Forbidden
10 Capítulo 10
Jon não havia conseguido conversar com seus filhos no dia anterior. Enquanto aquele Torneio durasse, iria ser assim. Eles passariam o dia assistindo às disputas ou mergulhados em compromissos, audiências particulares e recepções. Por isso ele havia acordado mais cedo. Por isso havia descido para o andar dos filhos.
Ele imaginava que nenhum dos dois gostaria de ser acordado mais cedo que o necessário, mas ele não deixaria outro dia passar sem resolver as coisas que haviam entre eles. Precisava se desculpar com Lyanna e precisava ter uma conversa franca com Rhaegar.
Os guardas à porta de Lyanna se curvaram surpresos quando ele apareceu diante deles e, obviamente, o deixaram passar sem nenhuma pergunta. Assim que cruzou a antesala do cômodo da filha, lotado com suas prateleiras e seus muitos livros e pergaminhos, nada comum à decoração usual do quarto de uma princesa, Lys surgiu da porta do quarto privado da filha, com os olhos atentos.
A visão da loba, da guardiã atenta que vigiava sua filha à todo momento, aquecia o coração de Jon. Ele agradecia aos deuses antigos todos os dias por aqueles animais, por saber que eles eram muito mais que bestas, que eram um presente sobrenatural do Norte para a descendência dele. E à Sansa também, por ter enviado os lobos aos sobrinhos, quando poderia ter ficado com os filhotes que a loba de Arya pariu em Winterfell apenas para sumir novamente.
Quando a loba percebeu quem era, sua postura relaxou e ela foi até Jon e lambeu sua mão. Lys lhe lembrava tanto Fantasma, que em alguns dias, era doloroso olhar para ela ou tocar em seu pelo branco. Fantasma havia sido parte da sua alma. Havia sido um amigo. Um companheiro. E muitas vezes Jon o sentia ali, no branco de Lys, no vermelho dos olhos de Blackfire, como se de algum lugar, ele ainda olhasse por ele.
Jon seguiu em silêncio, com Lys ao seu lado, se deparando com a visão da filha dormindo profundamente. Ele se recostou no dossel, admirando-a. Ela ocupava apenas um lado da cama e dormia toda coberta, as mãos juntas e apoiadas de lado, cobrindo parte da sua expressão serena. Tão igual e tão diferente de quando era uma criança.
Ela sempre dormira assim. Serena. As vezes por cima de livros e pergaminhos, mas sempre serena. Sempre de um jeito que fazia com que ele sentisse vontade de ficar por perto, admirando os traços do seu rosto, vendo o ar entrar e sair dos seus pulmões.
Quantas vezes ele havia vigiado seu sono? Quantas vezes havia olhado para ela e para Rhaegar e precisado respirar mais fundo quando a profundidade do amor que sentia pelos dois o invadia com força?
Ele teria ficado ali por horas, apenas vendo-a dormir, mas Lys subiu na cama e tratou de lamber o rosto da filha, como se disse “acorde, tem alguém aqui”. Jon sentou na cama, ao lado da filha, afastando alguns livros, um caixa de velas estranhas, acariciando os longos cabelos dela.
— Bom dia, minha princesa— Jon falou baixinho, quando ela começou a se mover.
— Pai? – Lyanna chamou, sonolenta, se sentando na cama – Aconteceu alguma coisa? – ela perguntou, preocupada. Rhaegar veio à sua mente. O primeiro pensamento do dia. O último da noite. Lyanna se deu conta.
— Não, meu amor – ele disse, beijando a testa dela – Só não conseguimos conversar ontem e eu precisava pedir desculpas para você – Jon falou. Os dois sempre conversavam assim, sem rodeios.
— Ah..certo – Lyanna resmungou, se encostando nos braços do pai. Ele pareceu surpreso com a entrega dela, mas a abraçou de bom grado. Lyanna ainda estava magoada, mas depois da noite terrível que tivera, outra noite terrível, ela precisava do aconchego que sempre encontrava nos carinhos do seu pai.
— Me perdoe, filha. Por ter segurado você. Por ter puxado seu braço. Você é tão preciosa para mim, seu irmão já estava em perigo, tudo que eu queria era ir até ele sem me preocupar com o seu bem estar – ela ouviu a voz do pai lhe dizendo, soltando um suspiro pesado.
— Eu...eu machuquei você?— Jon perguntou, olhando para os braços dela, procurando por marcas de dedos. Ele sabia que a tinha segurado com força. Estava tão cego de medo por Rhaegar que não fazia ideia da força que poderia ter usado nela.
— Não deixou marcas – Lyanna falou baixinho, enterrando mais o rosto no peito do pai – Não na minha pele... – ela continuou, sentindo a garganta fechar. Seu pai estava ali pedindo desculpas, quando ela deveria estar fazendo isso. Quando ela deveria estar confessando para ele que não era normal, que nutria sentimentos pelo próprio irmão. Quando ela deveria estar pedindo ajuda, sendo sincera com ele, como sempre havia sido.
Jon sentiu o coração despencar quando ouviu o barulho que a filha tentava sufocar. Ela estava chorando. Estava chorando copiosamente, agarrada à ele.
— Me perdoe filha – Jon pediu, mais uma vez, mas o choro dela só ficou mais alto – Tente entender meus motivos...
— Me perdoe pai – ela também disse, com a respiração entrecortada – Eu entendo. Eu entendo – Lyanna começou a repetir, deixando para trás todo o episódio, chorando pelo problema que tinha diante de si, dentro de si. Ela gostava do próprio irmão. E era correspondida. Não podia mais ignorar aquilo. Não com Rhaegar olhando nos olhos dela e dizendo que seu coração estava quebrado. E aquele homem que a abraçava com tanta doçura...deuses...ela não podia fazer isso com seu pai. Não podia. Aquilo acabaria com ele. Ele não a perdoaria nunca.
— Perdoar você? Pelo que, filha? Você tentou bravamente voltar para ajudar seu irmão. Como eu teria feito por qualquer um dos meus. Você é tudo que eu pedi aos deuses, Lya. Não tenho pelo que te perdoar. Você é meu orgulho, minha pequena princesa esperta, sempre vai ser – Lyanna ouviu o pai falando em seu ouvido, distribuindo beijos em seus cabelos, cada palavra a fazendo chorar mais – Porque você está chorando tanto? – Jon perguntou, angustiado, erguendo o rosto de Lyanna, enxugando suas lágrimas.
— Nada – Lyanna sussurrou, com a voz estrangulada – Eu só...só estou com muita coisa na cabeça – ela generalizou, limpando as lágrimas que ainda insistiam em cair, saindo do abraço do pai, temendo encarar os olhos dele, temendo que ele visse através dela, que ele visse o que ela escondia.
— Tudo isso é por causa do Torneio? Da escolha que você terá que fazer? – Jon perguntou, pegando na mão da filha.
— Talvez – Lyanna tentou sorrir – Meus sentimentos estão...confusos...- ela falou, respirando fundo, precisando se controlar.
— Seus sentimentos...- Jon repetiu, com cautela — ...por alguém?— ele perguntou, corajosamente. Não sabia ao certo se queria conversar com a filha sobre aquilo. Mas precisava demonstrar que estava ali para ouvi-la, caso ela precisasse.
Lyanna ergueu os olhos para o pai, prendendo a respiração por um momento, sem saber o que dizer. Não gostava de mentir. Principalmente para ele.
— Mais ou menos – ela precisou dizer. Seu pai engolia em seco, com a expressão preocupada – De qualquer forma, não é uma decisão fácil. Ninguém se apaixona pela pessoa certa em sete dias. E eu só tenho mais dois... – Lyanna falou, fungando, mas tentando não parecer muito abalada.
— Posso lhe dar mais tempo. Posso dar mais tempo à vocês dois – Jon falou. Ele já vinha pensando nisso. Sabia o que tinha dito antes, mas os filhos pareciam tão estressados com essa escolha...- Quero que sejam felizes. Tanto você, quanto seu irmão – ele completou.
Lyanna olhou bem para o pai e se sentiu a pior pessoa do mundo. Ele não fazia ideia. Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo entre seus dois filhos. Aquele homem tinha o coração tão bom, esperava tanto o melhor das pessoas, como ele mesmo ofertava, que não conseguia ver. E agora lhe oferecia mais tempo. Mais tempo para o que? Para adiar a única coisa decente e digna que ela pode fazer com seus sentimentos?
Só lhe restava escolher alguém. O mais rápido possível. E depois ir embora dali. Colocar a maior distancia possível entre ela e o irmão e torcer para o tempo sumir com seus sentimentos.
— Não pai, não preciso de mais tempo. Isso não vai ficar mais fácil. Ao final do torneio, escolherei um noivo – Lyanna falou, tentando parecer mais tranquila e firme – Estou reclamando porque sou boba. Mas estou bem. Não se preocupe – Lyanna disse, beijando o rosto do pai, acariciando sua barba grisalha e bem aparada, enquanto cada mentira que dizia lhe deixava um gosto amargo na boca.
— Bom, se ao final do Torneio você não se sentir segura para escolher, não tem problema. Podemos esperar um pouco mais – Jon garantiu. Lyanna acenou compreendendo – Estamos bem então, não é?— Jon quis confirmar.
— Estamos – Sempre quero estar. Ela pensou – Te amo muito, pai – Lyanna falou, com um sorriso sem muito calor, nada do que seu pai merecia ganhar.
— Também amo muito você, filha – Jon disse, beijando a testa dela mais uma vez, mas já se levantando da cama – Vou deixar você se cuidar. Preciso acordar meu outro filho agora – ele disse, sorrindo.
— Vai conversar com Rhaegar? – Lyanna perguntou retoricamente – Sobre a minha coroa? – ela continuou, curiosa.
— Sim, vou até o quarto dele agora – Jon falou.
— Posso lhe pedir uma coisa? – Lyanna quis saber. Ela encarou o silêncio e a atenção do pai como um sim, estou ouvindo— Não seja muito duro com ele, por favor. Por mim – ela se viu pedindo.
— Dependendo do que ele tenha aprontado...prometo que vou tentar – Jon disse, surpreso com o pedido dela, mas sendo sincero.
— Obrigada – a filha respondeu. Jon quase perguntou porque ela estava pedindo aquilo pelo irmão, mas ele imaginou que fosse pelos acontecimentos dos últimos dias. Era incomum que Lyanna fosse benevolente demais com Rhaegar, como Daenerys era.
— Nos vemos daqui a pouco – Jon se despediu, tocando em Lys mais uma vez e saindo do quarto da filha, atravessando o longo corredor até o quarto idêntico que ficava no outro extremo daquela ala.
Quando ele abriu a porta do quarto privativo de Rhaegar, apenas a promessa que havia acabado de fazer à Lyanna, e também a recordação dos fatos que vinham acontecendo com o filho, as víboras, as flechas, apenas isso, o impediu de fechar a porta com um estrondo alto e acordá-lo. Porque se Lyanna dormia como uma criança doce, o filho parecia que tinha sido jogado na cama.
O garoto dormia de barriga para baixo, totalmente vestido e calçado e exalava à bebida. Ao seu lado, sobre a cama, Blackfire estava deitado, com os olhos vermelhos espreitando Jon. Diferente de Lys, o lobo preto mal se moveu. Permaneceu ao lado do dono. As presas não estavam à mostra, mas ele também não relaxava, talvez sentisse as emoções agitadas de Jon.
Ele respirou fundo. Queria respostas. Mas não queria discussões. Então ele simplesmente sentou na poltrona que ficava próxima da cama, olhando para o rosto do filho, enquanto esperava que ele sentisse que alguém o olhava.
Quando percebeu que estava esperando em vão, Jon tocou no braço de Rhaegar, cuidadosamente. Blackfire o olhava desconfiado e ele não duvidada que o lobo mordesse sua mão se ele se movesse rápido demais perto do seu dono. Blackfire sempre havia sido assim, desconfiado e pouco amigável. Jon não se queixava. O lobo já havia salvado a vida do filho muitas vezes, desde a infância.
— Rhaegar!— Jon falou alto, porque apenas tocar no filho não estava adiantando nada.
— Hum – Rhaegar murmurou, se ajeitando em meio aos lençóis, virando o rosto para o outro lado.
— Não tenho o dia todo garoto! — Jon tocou nele de novo, assanhando os cabelos prateados amassados, da mesma cor dos fios da mãe dele. Ele se sentiu tentado a dar um leve tapa na cabeça do filho quando ele permaneceu inerte, mas se deteve, ainda que a sua paciência já estivesse acabando.
— Rhaegar! Acorde! – Jon praticamente gritou.
— Oi — o filho acordou sobressaltado, sentando de uma vez – Oi. Acordei. O que...Ah...pai?— ele esfregava os olhos, como que para ver direito.
— Você está de ressaca, garoto? – Jon perguntou, sabendo muito bem a resposta.
— Ah...a cabeça parece que não dói. Então, não – Rhaegar disse, se espreguiçando e pulando da cama – O senhor quer conversar comigo, imagino – ele disse, jogando água numa tina e lavando o rosto.
— Quero. Se você estiver em condições – Jon observou, no seu pior tom de calma e serenidade. Mas ainda na calma e na serenidade.
— Se puder me dar alguns instantes...pode me aguardar na antesala? – Rhaegar pediu, com educação, mas também com a sua dose de firmeza. Ele definitivamente não ia conversar com o pai sobre coisas sérias com a cara amassada. Aquilo não o ajudava. Não passava a imagem certa.
— Não demore— Jon respondeu, franzindo os lábios, saindo do quarto dele e indo para antesala e se sentando.
Pouco minutos depois, Jon observou o filho sair do seu quarto vestido, penteado e com outra roupa. Os olhos não estavam mais sonolentos. Ele vinha com um copo nas mãos que Jon esperava que, em nome dos deuses novos e antigos, não fosse outra coisa além de água.
— Bom dia, pai – Rhaegar disse, se sentando de frente para ele.
— Bom dia, filho – Jon suavizou o tom, de verdade agora – Com quem você bebeu ontem? – ele perguntou. Não tinha sido informado sobre nenhuma saída do filho.
— Com Jon Tarly e a princesa Q’ira, aqui mesmo no nosso salão comum – Rhaegar respondeu, de pronto – Imagino que o senhor tenha vindo até aqui para me perguntar sobre a coroa... – ele afirmou, com tranquilidade.
— Sim, vim. Gostaria de saber como você conseguiu adquirir uma joia tão obviamente cara como aquela – Jon falou.
Claro que ele sabe o que vim fazer aqui. Sempre teve a mente afiada. Só não a usa como a irmã. Jon pensou, aliviado em ver que Rhaegar não ia tentar fugir do assunto.
— Tirei meu fundo pessoal do cofre do tesouro há alguns anos atrás. Sem permissão de ninguém – Rhaegar enfatizou logo, quando viu o pai enrijecendo na poltrona – Investi o ouro em algumas coisas, devolvi a quantia com rapidez, por isso ninguém percebeu. Enfim, tenho minhas reservas pessoais. Foi com elas que comprei a coroa para dar de presente à minha irmã. Ela merecia uma peça como aquela – Rhaegar acrescentou, numa respiração só.
Jon ponderou as palavras que ouviu. Já estavam ensaiadas. O garoto sabia que não fugiria de dar uma explicação. E a explicação já estava cuidadosamente pronta. Com uma leve bajulação à irmã que ele esperava, com certeza, amenizar sua curiosidade. Ou sua raiva, quando descobrisse a verdade.
— Você teria que ser um homem muito rico para comprar uma coroa daquelas com seus próprios recursos, Rhaegar – Jon falou, estreitando os olhos para ele.
— Ou eu poderia ser alguém com algum ouro e muita sorte ao encontrar uma pessoa desesperada para vender uma pedra preciosa maior que o normal por muito menos do que ela vale – Rhaegar jogou. Não que fosse verdade. Porque não era. Ele realmente havia gastado uma fortuna comprando o rubi gigante que havia sido lapidado para se tornar a Coração de Fogo. Mas seu pai não precisava saber disso.
— Bem menos provável. Mas seria uma forma também, é verdade – Jon ponderou – Mas me diga, como você conseguiu tirar o ouro do cofre real sem ninguém saber, perceber, ajudar ou autorizar? Estou muito curioso... Aliás...tirar e colocar de volta a mesma quantia...
— Eu pedia para ver meu ouro todo mês, achavam que era um capricho de criança. Mas fui observando as trocas de guardas. Foram me deixando sozinho conforme eu fazia aquilo todo mês. Um dia eu substituí o saco com os dragões de ouro por outro com mais ou menos o mesmo peso. Não eram muitos. Fiz o inverso depois – Rhaegar deu de ombros, tentando falar aquilo tudo como algo que ele teria conseguido fazer, algo que o pai achasse que estava dentro da sua capacidade. Ele não queria trazer problemas para a sua mãe.
E parecia estar dando certo, já que o pai esfregava as têmporas como se estivesse com uma enorme dor de cabeça.
— E onde essas suas reservas pessoais estão guardadas? – Jon perguntou, apoiando os cotovelos sobre os joelhos, deixando seu corpo mais inclinado e mais próximo do filho.
— No Banco de Ferro de Braavos – Rhaegar respondeu. Estavam. A maior parte não está mais lá. Na verdade, estavam atravessando o Mar Estreito rumo à Pedra do Dragão com uma escolta que estava lhe custando quase o mesmo valor da coroa de Lyanna.
— Interessante. Talvez eu envie uma carta ao Banco de Ferro pedindo informações sobre suas reservas com eles... – Jon deixou no ar, analisando o impacto daquela sugestão no semblante do filho. Mas não havia nenhum. O garoto continuava parecendo sereno e inabalável. Ele não sabia de quem o filho havia puxado aquilo. Não era dele. Nem de Dany. Os dois às vezes eram passionais demais, cada um do seu próprio jeito, mas eram. E Jon tinha a impressão de que ali, naquele momento, estava falando com alguém frio e calculista, como Sansa talvez.
— Duvido que eles lhe concedam qualquer informação, pai. Mas vai ser desagradável negar isso ao Rei dos Sete Reinos. De qualquer forma, se o senhor deseja um número, eu mesmo posso lhe dar e posso autorizar à eles que confirmem – Rhaegar sugeriu. E eu não estaria mentindo. O que ficou lá não foi muito.
— Não quero um número – Jon se levantou – Já me dou por satisfeito se você responder à uma única pergunta minha com sinceridade, sem meias verdades— Jon falou – Isso, claro, se você tiver um mínimo de respeito por mim, como seu pai – Jon suspirou e parou de andar pelo cômodo, encarando o filho que o olhava com atenção – Não sou seu inimigo, Rhaegar.
— Nunca achei que fosse – Rhaegar disse, engolindo em seco. Seu pai estava jogando pesado com ele. Claro que ele o respeitava. Como pai, como Rei. Claro que não o via como um inimigo. Eles só...queriam coisas diferentes...principalmente com relação a Lyanna.
— Como conseguiu o ouro?— Jon não pestanejou.
— Sou um investidor passivo em algumas coisas.... – Rhaegar respondeu. Seu pai fechou os olhos com frustração. Mais meias verdades. Muito bem. Ele precisava esclarecer mais — ...eu financio expedições...Basicamente tenho feito o que os Velarys fizeram séculos atrás. Financio marinheiros que navegam para lugares distantes, descobrem coisas novas e as vendem nas grandes cidades livres, como produtos exóticos – Rhaegar explicou. Parecia ter sido verdade suficiente, já que o pai havia voltado a se sentar.
Ele realmente fazia aquilo. E realmente era lucrativo. Mas às vezes faziam outras coisas também, mas daquelas seu pai não iria gostar de saber.
— Tenho uma segunda pergunta, filho – Jon falou, agora que estava mais próximo da verdade. Rhaegar permaneceu atento e calado – Porque você quis fazer isso? Não tem tudo que precisa aqui? Acha que nós não faríamos tudo por você? — Jon perguntou, um pouco triste ainda que também estivesse impressionado.
— Pai...você e minha mãe são os melhores pais que alguém poderia ter... – Rhaegar esclareceu – Eu...eu só não gosto de ver nossa Casa depender totalmente do Trono de Ferro de novo. Não gosto disso. Não podemos cometer os mesmos erros do passado. A Casa Targaryen tem que ser maior que o Trono de Ferro. O Trono, o governo, tem que precisar de nós e não o contrário. Eu quero que o povo de Westeros nos queira no Trono porque somos os melhores. Os maiores. Não apenas porque nos temem com os nossos dragões. Se eles morrerem e deixarem de existir de novo, o que faremos? Se amanhã o povo dos Sete Reinos resolver que preferem ser governados por um sistema semelhante ao das cidades livres, o que nós vamos fazer? Para onde vamos? Para Pedra do Dragão? Aquilo é uma ilha pedregosa que não produz nada. Ela só tem uma localização estratégica e um vulcão que serve para chocar nossos ovos. Do que vamos viver? Como vamos nos defender de quem nos considerar uma ameaça? – Rhaegar começou a dizer, enquanto o pai o observava em absoluto silêncio.
— Seus netos, seus bisnetos, podem passar pelo mesmo que minha mãe passou, pelo mesmo que o senhor teve que passar, se nos acomodarmos. Nosso nome pode deixar de existir, como tantos grandes nomes já deixaram. Podemos virar apenas páginas da história. Quase viramos. Não posso conviver com essa possibilidade – Rhaegar falou e se calou. Dando tempo ao pai para digerir aquilo tudo.
— Você está dizendo então que esse ouro é da família? – Jon perguntou após alguns minutos. Surpreso. Jon estava muito surpreso com o raciocínio do filho. Com a paixão que ele estava demonstrando pela manutenção da Casa Targaryen. Uma paixão que Jon precisava admitir que nunca tivera.
Ele ainda se via muito mais como um Stark do que como um Targaryen. O dia em que havia sido coroado Rei dos Sete Reinos ao lado de Daenerys, por causa de Daenerys, não havia chegado nem perto de o emocionar como quando havia sido proclamado Rei do Norte.
Ele já havia aceitado sua origem, mas sempre seria muito mais lobo do que um dragão. Diferente do garoto, do homem, diante dele, que era um Targaryen de aparência e alma. Seu filho podia andar acompanhado de Blackfire, mas ele era inteiramente um dragão, e até o nome que escolhera para o lobo, deixava isso claro.
Jovem dragão, era como a plebe o chamava. Rhaegar era como sua Dany. Talvez mais. Talvez ele estivesse diante de alguém que no futuro seria lembrado como um Grande Dragão. Talvez um dia ele fosse lembrado apenas como o Rei que foi pai daquele garoto.
— Um dia, será. Mas por agora...o ouro é meu. Para que o use como eu achar melhor. Pode servir à família, sim. Se eu achar necessário – Rhaegar disse, com a sinceridade que seu pai tanto queria dele, tentando não passar arrogância ou egoísmo com aquelas palavras, mas ainda assim sendo firme.
Jon não se surpreendeu com a resposta. Nem se irritou. O que ele poderia dizer? Que era injusto?
— Alguma chance dos seus investimentos darem errado à ponto do Trono de Ferro precisar suprir algum prejuízo financeiro? – Jon perguntou, se levantando de novo, indicando que a conversa estava chegando ao fim.
— Me certificarei de que isso não aconteça – Rhaegar garantiu, ficando de pé também.
— Se algum dia, algo der errado, e não estou desejando que dê, saiba que você pode contar conosco – Jon falou, vendo o filho acenar discretamente, parecendo surpreso. Jon ainda não gostava muito da ideia, de onde e porque e para que o filho usaria seus recursos, mas não ia alongar ainda mais a conversa. Precisava subir e trocar suas vestes. Poderiam voltar àquilo em outra ocasião.
Rhaegar respirava aliviado ao ver o pai caminhando na direção da porta. A conversa tinha fluído melhor do que ele havia esperado. Mas o pai parou de repente e ele voltou a prender a respiração.
— Você realmente conseguiu pegar o ouro do cofre? – Jon perguntou, franzindo a testa. Rhaegar poderia ver a preocupação do pai com a segurança do cofre real. Já podia ver ele se desgastando para resolver aquilo. E sua consciência pesou. O pai já tinha muito com o que se preocupar.
Rhaegar balançou a cabeça negativamente, mordendo o lábio. O pai parecia pensativo.
— Sua mãe? – Jon perguntou. Rhaegar sorriu sem jeito.
— Não brigue com ela por causa disso, por favor – Rhaegar pediu. E Jon lembrou do pedido de Lyanna para ele. Pelo irmão. Parecia que ele havia se tornado um ranzinza que brigava com todo mundo, pelo jeito.
— Só porque você me disse a verdade, o que significa que estou extremamente aliviado por não ter tido meus cofres roubados por um garoto, não vou dizer nada à sua mãe – Jon falou, vendo o filho relaxar e sorrir, antes dele voltar a se dirigir para a porta.
O sorriso dele quando conseguia algo era igual ao da mãe. Aquilo aquecia o coração de Jon. Aquilo, e saber que Rhaegar seria melhor do que ele. Seria um Rei realmente apaixonado pelo Trono que ocupava e pelo símbolo que carregava. Como pai, ele não podia desejar mais que isso.
—*-
Eles não iam direto para a arena naquele dia. Não iriam tomar o desjejum separados, cada um em seu quarto, como no dia anterior. E Rhaegar estava tenso, para variar. Ele não sabia como Lyanna estaria com ele naquela manhã. Mais uma vez. E por mais auto controle que achasse que tivesse, ele não estava mais aguentando aquilo.
Seu estado de espírito estava tão para baixo, que ele havia recusado a casaca vermelha e dourada que haviam selecionado para ele vestir. Quando saiu do seu quarto rumo aos jardins, ele se sentia vestindo uma réplica dos trajes habituais do seu pai. Estava todo de negro. Igual seu humor. Suas vestes eram agora uma eterna mistura de couro e placas de aço cobrindo seu peito, já que seu pescoço parecia estar à prêmio mais do que o de todo mundo ali. Ele também deveria andar com a espada em seu cinto, para onde quer que fosse. A única cor que havia nas vestes era que o pequeno detalhe em forma de dragão de três cabeças que enfeitava sua placa de aço era cor de cobre, como as escamas de Stormfire o eram.
Aquilo tudo deveria deixá-lo atento, talvez nervoso. Mas não deixava. Desde muito cedo Rhaegar sempre soube que a vida deles correria esse tipo de risco. Eles precisavam aprender a conviver com aquilo, a minimizar os riscos e a viver enquanto podiam. E naquela manhã, ele estava se sentindo tão abatido que não sabia se valia a pena viver daquele jeito, sofrendo por Lyanna, enquanto ela se recusava a ceder ao que também sentia.
Quase chegando nos jardins, Rhaegar foi acompanhado pelos Tarlys. Todos eles. Ele achava que tomariam o desjejum apenas com a família, mas Samwell Tarly também era família para seu pai.
— Bom dia Lorde Samwell, Lady Gilly – Rhaegar os cumprimentou, beijando a mão de Gilly, Sam, Jon, Dickon e Aemon estavam ao lado deles, olhando para Rhaegar com atenção. Principalmente Sam.
— Bom dia, Sua Alteza – eles responderam em conjunto.
— Você e Jon tem que parar de beber toda noite, Alteza – Gilly tocou no rosto dele, com uma leve reprovação, muito provavelmente para as leve olheiras que ele estampava abaixo dos olhos hoje.
— Seu filho que me corrompe, milady. Eu já estava pronto para dormir quando ele apareceu no meu quarto ontem – Rhaegar se desculpou, sem se incomodar com o toque da Lady das Terras da Campina. Gilly havia cuidado dele desde que nascera, havia ajudado no difícil parto da sua mãe. Se alguém naquele grupo poderia reclamar das olheiras dele ali, esse alguém era ela.
Rhaegar mais ouviu do viu o tapa no ombro que Jon recebeu da mãe assim que terminou de dizer aquilo. Como ele mal saiu do lugar, ele imaginou que não havia sido com muita força. Lorde Samwell ria por cima dos óculos que já usava havia um bom tempo.
Rhaegar tentava não encarar demais Sam. E aquilo era muito estranho. Em poucos dias ele havia se afastado de Sam e se aproximado mais de Jon. E ele percebia o quanto sentia falta do amigo. Os três sempre andaram juntos. Os quatro na verdade, Dickon também era presença constante, quando não estava para cima e para baixo com o Rei. Mas agora toda a dinâmica entre os dois estava alterada.
O grupo se pôs a caminhar novamente e Rhaegar sabia que seria ele a quebrar o gelo. Sam era contido demais para fazer isso. O amigo nunca iniciava uma conversa. Estava sempre ao seu lado, pronto para ajudá-lo, para servi-lo, mas era sempre Rhaegar que tinha que fazer de tudo para deixá-lo relaxado, para demonstrar que eles tinham uma amizade verdadeira, que Sam podia falar dos seus assuntos pessoais com ele.
— Pronto para as justas de hoje? – Rhaegar perguntou, caminhando ao lado de Sam. Jon caminhava colado nos dois, com cara de que estava pronto para se enfiar entre eles se fosse necessário.
— Sim – Sam respondeu – Tanto quanto posso estar. Estou tentando não ficar muito nervoso. Lembrar que é só mais uma competição – Sam continuou dizendo, olhando para Rhaegar com alguma expectativa velada.
— Tenho certeza que o lenço da minha irmã lhe dará sorte – Rhaegar soltou. Sam ficou branco. Jon prendeu a respiração atrás deles dois, arregalando os olhos. Rhaegar sentiu vontade de empurrá-lo para longe. As reações dele só serviam para irritá-lo – Eu tenho ciúmes dela, Sam. Não posso negar. Eu...amo minha irmã e quero vê-la feliz – Rhaegar continuou. Meias verdades. Ele não queria apenas vê-la feliz. Ele queria fazê-la feliz. Ele mesmo. Mas ela tinha que querer aquilo também — Não quero que isso estrague nossa amizade. Me perdoe se eu em algum momento...se eu parecer ciumento demais...Eu conheço você...– Rhaegar engoliu em seco. Sam parecia desconcertado.
— Eu tenho uma grande admiração por ela...Realmente pedi o lenço...E para minha honra ela o concedeu...- Sam começou a dizer, as palavras corretas lhe fugindo. Ele conhecia bem demais Seu Príncipe para saber que ele a expressão que fazia era de autocontrole, que algo o incomodava e que ele estava tentando esconder. Talvez ele soubesse do beijo também. Já que sabia do lenço. Talvez a própria irmã tivesse contado. Ou então Rhaegar poderia ter dito aquilo apenas para que ele confirmasse. Sam bem sabia o quanto ele era esperto, apesar de a irmã ter a inteligência mais reconhecida.
Sam sabia que ele estava estranho. Seu melhor amigo agora andava mais com seu irmão do que com ele. E talvez fosse realmente por causa de Lyanna. Sam não sabia bem o que pensar. Mas entendia. Se ele tivesse uma irmã, também se preocuparia. Sam sentia uma pontada de culpa por ter beijado Lyanna. Ele não se arrependia. Mas de alguma forma se sentiu traindo a confiança de Rhaegar. Talvez ela também tivesse se sentido assim, porque o beijo havia sido estranho. Ele já se perguntava a algum tempo como seria beijá-la. Mas a resposta àquela pergunta não foi o que ele esperava. Talvez pelo lugar em que estavam, pela tensão ou por ser algo premeditado, por ele não sentir que ela estava com vontade de fazer aquilo, apesar de ela dizer que queria fazer aquilo.
— Se ela me escolher, cuidarei dela com a minha vida – Sam falou por fim, vendo Rhaegar acenar, com seriedade. Sam sabia que ele estava sendo sincero. Mas sentia falta dos sorrisos relaxados que sempre via no Príncipe.
— Eu sei – o Príncipe falou, tocando em seu ombro. Um gesto comum entre eles. Mas naquela manhã, Sam não conseguia sentir a naturalidade de antes nele.
Eles seguiram caminhando em silêncio, quando aquela pequena conversa deveria estar aliviando as coisas entre os dois. Mas não era isso que Sam sentia.
Talvez precisassem de mais tempo. Talvez não precisassem de nada. Talvez a Princesa simplesmente não o escolhesse e então os dois voltariam a ser como antes. Amigos e parceiros. Em uma realidade onde ele não seria o responsável por fazer a irmã dele feliz, por protegê-la, por construir uma família com ela. Ele poderia continuar penas ali, o servindo como amigo e protetor ou para qualquer coisa que ele precisasse.
E pensar naquilo, deixava claro para Sam que, definitivamente, não era uma perspectiva ruim.
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Quem consegue tomar um desjejum com tantas coisas acontecendo sob a superfície? Eles certamente, não. Rhaegar podia ver as perguntas, as preocupações silenciosas, que vazavam dos olhos de todos e faziam com que ninguém comesse com apetite. As de seu pai, sua mãe e de Lorde Gendry estavam voltadas para a mulher baixinha que colocava medo nos Sete Reinos tanto quanto qualquer Targaryen em cima de um dragão. Sua tia Arya.
Mas as dela estavam especialmente voltadas para as suas duas filhas. Apesar de Rhaegar a observar, ocasionalmente, olhando para ele próprio. E para seu pai. E para Lyanna. E para os outros dois sobrinhos, também sentados à mesa. E até para o marido. Sua tia, definitivamente, parecia estranha.
Ela iria sair em uma missão. Rhaegar sabia disso. Os pais não tinham sido muito claros nos objetivos, mas Rhaegar sabia que ela estava indo para Dorne e, pelo jeito do seu pai, pela preocupação que ele estampava no rosto, com certeza se tratava de algo perigoso, mesmo para alguém como ela.
Seu amigo Sam olhava dele para Lyanna, com certeza pensando na conversa que tinham tido ou nos beijos que havia dado nela. Rhaegar não queria pensar muito na última hipótese. Enquanto isso, Jon Tarly olhava para eles três, revirando os olhos vez ou outra. E Rhaegar continha um riso involuntário sempre que via ele fazendo aquilo.
Quem naquela mesa sabia tudo que estava se passando entre todas as pessoas ali? Isso mesmo, Jon Tarly. Era cômico, de algum jeito estranho.
E com a falta de assunto, que só o ajudava a observar tudo e todos, claro que ele também estava de olho nela. E Lyanna, bem, ela era a única que não olhava para ninguém. Só para baixo, para as próprias mãos, enquanto remexia no prato, sem comer nada. Eles estavam sentados de frente um para o outro, em lados opostos da mesa. E Rhaegar simplesmente odiava vê-la daquele jeito.
Todos os outros se preocupavam com algo ali. Com situações, com as pessoas que amavam. Se preocupar era normal. Ninguém ali estava se obrigando a não demonstrar nada, como ela tentava fazer, ao insistir em manter os olhos em si mesma.
— Bem, hora de ir – A voz da Arya quebrou o silêncio. O barulho da sua cadeira sendo empurrada para trás soando alto enquanto ela se levantava. Ela parecia tranquila, de um jeito meio duro, mas tranquila. O Rei também se levantou. E a Rainha. E Gendry Baratheon. Mas Arya não olhava para eles.
— Vocês duas...— Arya chamou a atenção das filhas, que conversavam com Ned, Robb e Aemon sobre a competição de arco e flecha que disputariam com Jaime Lannister – Venham cá— ela chamou com as mãos. As duas garotas levantaram e foram até a mãe, que se abaixou para olhá-las nos olhos.
— Vou passar um bom tempo fora...- a Mestre Espiã do Trono de Ferro começou a dizer, tocando no rosto de Visenya e Nymeria – Espero que vocês duas se comportem... – as garotinhas trocaram olhares e sorrisinhos – ...e que não deem muito trabalho para o seu tio e para o seu pai. Amo vocês— os sorrisos infantis diminuíram – Me perdoem por não estar com vocês o tempo todo. Vocês duas são as duas garotas mais espertas e especiais que existem. Nunca deixem ninguém convencer vocês do contrário – elas agora se olhavam sem entender porque a mãe dizia aquelas coisas – Entenderam? – ela completou, beijando as duas.
Das filhas, todos observaram em silêncio ela se dirigir até o irmão, com um sorriso no rosto. Ela era a única que sorria.
— Não deixe as coisas desandarem enquanto eu estiver fora, Snow— Arya disse, antes de abraçá-lo com força. Rhaegar nunca ouvia ninguém chamar o pai pelo nome de bastardo, nem mesmo sua mãe, ou Lorde Samwell, que o conheceu assim e era seu amigo mais próximo. A família o chamava de Jon e não de Aegon, seu verdadeiro nome, mas Snow, só mesmo sua tia Arya para usar.
— Vou tentar— o Rei respondeu, com um sorriso tranquilo para a irmã – Mas volte logo – ele pediu e a soltou, como se um segundo a mais naquele abraço fosse fazer com que ele mudasse de planos.
Arya circulou, falando algo com todos, beijando os dois sobrinhos filhos de Sansa e Lyanna. Até parar na frente de Rhaegar. Ele era bem mais alto que a tia, mas sempre se sentia como um garotinho pego fazendo algo quando ela olhava para ele com aqueles olhos iguais aos do pai, parecidos com os de Lyanna e frios como toda a neve do Norte.
— Tenha cuidado, garoto— ela disse. E Rhaegar se surpreendeu quando ela tocou no rosto dele com carinho. Sua Tia não era de demonstrações de afeto em público como o pai dele, que sempre era carinhoso com a família, não importava a ocasião – Ia ser um desperdício alguém tão bonito como você morrer jovem – ela falou, parecendo divertida, falando coisas sérias com um tom de leveza que Rhaegar não fazia ideia de onde ela tirava.
— Você vai ser um Rei maravilhoso, se manter essa cabeça prateada sobre o seu pescoço – Rhaegar riu e segurou o pescoço com uma das mãos. Arya riu também, mas falou mais baixo:
— Seu pai, eu e sua Tia Sansa aprendemos do pior jeito que é preferível perder um pedaço da alma destruindo outros, do que pela dor de perder quem nós amamos. Mas...nós três assimilamos isso em níveis diferentes...e não preciso dizer quem é o mais ponderado de nós três não é?... – A tia continuou falando, olhando para o Rei rapidamente, sua voz cada vez mais baixa – Destrua quem ameaçar as pessoas que você ama sem pensar duas vezes. Nunca. Hesite. Entendeu? Passe por cima do que for preciso. Seu pai é corajoso e tem um coração bom. Sua mãe é destemida e inteligente. E você é tudo isso junto e mais. Pode fazer qualquer coisa. Então seja esperto, sim? – ela falou em seu ouvido, lhe dando um tapa forte nas costas.
Rhaegar balançava a cabeça discretamente, para cada palavra que ouvia, engolindo em seco a bola que se formava em sua garganta. Porque sua tia lhe dizia aquelas coisas? Ela ia ficar muito tempo longe? Ele se perguntava, não querendo dar voz à outra possibilidade que justificaria aquela despedida, porque ela era simplesmente absurda. Arya Stark, Mestre Espiã do Trono de Ferro, Assassina sem Rosto do Rei dos Sete Reinos não poderia achar que não voltaria daquela missão.
— Serei, tia. Prometo – Rhaegar conseguiu falar, beijando a mão dela – Sei que está se colocando em risco por nós. Tome cuidado. Seu sobrinho favorito espera seu retorno em breve – ele falou, sorrindo para ela. Um sorriso preocupado. Tenso.
— Sobrinho favorito, é?— Arya riu – Com tantos que eu tenho...Você é sem dúvida, na melhor das hipóteses, o mais modesto...
— ...isso também. E o mais bonito. E o seu preferido. Nem tente negar – Rhaegar falou. A tia sorriu mais largamente, já se afastando na direção que a levaria para dentro do castelo. Caminhando e se detendo apenas ao cruzar com o marido. O único de quem ela ainda não havia se despedido. Todos os presentes na mesa pareceram prender a respiração, sem saber o que poderia vir daquela interação, se é que haveria alguma.
A tia e o marido se encaravam de um jeito que ele não conseguia descrever. Pareciam querer falar muitas coisas e, ao mesmo tempo, nenhuma. Era constrangedor presenciar aquilo. O silêncio entre os dois. O olhar atento de Visenya e Nymeria para os pais. Quantas brigas as duas já não teriam presenciado?
Mas de todas as coisas que Rhaegar e os demais esperavam ver, com certeza nenhuma era a que estava acontecendo. Ver sua tia se aproximando e deixando um beijo rápido nos lábios do Lorde das Terras da Tempestade, antes de sair apressada, sem dizer nenhuma palavra ao homem, sem sequer olhar para trás.
—*-
O entusiasmo na Arena do Torneio estava ainda maior que no dia anterior, com os embates das justas seguindo em ritmo vertiginoso. O sorteio dificilmente juntava dois cavaleiros muito bons, o que significava que o vencedor dos duelos acabava surgindo com poucas lanças, às vezes já na primeira, o que seria diferente no próximo dia, quando os vencedores de ontem e hoje começariam a duelar entre si.
O desfile de bandeiras, a profusão de armaduras, das simples às mais luxuosas, assim como ter capacetes voando e sangue sendo cuspido nas areias, fazia a multidão vibrar ou lamentar com entusiasmo. E, claro, também fazia algumas donzelas gritarem assustadas ou cobrirem os olhos, como Lady Arianna Arryn estava fazendo naquele exato momento.
Como no dia anterior, todos eles ocupavam cadeiras próximas, bem na frente do camarote de honra, na estrutura aberta que se projetava engenhosamente para o centro da arena, como se flutuasse diante das disputas que se desenrolavam lá embaixo.
Rhaegar tentava agir com normalidade, mesmo com Lyanna tão próxima e ao mesmo tempo tão distante. Eles não haviam trocado uma única palavra um com o outro ainda, mesmo sentados lado à lado. E quanto mais Rhaegar pensava na situação, mais sua cabeça doía, mais seu coração parecia afundar no peito.
Ele era sempre muito bom em quebrar as barreiras dela, em forçá-la a falar com ele, a reagir ao mundo ao seu redor, mas naquela manhã a determinação dela em sequer encará-lo, minava suas forças.
Um grande e conjunto grito de susto ecoou pela arena, quando um cavaleiro com o emblema da casa Crakehall, o javali malhado, foi derrubado da sua montaria, demorando alguns segundos para conseguir se colocar de pé.
— Eles estão bem – a voz de Diana Lannister consolava Arianna Arryn, diante dos constantes risinhos de deboche de Melissa a cada reação assustada da donzela do Vale.
— Quando algum dos cavaleiros morrer, ela certamente vai desmaiar— Melissa comentou, com falsa preocupação, levando uma das mãos ao coração, sob as vestes cor de vinho absurdamente extravagantes. Sarah fechava os lábios, tentando não sorrir. Era de se esperar que ela não achasse nenhuma graça naquilo. Dickon já havia descido para se preparar para o seu duelo, que seria um dos próximos.
Lyanna mal olhou para trás. Nem Melissa e sua língua venenosa conseguiam tirá-la da tensão de estar sentada ao lado de Rhaegar, sem falar com ele, sem olhar para ele e ainda assim totalmente ciente de cada movimento, de cada respiração que ele dava. Seus olhos podiam estar fixados na pista, mas ela não prestava atenção nos cavaleiros que iam e vinham, que derrubavam e eram derrubados.
Sua cabeça estava apenas nele. Na expressão que ele havia feito ao dizer que estava com o coração quebrado. Ou então na lembrança das mãos de Q’ira acariciando seu rosto. Cantando sedutoramente para ele. Os dois teriam ficado juntos? Ele a tinha levado para a cama? Ela não duvidava nem um pouco. E queria, com todo o seu ser, não se incomodar com isso. Não ficar pensando nisso. Não ficar pensando nele.
— Sua preocupação com Lady Arianna é tocante, Melissa – Lyanna ouviu Jane falando, piscando os olhos excessivamente – Nem todos encaram o perigo das justas com tanta naturalidade. Algumas pessoas são mais sensíveis. Outras são como você...- Lyanna olhou Jane, com as sobrancelhas erguidas. Jane nunca se acovardou diante de Melissa, mas raramente a ruiva conseguia lhe tirar do sério.
— Aposto em você, Lady Jane – Jon Tarly falou, com um risinho divertido, olhando de Jane para Melissa.
— Aposta?— A princesa Q’ira, perguntou, distraída, sem entender, girando uma taça entre seus dedos. O dia estava muito quente e por isso, diferente de ontem, bebidas eram servidas aos convidados de honra desde o momento em que haviam se sentado ali.
A maioria bebia água e sucos refrescantes. Mas Lyanna duvidava que fosse o caso de Q’ira. E de Jon. Os dois pareciam bem mais próximos, provavelmente em razão da reunião particular de ontem. E conversavam baixinho, rindo o tempo todo. Lyanna não deixava de observar que às vezes Rhaegar olhava para trás, na direção da dupla e que sorria levemente, antes de voltar sua atenção para a arena. Era quando ela também voltava a dela, para que não ter que olhar direto nos olhos dele.
— Se der briga, princesa. Aposto em Lady Jane. Quem muito late pouco morde – Jon Tarly esclareceu, arrancando risinhos de Q’ira, que não se abalou com o olhar intimidador que Melissa lançou na direção dos dois.
— Você está me comparando à um cachorro Tarly, eu ouvi bem?— Melissa perguntou, com a voz estridente, ficando de pé. Todo mundo agora estava olhando para os dois, inclusive Lyanna.
Jon não respondeu. Apenas continuou sorrindo, piscando para Lady Arianna Arryn, que arregalou os olhos. Lyanna suspeitou que a garota nunca deveria ter recebido uma piscadela na vida. E que talvez ela realmente desmaiasse.
— Tenho certeza que não foi a intenção do meu irmão, Lady Melissa – Sam interveio, olhando com repreensão para Jon e para a princesa Q’ira. Os dois provavelmente já estavam soltos demais porque bebiam vinho e não água. E a pequena confusão já chamava a atenção de todos os presentes no camarote.
Melissa ignorou Sam. Mal olhou na direção dele, seu desprezo pelos Tarlys mais que evidente. Sam um dia seria o Senhor Suserano dela e da sua Casa, mas ela agia como se ele fosse pouco mais que um grão de poeira, com uma superioridade que Lyanna não imaginava de onde poderia vir. Sam era um homem muito melhor que qualquer Redwyne.
A ruiva se empertigou e se moveu do seu lugar, caminhando por trás da fileira tanto ela quanto Jon ocupavam, Sarah já em seu encalço. Quando passou por trás de Jon, ela derrubou de propósito uma taça de vinho sobre a cabeça dele, fingindo que foi um acidente, levando às mãos ao rosto, como se estivesse envergonhada, mas mal se esforçando para disfarçar o olhar vingativo.
Todos ao redor olharam para a cena e cochichavam entre si. Os cabelo escuros e lisos de Jon escorriam grudados por sua testa, pingando o líquido rubro sobre suas vestes. Ele se levantou e se virou para Melissa, os dois se encarando, se fuzilando em pleno camarote. Rhaegar se colocou de pé, Sam também e até mesmo Sir Jason, que acompanhava a conversa paralela com ar de aborrecimento, com certeza preferindo não ter que desviar sua atenção de gavião das disputas nas justas, também ficou de pé, pronto para acalmar a situação.
— Que desperdício de vinho da Árvore – foi tudo que Jon falou, lambendo uma das gotas que escorriam pelo seu rosto – Você deveria ter mais cuidado com a mercadoria da sua família, milady – ele disse, não se deixando abalar, com um largo e cretino sorriso estampado no rosto, sua marca registrada.
— Temos muito. Não fará falta — Melissa rebateu, com sua natural propensão a esbanjar a riqueza da sua família.
— Da próxima vez mire mais perto da minha boca, milady, por favor – Jon piscou para Melissa, para horror da garota ruiva, que saiu bufando de raiva ao observar que eles pareciam estar se segurando para não sorrir.
Melissa deu poucos passos antes que Jane, a sempre comportada Jane, deixasse escapar um sorriso, cobrindo a boca na tentativa de se conter, mas sendo acompanhada nas gargalhadas por Q’ira, Diana, Rhaegar e o próprio Jon, que agora balançava a cabeça feito um bicho molhado tentando se secar.
Todos voltaram a se sentar, alguns nobres com cara de choque pelo incidente. E Lady Gilly definitivamente com cara de que poderia arrastar o filho e espancá-lo ali, diante de todos.
— Ela não vai se esquecer disso – Rhaegar avisou Jon, contendo o sorriso.
— Ótimo. Eu também não vou, Alteza – Jon rebateu, passando a mão no rosto melado, a raiva que sentia voltando a ficar clara.
— Você está respigando vinho em todo mundo. Pelos Sete, vá se trocar – Rhaegar pediu, protegendo o rosto.
— E perder a justa de Dickon contra Sir Jason? A melhor justa do dia? Nunca, Alteza. Estou muito bem assim. Daqui até a Fortaleza é um longo percurso...e aquela vaca...— Jon se interrompeu, diante do olhar de repreensão de Rhaegar – ..hum...ela não vai me fazer perder a disputa do meu irmão – Jon continuou, se sentando como se nada tivesse acontecido, cruzando uma das pernas sobre o seu joelho e voltando a bebericar do vinho. A pura imagem da displicência.
— Vou mandar buscar algo para você, então – Rhaegar falou, acenando para um dos muitos guardas que haviam no camarote real. Jon só ergueu a taça em agradecimento.
— Essa implicância entre você e Lady Melissa está passando dos limites – Sam ralhou com o irmão, enquanto o Príncipe dava instruções ao guarda.
— O que você quer que eu faça? Que deixe ela nos tratar feito mer... – Jon começou a dizer, voltando a se exaltar.
— Fale baixo e controle esse linguajar se não quiser que nossa mãe atire você daqui de cima na frente do Reino inteiro. Acredite, ela está quase vindo aqui— Sam o interrompeu, virando a cabeça de Jon sem nenhuma delicadeza para onde Lady Gilly estava sentada, com um olhar assassino para o filho ensopado.
— Será que isso é amor reprimido, Jon? – Rhaegar o provocou e se arrependeu na mesma hora com o brilho irônico que Jon Tarly exibiu para ele no olhar.
— Por mais que ache que Vossa Alteza entenda do assunto... – Jon começou dizendo, estreitando os olhos para Rhaegar – Juro, por minha mãe que quer me matar, que ainda que me oferecessem aquela víbora com todo o dote que ela tem, eu preferiria me casar com a mais feia e pobre das mulheres – Jon falou, erguendo uma mão como se estivesse em juramento solene.
— Você é um homem raro então, Jon Tarly – Sir Jason comentou, para a surpresa dos demais, uma vez que o herdeiro do Vale era sempre tão pouco participativo em conversas como aquela, que não envolviam disputas, regras, honra e tudo o mais que ele com certeza achava digno de sua opinião – Poucos homens recusariam uma bela mulher, principalmente uma que vem com um belo dote, por causa da sua personalidade – Jason concluiu.
— Sou apenas esperto. Alguém como Melissa faria da vida de qualquer homem um inferno – Jon afirmou, mal se preocupando em baixar o tom – Mas fique à vontade, Sir Jason, se quiser tentar conquistá-la. Lhe desejo sorte. Que a Mãe tenha misericórdia da sua existência.
— Não quero— Jason se apressou em responder, olhando rapidamente para Lyanna. Rhaegar observou que ela parecia completamente alheia à conversa e ao cavaleiro do Vale. Ainda bem. Mas aquilo não impediu que ele se sentisse incomodado com a forma como o homem olhava para ela.
Sir Jason, Sam ou qualquer outro que ganhasse aquele Torneio, que ganhasse a disputa que ele não podia sequer participar, acabaria por coroar Lyanna como Rainha do Amor e da Beleza e ele não estava pronto para lidar com isso. Para ver outro homem que não fosse ele repetindo o gesto de coroá-la, ainda que com flores. Por isso também ele havia mandado fazer a ostensiva coroa de chamas para ela, porque queria coroá-la primeiro. Porque queria ser o único à fazê-lo.
— Com sua licença – Rhaegar se levantou de uma vez, precisando desesperadamente sair dali, precisando combater a crescente sensação de que não estava fazendo nada.
Ele sabia o que queria fazer e para onde precisava ir.
—*-
Lyanna ouviu quando o irmão saiu. Não olhou, mas ouviu.
Ela estava consciente, muito consciente, de cada respiração dele mesmo que não estivessem se falando. Mesmo que ela estivesse se perguntando à todo momento para onde ele teria ido.
Atrás de Melissa? Sua dama de companhia ainda não havia retornado. Ele teria ido consolá-la? Amenizar o problema entre os Redwyne e os Tarly? Porque ele estava demorando tanto? Algumas poucas palavras dele nos ouvidos de Melissa seriam mais que suficiente para que ela imediatamente se fizesse de bondosa e compassiva e garantisse que o episódio com Jon estava encerrado sem maiores desdobramentos.
Onde você está Rhaegar? Lyanna repetia para si, os olhos procurando ao redor e além. Dentro do camarote e fora dele, para a Arena, para as arquibancadas cheias, ainda que não fizesse sentido que ele estivesse em meio à Plebe. Ou faria? Rhaegar tinha comportamentos e ideias que não eram comuns à um Príncipe, ela sabia bem disso.
Lyanna continuava procurando-o com os olhos, batucando os pés com nervosismo, até quando não pôde mais ficar sentada ali, simplesmente esperando. Avisando à lady Jane que não precisava ser acompanhada ela se levantou e rumou para a saída do camarote, Lys já em seu encalço. O olhar do seu pai cruzou brevemente com o seu mas ela conseguiu sorrir como se nada estivesse acontecendo. Ainda assim dois Imaculados a seguiram assim que ela começou a descer as escadas que davam para a nível da Arena.
Onde você está Rhaegar? Ela se perguntou mais uma vez, olhando para a vasta Arena, assim que pisou no solo poeirento.
— Lys – Lyanna se inclinou um pouco, pegando no rosto da loba branca, encarando os atentos olhos violeta do animal – Me leve até Rhaegar, Lys. Sinta o cheiro dele. O encontre. Me leve por onde ele passou – Lyanna pediu. Lys lambeu sua mão e rumou para uma das arquibancadas mais próximas do camarote de honra.
Lyanna, sua loba e os dois Imaculados que a seguiam obviamente chamavam a atenção conforme passavam na frente dos muitos andares de assentos que se erguiam rumo ao céu, conforme iam trafegando pelo corredor demarcado com toras de madeira que delimitavam a parte da Arena que era apenas para os competidores, apenas para quem se exibiria diante do grande público.
Mas Lyanna não olhou para as pessoas, apesar de sentir que o barulho da algazarra diminuía conforme ela ia caminhando. Seu sentido estava no irmão. Na urgência de encontrá-lo.
Lys então dobrou por um acesso lateral quando aquele setor de arquibancadas acabou, por um caminho que levava para fora da Arena de madeira, cheio de tendas e baias, o lugar onde os competidores mantinham seus animais, seus pajens cuidando de suas armas e armaduras, uma área que fervilhava de gente circulando por todas as direções.
Quando Lys parou de repente Lyanna não entendeu. Mas a loba cutucou sua mão com o focinho gelado e virou o rosto para uma tenda mais ao longe, ocupada por uma mesa e por homens que faziam as inscrições para as competições, inscrições essas que já estavam todas encerradas menos para as justas. Os cavaleiros ainda poderiam se inscrever até aquele dia.
E foi então que ela o avistou. Um homem de costas, parado à alguns metros da tenda, a cabeça coberta por uma capa negra presa aos ombros. Irreconhecível para os outros, que não viam seu rosto e seus cabelos prateados, mas não para ela.
Lyanna voltou a andar. Apressada. Não via Blackfire perto dele. Claro, ele não o levara consigo. O lobo denunciaria quem andava por baixo daquela capa. Quem estava cogitando se inscrever anonimamente nas justas.
Ah Rhaegar! Lyanna caminhou mais rápido. Ela não podia deixar que ele fizesse aquilo. Que ele se arriscasse naquela competição estúpida, que ele circulasse pelo centro daquela arena, montando um cavalo, rodeado de milhares de pessoas, um perfeito alvo para uma flechada.
— Rhaegar – Lyanna o chamou, assim que chegou perto o suficiente. Os homens ao redor imediatamente olharam surpresos para a figura encapuzada, para ela, para a loba e para os guardas. Lyanna viu o punho de Rhaegar se fechar com raiva. Mas aquilo não ia detê-la.
— Voltou a falar comigo? – ele perguntou rispidamente, se virando para ela e descobrindo a cabeça. Revelando os cabelos prateados, os olhos violeta irritados e uma expressão mais irritada ainda.
— Venha – foi tudo que Lyanna respondeu – Nem pense em botar seu nome nessa lista. O seu verdadeiro ou um falso. Não vai acontecer, Rhaegar – ela afirmou incisivamente.
Rhaegar bufou de raiva e frustração.
— Imagino que se eu insistir você vai sair correndo para contar ao nosso Pai – ele falou, amargamente.
— Não vou precisar sair correndo para contar nada à ninguém porque você vem comigo – Lyanna foi firme – Agora— ela estendeu a mão na direção dele e a deixou parada no ar.
— Por favor – ela acrescentou, deixando a irritação de lado. Ela suplicaria se fosse necessário.
Mas o irmão continuava apenas olhando para a sua mão. Imóvel. Estático.
— Por favor – ela insistiu, a voz lhe falhando – Volte. Volte comigo— ela se aproximou um pouco mais dele.
Rhaegar sabia que seu plano estava acabado assim que ouvira a voz dela chamando seu nome. Ele estava irritado com Lyanna, com a proibição, com a situação toda mas ela sabia perfeitamente como desarmá-lo. Como atraí-lo. Conscientemente ou não.
A mão estendida, as palavras usadas, os olhos de tempestade que lhe suplicavam angustiados, tudo nela era um ímã que o impedia de virar as costas. E pelo menos ela estava falando com ele de novo. Pelo menos ela demonstrava que se importava.
E quando ela baixou o braço e recolheu a mão para longe, antes que pensasse direito seu corpo decidiu por ele.
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