mais.
— Que pena, essa era minha próxima ideia – Q’ira falou, fazendo eles dois sorrirem alto – Vou ter mais sorte com você, Jovem Dragão? — Rhaegar parou de sorrir na mesma hora.
— Você vai tirar a roupa para ele? Posso ficar para ver?— Jon perguntou, parecendo muitíssimo interessado. Rhaegar o chutou por debaixo da mesa. Jon não escondeu a careta de dor e Q’ira desatou a sorrir dos dois.
— Acho que já bebemos demais – ela anunciou – E não estou acostumada a ser rejeitada. Então, não. Não vou tirar a roupa. Estava pensando em um beijo, apenas. Mas não acho que o Príncipe esteja disposto – Q’ira falou, se pondo de pé – Boa noite, cavalheiros, vou me recolher.
— Boa noite, princesa – Rhaegar se colocou de pé e beijou sua mão – Não esqueça do meu conselho...sobre meu pai...não gostaria de ver nada de ruim lhe acontecendo – ele acrescentou. Esperava que ela não fosse tola para realmente tentar nada. Não ia acabar bem.
— Não esquecerei...Mas me permita lhe dar um também – Q’ira falou, se aproximando dele, sussurrando ao seu ouvido – Encurrale sua bela amada em um canto e a beije até que ela esqueça como se chama e quem ela é. Acredite em mim, aqueles olhinhos cinzentos estão implorando por isso, tanto quanto os seus— ela disse, beijando o rosto dele, deixando o coração de Rhaegar aos pulos no peito, enquanto se afastava.
— O que ela disse? Você está branco! – Jon perguntou, assim que a porta bateu. Rhaegar não estava realmente chocado por ela ter percebido. Eles dois já não estavam mais conseguido agir normalmente. Mais gente perceberia. Não tinha jeito.
— Não queira saber, Jon. Não queira saber. Só... só não me deixe sozinho enquanto eu tiver alguma consciência – Rhaegar pediu, se segurando na cadeira para não sair e caminhar até a porta de Lyanna e fazer exatamente aquilo.
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