Forbidden

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Feliz 2021!

Pedra do Dragão

O sol já havia nascido há algum tempo, tímido e pálido, em meio às nuvens ainda cinzentas e pesadas, resquício da tempestade da noite anterior.

Rhaegar ainda não havia pregado o olho mas sabia que já precisava levantar, ainda que não estivesse com a menor vontade de se mexer.

Ele não queria interromper o que seus olhos apreciavam. Nem se afastar do que suas mãos podiam tocar.

Lyanna dormia em seus braços. A cabeça apoiada em seu ombro, o braço dela por cima do seu peito. As pernas, misturadas com as dele. Os cabelos espalhados. O rosto sereno.

Linda. Linda de tirar o seu fôlego. Ele pensava. Minha. Ela agora é minha.

A única que ele quis, finalmente havia acertado, finamente havia se rendido ao que havia ao fio inquebrável e complexo que os unia além do vínculo fraternal.

Ele nunca mais a chamaria de irmã. Aquilo não cabia mais entre eles. Não era adequado. Não era suficiente. Ela seria sua mulher. Sua esposa. Sua companheira. Mãe dos seus filhos. E sua Rainha um dia.

E que Rainha ela seria.

Ele mal acreditava que os dois realmente estavam ali, daquele jeito. Que ela finalmente tinha cedido. Que os dois tinham feito amor. Juntos. Pela primeira vez. E pela segunda vez.

E, que os Sete os salvassem, ele já ansiava pela terceira vez.

Mas teria que ficar para depois. Ele sabia que dentro de pouco tempo o Pequeno Conselho estaria reunido. E ele tinha que estar lá. Tinha que pegar seu dragão e partir logo, se quisesse chegar à tempo.

Lya— Rhaegar a chamou baixinho, beijando seus cabelos. Fazendo carinho em seus braços. Não deixando de pensar no quando a pele dela era macia e quente e perfeita para as mãos dele.

Lya? – Rhaegar chamou de novo, agora vendo-a abrir seus olhos de tempestade, cinzentos com aqueles fios violeta, tão semelhantes ao céu da noite anterior, que a sensação de contemplá-los o arrepiava – Desculpe acordar você – ele deixou outro beijo, agora na testa dela. E desceu para o nariz. E depois para as bochechas. E por fim para a boca, mas não aprofundou o beijo. Se fizesse isso, não sairia daquele quarto nunca.

— Como você está? – Rhaegar perguntou, enquanto ela voltava a fechar os olhos, se aconchegando à ele.

— Com sono – Lyanna respondeu, preguiçosamente.

— Não me referi à isso – Rhaegar bufou e sorriu, olhando para a mancha de sangue nos lençóis. Eles haviam se afastado dela e deitado juntos do outro lado da grande cama.

— Hum – Lyanna murmurou, abrindo os olhos de novo, à contragosto, e o encarando com timidez – Estou bem – foi tudo que ela disse, puxando os lençóis para mais perto do corpo, com vergonha da própria nudez.

Quando tentou se afastar mais dele, Rhaegar não deixou.

— Eu já vi tudo que você está tentando esconder – ele falou, vendo ela corar – E como quero continuar à ver...Preciso voltar para Porto Real – Rhaegar falou, pegando no queixo dela e a beijando de leve outra vez.

Lyanna corou ainda mais. E ficou bastante séria.

— Eu vou sozinho. Vou falar com todos – Rhaegar a acalmou, apertando ela com carinho.

— Acho que seria melhor eu ir junto... – Lyanna falou, mesmo parecendo extremamente infeliz com a ideia.

— Não precisa. Eu resolvo isso. Você fica aqui. Descansando, dormindo um pouco mais. Assim que a reunião terminar, eu volto – ele garantiu – Prometo à você que vai dar tudo certo.

— Espero que sim – Lyanna suspirou – Não estou pronta para encarar nosso Pai, eu acho – ela disse, angustiada, quando notou o olhar temeroso de Rhaegar – Também não estou ansiosa para voar de dragão nesse momento... Imagino que não seria nada agradável para mim agora – ela tentou brincar. Não queria que ele achasse que ela estava voltando à trás. Que poderia mudar de ideia.

— Você está sentindo alguma dor...algum desconforto? – Rhaegar quis saber, se sentando e a levando junto, observando atentamente os movimentos dela, ele mesmo ajeitando o lençol para que os seios dela continuassem cobertos.

— Estou bem. Já disse – Lyanna respondeu, revirando os olhos, mas agradecida pelo gesto cavalheiro dele de cobri-la – Só estou cansada. Quero voltar a dormir. Então se você acha que resolve tudo sozinho...tudo bem – ela completou, parecendo dividida entre a vergonha por não querer ir e o alívio por ele achar que conseguia resolver sozinho.

— Não se preocupe – Rhaegar garantiu – Desde que você queira a mesma coisa que eu, vai dar tudo certo – ele disse, vendo-a acenar sutilmente. Eu quero. Os olhos cinzentos confirmavam, ainda cheios de culpa e de medo.

Rhaegar sabia que demoraria um tempo para que ela se acostumasse com aquilo. A não sentir culpa. A não achar que estavam fazendo algo errado. E ele entendia. Ele não sofria pelos mesmo a dilemas morais dela, mas compreendia. E teria paciência.

— Quase posso ouvir as voltas que sua cabeça está dando daqui, sabia? – Rhaegar falou, colocando alguns fios de cabelo atrás da orelha dela – O que você está pensando? Diga para mim – pediu ele.

— Eu...eu só não consigo entender porque eu— Lyanna confessou, baixinho, mordicando os lábios nervosamente – Porque você faria isso tudo para ficar comigo...porquê? Eu ...eu sou tão diferente de você. Não sei elogiar as pessoas, como você. Não sei falar do que eu sinto. Não sou simpática. Não sou...tantas coisas – ela continuou falando, cada vez mais baixo, cada vez mais triste – Como você pode gostar de mim? Justo de mim?

— Quer saber porque eu gosto de você, Lya? Porque eu amo você? É isso? – Rhaegar resumiu, ela não o encarava – Eu poderia fazer uma lista de motivos. Mas tudo se resumiria, talvez, a nós dois sermos duas metades de um todo. É assim que eu me sinto. É o que me faz querer tanto você – Rhaegar entrelaçou os dedos nos dela.

Lyanna olhou para as mãos deles juntas e apertou com força. Rhaegar levou a mão dela até seus lábios e a beijou. E depois mordeu. De leve. Para espantar a preocupação nos olhos dela.

Ai— Lyanna puxou a mão – Não me morda! – ela tentou brigar com ele, mas falhou. Rhaegar sorria provocativamente para ela e aquilo a deixava sem nenhuma firmeza.

— Não me peça isso. Eu ainda vou morder você toda. Acredite em mim – ele falou, vendo ela se encolher na cama, agarrando-se mais ao lençol, o rosto enrubescendo, os cílios longos piscando depressa.

— Você não tinha que ir? – ela o lembrou, engolindo em seco. Tentando não pensar na ideia dos dentes e da boca insolente de Rhaegar pelo seu corpo.

— Tenho – Rhaegar falou, parecendo lamentar bastante – Quer que eu peça para trazerem algo para o seu desjejum? – ele perguntou, tocando no rosto de Lyanna, respirando fundo com a beleza dela. Com o quanto ela mexia com seu coração. E com o quanto suas mãos pareciam não conseguir ficar longe da pele dela.

— Não. Não estou com fome. Prefiro voltar a dormir – ela respondeu, se acomodando nos travesseiros.

— Então vou dizer para que não a incomodem – Rhaegar afirmou, já pronto para se levantar, quando sentiu ela tocando na sua mão.

— Tenha cuidado. Arrume uma armadura e a use durante o vôo. E quando chegar lá...argumente sem provocações e de forma respeitosa. Escute as opiniões dos membros do Conselho sem interrompê-los de cara, como você geralmente faz... – ela o aconselhou.

— Como queira, minha senhora — Rhaegar abriu um sorriso satisfeito, gostando de ver ela ficar desconcertada com o tratamento.

— Estou falando sério – Lyanna disse, ainda mais preocupada.

— Eu sei. Eu sei. Mais alguma coisa? – Rhaegar perguntou.

Lyanna permaneceu em silêncio, olhando-o intensamente. Rhaegar não conseguia decifrar o que se passava na cabeça dela, mas gostou do que acabou por ouvir.

Não demore— ela falou, se cobrindo melhor com os lençóis, mas ainda o encarando.

Um pedido. E uma ordem. Uma confissão indireta da necessidade dela por ele. Rhaegar sorriu. Aquele era o jeito dela de dizer que o queria ali. Que precisava dele.

— Só vou lá soltar a bomba e convencer à todos de que não tem problema nenhum...e então volto para você. Tente não sentir muita saudade – Rhaegar garantiu, com uma piscadinha para ela, finalmente se levantando da cama, sem se preocupar em se cobrir, controlando um sorriso quando ela virou o rosto para o outro lado e fechou os olhos apressada.

— Boa sorte – ela murmurou, ignorando as provocações dele.

— Eu faço a minha sorte, Lya – ele garantiu, saindo para se refrescar e se trocar.

Era hora de testar se ele tinha feito tudo direito.

—*-

Acompanhado de Torey, Rhaegar descia para o nível do mar, observando os navios atracados no píer da ilha sendo descarregados sob o olhar atento e vigilante do homem magro e alto, a capa de pele de urso marrom balançando ao vento.

— Um figura curiosa esse seu novo capitão de guarda, Alteza – Torey comentou, também olhando para o capitão Chara.

— Ele é – Rhaegar confirmou – Um verdadeiro achado. O melhor negociante da minha frota.

— Ele mal fala, Alteza. Como pode ser um bom negociante? – Torey sorriu, olhando para os céus ao ver Stormfire passando e circulando por perto, à espreita do seu dono.

— Não seja dramático Torey. Logo você, que conviveu com homens que fizeram voto de silêncio? O Capitão Chara fala. Quando é necessário. Mas geralmente apenas um olhar resolve qualquer problema – Rhaegar pontuou, achando graça da expressão do jovem Septão.

— Claro que resolve. Quem quer ficar encarando aqueles olhos, meu Príncipe? – Torey cochichou – Aliás, como alguém pode ter olhos tão...

— Eu não perguntaria isso à ele, se fosse você – Rhaegar riu, baixando o tom de voz também, já estavam chegando perto da movimentação nas docas estreitas encravadas e escondidas entre as pedras da orla da ilha – Mas, vou lhe dizer o que eu sei. Ele conta que nasceu cego. Uma feiticeira de Volantis o tratou. Ela conseguiu fazê-lo enxergar mas seus olhos ficaram...diferentes— Rhaegar explicou.

O Capitão Chara tinha olhos amarelados. Não apenas as íris. Mas totalmente e sinistramente amarelados, todo o globo ocular. E ninguém gostava de encará-lo mais que o necessário.

Apenas Rhaegar o fazia. E talvez por isso, o homem fosse tão devotado à ele. Sua magreza e altura escondiam um homem extremamente habilidoso com a espada. E seus olhos de aspecto doentio impediam que as pessoas vissem a mente determinada e inteligente por trás deles. Mas Rhaegar vira. E o quisera ao seu lado.

— Capitão – Rhaegar o chamou. O homem imediatamente se prostrou sobre um joelho diante do Príncipe e permaneceu assim até que Rhaegar tocasse em seu ombro.

Alteza – Chara o cumprimentou – Septão Torey – ele se dirigiu ao acompanhante de Rhaegar.

— Tudo bem até aqui? – Rhaegar perguntou.

— Os últimos baús estão sendo descarregados. Tudo pronto para comerçarmos a conferência. Nenhuma moeda de ouro faltará Alteza, tem minha palavraChara garantiu.

Rhaegar acreditava naquilo. Já tinha tido muitas provas da competência e da honestidade ferrenha do capitão.

— O cofre ficou pronto, Torey? – Rhaegar perguntou.

Aquela insanidade? Graças à intervenção dos Sete, sim – o Septão respondeu, esfregando as têmporas.

— Você está dramático hoje, Torey – Rhaegar sorriu – Infelizmente não terei tempo de ver o local agora. Preciso partir para Porto Real, mas volto ainda hoje e quero os dois comigo lá – Rhaegar olhou para a sombra alada cor de cobre e logo o dragão pousou nos pedregulhos próximos.

— Como queira, Alteza – Torey respondeu. O Capitão Chara apenas acenou em concordância. E com um olhar de Rhaegar, voltou a fiscalizar o descarregamento.

— A Princesa...- Torey levantou o assunto, quando os dois ficaram sozinhos.

— Não deve ser incomodada. Ela precisa descansar – Rhaegar ordenou – Se ela pedir alguma coisa, tratem-na como tratariam a Senhora de Pedra do Dragão.

Torey não pareceu totalmente surpreso. Mas ainda assim, ergueu as sobrancelhas.

— O Rei e a Rainha já sabem? – o Septão perguntou.

— Vão saber assim que eu chegar na capital – Rhaegar respondeu ao amigo, que pareceu preocupado – Cuide de tudo enquanto eu volto, mas pricipalmente da segurança dela. Quase não vi guardas pelo Castelo – Rhaegar observou.

— A maioria está aqui, Alteza. Com essa quantidade de ouro.. – Torey começou a se justificar.

— Mande os melhores para lá agora mesmo – Rhaegar o interrompeu, tocando no ombro do Septão – Ela vale muito, muito mais que todo esse ouro.

Torey acenou em concordância. E saiu para obedecer as ordens que havia recebido.

Rhaegar caminhou com cuidado, escalando os pedregulhos para alcancar Stormfire. As placas de metal que cobriam seu corpo não facilitavam seus movimentos. Mas sim, ele havia obedecido ao pedido de Lyanna.

Ela sempre se preocupara com ele. Aquilo era um fato. Mas que ela o fizesse pelos motivos reais agora, o deixava muito mais disposto a atendê-la.

Sem demora, Rhaegar levantou vôo em seu dragão acobreado. E os dois cortaram o céu em velocidade. Era chegada a hora de todos saberem que Lyanna seria sua mulher.

E ele estava atrasado para dar aquela magnífica notícia.

—*-

Porto Real

Quando Daenerys chegou na sala do Pequeno Conselho, todos já estavam lá, menos ela e os dois filhos.

— Rhaegar e Lyanna não estão como você? – Jon perguntou, no momento em que ela cruzou pela porta.

Dany não sabia o que dizer. Seu coração estava doendo. Sua vontade era de não ter ido até ali e sim de ter saído com Drogon pelos céus à procura de Rhaegar e Lyanna, mas algo a impediu. Talvez a visão dos lobos dos dois. Ela ainda não sabia dizer ao certo.

Deuses. Me ajudem. Meus filhos. Pensava Dany, sem conseguir deixar seu pensamento ir muito além disso. Se perguntando se sua intuição estava lhe pregando uma peça de mau gosto ou não.

Onde estão eles? – Jon perguntou, olha do para ela, olhando para todos. Esperando que alguém soubesse lhe responder. Dany suspirou fundo.

— Não estão na Fortaleza – respondeu Dany, sem se sentar – Acabei de saber que Lyanna aparentemente saiu com Khaleeth ainda durante a madrugada. Parece que Rhaegar a seguiu logo depois com Stormfire. Então...nem eles nem os dragões estão aqui – Dany continuou falando, com a voz grave.

— Chamem os guardas dela aqui. Como eles deixaram ela sair à noite, em meio aquela tempestade? – disse Jon, pondo-se de pé.

— Já falei com eles. Foram acuados por Blackfire e por Lys. Não puderam fazer muita coisa. Nossos filhos têm lobos e dragões, Jon – disse Dany, percebendo o olhar afiado de Tyrion sobre ela.

— O que está acontecendo, afinal? – perguntou Jon – Você não perguntou à eles o que viram antes? – ele quis saber.

— O que sei é o que acabei de falar... – Dany respondeu.

— Calma, Jon. Eles devem estar nervosos com essa reunião. Em breve devem estar de volta – disse Sam Tarly, tentando acalmar o amigo.

— Vou atrás deles...com Drogon – Dany sugeriu, querendo fazer alguma coisa.

Não— Jon contrapôs – Não vou ter vocês três em dragões pelo céu com essa maldita ameaça do Dorne nos rondando. Nem pensar – ele descartou.

— O Rei tem razão. Não seria prudente e além dos mais... – concordou Tyrion, ainda olhando para Daenerys de um jeito desconfiado – Sua Majestade está bem? A Rainha parece pálida – a Mão do Rei observou. Todos os presentes a observaram melhor. Danny engoliu em seco.

— Estou preocupada. A tempestade de ontem foi violenta, mesmo para os dragões... – Dany falou. Não era mentira. Mas não era também toda a verdade por trás do estado de nervos dela.

— Eu vou procurá-los. Não volto enquanto... – Jon começou a dizer, quando as portas da sala se abriram de novo e Rhaegar entrou por elas.

— Não vai ser preciso. Bom dia. Majestades, Milordes— disse Rhaegar, olhando para seus pais e notando o rosto preocupado da sua mãe.

Pela jeito como a Rainha o olhou ele podia jurar que, de alguma forma, ela descofiava da verdade.

Onde está sua irmã? – Jon perguntou imediatamente, com a voz grave e preocupada.

— Em Pedra do Dragão – respondeu Rhaegar, calmamente, mas sem se sentar, observando que o pai já estava tenso.

Pedra do Dragão? — repetiu Jon – Porque ela não está aqui? Ela está bem? O que aconteceu? – o Rei perguntou.

— Ela está bem. Não veio porque não havia necessidade. Essa reunião é para que eu e ela anunciemos com quem escolhemos nos casar e eu estou aqui para falar por nós dois – explicou Rhaegar, vendo todos olhando dele para o seu pai.

— Você vai falar por ela? – estranhou Jon, encarando Daenerys, e vendo com a esposa parecia petrificada ao olhar para o filho.

— Sim. Já fizemos nossa escolha – Rhaegar começou a dizer, respirando fundo – Eu escolho me casar com Lyanna e ela escolhe se casar comigo – Rhaegar falou, calmamente, vendo o pai dar um passo para trás como se tivesse sido atingido por um soco. A cadeira que ele ocupava virou e caiu no piso, com um baque surdo que se seguiu de um silêncio mortal na sala.

O que você disse? – perguntou Jon, sem acreditar no que estava ouvindo.

— Ninguém será uma rainha melhor que ela. E assim, ela nunca precisará ir embora. Lyanna é quem eu escolho — repetiu Rhaegar, vendo o rosto do pai ficando pálido.

Vocês são irmãos – Jon disse, com a voz ainda calma, mas gelada.

— Somos do sangue da Antiga Valiria. Somos dragões— respondeu Rhaegar, sem se intimidar. Os membros do Conselho pareciam ter parado de respirar. As mãos do seu pai tremiam, apoiadas sobre a mesa, a cadeira ainda caída no chão.

— Príncipe. Eu entendo que talvez você não queira ver sua irmã indo embora. Eu não quero. Ninguém aqui quer – Tyrion interviu, limpando a garganta – Mas um casamento entre vocês dois causaria grandes problemas com a Fé dos Sete. Eu sei bem do que chamavam meus irmãos e os filhos deles. Acredite, você não quer isso para si próprio. Nem para sua irmã, por mais nobre que sua escolha pretenda ser...

— Perdoe-me, Lorde Tyrion, mas nós não somos Lannisters. Não somos iguais às outras casas. Somos Targaryens. E não. Não seremos chamados de abominações, como sua irmã e os filhos dela foram, porque nós não teremos problemas com a Fé— interrompeu Rhaegar, lembrando dos conselhos de Lyanna, mas já os ignorando. Se ela estivesse ali, certamente estaria olhando com repreensão para ele.

— Como você pode ter tanta certeza, meu rapaz? É uma questão muito delicada – argumentou Tyrion.

— Poderia ser se o Alto Septão não fosse um Excepcionalista. Ele acredita na doutrina dos Sete de que senhores de dragão são diferentes. Ele não criará obstáculo para celebrar o casamento. E se o Alto Septão nos abençoar, quem dirá que ele está errado? – rebateu Rhaegar, vendo que todos pareciam em choque.

— Você tem certeza disso, Príncipe? – disse Tyrion, espantado com a notícia, olhando de relance para Jon, vendo o Rei respirar ruidosamente.

— Tenho – disse Rhaegar, encarando o pai. Se preparando para a explosão que viria à qualquer momento.

— Você...chegou a falar com o Alto Septão sobre isso? – perguntou Daenerys, sem acreditar nas palavras do filho.

Ele foi escolhido por isso. Mas revelar esse fato não o ajudaria. Eles não precisavam ter conhecimento das suas artimanhas.

— Sim. Ele é um Excepcionalista convicto. E todos aqui sabem o quanto Barth é bem relacionado e respeitado por todas as alas da Fé – afirmou Rhaegar, com segurança – Logo isso não será um problema. Eu e Lyanna vamos nos casar— ele concluiu, encarando a única pessoa ali que realmente importava. Seu pai.

Chega – disse Jon, saindo do seu lugar na mesa e caminhando na direção do filho, fazendo Dany sair do seu lugar apressada, para seguir o marido.

— Jon, tenha calma – ela pediu.

— Chega dessa sandice. A resposta é não. Não. Eu não aceito. Não dou minha bênção. Não permito. Vocês são meus filhos! Meus filhos! E isso é errado. E poderia ter sérias consequências! Portanto, não me importo se os deuses concordam, se o Alto Septão concorda, se o povo concorda.... Eu não concordo! – disse Jon, diretamente para Rhaegar, a poucos passos de distância do filho, os dois em pé se encarando.

— Não vamos nos casar com mais ninguém, então – desafiou Rhaegar, não cedendo ao olhar irado do pai. Ninguém do Pequeno Conselho pronunciou uma palavra sequer.

— Não me desafie, garoto! Desista dessa ideia! Você não vai casar com a sua irmã! – disse Jon, respirando fundo, fazendo esforço para permanecer onde estava. Daenerys agora ao seu lado, entrelaçando um braço no de Jon.

— Filho...- Dany começou a falar, mas Rhaegar a interrompeu.

Nós nos amamos, mãe – ele falou, olhando diretamente para ela. O choque no rosto da Rainha era abismal.

Se amam? Você não sabe nada sobre o amor garoto! – Jon explodiu novamente, dando um passo para frente e sendo contido por Dany, que o puxou de volta.

— Ah eu sei sim, pai. Eu sei o que é sentir que mais ninguém serve para você, que mais ninguém o faria feliz. Sei o que é sentir o coração bater acelerado à ponto de achar que vou morrer se eu não a tiver para mim. Sei o que é desejar alguém a ponto de perder o juízo...

Desejar? Você tem coragem de falar para mim em desejo? Você não ousaria se aproximar da sua irmã...ela é... – Jon o interrompeu, o rosto transtornado de raiva, sem conseguir sequer completar seu raciocínio.

Rhaegar viu que todos na sala estavam de pé e atentos à eles dois.

— Ela é uma mulher! Uma bela mulher! E eu sou um homem, pai. Nós somos dois adultos que se amam, quer o senhor concorde ou não. Não é algo que possamos mudar. Aconteceu— disse Rhaegar, vendo Tyrion se aproximar e parar ao seu lado.

— Majestade. Jon. Vamos acalmar os ânimos. Podemos resolver isso... – Tyrion pediu, tenso, com o Rei e o Príncipe se encarando como se apenas os dois estivessem ali.

— O que você quer dizer com aconteceu? – Jon perguntou para Rhaegar, com a voz mortalmente gélida, ignorando Tyrion – O que você fez com sua irmã? — o Rei perguntou.

Rhaegar engoliu em seco. Daenerys olhava temerosa para ele. Mas Rhaegar não recuaria. Ele abriria aquela ferida de uma vez. Era o melhor a ser feito.

— Não fiz nada que ela não quisesse – disse Rhaegar, sabendo que seria demais para o pai, vendo nos olhos do Rei que aquilo não correria de um jeito bom, mas que um dia passaria e que tudo valeria à pena no final.

Você dormiu com a sua irmã? – perguntou Jon, se desvencilhando de Daenerys e agarrando o filho pelas lapelas dos seus trajes, uma raiva irracional o dominando – Responda! – gritou Jon.

— Solte ele, Jon! Pare com isso. Solte ele! – disse Dany, puxando o braço do marido mas não conseguindo soltá-lo de Rhaegar.

Me responda, moleque! Você desonrou a minha filha? – perguntou Jon de novo, sacudindo-o.

— Eu não sou um moleque! Eu a amo. Ela é minha, quer o senhor aceite ou não. Está feito— Rhaegar gritou de volta.

O que quer que ele faça...Não vou reagir. Não vou reagir. Rhaegar repetiu mentalmente.

Eu vou matar você! – disse Jon, empurrando o filho contra a parede, apertando-o pelo pescoço.

— Solte ele! Solte ele, Jon!— Daenerys implorava, agarrando os braços do marido, vendo que o filho se controlava para não reagir à agressão do pai mas temendo que ele não aguentasse por muito tempo.

Jon afroxou a mão sobre o pescoço de Rhaegar por um instante, mas apenas pra socar a cara do filho.

Rhaegar sentiu o gosto de sangue na boca. Apanhar sem se defender era mais difícil do que ele imaginava.

— Diga que é mentira! – Jon pediu, respirando ruidosamente, sacodindo Rhaegar com as mãos.

— Não é. Eu a amo, Pai! – Rhaegar falou, tentando soltar os dedos do pai do seu pescoço, ouvindo a mãe deles fazer ameaças para o próprio marido.

Diga que é mentira!— Jon berrou, a voz falhando no final. Rhaegar sentiu os olhos ardendo. Ele via a dor nas feições iradas do pai. Mas sabia que era melhor que ele a sentisse de uma vez.

Não é! Nós dormimos juntos! Não há nada que você possa fazer! Não é culpa de ninguém!— Rhaegar falou e fechou os olhos à espera de outra pancada. E a segunda foi pior que a primeira. O sangue imediatamente jorrou do seu olho e inundou seu rosto.

— JON! – Tarly, Sor Davos e Tyrion chamaram, em uníssono, aflitos.

Parem com isso! PAREM! Ele é seu filho também! Solte-o! – gritou Dany, às lágrimas, agora batendo nos braços de Jon, desesperada ao ver o marido e o filho agarrados daquele jeito, quando a oporta da sala do Pequeno Conselho foi arrebentada por Blackfire que entrou correndo, derrubando cadeiras, os pelos negros eriçados e os dentes à mostra para o Rei.

Black! Saia! Não faça nada – Rhaegar tentava dizer, com a mão apontando para Black, enquanto precisava se desviar da fúria do seu pai, que continuava agarrado em seu colarinho, sacudindo-o mais, mas sem socá-lo de novo.

Solte-o, Majestade. O lobo vai atacá-lo! – Tyrion gritou, pedindo.

Mas foi quando Lys, entrou pela porta mostrando seus dentes para o Rei, que Daenerys vislumbrou a chance de acabar com aquilo.

— Olhe para a loba da sua filha! Veja à quem ela é leal. Solte Rhaegar, agora! Solte ele! — disse Dany, enquanto Lys, que sempre havia sido amável com o Rei, agora se juntava à Blackfire, pronta para atacá-lo.

Dany percebeu, pela expressão nos olhos do marido que a reação da loba tinha abalado sua raiva contra o filho.

— Solte ele – ela pediu – Olhe para a suas mãos. É o sangue do nosso filho. Do nosso filho – Dany repetiu, respirando aliviada ao ver as mãos do marido se afrouxando e soltando Rhaegar.

Sem falar mais nada, Jon saiu tempestuosamente da sala. Dany correu para tocar no rosto de Rhaegar, limpando o sangue que escorria com as mãos trêmulas.

— Estou bem, não foi nada. Vá falar com ele mãe. Por favor – Rhaegar pediu.

— Eu vou. Mas fique aqui, Rhaegar! Precisamos conversar melhor – Dany avisou. Deixando todos para trás para seguir Jon.

Jon. Espere! Aonde você vai? Se acalme. Vamos conversar – pedia Dany, tentando acompanhar os passos do marido.

Vou até Pedra do Dragão. Quero falar com Lyanna – disse Jon, sem se deter.

— Se o que Rhaegar falou sobre o Alto Septão é verdade...- Dany começou a dizer, vendo Jon estancar e virar de uma vez para ela.

Então você não vê problema nisso? Está apoiando ele? – questionou Jon.

— Não estou apoiando ninguém, Jon. Ainda estou tão chocada quanto você...- ela disse, tentando se explicar, diante do olhar furioso que o marido dava para ela.

— Por você eles podem se casar? É isso? – Jon perguntou, gritando com Dany.

— Não grite comigo! Olhe onde nós estamos – disse Dany, aumentando seu tom de voz com o marido, olhando ao longo dos corredores do castelo – Eu só quero ver os meus filhos felizes— respondeu Dany. E era verdade. Se os dois realmente se amavam...

Isso tudo é culpa sua! Dos malditos nomes que você escolheu para eles! Aqueles dois nomes juntos só poderiam trazer sofrimento para nós – explodiu Jon.

— Minha? A culpa é minha? E dos nomes que escolhi? Você não pode realmente acreditar nisso! – rebateu Daenerys, ofendida com as acusações do marido.

Fale com seu filho. Tire isso da cabeça dele. Lyanna vai desistir dessa loucura, se é que ela realmente concorda – disse Jon, voltando a caminhar.

— Ele não é só meu filho. É seu filho também, apesar de você não ter lembrado disso agora à pouco. Nós somos uma família...vamos conseguir resolver isso...

Ver meus filhos cometendo incesto não é o que eu quero como família. Fale com ele Daenerys. Tire isso da cabeça desse garoto ou eu não respondo por mim! — interrompeu Jon, voltando a falar alto e com raiva.

— Eu vou falar com ele, mas duvido que consiga fazer com que ele desista disso. Conheço Rhaegar. Isso não é um capricho, você não vê? — argumentou Dany, tentando pegar na mão de Jon, tentando fazer com que ele olhasse em seus olhos. Mas ele se afastou.

É o que nós veremos...- respondeu Jon, deixando-a para trás, partindo rumo à Pedra do Dragão.

—*-

— Isso vai ficar feio – Tyrion falou, analisando os machucados do rosto de Rhaegar, que fora sentado pelo Grande Meistre, para que o homem pudesse limpar o corte em seu supercílio.

— Meu rosto? Ou a situação? – Rhaegar perguntou. Tyrion lhe deu um sorrisinho.

— Gosto do seu senso de humor, Alteza. Não sei de quem você herdou, aliás. Do seu pai é que não foi. E mesmo ele sendo bastante sério, não sei se já o vi tão bravo quanto hoje...e olha que ele esmurrou Dario Naharis à pouco tempo – Tyrion falou.

— Vou precisar de pontos? – Rhaegar perguntou ao Grande Meistre.

— Não, Alteza. Não foi profundo. Só é uma área muito sensível, fácil de machucar. Prepararei um ungüento para o hematoma – o idoso Meistre falou, pressionando o corte e parecendo satisfeito ao ver que o sangue já não escorria mais.

— Agradeço – Rhaegar disse – E como esta reunião parece ter acabado, antes que todos o sigam Grande Meistre, gostaria de saber de qual lado da questão vocês então – desafiou Rhaegar, olhando para cada um dos membros do Pequeno Conselho.

— A Princesa seria uma excelente Rainha, acho que ninguém poderia discordar disso – falou Lorde Davos – Se a Fé do Sete não se opuser, entendo que é uma questão de família – com um sorriso bondoso para Rhaegar.

— Se eles já dormiram juntos, não há o que discutir. Eles precisam se casar, antes que isso vire um escândalo – acrescentou Lorde Celtigar, com seu jeito rabugento de sempre – O fato de serem irmãos não é nada que me arrepie os cabelos. Não para dois Targaryens...

— E os outros Lordes que enviaram seus filhos e filhas? É preciso tratar a questão com cuidado. Há muito em jogo, milordes – alertou Sam – E nosso Rei discordando... Sinceramente, não sei – ele concluiu, com um olhar desculpas para o Príncipe.

Rhaegar já esperava que o Lorde da Campina ficasse ao lado do seu Pai. Ele então olhou para Verme Cinzento.

— Sirvo à minha Rainha, no que ela decidir – o Imaculado respondeu, calmamente.

Rhaegar então olhou para Tyrion.

— Você herdou o bom coração do seu pai, meu Príncipe. Herança do sangue Stark, eu diria. Mas também herdou a ousadia da sua mãe. Há fogo em você. Sim. Eu vejo. Acho que os dois lados brigam dentro de você em momentos como esse. Mas se você quiser um conselho meu, aqui vai. Não seja como o outro Rhaegar Targaryen. Deixe o bom senso ganhar. Não insista com isso. Os perigos para a descendência de vocês são algo que eu não arriscaria.


— Por favor, milorde. Eu não tenho um pai louco e um reino insatisfeito. Eu não sou casado e Lyanna não é noiva de ninguém oficialmente. De igual à eles, só temos os nomes e a determinação de ficar juntos. E onde eu estaria se o outro Rhargar Targaryen tivesse tido bom senso, Lorde Tyrion? – Rhaegar o questionou – As coisas são como são. Algumas delas estão à cima do bom senso.


— É verdade. Mas as consequências não estão. E milhares morreram por causa das escolhas deles. Incluindo eles mesmos. E os filhos dele. E tantas outras pessoas que eram importantes para eles – Tyrion o lembrou – Seja mais esperto que o seu avô, Alteza.


— Se essa é sua única preocupação...Eu já sou – Rhaegar rebateu, quando sua mãe passou pela porta quebrada do recinto e todos os olhos se voltaram com expectativa para a Rainha.

— Me deixem à sós com meu filho – Daenerys falou, sem maiores explicações. Todos os membros do Pequeno Conselho começaram a sair apressados.

— Conversou com ele? – Rhaegar perguntou, assim que ficaram sozinhos. A porta quebrada não lhes dava privacidade nenhuma, mas os dois lobos do lado de fora eram suficiente para afastar a presença de qualquer pessoa.

— Muito pouco. Seu pai partiu para Pedra do Dragão – Daenerys falou, se sentando e olhando para os céus pelas largas janelas vazadas do recinto.

O que? Ele foi atrás de Lyanna? Eu não vou permitir...Rhaegar se levantou, pronto para sair e também voar para Pedra do Dragão.

Não vai permitir o que, Rhaegar? – Daenerys o cortou – Se sente nessa cadeira. AGORA! — ela mandou, apontando do filho para a cadeira vazia ao seu lado – Você fica! Fica e me escuta! – Daenerys gritou com ele.

— Você chega aqui e joga uma notícia dessa sobre nós...Seu pai tem o direito de falar com ela e você não vai se meter nisso! E eu não vou permitir que meu marido e meu filho voem em dragões por aí, enquanto estão extremamente irritados um com o outro! Eu não quero descobrir se vocês seriam capazes de queimar um ao outro agora. Não depois do que eu vi aqui – Daenerys esfregou da têmporas e os olhos.

Ela soltou um pesado suspiro ao ver que pelo menos Rhaegar tinha obedecido e agora sentava à contragosto na cadeira ao lado da dela. Aborrecido mas calado. O que era bastante incomum. Ele sempre era cheio dos argumentos com ela.

— Você tinha que dizer para o seu pai que dormiram juntos? Tinha? O que você tem na cabeça? – Daenerys perguntou, batendo de leve na cabeça do filho.

— Calculei que era melhor que ele soubesse de tudo de uma vez – foi tudo que Rhaegar respondeu, meio impaciente. Ele não queria ficar ali, enquanto o pai voava para conversar sozinho com Lyanna.

Sua mãe o encarou de uma forma que ele não conseguia descrever, mas que lhe doeu. Ela não estava satisfeita com aquilo.

— Isso é muito sério, Rhaegar. Muito sério. Seu pai quer que você desista da ideia de um casamento, mesmo que realmente...mesmo que vocês tenham...pelos Sete...eu preciso de uma bebida – Daenerys se levantou e se serviu de uma taça de vinho e começou a circular pelo recinto.

— Eu não vou desistir. Ou me caso com Lyanna ou não caso com ninguém. E eu vou me casar com ela – Rhaegar falou, com determinação – Eu a amo – ele completou – Eu a amo muito mãe.

— Espero que ela sinta o mesmo então, porque ele vai tentar fazer com ela mude de ideia, filho. E pediu que eu fizesse o mesmo com você. Mas eu conheço esse olhar. Sei quando você esta determinado – Dany concluiu, com a voz triste, tocando no rosto do filho, com um feio hematoma roxo surgindo em sua pele, próximo do seu olho. A prova viva de que sua família estava prestes a ruir enquanto ela pouco podia fazer.

— Ela sente. Do jeito dela, mas sente. Ele não vai conseguir fazer com que ela mude de ideia – disse Rhaegar, desejando que aquilo realmente fosse verdade. Mais uma torcida, do que uma certeza.

— Bom, se é o que vocês dois realmente querem. Vocês terão minha benção. Me resta torcer para que isso tudo não me custe seu pai...- disse Daenerys, com a voz tremendo, tentando não chorar mais.

— Ele vai se acostumar com a ideia, mãe. Vai demorar um tempo, mas ele vai aceitar – disse Rhaegar, abraçando a sua mãe.

— Tomara filho. Tomara... — ela disse.

—-------------

Quando Jon pousou com Drogon em Pedra do Dragão, todo o peso do mundo parecia repousar sobre suas costas.

Ele contemplou as torres do lugar onde seus filhos haviam nascido e sentiu medo, muito medo por eles e por si próprio. Pela família que havia construído.

Em sua mente as palavras de Rhaegar ainda ecoavam mas ele ainda não acreditava totalmente nelas.

Ele não podia acreditar que as crianças que um dia, há não muito tempo, correram por aquele lugar enchendo seu coração de alegria, agora se envolviam como homem e mulher e não como o irmão e a irmã que eram. Que deveriam ser.

— Onde está minha filha? – Jon foi direto ao ponto, ao adentrar os portões de Pedra do Dragão.

— Sua Majestade – um jovem homem se curvou diante dele, um homem que ele não fazia ideia de quem era, trajado em couros e ferros semelhantes aos da corte de Porto Real, mas com feições que não lhe remetiam à nenhuma família em especial.

Quem é você? – Jon perguntou, olhando para o homem de cabelos castanhos e feições simples.

— Septão Torey, Sua Majestade. Sou o novo Septão de Pedra do Dragão. Meu Senhor, o Príncipe Rhaegar, me deixou à frente da Fortaleza – o homem falou, se curvando para Jon mais uma vez.

— O que aconteceu com o nosso Septão antigo? -Jon exigiu saber, analisando o homem friamente. Sua postura e seu corpo pareciam mais condizentes com a de um guerreiro do que com a de um Septão.

— Preferiu passar o resto dos seus dias mais próximo do vilarejo da família dele, meu Rei. O Príncipe Rhaegar construiu um pequeno Septo no lugar, inclusive – Torey o informou, respeitosamente.

Claro – Jon concordou, com alguma amargura – Vejo que meu filho não perdeu tempo. Este lugar é dele a o que, três dias?

Torey permaneceu em silêncio.

Onde está Lyanna?— Jon o questionou.

— Meu Senhor disse que ela não deveria ser incomodada. A Princesa está descansando – Torey informou, a voz em tom de educado aviso.

Onde minha filha está? – Jon perguntou, pressionando o cabo de Garra Longa.

— Ela está descansando no aposento principal, Majestade – Torey respondeu, bloqueando destemidamente o caminho de Jon.

— Meu filho esteve aqui? – perguntou Jon – Eles estiveram juntos? – ignorando a tentativa do homem de se colocar em seu caminho.

— Majestade...

— Responda. Seu Rei ordena – Jon gritou, já sem paciência.

— Majestade, perdoe-me. Mas nenhuma pessoa debaixo desse teto responderá às suas perguntas. Dos servos aos guardas, todos, sem exceção, são absolutamente leais ao nosso Príncipe – Torey explicou.

— Preciso lembrá-lo que eu sou o Rei que nomeou seu Príncipe como Senhor desse lugar? Saia da minha frente. Agora – Jon puxou um pouco sua espada da bainha de couro.

— Não sairei, Majestade. Mas posso acompanhá-lo até a Princesa. Se ela quiser o receber, não causarei problemas.

Jon atravessou pelos salões e caminhou rumo às escadarias tentando ignorar a presença daquele homem à suas costas, tentando não se deixar irritar pela falta de respeito com que havia se deparado.

Ao chegar na porta do quarto que ele e Daenerys ocuparam por muitos anos sempre que passavam alguns dias ali, o quarto onde seus filhos haviam nascido, Jon sequer se virou para dizer ao cão de guarda do seu filho que ele deveria esperar ali fora.

Jon deu um passo para dentro do cômodo e selou a porta. E ali ficou, parado, como se estivesse sem ar, ainda que a brisa marinha preenchesse o quarto e balançasse as cortinas semiabertas.

Jon avistou sua filha dormindo na cama que ele e Daenerys haviam ocupado inúmeras vezes e seu coração sangrou ao constatar que ela estava sem roupas, levemente coberta por lençóis finos, braços e pernas desnudos.

Ele se obrigou a dar alguns passos e avistou roupas no chão, sujas de areia, úmidas. E não eram apenas dela.

E se aquilo não fosse suficiente, a mancha de sangue que maculada os lençóis brancos então seria. Jon desviou os olhos daquele ponto escuro rapidamente.

Ele se concentrou no rosto da filha, tão sereno, tão parecido com o que ele tinha feito poucos dias atrás, quando havia conversado com ela e a abraçado e secado suas lágrimas.

Tão parecido e tão diferente.

Era por ele que ela estava chorando naquele dia? Jon se perguntou. Era por ele que ela me pedia perdão?

Sua filha estava ali agora, diante dos seus olhos, não mais uma garotinha, mas uma mulher. Uma mulher que se entregou para o próprio irmão.

Como eu não vi isso? Deuses o que fiz de errado o que eu fiz de errado? Porque? Porque meus filhos?

Jon se aproximou da cama e se sentou, engasgado, arrasado, com os olhos ardendo, tentando manter a calma.

Mas então o choro preso em seu peito arrebentou silenciosamente.

Lyanna entreabriu os olhos, despertando do sono leve que desfrutava, quando sentiu alguém próximo dela.

— Pai... – Lyanna falou, se cobrindo, surpresa por ver o pai ali, sentado ao lado dela na cama. Ele estava chorando? Ela se perguntou, vendo-o esfregar o rosto por um instante.

— Seu irmão nos comunicou que você deseja se casar com ele. Isso é verdade? – perguntou Jon, sem rodeios, mesmo diante do semblante assustado da filha, encarando-a nos olhos.

Lyanna se remexeu na cama, tentou se sentar, se cobrir, buscar palavras.

— Sim – respondeu Lyanna baixinho, já começando a chorar – Me perdoe, eu sei que...eu nunca pensei...

— Mesmo sabendo o perigo que estarão sujeitando os filhos de uma relação assim e consequentemente o Reino? – perguntou Jon, decepcionado.

— Eu...pai...

— Mesmo sabendo que eu não irei abençoar esse casamento? – continuou perguntando Jon – Mesmo sabendo que nada poderia me decepcionar mais? — disse ele, vendo os olhos da filha se arregalarem de medo e de dor.

— Papai, por favor...me perdoe – pediu Lyanna, chorando. Era tudo que ela conseguia dizer.

Eu perdoo. Perdoo qualquer coisa que você tiver feito, desde que você desista dessa ideia – disse Jon, olhando esperançoso para ela.

— E se eu não desistir? –perguntou Lyanna, enxugando seu rosto.

— Então eu não serei testemunha disso, Lyanna. Não levarei você até o septo. Não presenciarei seus votos. E definitivamente, nós não viveremos debaixo do mesmo teto – disse Jon, categoricamente.

— Pai... eu amo tanto você...por favor...não faça isso comigo – pediu Lyanna, tentando pegar na mão do pai mas vendo ele se afastar do seu toque e ficando de pé.

E mil facas pareciam ter atravessado seu coração quando sua mão pendeu vazia.

— Não sou eu quem está fazendo isso – disse Jon, não querendo fraquejar diante das palavras da filha.

— O senhor está praticamente me obrigando a escolher entre meu pai e meu...

Irmão. É isso que ele é. Seu. Irmão – disse Jon.

— Eu sei. Eu sei. Mas...ele também é...mais. Muito mais – confessou Lyanna, sentindo as palavras, a eloquência, a coragem, tudo lhe faltando, pela primeira na vida.

— Sua escolha não é entre eu e ele, Lyanna. É entre fazer o que é certo, menos perigoso, para si mesma e para o reino ou fazer o que os seus sentimentos aparentemente desejam — rebateu Jon, o rosto angustiado.

— Eu sei – disse Lyanna, em voz baixa, sabendo que o pai estava coberto de razão.

— Qual a sua escolha? – perguntou Jon, torcendo para que a filha desse lugar à razão. Se alguém poderia fazer isso, esse alguém seria ela.

— Pai...

Qual é a sua escolha, filha?— insistiu Jon.

Lyanna respirou fundo e agarrou as pernas com os braços, se encolhendo na cama.

— Não sei se tenho realmente uma escolha pai. Mas se essa é a palavra a ser usada, então escolho não lutar mais contra o meu coração – ela respondeu, com seu maxilar tremendo, sabendo que àquela altura nenhum argumento racional teria força para conter os sentimentos que o irmão tinha puxado de dentro dela – Eu escolho ele – ela disse, vendo o pai fechar os olhos, com uma expressão de desapontamento.

— Então eu lavo minha mãos. Por ambos – Jon disse, levantando-se, rumo à porta e saindo, sem olhar para trás.