Forbidden

14 Capitulo 14


Dói muito aqui? – Dany perguntou, esfregando seus dedos umedecidos de unguento cuidadosamente, em movimentos circulares, sobre um feio hematoma no peito de Jon.

Ela havia o ajudado com o banho, mas não havia se juntado à ele. Sua missão naquele noite era cuidar do seu marido, do seu Rei e não fazer outras coisas. Ter entrado na banheira e se juntado à ele teria tirado seu foco e por isso ela só tomou banho quando ele acabou, mandando-o esperar por ela na cama.

Não que a visão dele sentado na ponta da cama dos dois, enrolado apenas com uma toalha que só o cobria da sua cintura parque baixo, já não fosse distração suficiente. Porque era.

— Um pouco – Jon respondeu a sua pergunta sobre a dor, tentando não se encolher enquanto os dedos de Dany o massageavam. Doía muito. Mas ela estava fazendo um bom trabalho. Ele estaria bem melhor pela manhã, com a ajuda do unguento que ela estava aplicando.

O incômodo de ser tocado onde mais estava dolorido era rapidamente compensado pelos beijos leves e rápidos que Dany deixava em seus lábios ou em seu rosto, sempre que terminava de cobrir um machucado e começava a passar no próximo.

Ela estava em pé, os longos cabelos prateados soltos, enrolada apenas em um roupão de seda negra e posicionada entre as suas pernas, o pote com o creme de cheiro forte mas não desagradável, repousando sobre a cama, ao lado de Jon.

Sempre que ela se inclinava para enfiar os dedos no pote, Jon se controlava para não enfiar o rosto em seu pescoço e no decote que acabava se abrindo e revelando um pouco dos seus seios.

— Acho que terminamos – Dany disse, limpando as mãos nele, na toalha que cobria as coxas de Jon.

Ela sorriu ao ver ele olhando para os seus seios quando se inclinou para fazer isso. Ele deveria estar exausto. Mas pelo visto não tanto. O que lhe dava esperanças para aquela noite.

Para uma noite onde ela achava que ele apagaria de cansaço assim que deitasse. Talvez ainda apagasse, mesmo lhe dirigindo aquele profundo olhar cinzento que ela conhecia muito bem. O olhar que necessitava dela.

— Obrigado – Jon respondeu, levando seus braços para a cintura de Dany e a trazendo mais para perto, repousando sua cabeça em sua barriga e fechando os olhos ao sentir os dedos dela deslizando pelo seu cabelo úmido. Aquilo era bom. O toque dela. Nos cabelos ou em qualquer parte dele.

Me perdoe— Jon ouviu Daenerys dizendo baixinho. Culpada. Triste – Me perdoe por você ter ouvido aquelas coisas...aqueles palavras dele – ela pediu, sem interromper os carinhos em seus cabelos.

Jon manteve os olhos fechados e soltou um suspiro profundo. De satisfação pelos carinhos que recebia mas também de arrependimento pela situação.

Ele ainda sentia o ciúme cortando seu corpo ao lembrar das palavras de Daario Naharis sobre ela. Mas não com a mesma intensidade de horas antes. Afinal ela estava ali com ele. Estava com ele à anos. Com ele e não com aquele capitão provocador. Aquele simples fato, agora que seu sangue havia esfriado, era suficiente. Era tudo.

— Me perdoe também. Eu não deveria ter perdido à cabeça. Me dói pensar nas coisas horríveis que estarão especulando sobre você. Sobre nós. E tudo porque eu não consegui me controlar diante das provocações dele – Jon pediu, apertando a cintura de Dany com mais força.

— Não se preocupe com isso, Jon. Eu não me importo, se você não se importar. Ainda assim, a culpa é minha. Eu conhecia o jeito de Daario. Eu poderia ter evitado isso. Todo esse desgaste. Todos esses seus machucados...- Dany falou, deixando suas mãos caírem pelas costas nuas do marido, aproveitando mais do que deveria da sensação do abraço forte dele em seu corpo combinada com as duas mãos na pele dele.

— Eu precisava extravasar minha raiva. Não foi só ele, só as provocações. Eu já estava irritado. Estressado. Você sabe bem. Não se culpe desse jeito. Nem se preocupe mais com meus machucados. Não são nada que eu já não esteja acostumado...e você cuidou muito bem deles – Jon disse, tentando abrir um pouco o roupão de seda dela, com sua cabeça, seu nariz afastando um pouco as aberturas sobrepostas do tecido e lhe revelando um pouco da pele da barriga de Dany.

— É minha culpa também – Jon continuou – Eu amo você, Dany. E tenho ciúmes de você com aquele homem...de saber que um dia ele tocou em você, como eu estou fazendo agora...– Jon disse, suas mãos descendo da cintura de Dany e deslizando ao longo do corpo dela, apertando suas pernas sob a seda, enquanto seus lábios beijavam o pouco de pele que o roupão revelava no centro de sua barriga.

Não, Jon. Como você faz, não— Dany falou, em voz baixa – Não pense que há alguma comparação possível. Você é muito mais. E por mais que eu não tenha como apagar meu passado, nunca duvide que eu sou sua. Sua, Jon. Cada pedaço de mim é seu. Cada pedaço de mim ama você de um jeito que eu não sei explicar. O que eu tive com ele...não se compara com o que nós temos. Foi sexo em meio à solidão. Foi companhia em meio à momentos de ócio, de medo, de insegurança, em um lugar que não era minha casa – Dany falou, sentindo as mãos de Jon subindo pela seda e voltando para a sua cintura, os olhos dele reluziam de umidade e aquilo só a incentivava a dizer mais – E você é a minha casa. Como nenhum outro foi. E não é porque somos do mesmo sangue...é porque...é você. É porque a visão do seu rosto, dos seus olhos profundos e amorosos, são sempre a primeira coisa que eu quero ver ao acordar Dany disse, com a voz embargada, tocando no rosto do marido, sentindo cada dedo dele que pressionava com mais e mais força a sua cintura, à medida que ela falava.

Dany... – Jon soltou um suspiro e encostou a cabeça na barriga dela mais uma vez, procurando as palavras corretas, procurando palavras à altura do que ela havia lhe dito.

— Só me diga que você sabe disso. Que acredita no que estou falando...é tudo que eu quero ouvir... – ela pediu, levantando um pouco o rosto dele, buscando seus olhos.

— Eu acredito, Dany. Eu sei. E eu não mereço. Nunca fiz o suficiente para merecer, mas eu sei. Cada parte de mim é sua também. Sempre foi. Desde que coloquei meus olhos sobre você, há tantos anos atrás – Jon respondeu, sentindo as mãos dela guiando as suas para abrir mais o roupão de seda, sentindo os lábios macios dela vindo de encontro aos seus.

Mentiroso. Você me odiou quando nos encontramos pela primeira vez – Dany sussurrou no ouvido de Jon, mordiscando de leve sua orelha, o rosto dele se esfregando também de leve em seus seios.

— Só quando você começou a falar... – Jon sorriu, apertando mais Daenerys contra seu corpo – Mas antes, quando aquelas portas se abriram e eu vi você, vi seu rosto, seus olhos. Minhas pernas tremeram, Dany. Minhas entranhas se reviraram. Eu fiquei sem ar. Eu não conseguia nem falar. Esqueci como se fazia isso.

— Você sentiu vontade de calar minha boca com um beijo quando começamos a discutir, Jon Snow? – Dany perguntou, beijando-o superficialmente.

— Não, ali não. Na caverna talvez... – Jon admitiu e os dois sorriram – Mas na primeira vez... só senti vontade de tocar em você. Mesmo enquanto discutíamos. Eu queria saber se aquela visão, se aquela mulher...se era real. Se aqueles cabelos, aquele rosto, aqueles olhos que o mundo dizia que não existiam mais...se realmente eram reais. Quando você levantou e caminhou para perto de mim, meu coração bateu desenfreado...ainda bate agora...só porque você está assim...tão perto de mim... – Jon revelou, puxando o nó que prendia o roupão de seda, afastando o tecido que escondia o corpo dela dos seus olhos, levando sua boca por toda a pele de Daenerys e beijando-a, como ela merecia ser beijada.

Dany fechou os olhos quando sentiu a barba de Jon arranhando o vale entre seus seios. Feliz porque Daario não havia conseguido criar um problema entre eles naquela noite, apesar de tudo.

Ninguém estava entre eles. Nem nunca estaria. Eles nunca seriam afastados. Nunca. Eram as palavras que seu coração repetia.

As mãos de Jon a puxaram para ele, possessivamente. E ela se deixou ser levada, sentando em seu colo, uma perna de cada lado da cintura do seu marido, ajudando-o na tarefa de livrá-la daquele roupão, enquanto os lábios dos dois eram uma coisa só.

— Você faz com que respirar seja difícil para mim, até hoje – Jon disse entre sua boca, antes de agarrá-la e a virá-la sem aviso, deitando-a de costas na cama, encaixando-se entre suas pernas, a toalha que o cobria sendo arremessada para longe.

Dany riu daquilo. Daquela urgência. De como ele parecia jovem e sem o peso das preocupações quando estavam ali, só os dois, prestes a fazer amor. Mas até seu sorriso logo foi engolido por Jon, como se ele quisesse ter para si o som da sua risada. Ter tudo. Quando na verdade, já tinha. Tudo nela já era dele.

— Jon...vá com calma...– ela tentou pedir, querendo o contrário, mas preocupada com ele – Você está todo machucado meu amor...e não é mais nenhum rapazinho. Deveríamos descansar. Você deveria estar repousando... – ela ainda insistiu. Não que realmente quisesse aquilo. Mas era o mais sensato a se fazer.

— Você está me chamando de velho, mulher? – Jon perguntou, a invadindo, sem aviso, sem ligar de verdade para o que ela falava, arrancando um gemido incompreensível de Dany.

Uhum – Danny murmurou, os dedos de volta aos cabelos grisalhos de Jon – Um velho briguento...teimoso...lindo...meu velho...– Dany respondeu, suas palavras se tornando desconexas. Sua mente ciente apenas do seu corpo sendo preenchido por ele.

Devo parar, então?— Jon quis saber, agarrando as pernas dela e enroscando em sua cintura, fazendo o oposto do que insinuava poder fazer.

Dany não se deu ao trabalho de responder. Ele não iria parar. Ela sabia disso. Ele sabia disso. Os movimentos apaixonados dos dois sabiam disso.

Amo você, Dany— Jon precisou dizer, trôpego, inebriado por ela. Pela visão dos cabelos prateados espalhados e bagunçados na cama, pela visão dos olhos violeta semiabertos e repletos de desejo. Pela emoção que rugia em seu peito por saber que aquela visão era somente dele. Somente para ele.

Eu sei. Eu sei, Jon – Dany falou, trazendo o rosto dele de volta para os si, para o seus lábios. Sem mais palavras, era o que ela queria dizer com aquilo. Sem mais explicações. Ou pedidos de desculpas.

Elas não eram mais necessárias, porque eles sabiam. Claro como a água. Forte como aço valiriano. Quente como fogo de dragão. Eles sabiam o que sentiam um pelo outro.

—*-

Último dia de Comemorações pelo 18º ano do dia do nome do Príncipe Rhaegar e da Princesa Lyanna, da Casa Targaryen.

O mar agitado abaixo. O céu carregado acima. E o vento forte ao redor. Era tudo que ela via e sentia.

Além do medo pelos trovões que eram tão fortes e altos que balançavam Khaleeth no ar.

Sua dragão estava com medo como ela.

Mas ainda assim, a cada raio que cortava o horizonte, seus olhos não se fechavam, ainda que isso fosse seu primeiro reflexo. Pelo contrário. Eles se abriam com assombro para a cor violeta que surgia nas nuvens, iluminada pela luz dos raios.

Violeta e branco quando surgia um raio.

Na ausência deles tudo era apenas escuro.

Tudo era apenas o vôo apressado. Tudo era apenas seu nome sendo gritado na escuridão.

Os trovões deveriam encobrir os gritos. Porque ela continuava escutando então? Ela queria levar suas mãos aos ouvidos, queria não ouvir. Queria apenas seguir em frente. Sozinha. Longe daquela voz. Longe do seu nome chamado ao vento.

Não olhe para trás. Não olhe para trás. Não escute. Não escute. Ela repetia para si mesma, sem parar.

Mas por fim, sempre olhava. Sempre ouvia. Sempre falhava.

Lyanna se sentou na sua cama, esfregando os olhos,ouvindo pancadas ao longe, se situando sobre onde estava.

Os trovões do sonho bem poderiam ser as batidas que ouvia na sua porta. Ou as pancadas aceleradas do seu coração, ainda afetado por aquela visão assustadora, ainda vívida em sua mente.

Ela já havia sonhado com aquilo antes. Semanas atrás. No dia em que soube que teria que escolher um marido após o torneio, se sua memória não lhe falhava.

Lyanna se levantou da sua cama e caminhou até as cortinas, querendo ver o céu. Precisando ver o céu.

Estava nublado. Não como no sonho. Apenas levemente nublado. As batidas na porta se tornaram mais altas e ela se assustou, fechando as cortinas de novo, Lys bocejando preguiçosamente, ainda sobre sua cama, parecendo irritada com o barulho.

Entre— Lyanna disse, limpando sua garganta.

— Está fechada, Princesa – a voz de Jane se fez ouvir.

Lyanna não costumava fechar sua porta. Tampouco se lembrava de ter feito isso na noite anterior. Ela caminhou e destravou a pesada porta de madeira e ferro e deixou Jane entrar. Pela expressão de sua dama de companhia, ela parecia preocupada.

— Estou atrasada? – Lyanna perguntou, tentando sorrir para Jane, tentando não pensar mais no sonho, ainda que sua pele continuasse afetada por um arrepio frio.

— Não, Princesa. Está bem cedo ainda. Fiquei um pouco assustada com sua porta fechada. Vossa Alteza nunca a trava por dentro... – Lady Jane explicou, alisando os seus trajes no corpo, os cabelos não tão arrumados como de costume, o que fez Lyanna sentir que ela havia se vestido com pressa.

— Se ainda está cedo...aconteceu alguma coisa? – Lyanna perguntou, analisando Jane. Ela definitivamente parecia nervosa.

— Ah..alguém deseja vê-la Princesa. Imediatamente— Jane falou – Eu expliquei que Vossa Alteza ainda estava dormindo. Que ainda era muito cedo. Cheguei até a mencionar que uma visita assim aos seus aposentos pessoais era totalmente inapropriado, mas nada o fez ir embora, ele insiste...

— Ele quem, Jane? – Lyanna perguntou, temendo que fosse Rhaegar. Temendo vê-lo entrar por aquela porta e...

Sir Jason Arryn, Princesa. Não sei mais o que fazer... — Jane falou, levando as mãos ao rosto, olhando para Lyanna confusa.

— Ah...- Lyanna soltou um suspiro aliviado. Jane não parecia entender. Ela agora a olhava com curiosidade – Sir Jason. Certo. É..tudo bem, Jane. Acomode-o na minha sala privada. E volte para me ajudar a me trocar. Ah...ele está sozinho? – Lyanna quis saber.

— Sim. Ele parece preocupado – Jane comentou.

— Imagino – foi tudo que Lyanna disse, mesmo vendo as perguntas silenciosas que Jane lhe fazia – Bem, vá lá. Faça o que pedi. Não o deixe esperando mais.

— Ah, Jane. Mais uma coisa. Enquanto Sir Jason estiver aqui, por favor, vá até Sam. Diga que preciso conversar com ele, diga para ele vir até aqui, sim? – Lyanna pediu. Se iria começar o dia com conversas constrangedoras e difíceis, que encarnasse logo todas.

— Sam? Alteza...tem certeza? – Jane hesitou.

— Sim. Tenho – Lyanna afirmou e acenou com a mão para que Jane fosse logo.

Jane saiu e Lyanna respirou aliviada outra vez. Ela preferia lidar com aquilo. Com o que tinha visto ontem, do que com Rhaegar, do que ficar pensando naquele sonho sem sentido.

—*-

Bom dia, Sir Jason— Lyanna o cumprimentou, minutos depois, após se trocar. Jane ao seu lado. Ele estava de pé, elegantemente trajado em tons escuros de azul, os intensos olhos verdes determinados, os braços cruzados atrás das costas, o rosto altivo. Uma bela visão para qualquer garota, mesmo para uma que convivia tanto com Rhaegar.

Alteza— o cavaleiro do Vale a cumprimentou, se aproximando de Lyanna, tomando sua mão e a beijando, com uma mesura reverente – Agradeço profundamente que tenha aceitado me receber. Perdoe-me o inconveniente – Sir Jason complementou, voltando a ficar ereto.

— Sente-se, por favor, Sir – Lyanna pediu, apontando uma poltrona e se dirigindo para outra, posicionada de frente para ela. Sir Jason quase a obedeceu, se aproximando, mas não se sentou. Seu olhar estava cravado em Jane e Lyanna compreendeu. Ele não queria falar na presença de outra pessoa.

— Lady Jane, nos deixe à sós. Certifique-se de que não seremos interrompidos, nem escutados – Lyanna pediu, sabendo bem como aquilo soava aos ouvidos de Jane. Sua dama de companhia a olhava assustada. Literalmente paralisada onde estava – Pode ir, Jane— Lyanna precisou reforçar.

Quando Jane relutantemente a obedeceu, Lyanna se sentou, Lys aos seus pés. Sir Jason a acompanhou, mal se encostando na poltrona, ocupando a ponta do assento apenas porque Lyanna havia pedido.

— Me perdoe mais uma vez, Princesa. Sei que estou sendo inconveniente. Mas eu precisava... – ele começou a dizer.

— ...falar comigo. Eu entendo – Lyanna completou, a mão acariciando a cabeça de Lys, agora repousada sobre seu colo. Sua loba ainda parecia sonolenta. Era tão pouco matinal quanto a própria dona.

Me explicar, Princesa. Eu preciso me explicar – Sir Jason ressaltou, parecendo nervoso.

— Você não me deve satisfações, Sir – Lyanna tratou de esclarecer – Eu sinto muito por ter interrompido...eu não deveria ter visto nada...e eu não vou falar nada para ninguém, fique tranquilo. Sei bem as implicações que isso poderia trazer. Com a Fé. Politicamente. Para a imagem de vocês...enfim. Não falarei nada com ninguém. Nunca. Não se preocupe – Lyanna disse, com sinceridade.

— Eu...agradeço muito....Alteza – Sir Jason disse, constrangido – Mas não é verdade que eu não lhe devo satisfações. Estou aqui para lhe cortejar, como um candidato elegível a ser seu futuro marido. E eu ainda gostaria de ser escolhido, apesar de imaginar que agora Vossa Alteza não vá fazer isso – ele disse, parecendo lamentar de verdade.

— Gostaria mesmo? – Lyanna perguntou, duvidando um pouco, sem esconder sua surpresa – Porque?— ela quis saber. Até Lys virou a cabeça para o bonito cavaleiro diante de Lyanna, como se também quisesse saber.

— Tenho todas as condições para ser um marido perfeitamente normal, Princesa – Sir Jason tentou explicar, diante do olhar confuso de Lyanna – O que quero dizer, é que eu...eu também...

Gosta de mulheres?— Lyanna completou, ele acenou com a cabeça – Hum— ela conteve um sorriso – Isso significa que, casada com um homem com a sua aparência, um nobre cavaleiro famoso, futuro Senhor do Vale, eu teria o dobro de chances de ser traída? – Lyanna analisou, encarando Sir Jason com as sobrancelhas arqueadas. Segurando um sorriso.

— É uma maneira legítima de analisar a situação. Não posso negar – Sir Jason respondeu, com um meio sorriso. Lyanna soltou o seu, relaxando na poltrona. Sir Jason também parecia finalmente mais relaxado – Eu gosto do seu humor, Princesa.

— E eu gosto que alguém o aprecie, Sir. A maioria das pessoas sequer o acompanha – Lyanna respondeu.

— Acho que temos muitas coisas em comum, Alteza. E, sinceramente, acredito que eu poderia fazê-la feliz – Sir Jason falou, os olhos verdes fixados nos dela, cintilando uma convicção inabalável que fazia Lyanna engolir em seco.

Ele poderia? Ela se perguntava. Ele era muito bonito. Articulado. Inteligente. Honrado, até onde ela sabia. E, claro, também gostava de homens. Além de gostar de mulheres. E de ser muito desejado por elas. Não parece uma boa combinação

— Você não gosta de Arthur, então? Vocês dois...não tem...algo? – Lyanna perguntou, tentando entendê-lo melhor.

— Não – Sir Jason se apressou em dizer – Ontem foi a primeira vez que nos beijamos. Duvido que Arthur Tully já tenha beijado outro homem ou mulher antes, se quer minha opinião, mas percebi como ele me olhava, quando achava que ninguém estava observando. Já passei por isso. Apenas quis lhe fazer um favor...

Um favor? – Lyanna apertou os lábios, contendo um sorriso. Os gemidos que ela tinha escutado na biblioteca tinham sido qualquer coisa, menos um favor. Estavam mais para uma ode à luxúria.

— Eu apenas ofereci uma resposta à pergunta que ele se fazia. À pergunta que um dia eu me fiz. Como seria beijar um homem?— Sir Jason esclareceu, dando de ombros levemente. Finalmente se encostando mais relaxadamente na poltrona.

— Hum. Pelo que vi e ouvi, foi um grande e quente favor então – Lyanna sorriu e inevitavelmente corou um pouco – Então...como isso funciona? Você se sente atraído de igual forma por homens e mulheres? – ela teve a ousadia de perguntar, inclinando sua cabeça para um lado. Ela realmente estava curiosa.

— Geralmente por mulheres. Ocasionalmente por homens – ele disse, passando as mãos bonitas pelos cabelos – São só pessoas — ele complementou, com um longo suspiro, parecendo que procurava uma forma de explicar melhor – De algumas você gosta. De outras não. À algumas você é indiferente. Outras...prendem o seu olhar. Comigo isso pode acontecer com um homem ou com uma mulher – Sir Jason explicou, observando as reações dela, mas parecendo satisfeito que ela estivesse lhe escutando com atenção. Aliviado até.

— E Arthur Tully não prendeu o seu olhar, Sir? – Lyanna insistiu, porque pelo menos o corpo do garoto ruivo ela lembrava de estar bem preso contra o do cavaleiro do Vale.

— Posso ser sincero, Princesa? – Sir Jason perguntou, voltando a ficar na ponta da poltrona. Lyanna sentiu necessidade de inconscientemente afundar mais na sua. Ela ficava nervosa com a presença daquele homem. Mesmo depois de tê-lo visto beijando outro homem.

— Espero que já esteja sendo, Sir – Lyanna respondeu, com as sobrancelhas arqueadas. Ele acenou, passando os dedos nos cabelos negros, mais uma vez.

— Não tanto quanto você prende, Alteza – Sir Jason falou. Sem sorrisos. Sem olhares sensuais. Sem fazer a expressão charmosa que ela já estava habituada a ver nele – E é por isso que estou aqui. Não apenas para pedir segredo do que viu, o que eu peço, evidentemente. Mas também para pedir que não me descarte como opção em razão do que viu – ele pediu, cada palavra lhe parecendo surpreendentemente sincera. Lyanna mal acreditava no que ouvia.

— Sir Jason...eu confesso que não sei o que pensar – Lyanna respondeu, agarrando sua mãos uma na outra.

— Eu sei que todos especulam que Sam Tarly será seu escolhido. Sei que são próximos. Vejo que ele gosta de você, Alteza. Mas também vejo além. Também vejo seu medo de magoá-lo. Comigo, Vossa Alteza não teria que se preocupar. Estaríamos começando do mesmo ponto – Sir Jason argumentou com ela.

— Do mesmo ponto? – Lyanna repetiu, sem querer admitir que ele havia lido bem seus sentimentos por Sam.

— Sim. Admiração mútua. Intelectual e física também. Partiríamos daí. Sem grandes sentimentos ou expectativas românticas de nenhum dos dois lados. Sem medos de um partir o coração do outro, mas comprometidos a estabelecer uma vida de respeito. É mais do que a maioria das pessoas tem – Sir Jason expôs e Lyanna ouviu cada palavra com atenção, por mais que achasse que não devesse ouvir.

— Bom, se eu não o escolher, prometo-lhe que não será pelo que eu vi, Sir Jason. É o que posso lhe oferecer – Lyanna garantiu. Ela não estava mentindo. Ele provavelmente não seria seu escolhido. Mas não seria por causa do seu gosto...amplo. E ela se odiava por ainda usar provavelmente.

Ontem, após flagrar dois de seus supostos pretendentes aos beijos, ela voltou para o seu quarto convicta de que seria Sam seu escolhido. Mas o medo e o remorso por prender Sam à ela ainda estavam ali. A proposta de Sir Jason só a reforçou. Ela precisava falar com Sam. Ser sincera com ele...até onde fosse possível. E então ela decidiria.

— Isso me basta, Princesa. Não vou mais tomar seu tempo – Sir Jason falou, se pondo de pé, dando passos para perto de Lyanna. Lyanna se levantou e ofereceu sua mão mais uma vez. Lys ficou de pé ao seu lado, com os olhos atentos.

— Boa sorte hoje, Sir Jason – Lyanna desejou, não deixando de notar que ele ainda segurava sua mão.

— Obrigado. Por tudo. Independente de quem seja seu escolhido, ele será um homem de sorte – ele ainda falou e só então soltou sua mão.

Lyanna apenas assentiu, com um sorriso educado. E o observou sair, com a postura altiva de sempre. Alguns instantes depois Jane pulou para dentro do cômodo, ainda com a expressão preocupada, segurando um pergaminho selado nas mãos.

— Se quer perguntar algo, pergunte logo Jane – Lyanna falou, revirando os olhos – O que é isso? – Lyanna apontou para o papel.

— Sua Alteza viu Sir Jason saindo daqui – Jane falou, nervosa – E ele não parecia satisfeito. Achei que fosse bater no cavaleiro do Vale ou que Blackfire fosse atacar o homem, mas pela graça da Mãe ele apenas ficou parado no mesmo lugar, vendo-o se afastar. Mas então Sam chegou e ele ficou ainda mais irritado. E saiu. Talvez vá avisar ao Rei, não sei. Pelos Sete, Princesa. Suas Majestades irão me dispensar da minha função quando souberem disso...uma dama de companhia que não faz companhia... – Jane cobria o rosto com as mãos e andava de um lado para o outro.

— Não se preocupe com Rhaegar, Jane. Eu cuido disso – Lyanna falou, engolindo em seco, imaginando o que o irmão diria para ela assim que a visse.

— Mande Sam entrar então. E me ajude com os trajes para hoje – Lyanna falou. Jane praticamente pulou onde estava, levando uma das mãos ao peito dramaticamente.

— Não, Princesa, por favor. Outro pretendente aqui dentro com você, não. Suas Majestades me mandaram embora, tenho certeza – Jane gemeu.

— Garanto que não vão. Cuide Jane, vá logo. Ande— Lyanna a despachou com as mãos, pela segunda vez naquele manhã.

— Espero que saiba o que está fazendo, Alteza – Jane desejou antes de sair apressada.

Também espero Jane. Também espero.

—*-

“Oi Rhaegar. Me desculpe por não ter vindo antes. Me proibiram. Eu...eu estava sendo vigiada. Eles não querem que eu chegue perto de você.” Uma voz distante dizia, arrancando-o do torpor em que ele se encontrava.

“Você sabe que eu não sou de desobedecer. Você me provoca sobre isso sempre, aliás. Mas...quando ouvi que você estava...que você...eu tinha que vir. Dei meu jeito de vir. Você não é muito de me escutar, mas eu tinha que tentar, não é? Vim aqui apenas para lhe pedir que acorde. Por favor. Acorde.”

Talvez os seus ombros estivessem sendo balançados. Ou não. Ele não sentia muita coisa além de frio. Talvez estivesse apenas tremendo. Tremendo muito. Tanto, que até a voz que falava com ele também parecia trêmula.

“Não me deixe só. Você não pode me deixar só”. A voz implorava. Ele sentia dedos sendo cravados em sua pele. Nos seus braços. Sim. Ele realmente estava sentindo aquilo. Não era sonho. Ela estava ali de verdade.

Ele queria responder. Mas não sabia como. Sua boca não obedecia. Sua boca. Algo... formigava em sua boca. E era bom, doce. Macio. Naquele nada em que ele se encontrava, aquela sensação era tudo. Lhe dava vontade de persistir. De continuar ali.

Era real? Ou ele estava sonhando?

Aquele cheiro. Ele conhecia aquele perfume. O conhecia da vida toda.

Não poderia ser delírio, poderia?

Dedos quentes tocavam seu rosto, seus cabelos. E a sensação era tão boa. Ajudava de alguma forma com o frio. Fazia seu coração bater mais forte, fazia ele se sentir melhor.

Ele queria abrir os olhos. Queria muito. Mas suas pálpebras não o obedeciam.

“Passe para mim. O que quer que você tenha. Se você estiver indo, me deixe ir junto. Por favor. Por favor” A voz suplicava. Suas mãos e seu rosto colados nele.

Ele conhecia aquela voz. Da vida toda. Sua primeira lembrança...era dela. Do olhar atento e implicante dela sobre ele. Não era da sua mãe. Nem do seu pai. Nem do seu dragão. Ou do seu lobo. Era dela.

Algo molhado estava escorrendo por seu próprio rosto, respingando em seus lábios. Era salgado. Eram lágrimas.

Lágrimas dela. Os lábios dela. Tocando nos seus e ficando ali. Fazendo seu coração bater forte. Mais forte e mais rápido.

Ele queria gritar para ela se afastar. Ele queria afastar o rosto. Queria encolher seus lábios, porque ela queria ficar doente como ele estava.

E ele não podia fazer nada. Não podia impedi-la. Nem corresponder. Ele queria corresponder. Deuses, ele precisava corresponder.

“Por favor. Lute. Viva. Não me abandone. Não faça isso comigo. Eu...eu não suportaria. A Fortaleza toda está preocupada com você. Você está fazendo todas as pessoas chorarem, sabe? Mamãe e Papai não dormem à dias, pelo que escuto. Eu...não os tenho visto. Eles ficam aqui com você e eu fico trancada. Longe deles. Longe de você. Como se preservar minha vida fosse suficiente. Que vida eu poderia ter sua presença idiota por perto?”. Ela falou, fungando, separando os lábios dos dele, fazendo-o se sentir vazio.

“Vem vindo alguém. Tenho que ir. Por favor. Por favor. Não morra. Acorde. Só...acorde. Por mim. Fique bom, por mim”. A voz pediu, cobrindo seu rosto de beijos, o último deles, hesitante, trêmulo, sob seus lábios, de novo. Deixando a pele dele formigando de necessidade daqueles beijos. Nenhum barulho mais para ser ouvido além das batidas do seu próprio coração.

Ele lutaria. Viveria. Nunca a abandonaria. Ele faria tudo. Tudo para tê-la perto dele daquele jeito de novo. Mais uma vez. Todas as vezes. Por todo o tempo. Por toda a sua vida.

Rhaegar acordou esfregando o rosto. A respiração acelerada por causa do sonho. Da lembrança de cada palavra que Lyanna havia lhe dito, anos antes.

Ele não era muito de sonhar. O que com o histórico da sua família, dos sonhos de dragão que atormentaram gerações de Targaryens, era uma bênção. Quando deitava, ele geralmente apagava. Seu sono era pesado como a morte. E ele gostava disso. Poderia ser perigoso para a sua segurança pessoal, mas ele gostava disso.

Sua mente não precisava lembrá-lo da primeira vez que ele desejou Lyanna. Do dia em que descobriu que precisava dela como alguém precisa de ar para respirar e viver.

Sonhar com aquele dia servia para que? Para lhe dar esperanças? Para lhe lembrar do que ela sentia? De como ela foi até ele? Para lhe deixar mais desesperado por saber que amanhã eles teriam que anunciar ao Pequeno Conselho com que desejavam se casar e que desde aquele dia a única pessoa com quem ele queria fazer isso era com ela?

Ele tinha apenas uma última ideia para tentar. Uma última tentativa de quebrar as muralhas que Lyanna colocava ao redor dos sentimentos dela por ele. Mas ele não queria usá-la. Tinha potencial, sim. De dar muito certo ou muito errado, porque ela ficaria com ódio dele. Com muito ódio. E o que ela iria fazer com esse ódio...era arriscar demais.

O pior era que o conselho de Q’ira andava rondando sua cabeça. Seu corpo formigava de vontade de simplesmente ir até ela. Agora mesmo. Ir até ela e beijá-la. E fazê-la provar tudo o que ela o fez sentir anos atrás, naquela noite sombria em que ele por muito pouco não foi vencido por aquela maldita febre de inverno que matou tantas pessoas.

Quando deu por si, Rhaegar já estava de pé. Já estava arrancando sua roupa e se dirigindo à sua área de banho e mandando as servas que circulavam por ali simplesmente saírem porque ele não queria ajuda nenhuma.

A água ainda estava fria. Não havia sido esquentada porque ainda era cedo, mas ele realmente não se importava. Faria até bem mergulhar sua cabeça em uma tina de água fria.

Suas vestes para aquela manhã estavam separadas. Eram negras e verde oliva. As cores de Khaleeth. Ótimo. Realmente preciso disso hoje. Mais uma ligação com minha irmã. Ele bufou, irritado.

Rhaegar pegou as placas de metal escuro e reluzente e as encaixou em seus antebraços e em seu peito e em seus ombros. E mesmo com a cabeça em Lyanna, ele foi tomado por um profundo desgosto.

Ele queria estar em sua armadura, não naquilo. Queria lutar sobre seu cavalo. Não ficar vendo tudo como um mero espectador.

Queria Lyanna. E não ver outro, fosse Sir Jason ou Sam, não importava, coroando-a como Rainha do Amor e da Beleza.

Ela havia nascido para ser sua. Sua Rainha. Seu Amor. E quanto à sua beleza, ele queria ser o único a apreciá-la profundamente. Inteiramente. Intimamente. Ele. Não outro.

— Vamos, Black – Rhaegar chamou seu lobo, prendendo o cinto de couro da espada em seu quadril. Blackfire rapidamente atendeu o seu chamado. Sempre à postos.

Ele saiu apressado. Sem saber ao certo se teria coragem de fazer aquilo. De não dizer mais nada. De não tentar conversar. De apenas e tão somente beijá-la.

Ele já tinha tido oportunidades de fazer aquilo e recuara. Por respeito à ela. Por orgulho também, por que não. Porque ele queria que ela admitisse. Que ela quisesse tanto quanto ele. Que fosse uma necessidade tão forte quando a dele era, forte o suficiente para ser colocada à cima de qualquer problema que pudessem ter.

O pior era que o caminho até ela era relativamente curto. Uma linha reta que atravessava o andar deles na Fortaleza de Maegor. Não eram passos suficientes para que ele refletisse melhor. Definitivamente não eram. E ele sabia que estava sendo movido pelo desespero. Pela falta de tempo.

Rhaegar avistou os dois Imaculados que vigiavam a entrada dos aposentos da sua irmã e respirou fundo. Mas então ele viu que Lady Jane também estava para ali, perto dos dois guardas. Batendo o pé no chão nervosamente.

Rhaegar apressou seus passos. Jane o viu e o olhar assustado dela lhe deu a certeza de que havia alguma coisa acontecendo ali. Mas antes que ele terminasse de se aproximar para perguntar à ela, a porta que dava para os aposentos da sua irmã se abriu.

Rhaegar interrompeu seus passos com o que viu.

Com Sir Jason Arryn saindo dos aposentos de Lyanna. Cedo da manhã. Como se...como se tivesse passado a noite ali.

Não. Não é isso. Ela...ela não faria isso.

Rhaegar voltou a caminhar rápida e duramente, Black ultrapassando seus passos. Ambos, ele e seu lobo, ignorando o olhar nervoso que Lady Jane dava de um para o outro ou a tensão dos dois guardas.

O que, pelo Sete Infernos, você faz saindo do quarto da minha irmã? — Rhaegar perguntou, com a voz gelada de raiva, ficando tão perto do rosto de Sir Jason quanto era possível.

Uma parte aliviada do seu raciocínio observando que o Cavaleiro do Vale não parecia sonolento, nem com suas vestes amassadas. E outra que não queria sequer se forçar a considerar isso. A tentar entender o que estava acontecendo.

Ele simplesmente só queria pegar o homem pelo pescoço e empurrá-lo contra uma parede.

Alteza— Sir Jason o cumprimentou cautelosamente, dando um passo para trás, se afastando dele – Não é o que parece. Entrei à poucos minutos. Seus guardas podem lhe confirmar. Estava apenas conversando com a Princesa – Sir Jason explicou, olhando dele para os guardas e para Lady Jane.

— É verdade, Príncipe. Sir Jason entrou agora a pouco – Jane confirmou, parecendo mortificada, olhando para os próprios pés.

Para fazer o que?— Rhaegar perguntou, um tom mais baixo. Um nível mais irritado. Mesmo que seus piores temores não fossem verdade. Ele já sabia em seu íntimo que não eram, mas ainda assim. Aquilo era...inaceitável. Onde diabos Lyanna estava com a cabeça?

Blackfire rondava Sir Jason, com as presas à mostra. Os guardas se afastaram mais alguns passos.

E Sir Jason, ele precisava admitir, tinha coragem. O homem permanecia olhando apenas para ele, como se o lobo não estivesse perto demais dele.

— Apenas para dizer à Princesa porque ela deveria me escolher como marido – Sir Jason respondeu, empertigado, como se estivesse falando do tempo. Rhaegar via a tensão que ele tentava esconder. Via que estava custando cada pedaço de determinação do Cavaleiro do Vale não se afastar, não acompanhar os movimentos de Blackfire ao seu redor. Não ficar na defensiva.

— Tão cedo? No quarto dela? – Rhaegar perguntou – Deixe-me lhe dar um aviso, Sir. Não aborde minha irmã em seus aposentos privados novamente. Neste ou em qualquer outro horário, para falar de qualquer que seja o assunto— Rhaegar deixou o aviso e a ameaça no ar.

Blackfire arreganhou os dentes e se aproximou mais de Sir Jason antes de voltar para o lado de Rhaegar, resvalando seu rabo nas pernas do homem, fazendo-o prender a respiração, mais ainda assim, não o tirando do lugar onde estava.

— Como queira, Alteza – Sir Jason respondeu, alguns segundos depois, com uma leve mesura, saindo sem pressa pelo corredor.

Rhaegar olhou para trás para observá-lo partir, voltando a controlar sua respiração, quando Arthur Tully surgiu, na direção oposta à qual Sir Jason se afastava, com sua postura vacilante, olhando mais para o chão do que para qualquer outro lugar, principalmente ao cruzar com o outro homem.

Não é possível. Não. Ele não está vindo para cá. Rhaegar pensou, sem conseguir acreditar.

Todos os pretendentes de Lyanna resolveram amanhecer o dia em sua porta? Era isso? Pelos Sete Infernos!

Al-alteza. Milady— o rapaz ruivo, vestido em trajes com bordado de truta prateada no peito e escamas de peixes prateadas ao longo dos ombros magros, os cumprimentou, com a voz baixa, o rosto com sarnas corado o deixando ainda mais ruivo— Ah...Lady Jane...poderia, por favor, entregar isto à Princesa Lyanna...em meu nome? – Arthur Tully pediu, visivelmente envergonhado, entregando para Jane um pequeno pergaminho selado com a truta dos Tully de Correrio.

Jane olhou para Rhaegar com receio, mas recebeu o papel. Ela apenas acenou com a cabeça. Quando pensou em dizer algo educado ao Filho do Senhor das Terras Fluviais, sua voz morreu ao ver mais uma pessoa vindo pelo corredor.

Como se já não fosse terrível saber que em breve teria que se justificar por ter deixado sua Princesa sozinha com Sir Jason, agora Sam Tarly vinha até eles, obedecendo ao chamado de Lyanna.

Ao chamado que Jane havia levado enquanto sua Princesa conversava sozinha com Sir Jason. E isso tudo, com ela segurando uma carta de outro pretendente na mão, não poderia lhe parecer pior.

— Está acontecendo alguma coisa? – Sam perguntou, à ninguém especificamente – Meu Príncipe. Bom dia – ele disse, se curvando rapidamente diante de Rhaegar como sempre fazia, olhando de Rhaegar para Jane e de Jane para o garoto ruivo que parecia querer sumir dali.

Pelo visto está— Rhaegar respondeu, com um risinho amargo – Se tivessem chegado mais cedo, os três poderiam ter entrado juntos logo. Mas Sir Jason foi mais rápido. E conseguiu entrar sozinho – Rhaegar deu um tapinha no ombro de Sam – Vamos Black— ele chamou seu lobo e começou a sair.

— Meu Príncipe...Rhaegar...eu não estou entendendo...eu só estou aqui porque fui chamado... – Sam tentou se explicar, procurando o olhar do Príncipe, que apenas o ignorou e continuou se afastando.

Jane...?— Sam olhou para ela, sem entender a reação do Príncipe. Rhaegar nunca o havia ignorado. Nunca havia virado suas costas e se afastado dele daquela forma.

— Sam, vou anunciar sua chegada à Princesa. Aguarde um pouco...eu preciso entrar, tenho que ajudá-la a se vestir para a Arena – Jane o informou logo e então lembrou do garoto ruivo, ainda parado ali.

Ela se virou para ele, pronta para perguntar se ele queria mais alguma coisa, se havia mudado de ideia e agora desejava entregar a carta pessoalmente, mas Arthur Tully pareceu se dar conta de que tinha voltado a ser o centro das atenções e apenas se despediu inaudivelmente e também foi embora.

— Jane espere...que história é essa com Sir Jason? — Sam perguntou.

— Venha. Entre logo – Jane bufou, ambos passando pela larga porta de madeira que dava acesso aos aposentos de Lyanna naquele andar, entrando para a sua sala privada, as paredes cheia de estantes de livros. Poltronas e mesas espalhadas pelo recinto, algumas delas com mais livros sobre a sua superfície.

— Ele esteve aqui. Agora à pouco. Conversou com ela – Jane falou, a voz mal um sussurro – É o que posso dizer Sam e porque é para você, não que eu saiba mais, mas para outra pessoa eu simplesmente ficaria calada. Se quiser saber mais, pergunte à Sua Alteza – Jane completou, apressada, o interrompendo, apontando para uma das poltronas e adentrando para o quarto íntimo da Princesa.

Sam não sentou. Ele ainda estava organizando os acontecimentos. E olhando ao redor. Absorvendo o lugar. Todos aqueles anos vivendo na Fortaleza Vermelha e ele nunca tinha entrado ali. A sala privada de Lyanna mais parecia uma biblioteca real em menor escala. O que não o surpreendia, claro.

Ele mexeu em alguns pergaminhos, alguns exemplares de livros em línguas que ele nem reconhecia, mas que sabia que ela dominava desde muito nova. A inteligência de Lyanna era algo que sempre o deixara impressionado. A beleza também, ele não podia negar, mas a inteligência dela muito mais. Ela era impressionante. E ele ficou um bom tempo admirando tudo aquilo, as anotações dela que haviam por ali, aparentemente em Alto Valiriano. A letra fina e elegante em pedaços e mais pedaços de pergaminho.

Quer algum emprestado?— ele ouviu a voz dela vindo pelas suas costas. Ele se virou depressa, pronto para pedir desculpas por estar bisbilhotando os livros dela, mas quando à viu, ele esqueceu de como se fazia para articular as palavras.

Ela estava parada à alguns passos dele, como uma aparição milagrosa. Esplendorosa. Incandescente. Linda. Os cabelos negros presos no alto da sua cabeça, ornados por aquela coroa de rubis em chamas que seu irmão havia lhe dado no dia do seu nome.

A coroa era de um vermelho intenso. Eram como se chamas vermelhas estivessem surgindo dos cabelos negros dela. A representação perfeita de sua casa ainda que seus trajes naquele dia fossem absolutamente cor de cobre. Cobre como as escamas de Stormfire, o dragão de Rhaegar.

Lyanna parecia vestida em cobre líquido. Cobre que se agarrava aos seus braços e que vinha da sua cintura até o seu decote, como se chamas lambessem e moldassem seu corpo.

— Estou tão chamativa assim? – Lyanna perguntou, abrindo um pouco os braços ao redor de si.

— Amm..sim. Não. Vossa Alteza está...perfeita. Muito bonita. É o que eu quis dizer. Chamativa seria uma forma de dizer, sim. Mas de um jeito bom. Bonita— Sam conseguiu falar, limpando a garganta mais vezes do que gostaria – Você está muito bonita. É isso. Desculpe.

— Esse bendita coroa vai me deixar com torcicolo no final do dia. Tenho certeza que as duas coroas dos meus pais somadas, não pesam tanto quanto isto – ela disse, rolando os olhos para cima sem mover a cabeça, sorrindo um pouco para Sam.

— Imagino que sim. É uma peça única. Seu irmão sabia bem o que fazia quando a deu a você Alteza – Sam concordou, corando um pouco – Mas falando em Rhaegar. Eu o encontrei no corredor. Ele parecia irritado, para dizer o mínimo. Sir Jason, Arthur Tully? – Sam deixou a pergunta no ar, dando espaço para que ela falasse, se fosse da sua vontade.

— Jane me colocou à par da reação do meu irmão. Sir Jason veio até aqui, sim. O recebi sozinha, sim. Era um assunto pessoal. Nada para se preocupar. Você ou Rhaegar ou qualquer pessoa. E eu não estava sozinha de verdade. Lys estava comigo. Não corri nenhum perigo – Lyanna explicou, dando de ombros.

— Não perguntei por achar que Sir Jason à forçaria a qualquer coisa. Ele não me parece esse tipo de homem que faria algo contra a vontade de uma mulher – Sam esclareceu.

— E como eu não tenho nenhuma vontade relacionada à ele... – Lyanna deixou no ar, se aproximando alguns passos de Sam.

— Hum. Certo. Isso significa que posso concluir que você não vai escolhê-lo amanhã? – Sam não se conteve, olhando nos olhos de Lyanna.

— Pouco provável – Lyanna afirmou, querendo acenar a cabeça, mas se contendo. Levando às mãos para a coroa, verificando se ela estava bem presa à sua cabeça – Para ser sincera, estou entre escolher você e não escolher ninguém – Lyanna completou – Por isso eu quis que viesse até mim hoje, Sam. Eu...antes de tomar minha decisão...eu preciso lhe confessar algo – ela agarrou as duas mãos uma na outra, como sempre fazia quando ficava nervosa.

Sam se aproximou dela e separou suas mãos, às segurando nas suas. Sua proximidade não deixou Lyanna nervosa. Sam era seguro. Sam era respeito. Era amizade. Era paz. Não havia perigo ali entre eles dois. Não havia...irritação. Não havia necessidade de controle. Não havia necessidade de fugir.

— Somos amigos, Princesa. Posso ser mais próximo de Rhaegar, mas você pode confiar em mim. Eu entenderei. Não importa o que seja – ele garantiu. E ela acreditou. De todo o seu coração.

— Eu...eu tenho sentimentos por outra pessoa Sam – Lyanna falou de uma vez. Prendendo a respiração. Vendo o choque nos olhos de Sam. E a aceitação que logo o substituiu. O breve aceno. O aperto compreensivo em suas mãos.

A reação silenciosa dele a deixou surpresa. Aliviada. Ela ainda estava esperando por suas perguntas, por suas palavras, dando tempo à ele para dimensionar o que ela estava confessando. Mas algo já lhe dizia que seus temores não eram tão necessários.

— E porque você não o escolhe? Porque está entre eu e ninguém, como você disse? – ele perguntou à ela. Ela via um esforço racional em suas palavras. Mas não via mágoa.

— Não posso escolhê-lo. Não é possível, entende? Não é algo que eu possa fazer – Lyanna disse simplesmente.

— Porque? Ele não é nobre? O Rei adora você. Todos sabem disso. Sua Majestade aceitaria...eu acho— Sam especulou. Ainda sem soltar suas mãos, mas deixando escapar um longo suspiro que fez o coração de Lyanna se encher de culpa.

— Não é isso – ela falou. Como dizer e não dizer? Ela se perguntava.

Ele já é casado? — Sam perguntou, mas pela expressão horrorizada de Lyanna, ele descartou a ideia – É um Imaculado? Alguém que não poderia lhe dar filhos?— ele insistiu, ela negou – Desculpe, minha mente está dando voltas aqui.

— Não. Nada disso...mas é tão inacessível quanto – Lyanna afirmou – Sam, na verdade o motivo não importa. Eu só preciso que você saiba que eu não vou escolher essa pessoa. Não quero escolher. Não posso escolher. E não vou. Estou lhe contando isso porque...porque quero ser honesta com você. Quero que saiba que eu não retribuo os sentimentos que eu não sei bem se você realmente tem por mim. As vezes acho que você gosta de mim. As vezes acho que é só admiração e amizade. E é sobre isso que eu queria conversar com você. Jane acha que você gosta de verdade de mim...e se for assim...eu não quero me sentir estragando sua vida. Prendendo você à alguém que gosta de outro. Eu...

— ...entendi. Calma – Sam pediu, soltando as mãos dela, coçando seus cabelos – Calma, Lya. Eu...é muito para pensar...– ele sentou em uma das poltronas e esfregou as mãos nas coxas. Repetidas vezes. Lyanna observou apreensiva.

— Você tem certeza que não existe nenhuma possibilidade de ficar com quem...com essa pessoa que você gosta?— Sam perguntou, voltando a olhar para ela.

Nenhuma— ela afirmou, sentindo os olhos arderem de vontade de chorar ao confirmar aquilo – Como você se sente sabendo disso? Quero dizer...sabendo que pode ter que se casar comigo... E que talvez eu sempre...eu nunca deixe de gostar...- Lyanna tentou explicar, perguntar, sentindo vergonha de si mesma, dos seus sentimentos tolos e teimosos.

— Não sei – Sam respondeu, exalando sinceridade – Não me deixa feliz, claro. Mas não dói sabe? Ouvir isso, não está doendo, em lugar nenhum. Eu não sei se é porque eu realmente nunca achei, nunca sonhei em ser aquele que ia ser seu marido. Eu nunca me permiti nutrir muitos sentimentos por você além de amizade e admiração – Sam fez uma pausa. Ficou de pé novamente. Parecia procurar palavras.

— Eu sempre olhei para você. Para a sua inteligência, para a sua beleza também, não posso negar isso. Todos olham em algum momento. Mas eu sempre me mantive com os pés no chão quanto a qualquer outra coisa, até por respeito ao Rei e à Rhaegar também. Mas desde que passei a ser um candidato real à ser seu futuro marido, desde que nos beijamos, eu não posso negar que algo começou a mudar – Sam parecia falar com ela mas também consigo mesmo, se analisando, com um olhar introspectivo, o tom de voz tranquilo e baixo.

— Acho que eu me apaixonaria por você muito rápido. Muito, muito rápido. Se realmente nos casarmos. Não sei como seria se eu nunca fosse correspondido. Mas essa ideia, isso sim me dói. Já agora. Mesmo que seja só uma hipótese – ele continuou, soltando um suspiro e dando um sorriso triste para ela – Não sei se devo pensar que serei capaz de fazer você esquecer essa pessoa, da qual não sei nada, quando eu não tenho nada de especial. Quando eu não sei porque ela é especial para você...É tudo que consigo pensar agora – Sam ficou em silêncio, olhando para ela – Não sei se era isso que você buscava ouvir de mim – ele completou, parecendo triste e preocupado.

— Sam. Por favor. Não fale assim. Claro que você tem. Claro que você é alguém especial – Lyanna insistiu, se sentido terrivelmente mal por ele pensar daquela forma de si mesmo – Você é uma das pessoas mais corretas e leais que eu conheço e eu sou filha do meu pai...Você é um bom filho, um bom irmão, um bom amigo para todos nós. Você tem uma humildade e uma bondade inata à todas as suas ações, Sam. Como alguém assim não seria especial? – Lyanna falou, de todo o seu coração, esperando que ele acreditasse nela. Que visse o que era.

— Obrigado. Por essas palavras. Significam muito para mim – Sam respondeu, parecendo extremamente envergonhado, lhe fazendo uma mesura – Eu posso lhe fazer uma pergunta?

— Claro – Lyanna respondeu.

— Porque você quis me beijar? Ou melhor dizendo....porque me deixou beijá-la...enfim – Sam perguntou, parecendo confuso.

Lyanna fechou os olhos. E só não abaixou a cabeça de pura vergonha, por causa da coroa sobre ela.

— Eu queria me testar. Ver o que eu iria sentir, eu acho – Lyanna foi sincera – Me desculpe se parece muito egoísta. Eu...eu não queria brincar com você, Sam. Com seus sentimentos. Me perdoe se isso...se eu te magoei com isso de alguma forma – ela pediu.

Ele negou com a cabeça, demonstrando que não estava perguntando por aquela razão.

— Não deve ter sido a mesma coisa de beijá-lo. O homem que você ama – Sam falou, parecendo ainda mais triste.

— Eu nunca o beijei. É algo...que guardei comigo. Nunca vai acontecer – Lyanna esclareceu, mas assim que falou isso se deu conta de que talvez...de que aquilo não era bem verdade.

Se pudesse confiar um pouco nas memórias turvas que guardada, ela já o havia beijado sim. Mas não como beijara Sam. Não um beijo de verdade. Mas não importava. Fazia muito tempo. E ela sequer lembrava direito daquela noite. Tudo era um borrão de emoções. De medo. De desespero. Ela lembrava muito mais de voltar correndo. De se deitar ardendo em febre. De sentir seu coração batendo mais forte do que ela era capaz de suportar. Tão forte que ela havia ficado tonta, havia vomitado e ficado fraca à ponto de não conseguir lembrar direito o que havia feito ou dito por mais que se esforçasse. E no dia seguinte, ela simplesmente achou que talvez fosse melhor assim. Que ela deveria agir como se nunca tivesse ido até Rhaegar.

— Hum. Certo. E você quer ouvir o que de mim? – ele perguntou, soltando outro suspiro profundo – Para lhe ajudar a decidir. Se serei eu...ou ninguém – ele completou.

— Quero que me diga se aceitaria minha escolha por você, mesmo sabendo disso. Depois que eu o escolher, sei que não vai recusar. E não quero colocar você nessa situação. Quero saber o que você pensa antes de eu tomar essa decisão. Se for possível, claro – Lyanna pediu, voltando a agarrar suas mãos de nervosismo.

Sam ficou em silêncio por um momento, a encarando profundamente. E por fim lhe deu um pequeno sorriso.

— Eu aceitaria de bom grado. Mesmo sabendo disso. E tentaria fazer com que você fosse feliz, de alguma forma. Eu... eu tentaria não esperar muito de você. Eu só não posso prometer que não vou me apaixonar por você, Lyanna. Ou que não vou sofrer. Mas eu prometo que não irei lhe tratar como se fosse sua culpa – Sam disse, os olhos castanhos emotivos, verdadeiros.

— Obrigada, Sam. Sei que está sendo sincero. Você sempre é – Lyanna falou, sentindo a garganta fechar – Era o que eu precisava saber. Para tomar minha decisão.

— E agora que sabe...significa que vou ser seu escolhido amanhã? – Sam teve coragem de perguntar, olhando com expectativa para ela. Ele não era ansioso, mas não podia negar que estava nervoso com aquilo tudo. Com a possibilidade de ser a pessoa que cuidaria dela, daquela mulher, pelo resto da vida.

— Não sei. Ainda vou usar o resto do dia para pensar – Lyanna falou. Era a verdade. Ela ainda não sabia. Ainda precisava pensar – Se eu não o escolher, você vai me odiar? – ela perguntou, baixinho, mordendo os lábios e pouco se importando se tiraria as cores fortes que haviam passado neles.

— Não. Jamais— Sam respondeu, com firmeza – Vou entender que tem seus motivos.

Lyanna respirou aliviada. E os dois sorriram um para o outro. Ela então estendeu o próprio braço na direção de Sam.

Então vamos. Me acompanhe até o pátio – ela pediu, e ele imediatamente apoiou o braço dela no seu – Para chegarmos ao dia de amanhã e às minhas decisões precisamos primeiro descer, não é? E você tem um torneio para ganhar...– ela disse para Sam, enquanto saíam dos seus aposentos.

~*~

O camarote estava em polvorosa. Apostas e conversas paralelas entre os nobres, principalmente sobre as qualidades dos cavaleiros que disputariam a justa final e sobre se o vencedor teria vantagem quanto à escolha da Princesa para marido, corriam soltas, enquanto o Rei e a Rainha e seus filhos ainda não se faziam presentes.

A arena só caiu em profundo silêncio quando o barulho das asas foi ouvido. Quando o céu foi tomado por três dragões projetando suas sombras sobre a multidão reunida ali.

Todos olhavam para cima sem nem precisar proteger a vista da claridade. Não havia sol. O dia havia amanhecido nublado e permanecera assim. Com um céu repleto de nuvens cinzentas. E agora, de dragões.

Os dois dragões menores desceram em círculos pela arena, voando vertiginosamente perto um do outro, as escamas oliva de um refletindo o brilho de cobre do outro, como se dançassem uma dança mortal feita apenas para eles, como se o fato de seus donos estarem de pé sobre eles, não importasse nada. Como se fosse apenas um mero detalhe.

Eles pousaram com um baque que apenas deixou a arena mais silenciosa, atenta para cada detalhe dos dois jovens sobre os dragões.

Para o Príncipe altivo e elegante em verde e negro, com os curtos cabelos prateados adornados por um fino aro cravejado de rubis, ajudando sua irmã a descer de sua dragão.

Para a bonita Princesa trajada luxuosamente em vestes que tinham cor e brilho de cobre escovado, que a pareciam fazer parte das escamas do Dragão do irmão. A esplêndida coroa que carregava na cabeça causando tanta admiração quanto sua própria beleza.

Um coro repetido de Jovem Dragão logo se fez ouvir pela arena assim que os dois se afastaram o suficiente de seus dragões, para que estes levantassem vôo novamente.

Drogon continuou circulando no alto, rugindo para os dois dragões menores, estremecendo a estrutura da arena. Ninguém vinha sobre ele. Nem o Rei, nem a Rainha. A sombra alada da Mãe dos Dragões era grande demais para pousar na arena sem expor as pessoas à algum risco.

O casal real surgiu no centro da arena, juntando-se aos filhos, para alegria do público, que balançava com afinco pequenas bandeiras da casa Targaryen, transformando as arquibancadas em um mar de negro e vermelho.

Nunca vi algo assim. Mal posso esperar para contar sobre isso na minha cidade — Q'ira comentou com Jon Tarly, admirando tudo do camarote.

— Tem sido um Torneio espetacular. Você terá muitas boas histórias para contar, tenho certeza – Jon concordou, olhando para Rhaegar e Lyanna, com um leve balançar de cabeça.

Os dois não estão se olhando. Ele havia visto a Princesa chegando ao pátio acompanhada de Sam. Mas Rhaegar já havia levantado vôo em Stormfire.

— A Princesa está deslumbrante – Diana Lannister comentou, participando da conversa, as mãos cruzadas sobre o colo, vestida em suas habituais e bonitas vestes douradas.

— Do que adianta a arrumarem para atrair todos os olhares se ela não se dá ao trabalho de olhar para ninguém? – Melissa Redwyne começou a soltar seu veneno, com desprezo.

— Acho que ela só se interessará por um marido se escreverem livros sobre isso – Melissa falou, soltando um risinho debochado, enrolando seus cachos vermelhos nos dedos, os olhos verdes brilhando de diversão.

— Não fale assim, Melissa – Sarah ousou dizer, para o choque da garota ruiva, que a fuzilou com os olhos.

— O que é agora, Sarah? Estou mentindo? Todos sabem que nossa querida Princesa só se interessa por livros – Melissa falou, dando de ombros, gostando do silêncio que se fez entre o grupo. Todos olhando para ela. De olhos arregalados. Ela gostava daquilo. Daquele efeito. Eles não tinham como rebater a verdade do que ela dizia.

— Ah...Hum...Tem mais alguém que parece não aprovar seu comentário, Lady Redwyne – Jon pigarrou, apontando para trás de Melissa. Apreciando a mudança na expressão dela. As linhas indo da pura arrogância à tensão.

Melissa olhou por cima do ombro. E então se virou de uma vez, dando um pulo. E em seguida deu vários passos até esbarrar em Jon, segurando nos braços dele, tentando colocar distância entre ela e Blackfire, que a encarava com os olhos vermelhos muito pouco amigáveis.

— Me solte. Está amassando minhas roupas, Melissa. Tenho que permanecer apresentável. Sou irmão do futuro campeão deste Torneio...– Jon se desvencilhou das mãos dela – Não seja covarde. Encare o lobo. Ele não morde... Pouco— Jon deu um pequeno empurrão nela, sem força, mal a tirando do lugar. Mas ela se agarrou à ele de novo, com raiva e medo.

Q'ira gargalhou. Diana Lannister e Ariana Arryn assistiam de braços dados, entre a preocupação e a diversão também. Melissa olhou para todos com uma expressão feia, erguendo o queixo.

— Mande esse lobo se afastar de mim – Melissa falou para Jon, vendo Blackfire se aproximar mais, com as narinas dilatadas, como se estivesse em busca de algo no cheiro dela.

Mandar? Só os donos mandam neles...não posso fazer nada Melissa. Tente pedir desculpas pela grosseria. Quem sabe assim ele pare de olhar para você como se estivesse diante de um prato de comida ruim – Jon falou, soltando as mãos dela dos seus braços mais uma vez – Se agarre em outro Milady, minha benevolência já se esgotou.

Que outro? Acha que estou pedindo sua ajuda porque quero?— Melissa espumou de raiva, a cena começando a chamar a atenção de todo o camarote.

Jon olhou ao redor. Sam e Sir Jason não estavam ali, iriam duelar em breve. Dickon também não estava, porque o Rei estava saindo do centro da arena e ele com certeza estava na escolta.

— Se agarre em Arthur, ali – Jon se desvencilhou dela, virando o corpo de Melissa pelos ombros, na direção de Arthur Tully, que observava tudo calado, de longe.

Se eu andar tanto ele vai me atacar seu estúpido! Mas é isso que você quer, não é? – Melissa falou, tremendo, encarando os olhos vermelhos de Blackfire.

Jon sorriu. Mesmo mandando ela se afastar, ela estava agarrada nele de novo. Na frente de todo mundo. Era humilhação suficiente para a arrogância dela, ele presumiu. Agarrada e suplicando ajuda à um Tarly.

Black. Ela não vai fazer mal à Princesa – Jon começou a falar, sem ter muita certeza que adiantaria muita coisa. O lobo continuava se aproximando lentamente deles dois. Outros nobres do camarote já estavam de pé, olhando com medo para a cena, alguém definitivamente pedindo à um guarda Imaculado para fazer alguma coisa.

Ela só é invejosa, Black — Jon falou e imediatamente sentiu um beliscão em seus braços, mas Melissa ainda tremia – E eu acho que ela tem o gosto ruim. Você não ia apreciar morde-la. Tenho certeza que ela amarga na boca. Você iria passar mal. Não vale à pena Black. Confie em mim — ele continuou, agora levando uma cotovelada nas costelas.

Blackfire continuou avançando entre a fileira das cadeiras vazias, com todos em pé, olhando para ele. Os Imaculados no camarote continuaram observando em seus postos, sem interferir.

Pare de me bater, sua louca. Estou tentando convencer o lobo a não morder você— Jon sussurrou pra ela, entre os dentes, irritado com a pontada de dor em suas costelas.

Blackfire! – a voz de Rhaegar estrondou no camarote real. O Príncipe e sua irmã, acompanhado de Suas Majestades, haviam finalmente subido.

Todos os nobres da corte reclinaram suas cabeças pela presença deles, mas seus olhos estavam voltados para o lobo negro acuando dois nobres das Terras da Campina, o que com certeza seria muito assunto para fofocas mais tarde.

Rhaegar se apressou rumo à borda do camarote, onde Jon e Melissa estavam, mas antes de os alcançar seu lobo se afastou e veio ao seu encontro. Rhaegar passou a mão em seu pelo negro, encarando Black nos olhos.

— Vamos. Se comporte, fique quieto do meu lado – Rhaegar sussurrou nas orelhas do lobo, coçando-as e acariciando seu focinho.

Ele olhou para trás, para Lyanna vindo acompanhada de Lys e precisou desviar sua atenção para a frente mais uma vez. Estava difícil olhar para ela naquele dia, tão bonita como ela estava, usando a coroa que ele havia mandado fazer para ela.

— Porque meu lobo estava irritado? E porque vocês dois estão agarrados desse jeito? – Rhaegar perguntou à Jon e Melissa, antes de ocupar seu lugar.

— Não estou agarrada à ninguém – rebateu Melissa, lembrando de soltar Jon, com repugnância.

— Imagina. Devo estar todo descosturado! – disse Jon, repuxando suas vestes – Ela fez um comentário sobre a Princesa e seu lobo aparentemente não gostou. Foi isso. Eu estava tentando convencê-lo de que ele provavelmente iria adoecer e passar mal se mordesse essa hera venenosa – Jon continuou contando a Rhaegar. Q'ira riu de novo. Alto e abertamente. As bochechas de Melissa ficaram de um forte tom de vermelho.

— Eu...não tive intenção. Só apontei...apontei uma característica da nossa Princesa...apenas...apenas isso...juro Alteza – Melissa gaguejou, tentando se explicar para Rhaegar.

Claro...dizendo que não adiantava nada a Princesa estar tão bonita, já que ela só se interessaria por homens se escrevessem livros sobre isso — Q'ira falou, balançando a cabeça como se estivesse decepcionada com a tentativa de Melissa de se esquivar do que havia dito.

Eis uma oportunidade de colocar meu último plano em ação. Rhaegar ainda pensou. Mas tudo que conseguiu fazer foi endurecer seu maxilar. Ele não gostava que debochassem de Lyanna. Ninguém. De jeito nenhum. Ainda que ele mesmo estivesse com raiva dela.

— Ela é Lyanna Targaryen, Princesa dos Sete Reinos. Minha irmã não precisa se dar ao trabalho de olhar para ninguém, se não quiser – Rhaegar falou, não olhando diretamente para Melissa, que parecia mortificada, mas sim para a própria Lyanna, que passava por eles, cumprimentando o grupo educadamente e tomando lugar junto à sua cadeira, como se não estivessem falando dela.

Ela ouviu. À mim e à Q’ira. Claro que ouviu. E por mais que esteja com o rosto duro, concentrada no centro da arena ainda sem ninguém, ela ainda está ouvindo. Rhaegar respirou fundo antes de continuar, sabendo que precisava levar seu plano à frente. Ele não tinha outra alternativa. Tudo estava em jogo. E ele nunca tinha sido um covarde em apostar quando lembrava que o prêmio final era ela.

— Blackfire não a machucou? Certo, Lady Melissa? – Rhaegar perguntou, com seu melhor sorriso, se aproximando de Melissa e tocando em seu rosto – Desculpe se ele assustou você – ele obrigou sua voz a dizer, quando na verdade queria gritar faça de novo e eu não vou impedi-lo, sua invejosa.

— Eu...eu estou bem. Fiquei assustada, mas Sua Alteza chegou bem à tempo. Eu...eu não deveria ter dito o que disse. Me perdoe, meu Príncipe. Não foi por mal – Melissa praticamente arquejava a cada palavra, os olhos encarando os dele, brilhando de emoção pela atenção que recebia do Príncipe.

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Rhaegar sorriu com falsa compreensão. Acenou para ela e tirou a mão do rosto de Melissa, pegando sua mão e deixando um beijo nela.

— Vamos nos acomodar, a justa já vai começar – Rhaegar falou por fim, conduzindo Melissa até a sua cadeira, uma fileira atrás da sua e voltando-se para ocupar o lugar ao lado de Lyanna.

Ela continuava como estava. Mas ele a conhecia bem. Ele podia ver a irritação acumulada em torno dos lábios e dos olhos que ela tentava a todo custo não franzir. Se segure com o seu melhor irmã, porque vem mais. O dia está só começando. E eu não vou ser o único enciumado de nós dois.

—*-

Sam estava pronto. E menos nervoso do que imaginava que iria estar. Pelo menos com a luta em si. Ele não fazia real questão de ganhar. Não era algo que ele desejasse com todas as suas forças, ainda que ele fosse dar o seu melhor, claro.

Paramentado com uma nova armadura que seu pai lhe encomendara em segredo e a entregara apenas agora, de aço mais escurecido, quase um tom de marrom, com um pequeno arqueiro vermelho dos Tarly no peito, Sam baixou a viseira para proteger seu rosto e trotou para o centro da arena, para o tradicional momento em que os cavaleiros cumprimentavam os monarcas.

Vindo do outro lado, ele viu o cavaleiro do Vale, em sua armadura prateada que arrancava suspiros de admiração de homens e mulheres, de tão bonita que era, com sua capa azul balançando ao vento elegantemente. Sam não quisera uma. Capas não ajudavam. Ele estava ali para lutar da melhor forma, não para se exibir da melhor forma.

Não que ele não respeitasse Sir Jason. O herdeiro do Vale era um cavaleiro juramentado. Um homem habilidoso e admirado por muitos. E também pomposo. Mas aquele era o jeito dele. E de tantos outros herdeiros bem nascidos. Só não era o jeito de Sam.

Sir Jason também era ousado. Um pouco demais para o seu gosto. Afinal Sam jamais teria ido até o quarto da Princesa tão cedo, sem ter sido convidado, requerendo uma conversa à sós com ela, qualquer que fosse o assunto. Ele entendia perfeitamente porque Rhaegar parecia tão chateado.

Se ele tivesse uma irmã e cedo do dia encontrasse três pretendentes rondando seu quarto ele também ficaria aborrecido, não ficaria? Mesmo com o melhor amigo. Mesmo o conhecendo tão bem. Sim. Acho que ficaria. Não posso tirar a razão de Rhaegar. Não temos estado bem e Lyanna por certo tem algo a ver com isso, mas ele tem direito de cuidar da irmã, de sentir algum ciúme dela. É sua única irmã. Ele provavelmente estaria do mesmo jeito.

Sam tirou o elmo da cabeça, aproveitando para balançá-la um pouco, não apenas para aproveitar o vento que corria forte, mas também para espantar aquilo da sua cabeça. Ele pensaria melhor depois. Ali não era o momento.

Ele e Sir Jason estavam lado à lado, montados em seus animais, bem em frete ao camarote real, para cumprimentar seus monarcas, ambos segurando seus elmos com uma mão e inclinando suas frontes. Sam não pediu à Lyanna seu lenço novamente. E ele não sabia bem porque. Talvez por ela ter lhe confessado que tinha sentimentos por outra pessoa. De alguma forma aquele gesto, aquele tipo de pedido, não lhe parecia mais certo.

Ao levantar sua fronte ele procurou os olhos de Rhaegar e ficou aliviado em ver que o Príncipe olhava para ele como antes. Com cumplicidade. Como seu amigo. Ele viu os lábios do Príncipe formando as palavras boa sorte e aquilo só não aliviou mais seu coração porque ele também viu a tristeza que ele sentia. Ele conhecia Rhaegar bem demais. Sabia que ele daria tudo para estar ali competindo. Para que fossem eles dois lutando. Disputando. Como já haviam feito tantas vezes ao longo dos anos. Rindo e ficando preocupados e provocando um ao outro a cada lança disputada.

Sam olhou brevemente para Lyanna antes de colocar o elmo. Mas ela não olhava para o centro da arena. Não olhava nem para ele. Nem para Sir Jason. Seu rosto estava levemente virado para o do irmão. Eles não estavam conversando entre si, nem nada. Rhaegar continuava olhando para frente, parecendo perdido na observação da arquibancada. Sam poderia jurar que ele se perguntava quando haveria de novo algo como aquele torneio para que ele pudesse finalmente estar lá embaixo.

E Lyanna apenas o observava, quase que furtivamente, como se não quisesse ser flagrada. Sam sentiu que ela sabia o que irmão estava pensando. Tanto quanto ele. Eles o conheciam. Sam via a compreensão nos olhos dela. A tristeza. A angústia.

Angústia. Sam ficou com a palavra ecoando em sua cabeça, enquanto enfiava o elmo no rosto. Ele deu uma outra olhada para eles antes de incitar sua montaria para o seu lado da arena, para a ponta de onde cavalgaria à toda velocidade com sua lança até encontrar com a de Sir Jason, quantas vezes fossem necessárias até que apenas um dos dois restassem sobre seu cavalo.

Rhaegar agora olhava para ela. Os dois trocaram breves palavras que ele não tinha mais como discernir. Sam recebia sua lança do escudeiro e ainda olhava. Ele não sabia porque, mas algo lhe impedia de desviar sua atenção.

Angústia. Os dois. Os olhares dos dois. Sam posicionou a lança comprida em sua mão, esperando sinal, movimentando o escudo no outro braço. É pela justa. É por ele não poder estar aqui. Ele pensava, tentando se concentrar melhor, tentando olhar para Sir Jason do outro lado e não para o camarote.

Porque ele não está olhando para cá então? Para onde desejaria estar?

Seu nome e de sua casa estavam sendo anunciados em alto volume, palmas e gritos preenchiam o ar. O de Sir Jason também estava sendo anunciado. Chega Sam. Agora é hora de se concentrar.

Sam pressionou levemente seu cavalo, que marchava sem sair do lugar. Ele ergueu a lança no ângulo perfeito para ele. Com a força que sabia que deveria colocar, na inclinação perfeita. Se forçando a olhar apenas para a frente. Apenas para a frente. Apenas para o oponente. Apenas para o que tinha que fazer. Pela honra de sua casa.

E ele fez, partindo em alta velocidade, ele e sua montaria como um só. A lança de madeira como uma extensão de seu braço. Avançando. Avançando. Galopando em um borrão até o impacto se fazer ouvir. Seguido do silêncio. E dos gritos.

E ele conseguiu. Conseguiu atingir a primeira lança contra Sir Jason. Não foi forte o suficiente para derrubá-lo, pois o cavaleiro do Vale havia conseguido se defender com seu escudo, empurrando-a para além do ponto onde uma queda seria inevitável caso fosse atingindo pela ponta da lança.

Sam diminuiu a velocidade do galope, arquejando pelo esforço, soltando a lança quebrada. Galopando para seu ponto de partida mais uma vez. Olhando para o camarote real de novo.

A maioria batia palmas entusiasmadas, Sam observou de passagem. Seus irmãos estavam de pé. Jon, Dickon e o pequeno Aemon. Seu pai deveria estar de olhos fechados, respirando aliviado. Sua mãe de olhos bem abertos, se ele bem a conhecia. Dura e firme. Inabalável, como ela sempre era.

Tinham mais algumas pessoas aplaudindo de pé. Lady Sarah, que ele torcia para um dia ser sua cunhada, para a felicidade de Dickon. E Lady Diana Lannister. Sam sentiu seu peito se aquecer. Tudo aquilo era uma visão reconfortante. Ele estaria mais feliz se Rhaegar estivesse em pé, entre Jon e Dickon, com um sorriso aberto no rosto, como tantas vezes ele já havia feito nos treinos quando Sam disputava contra outros homens.

Pare com isso, Samwell Tarly. Rhaegar continua sendo seu amigo. Ele só está triste. Sam repreendeu a si mesmo, recebendo a próxima lança e girando-a um pouco no próprio pulso, até que ela estivesse segura de um jeito que intuitivamente o agradasse.

E logo ele estava avançando contra Sir Jason novamente. Mas dessa vez ele precisou usar seu escudo. Sua lança não o atingiu onde ele havia tentado, estava baixa demais e Sir Jason havia sido mais veloz, mais certeiro. Sam se agarrou às rédeas da sua montaria enquanto absorvia o impacto, suas pernas tensionadas em torno do cavalo, para o impedir de cair.

Novamente ele voltou para o seu lugar observando o camarote. Mesmo com a ligeira dor que sentia, ele cavalgou com mais rapidez do que precisava de fato, apenas para que vissem que ele estava bem, que não estava seriamente machucado. Lyanna se inclinava ligeiramente para a frente, com a expressão preocupada. E Sam teve um vislumbre da mão dela agarrada na do irmão e aquilo lhe chacoalhou de alguma forma.

Não posso ter certeza. Está muito longe. E...porque estou ligando para isso. Não há nada demais nisso. Nada. Sam se perguntou, querendo olhar de novo para o camarote, quando outra lança já estava sendo enfiada em sua mão.

Preciso me concentrar. Não posso ficar olhando para lá. Sam repetia para si mesmo, tentando afastar a sensação incômoda de que estava deixando algo passar. Um detalhe. Um pequeno detalhe.

E ele partiu para a disputa da terceira lança. E da quarta. E da quinta. E da sexta. Acertando e errando. Atingindo e sendo atingido. Com algo praticamente pinicando em sua mente. Em seus sentidos. Arrastando seu olhar para o camarote, para o seu melhor amigo e para a irmã dele, para a mulher que talvez fosse se tornar sua esposa em algum tempo, preocupado com eles dois, sem nem ao certo saber o por que.

Quando a sétima lança foi colocada em sua mão, Sam estava exausto. Sua respiração sob o elmo estava acelerada. E mesmo sem sol, mesmo com o tempo ficando cada vez mais nublado, mesmo com o vento com cheiro de tempestade varrendo a arena, ele sentia as gotas de suor escorrendo por seu corpo, por baixo de todo o couro e aço que pesavam sobre ele.

Sir Jason ainda esperava seu escudeiro lhe trazer outra lança. A multidão gritava o nome dos dois. Os nomes das casas dos dois. Mas Sam mal notava. Seu olhar acabou se voltando para o mesmo lugar, protegido pelo elmo que escondia seu rosto. Lyanna olhava para ele. Ele tinha certeza. Ela estava quase sorrindo. Será que ela está percebendo que estou olhando para lá?

Mas então, invariavelmente, inexplicavelmente, Sam se deixou observar Rhaegar. Olhando para Lyanna, enquanto ela olhava para ele. E ele viu. Dor. Raiva. Medo. Sam piscou uma, duas vezes. Sir Jason estava recebendo sua lança. Em breve gritariam para que avançassem um contra o outro. Seu cavalo marchava em expectativa.

Não posso escolhê-lo. Não é possível, entende? Não é algo que eu possa fazer. A voz de Lyanna ecoou em sua cabeça. Sam olhou para Rhaegar, mais uma vez. Lembrando da conversa que tiveram dois dias atrás, à caminho de um café da manhã nos jardins. Tenho ciúmes dela, Sam. Amo minha irmã. Quero vê-la feliz. Me perdoe se em algum momento eu parecer ciumento demais.

Ele lembrou então de como seu irmão Jon havia agido estranhamente. De como se colocara entre os dois como se a situação pudesse ficar feia entre eles, quando sabia muito bem que ele e Rhaegar nunca haviam tido um desentendimento sequer durante todos esses anos.

Não. Estou imaginando coisas. Sam falava consigo mesmo.

Prontos? Estavam perguntando à ele e à Sir Jason.

E se for isso? E se for ele? Sam olhou para os dois de novo. E balançou a cabeça em sinal de positivo à pergunta. E disparou contra Sir Jason.

O cavaleiro do Vale deveria estar mais cansado do que ele. Sua lança estava na altura certa, mas seu escudo não. Seu galope era mais lendo que o de Sam. Um movimento certo do braço de Sam e ele sentia que tudo estaria acabado.

Tenho ciúmes dela, Sam. Amo minha irmã. Sam lembrava, o som dos cascos e da sua respiração sob o elmo. Se eu vencer e isso for verdade...Se eu vencer, eu a coroaria. Na frente dele. Ele se deu conta. E soube imediatamente que aquela pequena dúvida era suficiente para mudar tudo.

Sam então abaixou sua lança, com o coração acelerado. Esperando estar enganado. Mas não podendo lidar com a dúvida. Sua lealdade sempre tinha sido de Rhaegar. Sempre.

Ele afrouxou sua mão que segurava as rédeas. Ainda que seu corpo gritasse o contrário.

E se preparou para o impacto.

—*-

Lyanna estava zangada com Rhaegar, para variar. E ele com ela, pelo episódio daquela manhã, com certeza. Mas aquilo não era novidade entre eles. Pelo contrário. Era o padrão dos últimos dias. E era desgastante. Cansativo. E seus nervos não aguentavam mais.

Como se não bastasse tudo isso, ele precisava diminuir as maldades que Melissa falava sobre ela? Ela havia escutado o que Q’ira dissera. E por ela Blackfire teria pelo menos arranhado os calcanhares daquela vaca com suas presas. Rhaegar havia a defendido de alguma forma, ela também escutara. Mas isso havia sido apagado da sua mente assim que ele começou a se desculpar com Melissa.

Assim que ele tocou no rosto dela. Na frente do camarote inteiro. E ainda beijou sua mão. Lyanna sentiu vontade de gritar. Ou de pelo menos pisar no pé dele com força.

Mas quando se arriscou a olhar para ele, Rhaegar estava olhando para Sam no centro da arena, com uma tristeza que a fez esquecer momentaneamente da sua raiva. Ele queria muito estar ali. Lutando com Sam. Como já sonharam tantas vezes.

— Não fique triste. Você um dia será Rei. Poderá fazer o que quiser – Lyanna se ouviu falando, tentando consolá-lo. Mas ela se arrependeu do gesto assim que ele se virou para encará-la.

Poderei mesmo?— ele respondeu, irritado, com amargor. E ela sabia que ele não estava se referindo às justas.

Ela rapidamente quebrou o contato visual entre eles. E se concentrou na arena. Na primeira lança disputada e vencida por Sam. Em bater palmas por ele. Em ficar feliz por ele.

Ou em se preocupar por ele, já que na segunda lança ele foi atingido fortemente por Sir Jason. Lyanna quase levantou da cadeira, se projetando para frente, com receio de que Sam caísse do cavalo. Com receio de que ele se machucasse seriamente.

E quando ela viu, sua mão estava agarrada à de Rhaegar, apertando-lhe com força.

— Ele está bem – Rhaegar respondeu à ela. Cada palavra lhe doendo. Cada gota de atenção e carinho que ela dedicava à Sam lhe doendo. Cada gota do seu ciúme do próprio amigo, que nada sabia sobre os sentimentos dele, lhe doendo também.

Lyanna soltou sua mão rapidamente. E eles continuaram assistindo as disputas subsequentes. Seis lanças no total. Três para cada cavaleiro. Uma disputa espetacular. Que justificava o entusiasmo da multidão. Ele sentia inveja da multidão. Queria estar alegre como eles, aproveitando como eles. Mas não estava.

Mas então ele viu Sam baixando o braço da lança, como ele não costumava fazer, em um ângulo totalmente errado, totalmente amador. E Sam não podia estar tão exausto à esse ponto. Não podia. Seu amigo tinha o preparo físico de um touro. Todos que o conheciam sabiam disso.

Rhaegar se levantou, agarrando a borda do camarote, Jon ao seu lado. Dickon os acompanhando. Os três sabiam o que ia acontecer. Os três estavam prendendo a respiração à espera do impacto. E seria feio.

Sam foi jogado sem piedade para fora da sua montaria. A lança se estilhaçando em seu peito. Seu escudo andando longe de impedir a maior parte do impacto.

Jon praguejava. Todo o camarote estava de pé, em palmas e lamentos. A arena comemorava, gritando o nome de Sir Jason Arryn, que descia de sua montaria e andava até Sam, que ainda estava no chão de areia batida, imóvel.

— Se levante, Sam. Se levante! – Rhaegar desejou, falando alto, quase para descer ele mesmo.

Sir Jason retirou o elmo de Sam e todos respiraram aliviados. Ele estava de olhos abertos. Estava falando alguma coisa. Sir Jason estava o ajudando a se levantar. O escudeiro de Sam já se aproximando.

Ele estava de pé. Sam estava de pé. Graças aos Deuses. Rhaegar agradeceu mentalmente, se deixando cair na cadeira de novo. Observando o cavaleiro prateado de capa azul voltar a subir em sua montaria e erguer seu braço para o alto, recebendo os cumprimentos e as vivas da multidão que gritava entusiasmadamente, jogando coisas no centro da arena, flores, bandeiras, o que tivessem nas mãos.

E então outra lança foi colocada nas mãos de Sir Jason, assim que ele tirou o elmo e o entregou para seu escudeiro, seu rosto agora visível, o vento forte balançando seus cabelos negros visivelmente umedecidos.

Rhaegar havia se preocupado tanto com Sam ficando bem, que havia esquecido daquele momento. Duas coroas haviam sido preparadas. Uma com rosas vermelhas e vívidas folhas verdes, nas cores dos Tarly. E outra com rosas azuis, com fios de prata. As cores da casa Arryn.

As entranhas de Rhaegar se reviraram ao ver a coroa de rosas azuis sendo colocada na ponta da lança de Jason Arryn. Ao ver o cavaleiro trotando sob o olhar de expectativa do público para diante do camarote. Para diante de sua irmã. Com um largo sorriso para ela.

Princesa Lyanna, da Casa Targaryen! – a voz de Sir Jason retombou – Eu a nomeio como Rainha do Amor e da Beleza! – Sir Jason declarou, em alto e bom som, para o delírio das milhares de pessoas presentes, que batiam palmas e gritavam ensandecidamente.

Rhaegar observou agarrado nos braços da sua cadeira, a lança de Sir Jason com a coroa de rosas azuis na ponta, ser direcionada por cima da balaustrada do camarote, rumo ao colo de Lyanna.

Será que os deuses o estavam punindo pelos pecados do seu avô? Ele tinha o nome dele e amava uma Lyanna. E agora estava ali tendo que ver outro homem a coroando com uma coroa de flores azuis!

Lyanna parecia nervosa e envergonhada. Por mais que não parecesse surpresa. Assim que a coroa de rosas azuis repousou em seu colo, Rhaegar a viu erguendo os braços desajeitadamente para retirar a sua Coração de Fogo, com a ajuda de Lady Jane, que estava sentada logo atrás e agiu rapidamente.

Mas os movimentos das duas fizeram a coroa de rosas azuis deslizar do colo de Lyanna e ir para aos pés dele. Justo em cima dos pés dele.

Rhaegar olhou para a coroa de flores e não pensou duas vezes. A agarrou com suas mãos e ficou de pé, olhando para Lyanna. Esperando que ela se colocasse de pé também.

Ele podia não ter lutado e não ter conquistado aquela coroa. Mas pouco importava. Ele a colocaria sobre a cabeça dela.

— Me dê a coroa Rhaegar – ele ouviu a irmã sussurrar, com os olhos arregalados, olhando para ele e para o redor, para Sir Jason, com um meio sorriso tenso – Não faça o que você está pensando, pelos deuses. Me dê na minha mão. Por favor. É a tradição – ela sibilou, ainda mais baixo, mas com ênfase suficiente para que ele entendesse que ela estava falando sério.

Que se exploda a tradição— Rhaegar falou ao ouvido de Lyanna. E com um beijo em seu rosto, enfiou a coroa de rosas azuis na cabeça dela.

—*-

Lyanna queria sumir dali. Daquele salão lotado. Da obrigação de ter que conversar com as pessoas. De ter que ver os olhares que recebia. De imaginar o tipo de coisa que as pessoas estavam fofocando sobre o desfecho do torneio. Sobre o gesto de Rhaegar.

Ela tinha feito tudo para minimizá-lo. Ela havia virado para Sir Jason assim que a coroa repousara na sua cabeça, mesmo não sendo por suas próprias mãos. Ela havia sorrido para ele. Ela havia levado a mão até o peito, em agradecimento. Ela havia até acenado para as arquibancadas, como se estivesse feliz.

E ainda assim, ainda assim...ela estava prestes a chorar a todo momento. Quando teve que dar o braço para Rhaegar no caminho de volta. Quando teve que voltar cavalgando ao seu lado. E principalmente agora, vendo-o dançar com Melissa uma música depois da outra.

Ela não havia dançado com ninguém. Sir Jason e Sam estavam ambos sob os cuidados do Grande Meistre. Sir Jason estava com dois dedos deslocados e a mão totalmente inchada. Sam havia machucado o ombro pela pancada.

Ela havia os visitado antes de ir para o Grande Salão da Fortaleza Vermelha. Os dois estavam deitados em camas lado à lado. Sam totalmente sob efeito de leite de papoula.

Lyanna apenas havia perguntado a Sir Jason, educadamente, se ele estava bem e o parabenizado pela vitória. Tão rápido quanto entrou, ela saiu.

— O que você tem? – Rhaegar perguntou à ela, ao se sentar na cadeira da mesa que ocupavam no salão, praticamente ofegante – Sua expressão está começando a assustar as pessoas – ele a provocou, se servindo de vinho.

— Você deveria dar atenção às outras ladys – Lyanna não se aguentou – E eu não tenho nada, apenas estou cansada. Mas se minha expressão está assustando as pessoas, penso que é melhor que eu me recolha de vez – ela completou.

— Seria bom – Rhaegar concordou, dando uma mordida em um pedaço maciço de carne – Você na certa precisa usar seu tempo para se decidir entre Sir Jason e Sam, não é? Ou você já decidiu? – ele perguntou, e Lyanna não gostou nada do tom de voz que ele usava com ela.

— Amanhã você saberá, junto com todos os outros – Lyanna respondeu, sem saber porque simplesmente não disse que sim, seria Sam.

Rhaegar lhe deu um sorrisinho cínico.

— Vai ser Sam. Posso ler em seus olhos. Que bom que pelo menos um de nós já está decidido. Eu ainda estou considerando possibilidades – Rhaegar falou, olhando para Melissa descaradamente.

Pelos Sete – Lyanna falou irritada – Você não pode estar falando sério, não é? Você esta fazendo isso tudo só para me irritar! – ela falou para ele, entre os dentes.

Rhaegar ignorou. E tomou o restante do seu cálice de vinho.

— Você vai agora? Se recolher? Porque assim que for, eu também poderei ir. Nossos pais já foram também – Rhaegar perguntou. Lyanna não disse nem que sim, nem que não.

— Jon! – Rhaegar chamou, jogando uma uva no rosto de Jon Tarly, que conversava animadamente com a Princesa Q’ira – Jon!— ele insistiu, jogando outra uva.

— Está na hora. Junte todo mundo – Rhaegar falou e Jon lhe deu um sorris brilhante.

— O que você está aprontando, Rhaegar? Juntar todo mundo quem? Para fazer o que?— Lyanna perguntou, encarando o irmão, vendo que ele já havia bebido demais – Você não pode simplesmente se comportar em agradecimento ao fato de que não tivemos nenhum atentado hoje? Em agradecimento por tudo ter corrido bem? – ela o questionou.

— Não vou fazer nada demais. Não vou nem sair do Castelo, irmã. Fique tranquila. Só vamos levar a festa para o nosso salão privado na Fortaleza de Maegor. Deixá-la mais íntima. Só isso – Rhaegar esclareceu, se colocando de pé, se servindo de mais vinho e fazendo questão de tomá-lo diante do olhar reprovador de Lyanna.

Lyanna imediatamente viu com quem Jon estava falando. Q’ira. Dickon. Sarah. Ariana. Arthur. E Melissa. Jon parecia estar procurando por Lady Diana Lannister, mas ela aparentemente não estava em nenhum lugar do Grande Salão.

— Bem, aproveitem a noite. Vamos Lys— Lyanna disse à ninguém em especial, se colocando de pé e mal olhando para Rhaegar, apesar de sentir os olhos dele nela.

Se Rhaegar queria se embriagar em privado, na companhia de uns poucos, na companhia de alguém como Melissa, que usaria aquela oportunidade para se aproximar dele do jeito mais primitivo que existia, que o fizesse. Ele não conseguiria tirá-la do sério. Não. Não conseguiria.

—*-

Lyanna não conseguia dormir.

Ela já estava à horas rolando em sua cama, sem conseguir pregar o olho.

Tampouco ela conseguia ler.

Talvez fosse por causa da reunião de logo cedo com o Pequeno Conselho. Sim, era por isso.

Ela escolheria Sam. Com seus receios sobre o futuro dos dois, mas o escolheria. Não escolher ninguém não era uma opção. Não acabaria com aquilo nunca. E ela precisava acabar com aquilo. Precisava.

O pior é que ela não fazia ideia de quem o irmão escolheria. E quando lembrava do olhar de empolgação de Melissa ao receber o convite de Jon Tarly, sua barriga se revirava.

Ela sabia que Melissa aproveitaria a oportunidade para se jogar sobre seu irmão. Sabia que ela faria de tudo para conseguir seduzi-lo. E pensar naquilo lhe dava nojo.

Ela não podia simplesmente ficar parada ali e deixar aquilo acontecer, não podia. Rhaegar havia bebido no jantar e estava claramente com raiva dela, ela sentia isso. Ele estava provocando-a, ela sabia disso. Mas Melissa era ardilosa. Ela poderia se aproveitar da situação, poderia buscar consequências inevitáveis, poderia forçar uma decisão do Rei em seu favor, se o fizesse acreditar que ela e Rhaegar haviam ultrapassado certos limites.

O sangue de Lyanna ferveu. Melissa não poderia ser Rainha. Era inconcebível. Era...insuportável para ela.

Ela empurrou suas cobertas de cima de si e arrancou sua camisola pegando vestes simples e mais leves e se vestindo de qualquer jeito e então saiu de seu quarto acompanhada de Lys.

Assim que colocou os pés fora, no corredor que daria no quarto de Rhaegar, os dois Imaculados que vigiaram sua porta fizeram menção de acompanhá-la.

— Só vou até o quarto do meu irmão. Não é preciso que me acompanhem – ela esclareceu e os Guardas obedeceram.

Lyanna seguiu pisando duro, se dirigindo para onde sabia que encontraria o irmão e seus amigos. Quando se aproximou da porta que dava para os aposentos de Rhaegar, ladeada também por dois Imaculados, ela já pode ouvir as risadas abafadas, as conversas, e até mesmo estalos que pareciam ser de beijos.

Por um momento, ela hesitou. Mas a imagem de Melissa como sua futura Rainha falou mais alto. Lyanna se encheu de coragem e entreabriu a porta devagar, sem fazer barulho, surpresa por ela milagrosamente não estar fechada por dentro.

Ela espiou o interior do lugar, e apesar do cômodo estar muito pouco iluminado, ela conseguiu ver a profusão de taças e jarras secas de vinho espalhadas por cima dos móveis. Ela também viu que todos os ocupantes do recinto estavam em pares, parecendo bastante entretidos.

Ela se esgueirou para dentro, fechando a porta devagar, sorrateiramente, deixando Lys do lado de fora, satisfeita por sua presença ali não ter sido notada por ninguém.

E não era para menos.

Dickon e Sarah estavam em um canto da parede, parecendo querer fundir os corpos deles em um só. Sentados em uma poltrona, com taças de vinho caídas de suas mãos estavam Jon e Q’ira, a mão de Jon sobre o peito da princesa estrangeira. Lyanna continuou andando pela sala escura, tomando cuidado para não tropeçar em nada, para não fazer barulho, até mal acreditar no que seus olhos viram.

O casal mais improvável dos Sete Reinos. Arthur Tully e Ariana Arryn! Tão distantes um do outro quanto duas pessoas conseguiriam ficar e ainda estar com os lábios encostados.

E lábios encostados definitivamente definia o que os dois estavam fazendo. Porque não havia nada mais ali. Eles não se mexiam. Eles não se tocavam. Era algo tão estranho de se ver que Lyanna precisou tapar a boca e desviar o olhar.

E então Lyanna viu Rhaegar. Sentado em uma poltrona, mais ao fundo, com Melissa em seu colo, sorrindo tolamente enquanto passava suas mãos pelo pescoço do seu irmão.

Por um momento, Lyanna congelou. Mas a raiva que subiu de suas entranhas logo derreteu seu choque. Ela atravessou o cômodo, pisando duro e caminhou diretamente até eles dois.

Quando Rhaegar olhou na direção dela, ele pelo menos teve a decência de tirar Melissa do seu colo de qualquer jeito e se levantou apressado, visivelmente irritado em vê-la ali.

O que você faz aqui?— Lyanna ouviu ele perguntando, com a voz fria. Ele a encarava de um jeito tão distante, tão magoado, que a obrigou a pensar que ela realmente não deveria ter ido até lá.

Mas bastou que ela olhasse para Melissa, para como ela estava adorando a forma que Rhaegar havia falado com ela, para transformar suas dúvidas em raiva.

Lyanna se empertigou e permaneceu calada, apenas olhando com desprezo para Melissa, sua dedicada dama de companhia, que mal tinha a decência de demonstrar estar envergonhada. A garota permanecia parada, de pé ao lado do Príncipe que sempre tinha sido sua ambição pessoal, sem querer largar a oportunidade de seduzi-lo.

Lyanna por fim tirou os olhos de Melissa e encarou os de Rhagar. E cruzou os braços diante do próprio corpo. Ainda em silêncio.

Saiam! – Rhaegar gritou, assustando-a.

— Vamos! Saiam logo! – ele tornou a gritar, jogando uma almofada em Jon, que acordou desnorteado e levantou Q’ira junto com ele. Dickon e Sarah foram os primeiros a passar pelas portas, às pressas. Seguidos por Arthur e Ariana, que olhavam para qualquer lugar menos para o rosto um do outro. Jon e Q’ira se seguiram, aos risinhos, trocando olhares cúmplices entre eles e olhando para trás, ambos escorados um no outro.

Mas Melissa permaneceu parada. Plantada exatamente do mesmo lugar.

— Você também Melissa – Rhaegar falou, enfatizando cada palavra, sem desviar dos olhos de Lyanna, enquanto a garota finalmente acompanhava os outros, visivelmente à contragosto.

O que você faz aqui, Lyanna? — Rhaegar perguntou de novo, assim que a porta se fechou e os dois ficaram sozinhos.

— Vim acabar com a sua festinha particular antes que você fizesse uma grande besteira – disse Lyanna, com raiva.

— Se era só isso, já conseguiu. Pode ir embora – respondeu Rhaegar, se servindo de um pouco mais de vinho e virando de uma vez o conteúdo na sua boca.

— Ótimo. Beba mais. E claro, não precisa me agradecer por livrá-lo de Melissa – Lyanna guinchou – Logo ela Rhaegar? A mais fútil e maldosa de todas! Ela adoraria engravidar de você. E o pai dela é muito influente. Já imaginou o que nosso Pai faria quando soubesse? Teríamos uma Princesa Melissa, que maravilhoso! Que adorável rainha ela seria um dia! Você tem um gosto terrível para mulheres – Lyanna continuou, com puro desprezo.

Será mesmo? – perguntou Rhaegar, encarando a irmã.

— Você deveria estar aproveitando a liberdade que nosso pai nos deu para escolher uma boa noiva, uma futura rainha digna. E não ficar se agarrando por aí com garotas como aquela princesa estrangeira e agora Melissa – Lyanna falou, com raiva e com nojo.

— Mas eu já fiz isso, irmãzinha. Já analisei quem daria uma excelente rainha...- disse Rhaegar, vendo o olhar cauteloso da irmã tomar conta da sua expressão.

— Espero que seja Diana Lannister. Não existe melhor candidata que ela – Lyanna falou, encarando o irmão.

— Acho que tenho alguém melhor, bem melhor do que ela para esse posto – comentou Rhaegar, não conseguindo mais ficar onde estava e se aproximando da Lyanna, lentamente.

— Não há ninguém nessa corte melhor que ela Rhaegar. E definitivamente Melissa Redwyne não é...- começou a dizer Lyanna, dando um passo para trás quando viu o quanto ele estava perto dela.

Porque você simplesmente não admite?!— interrompeu Rhaegar, olhando com raiva para Lyanna, abrindo os braços e derrubando uma taça de cima de uma mesa.

Admitir o que?!— Lyanna perguntou de volta, gritando tanto quanto ele, vendo o irmão se aproximar dela, com os olhos brilhando de raiva.

— Que você gosta de mim— disse Rhaegar, vendo Lyanna arregalar seus olhos e tentando controlar suas expressões diante do que ele disse.

— Claro que gosto de você. Você é meu irmão. Quero o melhor para você, apesar de você tornar isso uma coisa bem difícil!! – Lyanna respondeu, com pressa, vendo o irmão suspirar com impaciência para ela, balançando a cabeça repetidamente.

Eu torno difícil?! Eu? Então vou facilitar para você, irmã. Você quer o melhor para mim?! Então me dê o melhor. Quem seria uma futura rainha melhor para mim do que você?— Rhaegar falou. Finalmente. Finalmente.

— Você...você está bêbado. Não sabe o que diz...- Lyanna arquejou, sentindo-se nervosa – Você sabe muito bem que eu não sou uma opção. Eu sou sua irmã— ela falou devagar, sem conseguir encará-lo, olhando para a porta do cômodo, sentindo como se todo o castelo estivesse escutando aquilo.

Lyanna precisava sair dali. Tinha sido um erro. Confrontá-lo tinha sido um erro. Ela caminhou até a porta, mas Rhaegar a segurou pelo braço e a virou para si.

— Essa não é a resposta correta – Rhaegar falou, ficando frente à frente com ela, tão perto quanto era possível – Diga olhando nos meus olhos. Diga que não me vê como um homem. E aí realmente essa opção não vai existir – pediu Rhaegar, pegando o rosto da irmã e virando para o seu, sentindo o quanto ela agora estava tremendo.

— Pare com isso – Lyanna suplicou, a voz mal saindo – Nós não podemos...- Lyanna conseguiu dizer, dominada pelo olhar e pela proximidade dele, sem conseguir se mexer.

Nós somos dragões. Podemos qualquer coisa – disse Rhaegar, vendo o olhar assombrado da irmã para ele, mas não se deixando impedir. Era agora ou nunca.

— Você não sabe o que está dizendo...- balbuciou Lyanna, sentindo seus olhos ardendo, sua garganta fechando.

Não seja covarde, Lyanna. Vamos. Diga. É tão fácil. Diga que não sente nada por mim. Só isso. E eu nunca mais toco nesse assunto e me caso com quem acharem que seja melhor. Basta você dizer— disse Rhaegar, voltando a segurar o rosto da irmã, olhando diretamente em seus olhos.

Solte meu rosto, Rhaegar— pediu Lyanna, com a voz tremendo, querendo sair dali, querendo sair de perto dele.

Ela sentiu a mão dele soltando seu rosto, assim que terminou de dizer aquilo, mas os vívidos olhos lilases do irmão eram suficientes para continuar mantendo-a paralisada. Ela estava em choque. Ela não conseguia se mover dali.

Admita, Lyanna. Admita que você inferniza e controla a minha vida desde que eu me entendo por gente, não só porque você é minha irmã e acha que sabe tudo melhor do que eu. Mas porque você gosta de mim. Você. Gosta. De. Mim. Como uma mulher. Não como uma irmã — instigou Rhaegar, vendo que ela parecia atônita, mas que ainda não havia se movido um milímetro do lugar.

— Diga que você não sentiu ciúmes agora a pouco. Diga que não gostaria que eu a beijasse agora – ele continuo pressionando-a – Eu conheço você melhor do que ninguém, Lya. Eu tenho sido paciente, tenho esperado que você pare de lutar contra isso, mas já cheguei no meu limite – Rhaegar falou, aproximando seu rosto do dela, a respiração oscilante dela enchendo seu peito de esperanças.

— Você não está falando coisa com coisa – balbuciou Lyanna, sentindo as lágrimas escorrem pelo seu rosto.

— Estou sim. Estou dizendo com todas as letras que cansei de me conter, que cansei de esperar. Você acha que é fácil para mim, ver todos os indícios de que você gosta de mim nas suas reações e continuar sem fazer nada, enquanto espero que você finalmente resolva não resistir mais ao que sente? Ao que nós sentimos? – disse Rhaegar, suspirando, tocando sua testa na dela, mas vendo ela se afastar assustada.

— Não sei o que você pensa que anda vendo em mim... – Lyanna soluçou, andando para a porta.

— Quer que eu lhe diga o que eu vejo agora, irmã? Medo. Você está com medo que eu toque em você, não está? – Rhaegar disse, dando mais um passo na direção dela.

— Não chegue perto de mim, Rhaegar! Você está fora de si! Me deixe ir embora – disse Lyanna, virando para ele e erguendo as mãos, pedindo que ele parasse de segui-la pelo cômodo.

Vá embora daqui então. Não pedi para você vir e tampouco estou te obrigando a ficar. Vá ou fique. Mas faça o que você tem vontade de verdade, Lyanna, pelo menos uma vez na vida – ele disse para ela, sentindo suas próprias lágrimas caindo do rosto, vendo-a imóvel, sem reação.

Não era para ser assim. Rhaegar se lamentou.

Quantas vezes nesses últimos dias ele havia pensado em confrontá-la de uma vez por todas, mas não depois de ter bebido, não depois de ver que ela acabaria escolhendo seu melhor amigo para ser seu marido, o que significava que por ela a atração que havia entre os dois seria sufocada.

E aquilo o magoava, por ele simplesmente não conseguia aceitar a opção de não tê-la para si. Doía tanto, que ele estava extravasando toda a sua dor em cima dela. Sem medir palavras.

— Eu ficaria satisfeito apenas com você, Lyanna. Eu nunca olharia para outra. Mas se você não me quer ou não tem coragem para lutar por isso, me deixe em paz. Pare de tentar controlar minha vida. Não me olhe com discriminação quando eu estiver com alguma mulher e não entre mais nas minhas reuniões privadas – Rhaegar falou, não com raiva, mas ainda assim deixando tudo que estava represado dentro dele sair, voltando a se aproximar dela, encarando-a nos olhos e vendo que ela não o impediu.

Eu tento controlar sua vida? Você é tão...você é tão ingrato! Eu apenas me preocupo com você – Lyanna esbravejou, limpando suas lágrimas com raiva – O que mais você acha que está enxergando em mim? – ela falou, empurrando Rhaegar, batendo suas mãos no peito dele – Além do medo do seu toque, claro! Porque você é, com certeza, muito irresistível!

— Você realmente acha que eu sou igual à essas garotas que vivem suspirando por você? Seu arrogante desgraçado! Porque eu iria querer ser beijada por um homem impregnado do perfume de outra? Eu estou sentindo daqui o cheiro que aquela criatura nojenta deixou em você – Lyanna continuou gritando, com vontade de jogar alguma coisa na direção dele, mas se contentando em apenas caminhar em direção à porta para finalmente sair dali.

— E porque ela incomoda tanto você? Porque você continua negando o que está óbvio? – perguntou Rhaegar, caminhando na direção da irmã, colocando a mão sobre a porta, impedindo ela de sair.

Me deixe sair, Rhaegar — disse Lyanna, com a voz congelada de medo, não apenas dele, mas também de si própria.

Diga que me quer. E eu moveria céus e terra para que ficássemos juntos. Você compreende isso? – Rhaegar implorou, tentando fazer com que ela olhasse para ele de novo.

Me deixe sair, Rhaegar. Por favor — pediu Lyanna, com um fiapo de voz, encostando-se na porta, com o irmão na sua frente, com os dois braços esticados, um de cada lado dela, como as lágrimas que voltavam a escorrer uma de cada lado do seu rosto

— Não. Não até você admitir – disse Rhaegar, criando coragem e aproximando seu rosto do dela.

Não! Não, Rhaegar. Não faça isso. Por favor, me deixe sair— Lyanna pediu, tremendo ao ver o irmão com o rosto tão perto do dela.

— Então bata na porta. Eu continuo não segurando você – disse Rhaegar, com as mãos espalmadas na madeira da porta — Bata e os guardas que estão do lado de fora abrirão e você poderá sair e amanhã poderá dizer aos nossos pais que você escolheu Sam para ser seu marido – disse ele, já perto o suficiente para beijá-la.

— Não me faça sentir o gosto daquela nojenta em você – disse Lyanna, vendo a boca do irmão perto demais da sua e irracionalmente lembrando que minutos antes ele estava com Melissa no colo.

— Se essa for sua única objeção, fique tranquila. Eu não beijei ela – Rhaegar falou – Vamos, bata na porta, Lya. É a sua última chance — disse Rhaegar, buscando os olhos dela, vendo a agonia que havia ali, vendo-a não fazer nada além de continuar parada, olhando assustada para ele, suas lágrimas caindo.

Rhaegar teve esperanças ao ver que ela não se mexia. Que ela apenas continuava encarando ele, enquanto sua respiração ficava cada vez mais ofegante. Ela não queria sair dali, embora fosse teimosa demais para admitir.

Ela então tocou no peito dele, empalmando ambas as mãos, e por um momento ele achou que ela fosse empurrá-lo para longe. Mas ela também não fez isso.

E aquele pequeno toque bastou para que ele levasse suas mãos até os cabelos negros dela, trazendo o rosto dela para o seu, mas ainda sem tocar seus lábios nos dela, dando a chance para que ela recusasse.

Rhaegar...nós não podemos...eu não posso..– Lyanna disse, sentindo perdida. Sentindo seu coração bater mais acelerado do que parecia capaz, sem acreditar, sem saber como o seu nariz estava agora tocando no dele, sem saber como os lábios dos dois estavam separados por quase nada.

Sem saber como a respiração dele em seu rosto conseguia despertar nela a vontade de respirar fundo. De sentir mais. De sentir o gosto dele. Não posso. Eu não posso. Lyanna repetia para si.

— Faça apenas o você quer – Rhaegar implorou à ela – Esqueça o resto. Esqueça tudo – Ele começou a repetir, sua voz morrendo - O que você quer, Lyanna? – Rhaegar perguntou uma última vez, fechando seus olhos, tocando sua testa na dela, levando suas mãos para o pescoço da irmã, desejando sentir o toque dos lábios dela nos seus, mas querendo que ela tomasse a aquela última atitude.

E então sentiu a boca dela cobrindo a sua, devagar, com insegurança, preenchendo-o de calor. De esperança.

Rhaegar abriu os seus olhos, encarando o rosto assombrado de Lyanna, sentindo as resistências dela indo embora, finalmente indo embora, enquanto ele aprofundava o beijo entre os dois, sentindo seu coração bater acelerado quando as mãos dela tocaram timidamente no rosto dele. Quando ela gemeu ao deixar a língua dele invadir sua boca.

Rhaegar sabia. Ele sempre soube. Ela sentia o mesmo que ele. Agora ela não poderia mais negar.

Lyanna não sabia o que estava acontecendo com ela. Sua mente parecia ter congelado enquanto suas emoções dominavam seu corpo. Ela sentia tudo que não sentiu com Sam. Ela sentia tudo que Jane havia lhe dito ser o certo a sentir.

Ela não conseguia pensar que aquele ali era seu irmão. Suas emoções descontroladas rechaçavam isso. Ela só queria continuar sentindo seus lábios sendo tomados por ele, só queria continuar sentindo o gosto dele, só queria continuar sentindo seu peito ardendo em resposta à cada toque dele.

Ainda que uma pequena parte sua gritasse em desespero. Gritasse que era errado. Seu coração batia tão forte e tão alto que nenhum desses gritos de alerta conseguia ser forte o suficiente para fazê-la se afastar dele.

— Eu te odeio – Rhaegar ouviu ela dizendo, assim que os lábios dos dois se separaram, ainda com seus rostos colados, ambos ofegantes, ambos tão próximos quanto era possível dois corpos estarem, com Rhaegar sentindo cada parte do corpo dela enquanto a pressionava contra aquela porta.

— Você ama me odiar então, Lya. Se for isso, eu gosto – Rhaegar rebateu, tentando beijá-la de novo, enquanto ela esquivava o rosto do dele.

— Isso é loucura – Lyanna ainda tentou dizer, tentando debilmente impedir ele de beijá-la novamente, mesmo que ela quisesse fazer aquilo desesperadamente.

— Cala a boca Lyanna – Rhaegar respondeu, cobrindo a boca dela de novo. Agora com mais profundidade, sentindo a língua dela tocando timidamente na sua, enquanto ele deslizava sua mão pelo corpo dela, pela sua cintura e um pouco mais pra cima, por suas costas. Ele queria tocá-la por inteiro. Ser dela por inteiro.

— Não ouse me tocar como se eu fosse uma dessas garotas que vivem se oferecendo para você – Lyanna bateu em sua mão, puxando-a do seu corpo. Rhaegar erguendo as mãos, repousando a testa na dela, suspirando, pedindo desculpas silenciosamente.

— Você poderia ter sido a primeira e a única mulher que eu teria tocado. Não foi, porque preferiu ignorar o que sempre existiu entre nós. Mas você pode ser a última – ele falou. Ele precisava falar – Diga sim para mim. Diga sim, Lya e eu cuido do resto – Rhaegar pediu, tocando no rosto dela.

— Você não pode estar falando sério... – disse Lyanna, sentindo seus olhos ardendo, sentindo a realidade voltando a bater com força – Vamos...vamos esquecer que isso aconteceu, Rhaegar. É impossível. Nós...isso é errado – ela disse, despedaçada, procurando ar para respirar.

— Nós somos do sangue da Antiga Valíria. Não somos como os outros. Não tem nada de errado nisso. Pelo contrário. Você não vê? Nós nascemos um para o outro. Nosso destino é dividir tudo que nos foi dado – Rhaegar disse, angustiado, beijando o rosto da irmã, torcendo para ela ceder de uma vez, sentindo seu coração tão alegre por aquilo finalmente estar acontecendo e ao mesmo tempo tão pesado por ver que ela ainda hesitava.

Diga sim, Lyanna. Eu falo com nossos pais. Eu cuido de tudo. Confie em mim. Vai ser mais fácil do que você imagina – disse Rhaegar, tocando nos lábios dela de novo. E de novo. E de novo. Olhando nos olhos cinzentos. Vendo o violeta brilhar ali como nunca, de tanto que as pupilas dela estavam dilatadas.

Nosso pai nunca vai aceitar— Lyanna falou, afastando o rosto dele com muito reforço. A verdade inegável daquilo a atingindo com toda força – Eu não posso fazer isso com ele. Não posso.

— Mas pode fazer comigo, então? Com você mesma? Para não magoar nosso pai você está disposta a casar com outro e ir embora daqui? Eu não consigo aceitar isso, Lya. Não consigo – Rhaegar disse, soltando ela, não acreditando que estavam voltando ao ponto inicial.

Eu escolho você. Você entende? Escolho você para ser minha futura rainha, minha conselheira, minha esposa, mãe dos meus filhos. Para continuar infernizando minha vida, todo santo dia. E eu vou continuar grato por isso, porque sei que vou ser o homem mais sortudo do mundo por ter alguém como você por perto – Rhaegar falou, abrindo seu coração, entregando seu coração de bandeja para ela – Isso é o que eu quero Lyanna. Está na hora de você fazer o que você quer também.

Rhaegar a observou levar as mãos para o rosto. Observou ela se curvar encostada na porta, como se ela sentisse dor. Ele por sua vez, estava sentindo. E a dor parecia que iria rasgar seu peito.

— A única coisa que sei que eu realmente quero nesse momento, é sair daqui – Lyanna disse, com um fio de voz, cada palavra saindo tremida, lutando contra sua garganta que parecia fechar, tentando não visualizar as coisas que o irmão falava para ela. Os dois casados, com filhos, um dia reinando juntos, porque ela sabia que aquilo não era possível.

— O que você dirá amanhã na reunião com o Pequeno Conselho? – perguntou Rhaegar, se afastando dela, magoado por estar se declarando para ela enquanto tudo que ela queria era continuar fugindo. Magoado por ela dizer com todas as letras que tudo que ela queria era sair dali. De perto dele.

— Não estarei lá – foi tudo que Lyanna disse, abrindo a porta e saindo, correndo pelo corredor e torcendo para que o irmão não a acompanhasse enquanto ela cruzava apressada os corredores não indo para o seu quarto, e totalmente ciente de que Lys e os dois guardas da sua própria ala estavam em seu encalço.

Ela não se importava. Que a seguissem. Em breve ela estaria inalcançável.

Khaleeth. Eu só preciso conseguir chegar até Khaleeth.

—*-

Rhaegar já estava encarando aquela bendita porta por alguns minutos.

Com o coração quebrado. Com os pensamentos à mil.

Pensando se não deveria insistir mais com ela, em deixar tudo como estava e em ver o que iria acontecer em algumas horas, quando amanhecesse e chegasse o momento deles se encontrarem com os pais e com os membros do Conselho.

Não vou escolher ninguém. Não posso ser obrigado. Não quero ninguém. Quero ela! Só ela! Rhaegar empurrou uma mesa para longe.

O que ela quis dizer com não estarei lá?

Ela só poderia não ser levada até a reunião se não estivesse no castelo.

E se pretendia sair dali, então ela...

Khaleeth. Ele se deu conta. Saindo apressado.

Ele precisava alcança-la.

Ele precisava protegê-la.

Ele precisava convencê-la.

De uma vez por todas.