Forbidden
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Porto Real
— Jon...foi embora – Daenerys repetiu, abraçada em Rhaegar. Tentando ser forte por eles e falhando.
— Não mãe...- Rhaegar balbuciava, apertando a Mãe contra seu peito – Ele...não faria isso...não para valer...
— Drogon...eu vi Drogon se afastando da Capital...quando eu estava chegando... – Lyanna falou, com o olhar vagando pelo recinto. O choque da notícia lhe deixando sem chão.
— Porque você permitiu mãe? Porque deixou que Drogon o levasse para...ele pelo menos disse para onde estava indo? — Rhaegar afastou o rosto da sua mãe do seu peito para encará-la.
— Ele disse...que estava indo para casa...como se aqui...como se nós...- Daenerys não conseguiu continuar. Era doloroso demais.
— Winterfell— Lyanna pensou alto, indo até as gigantescas janelas do salão. Olhando em vão para o céu. Ela sabia. Sabia que ele faria isso. Ele havia lhe dito que não viveria debaixo do mesmo teto que eles. Ainda assim, seu coração sangrava.
Ela estava se esforçando para não chorar. Ela havia perdido a admiração do seu pai, mas sua mãe havia perdido muito mais. Seu marido. Seu Rei. Seu parceiro de uma vida toda. Por culpa deles. Por culpa dela. Por culpa do que ela sentia pelo irmão.
— Porque deixou Drogon levantar voo, mãe? Ele está de cabeça quente...- Rhaegar lamentou, acariciando os braços e as costas da Rainha.
Daenerys limpou suas lágrimas e tentou se recompor. Rhaegar reconhecia aquela mudança. A expressão vulnerável sendo substituída pela expressão da Rainha dos Dragões.
— Ele precisa querer estar aqui – ela falou, olhando para o filho e para Lyanna, que estava de costas para eles, mais ao longe, as costas mais eretas que o normal, a postura tensa – E o pai de vocês teria ido de qualquer forma. Se não fosse em Drogon, seria à cavalo ou no primeiro navio para Porto Branco que aparecesse...e eu só ficaria mais preocupada com a segurança dele.
— Eu vou atrás dele...vou fazê-lo reconsiderar...- Rhaegar sugeriu, olhando para elas duas. Para as duas mulheres que ele mais amava na vida. E que agora estavam sofrendo, cada uma do seu jeito, pelo mesmo motivo, pela mesma ausência, ainda que Lyanna tentasse não deixar transparecer e que sua mãe tentasse ser forte por eles, ele as conhecia bem demais.
— Não, filho. Seu pai precisa de tempo. Ninguém vai a lugar nenhum. Não agora – Daenerys falou, tomada por uma tristeza palpável, mas firme no que dizia.
— Mãe...me deixe ir...eu...preciso fazer alguma coisa...- Rhaegar insistiu, passando as mãos nos cabelos prateados nervosamente. Ele havia cogitado aquilo, aquela reação do pai, mas apenas no pior cenário possível.
Ver se concretizar e não poder fazer nada era absolutamente angustiante para ele.
— Não, Rhaegar. O que eu disse mais cedo, ainda vale. Eu não quero meu marido e meu filho em dragões, enquanto estão irritados um com o outro, principalmente depois do que eu presenciei!— Daenerys apontou para os hematomas no rosto do filho.
— Mas nós não podemos simplesmente deixá-lo ir! Ele é o Rei. Ele é...seu marido. Nosso pai — Rhaegar insistiu – Eu falo com ele de novo...
— Rhaegar...- Daenerys respirou fundo, buscando forças para lidar com a teimosia do filho.
— Me deixe ir – Rhaegar insistiu com veemência.
— Não – Lyanna respondeu. Em alto e bom som. Ainda de costas para os dois. Ainda olhando para os céus.
— Mamãe tem razão. Seria inútil ir atrás dele agora. A não ser que seja para dizer que desistimos de nos casar. Nada além disso faria ele reconsiderar – Lyanna afirmou, se virando, encarando o irmão.
— Isso está fora de cogitação – Rhaegar gesticulou, sua mão cortando o ar, buscando confirmação nos olhos de Lyanna.
— E é por essa razão que você ir atrás dele também está – Lyanna falou, se afastando da janela, voltando a ficar perto de Rhaegar. Perto o suficiente para ver com clareza os olhos violeta dele se inundarem de alívio.
— Não faremos nada então? – ele rebateu, exasperado, mas vencido.
— Faremos— Daenerys falou – Nós faremos o que é esperado de nós. Governaremos. Cuidaremos do Reino na ausência do Rei e torceremos para que ela não seja muito longa. Enviarei um corvo para Sansa pedindo notícias. Vamos ver como as coisas....evoluem— ela fez uma pausa, o olhar recaindo nos dois filhos, na forma como se olhavam. Como pareciam dizer coisas silenciosas um para o outro.
Ela reconhecia aquela linguagem. Ela e Jon a tinham também. Todo casal de verdade deveria ter, compartilhar isso. E pensar naquilo aumentava consideravelmente o buraco em seu peito.
Mas ela era uma Rainha. Tinha um Reino para governar sozinha agora. E era mãe. Ela precisava focar no que era necessário. E focaria.
— Vocês dois estão, a partir de agora, oficialmente noivos— ela apontou de um para o outro – Farei o anúncio ao Reino em breve, depois de me reunir com o Pequeno Conselho mais uma vez. Mas vocês dois estão noivos. E vão agir como tal – Daenerys frisou, estreitando os olhos e ganhando a atenção dos dois.
— E isso significa...? – Rhaegar arqueou uma sobrancelha, em interrogação.
— Significa que vocês vão se comportar com o decoro esperado. Significa que eu não quero que o meu futuro primeiro neto nasça antes de pelo menos nove meses depois do casamento de vocês. E este casamento ainda não tem data para acontecer. Temos muitas coisas para a analisar, antes de marcarmos uma data – Daenerys esclareceu, encarando o filho seriamente.
— A senhora sabe que talvez seja um pouco tarde para isso, para todo esse...decoro— Rhaegar gesticulou e olhou para a barriga de Lyanna – Nós já..
— Eu sei— Daenerys o interrompeu, erguendo uma mão – Eu por um acaso estava lá quando você despejou isso para o seu pai e para todos que estivesse ali ouvirem em alto e bom som – Daenerys bufou – Só os deuses sabem os boatos que já não devem estar circulando pelo castelo – ela suspirou, bastante irritada.
— E se ela já estiver grávida? É uma possibilidade...– Rhaegar perguntou, como se estivesse falando que o sol era amarelo, levando a mão até a barriga de Lyanna.
Lyanna imediatamente afastou a mão dele, parecendo apavorada com a ideia. Rhaegar conteve um sorriso.
— Ela vai ser examinada. Se estiver, veremos o que fazer. Não queria casar vocês às pressas, sem seu Pai – Dany engoliu em seco – Mas se ela não estiver, então vai ficar sem estar. Nada de intimidade entre os dois até que vocês estejam devidamente casados. Os dois me entenderam? – Daenerys perguntou, precisando respirar fundo para falar aquilo para os filhos. Ainda era difícil.
— Por favor, esteja – Rhaegar virou para Lyanna, com um sorrisinho. Ela cobriu o rosto com as mãos. Rhaegar sabia que ela estava muito, muito perto de gritar com ele. Mas sinceramente, ele não se importava.
— Eu estou falando sério, Rhaegar! – Daenerys foi quem acabou gritando – Se sua irmã não estiver esperando uma criança, eu quero vocês dois comportados. Poderão ficar algum tempo juntos, mas não sozinhos. Nada será mais como antes. Nada. Entenderam? – a Rainha enfatizou – Vocês querem ser um casal? Ótimo. Vocês são agora. E serão tratados como tal. Estão compreendendo?
— Sim, mãe – Lyanna respondeu prontamente.
Mas Rhaegar apenas ficou em silêncio. Sustentando o olhar de desafio que Lyanna conhecia tão bem.
— Vou poder pegar na mão dela pelo menos? – Rhaegar perguntou – Ou beijá-la? Eu comecei a fazer isso agora e garanto à senhora que eu não quero parar. Nem sei se consigo, para falar a verdade – Rhaegar falou, jocosamente e baixou o tom de voz em seguida – É mais forte que eu – ele afirmou, com cara de sofrimento.
— Vocês me entenderam – Daenerys ignorou os gracejos do filho e se concentrou em Lyanna, que acenou, em concordância.
— Muito bem – Daenerys se empertigou, alisando as vestes e respirando fundo mais uma vez – Assuma os compromissos do dia do seu pai. Tyrion vai auxiliá-lo. Procure-o agora mesmo – Ela disse à Rhaegar – E você, vá para o seu quarto e aguarde a visita do Grande Meistre, enquanto eu tenho uma conversinha com as suas damas de companhia. Depois, no final da tarde, façam companhia aos nossos convidados. Um refresco ao pôr do sol nos jardins está sendo preparado. Precisamos sondar possíveis ofensas aos filhos dos Grandes Lordes. Quero os dois na Reunião de amanhã, sem atrasos – Daenerys bateu com as mãos, fazendo os filhos praticamente pular sobressaltados.
— Sobre as minhas damas de companhia, tenho um pedido a lhe fazer, mãe – Lyanna falou, empertigando-se, engolindo suas culpas ainda que imaginando que ela não iria gostar nada do que estava prestes a ouvir.
— Não quero mais Melissa Redwyne exercendo essa função – Lyanna prosseguiu, endurecendo as feições.
— Posso saber porque? – Daenerys questionou – A situação já é delicada demais, preciso de um bom motivo para dispensá-la. A família dela é influente. São bons aliados na Campina.
— Se ela se insinuar para Rhaegar mais uma única vez eu vou perder totalmente a compostura e voar nos cabelos ruivos dela. É motivo suficiente? – Lyanna perguntou, respirando ruidosamente – Não precisa mandá-la embora. Não agora. Entendo o momento. Mas não quero ela como dama de companhia. Não vai dar certo. Estou no meu limite – Lyanna alertou.
Daenerys arregalou os olhos incrédula e surpresa. Aquilo era real. Lyanna realmente gostava de Rhaegar. E estava com ciúmes. Com. Ciúmes.
— Você realmente não pode mantê-la apenas por mais alguns dias? – Daenerys pediu, suspirando.
— Não – Lyanna foi firme e de canto de olho viu Rhaegar abrindo a boca para dizer algo. Antes de descobrir se era a favor dela ou da mãe deles, ela ergueu um dedo na direção dele e ele se calou.
— Não — Lyanna repetiu – Se ela continuar como minha dama de companhia e eu ouvir um único comentário maldoso, uma única reclamação, um único olhar malicioso na direção dele...
— Você vai fazer o que? Estou apenas curioso...- Rhaegar perguntou, tentando parecer sério, mas no fundo adorando ver o ciúmes dela.
— Talvez ela e você virem comida de dragão – Lyanna ameaçou, com a voz gélida.
Rhaegar sorriu de leve, os olhos brilhando. Lyanna sentiu vontade de bater algo na cabeça dele, como nos velhos tempos, mas se controlou.
— Você precisa controlar esse ciúme. Seu irmão...seu noivo é um homem bonito. E é um Príncipe. Não podemos sair queimando as pessoas...o que é que vocês estão me olhando com essas caras? — Daenerys colocou as mãos na cintura, observando ao filhos olharem abismados para ela. Sim ela era ciumenta. Mas ela não queria que Lyanna fosse igual a ela.
— Eu por acaso disse que não vou atender seu pedido? Só estou lhe dando um conselho! – a Rainha argumentou – Ela não vai mais ser sua dama de companhia. Pronto! Agora vão, vão fazer o que eu mandei – Dany os dispensou. Ela não tinha mais como ser ciumenta. Não sem Jon ali, com ela.
Lyanna saiu apressada, sem olhar para eles, parecendo que fugia de um incêndio. Mas Rhaegar permaneceu um pouco mais.
— Você está bem, mãe? – o tom dele era de genuína preocupação. Nenhum vestígio das brincadeiras irreverentes de segundos atrás.
Daenerys sentiu uma bola se formar em sua garganta com aquela pergunta.
— Não – ela admitiu – Eu sempre desejei um lar. Quando eu pisei nas areias de Pedra do Dragão eu senti uma emoção indescritível. Mas não me senti em casa. Quando eu entrei pela primeira vez, nos corredores dessa Fortaleza, eu também não me senti em casa.
— Ele foi sua casa — Rhaegar falou, baixinho, compreendendo. Preocupado com ela. Com aquela situação toda.
— Ele e vocês dois. Quando tudo que eu queria era recuperar o que me foi tomado, eu não entendia que casas não eram lugares. Eram pessoas. Eram ter uma família – Daenerys tentou sorrir para o filho.
— Ele vai se dar conta disso mãe. Tenho certeza que vai – Rhaegar a consolou.
— Veremos – ela se soltou do filho e começou a andar na direção da porta – Mas agora vá fazer o que eu mandei, sim? — a Rainha ordenou, sem olhar para trás, com a voz estranha.
Rhaegar não precisava ver o rosto dela para saber que ela estava chorando de novo.
—*-
— Lorde Tyrion – Rhaegar se apresentou na Torre da Mão, conforme sua mãe lhe ordenara, determinado a aliviá-la da funções do dia à dia, na ausência do seu pai. Era o mínimo que ele poderia fazer.
— Alteza— o Lannister o cumprimentou, levantando as vistas de uma pilha enorme de pergaminhos.
— Seu pai dispensou os peticionários do dia antes de...partir. Eles voltarão amanhã, juntamente com alguns que já vieram e que ficamos de analisar as petições e possíveis soluções – Tyrion falou, remexendo nos pergaminhos e passando alguns para Rhaegar, que se sentou diante da mesa da Mão.
— Alguns assuntos encaminhamos para o Magistrado, mas geralmente eu e seu pai sentamos aqui e conversamos sobre eles – Tyrion continuou explicando – Quando não chegamos em um consenso, chamamos sua mãe. Eu sou a mente, seu pai o coração e nossa Rainha é...o meio termo – Tyrion explicou, por cima dos óculos que usava.
— E o que vamos analisar hoje? – Rhaegar o questionou, passando a vista nos pergaminhos.
— Vamos começar com o mais difícil. O pedido de subsídio dos padeiros. Com essa guerra entre as cidades livres os grãos estão muito caros. Isso reflete no preço dos alimentos e a reclamação é geral – Tyrion resumiu.
— Certo. Eles pedem que a coroa pague à eles a diferença do aumento que deveria ser repassada para as pessoas que compram os pães. Ou que diminua os impostos para que o valor fique aproximado ao de antes da guerra comercial – Rhaegar lê o pergaminho e contém um bocejo.
— Estou entediando você, Alteza? – Tyrion pergunta. Pelo tom, Rhaegar não soube dizer se a Mão estava ofendida ou não.
— Não. Me perdoe. Só estou cansado. Voei para cá e para lá. Não dormi a noite toda... – Rhaegar se justificou.
— Imagino que não... – Tyrion riu, com um olhar ligeiramente divertido – Gostaria de liberar você, mas não é o que nossa Rainha deseja. E isso não pode ser adiado, então... – Tyrion bateu nos pergaminhos.
— Acredito que diminuir ao impostos não seja uma opção – Rhaegar entrou logo no assunto. Quanto mais rápido resolvesse aquilo, mais rápido poderia ir atrás de Lyanna para ter notícias de como ela estava.
— Nunca é – Tyrion comenta, com um risinho entediado.
— E o pagamento do subsidio seria difícil de controlar e também seria oneroso para a coroa – Rhaegar coça o rosto, pensando em uma solução.
— Com certeza – Tyrion diz. Esperando a sugestão dele – Sem falar que se dermos para eles, outras classes pedirão a mesma coisa.
— Então o que fazemos? – Rhaegar pergunta, depois de alguns segundos de silêncio.
— Além de nos empenhar mais em acabar com essa guerra comercial ridícula, Vossa Alteza quer dizer? – Tyrion coçou a cabeça – Bem, diga-me você, meu Príncipe. Estou sem ideias – Tyrion cruzou as mãos uma sobre a outra e tamborilou os dedos.
Rhaegar revirou os olhos.
— Uhum, claro que está – Rhaegar esfregou o rosto por um momento – Não deveríamos depender de grãos que vem de fora. O Trono de Ferro deveria estimular a produção local – Rhaegar lamentou.
— Concordo. Mas essa é uma solução à longo prazo. Precisamos de uma para agora – Tyrion observou.
— O que meu pai faria? – Rhaegar perguntou.
— Ah ele iria querer conceder o subsídio, sem dúvidas – Tyrion respondeu, sem pestanejar – E eu ia ser veementemente contra. E nós chamaríamos a sua mãe. E ela ia acabar concordando com ele. E é por isso que nossos cofres andam com as reservas sempre abaixo do limite seguro – Tyrion completou.
— Mas seu pai não está aqui. E sua mãe ordenou que nós dois resolvêssemos. Então... – Tyrion deu de ombros. Aguardando.
Rhaegar via o brilho de expectativa contida em Tyrion. A Mão vislumbrava a chance de decidir as coisas de formas diferentes, com a ajuda dele.
Se era isso que ele queria, Rhaegar não o decepcionaria.
— Não conceda o subsídio – Rhaegar se levantou – Vou mandar buscar em meus navios pessoais as mercadorias necessárias diretamente dos fornecedores. Façamos logo uma lista de quais outros itens além dos grãos estão com o preço mais alto, para aproveitar a viagem – Rhaegar se esticou todo, se alongando.
Tyrion pareceu gostar.
— Andei ouvindo sobre seus empreendimentos Alteza. De quantos navios estamos falando? – Tyrion perguntou.
— Claro que ouviu – Rhaegar suspirou – Bem, só usarei os principais. Adaptados para isso. Quatro, digamos. O restante que for necessário, solicite à minha Mãe, da frota real. Ninguém será tolo de atacar uma frota que ostente as velas negras da Casa Targaryen – Rhaegar falou – Parece uma ideia boa o suficiente, Lorde Tyrion? – ele quis saber.
— Parece— Tyrion rabiscava anotações em um pergaminho em branco – Mas não se levante ainda. Temos muitas outras coisas para resolver, Alteza – Tyrion o observou em pé.
— Eu sei. Levantei porque penso melhor de pé – Rhaegar riu e conteve um bocejo – E por que assim é mais fácil espantar o sono – ele completou – Próximo assunto— Rhaegar pediu, sacudindo a própria cabeça.
— Tem alguém com pressa – Tyrion concluiu, rindo. E remexeu nos papéis.
—*-
Lyanna estava exausta. O restante do dia havia passado como um turbilhão cinzento de acontecimentos.
A constrangedora visita do Grande Meistre e suas perguntas quanto à sua recente intimidade, dias de sangue de lua e por fim, uma exame totalmente desconcertante, com uma Irmã Silenciosa entre suas pernas e apalpando sua barriga, foi apenas o primeiro deles.
O velho homem se despediu sem esclarecer nada. Tudo que saiu da sua boca foi Sua Alteza de fato não é mais virgem. E é muito cedo para dizer se resultará em gravidez. Como se ela mesma já não soubesse disso.
Mas o pior de tudo foi circular pelo castelo. Não apenas porque ela era obviamente o assunto de todos, mas também porque seu coração parecia não entender que seu pai já não estava mais ali.
Mesmo cercada de pessoas, a ausência dele parecia deixar todo o castelo vazio. Essa era sensação que ela tinha. De que estava só, ainda que estivesse com Lady Jane e com Lady Sarah ao seu lado.
E a cada corredor que dobrava, Lyanna sentia como se fosse vê-lo.
Era quase palpável a sensação de dar de cara com o pai, passando de uma reunião para outra, sempre acompanhado, sempre ouvindo alguém.
Não importava o quão sério fosse o assunto ou quão apressado ele estivesse, sempre quando eles se cruzavam seu pai desviava atenção do que estivesse fazendo para lhe dar um sorriso doce e terno.
E saber que ela não veria aquele sorriso no decorrer do dia, aquele sorriso que era sua base, seu porto seguro, esmagava seu peito e fazia seus olhos arderem.
Sua vida estava de ponta cabeça. Ela estava noiva. De Rhaegar. Seu pai havia ido embora, por sua culpa. Todo o castelo parecia estar em polvorosa. Todas as pessoas com quem ela havia cruzado, fossem nobres ou serviçais, olhavam para ela de um jeito especulativo.
E agora ela encararia todos os que pensavam ser pretendentes juntos, nos jardins, para um refresco ao pôr do sol, e ainda por cima com a missão de sondar possíveis mágoas.
Somando-se à isso o fato de que Jane parecia estar magoada com ela e que mal haviam trocado algumas palavras enquanto ela a arrumava e que Lys estava aparentemente desaparecida, já que não a vira desde que retornara à Fortaleza Vermelha, o dia todo parecia um desastre anunciado.
Mas assim que botou os pés nos jardins, a fonte dos seus problemas surgiu diante dos olhos dela.
Os jardins da Fortaleza Vermelha eram lindos. Eram elevados em relação ao nível do mar. Arejados. Cheios de corredores entre os canteiros frondosos e floridos que pediam para ser percorridos com calma.
Lyanna gostava daquele lugar. Não ia muito lá porque estava sempre movimentado. Mas de um determinado lugar da biblioteca real era possível ter uma visão de parte do jardim. E ela não podia negar que gostava de olhar para lá. Era bonito e pacífico.
Mas naquele momento, ela não enxergava o jardim exuberante, porque Rhaegar estava parado diante dela. O jardim era paz e leveza. Mas a visão de Rhaegar era...caos e agitação.
Ele estava trajando vestes negras luxuosas. Impecáveis. O cabelo prateado e curto penteado para trás. E isso por si só já seria suficiente para deixar qualquer garota de pernas bambas.
Mas o sorriso que ele deu ao vê-la era suficiente para fazer com que ela, que estava tão cheia de culpas e de tristezas, sentisse imediatamente uma fagulha de calor e de alegria se espalhando pelo seu corpo.
Olhar para ele parecia fazer como se o dia tivesse se tornado mais claro. Ele deixava o sol mais quente e o mundo menos complicado. Ainda que, na verdade, ele personificasse toda a complicação da sua vida.
— Eu estava esperando por você, minha noiva — ele finalmente disse, com um sorriso travesso.
Lyanna soltou a respiração que estava prendendo. E tentou sorrir um pouco.
Rhaegar se aproximou, já que ela permanecia estancada no mesmo lugar desde que pusera os olhos nele.
— Estão nos esperando – Rhaegar deu uma breve olhada na direção das mesas postas e ocupadas pelos seus convidados – Mas eu queria conversar um pouco com você antes de irmos – ele esclareceu, olhando para Jane e Sarah – Nos deem um momento de privacidade, miladys.
— Temos ordens da Rainha para não deixá-la sozinha com você, Alteza. Sinto muito – Jane se desculpou, constrangida. Ela e Sarah fazendo reverências diante de Rhaegar.
— Isso é ridículo – ele afirmou, mas não fez caso – Que seja. Fiquem onde estão – Rhaegar bufou, levando as mãos ao rosto de Lyanna.
— Como foi com o Grande Meistre mais cedo? – Rhaegar quis saber.
— Constrangedor e inconclusivo – Lyanna falou, envergonhada, sabendo que suas damas estavam ali escutando tudo.
— Imaginei – Rhaegar disse – Quero beijar você – ele declarou, de repente, para espanto delas três.
— Rhaegar...pelos deuses...aqui não é lugar – Lyanna gaguejou, mas já era tarde demais.
Ele já tinha colado os lábios dele nos dela em um beijo rápido e suave. E mesmo aquele mínimo contato foi suficiente para deixá-la desnorteada.
— Lya – Rhaegar interrompeu o beijo e olhou nos olhos dela – A partir de agora, estamos por nossa conta. Se nós dois nos portarmos como se nosso relacionamento fosse errado ou proibido, como se tivéssemos vergonha dele, as pessoas acharão que ele é errado e proibido. Você me entende? – ele perguntou.
— S-sim— Lyanna respondeu, piscando mais do que era necessário – Mas...eu...o que você espera que eu faça? Eu estou...tentando...
— Eu quero apenas que você não se reprima mais. Se sentir vontade de me tocar, de pegar na minha mão ou no meu rosto, toque. Se sentir vontade de me abraçar, me abrace. Se sentir vontade de me beijar, e por favor sinta, me beije. Eu estou ao alcance da sua vontade. Estou à disposição dela. Sou seu noivo. E nós vamos nos casar. E, por um acaso, estou mais que disposto a ser objeto do seu carinho – ele falou, voltando a beijá-la de leve, apenas um breve encontro dos lábios.
— Certo – Lyanna falou. Insegura. Nervosa. Ele estava certo. Mas ela havia passado tempo demais reprimido aquilo, todos os sentimentos inapropriados por ele. Não seria do dia para noite que ela iria conseguir agir diferente, principalmente em público, apesar de saber que ele estava certo.
Rhaegar podia ver pela expressão da irmã que ela estava pensando em coisas demais. Mas ele não ficou nervoso. Pelo contrário. Ele apenas riu. E pegou na sua mão, entrelaçando os dedos dos dois.
Eles não iriam andar de braços dados. Eles já faziam isso antes. Ele queria mais. Queria passar uma mensagem. E passaria.
Lyanna olhou para as mãos unidas dos dois e tentou se encher de coragem.
— Vamos – ela pediu, tremendo e apertando mais forte.
—*-
— Você está bem? – Diana perguntou à Sam Tarly, sentado ao seu lado, observando atentamente um ponto indistinto do jardim à frente deles.
— Ah...sim, sim. Estou – Sam respondeu, depois de alguns segundos.
— A conversa com o Príncipe...mais cedo...foi boa? Vocês estão...bem? – Diana insistiu um pouco mais, tentando não parecer muito invasiva e já sendo.
Ela não podia negar que se importava com Sam Tarly. Com seus sentimentos. Com seu bem estar. Quando a luta final ocorrera, ela havia saído correndo para visitá-lo nas enfermarias, para saber como ele estava.
Nada discreta. Mamãe adoraria passar isso na minha cara. Diana se repreendeu mentalmente.
— Sim. Foi uma boa conversa. Estamos bem. Eu só quero que Rhaegar... que os dois...sejam felizes. Da minha parte, não haverá nenhuma mágoa. Jamais – Sam explicou à garota loira e meiga.
Ele cuida de todo mundo. Quer ver todos ao redor dele seguros e felizes. Mas quem cuida dele do jeito que ele certamente merece? Diana pensava, mordiscando seus próprios lábios e analisando o perfil sério de Sam.
Ele estava tenso. Sem dúvida estava sendo sincero, mas ela via a preocupação dele.
— Se está tudo bem, porque você parece tão preocupado? – Diana insistiu, era mais forte que ela. E ela nem sabia porquê.
— Pareço preocupado? – Sam se surpreendeu, encarando os perspicazes olhos verdes de Diana Lannister. Ela apenas acenou.
— Não estou preocupado. Estou...chateado. Comigo mesmo. Por não ter percebido antes de me envolver nisso. Ele é o meu melhor amigo. E ela...ela chegou a me dizer que nutria sentimentos por outra pessoa. E que era algo impossível. E eu...nem assim... – Sam nem completou, apenas suspirou.
— Não se cobre tanto – Diana tocou no braço de Sam e ele imediatamente cobriu a mão dela com a sua própria. Ela precisou fazer algum esforço para continuar falando e não corar – Todos foram pegos de surpresa, não apenas você.
— Todos? Acho que não. Hoje cedo quando o Príncipe nos encontrou e confirmou os boatos, muita gente naquele salão não pareceu nada surpreso. Jon, principalmente. Nem a princesa estrangeira...nem mesmo você, milady – Sam observou. Diana parecia surpresa.
— Você anda bastante observador – Diana tentou descontraí-lo.
— Estou aprendendo com a melhor – Sam deu de ombros – Quando você percebeu? – ele perguntou.
— Ah... – ela não iria negar – no dia em que foram atacados. No dia do aniversário deles. Aquela coroa...Eu estava no pátio quando o príncipe retornou. O jeito como eles se olharam...mas com certeza é bem mais complicado para quem não é de fora. Para quem não cresceu com eles, é mais fácil ver as coisas pelo que são de fato, do que pelo que deveriam ser. Não se culpe. Não é justo consigo mesmo – ela apertou levemente o braço de Sam. Sua mão ainda estava lá. Imóvel, até aquele momento. Ele a apertou de volta, imediatamente.
— Meu irmão percebeu – Sam parecia ligeiramente irritado com Jon, lhe lançando olhares desapontados – E não me disse nada – ele se lamentou.
— Ele deve ter tido um bom motivo para não falar. É visível o quanto seu irmão adora você – Diana o confortou – Vocês deveriam conversar sobre isso – ela sentiu outro aperto dos dedos dele na sua mão. E dessa vez, seu coração bateu acelerado.
A mesa encobria uma boa parte dos braços deles. E talvez por isso ela estivesse tendo a coragem de não apenas permanecer com a mão no antebraço de Sam Tarly, mas também de acariciá-lo.
— Vou fazer isso. Você é uma boa amiga, Lady Diana – Sam agradeceu, olhando para ela e se perguntando se era possível que ela quisesse, que ela talvez cogitasse ser mais que isso.
Sam já tinha provas suficientes de sua inaptidão para ler os sentimentos das mulheres. E Lady Diana Lannister era doce com todo mundo, não apenas com ele.
— Ah! Finalmente! Lá vem os pombinhos – Jon Tarly falou alto, batendo de leve na mesa com um mão espalmada e erguendo uma taça com a outra.
Todos ao redor da mesa se levantaram para receber ao dois. Todos ao redor da mesa inclinaram suas cabeças. E todos ao redor da mesa olharam para as mãos entrelaçadas dos dois.
Lyanna corou profusamente. Mas tentou manter o semblante tranquilo. Somos um casal agora. Um casal. Agir como se não fosse errado. Preciso agir como se não fosse errado. Ela repetia para si mesma mentalmente.
Rhaegar precisou apenas de um minuto olhando ao redor da mesa para dizer quem ali estava incomodado com o desfecho daquilo e quem não estava.
Jason Arryn e sua irmã, que sorria do seu jeito tímido para Lyanna, não estavam. Nem nenhum dos Tarlys, obviamente. Muito menos Diana Lannister. Ou a princesa Q'ira. Ou Arthur Tully. Apenas Melissa os encarava com uma expressão azeda.
A ruiva fuzilava Lyanna com os olhos e aquilo enervava Rhaegar.
Mas antes que ele pudesse pensar em qualquer outra coisa, um furacão de pernas e braços ossudos e vozes estridentes partiu para cima deles dois.
— Onde está nosso tio-rei? Porque todo mundo está dizendo que ele foi embora Rhae? – Nymeria e Visenya exigiram saber, as duas chorosas e irritadas.
Rhaegar viu que os pequenos estavam sendo trazidos para se juntar à eles. Jaime Lannister. Aemon Tarly. E os primos deles, Ned e Robb.
— Seu tio-rei não foi embora – Rhaegar falou, apesar do silencio constrangedor que se instaurou – Ele apenas viajou – Rhaegar garantiu às duas, enxugando as lágrimas delas – Não quero vocês chorando por bobagem. Vocês são duronas. Tocam terror nesse castelo. Vocês tem uma reputação à zelar – ele provocou, olhando feio para elas.
— Você promete? – Nymeria perguntou, se jogando no pescoço de Rhaegar.
— Prometo que ele volta – Rhaegar falou baixinho. E beijou a cabeça da pequena – Agora se comportem e se sentem – ele deu um empurrão de leve nas duas — Sentem-se todos – Rhaegar falou mais alto – Fiquem à vontade. Vamos aproveitar esse belo pôr do sol.
Rhaegar conduziu Lyanna até a cadeira dela e deu um beijo demorado em sua mão, antes de ele mesmo se sentar ao seu lado. Ele gostava da cor das vestes dela naquela manhã. Ela não era de usar aquele tom.
— Gostei muito desse vestido violeta. É em homenagem aos meus belos olhos? – Rhaegar sussurrou no ouvido dela, assim que se sentaram. Ele deveria estar sendo um bom anfitrião e incentivando uma conversa agradável, mas ele tinha seus próprios propósitos ali. Os de sua mãe podiam esperar.
— Simplesmente escolhi a primeira coisa que vi – Lyanna respondeu, com total duplo sentido, estreitando os olhos para ele.
— A primeira coisa que você viu, na verdade é a melhor coisa que vai ver. Então você escolheu bem – Rhaegar beijou a bochecha dela.
— Obrigada. E já chega – Lyanna falou, cerrando os dentes. Rhaegar sorriu feito um felino e concordou.
— Sir Jason, parabéns pela vitória no Torneio – ele começou a interagir com os convidados – O Vale deve estar muito orgulho do seu futuro senhor.
— Obrigada, Alteza. Ganhei a coroa, mas não a donzela. Estou tentando não ficar muito triste – Sir Jason falou. O clima na mesa pareceu congelar por um momento, mas o tom dele era leve e Rhaegar pretendia mantê-lo assim.
— Pense no prêmio e na glória, se lhe ajudar – Rhaegar ergueu uma taça na direção do charmoso cavaleiro do Vale – Mas no seu lugar eu também estaria muito triste – Rhaegar falou, olhando para Lyanna. Sir Jason sorriu educadamente.
— Quando será o casamento, Altezas? – Q’ira perguntou, com seu sotaque bonito e sensual. Sua pele de ébano envolta no tecido alaranjado que ela trajava, cada movimento que fazia, retinindo o barulho das muitas pulseiras de ouro que ela usava nos braços.
— Anunciaremos em breve. Espero ver todos vocês aqui conosco para compartilhar esse momento, inclusive você Princesa – Rhaegar a informou, trocando um breve olhar com Lyanna.
— Com certeza estaremos, Alteza – Arthur Tully falou. Sempre que o garoto tímido e ruivo se dava ao trabalho de se manifestar, era uma surpresa para o grupo.
Rhaegar não sabia como diabos o herdeiro das Terras Fluviais e Lady Arianna Arryn tinham acabado aos beijos na sua festinha particular da noite anterior.
Ele precisa perguntar para Jon Tarly o que ele sabia sobre aquilo. Aqueles dois juntos era esquisito e engraçado. E de uma improbabilidade gritante.
— Do que você está rindo? – Lyanna perguntou para ele.
— Lembrando de ontem. Tully e Arryn. Você os viu quando invadiu minha festa ontem, pronta para me resgatar? – Rhaegar falou baixinho, no ouvido dela, mais uma vez – Estou me perguntando quem será que deu o primeiro passo.
— Eles devem ter tropeçado um no outro e entendido tudo errado – Lyanna mordeu as bochechas para não rir – E eu não invadi. Aquele salão é tanto seu quanto meu. Tampouco entrei para te resgatar – Lyanna resmungou.
— Foi para me matar então? Você parecia capaz. Seus olhos estavam meio vermelhos e raivosos... – Rhaegar a provocou. A conversa baixa o suficiente para que os outros não ouvissem.
Antes que Lyanna se desse conta, ela já estava dando um tapinha nele. Todos olharam. De novo.
Antes ninguém ligaria, porque estariam vendo apenas dois irmãos implicando um com o outro. Mas agora...ela precisava desviar o foco deles dois, pelo bem da sua sanidade mental.
— Sir Jason...- Lyanna o chamou e o cavaleiro do Vale imediatamente olhou para ela, com toda a sua atenção. Era curioso o quanto ela o achava bonito e charmoso e ao mesmo tempo, de nenhuma forma, sequer se comparar ao que ela sentia por dentro ao contemplar Rhaegar.
— Eu gostaria muito, se fosse possível, que Lady Arianna permanecesse conosco por algum tempo, como minha Dama de Companhia — Lyanna pediu, com todo a doçura que conseguiu juntar.
Ela já vinha pensando em fazer algo pela triste história de Arianna Arryn. Em impedir, de alguma forma, que o pai dela cumprisse a ameaça de enviá-la para as Irmãs Silenciosas.
E apesar de tê-la visto beijando Arthur Tully, ela também o viu ser beijado pelo próprio irmão de Arianna. Aquilo podia não significar nada.
— O seu pedido nos honra, Alteza. Se for da vontade da minha irmã...– Sir Jason começou a responder.
— Sim! Eu quero! – Lady Arianna atropelou o irmão, suplicando, os olhos opacos ganhando um brilho de esperança.
— Então em nome do meu pai, permitirei que ela fique – Sir Jason respondeu, com um olhar agradecido à Lyanna e terno para Arianna.
Lyanna via que ele se importava com a irmã de verdade. Aquilo a fez sorrir para ele.
— Ótimo. Escrevi algo para que entregue à Lorde Arryn em meu nome. É o mínimo – Lyanna falou, quando ouviu a voz sussurrada de Rhaegar em seu ouvido de novo.
— Pare de sorrir assim para ele. Eu ainda não esqueci aquela visita ao seu quarto – ele falou, disfarçando o ciúme com um toque nos cabelos de Lyanna.
Lyanna precisou se controlar para não revirar os olhos.
— Seu pai me disse que Lady Lannister pretende voltar para Rochedo Casterly em breve, Lady Diana. Você a acompanhará? – Rhaegar perguntou, enquanto os refrescos e uma infinidade de aperitivos eram servidos, salgados e doces.
— Bem, sim – a garota loira parece lamentar – Estou com uma pequena inveja de você, Lady Arianna. Vou sentir saudades da corte. Acho que fiz bons amigos aqui – Diana olhou ao redor da mesa com simpatia, se demorando um pouco mais em Sam.
— Então não vá – Lyanna foi rápida – Lady Jane em breve terá que partir para se casar. Fique. Eu estendo o mesmo pedido à você, Lady Diana. Seja minha Dama de Companhia. Eu mesma falarei com sua mãe, se a ideia lhe agradar — Lyanna ofereceu.
— Se ela permitir, eu aceitaria com prazer – Diana falou, com um sorriso radiante.
— Ela vai— Lyanna sorriu um pouco de volta. Negar um pedido da futura Rainha dos Sete Reinos não era algo que um nobre faria de jeito nenhum.
Diana Lannister brilhava de felicidade com a ideia. E outra pessoa também. A pessoa que Lyanna covardemente evitou olhar, mas que agora encarava.
Sam. Ele olhava para Diana, encantado. O coração de Lyanna pareceu ficar quilos e quilos mais leve com aquela constatação.
— Esplêndido— Melissa soltou um talher com força sobre a mesa, pronta para fazer uma cena, quando Sarah interveio.
— É verdade. Todas nos demos tão bem! Vai ser maravilhoso! – Sarah bateu palminhas.
Lyanna ainda lembrou que ainda precisava ajudá-la com Dickon. E seu pai nem estava mais ali, o que só deixava a situação de Dickon totalmente incerta. Ele seria escudeiro de quem agora, se o próprio irmão mais velho era a sombra só Príncipe Herdeiro?
Jon observou que Melissa estava pronta para ignorar todos os sinais de advertência nos olhares de Jane, de Sarah e dos Príncipes diante dela. Antes que ela abrisse a boca, ele agarrou o seu braço por debaixo da mesa.
— O que quer que esteja pensando em dizer. Nos faça um favor, pela primeira vez na sua vida. Não. Diga. Ninguém se importa. Ninguém aguenta mais – ele sibilou com desprezo, soltando o braço dela com irritação.
Jon viu os lábios carmesins de Melissa tremerem enquanto ela se levantava, balbuciando desculpas à Rhaegar e Lyanna e dizendo que não estava se sentindo bem e gostaria de voltar para os seus aposentos.
Jon não esperava aquilo. Melissa era de rir da cara das pessoas. Era de ignorá-las. A megera nunca fugia quando era confrontada, como tinha acontecido agora.
A saída dela pareceu magicamente deixar todo mundo mais relaxado. A conversa fluía melhor em todos os cantos do jardim. Ninguém realmente se importando com a cadeira vazia que Melissa deixou para trás. Nem Sarah Manderly, que fazia tudo que Melissa Redwyne queria e a seguia feito uma sombra.
Ele não havia mentido. Ninguém realmente se importava. Melissa era esnobe e desagradável. Com todo mundo. Sempre.
E porque que diabos eu estou me sentindo mal por ter falado aquilo para ela?
—*-
— Você está chateada comigo— Lyanna comentou, assim que Jane terminou de trançar o seu cabelo e lhe vestir para dormir.
— Não, Alteza. Não estou – Jane afirmou, prendendo uma fita na ponta da trança dela.
— Mentir para sua Princesa não é certo, Jane – Lyanna suspirou – Eu vejo em seus olhos. Você é a minha única amiga aqui. Fale logo. Vamos resolver isso de uma vez – Lyanna incentivou.
— Eu também achava que era. Mas Vossa Alteza nunca me disse nada...sobre os seus sentimentos – Jane se queixou, recolhendo os acessórios de Lyanna e as roupas espalhadas pelo quarto.
— Jane, eu não admitia nem para mim mesma o que eu sentia... – Lyanna buscou o olhar da amiga – Não pense que eu não lhe falei por falta de confiança, porque não foi por isso. Eu lutei muito contra isso.
— Entendo – Jane ficou pensativa – Mas e Sam? Porque envolvê-lo nisso? Ele é um homem muito bom. E idolatra o Príncipe. A amizade dos dois...E eu a ajudei a se encontrar com ele...sabia que não estava apaixonada por ele, mas achei que fosse o que você quisesse – Jane parou de catar coisas, os braços já cheios.
— Eu...precisei tentar. Com outra pessoa. Eu sei que o que fiz não foi certo. E sinto muito por ter envolvido você nisso, mas eu cheguei a confessar para Sam que eu tinha sentimentos por outra pessoa. Eu não o escolheria sem o deixar ciente pelo menos isso... – Lyanna esclareceu, apertando as mãos.
Ela merecia aquilo. Merecia aquele olhar de reprovação. Claro que merecia.
— Farei o que estiver ao meu alcance para me redimir com Sam. Prometo à você, Jane – Lyanna deu sua palavra e torceu para aquilo bastar para a amiga – Sei que decepcionei muitas pessoas. Meu pai...- Lyanna travou. A dor da partida do pai era uma ferida que sangrara e doía silenciosamente durante todo o dia.
— Sinto muito. Sei que vocês tinham um relacionamento muito especial. Deve estar sendo difícil – Jane se condoeu – Você realmente gosta dele, não é? – Jane pareceu aceitar. Ela a conhecia bem demais. Sabia que Lyanna não arriscaria seu relacionamento com o pai que tanto amava por algo que não fosse forte demais.
— Sim – Lyanna corou. Sim. Sim. Sim. Mil vezes sim.
— Estou me sentindo uma tola por nunca ter notado nada – Jane sorriu um pouco.
— Não se sinta. A única tola aqui sou eu mesma – Lyanna falou, caminhando até ela e a abraçando mesmo que os braços dela estivessem repletos de coisas.
— Vou deixar você descansar, Alteza. E saiba que a Rainha chegou a cogitar que uma de nós dormisse com você até o casamento, mas eu a convenci de que não era necessário – Jane a olhou desconfiada – Tenha juízo, sim? Não quero me arrepender disso...
Lyanna a olhou confusa, enquanto sua principal dama de companhia saía apressada.
Mal a porta se fechou ela ouviu uma outra batida. Jane deveria ter esquecido de algo.
— Ainda está aberta, Jane. Entre – Lyanna falou alto, remexendo na sua mesinha de livros e tentando escolher alguma coisa para ler.
Mas quando a porta se abriu e se fechou, não era Jane entrando de novo. Era Rhaegar.
Lyanna derrubou o livro que segurava. O que, em nome dos Sete, ele estava fazendo ali?
— Ainda bem que o livro não voou na minha direção. Estou exausto. Não iria conseguir desviar – Rhaegar brincou e simplesmente caminhou na direção da cama dela e se deitou.
Relaxadamente.
Cruzando as pernas.
As mãos espalmadas atrás da cabeça prateada.
A própria visão dos Sete Infernos diante dela.
— O que...o que você pensa...- Lyanna tentava falar, pateticamente.
— Vim dormir com você – Rhaegar esclareceu. E bateu na cama, ao lado dele – Vem aqui. Larga esses livros, Lya – ele pediu, com um olhar totalmente mal intencionado.
— Não. Não. Não. Saia daí. Você está ficando louco? – Lyanna catou o livro do chão ainda meio atrapalhada e o colocou de volta na mesa – Nossa mãe foi bem clara...
— Nada de engravidar sua irmã antes do casamento – ele repetiu enquanto tirava um frasco do bolso – Não vou desobedecê-la se você tomar isso – Rhaegar sentou na cama e ofereceu o frasco para ela.
— O que é isso? – Lyanna cruzou os braços e não se moveu de onde estava.
— Algo que as mulheres tomam para não engravidar – ele falou, inclinando a cabeça, olhando descaradamente para a sua camisola fina. Lyanna sentiu os bicos dos seus seios enrijecerem imediatamente.
— Não me diga! Eu jamais deduziria! – ela revirou os olhos, agradecida por já estar de braços cruzados – Estou perguntando do que foi feito — Lyanna esclareceu, arqueando a sobrancelha enquanto aguardava a resposta.
— Tanásia. Me garantiram ser seguro – Rhaegar rolou o fraquinho pequeno e cilíndrico pela cama, na direção dela.
— Geralmente é. Mas não vou tomar. Obrigada – Lyanna o informou. Rhaegar levantou da cama.
— Porque não? – ele quis saber, caminhando até ela. Lyanna pegou o frasco e colocou de volta na mão dele.
— Porque eu já li sobre os efeitos disso. Sobre como essa planta age. Isso não impede que uma mulher engravide, apenas impede que depois de grávida, a gravidez prossiga. Não vou tomar — Lyanna foi categórica – Não me sinto bem com isso. Não vou tirar a vida de uma criança. Entendo que algumas mulheres precisem fazer isso. Mas eu não vou fazer. E não insista – ela o olhou severamente, imaginando que ele iria, como sempre, tentar argumentar e usar todo o seu charme para conseguir o que queria.
Mas Rhaegar ficou calado. E para surpresa dela, ele parecia...satisfeito. Feliz.
— Tudo bem. Vou me livrar disso – Rhaegar concordou – Desculpe. Eu também não ia querer.. Enfim. Eu não sabia que funcionava dessa forma – ele se aproximou dela mais um pouco.
— Pode parar, Rhaegar – Lyanna ergueu um dedo e apontou para o peito dele. Ela sabia onde aquilo iria parar.
Eles estavam sozinhos, com uma cama à disposição deles. E ela não iria tomar nada de jeito nenhum. Se ele começasse a tocá-la ela acabaria grávida. Isso se já não estivesse.
— Lya... – Rhaegar estava com aquele olhar de pedinte, que tanto lhe rendia frutos, vindo para abraçá-la.
— Não – ela deu a volta na cama, fugindo dele – Já causei escândalo suficiente para a minha vida toda fugindo daqui, voltando noiva do meu próprio irmão e fazendo meu pai partir. Não vou me casar com uma barriga avantajada! Me recuso! Nossa mãe tem razão. Pelo menos isso devemos fazer direito! – Lyanna continuou argumentando. E fugindo dele pelo quarto.
Quando mais ela fugia, mais ele parecia gostar. Mais o rosto dele ia da diversão à luxúria, os olhos violeta ficando mais escuros e intensos. Ela era uma presa fácil. E seu caçador sabia disso. Ela mal queria fugir das garras dele.
— Tudo bem – ele parou de repente e apagou a vela mais próxima dele, e a seguinte, e a seguinte, até só restar uma única fonte de luz no quarto.
— Pare de apagar as velas...- Lyanna pediu, nervosa.
— O problema é apenas a gravidez, certo? – Rhaegar perguntou – Então me deixe beijar você. Prometo que não vou fazer nada que possa engravidá-la. Tem minha palavra— ele a encarou seriamente.
Lyanna ficou calada. Ela recuou alguns passos e deu de encontro com a parede fria, ao lado da última vela acesa.
Rhaegar se aproximou e colou seu corpo no dela. E aquilo foi suficiente para Lyanna gemer.
— Você prometeu. Só beijos, cer-certo?— Lyanna murmurou, gaguejando, sentindo a excitação dele imprensando-a.
— E vou cumprir. Só beijos. Mas eu não disse onde...- Rhaegar esclareceu, beijando seu queixo — Você leu todos os doze volumes dos prazeres da carne, não foi? – ele a lembrou, com a voz rouca, dando pequenos beijos em seu pescoço – Você sabe que dá para fazer muita coisa sem necessariamente correr o risco de gerar uma criança – ele falou aquilo e soprou a última vela, deixando o quarto totalmente escuro.
— Rhaegar... – Lyanna não o via, só sentia a respiração dele em seu rosto.
— Eu não vou ficar por meses sem tocar em você, Lya. Eu preciso disso. E eu quero que seja prazeroso para você. Eu sei que ainda não foi – ele falou. E Lyanna agradeceu por estar tudo um breu. Assim ele não veria o quanto ela estava vermelha naquele momento.
Rhaegar esperou ela protestar. Mas só ouviu a sua respiração acelerada e desejosa.
— Estamos só nós dois aqui. Não tem ninguém nos vendo. Esqueça o mundo lá fora – Rhaegar trouxe o rosto dela para mais perto – O que você quer fazer, Lya?— ele perguntou, com a voz quente e ansiosa.
— Diz para mim...- Rhaegar pediu, roçando os lábios no pescoço dela, as mãos soltando os cabelos trançados e se enfiando neles.
— Quero beijar você – Lyanna admitiu baixinho – Quero tocar em você – ela colou as duas mãos sobre o peito de Rhaegar – Quero...
— Faça— Rhaegar a incentivou – Faça o que quiser comigo.
Lyanna sentiu o corpo pegando fogo, alimentado pelas palavras dele. E o obedeceu.
Ela queria tocá-lo. Então ela tirou o blusão que o cobria e jogou longe. E passou suas mãos por onde alcançou. Pelos seus braços, seu tórax, seu pescoço.
Ela queria beijá-lo. Então ela puxou o rosto dele para si e o provou, em um beijo intenso, que a fazia querer mais. Querer tudo.
— Me deixa beijar seu corpo todo, Lya. Cada parte. Cada pedaço. Eu preciso disso. Desesperadamente – Rhaegar pediu, entre um beijo e outro – Me deixa fazer você sentir prazer.
Lyanna não estava pensando mais. Ela simplesmente começou a arrancar sua camisola. Suas mãos misturadas às dele.
Em segundos ela já não vestia nada. Estava nua. E entregue. Totalmente entregue. As pernas cruzadas nos quadris de Rhaegar. Sua intimidade perigosamente pressionada à dele, que graças aos deuses, mantinha sua palavra e ainda estava com as calças no mesmo lugar.
— O que você quer que eu faça, Lya? – Rhaegar perguntou sedutoramente, se esfregando nela com força e arrancando um gemido profundo de sua garganta.
— Cama. Me leve para a cama — Lyanna pediu, sentindo os braços quentes de Rhaegar a levarem com velocidade para lá.
E ao ser deitada, Lyanna sentia a língua e os lábios de Rhaegar por todo lugar, espalhando uma trilha de fogo por seu corpo.
Pelos seus seios, pelo seu pescoço. Por sua barriga e por seus braços e suas mãos, mordendo seus dedos de leve.
— Como você é linda – ela o ouviu murmurar – Você me deixa sem fôlego.
Lyanna sentiu o rosto queimar de vergonha, de alegria, de amor.
— Você também— ela sussurrou quase inaudivelmente. Suas palavras sempre lhe faltavam, seus bloqueios emocionais por Rhaegar construídos com tanto esmero ao longo dos anos pareciam dominar sua língua.
Queria dizer você também é lindo. Você também me deixa sem ar, sem chão e sem juízo. Mas nada saia.
— Quer que eu continue, Lya? – Rhaegar a provocou parando em seu umbigo. Sabendo muito bem qual seria a resposta dela.
Lyanna se remexeu incomodada. E inutilmente fechou os olhos com força. Odiava ceder tão fácil à ele. Odiava que ele tivesse tanto poder sobre ela.
Odiava...e amava.
— Sim. Por favor – ela implorou. Mal reconhecendo sua voz.
— Não vou parar, Lya. Não até ouvir você gemendo de prazer para mim – Rhaegar prometeu e seguiu sua trilha de carícias até o centro do prazer dela.
Lyanna gemeu alto quando o sentiu beijando o centro de suas pernas. E cobriu a própria boca.
Rhaegar era puro fogo. Ela era incapaz de resistir à ele. Não adiantava se enganar. Se ele à quisesse todos os dias. Todos os dias ela seria dele de bom grado.
— Você é minha, Lya. Quero poder estar com você quantas vezes eu quiser, na hora que eu quiser, sempre que você permitir. Você. Mais ninguém. Vamos nos casar logo – Ela ouviu Rhaegar dizer ofegante.
— Logo? O que...- mas ele voltou a beijá-la e lambê-la com intensidade. Esfregando o rosto no centro do prazer dela e Lyanna não conseguiu dizer mais nada.
Ela só notou que a boca dele tinha dado lugar aos dedos, quando sentiu o corpo de Rhaegar voltar a lhe cobrir e os lábios dele voltarem a devorar os seus.
— Quero ouvir você gemendo meu nome na sua querida biblioteca, Lya. Pedindo por mais em meio àquelas prateleiras empoeiradas que você tanto ama – Rhaegar falou, colado à boca dela, os dedos acelerando o ritmo.
— Quero você no jardim. No salão. Na minha cama. Numa mesa qualquer. No chão. Em cima do meu dragão ou do seu. Eu só penso nisso, desde que você me beijou pela primeira vez – Rhaegar confessou nos ouvidos dela.
Lyanna explodiu de prazer, trêmula e ofegante.
— Rhaegar...eu...eu não vou...fazer isso...em cima de um dragão...– ela se deixou envolver em um abraço suado. A respiração acelerada demais. E o ouvir gargalhar.
— Nos outros lugares tudo bem então? – Ele apertou seu corpo no dela.
— Talvez. Depois do casamento— Lyanna balbuciou, beijando o rosto dele, sua respiração ainda ofegante.
— Ótimo. Vamos nos casar dentro de um mês então – Rhaegar falou, aconchegando-a em seus braços. Passando as pernas sobre as suas e voltando a beijar seus seios.
— O que? – Lyanna repetiu – Você não está falando sério.
— Estou. Estou sim— ele garantiu e cobriu a boca dela de novo.
—*-
Norte – Arredores de Winterfell
Jon respirava profundamente o vento frio enquanto o sol nascia sem força.
Ele não havia parado. Passara um dia e uma noite voando em Drogon, deixando para trás tudo que ele mais amava. Sua mulher e seus dois filhos.
E tudo que mais lhe magoava no momento. Sua mulher. E seus dois filhos.
Ele tentava não pensar na dor. E se concentrar no vento frio do norte. Seu aroma era diferente. Tinha cheiro de neve. Era pesado e refrescante. Não era como os ventos frios e poluídos da capital.
E senti-lo trazia memórias antigas à tona. De quando ele patrulhava o topo de uma muralha, sonhando em ser pelo menos um bastardo honrado.
Sonhando que lembrassem que Ned Stark tinha tido seis filhos e não cinco.
Ele não fazia ideia do que vinha pela frente. Não fazia ideia de quem era. De quem se tornaria. Era só uma criança de verão tola e sonhadora.
Mas ainda havia algo daquela criança nortenha e bastarda nele. Algo que fazia seu coração palpitar ao ver as muralhas grandiosas de Winterfell surgirem no horizonte.
Casa. Jon sorriu um pouco, mesmo com o rosto rígido pelo frio.
Ele voava baixo o suficiente para ver a Vila de Inverno já fervilhando de movimento. No Norte não se desperdiçavam os raios de sol. O dia começava cedo, muito mais cedo do que na capital.
Ele voava baixo, mas não tão baixo quanto gostaria. Drogon era grande demais. O vento que ele movimentava com suas asas, destelharia as casas facilmente.
Ele circulou sobre Winterfell, vendo criados parando e apontando para o céu provavelmente assustados, vendo os guardas nas ameias olharem para o dragão atentamente, de sobre alerta.
Jon pousou com Drogon do lado de fora das muralhas, o mais perto que pôde do fosso sob o portão principal do castelo ancestral dos Stark.
Ele desceu de Drogon, observando perifericamente a movimentação dos guardas. Sansa já deveria estar sendo avisada.
— Vou mandar alimento para você. Não cace por aí. Por favor – Jon alisou o dragão gigantesco.
O rebanho de Sansa seria grandemente desfalcado para que ele cumprisse aquela promessa, mas a Senhora do Norte certamente preferiria assim. Melhor suas cabras do que seus súditos
— Descanse e volte para ela, sim? – Jon falou, sentindo o hálito quente da majestosa besta e se despedindo do dragão. Ao se afastar de Drogon ele sentiu mais aquele fio, mais aquele pedaço do que ele era, se rompendo.
— Sua Majestade – guardas vieram ao encontro dele. Jon não havia trazido nada. Apenas sua espada. E a roupa do corpo.
— Avisem à minha irmã que estou aqui. Vou ao Bosque Sagrado – Jon falou aos guardas, de passagem.
Ele caminhou sem se desviar, recebendo mesuras por onde passava. E nem tentou cumprimentar as pessoas. Sua garganta estava ardendo. Ele não conseguia falar nada.
Ao chegar diante do grande represeiro de tronco leitoso e folhas vermelhas, Jon se sentiu mais perto da sua essência, mais perto do seu pai.
Ele podia vê-lo sentado na grande pedra à sombra da árvore, limpando Gelo pacientemente, a testa franzida, os lábios as vezes murmurando em silêncio.
Mas também podia se ver com Bran e Sam, descobrindo sua origem. Vendo imagens do passado. Vendo sua mãe e seu verdadeiro pai.
E pior, podia se ver esperando por Daenerys, no dia em que trocaram os votos de casamento. A felicidade que ele sentira ao saber que aquela mulher seria dele, parecia ainda estar no ar.
A força daquela lembrança, o fato de que naquele momento, seus filhos já estavam ali, dentro dela e portanto suas promessas foram feitas para eles três, fez os joelhos de Jon cederem.
E com as mãos enfiadas na neve branca coberta de folhas vermelhas, Jon chorou amargamente.
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