Forbidden
11 Capítulo 11
A expectativa no camarote de honra era latente para a próxima disputa. Todos estavam com os olhos fixos em Sir Jason Arryn e em Dickon Tarly, ambos posicionando suas montarias nos lados opostos da pista central de justa, ainda acompanhados de seus escudeiros carregando suas lanças.
O herdeiro do Vale contra um dos filhos do Lorde da Campina, escudeiro pessoal do Rei. Era o tipo de disputa que acendia a velha rivalidade entre os territórios e rendia assunto e as discussões que a multidão tanto gostava. Sem falar nas apostas. As moedas fluíam freneticamente de mão em mão.
O fato dos dois serem filhos de Grandes Casas e também serem considerados bons cavaleiros, principalmente Sir Jason, que já tinha certa fama, só deixava tudo melhor, pois o embate prometia ser uma disputa acirrada, de pelo menos cinco lanças, coisa que ainda não vinha acontecendo.
Talvez aquela fosse a primeira justa à qual Lyanna, de fato, iria prestar atenção. Não só porque conhecia os dois cavaleiros, um deles desde a tenra infância, mas talvez, também, porque agora seus nervos estavam um pouco mais calmos.
Todo o problema ainda estava ali, dentro dela, em seus sentimentos, e claro, literalmente sentado ao seu lado, mas o peso pelas horas que havia passado tentando ignorar Rhaegar, havia ido embora.
Fingir que ele não existia simplesmente não era o caminho. Ela tinha que admitir que nunca conseguiria cortar totalmente suas relações com o irmão. Ela sequer tinha conseguido fazer isso por um dia inteiro. Era preocupada demais com o bem estar dele para que fosse capaz de se afastar com sucesso.
Quando não o viu em lugar nenhum do camarote, todo o problema não conversado entre os dois ficou em segundo plano. Nada mais importava do que encontrá-lo antes que fizesse alguma estupidez.
E Lyanna o conhecia muito bem. Sabia que ele estava ressentido por não poder competir. Sabia que ele deveria estar ansioso por uma distração. Por isso não foi nenhuma surpresa quando ela o avistou parado diante do local onde os cavaleiros colocavam seus nomes nas listas para a justas.
Aquele era o último dia para fazer aquilo, bastaria ele ir lá e dar um nome falso, como tantos faziam nos Torneios. Como sua avó, Lyanna Stark, havia feito, tantos anos atrás, no Torneio de Harrenhal. Um ato tão pequeno, mas que levaria seu caminho a cruzar com o então Príncipe Herdeiro e que acabaria por desencadear uma guerra que quase levou à extinção dos Targaryen.
Pensar em tudo aquilo lhe causava uma sensação de mal estar incômoda. Ali estavam eles. Um Rhaegar. Uma Lyanna. Em um Torneio. Secretamente envolvidos. Igualmente proibidos de ter alguma coisa, não por estarem comprometidos com outras pessoas, mas por serem irmãos. Irmãos. O que talvez fosse ainda pior que os problemas dos seus antepassados.
Parecia uma repetição, um carma, um destino funesto, levando-se em conta o final que tiveram. Lembrar de tudo isso e pensar no risco ao qual o irmão poderia ter se submetido, era horrível. Mas o que a deixara realmente abalada, foi, na verdade, a maneira como ele havia falado com ela quando a viu ali, tentando trazê-lo de volta.
A mágoa. A dor que via nos olhos dele. Ela não era capaz de lidar com aquilo. De saber que havia provocado aquilo. E por mais que não pudesse se relacionar com Rhaegar da forma como ele talvez quisesse, mas tampouco poderia deixar de ser sua irmã.
Nenhuma das suas reservas foram fortes o suficiente para impedi-lá de caminhar apressada, procurando por ele. Nem de respirar aliviada quando ele aceitou voltar com ela para o camarote.
De mãos dadas. Por todo o percurso. Quando ela recolheu a mão ele finalmente reagiu, entrelaçando os dedos deles. E eles haviam caminhado, em meio à centenas de pessoas que os viam do alto e apontavam para eles, de mãos dadas.
E por mais errado que fosse, ainda que talvez as pessoas não maldassem, ela tinha apertado os dedos dele tão forte nos seus, que havia tido dificuldade em soltá-los quando tiveram que subir as escadas para o camarote.
Agora, pelo menos, estavam se falando e se olhando. Não muito, não tranquilamente, mas estavam. E era um alívio, mesmo que todo o problema ainda estivesse ali, como ela não cansava de se lembrar.
— Dickon tem chances? — Lyanna perguntou baixinho para Rhaegar. Ela não insistiria naquele silêncio e estava se esforçando para tratá-lo quase normalmente.
— Sinceramente...pelo que já ouvi de Sir Jason...acho que não – Rhaegar falou. Ela percebia que ele também estava se esforçando quanto àquilo. Em parecer natural.
— Mas Dickon luta tão bem...- Lyanna comentou, com um suspiro. Já havia visto as habilidades dos três garotos Tarly. Eles eram bons. E Dickon andava ao lado do seu pai sempre. O Rei confiava nele. Nas habilidades dele.
— Dickon é um espadachim muito bom – Rhaegar observou – Mas nas justas...Sam e eu somos...Bem, Sam é muito melhor. Mas nunca se sabe – ele falou.
Lyanna sentiu ele tentando esconder a tristeza por não estar participando. A forma como tentava não lembrar que ele era muito bom naquilo e que gostaria de estar demonstrando isso junto com todos os outros.
— Um dia você vai poder competir – Lyanna falou baixinho, tocando na mão de Rhaegar. Sua intenção havia sido de tocá-lo com brevidade. Um gesto de consolo. Uma demonstração de que ela não ignorava os sentimentos dele quanto àquilo. Mas ele automaticamente entrelaçou os dedos dos dois com firmeza de novo, enquanto matinha o olhar na arena e soltava um suspiro baixo, torturado.
Os dedos dele se movimentaram minimamente, acariciando a sua mão e disparando uma corrente fria de nervosismo por todo o corpo de Lyanna, deixando-a rígida na cadeira.
Ela queria tirar a mão. Queria olhar para o lado, ver se estavam sendo observados, afinal seus pais estavam ali. Mas não conseguia fazer nada. Estava congelada. Paralisada. Até seu braço começar a tremer e Rhaegar finalmente soltar sua mão.
Fale alguma coisa. Lyanna gritava para si própria. Não devo deixar que as coisas fiquem estranhas de novo. Foi só um aperto de mãos. Mais um. Não há nada demais nisso. Apenas...ele apenas estava aceitando minhas palavras.
— Bem... Se Sir Jason é tão melhor...Dickon não se machucando gravemente, creio que já está bom. Acho que ninguém gostaria de ver Sarah e Lady Gilly disputando para ver quem pularia daqui do alto primeiro – Lyanna brincou. Tentou brincar. Era difícil, com Rhaegar olhando nos seus olhos.
— Eu ouvi isso, Princesa— Jon Tarly falou, ocupando a cadeira ao lado de Rhaegar, agora devidamente trocado e limpo, tirando eles dois daquele momento que poderia levá-los à qualquer coisa – Mamãe chegaria primeiro, claro – Jon completou, com um risinho para Lyanna e Rhaegar.
— Andou pegando aulas com minha tia, Tarly? Como ouvir conversas e se aproximar sem ser notado? Algo assim? – Rhargar reclamou, sarcasticamente, deixando as costas descansarem na cadeira e esfregando a fronte da testa rapidamente.
O pai deles fazia a mesma coisa quando estava estressado, Lyanna não pode deixar de notar.
— Pelos Sete, não! Sua tia me dá calafrios – Jon se apressou em negar, aproximando o rosto de Rhaegar – Aliás, ela não está aqui..está? Quero dizer...com outro rosto...Isso é mesmo verdade? Sempre quis perguntar...- ele falou, batucando os pés no chão, ansioso pelo irmão no centro da arena.
— Vamos prestar atenção na justa...- Rhaegar desconversou. Dickon e Jason estavam recebendo seus capacetes dos escudeiros.
O de Dickon era simples, como sua armadura. Bom aço, mas sem nenhum outro enfeite além do caçador com arco, símbolo dos Tarly, marcado no peitoral de ferro. O mesmo não se podia dizer de Jason Arryn.
Montado em um garanhão branco, ele colocava um capacete com rebuscadas asas de águia nas laterais, viradas para trás. Mais altos que a honra. Era o lema da sua casa. Rhaegar achava que desde a armadura, o herdeiro do Vale queria se provar superior aos demais. Nem as suas eram tão chamativas.
Todo o ferro que cobria o corpo do herdeiro do Vale era de um aço escovado leitoso, branco-prateado como raios de luar. No peitoral uma meia lua de prata brilhava ainda mais que o aço quase branco. E a insígnia da sua casa, a meia lua e a águia juntas, pendia de seus ombros no centro da capa azul refinada, espalhada perfeitamente nos quartos traseiros do seu animal.
Uma visão para fazer donzelas suspirar. Rhaegar observou, não se importando com nenhuma donzela do Reino além da que sentava ao seu lado. E como ela não parecia suspirar, para ele estava tudo bem. Lyanna olhava mais para Dickon do que para Sir Jason.
— Será que ele pretende posar para uma pintura? – Jon perguntou com deboche, obviamente se referindo ao luxo e à pompa de Sir Jason, sem se importar que a irmã do cavaleiro ouvisse sua troça – Parece um herói de cavalaria saído das histórias que as donzelas gostam tanto de contar. Tomara que a capa não enganche ou suje. Seria uma lástima, não acham? – ele continuou.
Rhaegar não respondeu. Só comprimiu os lábios para não sorrir e teve a delicadeza de olhar para Lady Arianna com uma expressão constrangida. A garota imediatamente olhou para as próprias mãos quando percebeu que ele a olhava. Talvez nem tivesse escutado o que Jon dizia. Ele não sabia o que se passava com aquela moça, sinceramente.
— Lá vão eles – Lyanna comentou, vendo os cavaleiros avançando um contra o outro com as lanças apontadas, separados pela longa divisória de madeira. Ela podia sentir Sarah Manderly praticamente quicando atrás dela de puro nervosismo. E não podia culpá-la. Se Rhaegar estivesse lá embaixo...
Mas ele não está. E não sou para Rhaegar o que Sarah sem dúvidas é para Dickon. Lyanna se repreendeu, olhando para o lenço que pendia da ponta da lança de Dickon Tarly, obrigando-se a lembrar que o seu estaria na lança de Sam. De Sam, não de Rhaegar.
— Mais rápido Dickon! Erga mais a lança! – Jon mandava, batendo no braço da cadeira, como se o irmão pudesse ouvir, praguejando quando Dickon foi atingido por Sir Jason e pouco ligando para os olhares chocados que recebia pelas palavras chulas que deixava escapar.
— Não foi forte o suficiente. Ele está bem. Se segurou bem – Rhaegar consolou Jon, vendo Dickon se manter montado e firme.
Dando uma olhadela para trás, Rhaegar observou os pais de Dickon assistindo com atenção. Lorde Samwell parecia tenso. A esposa era quem o acalmava. Seu pai também parecia ansioso.
O Rei gostava muito de Dickon. E não gostava nada de justas. Nem de competir. Nem do risco que representavam. Ele sempre havia sido irredutível quanto à participação de Rhaegar em competições, ainda que pequenas ou internas, contra os homens da guarda do próprio Castelo.
Permitia que ele treinasse. Mas nunca que competisse. Rhaegar relutantemente entendia. Mas ainda assim, odiava aquela proteção. O pior de tudo relativo à isso, era na verdade a própria Lyanna. Ela conseguia ser protetora tanto quanto o pai deles, mas com a diferença que à ela, ele não conseguia negar nada. Quando tentou discutir sua participação nas justas durante a reunião com o Pequeno Conselho, meses atrás, bastou um olhar dela para sua boca começar a se calar. Esse era o nível de poder que ela tinha sobre ele.
— Vamos, Dickon! Acerta ele! – Jon torcia, inquieto em sua cadeira, os dois cavaleiros avançando contra si pela segunda vez – Porra, não vai desmontar ninguém assim! O que diabos ele está achando que vai conseguir com a lança na altura errada...
Dickon havia acertado Sir Jason, mas sem muita força, dando tempo de reação ao cavaleiro do Vale para se esquivar sem mal ser abalado sobre sua montaria.
— Você vai partir a cadeira ao meio se continuar desse jeito. Se acalme, Tarly! Guarde alguma coisa para amanhã. Você está usando todo o seu arsenal de como chocar a nobreza do Reino de uma vez só hoje...– Rhaegar o empurrou com o ombro.
— Queria ver Vossa Alteza tão calmo assim, se fosse seu irmão competindo lá embaixo – Jon respondeu, batendo o ombro de volta no do Príncipe.
Lyanna observava os dois fazendo aquilo, parecendo duas crianças e mal ligando. Era quase engraçado de ver.
— Não me ofenda, Tarly – Rhaegar fingiu raiva – Vocês são como família para mim. Você nem tanto...mas pelo menos Sam eu considero com um irmão – Rhaegar brincou, com um sorrisinho de canto.
— Ainda bem que eu escapei da sua afeição fraternal. Vossa Alteza é um irmão intenso demais para o meu gosto – Jon devolveu a provocação, com uma piscadela para Lyanna, que a fez empalidecer na mesma hora — Não passa dessa terceira! Os dois já se estudaram. Agora vai ser para valer!— Jon continuou falando, como se não tivesse dito nada demais.
Rhaegar olhou nervoso para Lyanna enquanto sentia vontade de esganar Jon na frente de todo mundo. As coisas entre os dois tinham acabado de melhorar, ou pelo menos de não continuar piorando, e agora Lyanna parecia não estar nem respirando, as mãos agarradas uma na outra.
Rhaegar torceu para que ela não resolvesse se levantar dali e correr para os seus refúgios habituais. Ele tentou sorrir, balançar a cabeça de um jeito que dissesse ignore ele, não é nada demais, mas não sabia se seria suficiente.
O barulho da arena pelo desfecho da disputa à qual ele não estava olhando acabou por finalmente chamar sua atenção, uma vez que Lyanna permaneceu sentada.
Dickon estava caído no chão. Havia sido desmontado por Sir Jason na terceira lança. Rhaegar praguejou mentalmente enquanto Jon fazia a mesma coisa, em alto e bom som. Aplausos e gritos ecoavam alto das arquibancadas, enquanto parte do camarote se colocava de pé. Alguns poucos aplaudindo. A maioria de olho no cavaleiro que começava a se levantar mesmo com o peso da armadura.
— Ele está bem, não está?— Sarah perguntou angustiada, para Jon, que estava de pé, com as mãos agarradas à balaustrada de pedra, os olhos atentos no irmão mais novo.
— Parece que sim – Jon respondeu. Dickon levava a mão ao ombro. Mas caminhava com firmeza.
Sir Jason, por sua vez, cavalgava ao redor da arena, recebendo os aplausos do público, o rosto livre do elmo, para deleite das jovens, que apontavam e riam umas para as outras.
Lyanna não podia negar que a figura dele era irretocável. O porte. As feições. A armadura reluzente. Tudo aquilo cavalgando na direção do camarote de honra. Diminuindo a velocidade até parar bem de frente à ela. Até olhar direto para ela.
Ele estava descendo do cavalo. Com o elmo seguro ao lado do corpo por um dos seus braços, enquanto com a mão livre ele erguia algo. Uma rosa vermelha. Ela percebeu, finalmente. Com o coração disparado pela atenção de milhares de olhos voltados para eles.
Sir Jason estava ajoelhado. Com a rosa estendida para ela. Na frente de milhares de pessoas.
Lyanna podia sentir a tensão que irradiava de Rhaegar com aquela cena. Mas não teve coragem de olhar para ele. De ver o que quer que fosse ver, nos olhos do irmão. Ele tinha que se acostumar com a ideia de que ela teria um marido. Mesmo que não fosse aquele belo homem ajoelhado diante dela.
Rhaegar precisou se agarrar aos braços da cadeira para se conter. Para não impedir Lyanna de se levantar e aceitar o galanteio do Cavaleiro do Vale, que estava dedicando sua vitória para ela.
Ele engoliu em seco quando Sir Jason montou novamente e se aproximou do camarote o quanto pode, entregando a rosa a Lyanna, que a recebeu em silêncio e se sentou em seguida, com o rosto profundamente vermelho.
Rhaegar rangeu os dentes e encarou o Herdeiro do Vale como se fosse matá-lo bem ali. O sorriso satisfeito de Sir Jason o deixava com ciúme e com inveja. Ele que deveria estar entregando rosas para ela diante de todos. Ele. Não aquele bonitão pomposo, todo cheio de charme e de segundas intenções, que mal a conhecia, que a queria apenas por ela ser uma Princesa, por ser um bom partido, o melhor partido dos Sete Reinos.
— Tente não parecer tão revoltado, Alteza – Jon sussurrou no seu ouvido, com um tapinha nas suas costas – Estão todos olhando para cá – ele o alertou – Aposto que Sam está com tanta raiva quando você... – Jon se interrompeu com olhar incrédulo que o Príncipe lhe dava. Tudo bem, falar no outro homem interessado na irmã dele não era de grande ajuda — Sam vai ganhar desse desgraçado. Tenho certeza. É questão de honra agora...
Rhaegar bufou, mas permaneceu calado. Grande consolo. Qualquer um deles obviamente coroaria Lyanna. Faria dela Rainha do Amor e da Beleza, enquanto ele tinha que permanecer ali, assistindo impotente, ao lado dela, resignado ao papel de irmão superprotegido.
— Vamos apostar em quantas lanças Sam vai ganhar do oponente dele? – Jon instigou Rhaegar, que não parecia interessado.
— Acha seu irmão tão bom assim, Jon Tarly? – Q’ira perguntou, genuinamente curiosa.
— Está mais para certeza princesa... Uma lança. Sam só precisará de uma lança...Alguém quer apostar em um resultado diferente? – Jon olhou ao redor, para Arthur Tully, Arianna Arryn, Diana Lannister e até mesmo para Melissa Redwyne, que já havia voltado, sentado em silencio e agora parecendo muito tentada pela proposta.
Vamos lá, demônio ruivo, aposte comigo. Jon desejou.
— Parece que todos concordam com você, Jon – Diana Lannister observou, com os olhos atentos à arena, aos novos cavaleiros que tomavam seus lugares.
— Duas lanças— Melissa mordeu a isca, para satisfação de Jon. Ele não tinha esperanças que ela apostasse em Sam perdendo, afinal ela era uma bruxa, mas não uma bruxa idiota.
— Um dragão de ouro, milady? – Jon sugeriu.
— É uma quantia alta – Diana se assustou, olhando para os dois.
— Não se fazem mais Lannisters como antigamente – Jon bufou, provocando a modéstia da filha de Lorde Tyrion, que ele podia jurar ter murmurado um graças aos Sete – E então, Lady Melissa? – Jon insistiu.
— Aceito – ela disse – Espero que tenha como pagar, Tarly – Melissa falou.
— Vamos pagar antecipado então, milady. Segure o meu dragão de ouro, Lady Diana, por favor. E receba o de Lady Melissa. Ela pode tentar me enrolar quando meu irmão demonstrar ao reino como se desmonta um cavaleiro em um piscar de olhos – Jon falou para Diana, colocando a pesada moeda de ouro na mão da beldade loira, que em segundos estendia a mão para Melissa também.
E como ele disse, assim foi. Quando foi dado o sinal, Sam galopou feito um raio contra o oponente e o derrubou com uma facilidade impressionante. Ou decepcionante, para quem tinha apostado contra ele.
Jon recebeu seu prêmio satisfeito das mãos da garota de Rochedo Casterly, que aplaudia com veemência na direção do segundo cavaleiro do dia a lutar com uma armadura com o caçador dos Tarly marcado no peitoral.
Pena que o irmão, ao passar diante do camarote real, não a notasse. Era diante da Princesa Lyanna Targaryen que Sam estava, onde havia parado, ainda que rápido. Era para ela que ele fazia uma sutil reverência com a cabeça, antes de voltar a galopar com rapidez para fora da arena.
Jon suspirou alto. E não o fez sozinho. Foi acompanhado pelo Príncipe ao seu lado. E pela própria Princesa, que parecia abatida, para dizer o mínimo. Animador.
—*-
Diana Lannister aproveitou enquanto reorganizavam a pista de justas, alisando a terra batida e retirando coisas lançadas das arquibancadas, para circular um pouco. Ela caminhou pelas laterais, até quase o fundo do camarote, perto das escadas, fazendo o que mais gostava de fazer. Observar as pessoas.
Seu pai já havia voltado para a Fortaleza Vermelha, durante o intervalo, algo relacionado a enviar uma resposta urgente à um dos líderes das cidades livres de Essos envolvidas em uma ferrenha guerra comercial pelo Mar Estreito. Ela as vezes se ressentia das ausências dele, mas entendia que o pai era um homem muito ocupado. Ela sempre tinha ouvido isso durante toda a sua vida.
O anão de Rochedo Casterly. O Lannister que havia conseguido cair nas graças de uma Targaryen, da mais importante desde Aegon, o Conquistador. A Mãe dos Dragões. Que havia lutado contra a própria irmã. Que era amigo dos Starks. E que, claro, por tudo isso, definitivamente não era muito bem quisto por alguns senhores das Terras Ocidentais.
Alguns o admiravam. Outros o consideravam um traidor, mas não o afrontavam diretamente. O último que tentou, havia sido seu avô, e a querela entre os dois se resolveu com um casamento. Desde então as Terras Ocidentais não se levantaram mais contra o governo do Rochedo, afinal, Tyrion Lannister era a Mão do Rei e amigo pessoal da mulher mais poderosa do mundo.
E ela estava no grupo dos que admiravam o Senhor do Rochedo, apesar deles não terem convivido muito, graças ao casamento mal fadado e ao fato dela e da mãe viverem lá enquanto ele, obviamente, tinha que morar na Fortaleza Vermelha em Porto Real. Apesar disso, em todas as vezes que estiveram juntos, mesmo com a família disfuncional que eram, seu pai sempre havia sido gentil e atencioso com ela, mesmo que às vezes lhe dirigisse olhares um tanto quanto assombrados.
Ela já havia ouvido comentários sobre sua aparência. Sobre o quanto lembrava sua tia, Cersei Lannister. Ou a filha dela, a Princesa Myrcella. Ela não se incomodava ou se envaidecia quando ouvia isso dos outros, mas conseguia perceber quando seu pai olhava para ela e se lembrava do passado. Ele sempre lhe dava um sorriso culpado e constrangido quando acontecia e bebia longos goles de qualquer bebida que estivesse por perto.
— Você olha para as pessoas ao redor de um jeito muito interessante, milady – Diana ouviu alguém dizer à ela, de suas costas. Ela se virou e se deparou com Sam Tarly vindo das escadas, voltando da arena após sua disputa.
Ele parecia ter tomado um banho, já que os cabelos ainda estavam úmidos e ligeiramente mais escuros que o bonito tom castanho que tinham. E as vestes definitivamente não eram as mesmas que ele usava antes, apesar de parecidas. Ele sempre se trajava com simplicidade. Os tecidos de suas túnicas, seus couros e suas botas eram de qualidade, mas sem enfeites, sem exageros ou bordados rebuscados. Ela gostava daquilo. Achava digno. Límpido e descomplicado. Um reflexo da personalidade dele, sem dúvida.
— Sam— Diana disse, com uma breve mesura, olhando para cima, para o rosto dele. Ele era muito mais alto que ela – Parabéns por sua vitória. Foi espetacular – Diana o congratulou.
— Obrigado, milady – Sam respondeu, com um leve sorriso, incrivelmente constrangido.
— Você não gosta de elogios, me desculpe – Diana falou, observando o rosto dele atentamente. Não era uma pergunta. Apenas uma afirmação, pura e simples – Sempre fica constrangido quando alguém o faz. Mas imagino que não se incomode tanto com o meu, já que sorriu. Você só sorri, ainda que timidamente, para os elogios que recebe do Príncipe Rhaegar – Diana o avaliou, vendo a surpresa tomar conta do rosto de Sam.
— Eu...faço isso?— Sam perguntou, coçando a cabeça diante do olhar suave e afiado que recebia da garota dourada parada à sua frente. Era impossível não pensar nela assim, como uma garota dourada, com a cascata de cabelos loiros que caíam até sua cintura, sempre soltos, sempre emoldurando seu rosto bonito e seus vestidos dourados.
— Você mesmo não acabou de dizer que eu olho ao redor de um jeito muito interessante? – Diana falou, sorrindo para Sam – Eu realmente gosto de fazer isso. De observar as pessoas. E você não é uma exceção...
— Posso perguntar o que você tanto gosta de observar nas pessoas? – Sam arriscou, tentando entendê-la melhor. Curioso quanto à ela.
— Tudo— Diana respondeu, com um sorriso alegre, se aproximando mais dele para dizer aquilo, como se fosse um grande segredo, soltando uma gargalhada baixa e adorável – A maioria das pessoas são fáceis de ler, Sam. Elas carregam todas as emoções no rosto e claro, o fazem sem nem perceber, como você faz – ela explicou, aceitando uma taça de vinho de um dos serviçais que circulavam com bandejas e vendo Sam fazer o mesmo – Uma inflexão de voz, um perna se movimentando inquietamente, a maneira de mover as sobrancelhas ou os muitos tipos de sorrisos...tudo demonstra o que a pessoa está sentindo ou tentando esconder, se olharmos com atenção.
— ...tipos de sorrisos?— Sam repetiu, surpreso, bebericando da taça – Existem tantos assim?
— Claro que existem. Mas sabe o que é mais interessante do que o sorriso em si? – ela perguntou baixinho, como se estivesse prestes a revelar um dos mistérios do mundo – É para quem as pessoas sorriem – ela disse, dando um gole de sua taça.
— Para quem as pessoas sorriem? – Sam repetiu, arqueando as sobrancelhas, se dando conta de que havia feito isso e imediatamente tentando não fazer, o que o fez sorrir. Ele estava perfeitamente ciente de que não conseguia fazer um comentário decente sobre o que ela dizia, apenas repetia o que o surpreendia, e aquilo era ridículo da sua parte.
— Sim! – ela afirmou, empolgada – Adoro observar isso! Quando estou em um grupo e alguém diz algo engraçado, é sempre muito interessante ver para quem as pessoas olham primeiro quando começam a sorrir, porque geralmente olhamos para quem gostamos mais, para quem nos importamos mais. O melhor de sorrir, é compartilhar o sorriso com quem nós amamos – Diana explicou, com paixão pelas suas conclusões.
— Humm. É uma observação muito...perspicaz— Sam admitiu, franzindo a testa. O jeito como ela dizia tudo aquilo, era além de perspicaz. Não era intrometido ou maldoso. Era...doce. Bonito de alguma forma – Posso imaginar que você já catalogou todas essas informações dentro do nosso grupo – Sam disse, estreitando os olhos para ela e vendo um pequeno sorriso culpado no rosto de Diana. Culpado e divertido.
— E eu posso imaginar que você está curioso para saber quem sorri para quem? – ela perguntou, achando graça – Bem, eu já lhe contei. A primeira pessoa para quem você olha quando sorri, é para o Príncipe Rhaegar – Diana falou, olhando para a ponta do camarote, onde deveriam estar sentados, onde o Príncipe ocupava seu lugar – Mas...a primeira pessoa para quem ele olha é para a irmã. E em seguida, para você – ela completou, deixando seu sorriso sumir, observando a reação de Sam àquela revelação.
Sam nunca tinha tido esse tipo de sensibilidade para notar essas pequenas coisas. Mas não achava que Diana estivesse falando bobagem. Ela falava o que havia notado.
— Estar logo abaixo da única irmã dele não é nada mal...- Diana tentou dizer, vendo que Sam permanecia calado, provavelmente pensando no que ela havia dito. Diana mordeu o lábio, se sentindo culpada – Posso dizer sem medo de estar errada, que o Príncipe o considera acima de todos os outros. É o que leio nele.
— Não estou ofendido com a descoberta, se é o que a preocupa – Sam esclareceu. E era verdade. Mas uma pergunta coçava em sua garganta.
— E para quem a Princesa olha quando sorri? Você observou isso também? – ele criou coragem.
— Ela quase não sorri quando estamos todos juntos... – Diana falou, dando mais um pequeno gole, respirando fundo antes de dizer – Mas quando o faz, é para o irmão que ela também olha. Se ele não estiver, ela às vezes olha para Lady Jane Rosby e às vezes...
— ...às vezes? – Sam perguntou, rápido demais, curioso demais.
— Ela olha na direção do irmão. Se ele estiver no mesmo lugar, mas não no mesmo círculo – Diana falou, um tanto constrangida, limpando a garganta – Mas seu irmão Jon, olha para você. E seu irmão Dickon, olha para Lady Sarah Manderly e ela para ele. E Lady Melissa, olha para o Príncipe também. Assim como meu querido irmãozinho.
— E você? Para quem olha? – Sam perguntou, vendo a surpresa seguida de um sorriso tímido surgir no rosto dela.
— Eu diria que para ninguém, já que estou ocupada olhando para todos os outros – Diana sorriu mais alto, levando uma das mãos ao rosto e balançando a cabeça levemente – Mas acho que você vai ter que observar para descobrir – ela disse, dando de ombros levemente.
— Diana – ela ouviu a voz inconfundível da sua mãe, ao mesmo tempo que sentiu o aperto dos dedos em seu braço – Senhor Tarly— sua mãe se dirigiu à Sam, parando ao seu lado e fazendo uma quase imperceptível mesura com a cabeça.
— Lady Elena – Sam a cumprimentou, com uma digna mesura.
— Poderia me dar um momento com minha filha? – Elena Westerling pediu à Sam, com um sorriso que Diana classificaria como irritantemente falso. Do tipo que nunca alcançava os olhos.
— Claro. Miladys — Sam as cumprimentou, as mãos formalmente ao lado do corpo em uma mesura, antes de se dirigir para longe, para seu assento ao lado do Príncipe Rhaegar.
— O que você pensa que está fazendo? – sua mãe perguntou sibilante, ainda mantendo o sorriso falso no rosto. Diana tratou de colocar um no seu rosto também, com um leve toque de desinteresse e confusão.
— Eu estava conversando. Sam é um amigo – Diana falou, calmamente, olhando nos olhos da mãe, quase que piscando demais para ela.
— Você deveria estar conversando e distribuindo sorrisos para o Príncipe e não para esse... – sua mãe falou entre os dentes, apertando um pouco mais seu braço, disfarçadamente, claro. Elena Westerling não era de fazer cenas em lugares públicos. Nunca.
— Esse o que, mãe? Herdeiro da Campina? – Diana a questionou. A mãe soltou um suspiro debochado ao ouvir aquilo.
— Ele é um bastado. Filho de Tarly qualquer, renegado pelo pai. De um quebrador de juramentos que engravidou uma selvagem. Pode ter sido legitimado pelo Rei. Mas ele é o que é... – Elena afirmou, com os olhos incendiados, raiva emanando de cada poro.
— Ele é o primogênito do melhor amigo do Rei. E é o melhor amigo do futuro Rei. Tenho certeza que será Mão um dia. Eu teria mais cuidado com o que fala, mãe – Diana a alertou, puxando o braço do aperto dela, com firmeza, mas sem fazer um movimento brusco, que pudesse ser notado pelos demais. Sua mãe não toleraria que vissem algo assim. Imagem era tudo para a Lady de Rochedo Casterly.
— Não me importa o que ele é para a família real. Essa discussão é irrelevante – sua mãe se recompôs – Só concentre seus esforços no Príncipe Rhaegar. É para isso que você está aqui — Elena falou, tocando no rosto da filha – Você é tão inteligente e bonita. Seu pai é querido pela família real também, só os Sete sabem o porquê, mas é. Você é a candidata perfeita, Diana...
— O Príncipe não vai me escolher, mãe – Diana falou, achando melhor desiludi-la de vez.
— Como você sabe disso? – a mãe perguntou mais baixo, o rosto uma máscara de dúvida e frieza – Porque acha isso? É a princesa estrangeira devassa? Ouvi boatos de que eles estão bem próximos. Mas também que a Rainha não gosta dela – Elena falou, estreitando os olhos – Então não pense que não tem chance!
— Não sabia que a senhora dava tanto ouvido à fofocas – Diana não resistiu. E tentou desviar do assunto. Não poderia dizer para mãe sobre suas suspeitas. Eram delicadas demais.
— Isso é a corte, Diana. Só o que essa gente que vive aqui sob a proteção do Rei e da Rainha sabe fazer, é justamente fofocar sobre a vida deles. E dos filhos— a mãe afirmou – Se acha que o Príncipe não vai escolhê-la, deveria se esforçar mais...E se já está cogitando um outro herdeiro, o que não é uma má ideia, o melhor é Sir Jason Arryn. Não um Tarly. Até porque, dizem que seu amigo é próximo da Princesa Lyanna também. E que ela não é próxima de praticamente ninguém, o que faz dele um grande candidato à genro do Rei. Que gosto essa gente tem – Elena falou, com desprezo — Então...
— ...então você não tem com o que se preocupar...- Diana interrompeu, sorrindo com esforço – Vou voltar para o meu lugar, se me permite – Diana pediu, vendo a mãe concordar relutantemente.
— Vá. Mais tarde conversaremos melhor – Elena falou altivamente, tocando nos cabelos da filha, nas mangas das vestes, vendo se estava tudo no devido lugar – Sorria para o Príncipe como estava sorrindo para o amigo dele e garanto que Sua Alteza não ficará imune aos seus encantos.
Diana ouviu a ordem da sua mãe e se conteve para não revirar os olhos. Sua Alteza já é encantado por outra. E ninguém tem chance contra ela. E sinceramente, para o seu próprio choque, ela torcia para que o contrário fosse verdade também. Para que não houvesse mais ninguém para a Princesa. E para que Sam Tarly não saísse machucado daquela situação.
E menos ainda, casado.
—*-
A última competição do dia em breve acabaria e Jon estava mais do que aliviado. Daenerys realmente tinha trocado Verme Cinzento e Daario Naharis de lugares de guarda, mas aquilo não tornou a tarde mais fácil. Ficar sentado ao lado daquele homem, não era nada fácil. Ouvir cada gracejo. Cada sorriso que ele continuava dirigindo à sua esposa, mesmo com ele entre os dois agora, só tinha piorado tudo.
Quando Tyrion precisou voltar mais cedo para a Fortaleza Vermelha, Jon quase foi junto. Mas por fim, permaneceu sentado, dando seu melhor para ignorar o capitão de Meeren, parte por orgulho, por que não queria que o homem percebesse que conseguia lhe incomodar, parte por ciúmes, por não querer deixá-lo ainda mais livre e à vontade para ficar flertando com Daenerys, ainda que a esposa não lhe desse muita atenção.
Dany havia beijado ele na frente de todos, quando haviam subido para comer e beber no intervalo, inclusive de Naharis. Obviamente, ele havia gostado, e mesmo não sendo muito afeito a demonstrações públicas entre marido e mulher, sua mão não havia saído da cintura da esposa. E ele torcia para que aquilo fosse suficiente para manter o capitão de Meeren no seu devido lugar.
— Sua espada, Majestade...- Jon ouviu a voz de Naharis falando. Ele ainda estava em pé, em posição de guarda, ao lado de sua cadeira exagerada, quase um trono, ali no meio do camarote.
— O que tem ela, capitão? – Jon respondeu, agarrando a empunhadura de lobo, sem olhar para o homem.
— Garra Longa, não é? É verdade que ela era a espada da Casa Mormont? – Daario perguntou, olhando para a espada pendendo do cinto de Jon.
— Sim – Jon respondeu. Seco. Olhando para a arena.
— Sua Graça a tomou deles? – Daario perguntou – Com a extinção da Casa? – Jon dessa vez o encarou.
— Eu não faria isso, capitão— Jon respondeu, com desgosto. Mas algo lhe dizia que Daario Naharis sabia muito bem disso – Eu a recebi do meu Lorde Comandante, Sir Jeor Mormont. Ele mesmo trocou o urso pelo lobo. E eu a ofereci a Sir Jorah. Ele a recusou.
— Pobre Sir Jorah. A Rainha...a espada...- Daario provocou – Ele sempre foi muito apaixonado por ela. Mas todos nós éramos. Eu, Sir Jorah, Lorde Tyrion, por mais que ele disfarçasse. Até Verme Cinzento também – o homem riu — De outro jeito, claro.
Jon permaneceu calado. Ele não havia tomado nada de Sir Jorah. E verdade seja dita. Ele gostava muito do homem. Dany nunca o havia considerado romanticamente, mesmo antes de sequer conhecê-lo. Jon também não guardava remorso quanto à Garra Longa. Sua consciência estava tranquila.
— Vocês são homens admiráveis, Sua Majestade. Os nortenhos. Vejo que não são provocados facilmente – Naharis continuou falando, Jon continuou olhando para Dany, não para ele. Pena que não podia tampar os ouvidos – Sir Jorah aguentava bem as minhas provocações, assim como Sua Graça.
Ainda tem coragem de admitir que está deliberadamente tentando me provocar. Desgraçado. Jon pensava.
— Eu era horrível com Sir Jorah naquela época. Mas o Velho Urso nunca perdeu a razão. Nem quando me pegava saindo do quarto da Rainha e eu lhe dizia que ele iria encontrá-la de muito bom humor – Naharis continuou, com um sorriso cretino – Nem quando, durante nossa busca por ela, nas proximidades de Vaes Dothraki, para resgatá-la, eu duvidei de sua capacidade de conseguir dar conta dela, caso tivesse a oportunidade. O homem estava ofegante naquelas montanhas. Eu disse à ele que eu, com todo o meu vigor, mal dava conta do dragão, imagina ele...- Jon agora o encarava.
O que diabos esse homem quer? Ele me provoca e me desrespeita com qual finalidade? Acha que Daenerys intercederá por ele caso eu resolva que sua vida não é mais necessária?
— Com todo respeito, Majestade – ele continuou falando, agora mais baixo, o rosto mais próximo do de Jon – Desde que cheguei aqui, que me pergunto se ela continua igual...Se mesmo com os anos, ela continua a ser fogo...
Jon soltou uma risadinha gélida.
— Você nunca saberá – Jon falou, se levantando. Usando todo o seu autocontrole. Satisfeito consigo mesmo, até pelo tom de voz que havia conseguido usar. A raiva latente no rosto de Naharis ao ouvir aquilo, lhe causando muito prazer.
— Volte para a Fortaleza Vermelha, capitão. Vá na nossa frente. Veja se tudo está tranquilo pelo percurso para quando voltarmos. Se reporte à Verme Cinzento, caso veja algo anormal – Jon ordenou, fixando seus olhos cinzentos nos olhos negros do homem, esperando para ver se ele diria que só aceitaria ordens da sua Rainha.
Mas depois de alguns poucos segundos o encarando, Naharis cedeu. Com uma mesura engessada, ele saiu para cumprir suas ordens. Para cumprir o querer de Jon. Que nada mais era que um grande suma daqui, saia da minha frente.
Jon voltou a se sentar. Mas as suas mãos tremiam. Sor Jorah poderia ter aguentado uma vida toda de provocação daquele homem, mas ele definitivamente não era tão abnegado.
Da próxima vez que aquele homem falasse algo assim, da próxima vez que falasse da sua esposa daquele jeito, Jon iria mandar o bom senso, a postura de rei, e o que quer que esperassem dele, diretamente para os Sete Infernos, junto com a cabeça de Daario Naharis. E ele deixaria Dany bem ciente disso.
—*-
Jantar com todos os convidados hospedados na Fortaleza Vermelha, no Grande Salão do Trono, com música e bebida, estava começando a ficar enfadonho. Pelo menos para Lyanna. Assim que as comidas foram servidas, ela esperou pouco tempo para se levantar e rumar para fora do salão.
Não queria danças, nem barulho, nem ter que interagir com as pessoas e ouvir os mesmos elogios, as mesmas tentativas de conversas. Não queria ver as mulheres cobiçando seu irmão, dançando com ele. Principalmente a Princesa Q’ira e Melissa. Tudo que ela precisava era do silêncio da biblioteca. Era circular pelos corredores e se deixar ser surpreendida pela história que ela escolheria casualmente e levaria para o seu quarto.
O dia já havia sido intenso demais para o seu gosto. A conversa com seu pai, as dificuldades com Rhaegar, a sensação de andar de mãos dadas com ele em meio à tanta gente. A cena espalhafatosa de Sir Jason. Seus sentimentos de culpa por Sam. Era mais do que suficiente para lhe deixar exausta. Para que tivesse direito à um pouco de solidão nas melhores companhias possíveis. Sua loba e seus livros.
Acompanhada por Lys, Lyanna rumou para a Biblioteca após ter falado apenas com o seu pai, saindo discretamente, sem se despedir de ninguém mais. Os corredores da Fortaleza estavam estranhamente cheios de vida. Lyanna podia ouvir os cochichos, os passos assustados de pessoas tentando se esconder, sorrindo baixinho.
Casais, com certeza. Jovens e não tão jovens assim, todos atrás do seu momento de emoção efêmera. Ela pensava, com certa amargura, enquanto caminhava com o pescoço duro, sem olhar para os lados, sem querer flagrar nem preocupar ninguém.
As pesadas portas de carvalho da biblioteca ficavam sempre abertas, com dois guardas ladeando-as, parados à sombra de grandes archotes. Durante a noite, não havia ninguém ali para auxiliar na procura por volumes. Quem quisesse um livro, teria que pegar uma das muitas luminárias de ferro, acender seu fogo, e se aventurar pelas monstruosas prateleiras organizadas em fileiras até onde a vista alcançava.
E foi o que Lyanna fez, perambulando pelos corredores, até chegar ao centro da Biblioteca, para onde todas os corredores confluíam, iluminado por um grande candelabro de velas suspenso ao centro, que tirava da penumbra as muitas mesas e cadeiras que haviam ali, de todos os tamanhos. Mesas para duas pessoas, para grupos pequenos, grupos grandes e também, claro, para uma pessoa só.
Foi olhando para uma dessas mesas solitárias, que Lyanna percebeu que não estava sozinha ali.
Num canto afastado, Arthur Tully erguia a cabeça de uma pilha de livros, igualmente surpreso por ver alguém. O herdeiro das Terras Fluviais se colocou em pé de um pulo, olhando para ela sem jeito.
Lyanna caminhou até ele. O rapaz ruivo havia sido com quem ela menos tinha interagido. Ele parecia extremamente tímido. O que somado ao completo desinteresse dela...
— Oi – Lyanna disse, um tanto sem jeito, apoiando sua lanterna na mesa ao lado da que ele ocupava.
— Alteza – Arthur respondeu, piscando rápido demais – Me perdoe por estar aqui, uma hora dessas...Eu não queria incomodar...
— Você não está incomodando ninguém – Lyanna se apressou em dizer – A biblioteca é aberta a todos. Algumas poucas sessões são privativas. Mas elas possuem grades. Portanto, fique à vontade – Lyanna falou, olhando para os livros separados por ele.
— Obrigado, Alteza – ele falou, com um suspiro aliviado.
— Eu li esse tem poucos dias. Gostei bastante – Lyanna comentou, com um sorriso tímido, apontando para Histórias de um Mercador de Escravos.
— Bom saber – Arthur falou, ainda de pé, pegando o livro, mexendo nos outros, provavelmente procurando o que fazer com as mãos enquanto lidava com seu nervosismo – Leu algum dos outros, Alteza? É...quero dizer...para me dar uma opinião? – ele falou, com pouca segurança. Parecia agir como se não soubesse conversar com uma garota.
Se colocassem ele e Arianna Arryn numa mesma sala, o que único barulho que se ouviria seria o do ar que respiravam. Lyanna pensou.
Ainda pensando nisso, ela sorriu com simpatia para ele, puxou uma cadeira e se sentou, para a surpresa do garoto ruivo diante dela.
Lyanna pegou nos livros e não ficou surpresa ao constatar que conhecia todos os títulos. Ela então os separou em três pilhas.
— Esses são razoáveis – ela disse, colocando a mão sobre três livros – Esses daqui são maravilhosos – ela continuou, dando uma batidinha na pilha ao lado, com outros três livros – Já esses... são uma completa perda de tempo – ela afirmou, apontando para a pilha com os outros quatro livros – Temos dez cópias desse Histórias das Guerras Marinhas em Westeros ao longo dos Tempos – Lyanna falou, com cara de desgosto – Eu já disse ao Meistre Byron, o responsável pela biblioteca, que eles teriam melhor utilidade como combustível de lareira do que ocupando lugar nessas prateleiras. A narrativa, a apuração dos fatos, tudo, é totalmente medíocre – Lyanna falou, gesticulando.
Para surpresa dela, Arthur sorriu. E Lyanna sorriu de volta. As sardas dele pareciam ficar mais visíveis quando ele sorria e os cabelos mais vermelhos. O que só destacava seus olhos azuis calmos. Se ele não olhasse para os próprios pés tão frequentemente, talvez as pessoas percebessem que ele não era feio. Que era apenas fechado demais. Como eu sou. Lyanna se deu conta.
— Imagino que Meistre Byron não acatou sua sugestão – Arthur falou, pegando o exemplar ao qual ela se referia.
— Não. Ele é radicalmente contra a diminuição do acervo, por mais sem qualidade que um escrito seja – Lyanna falou, como se aquilo fosse um terrível defeito do Meistre, os dois ainda rindo, porque obviamente não era defeito nenhum.
Finalmente uma interação relaxante naquele dia. Quem diria. Justo com Arthur Tully.
— Temos um com tema semelhante em Correrio, mas não tão ousado como esse. Maiores combates marinhos desde Aegon, o Conquistador. Obviamente menciona muito os Greyjoys e os Velaryon, mas a narrativa é boa e os fatos históricos são bem centrados, apesar de mencionar uma especulação ou outra, deixando bem claro o que era confirmado, o que não passava de boato – Arthur Tully desembestou à falar, para a surpresa de Lyanna. Ele tinha dito mais palavras ali, sobre aquele livro, do que em toda a sua visita desde que chegara.
— Mas Vossa Alteza deve tê-lo aqui, também – ele falou, voltando a falar mais baixo, voltando a parecer sem confiança, retraído.
— Não me recordo desse título. Vou checar com Meistre Byron, mas acho que não temos não – Lyanna falou, com sinceridade.
— Então mandarei fazer uma cópia e enviarei para cá, se Vossa Alteza se interessar em lê-lo – Arthur falou, com uma mesura desajeitada.
— Eu adoraria, claro. Meistre Byron também— Lyanna agradeceu, gentilmente.
Ele realmente gosta de livros. Não está aqui apenas como um oportunista, procurando um momento para me impressionar, no lugar que todos sabem ser o meu favorito. Não esse garoto.
— Vou devolvê-los aos seus lugares, se me permite – Arthur falou, pegando a pilha classificada por ela como “total perda de tempo”, quando ouviram passos se aproximando.
Os dois se viraram na direção dos passos, principalmente porque Lys, que até então havia ficado sentada sobre as patas, tão quieta que esqueceram que ela estava ali, agora estava em alerta, com o rabo balançando e as orelhas em pé.
— Princesa Lyanna. Arthur – Sir Jason os cumprimentou, surgindo da escuridão, com uma lanterna nas mãos. Lyanna sentiu Arthur Tully se encolher conforme Sir Jason se aproximava da mesa, com certeza intimidado pela presença do cavaleiro bonito e galante, tão diferente dele fisicamente. Arthur tinha uma aparência comum. Enquanto Sir Jason jamais passaria despercebido em lugar nenhum.
— Não estou atrapalhando, espero – Sir Jason desejou, com as mãos entrelaçadas às costas, olhando de um para o outro.
Arthur Tully parecia ligeiramente ofendido pela honra de Lyanna, mas tudo que ele disse foi:
— A Princesa estava apenas me dando sugestões de leitura – os olhos de volta para o chão.
— Eu adoraria receber sugestões também – Sir Jason comentou, olhando para os livros – Posso?— ele pediu à Arthur, pegando alguns livros, não esperando pelo consentimento de ninguém.
— Alteza, me permita ir – Arthur pediu – Agradeço sua ajuda. Irei levar esses para ler em meus aposentos – Arthur falou para Lyanna, pegando alguns dos exemplares que ela havia classificado como bons e deixando o resto sobre a mesa, com uma expressão culpada, mas obviamente querendo sair dali.
— Claro, Arthur. Boa leitura. Não se preocupe com os outros livros, eu cuidarei deles – Lyanna falou, estendendo sua mão e se arrependendo sem seguida, pois o garoto estava com as mãos ocupadas com livros, o que resultou em uma despedida mais do que desajeitada.
Lyanna ouviu uma risadinha escapar de Sir Jason enquanto ele observava os passos apressados de Arthur rumo à escuridão dos corredores e da saída da biblioteca.
— Do que você está rindo, Sir?— Lyanna perguntou, incomodada, recolhendo os livros e os levando para um grande balcão, onde outros já estavam. Deixando-os ali, ele seriam guardados no dia seguinte pelos ajudantes que trabalhavam na biblioteca.
— Sujeito nervoso, não acha, Alteza? – Sir Jason falou, se virando para ela, os olhos verdes brilhando.
— Ele é tímido. E atitudes, reações, como essa sua não o ajudam, Sor – Lyanna falou, com repreensão.
— Não acho que ele tenha visto, mas Vossa Alteza tem razão. Ninguém manda na própria personalidade – Sir Jason falou, parecendo verdadeiramente constrangido – Se eu tentar tocá-la, corro o risco de ser mordido?— ele perguntou e Lyanna por um momento se assustou, dando um passo para trás, achando que ele estava falando com ela.
Bom. Ele estava falando com ela, claro. Mas ao ver Sir Jason se abaixando, ela se deu conta que ele não se referia a tocar nela, mas sim em Lys, que olhava pra o homem muito desconfiada.
— Ela é um loba gigante, Sir Jason. Sempre há o risco— Lyanna falou, tensa em ver a mão dele pairando perto das orelhas de Lys. Coragem ele tem, não posso negar.
Lys mostrava os caninos para ele agora. Claramente incomodada. Lyanna não achava que ela fosse atacá-lo, mas era mais prudente intervir.
— Melhor se afastar, Sir – Lyanna pediu, vendo o lilás profundo dos olhos de Lys brilhando perigosamente para o Cavaleiro do Vale.
— Sim. Ela não está gostando – ele falou, recolhendo a mão, se pondo de pé – Desculpe-me, Lys – Sir Jason falou, levando a mão ao centro do peito, como se estivesse se dirigindo à uma dama.
Lys bufou para o ato de cavalheirismo e simplesmente se colocou entre Lyanna e o homem.
— Acho que ela não gosta de mim – Sir Jason concluiu, se afastando uns dois passos, mas não parecendo chateado. Muito pelo contrário. Ele parecia encantado. Divertido até.
— Se ela não gostasse, acredite-me, já haveria algum sangue nesse piso lustroso – Lyanna tentou brincar, acariciando o pelo de Lys.
— Fico aliviado então – Sir Jason falou, virando de costas para elas, pegando a lanterna que Lyanna havia deixado por ali e a suspendendo no ar com uma mão, enquanto com a outra tocava nos livros e pergaminhos.
— Quer realmente algo para ler? – Lyanna perguntou, cruzando os braços e se encostando na bancada, analisando o perfil dos traços de Sir Jason, não acreditando muito nas intenções dele ali.
— Por qual motivo eu estaria aqui, se não quisesse? – ele rebateu, com um sorriso de canto extremamente charmoso, tirando a atenção dos livros e fixando os olhos em Lyanna, que precisou engolir em seco.
Não preciso ficar nervosa. Lys estava aqui, observando tudo. Ele não tentaria nada. Ainda que a loba não estivesse...Sir Jason é um cavaleiro juramentado e parece ser uma pessoa decente, até onde eu sei.
— Você poderia estar tentando forçar um encontro casual comigo... – Lyanna teve coragem de dizer o que suspeitava.
— É. Poderia – ele concordou, com um meio sorriso – Vossa Alteza expressou essa mesma suspeita à Arthur Tully? – Jason quis saber.
— Não. Não suspeitei dele – Lyanna respondeu simplesmente.
— Só porque o rapaz é tímido? Ouvi dizer que ele é muito inteligente. Pode ter esperado a mesma coisa... – Sir Jason argumentou, se mantendo no mesmo lugar, para alívio de Lyanna.
— Posso lhe fazer uma pergunta, Sir Jason? – Lyanna falou, querendo mudar de assunto – É sobre sua irmã... — Lyanna esclareceu, vendo o semblante do cavaleiro ficar mais sério instantaneamente.
A verdade é que os argumentos para fazer de Sam seu escolhido, estavam se voltando contra ela mesma. Tudo o que fazia com que ele fosse uma escolha natural, também fazia com que ela se sentisse tremendamente injusta por prendê-lo à um casamento que ela temia que se tornasse algo como o de sua Tia Arya com Lorde Gendry. Uma união infeliz. Para dizer o mínimo.
Desde o café da manhã, da cena de despedida da sua tia, Lyanna vinha pensando naquilo. Em cogitar outras opções, por pior que lhe parecessem, por mais que Sam fosse infinitamente mais fácil, mais seguro. Porque escolhê-lo era um ato egoísta. Seria egoísta com qualquer um deles. Mas Sam gosta de mim. Com ele seria ainda pior.
E pensando friamente nisso, no impasse em que ela se encontrava, não faria mal conhecer melhor os outros dois pretendentes à sua disposição.
— Sobre Arianna? – ele repetiu, retoricamente – Claro, Alteza.
— Ela nos contou sobre a exigência do seu pai para que ela encontrasse um noivo. Da ameaça de ser enviada para se juntar às Irmãs Silenciosas. Isso...é verdade? – Lyanna perguntou, com o maxilar rígido, se colocando no lugar da garota.
— Infelizmente, sim. Meu pai...não é uma pessoa muito razoável...- Sir Jason confirmou, com um pesado suspiro.
— E você permitiria, Sir Jason? Que uma atrocidade dessa fosse feita à sua própria irmã? Que ela fosse enviada à uma Ordem tão cheia de restrições, com uma rotina tão dura, contra à sua vontade, sem nenhuma vocação para servir? – Lyanna perguntou, claramente revoltada.
— Gosto de pensar que o senhor meu pai quis apenas assustar Arianna. Que ele realmente não faria isso. Mas...se eu estiver enganado e as coisas chegarem à esse ponto, eu com certeza interviria – ele disse, triste e preocupado.
— Então diga isso à ela. Lady Arianna parece bastante aflita com essa possibilidade. Seria bom saber que conta com o seu apoio – Lyanna o aconselhou.
— Eu direi. Obrigado, pela preocupação com minha irmã, Minha Princesa — Sir Jason inclinou o rosto em uma mesura, e quando o ergueu, fixou os olhos nos de Lyanna e não os desviou, a não ser quando pareceu olhar para os lábios dela, o que acendeu todos os alertas que Lyanna havia ignorado.
Já me demorei demais. Lyanna pensou. Os volumes que tinha em seu quarto teriam que servir para aquela noite. Uma releitura de algum dos seus escritos favoritos, sempre era tão bom quanto ler algo novo.
— Bem...A biblioteca é toda sua, Sir Jason – Lyanna disse, deixando claro sua intenção de já ir embora.
— Posso acompanhá-la? – ele pediu, oferecendo um braço.
— Já é tarde, Sir – Lyanna balbuciou. E andar sozinha com ele seria totalmente inadequado. Ela pensou.
— Por isso mesmo, Alteza. Me deixe acompanhá-la pelo menos até mais perto do seu andar – Jason argumentou. Lyanna aceitou seu braço relutantemente, jurando que Lys à condenava com seu olhar violeta, mas não querendo ser mal educada.
Os dois então saíram, cada um carregando sua lanterna, Lys ao lado de Lyanna, o profundo silêncio da biblioteca quebrado apenas pelos ecos dos passos deles no chão.
—*-
— Tem um lugar para nós irmos! – Jon Tarly sussurrou no ouvido de Rhaegar, todo animado.
— Nós quem? – Rhaegar perguntou, distraído, procurando Lyanna com os olhos pelo Grande Salão e não a vendo em lugar nenhum. Ele já havia circulado por todos os cantos e já estava definitivamente às portas, pronto para sair, quando Jon o alcançou.
— Eu, você, a princesa Q’ira, obviamente, e quem mais quiser e conseguir sair escondido da Fortaleza – Jon explicou – Já falei com os outros. Sarah e Dickon disseram que vão, se você e Sam forem. Sam vai, se você for, para poder se atirar na frente de qualquer pedra que cruze seu caminho, claro... Resumindo, todos nós só vamos, se você for. Então....você vai – Jon concluiu, com seu sorriso cínico – Até porque eu já confirmei que você ia. Estão todos trocando de roupa.
— ...eu vou para onde, em nome dos Sete?— Rhaegar perguntou, distraído, caminhando pelos corredores, sabendo que Lyanna só poderia estar em dois lugares. Na biblioteca ou no seu quarto. A biblioteca era mais próxima, ele checaria lá primeiro...
— Para o baile de máscaras que está acontecendo na Mansão dos Westfall – Jon falou, impaciente, como se estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo – Os plebeus de Porto Real só falam nesse baile.
— Westfall? O mercador de tecidos? – Rhaegar perguntou, enquanto continuava andando apressado, rumo à biblioteca , com Jon em seu encalço, Black os seguindo um pouco distante.
— O próprio. Uma máscara, uma capa e ninguém vai reconhecer você, Alteza. É perfeito! Nem você, nem nenhum de nós — Jon insistiu, olhando para Rhaegar, pronto para implorar, quando os passos do Príncipe estancaram. Jon parou também, olhando ao redor. E entendeu o motivo da pausa brusca.
A Princesa Lyanna vinha caminhando de braços dados com Sir Jason Arryn, aparentemente vindo da biblioteca. Ela também havia parado, quando se viu diante de Rhaegar e Jon, alguns metros os separando.
Jon praguejou, olhando do Príncipe para o Herdeiro do Vale.
— Obrigada, Sir Jason. Não vou ocupá-lo mais. Jon ou meu irmão me farão companhia – eles ouviram Lyanna falando, se desvencilhando do braço do cavaleiro e caminhando na direção de Rhaegar. Sir Jason vinha logo atrás, apesar da dispensa dela.
— O que vocês dois estão aprontando? – Lyanna perguntou, assim que parou na frente de Rhaegar e Jon, com o olhar desconfiado.
Rhaegar resmungou alto ao ouvir aquilo. E não controlou o filtro que deveria haver entre seus pensamentos e as palavras que saíam da sua boca.
— Eu poderia perguntar a mesma coisa à você – ele falou para a irmã, que imediatamente pareceu ultrajada, olhando de Sir Jason para Rhaegar, como se não acreditasse no que ele estava insinuando.
— Estou vindo da biblioteca. Sir Jason apenas se ofereceu para me acompanhar – Lyanna falou, irritada – E vocês? – Ela insistiu.
— Vamos sair. Para uma festa na mansão Westfall. Baile de máscaras – Jon Tarly resumiu – Interessado, Sir Jason? Vai ser muito animado — Jon convidou.
— Todos vocês vão? – Sir Jason perguntou, olhando para Lyanna.
— Muitos de nós vamos. Venha também conosco, Princesa. Ninguém vai reconhecer vocês...- Jon tentou convencê-la, mas ela mal parecia escutá-lo.
— Talvez Arianna...talvez seja bom...eu iria por ela – Sir Jason falou, parecendo considerar. Mas ainda olhando com expectativa para Lyanna.
— Eu não vou. E meu irmão certamente também não pensa em ir— Lyanna respondeu, encarando Rhaegar e sendo encarada por ele.
— Jon— Rhaegar chamou, com a voz gelada – Vá providenciar tudo e acompanhe Sir Jason. Preciso falar com minha irmã – ele mandou, mal olhando na direção dos dois, que já faziam mesuras e se afastavam, Sir Jason um tanto relutante, olhando para trás constantemente.
— Nós precisamos conversar – Rhaegar falou, quando ficaram sozinhos, apenas com seus lobos, parados no meio do corredor vazio, nas proximidades da biblioteca.
— Não estamos fazendo isso? – Lyanna perguntou, cruzando os braços, na defensiva.
— Não. Aqui não é o lugar...- Rhaegar falou exasperado, passando a mão nos cabelos, olhando os guardas de sentinela não muito longe.
— Sobre o que...- Lyanna começou a perguntar quando sua voz falhou. Sua voz. Sua coragem.
— Sobre nós – Rhaegar respondeu à pergunta incompleta, a palavra pairando entre eles.
Lyanna sentia como se o chão sobre seus pés tivesse se transformado em água e a estivesse engolindo rápido demais.
— Sobre nossas escolhas. Nossas opções – Rhaegar continuou falando, engolindo em seco ao ver os olhos arregalados da irmã, que parecia prestes a correr dali. A correr dele – Por favor, Lya— ele pediu, dando um passo mínimo na direção dela mas se detendo ao ver ela recuando.
— Não temos o que conversar – Lyanna falou, fria, sem olhar diretamente para ele, preferindo prestar atenção em qualquer coisa, nos olhos vermelhos de Blackfire pairando no breu, nos detalhes vermelhos da roupa negra do irmão, que pareciam flutuar também no escuro. Em qualquer coisa. Menos nos olhos dele. Menos no que ele pedia.
— Você não vai nem me ouvir? – a voz de Rhaegar saiu quebrada, magoada.
— Você vai mesmo sair? – Lyanna perguntou, tentando focar em algo que realmente poderia ser resolvido. Pois o que quer que houvesse entre eles dois, definitivamente não poderia.
— É sobre isso que você prefere conversar? Minha saída? Inacreditável — Rhaegar se irritou, gesticulando com as mãos, se afastando alguns passos dela, para não perder a razão, para não fazer exatamente o que Q'ira havia lhe dito na noite anterior.
Se ela não queria sequer conversar sobre o assunto, o melhor que ele fazia era simplesmente sair. De perto dela. Daquele castelo.
— Inacreditável é você querer sair à noite, escondido, com tudo que tem acontecido! Beba até cair com seus amigos aqui mesmo! Não seja irresponsável – Lyanna falou, não conseguindo ficar parada ao ver ele se afastar.
— Não faça isso! – ela continuou, puxando o braço dele, forçando ele a encará-la. A situação quase uma repetição do que havia acontecido naquela manhã.
— Me solte – Rhaegar falou as duas palavras pausadamente – Não tenho motivo nenhum para ficar trancado nesse castelo essa noite, já que você não se dispõe a escutar o que eu tenho para lhe dizer!
— Claro que tem! Você tem vários motivos! Seja racional! – Lyanna pediu, soltando a mão do braço dele. Ignorando a indireta que ele lhe lançava.
— Vários? Não Lya...– Rhaegar falou, aproximando o rosto do dela, apesar de vê-la recuando para a parede do corredor, apesar do receio que via no fundo dos olhos cinzentos as irmã – Apenas um. Apenas uma coisa me faria ficar. Converse comigo. Me escute. Pare de...
Rhaegar parou de falar quando lágrimas começaram a escorrer do rosto da irmã.
Ele a conhecia bem o suficiente para saber que eram lágrimas raivosas. Que desciam sem que ela quisesse. As mãos dela as limpando do rosto com pressa só confirmavam aquilo.
— Então vá, Rhaegar!— Lyanna disse, com a respiração entrecortada – Estou cansada! Cansada de me preocupar com você. Cansada der ter que ficar pedindo esse tipo de coisa... Faça o que quiser! Se arrisque por aí! Não me importo mais – ela o empurrou para longe, com força, com as duas mãos espalmadas em seu peito – Não vou mais me preocupar!
Rhaegar enfiou as mãos nos bolsos para evitar segurar os pulsos dela. Só os Sete saberiam o que ele poderia fazer depois, se chegasse a segurá-la.
Ele então começou a sorrir. O sorriso mais amargo que já se lembrava de ter dado à alguém, porque o que ela dizia... Era ridículo. E uma enorme mentira. Ele sabia muito bem que era mentira. Que ela nunca conseguiria não se importar com ele.
Porque apesar de não querer reconhecer, aquilo, aquela preocupação, era parte dela. Desde que ele conseguia se lembrar.
Desde que eram crianças. Desde sempre. Ela sempre havia sido assim. Sempre batia nele quando ele fazia algo estúpido, quando brincava de algum jeito que ela considerasse perigoso. Sempre falava que ele não podia morrer. Que ele não podia deixá-la sozinha. Sempre de um jeito que era além do normal para dois irmãos, mesmo que ela não quisesse enxergar.
— Você ri? — Lyanna perguntou, fechando os punhos, pisando duro no chão. O sorriso debochado do irmão apenas se alargou, apesar do seu olhar faiscar de raiva para ela.
— Boa sorte com isso... de não se importar – Rhaegar ignorou a pergunta dela, aproximando seu rosto, seus lábios do ouvido da irmã.
Ela tremeu, paralisada. Sem esboçar nenhum outro rompante de raiva. E Rhaegar sabia que a tinha atingido. Que tinha tocado em um ponto que a deixava sem muitas defesas.
— Tente não me esperar acordada, irmã que não se importa – ele sussurrou no ouvido dela, destacando cada palavra, vendo o maxilar ficar tenso, vendo os poros de sua pele se arrepiarem, vendo o corpo dela trair suas próprias palavras.
— Boa noite— Rhaegar completou, se afastando, dando as costas para ela, se obrigando a dar um passo depois do outro. Tentando se convencer de que não tinha regredido ao ponto inicial daquele dia.
Eles haviam começado o dia sem se falar. Haviam voltado a interagir, em um acordo tácito, silencioso, de paz, de manter o que era impossível de ser quebrado, o fato de que eram irmãos.
Mas nem brigas, nem tréguas pareciam ser fortes o suficiente para durar entre eles.
E como poderiam ser? Quando ela insistia em tentar conviver com ele de um jeito que não era mais suficiente para nenhum dos dois?
Mas ela não está conseguindo. Ele repetia para si mesmo, enquanto caminhava para encontrar com Jon, para sair ainda que não estivesse com vontade.
Ela não está conseguindo. Ele repetia. Visualizando as pequenas rachaduras na armadura que a irmã erguia em torno dos seus sentimentos.
E pensando no que poderia fazer para arrebentá-la de vez.
Fale com o autor