Forbidden
12 Capítulo 12
O sol ainda não estava perto de nascer, apesar de Lyanna já estar à pelo menos quatro horas sentada longe do conforto do seu quarto.
Enquanto virava a última folha do livro que segurava nas mãos, fechando sua capa com mais força do que o livro certamente merecia, ela mentalmente resumia seu estado até aquele ponto da madrugada.
Sono? Nenhum. Lyanna constatava. Suas pálpebras pareciam incapazes até de piscar. Horas esperando? Quatro. Caminhando para a quinta. Livros lidos? Dois. E ela só havia levado três. Costas? Acabadas. Sarah Manderly com certeza não teve o conforto como principal critério na hora de escolher a mobília do seu quarto. Vontade de matar o próprio irmão por ele estar certo quanto à sua preocupação por ele? A maior possível. Lyanna bufava para si mesma.
Probabilidade de sair dali e voltar para o seu quarto antes de Sarah retornar da pequena aventura na qual Rhaegar estava envolvido e tirar dela cada detalhe do que aconteceu? Nenhuma. Ela concluiu. Batucando o pé no chão.
— Não me olhe assim – Lyanna falou para Lys, deitada na frente da poltrona dura do quarto de Sarah e lhe servindo como apoio ocasional para os pés, entre uma bufada e outra – Só vamos sair quando ela chegar. E não finja que você não quer saber o que ele aprontou, também. Você na certa está mais preocupada do que eu...
Lys ignorou o comentário dela, erguendo as orelhas e virando a cabeça na direção da porta, quando uma cambaleante Sarah Manderly a abriu.
Sarah deu um passo para trás quando olhou para elas duas sentadas ali e depois olhou para a própria porta, piscando várias vezes, como se estivesse tentando decidir se havia entrado no quarto certo.
— Princesa...? — Sarah perguntou, alisando suas próprias vestes, puxando a máscara preta e simples do seu rosto, com os olhos arregalados.
— Você não entrou no quarto errado. Se é isso que está se perguntando. Nem está vendo coisas. Entre logo e feche a porta – Lyanna falou, com calma, mas também com firmeza.
Sarah obedeceu, ainda em choque, soltando as tiras que prendiam a capa fina e cinzenta aos seus ombros, tentando não deixar a capa e a máscara caírem no chão, mas derrubando ambas.
Lyanna revirou os olhos. E se levantou, pegando Sarah pelo braço e a sentando na cama de uma vez. Ela definitivamente estava sob efeito de alguma bebida.
— Como posso servi-la? Tem alguma coisa acontecendo, Alteza? – Sarah se levantou, logo depois de ter se sentado. Ela tentava falar com clareza e ainda piscava em demasia.
— Me sirva permanecendo sentada. Você obviamente bebeu e eu não quero que caia de cara no chão... – Lyanna falou, impaciente, vendo Sarah sentar de novo, apressada. Não antes de me dizer o que quero saber...
— Você estava no baile dos Westfall, certo? – Lyanna perguntou.
— S-sim. Alteza – Sarah respondeu. Lyanna permaneceu em pé, diante dela.
— Quem acabou indo? – Lyanna quis saber.
— Ah...eu e Dickon... – Sarah soltou um risinho, as bochechas corando, Lyanna suspirou — e.... Melissa. Sam e Jon também. E a Princesa Q'ira. E claro, o Príncipe Rhaegar.
— Voltaram todos juntos? – Lyanna perguntou. Melissa. Claro. Ela nunca perderia uma oportunidade de se aproximar de Rhaegar.
— Sim. Fomos e voltamos juntos – Sarah respondeu, parecendo nervosa – Eu...é...
— Só responda o que eu lhe perguntar – Lyanna a cortou – Meu irmão já está de volta, então? Dentro do Castelo?— Lyanna quis saber.
— Sim, Alteza. Nos separamos no saguão do Salão Comum. Sua Alteza foi...para o quarto...pelo menos...caminhou na direção de lá. Eu o teria visto entrando, mas Dickon me puxou para seus braços e... – Sarah começou a falar, mas Lyanna ergueu a mão para que ela parasse.
— Já entendi— Lyanna falou. Sarah estava corada de novo – Ele estava sozinho? Indo para o quarto sozinho? – Ela não deveria perguntar aquilo. Afinal, não era da sua conta. Mas saiu antes que ela pudesse se conter.
Sarah arregalou os olhos de novo. Engoliu em seco. Lyanna precisou de mais ar e respirou profundamente.
— Ah...- Sarah balbuciou, hesitando.
— Responda— Lyanna mandou, prendendo a respiração.
— Sim. Mas... – Sarah gaguejou.
— Mas? Diga logo de uma vez...- Lyanna falou cruzando os braços.
— Quando entramos nos castelo ele estava abraçado com aquela princesa estrangeira. Estava um pouco bêbado. Mas ela estava mais. Bem mais. O que não me surpreende. Ela bebe feito um homem. Ele a levou para o quarto dela antes...antes de subirmos. Ficamos esperando...do lado de fora...um pouco distantes— Sarah começou a falar, aproximando a cabeça de Lyanna e mordendo os lábios.
— Eles estavam juntos nesse bendito baile? Você viu algum a coisa? – Lyanna continuou a perguntar, ignorando as pontadas doloridas no seu peito. Ignorando que ela estava ali apenas para perguntar se Rhaegar já tinha voltado e se estava em segurança. Ela já deveria ter saído, afinal já tinha sua resposta para aquela pergunta.
— Acho que sim. Eu...os vi dançando. Mais de uma vez. Mas não os via o tempo todo. Porque...bem...Dickon me puxava para dançar e levantava um pouco a minha máscara...e me beijava...e eu não via mais nada quando as mãos dele... – Lyanna ergueu a mão de novo, para que ela parasse.
— Já entendi...- ela falou, mas quase sorriu para Sarah. Ela e Dickon faziam um casal bonito. Não sabia porque já não estavam oficialmente prometidos um ao outro.
— Me conte, resumidamente – Lyanna enfatizou – Como foi a noite de vocês? Conseguiram sair sem nenhum problema? Rhaegar conseguiu não ser reconhecido? – Lyanna pediu, dando pequenos passos pelo quarto.
— Ah..resumidamente..foi maravilhosa – Sarah disse, com olhos sonhadores – Não tinha nenhum guarda no portão quando saímos, não sei como os garotos conseguiram isso, acho que Jon Tarly suborna alguns deles, uma vez ouvi algo sobre isso, não sei se com mulheres ou com bebidas, ou com ambos...
— Sarah... – Lyanna chamou, batendo palmas quase diante do rosto dela.
— Sim...hum...perdão Alteza. Saímos sem problema. Os cavalos estavam prontos nos aguardando. Dickon me ajudou a subir no meu. Ele sempre ajuda, mesmo quando digo que não precisa. Desconfio que é só para apertar minha cintura. Mas como eu gosto...
— ...como você gosta, você deixa. Aham. Entendi – Lyanna completou, falando rápido – Continue – Lyanna incentivou. Que os Sete lhe dessem paciência.
— Jon ajudou a Princesa Q’ira. E eu juro que vi ele enfiando as mãos por baixo daqueles tecidos soltos que não cobrem as costelas dela – Sarah falou, com clara reprovação – O Príncipe ajudou Melissa. Fiquei feliz por ela. Eles fariam um casal tão bonito...Enfim, chegamos na mansão do mercador Westfall e o lugar estava absolutamente cheio. Nunca tinha visto tanta gente. Nem uma decoração tão extravagante. Eu adorei – Sarah falou, como se estivesse fazendo uma confidência extremamente pessoal – Mas quando entramos...eu fiquei um pouco chocada...
— Porque? – Lyanna já estava batendo o pé no chão, quase pisando em Lys. Pelos deuses, isso vai durar o resto da madrugada.
— Porque as pessoas estavam...bem à vontade. E quando digo à vontade...quero dizer agarradas. Se beijando. Os músicos estavam tocando muito alto. E a iluminação não era...suficiente. Não sei qual problema houve com os candelabros dos Westfall...
— Com certeza foi de propósito – Lyanna ressaltou – O que mais?
— Será que era? – Sarah perguntou. Lyanna revirou os olhos – Bem...eu fiquei um pouco nervosa. Mas os garotos, eles pareciam que estavam no céu. A Princesa estrangeira também. Jon principalmente. Perdi as contas de quantas garotas diferentes ele beijou— Sarah continuou, com cara de nojo.
— Rhaegar não fez a mesma coisa? – Lyanna perguntou, engolindo em seco, tentando perguntar aquilo da forma mais neutra possível.
— Ah...não. Ele parecia emburrado, na verdade. Dançava às vezes com Melissa e com a Princesa Q'ira. E ficava conversando com Sam e sorrindo de Jon. Ahhh mais teve um momento em que uma garota misteriosa puxou o rosto dele e o beijou....foi uma cena! – Sarah se lembrou. Lyanna sentiu o corpo esfriando. Não pelo beijo. Mas pelo perigo. Venenos poderiam ser passados por um beijo.
— Porque foi uma cena? – Ela perguntou. Caminhando um pouco. Rodando pelo quarto. Apenas para ter algo para fazer com as pernas.
— Porque Melissa puxou a garota pelos cabelos e a empurrou para longe. Jon acabou amparando a garota beijoqueira antes que ela caísse no chão. E claro, os dois começaram a brigar. Jon tem um palavreado muito chulo. Não gosto da forma como ele fala com Melissa. Não sei como ele e Dickon podem ser irmãos. Dickon é tão gentil. Tão educado...
— Sarah... – Lyanna chamou sua atenção. Novamente.
— Sam ficou muito irritado. Acho que porque acabou que chamamos um pouco de atenção. Enfim, depois disso, viemos embora. Quer dizer, depois que achamos a louca da princesa estrangeira. Ela desapareceu. Não estava em lugar nenhum. Mas Jon acabou voltando com ela, sabe-se lá a Mãe, de aonde quer que a tenha encontrado – Sarah deu de ombros.
— Só isso que aconteceu? – Lyanna perguntou, esfregando as têmporas.
— Resumidamente? Sim – Sarah sorriu. Às vezes ela conseguia não ser uma tonta por completo. Lyanna acenou, satisfeita.
— Não conte à ninguém que eu estive aqui esperando você para saber disso. Entendido Sarah? Ninguém. Nem para Dickon. Nem para Melissa. Ninguém— Lyanna mandou, enfatizando dramaticamente.
— Cl-claro, Princesa. Ninguém. Entendi— Sarah se apressou em dizer, sem disfarçar a expressão de incompreensão.
— Estou confiando em você – Lyanna falou, lembrando-se relutantemente de como Rhaegar fazia aquilo. Em como ele fazia as pessoas se sentirem valorizadas e importantes.
— Pode confiar, Alteza. Não direi à ninguém – Sarah afirmou, com um brilho surpreso e orgulhoso no olhar. Ela também parecia querer perguntar porque deveria guardar segredo ou porque Lyanna precisava saber daquelas coisas, mas sabiamente manteve a boca calada.
Lyanna já estava a caminho da porta, pronta para finalmente voltar para o seu quarto e esticar suas costas, quando se deteve.
— Sarah...só mais uma pergunta – Lyanna falou, se voltando para ela – Porque você e Dickon ainda não estão oficialmente comprometidos?
O semblante de Sarah se entristeceu. Lyanna achou que ela fosse romper em lágrimas. O nariz da nortenha estava ficando vermelho e o entorno dos seus olhos também.
— Dickon ainda não tratou do assunto oficialmente porque temos medo, Alteza. Medo de que meu pai recuse o arranjo. Dickon diz que ele é apenas um terceiro filho. Sem terras. Sem cargos. Meu pai é um homem orgulhoso...e secretamente ele teme que eu me torne a herdeira de Porto Branco. Meu irmão tem a saúde frágil...como todos sabem... – Sarah explicou, fungando.
— Dickon é muito querido pelo Rei. É filho do Lorde da Campina. Seu pai não pode achar que ele não seja um bom nome para você. Dickon protege meu pai, é seu escudeiro pessoal – Lyanna falou, um tanto indignada que Lorde Manderly pudesse pensar daquela forma. Mas logo ela percebeu a bobagem que aquilo era. Dickon nem tinha mais idade para ser escudeiro de alguém, ainda que do Rei. A função era sempre destinada a garotos mais jovens, como Jaime e Aemon. E ele havia permanecido nela por conveniência, porque o Rei gostava dele.
— Eu já disse isso para ele, mas ele acha que não é suficiente. Que precisamos esperar mais, que um dia talvez ele receba alguma nomeação ou lhe seja concedida alguma propriedade. Tenho medo que meu pai acabe escolhendo outra pessoa até que isso aconteça, mas o que posso fazer? – Sarah se lamentou, com um suspiro triste.
— Entendo. Vou falar com meu pai sobre a situação de Dickon – Lyanna prometeu – Vou tentar ajudar vocês – ela disse, recebendo um sorriso emocionado de Sarah.
— Alteza...eu...eu agradeceria muito! – Sarah falou, enxugando os olhos e voando na direção de Lyanna para lhe dar um abraço desajeitado. Lys precisou sair do caminho para não ser envolvida entre as duas – Me desculpe, Princesa – Sarah falou, ao perceber o que tinha feito, dando alguns passos para trás.
As duas nunca tinham sido próximas de verdade. Amigas. E por isso e por toda a etiqueta real, o abraço havia sido estranho, mas nem por isso era razão para um pedido de desculpas.
— Não tem problema – Lyanna falou, um tanto sem jeito – Boa noite, Sarah – ela disse, saindo do quarto, recebendo um entusiasmado boa noite de Sarah em resposta.
Lyanna caminhou de volta para o seu quarto, surpreendentemente tranquila com o saldo da conversa. O comportamento de Rhaegar pelo visto havia sido abaixo do que ela imaginara.
E ele já havia voltado, à salvo, que era o que realmente importava. E seu pai ajudaria Dickon, sem dúvidas. Lorde Manderly não recusaria um pedido do próprio Rei e, em breve, Dickon e Sarah poderiam estar casados e felizes.
Era quase reconfortante saber que o impossível para ela, não era inalcançável para os outros.
—*-
— O que é isso? — Jon exigiu saber, ao ver os Imaculados trazendo um largo baú para dentro da Sala do Pequeno Conselho. Ele, Daenerys e Tyrion haviam sido despertados antes da hora. Estavam enrolados em roupões longos, com idênticas expressões de sono e de cansaço, mas todos em alerta.
— Foi encontrado nos portões da Fortaleza Vermelha, Majestades – um dos Imaculados respondeu, quando colocaram o baú no chão, aos pés de Jon e Daenerys.
— Abra— Daenerys falou, com a voz firme, o rosto tenso. Quando o Imaculado puxou para trás a tampa do baú escuro, um fedor nauseante se alastrou pelo recinto e fez todos recuarem e cobrirem as mãos. Cabeças. Cabeças de Dothrakis. Sob um cama se areia.
— Fechem! – Tyrion falou – Levem isso daqui – a Mão disse, fazendo um grande esforço para não vomitar. Quando os guardas saíram com o baú, Verme Cinzento adentrou na sala do Pequeno Conselho, com uma expressão dura.
— Pegamos os homens que deixaram o baú. Dois bêbados da Baixada das Pulgas. Receberam ouro de alguém com o rosto coberto. Não sabem de nada relevante. Estão nas masmorras – ele informou, inclinando a cabeça na direção dos monarcas.
— Eu não vou mais tolerar isso...- Dany falou, caminhando ao redor da sala, procurando a brisa salina que entrava por uma das janelas abertas, precisando do vento em seu rosto para acalmar seu estômago.
— É uma provocação bem menor se comparado ao que já foi tentado, minha Rainha...- observou Tyrion, com um olhar cauteloso – Devemos seguir com nossos planos. Não podemos negociar enquanto estamos em aparente desvantagem de ações. Vamos deixar que Arya cumpra sua missão e mate Sarella Sand e então...
— ...isso pode demorar demais — Daenerys o interrompeu, apertando os olhos e respirando fundo – São as cabeças dos homens que abandonaram tudo por mim. Que sangraram por mim. Homens que o Trono de Ferro deveria proteger!
— Tudo que eles querem é que o Trono de Ferro reaja precipitadamente. Não podemos cometer esse erro, minha Rainha. Eles devem estar tensos com o nosso silêncio, com nossa aparente falta de reação. Vamos manter nossos planos. Só porque não protegemos esses homens, não significa que não iremos vigá-los, não significa que suas mortes terão sido em vão – Tyrion continuou falando, olhando para Jon com um silencioso pedido de apoio.
— Se eles atacarem meus filhos novamente, nada me impedirá de voar em Drogon até Toca do Inferno e transformar as areias daquele lugar em vidro enegrecido. Nem que eu vá só. Nem que eu não retorne viva de lá — Dany ameaçou, olhando ao redor e desfiando alguém a contradizê-la.
O Rei olhava de Tyrion para Dany. Os olhos cinzentos duros. Os ombros tensos.
— Você não irá sozinha – Jon garantiu, olhando nos olhos da esposa. Para a fúria contida pelos traços bonitos dela, mas que ele via queimando por trás dos olhos violeta. A fúria que ele também sentia ardendo em suas veias.
— Jon! – Tyrion suplicou, não esperando por aquilo.
— Precisamos ter um plano de ataque preparado, caso seja necessário. Veja isso, Tyrion. Não digo que será necessário, mas temos que estar preparados. Se reúna com Verme Cinzento e com Sor Davos e seu filho. Ninguém mais. Não quero arriscar que nenhum detalhe desse plano caia em outros ouvidos – Jon falou, Daenerys acenando em concordância.
— Como queiram, Majestades – Tyrion disse, com um suspiro pesado – Que os deuses nos ajudem que não seja necessário. Os Dorneses não ignorarão a luz de um acordo, quando o momento certo chegar.
— Eu também acho não – Jon disse. Tyrion o conhecia. Ele não era de agir imprudentemente. Mas Daenerys estava em seu limite. E ninguém conseguiria impedi-la se ela resolvesse agir. Melhor que fosse então de forma planejada – Mas se eles não virem essa luz, Lorde Tyrion, eles sentirão o calor.
Tyrion olhava surpreso para ele, mas não disse mais nada. Jon sabia que ele o procuraria em particular no decorrer do dia. Ele não mudaria de ideia. Eles precisavam de um plano emergencial.
Todos eles partiram da sala do Pequeno Conselho em silêncio e ao retornar para os seus aposentos, Jon ignorou as vestes escolhidas para ele naquele dia. Daenerys o observava com atenção, enquanto ele se vestia com seus couros nortenhos de batalha, enquanto cobria seu peito com a placa de ferro com o emblema dos Stark ao lado e dos Targaryen ao centro, embainhando Garra Longa no cinto já colocado ao redor de sua cintura.
— Para onde você vai? – Dany perguntou, ainda enrolada em seu roupão. Estava cedo para começar a se arrumar. Ela não dormiria mais, mas mesmo assim.
— Não estou com sono. E não vou ficar deitado. Nos vemos mais tarde, no cortejo para a arena – Jon respondeu, simplesmente. Dany conhecia bem o marido. Ele iria circular pelo castelo com olhos de águia e se duvidasse, verificaria as trancas de cada porta, apenas para sentir que estava fazendo alguma coisa.
— Então você vai para o torneio vestido assim? – Dany perguntou, arqueando as sobrancelhas, surpresa. Afinal, aqueles eram trajes de batalha praticamente, uma vez que o marido não gostava de armaduras.
— Vou – Jon respondeu simplesmente, se aproximando dela e lhe dando um beijo na testa. Dany segurou sua mão antes que ele se afastasse mais.
— Obrigada— ela falou, tendo um vislumbre de incerteza no rosto de Jon – Por me apoiar— Dany explicou, procurando os olhos nublados do marido.
— Falando assim, até parece que eu nunca faço isso – Jon respondeu, apertando os dedos de Dany nos seus.
— Você faz. Sempre faz. Do seu jeito..que nem sempre é o meu...mas sempre faz – Dany respondeu, repousando a outra mão sobre o dragão de três cabeças centro do peito de Jon – Mas ainda assim, suas palavras me surpreenderam. Você sempre procura a conciliação, sempre é a voz da minha razão.
— Por mais que digam que eu tenho gelo correndo nas veias, isso não é verdade. E sinceramente, talvez hoje eu não esteja em um dia bom – Jon disse, taciturno, voltando a beijá-la na testa e soltando sua mão. Todas as suas preocupações pesando em seu coração.
— Bem...eu gosto de você em seus dias maus então – Dany falou, com um meio sorriso – Vá. Nos vemos daqui a pouco – ela o liberou, sabendo que ele precisava ficar sozinho. Sabendo que escolher a violência nunca era fácil para Jon. Mas que quando ele resolvia usá-la, ninguém podia pará-lo.
—*-
— Porque nosso pai está vestido assim? Aconteceu alguma coisa que não estou sabendo? – Rhaegar perguntou à Lyanna, aproximando sua montaria da dela, assim que saíram pelas ruas de Porto Real rumo à arena.
— Me perguntei o mesmo quando o vi – Lyanna o respondeu, olhando para o pai deles e não diretamente para Rhaegar.
— Então você não sabe de nada? – Rhaegar insistiu, olhando das costas do pai cavalgando à diante, com a mão sobre Garra Longa, para Lyanna ao seu lado, aliviado por ela pelo menos estar falando com ele depois da conversa tensa entre os dois na noite anterior.
— Se digo que me perguntei, é porque não tenho resposta...- ela falou, rispidamente, ainda sem olhar na cara dele.
Ela ainda estava zangada com ele. Nenhuma surpresa. E no fundo Rhaegar sabia que não era apenas por ter ficado preocupada com a sua segurança, mas também por ciúmes e principalmente, por ele ter tentado falar com ela sobre o grande assunto que pairava sobre eles. Entre eles.
— Está de mal humor, Lya? – Rhaegar provocou – Não dormiu bem?
— Pelo contrário. Dormi maravilhosamente bem. Foi libertador lavar minhas mãos com relação a você. E acredite, eu lavei – Lyanna disse, finalmente olhando-o nos olhos, com o semblante altivo e frio que Rhaegar odiava ver nela.
Ela estava esplêndida vestida em um traje com tons de cinza claro, beirando o azul, que combinava muito bem com seus olhos. Ao redor do pescoço e dos pulsos, pele de lobo branca se destacavam do cinza e, na parte de cima, os pelos alvos apenas realçavam mais os longos cabelos negros dela, soltos na maior parte, presos apenas dos lados.
O costureiro real parecia ter escolhido aquele dia para homenagear a parte Stark deles, pois Lyanna sem dúvida estava como uma perfeita nortenha. Até ele mesmo estava vestido em tons de cinza mais escuro, quase chumbo, diferente da eventual combinação de preto e vermelho.
— Acho que você mente muito mal, Lya. Principalmente para mim – Rhaegar falou, aproximando ainda mais sua montaria da dela e ganhando em troca um intenso olhar de desprezo.
— Ache o que quiser, Rhaegar – ela disse, instigando sua montaria a se afastar dele e desfazendo a organização do cortejo ao diminuir seu galope e se aproximar de Sam Tarly, que vinha mais atrás.
Rhaegar contraiu o maxilar, quase tentado a simplesmente segui-la, mas se deteve, voltando sua atenção para a multidão que os acompanhava, como em todos os dias de festa até ali, acenando de volta, e assumindo o espaço deixado pela irmã, com Blackfire no encalço da sua montaria. Alguém ali tinha que lembrar de ser simpático com as pessoas.
— A Princesa herdou o olhar gelado do Rei – Rhaegar ouviu a voz de Daario Naharis lhe dizendo – Me permite a honra de cavalgar ao seu lado, Alteza? – o homem lhe perguntou, com um leve reclinar do cenho, posicionando seu cavalo ao lado do dele.
— Como queira, Capitão Naharis – Rhaegar respondeu, educadamente, ignorando o comentário sobre Lyanna.
— Os dois tem uma forma inequívoca de deixar claro seu desprezo por algo ou alguém, não é mesmo? – Naharis voltou a tocar a no assunto.
— Sim, eles têm – Rhaegar concordou, com um sorriso de canto. No caso de Lyanna, não passava de um falso desprezo, mas o capitão não estava enganado em sua análise.
— Animal interessante esse seu lobo, Alteza – Naharis falou, observando Blackfire – Ele olha para mim como se estivesse à ponto de me devorar.
— Talvez ele esteja – Rhaegar falou, com o tom de voz mais despreocupado que existia. Naharis riu – Mas talvez ele olhe assim para todo mundo.
— De alguma forma, ele me lembra de Drogon na primeira vez que o vi. Ele era menor que seu lobo, mas exalava morte e perigo. E proteção. A mãe dos Dragões tinha a cabeça dele em seu colo, como se ele fosse um cachorrinho, quando recebeu à mim e aos meus companheiros para uma reunião – Naharis contava, com o olhar distante.
— É difícil pensar em Drogon assim, tão pequeno – Rhaegar falou, observando o rosto do homem ao seu lado.
— Eu não consegui dormir naquela noite. Além dele, tinham mais dois. Era algo...era inacreditável de se ver com os próprios olhos – Naharis comentou, com uma expressão saudosa.
— Imagino que não tenha sido difícil escolher seguir minha mãe diante da visão de três dragões – Rhaegar o alfinetou. Mas Naharis apenas sorriu.
— Não. Não foi. Eu sabia que uma mulher capaz de tratar aquelas bestas poderosas como filhos iria curvar o mundo à sua vontade. E eu queria testemunhar aquilo de perto, como um homem do seu exército – Naharis falou aparentemente sem nenhuma remorço por ter traído seus companheiros – Desde o primeiro dia eu soube que ela conseguiria tudo. E quanto mais eu via, e eu vi sua mãe fazendo muitas coisas extraordinárias, mas certeza eu tinha. Nunca houve ninguém igual à ela – Naharis falou, com devoção.
Rhaegar encarava desconfortavelmente o homem e a paixão com a qual ele falava sobre sua mãe. Ele nem tentava esconder seus sentimentos. Mesmo ali, enquanto estava falando com o filho da Rainha.
— Até as expressões de vocês são iguais, Alteza – Naharis observou, vendo as sobrancelhas arqueadas do Príncipe, muito ciente do incômodo dele e não parecendo se importar.
Rhaegar ficou calado. Ele definitivamente não gostava da ousadia daquele capitão.
— Ouvi dizer que o Rei também tinha um lobo como o seu... – Naharis continuou puxando assunto.
— Todos os filhos do meu tio-avô, Ned Stark, tinham um. O do meu pai era albino, mudo e de olhos sanguinolentos como os de Blackfire. O mais fraco da ninhada quando nasceu. O maior e mais forte quando cresceu – Rhaegar falou, com orgulho. Ele sabia tudo sobre Fantasma. Quando era pequeno, sempre pedia ao pai para lhe contar histórias do seu lobo.
— Interessante. E condizente com a história de um bastardo que virou Rei – Naharis comentou.
— De um Rei criado como um bastardo para a sua proteção — Rhaegar o corrigiu. Naharis concordou com a cabeça.
— E o que aconteceu com o lobo? – o capitão perguntou.
— Morreu protegendo meu pai, durante a Batalha de Winterfell – Rhaegar respondeu, mesmo achando que o capitão já sabia daquilo.
— Assim como o dragão verde. É interessante a história do Rei. Um lobo dragão...sem lobo e sem dragão— Naharis falou, com um desprezo provocativo. Rhaegar enrijeceu seus ombros e estreitou os olhos para o homem, diante da audácia daquelas palavras.
— Ele ainda os tem, capitão. Não se engane. Todas as bestas letais dessa corte servem ao Rei. Todos os lobos. E todos os dragões – garantiu Rhaegar. Blackfire podia sentir sua raiva e mostrava seus dentes para o capitão, assustando a montaria do homem.
— Achei que as bestas dessa corte serviriam em primeiro lugar à Rainha. Como um dos seus mais antigos súditos, é decepcionante ver o quanto ela se diminuiu por ele, Alteza. Sua mãe deveria reinar sozinha sobre os Sete Reinos – Naharis falou, tentando manter sua montaria sobre o controle de sua rédea.
Rhaegar sorriu ferozmente para o homem.
— Não perca seu tempo, Naharis. Isso já foi tentado muitas vezes. Por ambos os lados. Por homens que a temiam e não confiavam em uma filha do Rei Louco e que preferiam meu pai reinando sozinho. Ou por homens que a idolatravam e que preferiam servir apenas à ela. Nunca conseguiram separar os dois. Nunca conseguirão — Rhaegar garantiu, adorando ver o homem continuar a tentar controlar sua montaria. Blackfire sempre deixava os cavalos nervosos.
— Tenho certeza que não, Alteza – Naharis falou, mudando de tom, olhando de canto de olho para Blackfire e inclinando a cabeça na direção de Rhaegar. Continuar ali certamente resultaria no cavalo derrubando-o para fugir e o capitão parecia prestes a se despedir.
— Só mais uma coisa, capitão – Rhaegar disse, aproximando o cavalo dele, o rosto muito perto do homem de Meeren – Ofenda meu pai outra vez ou falte com o respeito que deve à minha mãe como sua Rainha e como a mulher casada que ela é, e você será servido como alimento. E não vai ser dar dragão. Queimar é muito rápido. Blackfire gosta de comer devagar – Rhaegar prometeu, ouvindo os barulhos que Black fazia com sua mandíbula, a saliva raivosa brotando de sua boca e pingando no chão.
Naharis o encarou calado. Uma única palavra errada dele e Rhaegar proporcionaria um belo espetáculo à plebe.
— Você realmente se parece com ela – foi tudo que o capitão respondeu, antes de se afastar e voltar de onde quer tivesse vindo.
—*-
— Tem alguma coisa acontecendo? – Sam perguntou à Lyanna, quando a ajudou a desmontar do cavalo na entrada da arena, olhando preocupado para Rhaegar, que os encarava de certa distância, desmontando do seu.
— Porque todo mundo está me perguntando isso hoje? – Lyanna bufou, ajeitando suas vestes e aceitando o braço que Sam lhe oferecia – O que esta acontecendo é que estou irritada com Rhaegar e, sinceramente, decepcionada com você – Lyanna falou, chateada.
— Comigo?— Sam repetiu, surpreso. Preocupado. A acompanhando diligentemente pelos degraus que levavam ao camarote se honra.
— O que vocês fizeram ontem foi muito imprudente – Lyanna continuou, em voz baixa – Vocês tem sorte que meus pais não descobriram, senão estariam com sérios problemas.
— O Príncipe teria ido de qualquer forma. Você o conhece. O acompanhei apenas para protegê-lo, nada mais. Nada mais, mesmo— Sam se explicou, tenso. E Lyanna se deu conta de que talvez ele estivesse achando que ela estava com ciúmes dele. Que estava decepcionada por ele ter ido ao baile dos Westfall sem ela. Ou pelo que poderia ter feito por lá.
Uma pontada se remorso atravessou o peito de Lyanna. Sam não merecia aquilo. Não mesmo. E toda a possibilidade de não escolhê-lo, de não condená-lo à uma vida ao lado de alguém que nunca poderia ser genuinamente sua, voltou a rondar seus pensamentos.
— Eu sei. Sei porque estava lá. Me perdoe, Sam – Lyanna disse, lhe dando um breve sorriso envergonhado.
— Não há nada para perdoar – Sam se apressou em dizer, parecendo aliviado – Ah...eu preciso descer novamente. Em breve estarei disputando, preciso me preparar – ele lamentou, soltando o braço dela gentilmente, agora que estavam diante de seus locais de assento.
— Boa sorte nas disputas, Sam. Estaremos todos na torcida – Lyanna falou, sorrindo um pouco para ele, Rhaegar entrando em sua visão periférica e caminhando à passo a largos para chegar aonde estavam.
— E não se machuque – Lyanna pediu. Sam lhe deu um sorriso cálido. Sua gentileza de palavras e gestos era sempre um contraste interessante de se observar com o seu físico avantajado – E Sam...eu...eu preciso falar com você. Mais tarde. Pedirei a Lady Jane para avisá-lo – Lyanna falou, a voz mais baixa, percebendo que a interação dos dois estava chamando a atenção dos outros ocupantes do camarote. Melissa os olhava com o costumeiro olhar debochado, Sarah com curiosidade. E até Dianna Lannister, que era sempre discreta, parecia não conseguir disfarçar o interesse no que se passava entre os dois.
Sam, Graças ao Sete, pareceu perceber também e só lhe deu um discreto aceno de compreensão, beijou sua mão e começou a se afastar, recebendo cumprimentos e desejos de boa sorte nas justas por onde passava, menos de Rhaegar, que já havia se sentado, mas ainda mantinha um olhar felino sobre ela.
Lyanna o ignorou. E antes de ter que ocupar seu lugar ao lado do irmão, cumprimentou Arthur Tully, conversando um pouco sobre os livros que havia indicado para ele na noite anterior, até que as trombetas soassem anunciando a primeira disputa de justas da manhã e ela não tivesse mais como fugir de sentar ao lado de Rhaegar.
— Ontem à noite você estava andando de braços dados sozinha com Sir Jason, hoje concedeu essa honra à Sam e assim que ele vira as costas e sai, você engata uma conversa com Arthur Tully como se fossem bons amigos... – Rhaegar cochichou no ouvido dela, inclinando o rosto para perto do seu muito mais do que era realmente necessário.
— Você vai apresentar alguma conclusão ridícula que deveria guardar para si ou realmente pretendeu apenas listar algumas das coisas que fiz de ontem para hoje? – Lyanna perguntou, erguendo o queixo em sinal de aviso e usando todo o seu auto controle para não reagir ao rosto dele ainda tão próximo.
— Você pode agir como uma irmã chata e protetora todos os dias e eu não posso dizer nada, nenhuma única vez? – Rhaegar perguntou, com um longo suspiro, voltando a olhar para a arena, sem disposição para brincar de esconder suas emoções. Quando Lyanna o respondia daquele jeito, ele geralmente entrava no jogo, a provocava, tentava irritá-la. Mas não hoje. Ele estava cansado daquilo.
— Faço isso porque você tem a tendência a fazer coisas estúpidas. Não é o meu caso – Lyanna rebateu, mas com menos firmeza. Rhaegar era mestre em provocá-la, mas graças aos deuses novos e antigos ele não sabia que a melhor forma de desarmá-la era demonstrar que algo o deixava triste. Como parecia estar deixando agora.
— Então permita-me lhe dizer. Você está fazendo uma coisa estúpida— ele disse, muito sério, um apelo mudo escorrendo dos seus olhos para ela.
— Estou fazendo o que é esperado de mim. Interagindo com meus pretendentes. Tentando conhecê-los melhor para poder fazer minha escolha com sabedoria – Lyanna falou, sem nenhuma convicção – E você deveria fazer o mesmo. Deveria passar algum tempo com Lady Diana ou mesmo com Lady Arianna – as últimas palavras lhe custaram muito. Mas saíram sem que sua voz tremesse – E não saindo escondido para uma festa devassa, com uma princesa estrangeira mais devassa ainda— ela disse, tentando controlar a raiva em sua voz.
Rhaegar lhe deu um sorriso amargo, os dois se encarando. Os dois com uma raiva silenciosa um do outro.
— Nesse caso, seu desejo é uma ordem. Vou fazer o que você quer, irmã – ele lhe garantiu, com um olhar intenso.
Lyanna se obrigou a olhar para as justas. E tremeu ao se perguntar se eles realmente estavam falando da mesma coisa.
—*-
— Bem, não foi uma surpresa para ninguém...- Daenerys comentou, batendo palmas educadas diante de mais uma vitória de Sir Jason Arryn.
— O que? – Jon perguntou, distraído.
— Que amanhã teremos o cavaleiro do Vale e Sam Tarly disputando entre si o título de campeão desse Torneio, Jon – Dany respondeu – Você está com a mente longe hoje – ela observou, levemente preocupada.
Jon não se deu ao trabalho de negar. Ou de tecer qualquer comentário sobre o assunto. Das justas. Ou da sua distração.
— Lyanna pareceu bem à vontade com Pequeno Sam nessa manhã, você não achou? – Daenerys perguntou à Jon – Viu como eles se despediram? E ela parecia bastante preocupada com ele durante as justas do dia.
— Ele não é mais pequeno. E, sinceramente, não vi nada de especial. Eles se conhecem desde sempre – Jon respondeu, mal humorado – Ela também conversou com o garoto de Lorde Edmure com bastante desenvoltura – ele reconheceu, de má vontade.
— Verdade – Dany concordou, contendo um sorriso pela reação do marido – Mas acho que ela vai escolher Sam. Esteja preparado, sim? O rapaz não merece lidar com um sogro tão carrancudo como você – Daenerys afirmou bebericando um cálice de vinho e olhando para Jon com alguma solidariedade. Ela sabia o quanto aquilo seria difícil para ele.
— Que os deuses antigos me deem forças quando eu tiver que entregá-la a quem quer que seja – Jon murmurou, nada animado com a ideia.
— Já nosso filho...não sei o que se passa na cabeça dele – Dany olhou para Rhaegar, rodeado por todas as companhias femininas do camarote, mas sem dar atenção especial à nenhuma delas.
— Alguma coisa passa. Aquela cabecinha prateada é engenhosa quando quer – Jon suspirou – Ele tem me lembrado o jeito de Sansa. E sinceramente, não sei se gosto disso – Dany sorriu do comentário dele – Você ri, Dany? Não consigo achar graça. Sinto que estou andando em areia movediça com o garoto e com todas as coisas que ele apronta – Jon se reclamou, sem realmente estar zangado com a esposa. Ela sempre era mais tolerante com as coisas de Rhaegar. Ele sempre era menos. E isso não iria mudar.
— Você realmente não está em um dia bom hoje – Dany disse, pegando em sua mão – Vamos, hora de descer – Dany o chamou.
— Descer? – Jon perguntou, surpreso. Olhando para o sol da tarde, como se tivesse se perdido no tempo.
— Sim. Vamos entregar os prêmios aos campeões das outras categorias, esqueceu? Só a última disputa das justas e a competição de arco e flecha das crianças ficarão para amanhã – Daenerys esclareceu, olhando preocupada para Jon.
— Sim, claro – Jon murmurou – Nossos filhos vão também? – Jon perguntou, vendo Rhaegar e Lyanna se aproximando deles.
— Sim, vamos os quatro – Dany afirmou.
— Não quero eles no centro dessa arena – Jon disse, exalando preocupação – Somos alvos fáceis enquanto estivermos ali. Posso entregar esses benditos prêmios sozinhos – ele disse, se calando quando os filhos chegaram mais perto.
— Estamos prontos – Rhaegar falou aos pais. Lyanna ao seu lado. Verme Cinzento e outros Imaculados à postos para ladeá-los pelo caminho. Lys e Black devidamente ao lado dos seus donos.
— Vou descer sozinho. Vocês três ficam aqui no camarote – Jon determinou. Dany franziu lábios, mas não disse nada. Jon estava tenso. E não sem motivo. E havia sido compreensivo com ela mais cedo. Era justo que ela lhe concedesse a mesma coisa agora.
— Alguma ameaça? – Rhaegar perguntou imediatamente – É por isso que o senhor veio hoje como se estivéssemos indo para a guerra e não para um dia festivo de disputas?
— Só me obedeçam sem questionar, uma única vez na vida! – Jon pediu, se sentindo cansado, passando a mão nos cabelos grisalhos, mas falando sem se alterar.
— Pai...ou devemos ir todos ou então nenhum – disse Lyanna, com todo jeito, mas ainda assim pegando Dany e Rhaegar de surpresa – Os lobos estarão conosco e tenho certeza que os Imaculados estarão atentos para as arquibancadas. Se alguém tentar nos atacar eles conseguirão nos proteger.
Rhaegar e Daenerys pareciam concordar.
— Não quero arriscar. Uma flecha, de algum ponto alto...- Jon disse, encarando a filha.
— Então não vamos arriscar a vida do nosso Rei também – Lyanna respondeu, mantendo o olhar do pai – Ninguém desce – ela completou.
— Todo mundo desce – Rhaegar se intrometeu – Não vou ser intimidado em um torneio pelo meu nome, na minha cidade— ele disse, descendo as escadas sob o olhar irado do pai.
— Odeio reconhecer, mas ele tem razão Pai. Não podemos demonstrar tanto medo – Lyanna disse, quase que em tom de desculpas e tratou de tentar acompanhar Rhaegar.
— Vamos logo, Jon – Daenerys incentivou, preocupada que o marido explodisse ali, aos ouvidos de todos os nobres – Vamos estar bem protegidos – ela disse, com confiança. Jon não teve muita escolha.
—*-
Um largo tablado havia sido levado para o centro da arena e os vencedores após serem chamados um à um, estavam agora enfileirados no seu centro, sob o grito ensurdecedor da multidão. Os sacos com os dragões de ouro prometidos como prêmio estavam amontoados sobre uma mesa colocada ali para aquele fim, à espera de que cada um deles quatro os pegassem e entregassem, revezadamente.
A inovação tinha sido ideia de Rhaegar, obviamente. E pelo barulho das palmas quando o primeiro prêmio foi entregue pelo Rei, parecia que o público realmente estava apreciando o espetáculo. Ao redor do tablado, um círculo de Imaculados virados para as arquibancadas, os protegiam. E sob o tablado, com eles, estavam Verme Cinzento e Daario Naharis.
Quando Daenerys pegou um saco de ouro para entregar o prêmio à outro campeão, Jon viu o capitão de Meeren se movimentar para acompanhá-la de perto.
— Verme Cinzento, fique ao lado de sua Rainha— Jon comandou, em alto e bom som. A expressão de Daenerys não se alterou e Verme Cinzento o obedeceu imediatamente. Jon viu seus filhos trocando um breve olhar preocupado, mas não se importou. Aquele homem nem deveria estar ali. E ele estava cansado de engolir a sua presença ao lado de Daenerys.
— Hoje você terá a honra de permanecer ao meu lado, capitão – Jon completou, encarando o homem com uma expressão de ferro – Aqui – Jon apontou para o chão, ao lado dele e colocou a mão sobre o cabo de Garra Longa em seguida. Uma ordem. E uma ameaça.
De propósito, Jon se afastou um pouco de Daenerys e dos filhos, com Naharis o acompanhando com o semblante fechado. Dany olhou para os dois com um sutil franzir de testa. Seus olhos pediam por moderação e comportamento. Aos dois. Até aquilo irritou Jon. Que ela olhasse para os dois. Que ela achasse que Jon precisava de lembretes de moderação com tudo que ele vinha aguentando daquele homem.
— A partir de agora, até o momento que você finalmente partir de volta para Meeren, você está dispensado de proteger qualquer membro da minha família, Naharis – Jon falou ao homem, sem virar o rosto para ele, seus olhos na entrega dos prêmios.
— Apenas minha Rainha poderia me dispensar dessa função. Foi à ela que me ajoelhei. Foi à ela que prometi servir e proteger com a minha vida, Majestade – Naharis respondeu, também fingindo que olhava para a entrega dos prêmios – Ela já lhe contou como fiz meu juramento à ela?
Jon enrijeceu ao ouvir o tom de provocação do homem, antecipando que nada de bom poderia vir de qualquer história que o capitão de Meeren quisesse lhe contar. Rhaegar e Lyanna entregavam os últimos dois prêmios. Ele olhou para os filhos, tentando manter os pensamentos calmos.
— Quando entrei sorrateiramente na tenda do acampamento dela, ela estava banhando. Eu deveria matá-la, mas ao invés disso, levei as cabeças dos outros dois capitães da minha Companhia e as coloquei diante dela. Nunca fiz um juramento à alguém com tanta felicidade. Se eu já não estivesse de joelhos quando ela se colocou de pé, nua e molhada, eu certamente teria ficado assim que meus olhos percorreram aquele corpo...
— Locutor!— Jon chamou o homem que anunciava as lutas e os vencedores. Todos no tablado olharam para ele. Os vencedores já se retiravam em filas, erguendo seus sacos de ouro, gritando animados para a multidão que batia muitas palmas de volta.
— Anuncie mais uma luta – Jon disse ao homem, que inclinava a cabeça para ele, sem parecer entender.
— Uma nova luta, Sua Majestade?— o homem corpulento repetiu, olhando para o Rei com atenção.
— Sim. Westeros contra Essos— Jon disse soltando o cinto de couro de Garra Longa do seu quadril, diante dos olhos assustados de Daenerys, Rhaegar e Lyanna. Diante do rosto atento de Verme Cinzento – O Rei dos Sete Reinos contra o capitão de Meeren – Jon falou, encarando Daario Naharis, que parecia presunçosamente satisfeito em aceitar.
— Jon... – Daenerys chamou, ao ouvir aquela ideia absurda, mas engoliu em seco ao receber o olhar do marido para ela. Os olhos dele lhe diziam um claro e sonoro não ouse.
— Aqui no tablado ou descemos para o chão, Majestade? – Daario Naharis perguntou, sacando sua lâmina curva.
— Não se atreva Daario! Sua Rainha o proíbe!— Dany falou, mas Daario apenas olhou para Jon, que sacou Garra Longa do couro já solto do seu corpo e o soltou no chão.
— Lá em baixo— Jon respondeu e saiu pisando firme, ignorando as expressões da esposa e da filha. Pelo menos Rhaegar lhe deu um sorriso de incentivo. Jon quase sorriu de volta.
— Sempre fiquei curioso em saber como resolveriam as coisas quando discordassem, afinal ele é Rei também. Não que eu goste... – Daario falou, se curvando diante de Daenerys e seguindo Jon, pulando do tablado para o chão duro da arena.
— Pai... – Lyanna parecia horrorizada com a cena. Mas Jon ignorou seu apelo. Quando ela deu um passo para frente com o intuito de seguir seu pai para, com certeza, tentar demovê-lo da ideia, Rhaegar a segurou discretamente.
— Não se meta nisso. Ele sabe o que está fazendo. E estamos na frente do Reino todo...— Rhaegar falou em seu ouvido.
— Ele é o nosso Pai! Você não se importa que ele arrisque a vida dessa forma? – Lyanna respondeu, indignada, olhando para sua mãe, que não tinha uma gota de sangue no rosto.
O público já havia percebido que alguma coisa estranha estava acontecendo e a algazarra de vozes já havia diminuído consideravelmente. Quando o locutor levantou um dos braços e anunciou a luta de espadas da forma como o Rei havia dito, um silêncio mortal se instalou sobre a arena.
— Mãe. Impeça isso. Faça alguma coisa! – Lyanna pediu, vendo o pai se posicionar de frente ao capitão de Meeren com a espada em posição.
Dany ficou em silêncio. Olhando para Jon. Ao longe, Rhaegar podia ver todo o camarote de honra ficando de pé. Podia ver uma figura correndo apressada da saída das escadas, até onde eles estavam. Dickon. Claro. Ele nunca deixaria seu Rei lutar sem estar por perto.
— Ele não me perdoaria – Dany falou, finalmente. Mantendo a postura. Se perguntando o que, pelo Sete Infernos, Daario disse à Jon para provocá-lo à esse ponto.
— E se esse homem matá-lo? Eles lutarão até a morte? Vamos ficar aqui parados, simplesmente assistindo? – Lyanna protestou, sem acreditar na passividade da mãe e do irmão.
— Nosso pai não vai morrer. Ele é o melhor espadachim dos Sete Reinos, Lya. Ninguém maneja uma espada como ele – Rhaegar falou confiante, mas Lyanna via que no fundo ele estava tenso também.
— Regras, Majestade? – Daario Naharis perguntou em voz alta – Sei que os westerosis gostam disso...
— Nenhuma – Jon afirmou, com a voz gelada – Apenas lute por sua vida— ele completou.
Lyanna agarrou o braço de Rhaegar ao ouvir aquilo, ao ver os dois homens se cercarem e se estudarem por alguns instantes.
E quando o capitão estrangeiro avançou na direção do seu pai, a Arena voltou a explodir em gritos.
Fale com o autor