Forbidden
13 Capítulo 13
Fazia tempo. Fazia muito tempo que Jon não se permitia fazer algo assim. Ser tomado pela vontade de partir para cima de alguém por motivos puramente pessoais.
Muito tempo. Talvez desde Ramsey Bolton. E essa sensação que ele sentia agora, o desejo irado e egoísta de poder resolver as coisas com sua espada ou com seus próprios punhos era muito bom. Era melhor do que ele se lembrava.
A expectativa da luta energizava seu corpo, preparando seus músculos e seus sentidos. E essa energia definitivamente não era por causa das vozes da multidão. Muitos menos por estar no centro de uma arena. Era pura e simplesmente porque ele não conseguia se lembrar da última vez em que havia colocado sua vontade pessoal acima dos seus deveres como Rei.
E sua vontade, à dias, era de quebrar a cara petulante de Daario Naharis. E o fato de finalmente, finalmente, estar prestes a fazer isso, podia ser onde fosse, ali ou em um lugar sem milhares de testemunhas oculares, era o que fazia todo seu corpo tremer de expectativa.
Isso e o olhar confiante que ele em breve iria tirar do rosto do capitão de Meeren. Pois para ao azar do capitão, que não escondia seus sentimentos por Daenerys e que a tinha tido em sua cama muito antes dele, Jon estava frustrado e tenso com toda aquela situação envolvendo Dorne. Há dias ele se sentia impotente. Há dias ele precisava fazer algo com as próprias mãos para sentir que estavam conseguindo resolver àquilo, para sentir que estava protegendo seus filhos, sua família, seu Reino.
E seria em Daario Naharis que ele iria descontar toda a sua raiva. Toda a sua frustração. Toda a tensão provocada pelo medo daquilo que ele não conseguia controlar. E também todo o seu ciúme por Daenerys. Porque não.
Quando o seu oponente começou a se movimentar lentamente, Jon o encarou com máxima atenção. Cada pequeno passo que ele dava para os lados, girando seu arak, a lâmina curva tradicional dos dothraki, estudando Jon por um momento, enquanto ele fazia o mesmo, dando pequenos passos, Garra Longa firme em sua mão, apenas esperando.
Os dois trajavam couros com placas de ferro apenas sobre a parte superior do tórax, o que significava que aquele seria um duelo ágil, leve, rápido, sem o peso e a limitação de armaduras. Como Jon apreciava. Como o capitão também gostava, ele sabia bem.
Perifericamente ele tinha consciência dos seus filhos e de Dany assistindo à poucos metros, ainda sobre o tablado de madeira. Ele sentia a preocupação deles. Mas não podia focar sua atenção nisso. Não agora. Décadas haviam se passado, mas as lições de Sor Rodrik e de seu pai Ned, as primeiras lições de luta de um garoto bastardo ansioso para se provar diante da sua família, ainda ecoavam na sua mente, jamais esquecidas, jamais ignoradas.
Quando estiver lutando, esqueça todo o resto. Pense apenas na sua espada contra a espada do seu oponente. E em mais nada. Pense apenas em como derrotá-lo. Em como sair com vida. E em mais nada.
— Vamos ver se você é tão bom quanto dizem, Majestade. Conheço seus feitos. Mas acho que os anos já devem ter cobrado seu preço, não é? — Daario Naharis provocou, finalmente cansando daquela avaliação inicial e partindo para cima dele, incendiando a arena de gritos. Mas Jon não dava importância para eles ou para mais nada que não fosse o homem correndo em sua direção, com passos ágeis para ambos os lados, tentando enganá-lo, tentando não revelar qual lado dele seria alvo de seu primeiro golpe.
Jon desviou dele e ergueu Garra Longa de encontro à lâmina curva com firmeza. Se Naharis achava que ele seria pego de surpresa em uma luta de espada contra um arak, ele estava redondamente enganado. Ao longo dos anos, Jon já havia treinado e lutado ao lado de Dothrakis tanto quando o capitão de Meeren já havia feito à serviço de Daenerys. Ele sabia o que estava fazendo. E agora Daario Naharis tinha plena consciência disso também.
Jon sorriu quando o semblante de Naharis ficou mais sério, quando o obrigou a se defender de seguidos golpes de Garra Longa, quando o viu ofegar e deslizar os pés pela areia solta da arena, os gritos em coro de REI! REI! REI tão altos que pareciam fazer o chão sobre os pés deles tremer.
— Acha que cobraram? – Jon devolveu, com um sorriso. Manejar mortalmente sua espada era sua benção e sua maldição. Era um dom herdado dos seus pais. Dos verdadeiros. De ambos. De todos. De Rhaegar Targaryen. De Lyanna Stark. De Ned também. Um dom que ele não negligenciou. Que mesmo com todas as atividades enfadonhas e burocráticas que envolviam governar um reino, ele não deixou de aprimorar sempre que possível.
Jon bloqueou todos os movimentos que Naharis tentou fazer com seu araq, repetidas vezes, atacando de volta com velocidade. Fazendo o capitão suar pelo esforço. E recuar alguns passos da sua posição inicial. O berro da multidão ainda era o mesmo. REI! REI! REI!
— Você não merece ser chamado de Rei! – Naharis gritou para ele, com o rosto furioso pelo coro da arena, o atacando novamente. Dessa vez Jon apenas se desviou dos seus ataques, sem usar Garra Longa, querendo cansá-lo, mas aproveitando qualquer oportunidade para cortá-lo superficialmente por todo o corpo, nos braços, nas pernas, na bochecha, onde ele alcançasse.
Nada cortava como aço valiriano. E Naharis com certeza sabia disso. Mas saber era diferente de encarar uma luta contra uma lâmina daquele material. E Jon duvidava que o homem já tivesse encarado uma antes daquele dia. E ele usaria isso ao seu favor, por mais habilidade que Naharis tivesse. E ele tinha.
— Você não merece sentar no Trono dela enquanto ela teve que fazer outro para si! – Naharis continuava espumando de ódio, um fino fio de sangue escorrendo por seu rosto, do corte que Jon havia feito ali.
— É isso que te irrita tanto, Naharis? Tem certeza? – Jon perguntou, girando sua espada contra o arak de Daario. Aquelas palavras não o afetavam mais. Ele nunca quis ser Rei. Ele nunca quis diminuir Daenerys. E as pessoas que importavam para ele, sabiam disso. Todo tipo de insinuação venenosa já havia sido destilada entre eles dois ao longo dos últimos dezessete anos. Eles haviam prevalecido. Haviam encontrado uma forma de permanecer juntos. De fazer aquilo dar certo. De governar em igualdade, como família, como marido e mulher. Como os últimos Targaryens que eram.
— Você me provoca e me desrespeita desde quando botou os pés em Porto Real porque odeia o fato de que ela não arrumou um marido decorativo, capitão – Jon falou, os dois respirando aceleradamente, buscando fôlego para continuar – Não finja que sua revolta é altruísta e honrada. Sua irritação é porque você a preferia em um casamento de fachada e infeliz. Afinal, de qual outra forma poderia voltar a ter relevância na vida dela, não é? – Jon o provocou, tomando a frente do ataque agora, fazendo o aço dos dois retinir e faiscar em alta velocidade.
Os dois lutavam de forma parecida. Os dois eram bons. Naharis sangrava superficialmente em várias partes, Jon sabia disso, apesar do homem não parecer se abalar. Apesar dele não ter levado nenhuma vez uma de suas mãos à um ferimento que fosse. E Jon o admirava, nesse ponto. Reconhecia à contragosto a força dos seus golpes. A agilidade deles. E apesar de saber que estava indo melhor, invariavelmente ele seria atingido de alguma forma, em algum momento. Ele só não imaginava que seria com palavras. Que ainda haveria algo a sair da boca daquele homem que o tirasse do sério ainda mais.
— É. Talvez seja isso mesmo. Mas você me entende, não é? A mãe dos dragões não é uma mulher que um homem possa esquecer um dia...Aliás, ela ainda faz um barulhinho rouco, com os lábios quentes arranhando seu pescoço, logo antes de atingir o clímax?— Naharis perguntou, o mais alto que sua voz conseguiu, com um sorrisinho cínico – Nunca achei outra que fizesse algo parecido. E eu procurei. Bastante. Até pedi que fizessem igual. Mas não era a mesma coisa. Ninguém gemia como ela – ele completou, olhando para Daenerys na cara de Jon.
Jon ficou cego de ódio ao ouvir aquilo. Ele iria matar aquele desgraçado. E pela primeira vez na sua vida ele iria sentir prazer em acabar com a vida de alguém.
Naharis continuou rindo, sabendo que suas palavras haviam surtido o efeito desejado, ao ver Jon partindo para cima dele com menos cuidado, guiado pelo impulso da raiva e do ciúme. Jon sabia que estava fazendo exatamente o que ele queria. Mas a imagem de Daenerys fazendo aquilo, porque sim, ele havia descrito com fidelidade como sua mulher agia na cama com ele, nublava sua racionalidade.
O araq e Garra Longa retiniram com violência, com os dois berrando com ódio um para o outro, com Naharis tentando bater sua cabeça na dele, tentando desequilibrá-lo à todo custo e por fim conseguindo fazer Jon dar alguns passos para trás.
Quando partiram para cima um do outro de novo, as armas dos dois se cruzaram com tanta força que o araq rachou e Garra Longa voou para longe das mãos de Jon.
Eles dois se encararam. Ofegantes. Suados. Com nada mais do que ódio entre eles. E partiram para cima um do outro de novo, sem armas. Corpo contra corpo. Punho contra punho.
E a multidão pareceu gostar ainda mais.
—*-
— Isso é ridículo. Eles vão se matar. Faça alguma coisa!— Lyanna implorou à Rhaegar, sacudindo seu braço ao puxar a manga de suas vestes, assistindo o pai e o capitão estrangeiro trocarem golpes em velocidade, dizendo coisas um para o outro, que ela não conseguia ouvir direito, as palavras encobertas pelo barulho ensurdecedor das arquibancadas.
Rhaegar estava entre ela e a mãe deles, atento à luta, atento à qualquer tentativa de interrupção da parte elas. E então eles três escutaram, em alto e bom som, o que o capitão havia acabado de perguntar ao seu pai. Ela ainda faz um barulhinho rouco, com os lábios quentes arranhando seu pescoço, logo antes de atingir o clímax?
Lyanna cobriu a boca com as mãos, estupefata. Daenerys respirava ruidosamente, os lábios franzidos, o rosto irado e corado, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. Rhaegar não estava muito diferente. Seu sangue definitivamente latejava mais rápido em seus ouvidos agora.
— Que ideia brilhante convidar esse homem, Mãe! Sinceramente! – Rhaegar deixou escapar, ultrajado – Merda!— Ele exclamou, quando viu o pai partir para cima de Naharis de qualquer jeito, a guarda mais baixa do que deveria.
— O que foi? – Lyanna perguntou, olhando do irmão para o pai. A mãe deles permaneceu calada. Apenas olhando para os dois homens lutando, sem conseguir disfarçar a preocupação que sentia.
— Assim não, Pai. Não se deixe provocar...ele vai enganchar o araq...merda.. – Lyanna o ouvia dizer, antevendo o que acontecia entre o Rei e o capitão de Meeren. As armas dos dois voando para longe. O araq de Daario Naharis caindo quebrado em dois pedaços.
— Acabou, certo? A arma dele quebrou... – Lyanna já estava perguntando, se calando quando os dois homens começaram a trocar socos. A multidão ria e continuava a gritar REI! REI! REI! e ela simplesmente estava em...choque.
Ela nunca tinha visto seu pai sendo tirado do sério daquela forma. Vê-lo agarrando outro homem, berrando para uma pessoa daquele jeito. Ou pior, sendo atingindo no rosto e cuspindo sangue, como acabava de acontecer, era impensável. Era horrível. E ela só queria que aquilo acabasse. Que acabasse com seu pai inteiro. Mas que acabasse.
— Controle o que você está sentindo!— Rhaegar pediu à ela, apontando para Lys, que pulava do tablado e agora circulava ao redor dos dois homens, com os pêlos brancos arrepiados e mostrando os dentes – Chame Lys de volta!— Rhaegar falou.
— Não vou chamar – Lyanna respondeu, irritada – Como você consegue assistir à isso com tanta calma? Antes que esse homem deixe o rosto do meu pai irreconhecível, Lys rasgará a garganta dele, garanto à você! – ela afirmou, afundando o dedo no peito do irmão seguidas vezes a cada palavra dita.
— O capitão já está com um olho fechado e roxo. Quem vai sair daqui com o rosto irreconhecível vai ser ele. Não deixe Lys interferir! Esse homem ofendeu nosso Pai de várias formas. Você desmoralizaria seu Rei interferindo. Passaria a ideia, diante de todo o Reino, que ele precisa de ajuda, que é incapaz de derrotar esse homem sozinho – Rhaegar reinterou, olhando para Black e apontando para a loba da irmã.
O lobo preto e silencioso pulou do tablado e se juntou à sua irmã-loba, seguindo-a de perto.
— Não ouse mandar Blackfire interceptar Lys! Ele vai machucá-la se o fizer. E não vou perdoar você por isso nunca Rhaegar! – Lyanna avisou, percebendo o plano do irmão.
— Ele não vai machucá-la. Apenas vai se colocar na frente dela se você insistir em tentar se meter nisso, Lya – Rhaegar ponderou, vendo o rosto da irmã se contorcer para ele.
— Experimente me impedir— Lyanna o encarou com raiva, estreitando os olhos, enfatizando cada palavra. Rhaegar a encarou de volta, com um olhar desafiador.
Mas um baque no chão os distraiu da discussão. Seu pai havia derrubado Daario Naharis e montado sobre ele, agora o socava repetida vezes no rosto. Algo voou da boca do capitão subjugado. E Lyanna desconfiou que fosse um dente.
Ela olhou para sua loba e então Lys correu em direção ao lugar onde Garra Longa estava caída, sobre a terra batida e alaranjada da arena. Lys agarrou o cabo da espada e arrastou até o Rei, sua lâmina afiada arrastando pelo chão e deixando o rastro do corte pelo caminho. Blackfire permaneceu parado, os olhos vermelhos atentos à Lys e ao seu dono.
Lyanna observou a mandíbula de Rhaegar tensa e contrariada, como se estivesse lhe custando muito não mandar seu lobo interferir na ajuda de Lys. O irmão ponderava na ameaça dela. Ainda bem.
Lys largou a espada ao lado de Jon. E se afastou. Rhaegar suspirou aliviado e deu um pequeno aceno para Lyanna, como se concordasse que aquilo fosse aceitável. Os dois olhavam atentos para o desenrolar da luta nada digna de uma batalha travada por um Rei, mas que definitivamente estava fazendo a alegria das arquibancadas, que agora torcia de pé.
Quando o pai agarrou o pomo em forma de lobo branco da sua espada sem desviar o rosto do oponente, prendendo o capitão ao chão com o peso do seu corpo, prendendo a cara de Daario Naharis ao chão e a virando abruptamente para a direção deles enquanto dizia alguma coisa ao capitão.
Quando o Rei ergueu sua espada, pronto para enfiá-la no oponente, a mãe deles soltou um grito.
— Já chega! – a voz da Rainha se fez ouvir.
—*-
Jon encarava Daario Naharis como apenas um homem insano faria. Agarrar aquele desgraçado pelo pescoço e socá-lo, era muito melhor do que lutar com espadas. Naharis tentava se esquivar dos seus golpes, mas ele já havia acertado dois em cheio na mandíbula do homem. E acabara de pegar um tão forte que imediatamente sua boca se encheu de sangue, fazendo-o cuspir.
— Imaginei que ela ainda fizesse isso. Agora tenho certeza – Daario o provocou, os dois atracados um no outro – Deve ser difícil descobrir que isso não é especialmente para você não é, Majestade?
— Cale essa sua maldita boca!— Jon urrou, socando-o com tanta força que seus dedos calejados ardiam como se fossem de mãos inexperientes.
Naharis gargalhou alto. E Jon aproveitou a oportunidade. Se ele queria continuar sorrindo daquilo, iria fazê-lo sem alguns dentes. E ele bateu e bateu e bateu até ver algo voar da boca do capitão, fazendo-o recuar até suas forças faltassem e ele tombasse no chão de terra da arena. Jon mergulhou sobre ele. E continuou. Cego de ódio. Cego de ciúmes. Surdo ao barulho que ele sabia que deveria estar ouvindo.
Naharis estava com o rosto coberto de sangue, tateando e empurrando e urrando para ele, enquanto buscava uma forma de se libertar da posição subjugada em que se encontrava.
Jon então viu o brilho da pelugem branca de Lys se aproximando dele perifericamente. Com sua espada. A loba da filha trazia garra longa pela boca, os dentes cravados no lobo branco da empunhadura. Boa garota. Boa garota. Jon pensou, apertando seu antebraço sobre a traqueia de Naharis enquanto estendia a mão sem olhar, o cabo úmido da saliva de Lys agora encontrando seus dedos.
Jon virou a cara de Naharis contra a areia, na direção do tablado de madeira e baixou seu rosto para mais perto do capitão de Meeren.
— Quer olhar para ela uma última vez, capitão? Olhe! – Jon falou, sabendo que o homem não deveria estar enxergando muita coisa além de sangue e poeira, além dos dedos que se afundavam em seu rosto.
— Olhe. Olhe para o que nunca foi seu de verdade – Jon ergueu Garra Longa. Ele a enfiaria nos olhos daquele desgraçado e acabaria com aquilo.
Mas então, ele ouviu um grito.
— Já chega!
Era Daenerys. Descendo do tablado. Andando na direção deles.
Ela não pode estar falando sério. Ela não pode querer que eu tenha misericórdia pela vida desse homem. Não pode! Jon pensava.
— Já chega desse espetáculo – Daenerys falou, com os olhos faiscando, mas com uma expressão serena. Uma reação calculada e voltada para o público que os assistia. Jon mal teve tempo de abrir a boca quando sentiu ela tocando em seu braço, em sua mão e a erguendo para o alto.
— Nosso Rei venceu!— ela gritou. E a multidão gritou e aplaudiu euforicamente – Westeros derrotou Essos! – a voz do locutor oficial se seguiu.
— Eu decido quando isso acaba, Dany— Jon resmungou puxando sua mão da mão da esposa. Olhando para Naharis respirando ruidosamente, ainda no chão, ainda cuspindo sangue. Os olhos entreabertos, atentos neles dois – Você está com pena dele?— Jon perguntou, com a voz gelada. Com raiva novamente.
— Estou fazendo isso por você. Não por ele – ela disse, olhando dentro dos olhos cinzentos do marido. Do homem que não gostava de mortes gratuitas. Que sempre fazia tudo que estivesse ao seu alcance para evitar derramamento de sangue. Do homem que ela sabia que se arrependeria daquilo depois, quando a raiva tivesse passado – Você já o espancou e o humilhou. Já foi suficiente para lavar sua honra e para dar uma lição à ele. Agora desfaça essa carranca para mim e me deixe beijar você ou vão achar que há mais coisa aqui do que o que já aparenta. Só os Deuses sabem quantos boatos irão se espalhar sobre essa maldita luta – Daenerys lhe disse, revirando os olhos e logo em seguida deixando um beijo suave e rápido nos lábios machucados de Jon, levantando suas mãos mais uma vez.
— Dickon— Daenerys falou ao garoto Tarly, que acompanhava tudo de relativamente perto, desde que o Rei começara a lutar – Envie o capitão Naharis de volta para a Fortaleza Vermelha e o entregue aos cuidados do Grande Meistre – ela mandou. Dickon já acenava em concordância, quando Jon interveio.
— Ele pode ver o Meistre, sim. Se chegar com as próprias pernas na Fortaleza Vermelha— Jon determinou. Dickon olhava do Rei para a Rainha, sem saber ao certo o que fazer.
Daenerys engoliu em seco. Daario merecia morrer pelo seu comportamento. Ser deixado ali era um punição branda, ela sabia. Mas só reforçaria que havia algum problema entre ele e o Rei. E que aquela luta não teria sido amistosa.
— Você é melhor do que isso, Jon – ela falou, baixinho, enquanto os dois acenavam para a multidão nas arquibancadas, com alguma relutância.
— Não hoje – ele disse, contendo um gemido ao ajeitar seus couros.
— Não alimente a imaginação do povo...- Dany ainda falou.
— Você deveria ter pensado nisso antes – Jon a cortou. Os filhos estavam descendo do tablado, caminhando na direção deles. Ambos visivelmente preocupados.
— Você tem razão. Não saiu como eu esperava e tudo isso poderia ter sido evitado... – Dany concordou, com humildade – Mas não o deixe ali. Você sabe muito bem que ele não vai conseguir sequer levantar sem alguma ajuda. Dê à ele o tratamento que ele não merece, como você já fez com tantas vezes nesses anos, com tantas pessoas – Dany pediu, suspirando.
Jon não queria meditar no mérito das palavras dela. Muito menos nas motivações. Mas ele conhecia a esposa o suficiente para saber que ela não desistiria daquilo facilmente.
— Ele pode ser levado. Mas não quero ver a cara dele na minha frente outra vez. Quero-o confinado em um quarto, enquanto se recupera. Assim que ele tiver condições, jogue-o no primeiro navio de volta para Meeren ou eu o afogo na Baía de Água Negra com minha próprias mãos, Dany – Jon decidiu, cada palavra lhe deixando um gosto amargo na boca.
— Tudo bem. Será como você quer – Dany garantiu – Vamos logo também, sim? Você precisa ver esses machucados – Daenerys pediu, tocando no rosto de Jon por um breve momento. Por um segundo ela temeu que ele se afastasse do seu carinho, mas ele não o fez.
— Vamos — ele disse, entrelaçando seus dedos nos dela.
—*-
Jardim de Águas – Dorne
— Myriah!— a mulher morena e baixinha, de turbante negro cobrindo o alto da cabeça estava gritando com ela — Pegue mais daquela pimenta em pó alaranjada no estoque de condimentos lá atrás! – ela instrui.
A mulher se chamava Quelyn, Arya se recordou. Ela mandava nas cozinhas. Ela decidia quais serviçais fazem o que e levavam comida para quem. Podia não parecer um cargo não muito importante, mas era. Para os interesses dela, ea.
— Cuide garota!— Quelyn reclamava – E aproveite e veja se Vyrla e Tiernyn quebraram aquelas cabeças no caminho até lá! Mandei aquelas duas fofoqueiras imprestáveis irem buscar alguns sacos de grãos e até agora não voltaram!
— Estou indo – Arya respondeu, ou melhor Myriah respondeu e saiu das cozinhas, logo serpenteando pelas colunas de arenito rosa que haviam por todo lugar ali, mesmo na parte dos serviçais. Jardim de Águas era lindo. Era diferente de tudo que ela já tinha visto. E ela já tinha visto muita coisa.
Myriah não parecia ter sido uma garota tão educada e obediente. Mas ela precisava que ela fosse. Compassiva e responsável. Confiável.
Vyrla estava sozinha à frente da robusta porta de madeira que fechava o estoque de condimentos quando ela alcançou o lugar. E pancadas suaves pareciam vir de detrás da porta. Myriah parou e olhou para a garota. Ela era mais jovem, deveria parecer confusa. Ingênua, até certo ponto. Não podia ser demais. Ninguém no Dorne era.
— Quelyn me mandou vir aqui...Preciso entrar – ela disse apontando para a porta. As palavras, os gestos, tudo na dose certa.
— Tiernyn!— Vyrla chamou baixinho, encostando a boca na porta – Acelere isso. Quelyn vai acabar vindo atrás de nós. Eu não vou ser punida por sua causa!
As batidas ocas na porta aumentaram de velocidade. Seguidas por suspiros. Quando a porta se abriu, um guarda doméstico passou por elas ajeitando suas vestes e sumindo de vista rápida e silenciosamente.
— Inferno. Entrem de uma vez! – Tiernyn disse. Os seios ainda do lado de fora. Os lábios inchados.
Myriah mal olhou para a mulher desnuda e irritada. Mas tentou corar. Ela recolheu a pimenta e já ia saindo. Mas antes, ela tinha um recado para dar.
— Quelyn reclamou que vocês estão demorando – ela falou baixo. Calmamente. Já virando as costas para as jovens morenas. Ela era bem mais morena que elas.
— Aonde pensa que vai? – Tiernyn reclamou – Nos ajude, preguiçosa! – ela mandou, puxando seu braço.
— Tudo bem. Mas não posso demorar. Ela tem pressa – Myriah alertou – Quais grãos ela pediu?
— Você está tão estranha, pequena serpente – Tiernyn provocou, pegando mechas dos seus cabelos e cheirando. Ela precisava reagir como se estivesse nervosa – Tão calada. Tão...amigável.
— Deixe de bobagem Tiernyn. Vamos cuidar logo nisso – Vyrla pediu, apontando os sacos que Myriah deveria pegar.
— Não é só ela que esta diferente. Todos estamos. Esse lugar...tem deixado todo mundo nervoso – Vyrla completou.
— Eu não suporto mais – Tiernyn concordou, suspirando. Agarrando sua parte – E nós temos sorte. Difícil é para quem lida diretamente com ela.
Myriah parou de respirar por alguns breves segundos. Ela. Ela. Migalhas de informação. Dias ali e ainda não tinha tido quase nenhuma. Não tinha tido um vislumbre de Sarella Sand.
— Soube que ela matou dois serviçais ontem? – Vyrla perguntou, bem mais baixo. As duas trocando um olhar de compreensão.
— Sim. Foi por causa da palavra? De novo? – Tiernyn perguntou.
Palavra? Que palavra? Arya se perguntava. Deveria ser algo sobre o qual ela normalmente saberia? Ela não fazia ideia.
— Espero não ter que servir ela nunca mais. Imagina só. Não poder esquecer a última palavra que ela disse à mim ou à qualquer outro que esteja trancado naquela sala com ela. Eu ficaria louca – disse Vyrla, parecendo estar sendo tomada por um calafrio.
— Porque ela faz isso? – Myriah perguntou. A voz de Myriah, pelo menos. Curiosa. Com medo. Não de verdade. Não a parte do medo, pelo menos.
— Como você é burra! – Tiernyn debochou dela – Até as pedras aqui sabem que ela teme que o Rei mande aquela abominação da irmã dele até aqui. Ela não confia mais em rostos conhecidos. É preciso que todos digam o que ela falou da última vez, não importa quantos dias já tenham se passado. Todos aqui foram avisados disso? Você bateu com a cabeça e esqueceu? – ela explicou, com um olhar desconfiado.
— Espero que você ainda lembre a que ela disse para você, quando servimos fomos servir aquele copo de leite temperado nos jardins à duas semanas. Porque eu duvido que ela tenha dito às mesmas palavras à nós três – Vyrla ponderou, olhando para os lados, tensa.
— Se ela não lembrar...é melhor torcer para não ser solicitada de novo ou.. – Tiernyn passava o dedo pelo próprio pescoço.
Esperta. Aquela Sand era esperta. Bem. Isso complicava um pouco as coisas.
—*-
Fortaleza Vermelha – Noite do Sexto Dia de Comemorações
— Ele está acordando— Jon ouviu a voz de Samwell dizer. Passos. Vozes. Ele abriu os olhos. E levantou um pouco a cabeça.
— Porque todos vocês estão aqui? – Jon perguntou, limpando a garganta.
Sua mente estava um pouco embaçada ainda. Leite de Papoula. Sem dúvida. Ele se sentou e finalmente reconheceu o lugar onde estava. Na maca alta de procedimentos da sala do Grande Meistre. Aliás, porque ele ainda estava ali? Ele havia aceitado ser examinado, mas sabia que não tinha nenhum ferimento grave. Sua mão estava doendo muito, era verdade. Mas ele não conseguia lembrar porque acabaram lhe dando Leite de Papoula.
— Você quebrou um dedo da sua mão. O Grande Meistre Gerard lhe deu apenas um pouco de Leite de Papoula para colocar no lugar. Mas você dormiu instantaneamente, assim que tomou. E...ele nos disse que não era para você ter apagado assim...ficamos preocupados – Daenerys começou a explicar, em pé ao lado da maca, onde esteve todo esse tempo.
Jon olhou para os vitrais na alta janela do aposento de procedimentos do Grande Meistre. Já era noite. Quanto tempo ele havia ficado ali? Horas pelo visto.
Da janela ele se voltou para o rosto de todos que estavam ali no recinto. Dany, Lyanna e Rhaegar. Os três lhe olhando de forma apreensiva. Lyanna parecendo querer enxergar por trás dos ossos da sua cabeça, se tivesse essa capacidade. Tyrion. Sam. Gilly. Dickon. Sor Davos. Os lobos dos seus filhos. Verme Cinzento. Missandei. E o próprio Gerard. Cochilando em uma cadeira mais distante. Que exagero.
— Eu não dormi bem. Deve ter sido por isso – Jon disse, mas todos continuavam olhando para ele com bastante preocupação – Asseguro que estou me sentindo bem. Desfaçam essas caras de enterro. Ainda não chegou a hora de fazer minha derradeira visita às criptas de Winterfell – ele garantiu, levantando da cama, observando a mão imobilizada.
Tyrion e Sam sorriram. Sor Davos também. Ninguém mais. Daenerys parecia querer voar no seu pescoço por dizer aquilo. Lyanna também. Rhaegar ainda o analisava com cautela.
— Foi uma excelente luta, meu Rei. Comentarão sobre ela mesmo quando seus ossos não forem mais que um saco de pó nas criptas de Winterfell – Tyrion falou, provocando sua Rainha ao mesmo tempo. Sabia que ela não gostava da ideia de Jon querer ser enterrado lá e não em Pedra do Dragão – Acho que nenhum Rei na história de Westeros jamais disputou uma luta de espadas que descambou para o estilo livre. Não em uma arena – a Mão afirmou, claramente divertido.
— Acho que a cidade inteira vai dormir bêbada, repassando cada soco que o nosso Rei deu – Sor Davos comentou, apoiando-se em sua bengala.
— Tenho certeza que vão comentar sobre muitas outras coisas também – Jon falou, se servindo de uma taça de água ao alcance de sua mão.
— Boatos sobre o porquê da luta ferrenha? Ou porque pareciam trocar insultos e estar berrando um para o outro? Ou porque a rainha interferiu? – Tyrion elencou nos dedos – Bem, ouvi que uma das teorias mais populares é de que o Rei descobriu que o capitão Naharis teria sido o homem que tirou a virgindade da Mãe dos Dragões quando ela vivia em Essos. Uma boato estúpido. Qualquer um com um pouco de conhecimento dos fatos e meio cérebro vai lembrar que ela já era viúva quando conheceu Naharis. Sem falar que muitos gostam de dizer que foi o irmão dela, Viserys, que tomou sua virgindade. Ou então que na verdade foi o nosso saudoso Sor Jorah. Pouca gente quer pensar que foi o marido. Enfim... – Tyrion comentou, abanando uma mão, com evidente sarcasmo.
— Obrigada, Tyrion – Daenerys falou, cerrando os dentes – Nunca imaginei que a perda da minha virgindade seria algo tão interessante depois de tanto tempo. Você esqueceu que também gostam de dizer que Drogo me deu primeiro ao seu cavalo – Dany falou, vendo Jon fechar o semblante de novo – Se já paramos de especular sobre esse momento singular da minha vida íntima, acho que já podemos voltar para nossos aposentos já que todos já perdemos o jantar no Grande Salão.
Com sorrisinhos amarelos, todos começaram a se despedir do Rei e da Rainha, permanecendo apenas Daenerys e os filhos. E o velho Meistre, roncando.
— Onde ele está?— Jon perguntou, assim que ficaram sozinhos, eles quatro.
— Apagado, Pai. Na enfermaria da ala comum. O rosto quebrado em vários lugares. O Meistre disse que ele vai precisar dormir por vários dias – Rhaegar respondeu, com um sorrisinho satisfeito – Aqueles socos com o rosto dele esmagado na terra...foi sensacional— Rhaegar completou, fazendo Lyanna bufar.
— O senhor está tonto? Ainda não deu um passo para frente desde que se levantou da maca – Lyanna perguntou, o olhar afiado sobre o pai, se aproximando dele.
— Não. Não estou. Estou bem, já disse – Jon afirmou, acariciando o rosto da filha – Obrigada pela ajuda de Lys, mais cedo, com a espada. Você não deveria ter interferido.
— Ela só pegou a espada – Lyanna murmurou – Fique feliz que eu não mandei ela rasgar a garganta daquele homem – ela continuou, com um pequeno sorriso para o pai, abraçando-o com força. E soltando rápido quando ele gemeu de dor.
— O senhor deveria se recolher. Descansar mais – Lyanna pediu, olhando para a sua mãe – Está cheio de hematomas.
— E ele vai – Daenerys afirmou, passando um braço de Jon sobre seus ombros.
— Eu já disse que não estou tonto – ele reafirmou, bem na hora que suas pernas vacilaram um pouco, fazendo-o fechar a cara e engolir suas palavras.
— Estou vendo. Vamos logo. Não seja teimoso – Dany insistiu – Boa noite para vocês dois. E não se metam em confusões por hoje. Todos estamos precisando de uma noite de paz – ela avisou, olhando principalmente para Rhaegar.
— Mas eu nunca me meto...– Rhaegar falou, ultrajado, piscando descaradamente para a mãe, que sorriu.
— Não. Imagina. As confusões que vêm atrás de você, claro— Lyanna não se conteve, segurando o olhar dele, mas desviando assim que o pai voltou a falar.
— Sem brigas. A mãe de vocês está certa. O dia já foi movimentado o suficiente – pediu Jon – Boa noite, filhos – ele falou, cruzando a porta com Daenerys o ajudando, deixando Rhaegar e Lyanna sozinhos para trás.
Os dois ficaram se encarando em silêncio, até Rhaegar resolver quebrá-lo.
— Apesar de tudo, eles parecem que estão de bem um com o outro, não é? – Rhaegar perguntou, se encostando na parede, cruzando os braços sobre o peito e olhando com cautela para Lyanna, como se estivesse precisando escolher as palavras.
— Achou que não estariam, quando ele acordasse? – Lyanna quis saber. Não que não houvesse motivo para a desconfiança de Rhaegar. As palavras que aquele capitão havia dito...aquilo havia sido feio.
— Sinceramente...achei — Rhaegar confessou – Se eu, que sou apenas filho dela... — ele soltou um suspiro, mas não completou.
— O que? – Lyanna incentivou, sentando na maca, parecendo cansada, mas também aliviada. Talvez por tudo aquilo ter acabado.
— Bem...não gostei do que ouvi. Fervi de raiva por dentro. Imagina nosso pai. Aquele homem tem muita sorte. Eu não teria o mesmo controle que nosso pai...se alguém falasse algo assim...- de você. Ele quase disse.
Ela ficou em silêncio. E olhou para o Grande Meistre sentado e dormindo. Por um momento Rhaegar se perguntou se ela havia deduzido o que ele gostaria de ter dito.
— Você pretende fazer o que nossos pais pediram? – Lyanna perguntou, voltando a ficar mais na defensiva com ele – Dar uma noite de tranquilidade à todos nós?
Rhaegar desencostou da parede e caminhou na direção dela. Quando ele ia se sentar ao seu lado, ela se levantou abruptamente. Rhaegar levou as mãos aos próprios cabelos. E por um instante ele sentiu vontade puxá-los. Porque ela tinha que ser tão teimosa? Tão evasiva na presença dele?
— Se você quer saber se eu pretendo ficar dentro do castelo hoje, a resposta é sim – ele disse, encarando o rosto dela. Os dois ainda estavam do jeito que haviam chegado da arena, do jeito que haviam estado o dia todo. E ela ainda estava linda naquelas vestes cinzentas como seus olhos tempestuosos.
— Ótimo – Lyanna disse, passando as mãos nervosamente pelo tecido. Ela deveria ir. Não havia mais o que fazer ali. Ela se dirigiu para a porta do recinto com Rhaegar a seguindo de perto. Os lobos dos dois logo atrás. Como sempre.
O coração de Lyanna martelava acelerado no peito. Ela podia sentir a cabeça dele trabalhando em silêncio. Podia sentir que ele iria tocar no assunto. Tentar tocar no assunto.
Quando chegaram a um corredor deserto, ele segurou seu braço e a virou para si.
— Lya...amanhã já é o último dia do torneio...depois de amanhã nós nos encontraremos com o Pequeno Conselho...nós...por favor....nós precisamos conversar – ele pediu, com uma expressão suplicante, tentando se aproximar mais dela, mas como quem se aproxima de um bicho arisco, as mãos abertas à frente do seu corpo. Um gesto para ela permanecer calma e ouvi-lo.
— Escolha Lady Diana Lannister – foi o que Rhaegar escutou de volta. E aquela resposta dela o irritou profundamente mandando toda a sua calma para longe.
— Você já se decidiu então? Já sabe quem vai escolher? Você e Sam já escolheram a data? Já conversaram com o Alto Septão? Já estão vendo outros detalhes da cerimônia? – Ele perguntou, com raiva. Com desespero.
— Não. Eu não me decidi ainda— Lyanna respondeu. E aquilo definitivamente não era o que Rhaegar espera ouvir dela. Era bom. Porque ela era teimosa o suficiente para não querer voltar atrás de algo que já tivesse colocado em sua cabeça. Mas também era ruim.
Ela estava cogitando os outros? Realmente estava?
— Você vai beijar os outros dois também? Como fez com Sam? Talvez já tenha beijado? Estava toda amigável com o garoto Tully hoje. E andando de braços dados com aquele Jason Arryn ontem...você deixou que ele...- Rhaegar a pressionou, mas não conseguiu concluir, seu coração doendo com a possibilidade do que ele alegava.
— Vamos voltar à isso de novo, Rhaegar? – Lyanna balançava a cabeça, fechando os olhos por um instante, com uma expressão cansada. Apática – E se eu quiser beijá-los? O que meu irmão tem a ver com isso? Você não beijou garotas o suficiente ontem, no baile depravado em que estava? Acha que vou começar a competir com você? Qual gêmeo real beija mais?— ela suspirou e esfregou as têmporas.
— Lya, pare com isso – Rhaegar implorou, dando mais um passo na direção dela. Vendo ela recuar para longe dele em igual medida.
— Foi um longo dia, irmão. Vamos descansar. Experimente tirar uma noite para dormir. Para organizar suas ideias, considerar suas opções. Como você mesmo disse, amanhã é o último dia do torneio. Em poucas horas teremos que anunciar nossas escolhas ao Pequeno Conselho – Lyanna disse, ignorando como aquelas palavras a aterrorizavam por dentro, ainda que ela estivesse falando-as com tranquilidade.
Ela odiava como ele sempre parecia magoado quando ela dizia aquilo. Como se ele já não tivesse dormido com toda a metade jovem e disponível daquele Palácio. Como se...como se.... Não importava. O que os olhos de Rhaegar diziam ou não...não importava.
— Considerar minhas opções...- Rhaegar repetiu – Realmente, eu tenho muitas. Apesar de você sempre só mencionar Lady Diana e Lady Arianna. Mas o castelo está repleto de moças nobres...de damas de companhia – Rhaegar deixou no ar. Ele não queria ter que apelar para aquilo. Mas ela não estava lhe deixando outra escolha.
— Isso. Considere suas opções – Lyanna repetiu. Com toda a força de vontade do seu – Preciso ir. Ainda quero pegar um livro na Biblioteca – ela disse à ele – Boa noite, Rhaegar.
Ele não lhe respondeu. Ele não se moveu. Apenas ficou olhando para ela. Suplicando silenciosamente por algo que ela não poderia fazer.
Lyanna se forçou a dar um passo depois do outro, até estar longe dele, caminhando apressada para a biblioteca. Ela não tinha a intenção de ir lá de verdade. Tinha muitos livros na fila para serem lidos, em seu próprio quarto. Mas se tivesse continuado para a Fortaleza de Maegor, Rhaegar teria continuado a lhe fazer companhia.
O melhor era fugir dele. Era colocar a maior distancia possível entre os dois. E ela continuou caminhando apressada para a Biblioteca. Como se sua vida dependesse disso. Lys ao seu lado, sempre atenta.
Quando ela se viu cercada pelos gigantescos corredores cheios de conhecimento, que graças às lamparinas esparsas projetavam suas sinistras sombras sobre ela, Lyanna não sentiu medo. Pelo contrário.
Era naquele escuro e naquela imensidão silenciosa que ela conseguia respirar fundo. Que ela conseguia se esconder. Fugir dentro de si mesma. Se havia um lugar onde ela conseguia se distrair de Rhaegar, da sua presença orbitando em torno dela e todas as coisas que isso despertava, esse lugar era ali.
Ali se ela pensasse em coisas físicas, teria à sua disposição imediatamente escritos e escritos sobre as mais profundas coisas intelectuais. Era assim que ela sobrevivia. Era assim que ela levava um dia após o outro. Como agora...com o silêncio lhe preenchendo de paz. De calma.
Mas não havia o perfeito silêncio naquela noite, Lyanna agora notava. Havia um...ruído abafado. Quase inaudível. Não muito longe de onde ela estava. Ela se viu caminhando sorrateiramente para a origem do barulho. Não conseguindo discerni-lo. A curiosidade maior que a prudência. Grata por qualquer coisa que a distraísse de Rhaegar. Ou da escolha que precisaria fazer. Ou de pensar em como seria sua vida depois de fazê-la.
Lys era sua garantia de segurança. Era quem a deixava segura para explorar por aqueles corredores. A loba estava de orelhas em pé e, percebendo sua intenção, se encarregou de guiá-la pela escuridão, a cada passo o barulho ficando um pouco mais alto, mas ainda nada compreensível.
Lyanna parou. Fechou os olhos. E ouviu. As costas junto à uma prateleira larga. As lombadas dos livros e pergaminhos incomodando suas costelas. Era uma...respiração sofrida. E então, ela entendeu. Havia um casal ali. Ela estava espionando beijos apaixonados. Talvez até mais. Ela cobriu a boca com uma mão. A biblioteca realmente não estava ajudando hoje.
O casal estava no corredor seguinte. Ela podia ouvir o estalo dos beijos. Pareciam melhores que os barulhos que sua memória havia registrado no seu beijo com Sam. Mas a culpa disso era dela mesma. Ela sabia.
Mas aquilo era ridículo. Ficar ali, parada, espionando. Ouvindo o que não deveria ouvir.
Quando pensou em ir embora, contudo, ela não deixou de se perguntar quem seriam. Se ela não tivesse deixado Rhaegar para trás ela duvidaria que fosse ele, profanando e perturbando seu lugar mais adorado. Mas aquilo não era possível. Dickon e Sarah teriam vindo tão longe dos seus aposentos na Fortaleza de Maegor para se encontrar? É possível. E ela ainda precisava falar com o pai dela sobre eles.
Poderia ser Jon Tarly e a princesa Q’ira? Ela bem que gostaria de ver aquela mulher tirando os olhos de cima do seu irmão. Mas conhecendo Jon, poderia ser ele com qualquer uma. Ele era um canalha impossível.
E se fosse Sam? Não. Ele nunca faria isso. E se fosse Diana ou Arianna, com algum nobre rapaz que conheceram por esses dias? Não seria melhor que ela soubesse e alertasse Rhaegar? O ajudaria em sua escolha, de qualquer forma. Apesar de ela duvidar muito que Arianna Arryn estivesse sendo beijada ou beijando do jeito que ela ouvia.
Olhe logo de uma vez. Lyanna disse a si mesma. Isso é ridículo. Ou vou embora ou dobro a esquina do corredor e vejo logo. Ninguém mandou virem namorar na biblioteca. Todo mundo nesse castelo sabe que perambulo por esse lugar todo dia e toda noite.
Ela seguiu para o outro corredor. Estava escuro. E ela não estava com nenhuma chama. Mas podia ver o vulto dos dois corpos pressionados um no outro. Estavam só se beijando, graças ao Sete. Do contrário ela daria meia volta.
Lyanna reconhecia a pessoa que apertava a outra contra as prateleiras. Era familiar à ela, de algum jeito, o vulto do corpo.
Ela deu mais um passo. E sua mão esbarrou em algum pergaminho, fazendo barulho, interrompendo o beijo do casal, que agora olhavam ambos, direto para ela.
Lyanna piscou mais vezes do que achava ser capaz, como se estivesse limpando sua vista. Era Jason Arryn. O vulto que ela achou familiar era Jason Arryn. Mas ela não estava preparada para descobrir quem era a segunda pessoa ali.
E pelo horror que ela via no semblante dele, Arthur Tully também não estava preparado para ser flagrado.
Jason e Arthur se afastaram apressados um de perto do outro e instintivamente Lyanna deu um passo para trás também. E fechou a boca. Que só então ela se deu conta que estava aberta.
— Princesa...não é o que você está pensando – Sir Jason começou a falar, mas Lyanna ergueu a sua mão e ele se calou.
— Não estou pensando nada – Lyanna disse, juntando as mãos, levando as mãos para a boca e achando que Arthur Tully estava dar cor de um fantasma e talvez acabasse desmaiando ali – Na verdade, eu não estou aqui— Lyanna falou, dando um passo para trás – Me...desculpem! Ah...eu não vi nada. Não se preocupem...eu...já vou indo. Boa noite— ela se despediu, antes que se enrolasse ainda mais, saindo apressada com Lys.
— Princesa....espere!— Sir Jason ainda pediu, a mão estendida na direção dela, mas Lyanna não se deteve.
Quando ela cruzou as portas da biblioteca ela se deu conta que não havia conversado com Sam, de que não havia compartilhado com ele seus medos de fazê-lo um homem infeliz, de entrar em um casamento com uma carga de sentimentos diferente da dele. Que não havia dito à ele que talvez fosse melhor escolher outro. E que não queria que ele ficasse magoado com ela.
E agora, nem poderia. Afinal, o que tinha visto...simplificava muito as coisas.
Fale com o autor