Forbidden
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Porto Real
— Isso deverria demorar tanto? – Q'ira perguntou, esparramada sob uma poltrona, trajada em suas costumeiras vestes que deixavam a barriga de fora e sempre atraíam os olhares de todos ao redor por parecerem que poderiam ser desenroladas com um simples puxão.
– Eu ainda estou com sono – a princesa qarthena disse, contendo um bocejo e remexendo no tecido branco e brilhoso que destacava sua linda pele negra.
— Quase não se percebe, Princesa Q'ira – Melissa ironizou, com um sorrisinho falso.
Lady Melissa e Lady Sarah haviam tomado a iniciativa de convidar todos do grupo de pretendentes para tomarem o desjejum juntos, no salão comum do andar do Príncipe e da Princesa na Fortaleza de Maegor, enquanto aguardavam o resultado da reunião de suas Altezas com o Pequeno Conselho.
O desjejum já havia sido tomado e agora todos estavam espalhados pelo salão, sentados em poltronas, em silêncio quase constrangedor. Arthur Tully e Diana Lannister liam livros, mas todos os outros apenas se encaravam. À espera de notícias.
— Não deve demorar mais, Princesa Q'ira. Lady Sarah saiu em busca de novidades, em breve saberemos – Lady Jane tentou remediar, fuzilando Melissa com o olhar. A ruiva, ricamente produzida como se estivesse prestes a ir para outro baile, obviamente não pareceu se abalar.
— Princesa Q'ira, parece que você não é a única com sono. Eu nunca vi os Tarlys tão calados...- Melissa riu, olhando para Jon, Sam e Dickon. Todos muito sérios, Jon principalmente.
— Melissa, nos faça um favor nessa manhã, sim? Sei que você adora ouvir o som da própria voz, mas só por hoje, pode calar a boca um pouco? Quase todos aqui bebemos além da conta ontem. Sua voz faz minha cabeça doer – Jon esfregou as têmporas e Melissa se virou para os outro a convidados, como se ele não fosse ninguém.
— Sir Jason, eu não tive a oportunidade de cumprimentá-lo ontem. Que vitória! Canções serão feitas sobre esse dia!— Melissa continuou agindo como a anfitriã da reunião, e claro, sendo desagradável com os Tarlys – Imagino que a maioria do povo esteja torcendo para que a Princesa Lyanna o escolha. O Reino ganharia muito. Também estou na torcida.
Sir Jason pareceu contrariadamente surpreso com aquela preferência rudemente revelada ali, na presença dos outros. Ele olhou para Arthur Tully e para Sam Tarly, constrangido.
— A Princesa Lyanna é uma mulher muito inteligente e sensata. Qualquer um dos cavalheiros aqui seria uma boa escolha, não apenas eu – Sir Jason falou, cortando Melissa.
— Claro— Melissa concordou bebericando uma xícara de chá, fazendo Q'ira revirar os olhos – Sarah está demorando...- ela olhava constantemente para a porta do pequeno salão.
— Foram dias muito agradáveis, de qualquer forma. Eu gostei muito de conhecer todos vocês. Tenho certeza que levaremos algumas amizades feitas aqui, para a vida toda – Lady Diana falou, fechando seu livro e tocando na mão de Lady Ariana Arryn, mas também olhando para todos, com sua expressão serena e feliz, os cabelos dourados soltos e reluzentes como raios de sol naquela manhã.
Diana olhou para Sam Tarly, sentado à sua frente e sorriu docemente. Ele estava tenso. Preocupado. E Diana não sabia se era por medo de ser ou não escolhido. Ainda assim, ele fez um pequeno e quase imperceptível movimento com a cabeça, pelas palavras dela.
— Sempre tão doce, Lady Diana. Você não cansa? Deve ser difícil...– Melissa observou, revirando os olhos.
— Sempre tão azeda, Melissa...Deixe todo nós em paz! Ninguém quer conversar com você – Jon Tarly a cortou, no momento em que Sarah entrou afobada pela porta do recinto.
Melissa levantou de um salto. Dickon também, mas em respeito à Sarah do que pela notícia que ela provavelmente trazia.
— E então? A Reunião do Pequeno Conselho já acabou? – Melissa perguntou, passando as mãos pela vestes vermelhas, com pura expectativa.
— Eu...eu não...Pelos Sete...- Sarah parecia nervosa.
— Sarah, diga de uma vez! – Melissa se alterou.
— Deixe ela em paz — Dickon se intrometeu, caminhando até Sarah Manderly.
— O que foi Sarah, aconteceu algo? – Dickon perguntou, pegando na mão dela.
— Aconteceu. O castelo todo está em polvorosa...A Reunião...já acabou...mas...dizem...as notícias são confusas...eu não sei...mas parece que começou sem o Príncipe e a Princesa... Porque Suas Altezas não...- Sarah parou, tomando fôlego, olhando para Dickon com dúvidas.
— O que? – Melissa insistiu.
— Apenas o Príncipe Rhaegar esteve na reunião. Ninguém viu a Princesa Lyanna. E parece que houve uma briga. Dele com o Rei. E com a Rainha. Gritos. Ouviram gritos. E o Rei o chamando de moleque – Sarah levou as mãos à boca, diante do olhar assustado de todos. Dickon parecia tenso. Sam se levantou, assim como Jon.
— O Rei partiu, dizem que para Pedra do Dragão, já tem um tempo. A porta da sala do Pequeno Conselho está quebrada, segundo a criadagem. Dizem que a Rainha ficava gritando solte ele, solte ele, mas ninguém sabe quem é o ele. Se era o marido ou o filho – Sarah continuou contando, muito nervosa.
— Tem alguma errada. O Rei nunca faria isso – Dickon comentou, abraçando Sarah.
— Onde está a Princesa, Sarah? Você ouvir algo à respeito? – Sam perguntou, todos rodeando Sarah e Dickon, com as expressões confusas e preocupadas.
Jon e Q'ira, entretanto, trocaram um breve olhar de entendimento.
— Parece que ela está em Pedra do Dragão, por isso o Rei foi para lá...porque eles...- Sarah se interrompeu, olhando com receio para Melissa.
— Eles o que? Diga logo de uma vez, Sarah— Melissa reclamou, botando as mãos na cintura.
— Eu posso ter entendido errado...ou quem contou para quem me contou...ou... – Sarah mordiscou as próprias unhas, olhando ao redor.
— Fale! – Melissa mandou – Fale logo! Quem o Príncipe escolheu?
— Ah...parece que...foi a própria Princesa – Sarah finalmente falou, baixinho, cobrindo a boca em seguida.
— Ela? — Melissa apontou horrorizada para o rosto de Q'ira.
A Princesa qarthena revirou os olhos e balançou a cabeça.
— Não, Lady Melissa. Pense melhor. Sei que pode ser difícil para você...- Q'ira sorriu.
— Ele escolheu a irmã – Diana Lannister esclareceu, não parecendo nada surpresa – É isso, não é Lady Sarah?
Todo ilharam para Sarah esperando a confirmação.
— Pelo que dizem...sim. O Príncipe teria dito que vai se casar com a própria irmã – Sarah confirmou – E...parece...que os dois...dormiram juntos...em Pedra do Dragão!
— Por isso a briga – Dickon entendeu, coçando o queixo, ainda mais chocado – Pelos Deuses.
— Não! Não, não, não...Isso não pode ser verdade! – a voz de Melissa saiu estridente.
— Tenho certeza que é, minha cara — Q'ira afirmou, calmamente.
— Sim, não me surpreende – Lady Diana concordou, meneando a cabeça.
Jon ficou calado. Surpreso em ver que o irmão mais velho não parecia nada chocado também.
— Mas isso é um absurdo! – Melissa gritou mais alto – Eles não podem! Eles são irmãos! – Melissa apontou o obvio, com nojo.
— Eles são Targaryens...qual a novidade? — Q'ira deu de ombros – Fico feliz por eles.
— Feliz? – Melissa rebateu, perdendo o decoro de vez – Nós não podemos aceitar isso! É imoral...e perigoso! Vocês vieram de longe para serem escolhidos...É um ultraje! Com todos nós! Com todo o Reino! – ela soltou, caminhando de um lado para o outro.
— Não seja tão dramática, sua coisa ruim. Está ficando ridículo, até mesmo para você! – Jon Tarly finalmente se meteu.
— Eles formam um belo casal – Lady Arianna comentou, baixinho, mas todos acabaram ouvindo mesmo assim.
Melissa soltou uma gargalhada amarga e medonha.
— A Princesa? E ele? Ela é uma coisinha sem graça e metida a sabichona! Ele deve ter feito essa escolha por pena! Não tem outra explicação! – Melissa afirmou, inconformada, fazendo Arianna se encolher.
— Não ouse falar da Princesa Lyanna assim, Melissa! Se coloque no seu lugar! – Lady Jane apertou o braço da ruiva e a sacudiu.
— Me solte, Jane! Sua coisinha insignificante! Uma Rosby qualquer, noiva de um cavaleiro qualquer...você não manda em mim! – Melissa puxou o braço, com desdém.
— Você não vai destratar Lady Jane dessa forma, milady. Não na minha presença! – Sam impôs sua voz, calmamente, mas com autoridade. Afinal, os Tarly eram os Senhores da Campina e Senhores do Redwyne, Melissa gostando ou não.
— Melissa, se controle – Sarah pediu, assustada.
— Vocês são todos ridículos! Você, milorde, não está nem um pouco decepcionado por ter sido preterido pelo seu amado Príncipe? – Melissa destilou veneno, encarando Sam.
— Não. Nem um pouco – Sam respondeu, sem vacilar – Eles escolhem se casar com quem quiserem.
— Não é verdade! Eles deveriam escolher um de nós! – Melissa rebateu, gesticulando, quando a porta do salão privado se abriu.
— Deveríamos? — Rhaegar perguntou, ao entrar tranquilamente pelo recinto, para surpresa de todos, que encaravam sem disfarçar o rosto machucado do príncipe.
— Eu não me comprometi a escolher ninguém... – ele enfiou as mãos nos bolsos e olhou bem para Melissa com um sorrisinho frio e perigoso.
— Todos no Reino sabem, muita gente veio de longe...- Melissa apontou para o garoto Tully, para os Arryn, para Diana Lannister e para Q'ira.
— ...para as comemorações do Dia do nosso Nome, milady. Todos estão aqui como convidados. Não como candidatos – Rhaegar a interrompeu – Todos receberam convites e não convocatórias de pretensão marital da nossa parte.
— Meu Príncipe, todos sabem que após as comemorações, Vossas Altezas escolheriam os futuros parceiros. Isso é de conhecimento geral – Melissa rebateu, diminuindo o tom de voz, mas ainda bastante irritada, ainda sem recuar.
— Mas em nenhum momento foi dito que escolheríamos entre os convidados. Se especularam isso, especularam errado. Eu não me comprometi a escolher uma noiva entre as nobres do reino. Eu me comprometi a anunciar minha escolha – Rhaegar afirmou. E ergueu a mão assim que Melissa abriu a boca para continuar falando.
— E sim, Lyanna é a minha escolha. É com ela que eu irei me casar. Se era o que queriam saber, podem parar com a fofoca agora – Rhaegar afirmou, olhando ao redor, em desafio. Esperando para ver se alguém ainda diria alguma coisa, seu olhar recaiu sobre Sam. Rhaegar sentiu uma pontada de preocupação. Era a próxima conversa difícil que ele precisava ter.
Um silencio constrangedor caiu sobre eles, até ser quebrado por Q'ira, que foi até Rhaegar e o abraçou.
— Minhas felicitações, Alteza! — Q'ira sorriu e beijou Rhaegar no rosto – Então, seguiu meu conselho? – ela perguntou no ouvido dele, baixinho. Rhaegar sorriu, mas não confirmou – Quero saber como foi tudo depois – ela tornou a cochichar.
— Obrigada, Princesa Q'ira – Rhaegar falou, olhando para Sam novamente. Eles precisavam conversar. Por mais divertida que Q'ira fosse, ele ainda tinha muito o que resolver.
— Agora que já sabem da novidade, me deixem sozinho por favor – Rhaegar pediu, vendo Melissa sair pisando duro antes de todo mundo.
— Menos você, Sam – Rhaegar pediu e o amigo obedeceu. Todos os outros saíram menos Sam. E Jon.
— Seu nome é Sam? – Rhaegar perguntou a Jon, arqueando uma sobrancelha e se escoando na mesa.
— Não vou deixar vocês dois sozinhos. Podem conversar. Façam de conta que eu não estou aqui. Só vou intervir se a coisa descambar para a violência – Jon falou, com um sorrisinho, tentando aliviar o clima entre ao dois.
— Garanto à você que não quero brigar com mais ninguém hoje, Jon – Rhaegar enfatizou – Mas talvez Sam queira. Não vou reagir se ele quiser. Eu mereço.
— Não vai ser preciso. Parece que você já teve sua cota de violência, Alteza – Sam apontou para o rosto de Rhaegar.
— Tive. Nosso Rei tem um soco certeiro – Rhaegar remexeu o maxilar dolorosamente – Sam...
— Porque você não me contou? – Sam perguntou, suspirando, sentando de novo e parecendo mais triste do que com raiva.
— Porque existia uma chance considerável de que ela...resistisse aos nossos sentimentos. E ela tentou, com bastante afinco. Quase me fez desistir – Rhaegar começou a se explicar, se encostando no braço de uma poltrona – Se não fosse eu, então que fosse você Sam. Se ela não fosse minha, então eu preferia vê-la sob os seus cuidados. Mas se eu tivesse revelado à você meus sentimentos, ainda que eles não fossem correspondidos...
— ...então eu jamais iria desposá-la – Sam completou, entendendo – Eu compreendo. Mas ainda assim preferia que você tivesse me falado. Teria evitado muita coisa – Sam esfregou os olhos, envergonhado.
— Teria evitado que você tivesse beijado sua futura rainha? – Jon comentou, sorrindo. Rhaegar e Sam olharam zangados para ele.
— Eu não precisava ser lembrado disso – Rhaegar falou. Jon deu de ombros, rindo mais. Sam olhava para o Príncipe com algum receio.
— Eu sinto muito. Eu...jamais teria feito isso...se eu soubesse...e não foi nada...demais...você tem minha palavra...- Sam garantiu.
— Eu sei. Eu vi – Rhaegar confessou, deixando Sam chocado. Engolindo em seco.
— Eu espero que isso...que não atrapalhe a nossa amizade – Sam pediu, encarando Rhaegar com uma expectativa nervosa.
— Você a ama? – Rhaegar perguntou à ele. Se preparando para ouvir e entender o que quer que seu amigo dissesse.
— Eu poderia...eu estava...nesse caminho...- Sam tentou explicar, procurando as palavras certas – Mas ainda que eu a amasse, eu jamais trairia a sua confiança. Eu jamais seria capaz...
— Eu sei, Sam. Eu sei – Rhaegar o impediu de continuar – Você não precisa dizer mais nada. Só me perdoe, por não ter sido sincero. O assunto envolvia variáveis demais – Rhaegar pediu ao amigo.
— Me perdoe por tê-la beijado e você estará perdoado também – Sam sugeriu, com um pequeno sorriso, parecendo muito aliviado.
— Meu perdão é mais difícil que o seu, você sabe, não é? – Rhaegar brincou.
— Eu sei. Eu demorei...mas consegui entender... – Sam falou, coçando a cabeça.
— E então, ao se dar conta, resolveu errar aquele último movimento de propósito e deixar Sir Jason Arryn vencê-lo, não foi, seu idiota? – Rhaegar balançava a cabeça.
— Ele não fez isso! – Jon se intrometeu, encarando Sam com raiva.
— Ele fez sim, conheço cada movimento dele – Rhaegar falou.
— Bem, eu não podia coroar a sua Rainha do Amor e da Beleza....como minha Rainha do Amor e da Beleza...podia? – Sam deu de ombros.
— Sam, você tem noção de quanto ouro me fez perder? – Jon protestou, indignado.
Rhaegar foi até o amigo e o abraçou. E foi abraçado de volta.
— Obrigado. Por sua amizade, Sam. Você é o irmão que não tive. Sempre foi – Rhaegar falou, sendo abraçado por Sam também.
— Cuidado Sam, ele é esquisito com irmãos...- Jon provocou, abraçando os dois que agora reviravam os olhos para ele – Agora que a paz está selada entre vocês dois. Eu preciso de um momentinho à sós com nosso Príncipe...se não for pedir muito, irmão – Jon começou a conduzir Sam rumo à porta.
— Eu preciso mesmo ir até nosso Pai – Sam falou – Vejo vocês depois – e os deixou à sós.
— O que é Jon? – Rhaegar perguntou, um tanto impaciente.
— Me diga você! Me conte essa história direito....você dormiu com ela? Virou homem de vez? Ela foi gentil com você? Estou preocupado aqui com a sua primeira experiência... – Jon falou, levando a mão dramaticamente ao peito.
— Deixe de ser imbecil...- Rhaegar o empurrou no ombro, controlando um riso.
— Não me enrole! Eu esperei muito por esse momento! Desembuche, Alteza – Jon exigiu, sem se intimidar com o empurrão.
— Sim, nós dormimos juntos. E é só o que direi para você, seu enxerido – Rhaegar falou – Agora me deixe em paz. Preciso pensar – Rhaegar pediu.
— Tudo bem. Já me basta. A princesa deve ter sido gentil com você. Um donzelo do seu quilate...- Jon o provocou mais.
— Saia daqui – Rhaegar jogou uma almofada na cara de Jon, que caiu na gargalhada, e pegou papel e tinta numa estante lateral, indo até uma das mesas – Estou ocupado – ele avisou.
— Vai escrever uma carta de amor? – Jon falou, piscando inocentemente.
— Talvez eu devesse...mas não...só gosto de rabiscar enquanto estou nervoso com algo...- Rhaegar ainda se deu ao trabalho de explicar, sentando na mesa solitária próxima da estante.
— O Rei foi mesmo para Pedra do Dragão? – Jon perguntou.
— Sim. E eu não consigo parar de pensar...em um dado momento ela me perguntou porque ela. Eu...eu gostaria de ter dado uma resposta mais satisfatória. Mais completa...- Rhaegar desabafou. Não seria justo falar sobre aquilo com Sam. Que fosse com Jon então. Não era ruim botar aquilo para fora com alguém.
— Acha que seu pai poder convencê-la a mudar de ideia? – Jon perguntou, sério, deixando as brincadeiras de lado.
— Se alguém pode fazer isso, esse alguém é ele – Rhaegar falou. Jon acenou, concordando.
— Escreva um poema de amor então. Eu ajudo... – Jon começou a andar de um lado para o outro.
— Jon...isso é sério – Rhaegar o advertiu.
— Eu sei! Eu estou falando sério! Diga para ela...porque ela...faça um belo poema...Querida Lyanna, que bunda tens... – Jon começou a declamar, erguendo uma das mãos dramaticamente.
Dessa vez Rhaegar jogou um livro. E o acertou bem onde queria, bem no meio das pernas de Jon Tarly.
— Dê o fora daqui, seu pervertido – Rhaegar apontou para a porta. Jon ergueu as mãos, vencido, sorrindo ao caminhar rumo à saída do salão – E não olhe para a bunda dela nunca mais! – ele completou, mais alto do que deveria.
—*-
— Vossa Graça... – Jon ouviu um guarda pigarreando atrás dele.
Ele permaneceu como estava. Parado. Diante dos dois tronos vazios. Segurando as mãos atrás do próprio corpo.
— Ah...Majestade? Podemos deixar os peticionários do dia começarem a entrar? – o Imaculado insistiu, desconfortavelmente.
Jon olhou para o teto do Grande Salão da Fortaleza Vermelha. As flâmulas em homenagem ao aniversário dos filhos ainda estavam lá, no lugar do habitual dragão de três cabeças.
— Não vou ouvir ninguém hoje – Jon respondeu ao guarda, ouvindo a própria voz ecoar no salão vazio e não a reconhecendo.
— Diga aos peticionários que vieram de longe...que o Trono de Ferro custeará as despesas das estalagens deles...pelo dia à mais... por não os ouvir hoje – Jon falou, como estava, imóvel, de costa para as grandes portas.
— Imediatamente, Majestade – o guarda falou. Jon contou os ecos dos passos se afastando. E o barulho das portas se abrindo e se fechando.
Ele voltou sua atenção para as flâmulas. Para o dragão verde e para o dragão acobreado. Lyanna. Rhaegar. Um nó voltou a subir por sua garganta.
Jon precisou fechar seus olhos com força para não voltar a chorar. Ele já tinha derramado lágrimas suficientes. Em Pedra do Dragão. E no caminho de volta.
Passos inconsistentes se fizeram ouvir de novo. Agora vindos da abertura lateral, do corredor que dava acesso aos tronos.
— Um Rei de olhos fechados nessa sala, de costas para as portas...Não é algo que eu já tenha visto – Jon ouviu a voz de Tyrion ressoar.
— Perdoe-me a intromissão. A Rainha solicitou que eu o substituísse junto aos peticionários do dia. Ela me disse que você...não estava na Fortaleza – Tyrion explicou, dando mais alguns passos e sentando-se em um dos degraus da elevação dos tronos.
— Minhas pernas doem – Tyrion comentou, com um lamento – Você não está tão velho quanto eu, mas parece que precisa sentar um pouco também – Tyrion sugeriu. Jon permaneceu onde estava. Mas finalmente olhou para sua Mão.
— Como eu não percebi, Tyrion? – Jon suspirou, levando uma das mãos ao rosto, cabisbaixo.
— Não se culpe. Eu sabia de Jaime e Cersei. Sou uma coisinha esperta, todos sabem – Tyrion tentou brincar – Mas mesmo eu nunca desconfiei dos seus filhos... – ele confessou – Se servir de consolo, meu pai, quer eu goste de admitir ou não, foi o homem mais astuto que conheci, Jon. E mesmo o poderoso Tywin Lannister não percebeu o que se passava entre seus filhos... Tudo o que ele via era dois irmãos apegados. Solícitos um com o outro. Porque é o que um pai espera ver – Tyrion o olhou, com solidariedade.
— O que você fez...quando percebeu? – Jon perguntou, olhando para os tronos mais uma vez. Ponderando. Buscando coragem para fazer o que precisava fazer.
— Nada – Tyrion lhe deu um sorriso triste – Eu e Cersei...nunca nos gostamos. Mas eu amava Jaime com todo o meu ser. E apesar de não entender como ele podia amá-la, justo ela, que me desprezava e me maltratava tanto, enquanto ele sempre foi um bom irmão mais velho, o melhor irmão mais velho...- Tyrion fez uma pausa dolorida e Jon pode sentir a saudade na voz dele. Robb, Rickon, Brandon. Eu me calaria por vocês?
— Por Jaime...eu não fiz nada – Tyrion concluiu, o olhar se perdendo também – Nunca falamos sobre isso. Era um acordo, um entendimento implícito, que nós dois tínhamos. Ele sabia que eu sabia. E sabia que eu o amava. E que eu nunca faria nada para prejudicá-lo. As verdades que não contamos por amor... – Tyrion se calou por um instante – Sinto falta dele. E de Tommen e Myrcella, que puxaram seu coração – Tyrion respirou fundo. Pesaroso.
— Você faz ideia de quanto medo eu senti, Tyrion? Quando eles começaram a crescer? Ao longo de todos esses anos? Sempre que Rhaegar aprontava alguma ou Lyanna passava mais e mais horas na biblioteca, eu sentia medo – Jon suspirou – Isso é normal? Eu sempre me perguntava. Eles serão normais?
— Eu...entendo – foi tudo que Tyrion falou – Cersei podia ser horrível de muitas formas, mas as vezes eu conseguia ver o medo e o sofrimento no olhar dela por Joffrey. E a culpa.
— E eu ainda me preocupo. O Rei Louco...não nasceu louco. E seu sobrinho... – Jon começou a dizer.
— ...sempre foi uma criança horrível e maldosa. Seus filhos são perfeitamente normais. E continuarão sendo – garantiu Tyrion, com uma fé que não lhe era própria. Tyrion sempre fora um homem de fatos e argumentos lógicos.
— Em nome dos deuses novos e antigos, torço para que assim seja – Jon desejou – Mas e os filhos deles, Tyrion? Rhaegar será um Rei melhor que eu. Muito melhor. Mas e depois? Isso...esse ciclo da Casa Targaryen...precisa acabar — Jon falou, apontando para o Trono de Ferro.
— Podemos elaborar leis que resguardem o Trono de Ferro de um herdeiro mentalmente instável, Jon – Tyrion sugeriu, com uma fagulha de esperança.
— Os ovos em Pedra do Dragão eclodirão um dia, Tyrion. E meus netos voarão pelos céus dos Sete Reinos. Leis queimam. Magistrados queimam. Cidades queimam— Jon balançou a cabeça – Não daria certo. Se muito causaria uma outra Guerra Civil, caso o herdeiro preterido tivesse apoiadores. E ele teria. Eles sempre tem.
Tyrion concordou. Vencido. Ele sabia como a roda do poder girava, melhor do que todos eles.
— Estou errado, Tyrion? Estou sendo hipócrita? Eu...que sou casado com minha própria tia? – Jon passou as mãos pelos cabelos grisalhos, sentindo-se cansado. Derrotado.
— Não está. Quando vocês descobriram o parentesco seus filhos já estavam a caminho. Não tinha sentindo nenhum que não ficassem juntos. Sentimentalmente. Politicamente. Era o mais lógico. Você fez o que era certo. E coincidentemente o que era certo, era o que o seu coração também queria. Não é hipocrisia Jon. Mas...- Tyrion falava.
— ...tudo que vem antes de um mas é besteira – Jon suspirou, encarando Tyrion, que quase sorriu.
— Mas...- Tyrion enfatizou novamente – Presumo que esteja vindo de Pedra do Dragão. E pela sua cara, presumo que não tenha conseguido demover sua filha da ideia de se casar com o próprio irmão. E se você não conseguiu fazer isso, ninguém mais conseguirá. Aquela garota te respeita e estima além de qualquer coisa...
— Ela preferiu ele – Jon falou. Arrasado. Com profunda tristeza – Entre o que é certo e ele, ela preferiu ele. Ainda me resta ver se Daenerys teve sucesso em fazê-lo desistir...
— Jon...seu filho não vai desistir disso. O Príncipe é um rapaz determinado. E parece estar apaixonado pela irmã. E de paixões eu também entendo. O garoto encarou você e disse que a amava... – Tyrion se viu obrigado a dizer.
Jon ficou em silêncio. E voltou a olhar para os Tronos. Ele não conseguia dizer mais nada, até ver Daenerys entrando no Grande Salão, por onde Tyrion tinha vindo.
Os passos da Rainha estancaram brevemente ao ver eles dois ali. Pela expressão de preocupação no rosto da esposa, Jon sabia que Tyrion tinha razão. Ela não tinha conseguido.
— Conversou com ele? – Jon perguntou à ela. Tyrion se levantou dos degraus do Trono com uma careta pelo esforço e começou a se retirar.
Aquele era um problema do Reino. Sim. Era. Mas antes de tudo era também um problema de família. Eles precisavam decidir isso entre si. E só depois Tyrion os ajudaria com as consequências de qualquer um dos caminhos escolhidos.
— Vou deixá-los, Majestades – Tyrion inclinou a cabeça na direção dos dois – Tenham calma. Para tudo dá-se um jeito.
— Sim – Daenerys respondeu à pergunta de Jon, vendo Tyrion sair – Ele está decidido. Diz que a ama. Nada nem ninguém vai fazê-lo mudar de ideia. Conheço meu filho... – Daenerys lamentou. Dando mais passos na direção de Jon, até ficar ao seu lado.
— Ele sempre conseguiu tudo de você. Não sei porque depositei alguma esperança nisso...- Dany o ouviu dizer, cada palavra a magoando – Você nunca teve pulso firme com aquele garoto. Porque teria agora, não é? Você não é realmente contra isso. Eu posso ver.
— Isso não é justo, Jon – Dany rebateu – Eu não queria isso. Não queria. Preferia sim vê-los casados com outras pessoas. Não era só você que tinha medo por eles. Eu também tive. A vida toda! Você nunca foi julgado por ser filho do Rei Louco, como eu fui, cada ação julgada com base na especulação de que eu talvez fosse louca também. Você não teve que conviver com Viserys. Não venha me dizer que eu não tenho objeções à isso, porque você sabe que não é verdade! – Daenerys aumentou o tom, mesmo que não fosse sua intenção.
Mas Jon a olhou com descrença e aquilo só a irritou mais.
— Você faria tudo por Rhaegar...não venha negar isso! – Jon a acusou.
— E você faria tudo por Lyanna! – Dany rebateu, ultrajada – Aliás...como foi a conversa com ela? Foi fácil? Foi simples? Você consegui dobrá-la à sua vontade? Me diga! – Dany o questionou, cruzando os braços e aguardando cinicamente.
Se o marido continuava tão irritado e nervoso, a resposta para aquela pergunta só poderia ser uma só. Ele também não tinha conseguido nada.
— Eu encontrei minha filha seminua na cama que você e eu ocupávamos. Na cama na qual eles nasceram! – Jon se alterou novamente – A prova da perda da virtude dela bem diante dos meus olhos! – ele contraía o maxilar a cada palavra.
Daenerys viu o choque e a dor nas feições do marido. E mesmo irritada com ele, ela entendia. Entendia o quão difícil aquilo estava sendo para ele, como pai.
— Ela não ouviu meus apelos – Jon disse, por fim – Mas eu pelo menos os fiz. Sinceramente, não sei se você se esforçou com Rhaegar. Você nunca colocou limites nele.
— Ah e não? — Daenerys ironizou. Magoada – A boa filha, tesouro da sua vida, não ouviu você? – ela completou. Jon parecia ter recebido um tapa no rosto.
— Nossa vontade aqui não vai ter vez, Jon. Vamos encarar os fatos. Nossos filhos...querem ficar juntos. Vamos aceitar e tentar minimizar a repercussão...é o melhor que podemos fazer – Daenerys falou, procurando olhar nos olhos de Jon. Querendo trazê-lo à um entendimento pacífico.
— Eu não aceito – Jon falou, com a voz gelada – Não. Aceito.
— Jon...Se não aceitarmos...eles podem ir embora. Quem os impediria? Os dois tem meios de viver muito bem sem nós dois. Ou você pensa em revogar os títulos deles, em tomar Solarestival e sua renda de Lyanna e Pedra do Dragão de Rhaegar? Você está disposto a fazer isso? Lyanna não faria nada...já Rhaegar...- Daenerys não gostava sequer de pensar naquilo. Ninguém tomaria Pedra do Dragão do seu filho, ela sabia disso. Ele era o Senhor daquele lugar, talvez mais do que qualquer Targaryen já tivesse sido um dia.
Jon se afastou dela, claramente com raiva dos argumentos lógicos que Dany apresentava para ele.
— Você está pronto para começar uma guerra entre nós, enquanto o Dorne se rebela e tenta nos eliminar? – Dany o acompanhou de novo e o puxou pelo braço – Pelos Deuses, Jon. Não temos escolha. Eu não vou tomar o que dei de bom grado aos meus filhos. Não vou apostar para ver a reação deles. Não quando eu sei que eu teria queimado o mundo por você. Rhaegar é parecido demais comigo. Você sabe disso. Eu sei disso!
— Não compare nossos sentimentos com isso, Daenerys! – Jon finalmente falou.
— Eles se amam, Jon! — Danny enfatizou – Porque eu não compararia?
— Eles não sabem de nada da vida! – Jon falou alto, exaltado – Eles cresceram protegidos e seguros. Privilegiados. Amados. Mimados. Quando nós nos conhecemos, já tínhamos visto o pior do mundo, já tínhamos amado antes, já tínhamos perdido pessoas importantes, e ainda assim era forte o suficiente mesmo em meio ao pior momento das nossas vidas! Qual é o parâmetro desses dois para o que eles pensam que estão sentindo? Eles não viveram nada! Eles não sabem de nada! E Rhaegar se engraçava com as moças da criadagem até um dia desses, não finja que não sabe disso! Todos nesse castelo sabem! – ele continuou, gesticulando, esfregando as têmporas. Mal tomando fôlego antes de prosseguir colocando seus piores temores para fora.
— Semanas atrás, quando eu estava preocupado, você me assegurou que ninguém faria mal à nossa filha por medo de nós, por temor à Khaleeth, à Lys. O que nós vamos fazer se ele a fizer sofrer? Se ele a trair? Se ele, que também é nosso filho, não a respeitar? Não a fizer feliz? – Jon a questionou.
— Isso não vai acontecer...- Dany balbuciou, sentindo a garganta fechar. Sem saber direito o que pensar.
— Você não tem como saber! — Jon gritou – Ninguém tem! Ninguém tem como saber no que isso vai dar. E parece que apenas eu estou me dando conta disso!
— Eles podem ter a sorte que nós tivemos, Jon – Dany impôs a voz, quase gritando também – Rhaegar ama Lyanna. E eu acredito nele. Ele não fará nada para machucá-la. Você parece que não conhece o caráter do seu filho – Dany o defendeu, insultada, ferida. Rhaegar podia ter seus defeitos, mas ele era leal. Era bom.
— Não conheço mesmo— Jon disse, com desprezo – Nunca imaginei que aquele garoto iria seduzir a própria irmã pelas minhas costas!
— Seduzir? Ela foi ludibriada por ele então? É isso que você está insinuando? – Dany perdeu a paciência de vez – Você realmente acha que alguém nesse mundo é capaz de enrolar a nossa filha? Aquela garota é mais inteligente do que todos nós somados! – Dany bufou — Eles se apaixonaram! Ele não fez isso para lhe atingir! Ele não seduziu ninguém! E eu não vou ficar aqui ouvindo isso do meu filho! Chega!
— Ela pode ser mais inteligente que todos nós, mas ainda é só uma garota...- Jon ainda tentou argumentar.
— Ela não é! – Dany rebater, cada vez mais exaltada – Lyanna é uma mulher. E fez a sua escolha. E você precisa aceitar isso! Você está sendo irracional!
— Eu não vou aceitar, nunca – Jon me manteve impassível.
— Pois eu não vou perder meus filhos. Eu não vou expulsá-los daqui. Eu não vou tomar seus títulos e suas posses. E eu não vou virar minhas costas para a felicidade deles! — Dany disse, face à face com Jon. Olhando em seus olhos. Tocando nos braços dele, mas sentindo-o distante dela, como se não falassem mais a mesma língua.
— Faça o que achar melhor – Jon falou, afastando as mãos dela dele – Eu também farei. E eu não serei testemunha disso. Não darei a minha bênção – Jon comunicou, se afastando de novo, virando as costas para ela, e caminhando em direção às portas.
— Jon...- Dany o seguiu – Para onde...o que... – ele começou a perguntar.
— Eu vou para casa – Jon disse, sem olhar para ela.
— Casa? Sua casa é aqui. Sua casa somos nós— Dany afirmou, sua voz falhando, seus piores temores se concretizando.
— Não são mais – Jon falou, se forçando a não olhar para trás, a não olhar para sua mulher, a não vacilar em suas convicções ainda que seu coração partido jamais pudesse deixar de ser dela e daquele lugar.
—*-
Lyanna havia chorado por um bom tempo após a partida do seu pai de Pedra do Dragão. Mas quando se deu conta de que Rhaegar já deveria ter voltado, ela enxugou suas lágrimas, tomou um banho, comeu um rápido desjejum e vestiu trajes adequados para o vôo de volta para Porto Real.
O novo septão de Pedra do Dragão a tratava como se ela fosse de cristal, ao lhe acompanhar pessoalmente com uma escolta de vinte guardas, até onde Khaleeth estava.
Lyanna sabia que todo aquele cuidado era coisa de Rhaegar. E levando em conta o momento que estavam vivendo com Dorne, ela não reclamou de nada. Apenas foi para onde deveria ir. E levantou vôo.
A viagem foi rápida e menos desconfortável do que ela imaginara. Sua dragão sentia sua pressa. E voava de acordo com ela.
Ao avistar Porto Real no horizonte, Lyanna vislumbrou a envergadura gigantesca de Drogon se afastando da capital. Ela estranhou, mas não conseguiu ver se alguém o montava. Estava longe demais.
Lyanna olhou ao redor, à procura do dragão acobreado do irmão ou de algum problema ou ataque à capital, mas não viu nada fora do normal, então ela pousou no mesmo pátio da Fortaleza Vermelha por onde havia fugido horas atrás, confusa, com medo e sem rumo certo.
Quanta diferença algumas horas poderiam proporcionar.
Ela havia saído dali fugindo de Rhaegar e do que sentia e agora caminhava firme pelas portas e corredores querendo vê-lo. Querendo senti-lo. Ainda que o mundo provavelmente estivesse desabando ao redor dos dois.
Lyanna percebeu os olhares especulativos de serviçais e nobres, por onde passava, assim que a viam cruzar por eles. Mas ela os ignorou. Continuou caminhando determinada e de cabeça erguida, ainda que nervosa.
Lyanna rumou diretamente para a Fortaleza de Maegor, para o penúltimo andar da estrutura fortificada que formava a área residencial do castelo. Diretamente para a ala deles dois. Esperando encontrá-lo ali. Em algum lugar dali.
Vendo que a porta do salão comum deles estava entreaberta, Lyanna espiou por ela, lembrando de Rhaegar a encurralando naquela mesma porta horas atrás também. A lembrança lhe deixava corada.
E a visão de Rhaegar de cabeça baixa, concentrado em algo que escrevia em um pergaminho enquanto assanhava os cabelos prateados de tanto que passava uma das mãos por eles, também não ajudava.
Rhaegar acabara seguindo o conselho de Jon, mas não exatamente da ridícula forma que ele havia sugerido.
Não era um poema o que ele escrevia. Nem uma carta. Estava mais para uma lista.
Ele conseguia pensar em uns quatro bons motivos para eles não se casarem, que seu pai provavelmente usaria para demover Lyanna da ideia de se casar com ele.
Então ele havia começado a listar motivos pelos quais ela deveria se casar com ele.
Ele não estava planejando entregar a lista para ela. Era apenas um exercício de...de reflexão. Uma organização de ideias para quando à visse. Sim. Era apenas isso.
Mas quando ouviu um barulho à porta e erguendo o rosto, a viu ali, o encarando, Rhaegar rapidamente virou o pergaminho para baixo. E viu o olhar dela se arregalar e se enfurecer, por algum motivo.
Lyanna o viu levantar o rosto do pergaminho. E só então percebeu que ele estava machucado. Muito machucado.
Uma feia mancha roxa tomava parte do olho direito dele. E outra igual, maculava seu maxilar, perto da boca.
— O que aconteceu com você? — Lyanna exigiu saber, fechando a porta atrás de si e caminhando até ele, dando a volta na mesa que ele ocupava e ficando em pé ao lado da sua cadeira.
Lyanna tocou no rosto de Rhaegar e ele se encolheu de dor. Antes que ela se desse conta, seus dedos já estavam acariciando seus machucados. Desejando ter o poder de fazê-los desaparecer em um passe de magia.
— Bem...nosso Rei...tem um bom soco – Rhaegar falou tranquilamente, aproveitando o toque carinhoso dela.
Ele havia sentido medo de que tudo voltasse ao estado de antes assim que ela colocasse os pés na Fortaleza Vermelha. Assim que eles não estivessem encobertos pela noite, pela distância, pelas paredes de um quarto. Mas aqueles toques dela em seu rosto, lhe enchiam de esperança de que nada voltaria a ser como antes. Nada.
— Você disse à ele que dormimos juntos então – Lyanna concluiu. Imaginado que apenas isso faria seu pai perder o controle daquele jeito.
— Posso ter deixado escapar – Rhaegar tentou fazer cara de inocente.
— Claro que deixou – Lyanna respirou fundi – Eu deveria ter vindo. Ele não teria feito isso se eu estivesse aqui.
— Você teria me defendido? – Rhaegar perguntou, genuinamente interessado e divertido.
Lyanna o olhou nos olhos, ainda percorrendo o seu rosto com os dedos. Rhaegar colocou a mão na cintura dela e a trouxe mais para perto, atento para ver se ela o repeliria, o afastaria. Tentando se preparar para suportar aquilo, caso acontecesse.
Mas ela não o impediu. E não o afastou.
— Eu jamais teria deixado que nosso pai te batesse por causa disso – Lyanna o respondeu – Eu...quis. Foi minha escolha.
— Então...ele não conseguiu convencer você de que...- Rhaegar começou a perguntar.
— Você quer dizer depois de me encontrar dormindo, nua, com uma mancha de sangue bem do meu lado? – Lyanna perguntou, vendo o rosto preocupado dele – Ele tentou – ela respondeu, triste, observando que Rhaegar parecia prender a respiração enquanto ela falava.
— Eu quis voltar, assim que soube que ele tinha ido atrás de você, mas nossa mãe me proibiu. Me desculpe...deve ter sido difícil – Rhaegar encostou sua cabeça na barriga dela e fechou os olhos por um minuto. Ela está aqui. E não parece que desistiu. Não me afastou, pelo menos. Ele repetia para si mesmo, como se precisasse se convencer de que aquilo era real.
— Sim— foi o que Lyanna conseguiu responder, precisando limpar a garganta.
Rhaegar passou os braços ao redor da cintura dela e a puxou para o seu colo. Ela aceitou sem dificuldade. E Rhaegar pegaria mil socos no rosto se fosse preciso, apenas para tê-la ali, com o rosto enfiado no pescoço dele, sentada sobre suas pernas.
Mas ela estava chorando. Chorando copiosamente agarrada à ele. E o coração de Rhaegar doeu por ela. Ele sabia o quanto ela e o pai deles eram ligados e o quanto aquilo a estava fazendo sofrer.
— Lya...ele vai aceitar. Talvez leve algum tempo, mas ele vai aceitar. Isso vai passar, prometo à você – Rhaegar tentava consolá-la, abraçando-a protetoramente.
— Eu não sei se ele vai. Mas vou ter que aprender a lidar com isso – Lyanna falou, enxugando suas lágrimas, esfregando seu rosto e respirando fundo.
— O que você estava escrevendo? – Lyanna tentou mudar de assunto, levando a mão até o pergaminho aberto e virado, mas Rhaegar foi mais rápido e o pegou.
— Nada demais... – Ele tentou despistar, Lyanna semicerrou os olhos ainda úmidos para ele e estendeu a mão.
— Lya... – Rhaegar falou, mas ela apenas balançou a mão de novo, dessa vez levantando do seu colo. Rhaegar revirou os olhos e entregou o pergaminho na mão dela.
— Antes que você leia...eu estava com medo – Rhaegar confessou – Eu conseguia pensar em, não sei, talvez uns quatro bons motivos que o nosso pai deveria estar usando para tentar convencer você a não se casar comigo...que seria moralmente errado, que poderia nos trazer problemas políticos, problemas religiosos, problemas com a nossa descendência...
— Hum...foi por aí...- Lyanna concordou, olhando dele para o papel, sem entender.
— Então eu comecei a rabiscar...sabe...cinco motivos para você se casar comigo...para cada motivo que exista para não se casar comigo...é só isso...- Rhaegar explicou, um pouco constrangido.
— Humm...certo...- Lyanna mordiscou os próprios lábios para não sorrir e desenrolou o papel. A letra firme e sem enfeites de Rhaegar, tão parecida com a dela mesma, estava por toda parte, com algumas palavras riscadas, outras reforçadas.
Vinte razões motivos para Lyanna se casar comigo:
Eu a amo. Tão profunda e completamente, que me pergunto como não enlouqueci esse tempo todo.
E a amo com propriedade. Cada perfeição e cada imperfeição, porque eu a conheço melhor que ninguém.
E ela sente o mesmo, ainda que não diga com todas as letras. Mas ela sabe que sente.
Portanto, seria igualmente imoral e errado nós nos casarmos com outras pessoas sabendo que jamais as amaríamos de verdade. Não como amamos um ao outro. Não enquanto tudo que queremos é ser um do outro.
Sou Somos espertos o suficiente para contornar qualquer crise política. Ela, mais do que eu.
Uma crise com a Fé simplesmente não vai existir.
Ninguém seria uma Rainha melhor que ela, porque ela é a voz na minha consciência. Não minha mãe, não meu pai. Ela é. Sempre foi. Quando eu aprontava alguma coisa a primeira pessoa que eu pensava que não poderia descobrir era ela. Quando eu não sabia o que fazer, a primeira coisa que eu me perguntava era o que ela faria. Nem sempre eu seguia a resposta que encontrava, porque assim a vida seria muito chata. Mas eu pensava nela. Você quer convencê-la ou fazê-la desistir? Idiota.
Eu sei do que ela precisa. Não do que ela pensa que precisa, mas do que ela precisa de fato, para ser plenamente feliz. E não é se esconder do mundo naquela biblioteca. É usar o que ela aprendeu naquela biblioteca para melhorar o mundo.
Eu amo o sorriso dela. Como amo. E eu sei como é difícil que ela sorria. Acima das minhas responsabilidades com o Reino, minha missão na vida vai ser conseguir fazê-la sorrir todos os dias.
Quem mais mandaria trazer do outro lado do mundo as melhores velas para que ela passe a noite lendo ao invés de aquecer a cama do seu Majestoso Marido? Sim, apenas eu.
Ninguém no mundo tem tanta vontade de mergulhar nos olhos de tempestade dela, quanto eu. Ninguém os apreciaria como eu os aprecio. Ninguém sentiria tanta vontade de contar quantos fios violeta existem naquele mar de cinza, quanto eu sinto.
Ninguém amaria a cara de brava dela como eu. E ela tem uma expressão especialmente brava e incomodada apenas para mim. É um privilégio que por si só deveria bastar. Ela vai me bater quando ouvir isso.
Ninguém em sã consciência a amaria tanto quanto eu depois de ter levado tantas pancadas na cabeça dela. (Ressaltar que eu mereci todas).
Quanto aos filhos, eu a amo tanto que eu quero ter muitos. Quero ter quantos forem possíveis, porque quero poder vê-la em outras pessoinhas. Quero ver suas expressões, seus olhos, sua inteligência, misturadas com coisas minhas. Perpetuadas nas próximas gerações para que nosso amor ainda exista mesmo quando nós não estivermos mais por aqui.
E se tivermos filhos com problemas, cuidaremos deles. E amaremos eles. E tomaremos as medidas cabíveis. Porque juntos, podemos enfrentar qualquer coisa.
Eu sempre vou querer dançar com ela, mesmo que ela pise em meus pés. E ela sempre pisa. Mesmo que não queira que eu a gire no ar achando que vai cair, eu jamais a derrubaria.
Quem mais teria tanta determinação para entrar na intimidade de todos os seus segredos dela? Quero fazê-los meus. Nossos. Quero entender os seus desejos e realizá-los. E eu farei isso, até o meu último suspiro.
Cada parte de nós tem a forma ideal de algo que simplesmente não pode ser proibido. Que é bonito demais para viver escondido. Para ser suprimido como se fosse algo ruim, quando na verdade, é a parte mais bonita de mim. E eu creio, talvez como apenas um bobo creria, que também é parte mais bonita dela.
Porque ela é a única pessoa que com um olhar, um simples olhar, me tira o ar e me faz questionar todas as coisas que penso que sei. E eu preciso disso. E eu sou a única pessoa que a tira, nem que seja pela força da raiva, do seu lugar de isolamento.
Eu poderia listar mil motivos na verdade, mas tudo se resume à isso: Sem Lyanna...não há um Rhaegar, não existiria este Rhaegar. Porque eu não seria...eu. Não seria feliz, não seria completo, não teria vontade de fazer as coisas que faço, de sonhar com coisas diferentes, maiores e melhores. Sem Lyanna, não há Rhaegar.
Lyanna terminou de ler a lista. Em alguns momentos ela quis rir. Em outros chorar.
Ela pensou no que dizer, mas quando viu já estava lendo tudo de novo. Aquilo era...era...
— Diga alguma coisa...- Rhaegar pediu, baixinho, nervoso.
— É uma lista bem....convincente— Lyanna conseguiu dizer, olhando do papel para ele, consciente de que seu rosto estava muito vermelho.
— Posso concluir que você ainda está decidida a casar comigo então? – Rhaegar perguntou, se levantando, cobrindo a distancia entre os dois, sua atenção na forma como ela apertava o pedaço de papel contra o próprio peito.
— Estou— Lyanna disse – Desde que você não se importe de me deixar ficar com essa lista. Posso precisar ler ela todos os dias, sabe? Para me convencer quando você me irritar – ela brincou.
— É sua— Rhaegar garantiu, puxando-a pela cintura – É tudo seu, Lya— ele falou, aproximando seu rosto do dela – E é tudo verdade – Rhaegar afirmou, beijando o canto trêmulo da boca dela.
Lyanna sabia. Sabia e sentia. E queria mais. Mais. Mais uma vez se entregar à força daquele sentimento desenfreado.
E ela deixou que ele a beijasse como queria. E que ele a tocasse onde queria. E que ele a conduzisse para onde queria.
Nos braços de Rhaegar ela era água. Era maleável. Navegável. Era o que ele quisesse.
Se dar conta daquilo era assustador. E libertador.
— Lya...- ele murmurava seu nome, beijando-a com tanto carinho e com tanto calor, reivindicando-a como se ela já não fosse dele à tanto tempo.
E então eles ouviram um pigarrear vindo de algum lugar.
Lyanna quis se afastar rapidamente dele, mas Rhaegar não deixou. Ele continuou a segurando pela cintura, colada à ele, ainda que ao dois estivessem lado à lado agora.
E era a mãe deles que estava ali. Tentando não parecer muito chocada com a cena que acabara de presenciar.
Lyanna tentou se afastar de novo de Rhaegar, sutilmente, um centímetro que fosse, mas ele não permitiu. Ela suspirou, resignada.
— Eu...não queria atrapalhar – Daenerys começou a dizer, procurando palavras – Eu...vou me acostumar – ela garantiu, tentando sorrir para os filhos.
— Vocês...- ela apontou para os dois – Se amam, certo? De verdade. Genuinamente. Não é? – ela perguntou, com os olhos ardendo – Eu espero que sim. Eu...espero que seja.
— Mãe...- Rhaegar começou a falar, percebendo que algo estava errado. Ele soltou Lyanna e caminhou em direção à mãe – O que está acontecendo...
— ...é bom que seja – a Rainha continuou, com os olho a distantes, procurando o céu pelas aberturas do salão – Porque...o Pai de vocês...foi embora – Daenerys falou, desabando nos braços do filho.
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