Forbidden

15 Capítulo 15


Correr.

Era só no que ela precisava se concentrar.

Correr. Correr. Correr.

O barulho dos seus passos apressados estavam ecoando pelos corredores vazios da Fortaleza. Ela queria muito silenciá-los. Queria muito não chamar atenção para si. Mas era impossível. Ou era rápida ou silenciosa.

E ela precisava fugir daquilo. Dele.

Lys corria ao seu lado. E, de alguma forma, ela estava consciente da presença de mais um lobo.

Mas ela não ousava olhar para trás e confirmar a sensação que latejava em seu âmago. Não vou olhar. Não vou olhar. Blackfire é...ele.

Olhar e ver que aqueles sinistros olhos vermelhos estavam lhe acompanhando, lhe perseguindo...

Khaleeth. Eu só preciso chegar até Khaleeth.

Ela só precisava chegar nos portões do pátio oeste. No lugar onde sua dragão estava.

Já estou quase lá. Quase lá.

Lyanna então avistou guardas. Haviam dois vigiando o portão. E eles não a deixariam passar. Não uma hora daquela, ainda de madrugada. Não quando sabiam que a dragão dela estava logo ali, depois daqueles portões.

Mas então Lys correu mais rápido. E Lyanna viu o vulto negro e infernal de Blackfire se juntar à sua loba. Os dois lobos gigantes afastaram os guardas, partindo para cima deles, obrigando-os a se defender, deixando o caminho livre para ela.

E quando ela abriu uma das pesadas portas, o vento que a golpeou foi tão forte que quase a derrubou para trás e fez as portas baterem com força nas paredes de pedra do castelo.

Chovia. Chovia muito. Mas aquilo não a impediria.

Lyanna se lançou na tempestade forte e fria, correndo em meio ao pátio escuro, os archotes que normalmente o iluminariam apagados pela chuva, com apenas com uma coisa na cabeça.

Khaleeth. Preciso apenas de Khaleeth. Preciso sair daqui. Preciso fugir.

Ela correu para dragão verde oliva, que silvou e expeliu fumaça pelas narinas ao vê-la, seus olhos viperinos e alaranjados alertas para sua dona.

Lyanna não parou. Ela avançou pelas pedras irregulares ainda que a madrugada não a deixasse enxergar direito, até sentir as escamas quentes do pescoço de Khaleeth contra o seu corpo. Até sentir uma das asas da sua dragão à envolvendo, lhe abraçando, lhe confortando, sentindo sua dor. Lhe oferecendo um porto seguro.

Só me leve daqui. Me leve...para longe. Para onde isso pare. Ela desejou. Suas lágrimas sendo lavadas pelas gotas geladas da chuva. Suas mãos tremendo tanto que ela talvez não tivesse forças para subir na dragão.

Mas algo a empurrava. Khaleeth estava usando sua cabeça para ajudá-la. Suas narinas quentes empurrando suas pernas até que ela estivesse sobre as costas escamosas livre de qualquer sela.

Raios cortavam o céu. Trovões estouravam acima delas, mas Lyanna não sentiu medo. Ela só se deitou sobre Khaleeth e se agarrou forte.

Só me leve para longe dele. Me leve para longe dele.

E elas levantaram voo pela noite.

—*-

Rhaegar ouvia o barulho dos trovões enquanto seguia apressado para o lugar onde os dragões deles ficavam na Fortaleza Vermelha.

Não estarei lá. Lyanna havia dito, antes de fugir. Antes de fugir dele e do que sentia. Como sempre fazia. Como estava acostumada a fazer por todo esse tempo.

E lá estava ele. Correndo atrás dela. Literalmente. Como sempre fazia também. E por mais que ele estivesse com raiva, a preocupação por imaginá-la voando sozinha, à noite, com a tempestade que caía, era muito maior que seu orgulho ferido.

Isso e a necessidade dele por ela. Principalmente agora. Principalmente depois de ter experimentado a sensação de tê-la em seus braços.

Rhaegar correu mais rápido. E seu coração quase parou quando viu Lys correndo na direção dele, à toda velocidade, uivando para ele assim que o viu. Lyanna. Pelos Sete. O que ela fez? O que aconteceu?

Onde ela está Lys?— Rhaegar perguntou, aflito. Lys apenas se virou e correu de volta por onde tinha vindo. Da direção do pátio oeste. De onde os dragões deles estavam. O que apenas confirmou os piores temores de Rhaegar.

Ele alcançou os portões e não se surpreendeu ao ver Blackfire acuando dois Imaculados contra uma parede, enquanto as portas estavam abertas, deixando a chuva e o vento entrar, lhe permitindo ver que apenas uma sombra vultuosa estava deitada no chão de pedras do pátio.

Não deixem que eles avisem ninguém— Rhaegar falou para os lobos, apontando para os dois guardas, se lançando em meio à tempestade.

Em busca da sua tempestade pessoal.

—*-

Tudo abaixo do seu corpo era calor, o calor que emanava das duras escamas de Khaleeth, enquanto tudo acima do seu corpo era frio, era tempestade e vento gélido e forte a ponto de desestabilizar sua dragão.

A chuva grossa escorria por elas, encharcava suas roupas, mas não lavava sua alma, não limpava sua angústia. Pelo contrário. Parecia combinar bem que tudo ao seu redor fosse apenas escuridão infinita e tempestuosa.

Mas aquilo era bom. Era um dos motivos, uma das coisas que ela mais gostava em voar. A sensação de se sentir insignificante diante da imensidão do céu. Talvez por isso ela só houvesse conseguido pensar em sair em Khaleeth.

Porque ela desejava como nunca o sentimento de pequenez. De insignificância. Qualquer coisa que ajudasse com aquela dor que ela estava sentindo. Com aquela dor de não se permitir pensar. Com aquela dor de querer algo que ela não deveria querer.

Não posso tê-lo. Não posso. Não ele.

Por sorte, ela não sentia suas lágrimas escorrendo. A chuva não deixava. Ela também não ouvia sua própria voz gritando de raiva pelo que tinha deixado acontecer. Os trovões e o vento revolto não deixavam.

Mas ela sentia os olhos ardendo. Ela sentia a garganta ardendo. Ela sentia...Ela ainda sentia tudo, ainda que estivesse fugindo. Os lábios dele nos seus. O gosto dele em sua língua. O toque dele em seu rosto.

Me leve para longe disso Khaleeth. Me leve para onde isso possa parar. Por favor. Por favor. Lyanna implorava, agarrada ao calor vivo da dragão, de olhos fechados, com o coração sangrando.

Não é certo. Não é certo. Não posso tê-lo. Não posso querê-lo. Não posso. Não posso. Ela repetia e repetia. Sem ouvir sua voz de volta, lançando aquelas palavras para a escuridão do céu sem estrelas, negro como breu.

Pai. Pai. Até seus pensamentos engasgavam quando ela pensava no pai. Me perdoe. Me perdoe. Não posso voltar. Não posso voltar. Sua dor será menor.

Khaleeth então fez uma curva acentuada de repente, fazendo o estômago de Lyanna se revirar, obrigando-a a abrir seus olhos.

Sua dragão estava assustada e não sem razão. Muitos raios cortavam o céu. E ela percebeu que quando cortavam, quando o iluminavam, as nuvens negras se coloriam de violeta.

Lyanna sentiu um calafrio que nada tinha a ver com o fato de estar ensopada se espalhar por todo o seu corpo.

O céu violeta. O vôo sob um céu violeta. O sonho. O sonho de horas atrás. O sonho de semanas atrás.

Ela então ouviu o barulho das asas rasgando o vento atrás de si e o rugido alto de outro dragão. Ela não precisou olhar para saber quem a perseguia. As lágrimas de Lyanna se avolumaram.

Não me siga. Vá embora. Ela desejava, sentindo-se tão esgotada, tão desolada, virando o rosto para o outro lado, para o céu noturno que se estendia ao redor dela, ora negro, ora violeta, buscando paz, querendo que Rhaegar sumisse. Que ele desistisse dela.

LYANNA! – ela ouviu a voz dele chamando seu nome, o berro se sobrepondo ao barulho da tempestade de uma maneira que ela não imaginava dever ser possível.

— LYANNA! OLHE PARA MIM! – a voz dele gritava. E ela a sentia em seu estômago. Como se alguém estivesse batendo ali. Cavando profundamente.

Porque a voz dele tinha o poder de penetrar em seus ouvidos e reverberar por todo o seu corpo? Porque? Lyanna se questionou, ignorando-o, ainda com o rosto virado para o lado oposto, apenas olhando o céu violeta. Tentando não pensar no maldito sonho, tentando ignorar os arrepios que sentia. Tentando resistir à vontade que sentia de olhar para ele.

Quando os raios cortavam o céu, Rhaegar podia vê-la, deitada sobre Khaleeth, o rosto virado para o outro lado.

Ele estava voando tão próximo dela quanto era possível. Gritando o nome dela, mesmo com o mar revolto demais abaixo dos dois, mesmo com o vento forte demais até para a força de um dragão.

— Lyanna! Está perigoso demais! – ele continuou pedindo, gritando contra o vento, Stormfire urrando junto com ele – VOCÊ QUER SE MATAR? – gritou Rhaegar, explodindo em raiva – Vamos morrer os dois então, porque eu não vou desistir! Está ouvindo? Eu vou te seguir, aonde quer que esteja pensando em ir, ainda que seja para a morte! – ele continuou gritando, as asas dos dois dragões se tocando no ar brevemente e se afastando em seguida.

Pedra do Dragão! Por favor, Lyanna! Estamos perto de Pedra do Dragão! – ele pediu, deixando a raiva de lado. Implorando – Lyanna! LYANNA! OLHE PARA MIM!

Ela continuava ouvindo calada e imóvel. Tentando dar atenção apenas ao vento. Apenas ao ressoar das asas de Khaleeth. Ou ao balanço que ela fazia ao planar pelos ares como dava, sem muita estabilidade.

O sonho. A voz que chamava por ela. A voz à qual ela não conseguia resistir.

Lyanna! POR FAVOR! – gritou Rhaegar ainda mais alto, com um desespero latente, fazendo Stormfire urrar mais uma vez na direção de Khaleeth.

Ela então virou o rosto para o outro lado, para o irmão, se sentindo derrotada, o vento bagunçando seus cabelos pelo rosto, atrapalhando sua visão, mas nem assim a impedindo de cravar os olhos nele.

E ela nunca, nunca havia visto algo mais bonito do que aquilo, do que Rhaegar ali, sob Stormfire, os olhos da cor da tempestade, arregalados e irados com ela.

Lyanna não queria ser responsável pela morte dele. Nunca. Nunca. Ela não se importava de cair no mar. De dar um fim àquilo. Mas ela não duvidava que ele a seguiria. Que ele mergulharia rumo ao mesmo destino. E isso, ela não poderia permitir.

Ela acenou para ele e imediatamente Khaleeth mudou a direção. E a próxima coisa que ela sentiu foi o impacto do pouso nas areias vazias ao pé das muralhas de Pedra do Dragão. Do lugar que agora pertencia ao irmão.

Lyanna simplesmente continuou deitada sobre Khaleeth, sentindo a o vento forte e frio do mar em seu rosto e seus cabelos, grata pelo calor que emanava do corpo da dragão.

Ela ouviu o baque do pouso de Stormfire, mas continuou de olhos fechados, sem saber o que faria com a profusão de coisas que se passavam dentro dela. Mas algo, uma sensação, a fez abrir os olhos.

Rhaegar estava parado ao lado de Khaleeth, encarando-a, o vento forte quase o impedindo de permanecer em pé, no mesmo lugar. Ele pareceu aliviado ao ver ela olhando para ele.

Lya, por favor— ela o ouviu suplicando, com os olhos arregalados, temerosos, brilhando para ela, estendendo uma mão na sua direção.

Ela se ergueu, lentamente, sabendo que não tinha outra alternativa. Que não podia permanecer ali, ensopada, em meio àquela tempestade.

Mas quando finalmente desceu de Khaleeth e afundou seus pés na areia grossa, ela passou direto por Rhaegar, caminhando na direção dos portões que dariam acesso à escadaria de pedra que a levaria para dentro do castelo.

Ela não chegou a dar muitos passos, quando sentiu Rhaegar impedir seu avanço ao agarrar em um de seus braços. Antes que ele abrisse a boca para dizer algo, ela explodiu.

Porque você está fazendo isso comigo?— Lyanna gritou com ele, sem conter suas lágrimas, soltando a mão de Rhaegar do seu braço – É algum tipo de jogo? Não haviam mais garotas para você beijar e perturbar? Só restou a mim? Sua própria irmã? — ela berrou para ele. Se sentindo cansada. Exausta. E pior. Com medo de si própria.

— É isso que você pensa de mim? Que eu jogaria com minha própria irmã? – Rhaegar rebateu, indignado – Eu...Eu... AMO VOCÊ! É tão difícil assim de entender? – Rhaegar gritou de volta, gesticulando, pegando no braço dela novamente, dessa vez com menos força.

Lyanna sentiu seu coração doer ao ouvir aquilo. Suas mãos tremiam. Mas então a lembrança de Melissa sentada no colo dele eclipsou qualquer emoção que ela estivesse sentindo.

Ama? AMA?— Lyanna repetiu, balançando a cabeça, sua voz estourando junto com os trovões – E você descobriu isso antes ou depois de eu atrapalhar seu encontro com Melissa? – ela perguntou, empurrando Rhaegar, batendo no peito dele e descarregando sua raiva por tantos motivos.

Por ele dizer aquilo levianamente, por ter colocado Melissa no colo ou por...simplesmente existir.

— Eu descobri há anos. E foi você que me fez descobrir. Eu ouvi você Lyanna. Eu escutei cada palavra que você me disse. Eu sei que você sente a mesma coisa— Rhaegar afirmou, segurando os dois braços dela, não se importando com os tapas que ela lhe dava.

— Do que você está falando? – Lyanna perguntou, chorando. Ele não podia estar se referindo àquela fatídica noite. Não podia.

— De quando você entrou no meu quarto, de quando eu adoeci. De quando todos proibiram você de se aproximar de mim e você não obedeceu. Quando achou que eu estava prestes a morrer...Eu escutei o que você disse para mim naquela noite— ele disse, vendo os olhos aterrorizados dela.

— Eu...eu não disse nada demais...- Lyanna balbuciou, tentando se livrar das mãos de Rhaegar em seus braços. Se ela não lembrava direito o que tinha acontecido naquela noite...porque ele lembraria? Porque? Ele estava desacordado...febril...

— Eu lembro de cada palavra. Você disse que eu não podia morrer. Que eu não podia deixar você sozinha. Que você não suportaria viver se eu morresse! Eu estava delirando por causa da febre Lya? Estava? Me diga! Me diga que não foi isso que você falou! – Rhaegar perguntou, vendo o assombro congelar o rosto de Lyanna.

— Você...é meu único irmão...eu...não me lembro muito bem...mas eu...eu realmente não queria que você morresse...isso não significa que eu...- Lyanna tentava falar, tentava lembrar, tentava...fugir de si mesma e dele.

Você me beijou! – disse Rhaegar, puxando-a para perto de si, colando o corpo dela no seu – Você tocou seus lábios nos meus, Lya. Você pediu para que eu passasse para você a maldita doença. Que irmã não consegue viver sem um irmão? Me explique! Porque eu passei dias tentando entender depois que fiquei bom – Rhaegar falou, os braços ainda envolvendo ela.

Eu...eu estava abalada...eu não estava pensando direito... – Lyanna ainda falou, quando as mão de Rhaegar agarraram seu rosto e a obrigaram a olhar bem dentro dos seus olhos.

— Pare de se enganar, Lya. Nem você mesma acredita no que diz. Eu quis tanto falar com você depois, mas você agia como se nada tivesse acontecido, isso quando eu conseguia te ver! Você parecia estar fugindo de mim, sempre enfiada naquela biblioteca maldita, sempre lendo alguma coisa. Fazendo qualquer coisa que não fosse encarar o que estava acontecendo entre nós – Rhaegar falou, sua voz saindo embargada, os olhos ardendo.

— E você encarou por acaso? – Lyanna afastou o rosto das mãos dele, se debatendo de novo, precisando de distância – Indo para o Grande Septo todos os dias, lendo a Estrela de Sete Pontas, fazendo amizade com septões, porque foi isso que você fez quando ficou curado!

— Sim! Sim eu fiz isso! Porque eu conheço você, sua...cabeça dura. Quando eu vi como você estava me evitando, eu sabia que aquilo que estava claro e evidente para mim, que levaria mais tempo para você aceitar. E eu precisava preparar o caminho para quando esse dia chegasse... – Rhaegar não deixou ela se afastar.

— Do que você está falando? Como assim preparar o caminho... – Lyanna perguntou, com medo da resposta.

— Eu passei meses indo para o Grande Septo, conhecendo todos os septões e conversando com eles sobre doutrinas da Fé dos Sete porque eu sabia que o Velho Alto Septão não duraria muito. Eu sabia que em breve teríamos que eleger um novo. E eu precisava descobrir se algum deles era um Excepcionalista – Rhaegar disse simplesmente. Se encolhendo quando outro clarão violento rasgou o céu da madrugada.

Excepcionalista?— ela falou, horrorizada – Você...você desde aquele tempo...

Sim!— Rhaegar afirmou – Eu descobri qual deles concordava com essa antiga doutrina da Fé dos Sete, que não submete os Targaryen à regras comuns de fé e prática, que permite apenas para quem tem sangue valiriano o casamento entre irmãos – Rhaegar respirou fundo antes de dizer o restante – E então eu fiz de tudo para que esse septão fosse eleito o novo Alto Septão – ele falou de uma vez, vendo Lyanna levar as duas mãos à boca.

— Rhaegar! Você...

— Sim! Eu fraudei um Conclave da Fé, por sua causa! Então não me acuse de não encarar o que eu sentia! – Rhaegar disse, tirando os cabelos do rosto, tremendo de frio em meio àquela tempestade que não melhorava ao redor deles.

E o Alto Septão Barth é esse homem?— perguntou Lyanna, ainda chocada com o que o irmão lhe dizia. Rhaegar acenou positivamente. Lyanna fechou os olhos e sentiu as pernas fraquejarem. Pelos deuses.

— Eu sempre vou atrás do que eu quero. E desde aquela noite, tudo que eu quis foi você. Eu não podia deixar passar a chance de um possível casamento entre nós dois não ser proibido pela Fé...E não me olhe com essa cara de repreensão. Eu não me importo nem um pouco com as regras morais que eu quebrei. Barth é um bom homem. Com vocação genuína...– Rhaegar se justificou, tentando se aproximar de Lyanna de novo, quando mais um trovão estourou sobre eles, os raios cortando o céu e caindo em algum lugar da ilha.

— E se ele não fosse um bom homem, como você diz, teria feito com que ele fosse eleito mesmo assim? – Lyanna perguntou, com o semblante sério, abraçada em si mesma, os dois ensopados em meio à escuridão e ao vento carregado de grãos de areia.

Rhaegar engoliu em seco. Não ajudaria muito mentir para ela. E ela sempre sabia quando ele estava mentindo.

— Eu teria comprado votos até para um demônio encarnado se fosse necessário... – Rhaegar confessou, com um suspiro pesado – Vamos entrar Lya, um raio pode cair na nossa cabeça...- ele começou a pedir, quando a sentiu se afastando de novo.

— Você é um...um inconsequente! Um...louco! – ela falou, agitada e nervosa, balançando a cabeça com incredulidade.

— Sou, Lya. Sou sim. Sou louco por você! — ele pegou o rosto dela e trouxe para junto do seu, colando as testas dos dois.

Rhaegar então viu um sorrisinho incrédulo brotar dos lábios da irmã.

Louco por mim?— ela repetiu, cobrindo o rosto com as mãos – No último ano você se deitou com qualquer coisa no castelo que usasse saias! Eu perdi a conta de quantas vezes ouvi histórias de você aos beijos por aí com as garotas da criadagem e da nobreza, sem distinção! Como você pode dizer que é louco por mim? – perguntou Lyanna, com ódio acumulado por todas aqueles momentos, por todas as vezes que tinha ouvido comentários das aventuras do irmão e precisado fingir uma reação normal.

— Você ignorava todos os sinais que eu te dava! – Rhaegar explodiu de novo – Eu comecei a beijar outras garotas para ver se você reagia, sentia ciúmes ou então...para ver se eu te esquecia de vez! Mas você finalmente reagiu! Finalmente! Eu tive que arrastar Melissa para isso... Mas eu nunca consegui tirar você da minha cabeça! Nunca! – Rhaegar não aguentava mais aquilo. Ela precisava entender... – E para sua informação eu...eu nunca me deitei com ninguém. Se eu tivesse tido relações com todas essas garotas eu já teria no mínimo uma dúzia de bastardos por aí – ele confessou, olhando bem nos olhos dela, querendo que ela visse a verdade que havia ali.

Rhaegar esperou que ela fosse dizer ou fazer qualquer coisa menos gargalhar na cara dele ao ouvir aquela confissão.

— Então agora você quer dizer...que é virgem? Pelos Sete...Eu....eu não sei se você é louco, se é idiota ou se é uma aranha perigosa que vem tecendo sua teia ao redor de mim de todas as formas imagináveis! Sinceramente! – Lyanna falou, sentindo vontade de gritar ou de bater nele, ou de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

— Posso ser qualquer coisa que for preciso. Louco, idiota, aranha venenosa...desde que no final eu consiga o que eu quero. Você— disse Rhaegar, pegando a mão dela e levando até o peito dele – Sinta meu coração. Olhe nos meus olhos. Eu. Amo. Você. Você me conhece melhor que ninguém, sabe que eu estou sendo sincero, Lya. Case comigo. Me escolha. Porque eu escolho você. VOCÊ! Mais ninguém. Mais ninguém serve – Rhaegar se declarou, mais uma vez, com os dedos dela entre ao seus, sobre o seu coração acelerado, sob o tecido molhado grudado em seu peito.

Lyanna sentia a batia acelerada do coração do irmão abaixo da sua mão. Ela não conseguia dizer nada. Não conseguia respirar. Ela queria acreditar. Mas nada de bom viria daquilo.

— Eu não aguento mais esconder isso. Eu sei que você me quer também. Você não quer ir embora da nossa casa, Lya. Não quer casar com outro. Admita de uma vez por todas... – pediu Rhaegar, pegando no rosto dela, colando o rosto dela no dele mais uma vez. Quantas vezes fosse preciso.

— Ainda que fosse verdade... – a voz de Lyanna falhou com a proximidade da boca dele, o frio da chuva e do vento fazendo com que ela tivesse ainda mais vontade de deixar ele aquecê-la – Admitir não mudaria nada. Isso não depende de mim ou de você! Nosso pai, nosso Rei, nunca iria aceitar! Você o conhece muito bem! Ainda que não houvesse nenhum problemas com a Fé, nosso Rei jamais permitiria— disse Lyanna, angustiada, enfatizando as últimas palavras. Uma por vez.

— Ele vai ter que permitir – foi tudo que Rhaegar falou antes de cobrir a boca dela com a sua, feliz por ela não se afastar, não impedi-lo.

Lyanna sentiu a boca do irmão invadindo a sua, as sensações do beijo enviando calor para cada pedaço do seu corpo. Ela não interrompeu. Não o afastou. Pelo contrário. Ela se ouvia gemer. E retribuir. E ansiar por mais.

Estou perdida. Estou perdida. Sua mente gritava, enquanto suas mãos ganhavam vida própria, agarrando a roupa dele, a respiração misturada e acelerada dos dois se transformando na única fonte de calor das areias de Pedra do Dragão.

Outro trovão estourou sobre eles. Outro raio iluminou o céu de violeta e caiu na areia da praia ao longe, com um estrondo ensurdecedor que fez os dragões de ambos urrarem, assustados.

Vamos para dentro! Agora! – Rhaegar interrompeu o beijo e a puxou pela mão. Eles iriam acabar sendo atingidos se continuassem ali.

Os dois correram pelas areias grossas de mãos dadas, ensopados e com frio, até alcançarem as escadarias de pedra e os gigantescos portões de Pedra do Dragão. Os guardas das guaritas arregalaram os olhos quando avistaram eles dois e logo permitiram sua passagem, com mesuras profundas para Rhaegar.

Ele agora é o Senhor deste lugar. Lyanna se lembrou. A mão ainda entrelaçada na dele. Os pés o seguindo pela escadaria sem fim que se elevava para as enormes torres de pedra e cuja extensão certamente tiraria o resto de suas forças.

Eles avançaram pelos degraus com pressa, mas em algum ponto da subida, Lyanna tropeçou e sentiu uma dor aguda no tornozelo que a fez praguejar alto. Rhaegar a amparou, preocupado.

— Não vou aguentar subir isso tudo – Lyanna gritou para Rhaegar, por cima do vento furioso que parecia determinado a derrubá-los dos degraus escuros.

Vai sim – ele gritou de volta, passando o braço ao redor da cintura dela e a puxando junto com ele, à cada passada – Essa tempestade não vai melhorar! Precisamos entrar!

Ela estava esgotada quando finalmente alcançaram os portões do castelo. Rhaegar estava ofegante também, menos que ela, mas estava.

Lyanna se deixou cair no chão. Abraçando as próprias pernas. Tremendo de frio, de cansaço. De medo. O pé latejando dolorosamente. Outras partes dela também com sua própria dor. Seu coração. Sua consciência.

— Você está congelando. Vamos, Lya – Rhaegar pediu, mas ela negou, ainda respirando fundo. Precisando recuperar o fôlego por alguns instantes pelo menos.

Rhaegar passou os braços por suas pernas e suas costas e a levantou, apertando-a contra o seu peito, entrando no castelo iluminado por archotes.

Lyanna não resistiu. Não tinha forças para protestar, para dizer que aquilo era desnecessário. Mas de qualquer forma, sua atenção se voltou para o homem que os recebia agora.

Ela não estava exausta o suficiente para não constatar que não o reconhecia. E ela conhecia todo mundo que ocupava algum cargo em Pedra do Dragão. A ilha sempre fora para onde sua família ia quando queria algum sossego.

Altezas – o homem jovem e robusto, com trajes de guarda, os cumprimentou.

Torey. É bom revê-lo. Septão Torey de Pedra do Dragão agora, perdoe-me – Rhaegar o cumprimentou, como um sorriso, como se fossem velhos conhecidos.

— Nem eu me acostumei, meu Príncipe – o homem respondeu, com um pequeno sorriso. Lyanna arregalou os olhos. Septão? O irmão havia trocado o Septão de Pedra do Dragão?

— Porque você está com traje de guarda e com uma espada na cintura? Onde está o Capitão Chara? – Rhaegar falou, encharcando o saguão, olhando ao redor.

— No píer. Recebendo...cargas – Torey respondeu ao Príncipe, olhando cuidadosamente para Lyanna e trocando olhares significativos com Rhaegar.

— Ótimo – foi tudo que Rhaegar respondeu – Vamos subir para os aposentos principais. Não quero ser incomodado, a não ser que seja urgente.

Lyanna abriu a boca para protestar, mas tudo que conseguiu fazer num primeiro momento foi ranger os dentes e arregalar os olhos.

Antes que alguma palavra saísse, Rhaegar foi mais rápido e a beijou, pressionado os lábios brevemente nos dela.

Vou cuidar de você – ele disse, com carinho e com um brilho no olhar que a deixou totalmente sem reação.

— Como queira, Meu Príncipe – o jovem Septão concordou, com uma profunda mesura. Desviando o olhar deles dois. Com certeza dando o seu melhor para não parecer...surpreso demais.

Rhaegar subiu as escadarias de Pedra do Dragão até o mais alto dos andares com Lyanna tremendo de frio em seus braços, cruzando com alguns serviçais que reforçavam vitrais e fechavam janelas que estavam cedendo à força da tempestade que açoitava a ilha.

Todos olhavam espantados para eles dois quando percebiam quem estava passando, inclinando suas cabeças, trocando olhares especulativos graças a forma como Rhaegar fazia questão de não tirar os olhos dela, o rosto próximo o suficiente para que Lyanna sentisse o hálito quente dele sobre si.

Quando cruzaram a porta do quarto que sua mãe e seu pai ocupavam até então, mas que agora pertencia à Rhaegar, rapidamente duas servas surgiram trazendo lenha e pedras quentes para acender e alimentar a grande lareira do cômodo, em seu setor mais privado.

Lyanna foi colocada gentilmente na ponta da cama pelo irmão e ainda com as servas mexendo na lareira, ela arregalou os olhos ao ver ele se livrando da parte de cima das suas vestes e as jogando no chão, totalmente ensopadas.

As servas pareciam tão em choque quanto ela própria, se apressando e saíndo de cabeça baixa, olhando de canto de olho para os braços e o tórax do seu Príncipe e Senhor.

Porque, em nome dos Sete, você está tirando sua roupa? – Lyanna perguntou, irritada, assim que a porta se fechou.

— Porque esta molhada e eu estou com frio. Você deveria tirar a sua também. Vai adoecer. Seus lábios estão roxos – Rhaegar respondeu despreocupadamente, dando de ombros, remexendo com um ferro na lareira e fazendo as brasas estalarem mais altas.

Claro que Lyanna queria se livrar das vestes pesadas da água que agora empoçava no pé da cama e molhava o colchão. Mas ela preferia morrer congelada a fazer aquilo ali, na frente dele. Já estava sendo difícil não ficar simplesmente olhando demais para o corpo de Rhaegar. Para como ele havia ficado mais forte e bem definido.


— Estou percebendo o que você está querendo provocar aqui, Rhaegar, me beijando na frente do seu novo Septão, subindo enquanto me olhava daquele jeito, entrando comigo nesse quarto e arrancando suas roupas na frente da criadagem.... Você quer...gerar comentários! Quer testemunhas que espalhem por aí que me seduziu. Quer fazer disso algo sem volta! – Lyanna falou, estreitando os olhos para o irmão, que lentamente voltava a se aproximar de onde a tinha deixado na cama. Aquilo a fez se inclinar instintivamente para trás.

— E será que estou conseguindo? Seduzir você? – ele perguntou, se aproximando dela, enfiando o rosto em seu pescoço, o nariz roçando sua pele provocativamente.

Lyanna fechou os olhos e tentou não se deixar inebriar por ele, daquele jeito, sem nada cobrindo seu tórax, se projetando sobre ela.

— Você não se dá nem ao trabalho de negar! — ela disse, batendo no ombro dele e o empurrando sem muita força – Saia de cima de mim e se vista! Pare com isso! – ela falou, apontando o dedo para ele.

— Nunca gostei de ofender a inteligência de ninguém, muitos menos a sua, Lya. Então não, não vou negar — Rhaegar disse, passando a mão nervosamente pelos cabelos platinados cheios de grãos de areia, sacudindo-os, enquanto olhava nos olhos cinzentos e amedrontados da irmã – Hoje é o dia da verdade Lyanna. Eu já disse o que sinto. Já confessei o que fiz nesses últimos anos por causa do que sinto. Já disse o que quero. Eu quero você. Hoje. Agora. Para sempre. Quero você — ele voltou a se aproximar dela, com a respiração acelerada, o peito subindo e descendo de um jeito que prendia seu olhar.

Lyanna não o empurrou de novo. Não se afastou. Não conseguiu. Parecia paralisada.

— Você poderia não ter aceitado meu beijo lá em baixo. Poderia ter afastado seu rosto. Poderia ter exigido que a levasse para outro quarto. Ou ter me botado para fora desse. Ainda pode, aliás. Não tenho a intenção de desrespeitá-la – Rhaegar fez uma pausa, esperando que ela falasse algo. Para seu alívio ela permaneceu calada – Mas você não o fez. Estamos aqui. Os dois. E eu repito, tudo que eu quero é você – ele disse, se abaixando diante dela e livrando seus pés dos calçados.

Lyanna sentiu ao dedos dele apertando seus tornozelos, avaliando se ela estava muito machucada. Ela prendeu a respiração e gemeu. E não foi de dor. Seu coração estava ridiculamente acelerado com aquele simples toque das mãos de Rhaegar em seus pés.

— Não parece ter sido grave. Não está inchando – Rhaegar disse, finalmente – Pise no chão, veja se dói – ele pediu, estendendo a mão para ajudá-la a ficar de pé.

Lyanna hesitou por um segundo, mas acabou levando sua mão até a dele. Ele a puxou para cima e para perto. Perto demais.

— E então? – Rhaegar perguntou, com a voz rouca, precisando limpar a garganta.

— Não está doendo muito – Lyanna respondeu baixinho, consciente demais da mão dele apertando sua cintura. E de aquela pergunta não era apenas sobre seu pé.

Case comigo – Rhaegar pediu, suspirando pesadamente, olhando nos olhos dela.

Lyanna sentiu o peso que ele colocava naquelas duas palavras. A emoção. A necessidade. Sua garganta fechou enquanto ele aguardava em silencio. Imóvel. Os olhos violeta claramente esperando que ela mudasse de ideia. Que parasse de resistir à ideia. E muitas partes dela queriam ceder ao apelo mudo daqueles olhos.

— Rhaegar... – Lyanna falou, após alguns segundos – Não depende de mim. De nós. Nosso pai...as outras grandes casas...os temores à cerca da loucura Targaryen...a capital está cheia de pretendentes para nós dois...eles vão se sentir ofendidos...e nós somos...não podemos...nosso Pai...nosso Rei...ele nunca aceitaria – Lyanna continuou a falar, mas sem forças para se mover um centímetro sequer.

— Ele é nosso pai e nosso Rei e eu o amo e o respeito, mas não aceito sacrificar minha felicidade por ele. Você disse que não depende de nós. Eu não concordo. Pelo contrário, Lya. Depende apenas de nós – Rhaegar levou suas mãos para o rosto dela – Ele até pode se recusar a aceitar que queremos ficar juntos, mas não pode nos obrigar a casar com outras pessoas, Lya. Não escolha ninguém, então. E eu também não escolherei – Rhaegar pediu, buscando um fio de esperança no rosto da irmã.

— E depois? As pessoas perceberam algum dia... – Lyanna perguntou, os olhos ardendo – Não quero magoá-los...nossos pais não esperam isso de nós...Eles não merecem isso Rhaegar...e é perigoso. Os filhos de uma relação assim...Nosso avô...

— Estou disposto a arriscar. Nós somos normais. Nossa mãe é perfeitamente normal. Nosso avô, o irmão mais velho dela, também era. Nossos pais se amam e são parentes. Ninguém os impediu de viver o amor deles. Porque nós também não podemos? – Rhaegar perguntou à ela – Nós nascemos nesse quarto, Lya. Juntos. Desde o começo. Você é o meu destino. E não vou sossegar até vê-lo realizado. Não vou me casar com ninguém se não for com você – disse Rhaegar, voltando a beijá-la. Aliviado por ela não impedi-lo. Sentindo-a tremer em seus braços.

Lyanna sentia os dedos dele se enfiando gentilmente entre seus cabelos molhados. A boca dele se apertando perfeitamente contra a dela, como se eles fossem duas peças se atraindo, se encaixando.

— Tudo que eu quero é que você diga que está disposta a fazer a mesma coisa – ele interrompeu o beijo para dizer, o rosto colado nela – Eu já me declarei para você de todas as formas Lyanna...Me diga algo... Fale alguma coisa que não seja apenas apontar os obstáculos...– ele continuou pedindo, as mãos ainda acariciando sua cabeça, sua respiração vindo como ondas pesadas contra a pele sensível do rosto de Lyanna.

— Diga que quer se casar comigo. E eu voltarei para a Fortaleza Vermelha agora e cuidarei de tudo. Você pode ficar aqui enquanto os outros se acostumam com a ideia, se não desejar falar com nosso pai logo. Mas ele vai aceitar, vou fazê-lo aceitar. Juro que vou — Lyanna o ouviu dizendo, a boca mal descolando da sua, com os intensos olhos brilhando em expectativa, deixando-a tonta pela proximidade da boca que ela simplesmente queria continuar beijando, sem interrupção, sem pensar em coisas difíceis.


— Rhaegar...pare— ela pediu, apertando os braços dele – Não consigo pensar direito. Não assim...não com você me beijando o tempo todo – Lyanna reclamou, sem muita convicção. A boca de Rhaegar se esticou em um pequeno sorriso.

— Não consegue porque gosta de mim. Porque eu te afeto. Da mesma forma como você me afeta – Rhaegar falou, sentindo ela tentando se afastar – Pare de tentar resistir Lya, pelos deuses– ele pediu, e ela notou o medo voltando a dominar o rosto do irmão.

Ele parecia se dar conta que fazê-la admitir o que sentia, não era o principal problema. Ela não dizia com palavras, mas estava se deixando beijar por ele sempre que ele tentava. Mas admitir, corresponder aos beijos, não mudava nada.

— Rhaegar...nós não podemos... – ela começou a dizer, mas sua voz morreu. Ela apenas ficou balançando a cabeça diante do olhar quebrado dele.

A resposta é não. Tem que ser não. Por mais que eu queira dizer sim.

Ela então o sentiu deslizando para o chão. Agarrado em suas pernas.

Rhaegar...o que..- Lyanna balbuciou, sua garganta fechando.

Ele estava de joelhos. De joelhos. Os braços tremendo ao redor das suas pernas. O rosto tocando na altura das suas coxas. Lyanna sentiu o coração doer.

O que ele está fazendo? O que está fazendo?

— Não sei mais o que fazer – a voz do irmão dizia contra as vestes sujas e ensopadas dela – Eu.. sou seu Lyanna. Para o que você quiser fazer de mim. Hoje e sempre. Sou seu. Não me rejeite mais. Estou implorando à você. Não faça isso com nós dois – ele murmurava, humilhando-se diante dela.

Ele parecia...estar chorando. Agarrado nas vestes dela. De joelhos.

Levante— Lyanna pediu, chorando também – Não faça isso – ela tentou puxá-lo pelos ombros, suas mãos tremendo, seus olhos ardendo, o ar que ela respirava ardendo da mesma forma, mas ele só se agarrou mais às suas pernas – Não quero ver você ajoelhado assim diante de ninguém. De ninguém Rhaegar. Levante. Por favor. Levante – ela suplicou, com a voz mal saindo, pegando o rosto dele com as mãos e o forçando a olhar para ela.

Dos olhos dele lágrimas silenciosas escorriam. E ver aquilo, a quebrou por dentro.

Ela levou seus polegares ao rosto do irmão, limpando-as com pressa, reprimindo a dor de vê-las caindo.

Tudo que ela queria era não ser o motivo do sofrimento dele. Nunca.

Levante, Rhaegar — ela pediu, soluçando. Mas ele só se agarrava mais à ela. Os braços ao redor dos seus joelhos.

Rhaegar não tinha mais forças para argumentar. Não aguentava mais. Já tinha feito tudo. Dito tudo. Ele baixou o rosto para o tecido molhado das veste de Lyanna, sem saber o que mais poderia fazer.

Chega – ele ouviu ela dizendo. As mãos dela tentando puxá-lo pelos ombros.

Então era o fim. De nada tinha adiantado tudo aquilo. Ser sincero em tudo. Ter feito tudo o que ele já havia feito.

Chega, Rhaegar – Lyanna repetiu, puxando o rosto – Olhe para mim – ela pediu.

Não posso ser o motivo do seu sofrimento. Era o que ela queria dizer, mas nada saía, apenas mais e mais lágrimas escorriam pelo seu rosto.

E não vou ser. Não há capacidade em mim para ser. Chega.

O irmão sempre fora amado por ela de forma mais profunda e complexa do que ela jamais admitira. E por mais que ela não conseguisse dizer aquilo em voz alta...

Chega – ela repetiu, e abaixou sua cabeça até juntar sua boca à de Rhaegar, se rendendo.

Se rendendo de uma vez por todas à ele. Ao que ele queria. Ao que ela queria. Ao gosto da língua dele na sua. À vontade de deslizar suas mãos pelos ombros nus, por qualquer parte dele ao seja alcance.

Os olhos de Rhaegar estavam arregalados para ela, enquanto ele se colocava de pé, em meio ao beijo desajeitado, poque dessa vez ela não estava sendo beijada. Ela estava o beijando. Ela.

Eram as mãos de Lyanna que puxavam o pescoço de Rhaegar, que puxavam ele todo para junto de si. Para mais perto. Para virarem uma coisa só.

Ela sentiu as mãos de Rhaegar passando por suas costas, pelas tiras que soltariam suas vestes encharcadas, sentiu os dedos dele se enroscando nelas, querendo puxá-las.

Mas com um suspiro pesado em sua boca, ela também sentiu a mão dele afrouxar. E se afastar dali.

Lyanna puxou o braço dele e colocou sua mão de volta no mesmo lugar. Tremendo. Tremendo da cabeça aos pés.

Ela não queria mais sentir os tecidos molhados sob sua pele. Não queria mais. Precisava se livrar deles, precisa se cobrir da única coisa que realmente importava ali. Rhaegar.

Puxe – ela juntou coragem para dizer. E seu coração bateu ainda mais acelerado quando ele não hesitou.

Lyanna— ele murmurou seu nome, de um jeito totalmente...novo. Com desejo. Com possessão. Não era mais seu irmão ali. Aquilo, aquele laço, tinha acabado para eles, se é que realmente havia existido algum dia.

Algo novo se forjava entre os dois enquanto os dedos de Rhaegar puxavam o tecido dos seus ombros, dos seus braços. Os olhos violeta procurando os dela. Pedindo permissão. Sondando sua vontade.

Lya? – Rhaegar perguntou, engolindo em seco ao ver ao pele branca e reluzente dela ao alcance das suas mãos. Querendo ter certeza.

— Não me deixe pensar demais – ela respondeu, juntando suas mãos às dele. Apressando o que ele estava fazendo. Rhaegar sorriu.

Finalmente. Finalmente.

Lyanna o viu sorrir. Isso. É isso que quero provocar. Não lágrimas. Não dor.

Ela não queria pensar. Não queria parar. Estava se entregando à ele. Ao desejo que corria seu corpo feito os raios que cortavam o céu lá fora.

Não queria dar chance para a razão fazê-la titubear. Não queria ver o olhar ferido dele nunca mais. Nunca mais.

Rhaegar continuava despindo-a. Devagar. Sem quebrar o contato visual entre eles. Até soltar completamente a parte pesada das suas vestes, que se amotoaran no chão, entre os pés dois.

— Você quer mesmo isso? – Rhaegar perguntou no ouvido dela. Ele tremia. Tremia mais do que ela. E o coração de Lyanna se aqueceu com aquela reação. Ele realmente não tinha estado com outra? Aquilo seria verdade?

Lyanna soltou um gemidinho incontrolável. Ele agora estava roçando o nariz em seu pescoço. E beijando seus ombros. E levando sua boca para o vale dos seios dela, ainda cobertos com uma fina roupa de baixo, tão molhada e colada no corpo dela que ele com certeza via tudo havia para ser visto.

Mas ele logo puxou para baixo até mesmo aquele fino tecido, com um arquejo de sofrimento, quando ambos sentiram as peles dos dois juntas, se encontrando sem barreira.

Lyanna estava agora só com as anáguas que cobriam suas intimidades. As mãos de Rhaegar subindo e descendo pela sua cintura e por suas curvas. Trêmulas. Tão trêmulas quanto as dela mesmo.

— Amo você – Rhaegar murmurou nos ouvidos dela, enrolando as mãos em seus cabelos molhados e voltando a lhe beijar de um jeito que ela sequer sabia como descrever, de um jeito que só lhe restava sentir, de um jeito que a dominava por completo, que a marcava como dele, quer mudava tudo.

Rhaegar – Lyanna deixou escapar, emocionada. Sentindo seus olhos voltando a ficar úmidos.

Ela não conseguia dizer de volta. As palavras simplesmente não passavam por sua garganta. Mas ela sentia. Ela sentia algo poderoso arrebentando dentro de si. Algo grande demais para ser contido.

— Quero que você seja minha – Rhaegar pediu, beijando os cantos da boca dela, passando os dentes por seus lábios. Um dos tantos pedidos que ele já havia feito para ela naquela madrugada tempestuosa – Se você não quiser a mesma coisa...diga agora Lya... – ele avisou, as mãos descendo até suas coxas, entrelaçando as pernas dela nos quadris dele, os dois caindo na cama.

— Eu...quero – Lyanna falou. Não alto e forte como deveria. Mas o suficiente para que ele olhasse aliviado para ela, para que a fizesse pensar que aquele olhar violeta intenso, era o mais bonito de todo o mundo e que agora era dela.

Ela havia fechado os olhos quando sentiu as mãos deles puxando suas anáguas. Havia fechado os olhos ao perceber que ele tirava o resto das roupas. Queria olhá-lo. Mas não era corajosa o suficiente.

— Olhe para mim – ele pediu, quando se juntou à ela, quando cobriu o corpo dela com o seu, quando a cobriu de beijos.

— Estou nervosa – ela confessou, aproveitando a sensação das pernas deles misturadas.

— Sei que você não acreditou em mim...mas eu também estou – Rhaegar falou, entre um beijo e outro – Eu me sinto como...como se meu coração, minha barriga e minha alma estivesse todos lutando para sair de mim e se misturar à você, Lya. E eu não sei como fazer que isso aconteça direito – ele confessou.

Lyanna o beijou profundamente. Possessivamente.

— Apenas...faça – ela pediu. E o aceitou dentro de si. E junto com a dor, com as sensações desconhecidas, veio também o pertencimento.

Veio também a sensação de viver e morrer e renascer. Tudo ao mesmo tempo. Tudo com ele. Por ele. Junto à ele.

Os movimentos dele, cada beijo, cada toque em seus quadris, cada olhar profundo, eram dor e prazer. Eram um elo. Uma parede se erguendo em torno deles dois, transformando aquele momento em um lugar onde apenas eles dois existiam e importavam.

—*-

— Isso realmente é real? – Rhaegar sussurrou, tocando no rosto dela.

Eles já estava calados à tempo demais. Deitados de frente um para o outro. Apenas se olhando, enquanto os raios do sol que acabara de nascer entravam timidamente pelos aposentos cavernosos.

— Me diga que eu não estou sonhando – Rhaegar a puxou para seus braços. E ela foi. Sem resistir. Sem dizer nada. Ele gostava daquilo. Ele queria aquilo pelo resto dos seus dias. Ela. Ao alcance dos seus abraços.

— Não está. Mas não significa que não possa virar um pesadelo – Lyanna respondeu, com um olhar preocupado, mas o abraçando, deixando todas as partes dos corpos dos dois em contato direto.

— Não vai virar. Não vou deixar que vire – Rhaegar garantiu, beijando o rosto dela seguida vezes, apreciando a expressão de satisfação que ela estava fazendo ao receber cada beijo – O que aconteceu aqui...isso significa que você vai casar comigo, certo? – ele perguntou, buscando os olhos cinzentos dela, ansioso. Ela não tinha sido muito eloquente diante de tudo o que ele havia pedido.

— Você não acha que eu que deveria estar fazendo essa pergunta para você?– Lyanna falou, com um pequeno sorriso – Afinal eu que sou a donzela desvirtuada aqui.

Não é mesmo. Por mais que você não queira acreditar, mas eu também acabei de perder minha virtude. Você, Princesa Lyanna, da Casa Targaryen, tem a obrigação moral de assumir sua responsabilidade comigo – Rhaegar rebateu, sério apenas por um minuto, mas logo se rendendo à um sorriso que a fez sentir vontade de beliscá-lo.

— Você parecia saber o que estava fazendo muito bem...- Lyanna deixou no ar.

— Fico feliz em saber. Significa então que eu não fui um completo desastre e que você logo vai querer fazer de novo? Diga que sim, por favor – ele pediu, com a cara que sempre fazia quando queria algo das pessoas.

— Você sabe que não foi...- Lyanna respondeu, sentindo o rosto aquecer, esfregando a mão pela cara de Rhaegar, cobrindo o sorriso convencido que surgia ali. Resistindo à vontade de beija -lo e sim, fazer exatamente tudo de novo.

— Para sua informação, você foi uma primeira vez perfeita também – ele falou e com um tom um pouco mais triste, completou – Por mais que não acredite que tenha sido a primeira.

— Porque eu? Porque você me esperaria? Porquê? Você é homem. Não existem consequências maiores para vocês... – Lyanna se viu perguntando. Querendo saber, querendo acreditar de verdade.

— Quando eu decidi beijar outras garotas...tentando fazer ciúmes em você...tentando fazer minha cabeça parar de pensar em você...não nego que eu senti vontade...alguma vezes – Rhaegar começou a falar, cuidadosamente, a apertando mais em seus braços, como se para impedi-la de fugir ao ouvir aquilo.

— Mas...elas não eram você. Meu corpo reagia, mas eu queria que fosse com você, queria que fizéssemos isso juntos. Eu não...eu não suportava a ideia de outro homem tocar em você um dia. Eu queria que você soubesse...sentisse....a mesma coisa – ele tentava explicar.

— Que...coisa? – Lyanna perguntou, a voz quase não saindo.

— Que eu sou seu. E apenas seu – ele disse, encolhendo um pouco os ombros e suspirando. Como se o que falasse fosse uma verdade simples e incontestável. Óbvia.

Lyanna ponderou nas palavras. Na expressão dele. Nas memórias recentes, ainda sendo costuradas ao seu coração, mas já forjadas ao seu corpo.

— Eu...acredito em você – Lyanna falou, com um suspiro.

— Graças ao Sete – Rhaegar respondeu, aliviado, feliz, leve, a boca procurando a dela e deixando ali um beijo gentil, quando lembrou de como aquela conversa tinha começado – Sim, então...Você vai casar comigo...certo? – ela ainda não tinha respondido a maldita pergunta.

— Bem...algumas linhas não devem ser cruzadas. Você já me fez cruzar esta. Não há mais como voltar atrás – respondeu Lyanna, propositalmente dando de ombros, como ele tanto gostava de fazer, enquanto encarava o teto do quarto, até ver o rosto de Rhaegar surgir sobre ela, o nariz colado no seu, fazendo-a perder o fôlego por um momento.

— Você é a pessoa mais irritante que eu conheço, sabia? – disse Rhaegar, balançando a cabeça dramaticamente.

— Porque? – Lyanna quis saber, sentindo sua garganta secar ao sentir as pernas dele se entrelaçando nas suas de novo, todo o peso dele sobre ela mais uma vez.

— Porque só você seria capaz de dizer sim à um pedido de casamento, sem realmente dizer – disse Rhaegar, sorrindo a contragosto para ela, precisando puxar o ar com mais força para os seus pulmões com a visão dela sob ele, os cabelos negros soltos, embaraçados e espalhados pelos lençóis, os lábios rosados e inchados dos beijos que já haviam trocado, tão convidativos...

Eu te odeio, você sabe dissoLyanna respondeu, passando os braços ao redor do pescoço dele. Ciente de que sua boca dizia uma coisa e seu corpo fazia outra.

Não odeia não— ele respondeu, com um sorriso presunçoso, sentindo as mãos dela em sua nuca, os dedos se enterrando em seus cabelos – Você me ama – ele afirmou, encostando seus lábios nos dela muito de leve e de forma rápida, apenas para ver ela os abrindo, demonstrando para ele que queria mais.

— Você me ama. E me quer— Rhaegar sussurrou no ouvido dela, ouvindo o suspiro pesado que ela soltava, sentindo o coração dela batendo acelerado colado ao peito dele – E eu serei só seu. Sempre fui – ele falou, se encaixando entre as pernas dela.

Acho bom que sejaLyanna falou, antes de puxar o rosto do irmão para si e beijá-lo. Beijá-lo como sempre quis beijar. Como sempre quis ser beijada por ele. Só por ele.

— Algo me diz que você vai ser ciumenta como a nossa mãe – Rhaegar comentou, sentindo ela entrelaçar as pernas nele, feliz por tudo aquilo, por a realidade de estar com ela, se mostrar superior aos seus melhores sonhos.

Presunçoso. Saia de cima de mim – Lyanna pediu, sem muita convicção, com todos os nervos do corpo em êxtase.

— É o que você quer? Suas pernas...- Rhaegar disse, tocando em toda a extensão de uma delas – Estão me apertando...

— Não. Não é – foi o que ela conseguiu responder, antes que ele a calasse completamente.

—*-

Daenerys acordou sozinha na cama naquela manhã. Mas não se surpreendeu. Jon era teimoso. E incapaz de fazer repouso direito, quando precisava. Ainda mais em um dia como aquele.

As comemorações finalmente haviam acabado, sem maiores incidentes com os rebeldes Dorneles, o que já havia sido uma vitória das medidas de segurança determinadas por Verme Cinzento e Arya.

E, como combinado, o primeiro compromisso do dia seria a reunião com o Pequeno Conselho para que os filhos anunciassem suas escolhas.

Conhecendo o marido como conhecia, ele já deveria ter rodado a Fortaleza Vermelha toda, apenas para se distrair. Ia ser difícil para ele entregar Lyanna para outro homem. Vê-la indo embora.

Mas ela não tinha tempo para ficar remoendo isso. Estaria ao lado do marido, quando a hora chegasse. Pelo adiantado da hora, ela já estava praticamente atrasada para a reunião.

Daenerys estava a caminho da sala do Pequeno Conselho na Fortaleza Vermelha, acompanhada de sua escolta pessoal, imaginando que Jon e todos os outros já estariam lá, quando viu algo que que chamou sua atencão.

Os lobos dos filhos acuando dois Imaculado, as portas que davam para o pátio externo completamente abertas e nenhum dragão do lado de fora.

O que está acontecendo aqui? Onde estão Stormfyre e Khaleeth? — ele perguntou, com um mal pressentimento, apontando para fora, se aproximando dos lobos gigantes pelas costas, com cautela, vendo a loba de Lyanna virando o focinho para ela, enquanto Blackfire continuava mostrando as presas para os guardas.

Seus filhos, Majestade. Saíram há algumas horas, antes do sol nascer, ainda de madrugada, durante a tempestade. Tentamos impedir a Princesa mas... E depois o Príncipe a seguiu. E deixou os lobos aqui... Quando tentamos sair para avisá-los os lobos nos impediram. Não quisemos tentar passar pelos animais e os machucar – respondeu um dos Imaculados, envergonhado e agarrado à sua lança enquanto olhava nervoso para o lobo negro gigante.

Eles saíram nos dragões? No meio daquela tempestade? – perguntou Dany, preocupada.

— A Princesa veio primeiro. Eu tentei impedi-la, mas...o que poderíamos fazer contra esses lobos? – disse outro guarda, olhando para Blackfire com medo.

— O Príncipe foi atrás dela, Majestade. Ele disse aos lobos que não noa deixassem avisar ninguém. E estamos aqui deste então – o Imaculado continuou explicando apressado, evidentemente nervoso.

Daenerys caminhou até as portas abertas, olhando para o céu, sem entender nada. O que estava acontecendo?

Blackfire. Lys. Se afastem desses homens – disse Daenerys, torcendo para os lobos a obedecerem. A loba se afastou assim que ela falou, mas não Blackfire, que ainda deu mais um passo à frente, assustando os guardas, para só depois seguir até onde Lys estava.

Daenerys observou em silêncio, estarrecida, o lobo negro circular ao redor de Lys, cheirando-a, estufando seu peito, como se os dois estivessem em meio à um ritual que à ela parecia ser de cortejo ou de dominação, ela não saberia bem dizer, só sabia que não conseguia desviar o olhar.

A loba da sua filha parecia estar com medo do lobo negro, duas vezes o tamanho dela, e Dany por um momento temeu que ele fosse machucá-la por ter obedecido o seu comando, mas para sua surpresa, Lys se aproximou do lobo negro e o lambeu no rosto.

E Dany sentiu um arrepio frio ao ver aquilo.

Os lobos...aquilo parecia um...um ritual de acasalamento.

Dany desviou o olhar quandos os lobos correram para o pátio externo, obrigando-se a mover seus pés na direção para onde estava indo, não querendo ver o que os animais iriam fazer, enquanto continuava olhando para o céu, alguma coisa dentro dela lhe dizendo que algo estava acontecendo com seus filhos.

Entre seus filhos.

Assim como entre seus lobos.

E se aquilo fosse verdade...ela não queria nem pensar no que poderia acontecer.