Forbidden
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Winterfell
— Ah...Sua Majestade...- Jon ouviu uma voz pigarreando atrás dele, os passos se aproximando vagarosamente.
Ele não sabia mais à quanto tempo estava ali, imerso em pensamentos e orações, debaixo do Grande Represeiro do Bosque Sagrado dos Stark.
Mas ao ouvir a voz que o chamava, Jon se ergueu da posição ajoelhada, sentindo suas juntas gritarem de alívio, sua mão instintivamente pousando sobre o cabo de Garra Longa, mais pela força do hábito do que por se sentir ameaçado de fato.
— Perdoe-me interrompe-lo...- Jon se virou e viu Brandon Karstark, o marido de Sansa, inclinando sua fronte reverentemente para ele.
Jon caminhou até o seu encontro e tocou no ombro de Karstark. Mesmo com tantos anos, ele ainda se incomodava com aquela formalidade toda, principalmente quando estava em família. E aquele homem era parte de sua família. Parecia-se com ele, fisicamente e no jeito quieto. E era um Karstark. Um ramo dos Stark. E pai da maior parte dos seus sobrinhos.
— Karstark— Jon o cumprimentou – Já faz algum tempo... – Jon falou, sacudindo as neves que se acumulavam em seus ombros e em seu cabelo grisalho.
— Três anos, meu Rei, se não me falha a memória – Brandon respondeu e olhou para a Árvore-Coração com reverência – Eu não teria vindo até aqui, mas minha senhora...está impaciente. Já tem duas horas que fomos avisados da sua chegada...Ela fica preocupada...Estava querendo vir até aqui, mas ela pode ter a criança a qualquer momento. Não pude permitir que ela caminhasse pela neve com aquela barriga enorme – Brandon se justificou, um pouco envergonhado – Ou eu vinha ou teria que amarrá-la em uma cadeira...
— Imagino— Jon sorriu um pouco – Me perdoem. Não queria preocupá-la, ainda mais no seu estado. Vamos, vamos entrar – Jon concordou, apontando para a trilha marcada na neve que os levaria para dentro do castelo.
Os dois deram passos caminhando lado à lado, quando Brandon Karstark perguntou:
— Meus filhos...? – ele sondou, tentando não parecer muito preocupado.
— Ned e Robb ficaram na capital. Estão bem. Nada aconteceu com eles. Estão na Fortaleza Vermelha. Em segurança – Jon o tranquilizou. Karstark soltou um suspiro aliviado.
— Eu disse para ela...- Karstark balançou a cabeça – Se fosse algo com eles...
— ...eu teria ido imediatamente até vocês...- Jon completou. Não eram os filhos de Sansa. O problema era com os filhos dele mesmo.
— Exatamente. Mas quando quer, ela se faz de surda – Karstark franziu a testa, parecendo cansado.
Jon sabia o quanto Sansa poderia der difícil. Mas ela e o marido se davam muito bem. Ele nunca teve motivo para nutrir uma única queixa do pai dos seus sobrinhos durante todos esses anos. Pelo contrário. Karstark era dedicado, íntegro e amoroso com os filhos e a esposa.
— Eu deveria ter imaginado que ela ficaria preocupada. Vamos, vamos entrar. Eu conto tudo lá dentro. Preciso tomar algo quente – Jon apressou o passo na neve fofa e logo estavam cortando os pátios abertos ao redor do castelo.
Jon olhou rapidamente para os dois lobos de pedra que levavam às criptas subterrâneas de Winterfell, para o lugar que guardava tantos pedaços do seu coração. Depois. Depois vou até lá. Sansa merece saber logo porque estou aqui.
Mas antes de entrar no interior do castelo, os filhos mais novos de Sansa, Bran e Rickon, o surpreenderam correndo à toda, na direção deles dois, jogando as espadas de treino no chão.
Jon sentiu o coração aquecer com a visão endiabrada dos dois garotinhos que eram ruivos como Sansa. Bran tinha olhos cinzentos do norte. Rickon os olhos azuis dos Tully. Parecia-se muito com Robb. Mas o rosto de ambos era comprido e solene, como o do pai deles. Como o de Jon. E como o de Ned Stark fora, um dia.
Vê-los correndo por ali, sorrindo e despreocupados, lhe fez lembrar de Robb. Do seu Robb. E de Theon. E de Arya. E dos lobos deles. E a saudade rugiu no seu peito.
Jon olhou para as ameias de madeira acima do pátio e quase pode ver seu pai ali, observando o movimento das pessoas que eram sua vida e sua responsabilidade, daquele seu jeito taciturno e protetor.
— Tio! Tio! Tio! — os garotos gritavam, estridentes. Uma porção de crianças os acompanhavam, com certeza curiosas para ver o Rei.
— Cumprimentem adequadamente seu Rei, crianças – Karstark os segurou, antes de se jogarem sobre Jon.
Os dois garotinhos que tinham seis e cinco anos, dobraram os joelhos envergonhados.
Jon se agachou na frente dos dois e assanhou os cabelos de ambos. E ganhou um abraço apertado dos bracinhos ossudos. Jon lembrou também de Visenya e Nymeria. Ele amava aquelas duas crianças. E saíra sem se despedir delas. Sua garganta voltou a queimar.
Ele mal havia chegado ali e já sentia vontade de voltar para eles. Para todos eles. Daenerys. Lyanna. Rhaegar. Visenya e Nymeria.
Talvez por estar pensando justamente nisso, as palavras das crianças pareceram adagas de gelo entrando em sua pele, assim que as ouviu.
— Nossos primos vieram? Os lobos estão aqui? Cadê os dragões? Podemos ver Garra Longa? Por favor! Por favor! Por favor! – os garotinhos fizeram uma pergunta por cima da outra, implorando, com os olhos brilhando.
— Mais tarde. Sua mãe vai me matar se eu não entrar com Sua Majestade agora. Voltem para seus afazeres, sim? – Karstark os enxotou dali, contendo um sorriso.
Jon respirou aliviado por não ter que responder.
Eles se encaminharam sem maiores interrupções pelos corredores de Winterfell, diretamente para o quarto principal do castelo, os aposentos da Senhora de Wintefell. O quarto que um dia fora de Ned e Catelyn. E que estivera destinado a pertencer à Sansa.
Ao abrirem a porta, os dois homens se depararam com a mulher ruiva, vestida com um confortável roupão de peles quentes cobrindo a barriga muito avantajada, caminhando de um lado para o outro do aposento.
— Você deveria estar deitada— Karstark ralhou, assim que a viu, fechando a porta do aposento assim que Jon passou por ela.
— Eu estava – foi o que Sansa respondeu, analisando Jon dos pés a cabeça, os vívidos olhos azuis nitidamente à procura de algum ferimento, de alguma pista de porque ele estava ali, sem nenhum aviso.
Karstark bufou em resposta.
— Você parece terrível – Sansa falou, dessa vez para Jon – Não vou conseguir me inclinar em uma mesura, Sua Graça – ela acariciou a barriga enorme e soltou um suspiro cansado, indo até ele e o abraçando do jeito que dava.
— E você está exuberante – Jon a elogiou. E era verdade. A irmã continuava uma mulher muito bonita, os cabelos de fogo soltos, longos e brilhantes.
— O que aconteceu irmão? Meus filhos... – Sansa levou a mão para a barriga mais uma vez, protetoramente.
— Os garotos estão bem. Na capital. Estão seguros – Jon se apressou em deixar claro, vendo os olhos de Sansa ficarem aliviados e logo em seguida nebulosos.
— Arya? – ela indagou.
— Em missão. No Dorne. Sem notícias, ainda. Sabe como ela é...não se comunica até ter algo relevante a dizer... – Jon esclareceu.
— Ninguém morreu, está vendo? Agora deite— Karstark conduziu a esposa pelos ombros, a sentou na cama, pegando as pernas dela e as colocando sobre o colchão e logo depois as cobrindo com peles.
Sansa não resistiu, só afastou as costas para que o marido posicionasse melhor as almofadas e deu um sorriso relutante para ele quando, por fim, recebeu um beijo rápido em sua testa.
— Você veio em Drogon, pelo que ouvi...- Sansa continuou.
— Sim. Mas ele deve voltar para Porto Real, assim que descansar e se alimentar. E falando em alimento... – Jon caminhou até uma das poltronas confortáveis próximas da lareira, atraído pelo calor aconchegante e vencido pelo cansaço.
— Vou mandar separar algumas dezenas do nosso rebanho e enviar para o seu dragão e deixar vocês dois à vontade para conversarem – Karstark se ofereceu rapidamente, imaginando que o Rei estava ali por um motivo particular. Ele via a tristeza nos olhos cansados do homem.
— Obrigada, marido. Você é um santo – Sansa agradeceu, com um sorriso caloroso para ele – Veja onde os pequenos estão, sim? Não os quero tentando ver o dragão por conta própria. Você sabe como eles são...
— Vou amarrá-los. Não se preocupe. Com nada – Karstark lhe deu outro beijo na testa e antes de sair, serviu um copo de vinho e o entregou para o Rei.
Jon observou o olhar carinhoso de Sansa acompanhando o marido sair. Aquela era uma faceta que a irmã jamais demonstrava em público ou em uma reunião oficial com seus vassalos. Jamais. Para ela tal coisa seria expor um ponto fraco, seria demonstrar quem era importante. Quem ela amava.
Jon nunca conseguiria ser assim. Mas aquele era o jeito de Sansa e os dois já haviam aprendido à muito tempo atrás à lidar com as diferenças que entre eles, quer fossem de julgamento, quer fossem no modo de agir.
Sansa era respeitada. Temida, até. E gostava de manter as coisas assim. Gostava que pensassem que ela não tinha coração. Que tinha um marido, porque precisava de herdeiros. Que escolhera um Karstark apenas porque assim reparava uma ofensa antiga de Robb aos senhores nortenhos. E que seus filhos não passavam disso para ela, herdeiros para levar o nome e o poderio dos Stark adiante.
Uns poucos sabiam que aquela família que vivia sob o teto milenar de Winterfell, era uma família com laços genuínos de amor e cuidado. Sansa não fazia carinho nos filhos fora da privacidade dos seus cômodos.
Jon, por sua vez, não conseguia não abraçar qualquer um dos filhos dela, mesmo quando não deveria, mesmo em momentos de decoro e rigidez, como o de alguns dias atrás, quando o os jovens Ned e Robb se apresentaram diante deles na corte e ele desceu do Trono de Ferro para cumprimentar os sobrinhos.
— Diga de uma vez. Minha cabeça está dando voltas aqui...e minhas pernas estão querendo acompanhar. E você viu meu marido. Nem parece que eu já tive quatro crianças. Ele me trata como se eu estivesse prestes a quebrar – Sansa resmungou, remendo os pés por debaixo da manta.
— Deixe o homem fazer o trabalho dele. Ele só está cuidando de quem ama – Jon sorriu para irmã. Mas o seu sorriso não se estendeu aos seus olhos. E ele sabia muito bem que Sansa era uma águia perspicaz demais para deixar aquilo passar.
— O que aconteceu? Eu soube do ataque aos meus sobrinhos no dia do nome deles...Ned me contou por alto na carta que recebi dele ontem. Mas o que ele relatou já tem alguns dias...e agora você está aqui... – Sansa deixou no ar, estreitando os olhos para Jon. Aguardando, em expectativa.
— Eu precisava sair de lá. E o único lugar para onde eu queria vir...era para cá – Jon começou a falar, bebendo o vinho servido por seu cunhado. O calor que a bebida espalhou por dentro dele não ajudou em nada, nem mesmo em diminuir o frio que ele sentia lhe congelando por dentro e por fora.
— Meus filhos, Sansa... – a voz de Jon falhou, Sansa arregalou os olhos temerosa, nervosa.
— Ned me disse que eles estavam bem. Que os primos estavam bem...- ela balbuciou, esperando que Jon explicasse melhor.
— Eles estão... juntos – Jon por fim, falou. E uma lágrima solitária escorreu de seus olhos e se embrenhou devagar pela sua barba grisalha.
— Juntos?— Sansa repetiu, respirando aliviada, mas ainda um pouco confusa – Juntos...como um casal? Um...com o outro...? Os dois...- a voz de Sansa morreu aos poucos ao perguntar. A expressão arrasada de Jon lhe confirmava que sim, era exatamente aquilo.
— Eles...dormiram juntos – Jon falou e fechou os olhos por um momento quando Sansa levou uma mão à boca em choque – Eu...vi minha própria filha...nua...após ter se entregado ao irmão. Eles querem se casar. Mesmo que eu nunca dê minha benção. Mesmo...sendo uma enorme estupidez – Jon se calou.
— Daenerys...? – Sansa perguntou, baixinho.
— Está do lado deles – foi tudo que Jon falou, com a voz gélida.
— Com essa questão com Dorne...não é um bom momento para arrumar problema com a Fé dos Sete ou mesmo com outras casas...como ela pode apoiá-los assim tão tranquilamente? – Sansa questionou, esfregando as têmporas, calculando, sopesando movimentos e consequências, como sempre fazia diante de um problema.
— Aparentemente o Alto Septão é um Excepcionalista e não representará um problema...pelo menos é o que Rhaegar acredita – Jon se obrigou a dizer, vendo Sansa relaxar visivelmente.
— Bem...se Sua Santidade realmente for um Excepcionalista...- Sansa parecia escolher as palavras com cuidado – Politicamente, já seria muita coisa. Ninguém gostaria de ver a Fé Militante renascer e se rebelar contra a Coroa – Sansa balançou a cabeça com desgosto – Acredito que apenas aquele lorde rancoroso do Vale insinuaria eriçar suas penas contra vocês. Mas, ele não preocupa. Ele não tem coragem suficiente para desafiar o Trono de Ferro... – Sansa começou a analisar, quando se interrompeu, vendo o olhar irritado de Jon.
— Política...não é o único problema, não é? – Sansa perguntou, apesar da obviedade – Você não os quer juntos...a união deles causando problemas com outras casas ou não.
— Estou começando achar que apenas eu não quero – Jon bufou, irritado, dando mais um gole na bebida.
— Não. Eu não quis dizer isso. Você...obviamente...eles são irmãos...É totalmente compreensível sua resistência – Sansa suspirou, esfregando as têmporas – Imagino que tenha conversado com os dois...
— Eu...tentei – Jon tentou dizer, a conversa com a filha voltando à memória – Eu...eu bati no meu próprio filho, Sansa – a vergonha inundando-o e transbordando em lágrimas sentidas.
Sansa nunca tinha visto o irmão tão arrasado daquela forma. Nunca.
Ela empurrou as cobertas de cima de si e se levantou devagar, enquanto Jon estava cabisbaixo, olhando para o chão, como se fosse o suficiente para esconder suas lágrimas dela.
Sansa caminhou até onde ele estava sentado, o puxou pela mão e o abraçou. Ela não precisava ouvir mais nada. Não naquele momento.
Ela sabia por que ele estava ali. Sabia que o irmão precisava de um refúgio enquanto organizava seus sentimentos.
— Ah Jon... – Sansa continuou abraçada desajeitadamente nele, por causa da barriga – Eu sinto muito – ela o apertou mais.
— Eu briguei com Daenerys, com minha filha, com meu filho. E precisei...partir – Jon tentou explicar, mas o cansaço e as emoções conflitantes, a raiva e a saudade, não deixavam ele falar direito.
— Fez bem em vir até aqui, então – Sansa deu tapinhas no ombro do irmão, mas se afastou quando a criança em seu ventre se mexeu de tal forma que a fez se contorcer – Calma, criança— Sansa acariciou a barriga. E Jon sorriu tristemente.
— Ela esta mexendo? – Jon perguntou, sua mão sendo conduzida por Sansa, para sentir no lugar exato. Seu sorriso ficou um pouco menos triste quando ele sentiu o empurrão forte sob as vestes da irmã.
— Até demais. Talvez ela queira lhe dizer algo... – Sansa continuou brincando.
— E o que seria? – Jon questionou, olhando para a barriga da Lady de Winterfell.
— Fique para o meu nascimento, tio-Rei— Sansa sorriu – E o tempo que quiser. Winterfell é sua, Vossa Graça— ela completou, abraçando o irmão de novo.
—.-
Porto Real
— Ah não – Rhaegar acordou ao som de um resmungo de Lyanna, perto do seu ouvido, sentindo ela se remexer em seus braços.
— Hummm – Rhaegar se espreguiçou, encarando-a – Bom dia— ele falou, sorrindo.
— Nós acabamos dormindo, Rhaegar. Você precisa sair. O dia já está amanhecendo – Lyanna lamentou, com urgência e preocupada, sacudindo os ombros dele.
— Onde estão seus modos? Me dê bom dia de volta primeiro, mulher – Rhaegar falou, já puxando ela para um beijo.
Era assim que ele queria acordar todos os dias. Provocando Lyanna. E beijando ela.
— Bom dia – Lyanna respondeu resignada, revirando os olhos, quando ele se afastou dos seus lábios – Agora vá embora – ela pediu, contendo um riso com a expressão de mágoa que ele fez.
— Acontece que não me agrada levantar no exato momento em que abro meus olhos – Rhaegar resmungou, escorregando o rosto até o pescoço de Lyanna e ficando ali, respirando o perfume que exalava da pele dele.
— Nossa mãe pode ficar sabendo que você está aqui... Pode entrar por aquela porta e nos ver...nós já perdemos nosso pai...não precisamos que ela também fique contra nós – Lyanna falou, muito consciente da respiração dele lhe fazendo cócegas na sua pele sensível.
— Ela só não quer que eu engravide você...eu não fiz nada que a desobedecesse. Se for necessário explicarei com detalhes o que nós fizemos e o que não fizemos, não se preocupe— Rhaegar brincou, deitando de lado, apoiando o rosto no punho fechado, enquanto via Lyanna ruborizar.
Apesar de querer continuar provocando-a, Rhaegar não podia deixar passar o que ela tinha dito.
— E nós não perdemos o nosso pai, Lya – ele afirmou, agora mais sério. Ela o observou calada, as palavras pesando entre eles.
— Onde será que ele está agora? – Lyanna perguntou baixinho, os olhos inevitavelmente umedecendo.
— Winterfell. Sem dúvidas – Rhaegar falou, acariciando os cabelos negros dela, desejando ser capaz de fazer desaparecer aquela tristeza do seu olhar.
— E se...e se ele nunca voltar? – uma lágrima dolorida escorreu dos olhos de Lyanna e Rhaegar a enxugou rapidamente com o polegar.
— Ele vai voltar. Tenho certeza, Lya – Rhaegar garantiu – Ele ama muito você e a nossa mãe. Não sei quanto tempo pode levar, mas ele vai voltar.
— Não gosto quando você fala assim – Lyanna o repreendeu, a tristeza dando lugar à uma leve irritação.
— Assim como? – Rhaegar arqueou as sobrancelhas, nunca deixando de acariciar o rosto dela.
— Como se nosso pai não amasse você também – Lyanna se sentou, puxando o lençol e o deixando preso abaixo dos seus braços.
— As coisas entre eu e ele são diferentes – Rhaegar se sentou também, se rendendo ao despertar que ela acabara impondo, jogando as pernas para fora da cama, puxando as calças para se vestir, olhando ao redor e não achando o blusão em lugar nenhum.
— Não diga isso — Lyanna o repreendeu de novo – Se nosso pai não tivesse sido rígido, você não seria o Príncipe capaz que é hoje! Você foi uma criança impossível, Rhaegar! Ainda é às vezes, aliás! — Lyanna o observava estreitando os olhos, enquanto ele continuava procurando o blusão.
— Lya... – Rhaegar suspirou, coçando os cabelos, esfregando o rosto.
— Ele ama você – Lyanna reafirmou, sua voz embargada – Ele sempre se preocupa tanto com você. Eu sempre via isso nos olhos dele. Não duvide do amor dele, por favor. Isso me magoa – ela pediu, precisando desesperadamente tampar mais aquela rachadura que poderia se criar entre eles, tentando ignorar o olho roxo que Rhaegar ainda ostentava, a lembrança dolorosa de como o último momento dos dois havia sido.
— Eu sei. Me ressinto de algumas coisas, às vezes...mas...no fundo... eu sei – Rhaegar se aproximou da cama novamente. As lembranças da sua infância sempre inundavam sua mente quando ele, em algum breve momento, se irritava com a falta de reconhecimento do pai aos esforços dele.
Seu pai era um bom homem. Um bom pai. Foi zeloso e carinhoso durante a infância dele. Tinha paciência para lhe explicar as coisas que ele não entendia. Assanhava seu cabelo de um jeito que ele fingia não gostar, mas gostava.
Rhaegar o admirava, antes de qualquer coisa. Eles podiam pensar de forma diferente, mas Rhaegar o respeitava. Se espelhava nele.
— Não se preocupe – Rhaegar pediu – Eu não guardo mágoas dele, Lya. Esse olho roxo não significa nada. Ontem, naquela reunião, eu imaginei que ele iria me socar e deixei. Não fiz nada para me esquivar, porque ele estava no direito dele. Se fosse outro a fazer o que eu fiz com você...eu estaria bem do lado dele, pronto para socar também o desgraçado.
Lyanna acenou com a cabeça, aliviada. Limpando a garganta.
— O que faremos para trazê-lo de volta, Rhaegar? Quero nosso pai de volta. Quero que ele me conduza pelo Grande Septo – Lyanna confessou, mordendo os lábios para não voltar a chorar.
— Vamos dar um tempo à ele. E depois veremos. Mas eu farei tudo que estiver ao meu alcance. Você tem a minha palavra – Rhaegar garantiu, sentando na ponta da cama e acariciando o rosto dela mais uma vez.
Lyanna inclinou o rosto sobre a mão de Rhaegar.
— Não fique triste – Rhaegar pediu – Eu não me esforcei tanto durante a noite para sair agora deixando você assim...- ele lamentou, com um olhar indecente para ela.
Lyanna afastou o rosto da mão dele imediatamente e cobriu os olhos balançando a cabeça, como se não acreditasse no que estava ouvindo.
— Pelos Sete, pare de ficar falando nisso...- ela o empurrou pelo ombro, mas ele agarrou a mão dela e a puxou e quando ela deu por si eles estavam rolando na cama.
— Não. Não. Não Rhaegar – Lyanna tentava se soltar dele, mas ele estava fazendo cócegas nela. Cócegas.
Ela começou a rir o mais silenciosamente que pôde, tentando não acordar a ala toda do castelo, enquanto debatia as pernas nas dele.
— Isso é ridículo! – ela sentia mais lágrimas escorrendo dos olhos. Alegria e tristeza impossivelmente misturadas – Pare! — ela pediu. E ele parou.
— Você é tão linda, Lya – ela o ouviu dizer, ao olho a violeta intensos – Não gosto de ver esse rosto triste. Não gosto de ver você tão preocupada – Rhaegar confessou, entre beijos rápidos por todo o rosto dela.
— Amo você— ele se declarou e Lyanna sentiu o coração inchar e se aquecer ao som daquelas palavras.
— Uhum – ela murmurou, puxando o rosto dele para si e beijando-o com gratidão, com o amor que ela não conseguia expressar em palavras, porque no fundo ainda não tinha se libertado de todas as amarras que tinha construído ao redor daquele sentimento por anos e anos.
Ela queria dizer que o amava também. Queria conseguir dizer que seus sentimentos por ele eram tão fortes que diante dele era ignorava o bom senso, ignorava a razão.
Queria dizer que o que sentia por ele era a coisa mais complexa que ela já havia experimentado na vida. Era um ciclo infinito de alegria, de êxtase, de medo, de vergonha, de tristeza, de prazer, de descoberta, mas de felicidade.
Contudo, nada saía. Nenhuma palavra. Tudo canalizado na voracidade do beijo apaixonado que ela se permitia oferecer e na sensação de tê-lo sobre si, meio vestido, enquanto ela estava nua embaixo de um lençol. Desejando que ele estivesse do mesmo jeito, quando na verdade ele já deveria estar longe dali.
— Alteza – Lyanna e Rhaegar interromperam o beijo quando ouviram a voz de Lady Jane, seguida por uma batida suave na sua porta.
Os dois ergueram as cabeças assustados. Rhaegar saiu de cima dela com rapidez, achando o blusão perdido e o vestindo de qualquer jeito. Lyanna tentou ignorar o imediato vazio que sentiu quando ele se afastou. Era como ser roubada de algo essencial.
Rhaegar foi até a porta e a entreabriu com cautela.
— Em nome dos Sete! O que Vossa Alteza ainda faz aqui! Eu vou ser decapitada! Onde meu juízo estava quando me deixei convencer disso? – Jane murmurou baixinho mas não menos exaltada.
Lyanna viu Jane afastar Rhaegar e enfiar a cabeça pela porta, os olhos arregalados ao vê-la na cama, agarrada à um lençol. Nada mais que um lençol. Lyanna teve a decência de corar, antes de ver Rhaegar sendo puxado para fora, sem nenhuma cerimônia, por sua brava dama de companhia.
Jane fechou a porta atrás de si, respirando fundo por estar puxando o Príncipe Herdeiro do Trono de Ferro, um Targaryen dono de um dragão e um lobo, mas que tinha lhe dado sua palavra de que seria discreto e não se demoraria.
— Já há movimento pelos corredores! – Jane ralhou com ele, ainda em voz baixa, mas enfaticamente.
— Caímos no sono. Nem eu nem ela dormimos muito antes, Lady Jane. Ela fugiu, eu fui atrás, voamos até Pedra do Dragão, brigamos, nos acertamos, fizemos coisas que não envolviam dormir, voltei para cá, apanhei do meu pai... – Rhaegar começou a elencar os acontecimentos, quando Jane o interrompeu.
— Já entendi, Alteza! – ela ergueu uma mão, totalmente exasperada – Só vá logo para os seus aposentos em nome dos deuses novos e antigos! – Jane juntou as mãos quase como se estivesse em prece.
— Obrigado, Jane. Nunca vou esquecer disso – Rhaegar pegou as mãos unidas de Jane e as beijou, antes de sair apressado.
Ele espiou o corredor do andar deles na Fortaleza de Maegor e aproveitou que no momento apenas os guardas estavam por ali. Eles o veriam, mas também o viram na noite anterior.
Rhaegar caminhou rapidamente, mas sem parecer um fugitivo, na direção da porta que dava para os seus aposentos e assim que a cruzou, se deparou com Jon Tarly sentado em uma poltrona, segurando um pergaminho na mão.
— Caiu da cama e rolou até aqui? – Rhaegar perguntou à ele, reparando na expressão ainda sonolenta de Jon.
— Sua Majestade, a Rainha me perguntou praticamente a mesma coisa à poucos instantes, quando abriu a porta e me viu aqui – Jon Tarly falou, com um sorrisinho cínico para Rhaegar.
— Não brinque com isso...- Rhaegar o encarou.
— Não estrou brincando, Alteza – Jon se levantou da poltrona e entregou o pergaminho à Rhaegar.
— O que é isso? O que minha mãe disse? – Rhaegar perguntou, impaciente.
— Um servo bateu na minha porta e entregou. Disse que a Princesa Q'ira mandou para que eu entregasse à você. Não estava selado, então eu li – Jon gesticulou como quem pede desculpas.
Rhaegar desenrolou o pergaminho e leu o breve recado, escrito aparentemente com pressa, a julgar o ela letra não tão caprichada.
Meu estimado Príncipe, sinto muito em não poder me despedir pessoalmente. Surgiu uma emergência que me obriga a ir imediatamente. Agradeço a hospitalidade. Creio que levo amigos daqui. Foram dias maravilhosos. Parabéns à Vossa Alteza e à Princesa pelo noivado. Sejam muito felizes. Espero revê-los um dia.
Perdoe-me. De verdade.
Sua amiga,
Q'ira, Magnânima Princesa de Qarth.
— Q'ira foi embora?— Rhaegar perguntou em voz alta, terminando de ler.
— Quando recebi e li, fui até os aposentos separados para a delegação dela e não encontrei mais ninguém. Achei estranho e vim direto para cá...mas Vossa Alteza não estava...- Jon estreitou os olhos para o Príncipe – Imagino bem porque...
— E minha mãe? – Rhaegar perguntou.
— Me viu aqui e perguntou por você. Como imaginei que ela não ia gostar de saber que o filho muito provavelmente estava no quarto da irmã...eu disse que a Princesa Q'ira havia precisado partir com urgência e que você estava se despedindo dela. A Rainha murmurou algo sobre precisar falar com Tyrion e um quando meu filho voltar diga para ele ir até a torre da Mão e saiu – Jon esclareceu, muito satisfeito consigo mesmo, pelo pensamento rápido.
— Obrigado – Rhaegar agradeceu Jon, relendo o bilhete – Estranho. Tudo isso. Tem alguma coisa acontecendo – ele falava, esfregando os olhos e precisando se desligar do cheiro de Lyanna ainda presente nele, para raciocinar.
— Contava que ela ficaria mais alguns dias aqui...- Jon falou, suspirando dramaticamente.
— Não conseguiu arrastá-la para sua cama ontem? Vocês dois estavam bem à vontade um com o outro no salão privado...- Rhaegar o provocou.
— Talvez eu tivesse conseguido, mas quando sua amada irmã irrompeu pelo recinto e você expulsou todos nós de lá, meus planos foram por água à baixo. Ganhei uns beijos e nada mais. E eu queria muito o mais – Jon lamentou, enquanto Rhaegar sorria.
— Vá atrás dela então, seu libertino. E aproveite e investigue para mim se a comitiva dela partiu realmente, peça informações no porto, se embarcaram mesmo e para onde, em qual navio, enfim, o que puder descobrir – Rhaegar falou e Jon Tarly não precisou ouvir duas vezes para se levantar e sair determinado.
—*-
Quando Rhaegar finalmente chegou na Torre da Mão, devidamente trajado e desperto, ainda que não devidamente descansado, Lorde Tyrion já vinha saindo do recinto, com uma expressão azeda.
— Bom dia, Lorde Tyrion. Minha mãe pediu que eu o encontrasse... – Rhaegar o cumprimentou.
— Temos um problema — Tyrion foi direto ao assunto – Vamos caminhando para o salão do Trono, Alteza.
— O que está acontecendo? – Rhaegar perguntou, acompanhando Tyrion na descida da Torre, ambos cercados pela escolta habitual de Imaculados.
— Temos uma visita – Tyrion falou – Lembra-se de quando tratamos sobre a guerra comercial das cidades livres, naquela reunião do Pequeno Conselho?
Rhaegar acenou. Lyanna havia sido brilhante naquela reunião. Ela sugerira que eles fossem mediadores e garantidores dos termos de paz entre as cidades livres, antes que as coisas fugisse do controle no Mar Estreito.
— Bem...várias correspondências foram trocadas desde aquele dia. E os termos de um possível acordo de paz...começaram a se desenhar. Uma reunião estava em vias de ser marcada...com os representantes das cidades livres. Primeiro seu pai ouviria todos individualmente, as queixas e acusações seriam anotadas e pesadas e uma proposta de termos seria elaborada para que, enfim, uma reunião com todos eles pudesse vir a acontecer, aqui em Porto Real – Tyrion informou – Um magíster de Pentos está aqui. Veio...sem aviso ou convite.
— Talvez por isso a Princesa Q'ira tenha precisado partir tão rápido. As relações entre Pentos e Qarth continuam estremecidas, correto? Quem é este Magíster que nos visita? – Rhaegar questionou, agora mais preocupado.
— Ylia, o Velho— Tyrion falou, com evidente desagrado – O mais difícil de todos os governantes de Pentos. Para dizer o mínimo. Ele não é de meias palavras. Fala o que pensa, quando se digna a falar. E é extremamente desconfiado. Quando ele nos visitou, tempos atrás, você era apenas um garotinho então não deve se lembrar, mas a única pessoa a quem ele dirigia à palavra era ao seu pai. Eu e sua mãe, às vezes éramos respondidos com grunhidos, quando ele se dignava a nos responder.
Rhaegar praguejou mentalmente.
— Acha que ele está aqui para averiguar os boatos? A ausência do nosso Rei? – Rhaegar perguntou, pensando rápido.
— A viagem de Pentos até aqui não é tão rápida. Podemos presumir que ele já estava à caminho...mas a ausência do seu pai com certeza será questionada — Tyrion respirou fundo, irritado – Sua Mãe não está bem para lidar com alguém como ele agora. Ela não vai recebê-lo. Designou essa adorável tarefa para nós dois – a Mão esclareceu.
Rhaegar acenou com firmeza, compreendendo. A ausência do Rei ainda era uma ferida aberta e de resolução incerta. Uma realidade que apenas começava a impor suas consequências. Era compreensível que sua Mãe não se sentisse bem para encarar algo do tipo, já agora. Principalmente com alguém tão difícil.
Eles dois continuaram caminhando depressa, até o Grande Salão dos Tronos, pelo seu acesso dos fundos, ainda encontrando-o vazio de visitantes, apenas ladeado pelos incontáveis imaculados.
— Ocupe o Trono, Alteza – Tyrion apontou para o Trono de Ferro.
Mas Rhaegar sentiu algo gelado se espalhar por suas vísceras ao som daquele pedido.
— Você é a Mão. Na ausência do Rei e da Rainha, o Trono de Ferro é seu, milorde – Rhaegar observou astutamente.
— O homem não gosta de mim. Odeia Lannisters em geral e eu sou um, não preciso lembrá-lo. É melhor que alguém esteja sentado no trono quando ele entrar e não nos trará nenhuma vantagem se esse alguém for justamente eu – Tyrion esclareceu, indicando o Trono mais uma vez.
— Não vou ocupar o lugar do meu Pai— Rhaegar balançou a cabeça, convicto.
— Alteza...- Tyrion estava pronto para insistir, mas Rhaegar o interrompeu.
— Não posso, milorde. Não quero. Não passa a mensagem certa. Não estou aqui para substitui-lo. Não tomei o trono do meu pai e não desejo tomá-lo. Não vou reinar em seu lugar. Não enquanto ele estiver vivo – Rhaegar foi categórico.
— Sente no Trono da sua Mãe então – Tyrion por fim falou, depois de um olhar mais demorado ao Príncipe.
Rhaegar atendeu ao pedido. E se sentou no Trono de Obsidiana, tão semelhante ao que ele agora ocupava com propriedade, quando estava em Pedra do Dragão.
— Tragam o visitante — Tyrion mandou, à um dos guardas – E que os deuses tenham misericórdia de nós— o anão murmurou, se colando em pé, ao lado de Rhaegar no Trono de Obsidiana.
Quando os largos portões do Grande Salão da Fortaleza Vermelha se abriram, um homem solitário adentrou por eles, sem guardas pessoais, os braços cruzados para trás, as passadas firmes, apesar da aparência idosa. O homem era careca e ostentava uma longa barba grisalha, tão cinzenta quanto à túnica sem adornos que ele trajava. As sobrancelhas fartas, os olhos negros e vívidos e o nariz adunco, lhe conferiam a aparência de um gavião em plena caçada.
Rhaegar precisou se controlar para permanecer quieto como estava, sob o direto escrutínio daquele desconhecido que se aproximava, sem sequer trocar um olhar com Tyrion.
— Bem vindo à Porto Real, Magíster Illya— Tyrion cumprimentou o velho, assim que os pés deles estancaram e seu corpo não deu sinal de fazer nenhuma mesura.
— Onde está o Rei dos Sete Reinos?— a voz ranzinza e carregada do velho Magíster ecoou pelo salão vazio, enquanto seus olhos se fixavam no Trono de Ferro vazio.
— Sua Majestade precisou viajar para o Norte – Tyrion respondeu ao homem – Sua Alteza, o Príncipe de Pedra do Dragão, Rhaegar Targaryen o ouvirá, caro Magíster, uma vez que sua visita não era esperada... – Tyrion enfatizou os títulos de Rhaegar, mas nem assim o homem demonstrou qualquer respeito ou reverência.
O velho estreitou os olhos para Rhaegar, olhando-o de cima à baixo.
— Então, os boatos são verdadeiros – o velho falou. Não um questionamento, mas uma afirmação – O Rei foi embora da capital— ele continuou, olhando com desgosto para Rhaegar, que se manteve indiferente, apenas tamborilando lentamente os dedos na fria pedra negra – Estava à caminho daqui e assim que desembarquei nesta cidade fedida ouvi que o Príncipe Herdeiro sequestrou a própria irmã e a tomou para si, contra a vontade do seu Rei – o velho respirou ruidosamente, dando um passo à frente e se demorando no rosto de Rhaegar – Este olho roxo está feio. Mas aposto que foi merecido.
— Achei que tinha me dito que ele era um homem que ia direto ao ponto, Lorde Tyrion – Rhaegar lamentou, o rosto ainda uma máscara de indiferença – Se eu desejasse ouvir as mais novas fofocas à cerca da minha família bastaria que eu perambulasse pelos corredores deste castelo – Rhaegar escarneceu, com a voz gelada, ainda olhando para Tyrion e não para o velho pentoshi, que adquirira um tom levemente mais vívido ao ouvir aquilo.
— E são apenas fofocas? – o velho arqueou as sobrancelhas, sabendo muito bem que não eram – Pentos pouco se importa com qual irmã um Príncipe Targaryen resolve casar. Mas estamos em meio à uma guerra. E o Trono de Ferro se ofereceu como mediador e garantidor dos termos de um tratado de paz – o velho frisou cada palavra.
— E nossa oferta continua de pé – Rhaegar afirmou, com firmeza – Não voltaremos atrás na nossa palavra, Magíster— ele continuou, tratando o homem por seu título formal, ainda que a mesma consideração não tenha sido dada à ele.
— Pentos não irá empenhar seus esforços neste acordo de paz sem a participação direta do Rei. Eu não irei empenhar meus esforços neste acordo de paz se o Trono de Ferro estiver sendo administrado por um Lannister fratricida e por um garoto Targaryen que mal saiu das fraldas. Não confiamos em Lannisters. Não confiamos em Targaryens. Isto é ser direto o suficiente para você, Alteza? – o velho rebateu, cada palavra dita com desagrado.
— Meu pai é um Targaryen – Rhaegar fez uma cínica expressão de confusão, vendo Tyrion revirar os olhos para o velho – O Trono de Ferro é a casa Targaryen. E as garantias para quem descumprir os termos do tratado...são Fogo e Sangue— Rhaegar abriu as mãos, sem se abalar por ter sido chamado de garoto mal saído das fraldas – Mas você afirma que Pentos não confia na Casa Targaryen... – Rhaegar deu de ombros, aguardando.
— Seu pai é mais do que isso – o velho afirmou, com a mandíbula cerrada, apontando um dedo para Rhaegar – Ele é um homem de honra. De palavra. E esta negociação só dará certo se ele estiver à frente, porque nele nós confiamos. A Mãe dos Dragões queimou escravagistas. Libertou escravos que não eram dela. Acabou com o mercado de escravos. Eu nunca tive um escravo. Mas para outros, isso pesa contra ela. Nada pesa contra Aegon VI. E se eu preciso lhe esclarecer isso, você é um idiota – o velho cuspiu, com impaciência.
Rhaegar levantou do Trono da Rainha contendo um sorriso frio e admirou o fato de o velho não dar um passo sequer para trás. Tyrion o olhou com cautela, apenas observando. Rhaegar o tranquilizou, tocando em seu braço.
— Então você está aqui, caro Magíster, para saber se o Rei continuará à frente das negociações de paz entre as cidades livres, uma vez que apenas ele poderá dizer ‘eu garanto’ quando vocês começarem a desconfiar das promessas um dos outros. E também apenas ele não poderá ser acusado de acabar subvertido para o lado de uma ou de outra cidade. É isto?— Rhaegar fingiu pensar, enquanto resumia.
— Quero vê-lo. Quero conversar com Sua Majestade – o velho o interpelou.
— O Rei não está aqui. Vá até Winterfell se desejar vê-lo – Tyrion respondeu, com uma expressão seca.
— Meu pai deu a sua palavra de que mediaria o conflito. O que o faz pensar que ele não fará exatamente o que prometeu? Talvez eu seja apenas um idiota, mas eu não consigo entender como vossa excelência confia apenas nele ao mesmo tempo que duvida da promessa que ele fez à todas as cidades livres – Rhaegar agora encarava o homem, frente à frente.
— Algumas fontes sugerem que ele abdicou...- o velho não recuou.
— Se ele abdicou, porque não há uma coroa sobre a minha cabeça? – Rhaegar tocou na própria testa – Porque ocupei o Trono da minha Mãe e não o dele? – Rhaegar apontou para o Trono de Ferro vazio — Meu pai é e continua sendo o Rei dos Sete Reinos, Magíster. Um desentendimento familiar não muda isso – Rhaegar manteve o olhar firme para o velho. Dando deliberadamente mais informação do que lhe agradava.
— Garoto... – o velho quase cuspiu a palavra.
— Estou ouvindo...velho. Já que prefere que nos tratemos levando em consideração apenas nossas idades...- Rhaegar se justificou, ao ver o olhar arregalado e irado do pentoshi.
— Quando seu pai retornará? – o Magíster insistiu em um resposta concreta. Não sairia dali sem uma.
— Farei o que estiver ao meu alcance para que seja o mais breve possível – Rhaegar não titubeou em responder – Enquanto isso as negociações seguirão.
— Elas já estão desmoronando, apenas por causa desses boatos – o velho observou.
— Então acabarei com eles. Meu pai enviará cartas à todos os governantes, muito em breve. Tem minha palavra – Rhaegar prometeu.
— Sua palavra não vale nada para mim garoto – rebateu o Magíster.
— Apenas aguarde e ela passará a valer, Magíster Illya de Pentos — Rhaegar falou, tranquilamente.
— Veremos— o velho Magíster falou, virando-se e saindo, sem ser dispensado.
Rhaegar e Tyrion suspiraram em uníssono assim que o homem cruzou as portas do Grande Salão.
— Poderia ter sido pior – afirmou Tyrion, esfregando as têmporas – Vossa Alteza lidou bem com ele – Tyrion o elogiou – Mas...hum...como pretende cumprir o que prometeu? – o anão o olhou, curioso.
— Tenho algumas ideias...mas ainda preciso pensar – Rhaegar resmungou, com a cabeça às voltas.
— Deveríamos ter vindo com a Princesa...- Tyrion se lamentou, começando a sair do Grande Salão, Rhaegar o acompanhando.
— Porque? – Rhaegar arqueou as sobrancelhas.
— Acho que aquele velho miserável teria ficado menos agressivo só de olhar para alguém parecido com seu pai ali – Tyrion falou, com amargor.
— Então da próxima vez, vamos providenciar para que ela o receba ainda no Porto...- Rhaegar concordou, apertando a própria nuca.
Ele e Tyrion sorriram um pouco um para o outro.
— Quase passei mal quando você o chamou de velho – Tyrion observou, com um olhar de repreensão sutil – Respeite a minha idade garoto, não faça isso se eu não estiver pelo menos sentado – Tyrion pediu.
— Tem minha palavra, velho – Rhaegar repetiu. Com um sorriso de canto.
Dessa vez a Mão gargalhou.
—*-
Desde que Rhaegar havia saído do seu quarto, Lyanna sentia vontade de conversar com sua Mãe. Era algo novo, aquele sentimento. Ela sempre fora mais próxima do pai. Sempre desejava falar com ele, compartilhar novos conhecimentos adquiridos com ele.
Não é que não gostasse de sua mãe. Sua dragão era nomeada em homenagem à ela, uma variação de Khaleesi, do primeiro título de Daenerys Nascida na Tormenta. Ela se orgulhava de ser filha da Mãe dos Dragões. Ao mesmo tempo que era difícil ser filha dela.
Lyanna sentia as expectativas que haviam sobre ela para ser brilhante à altura dos seus pais. Tivera que lidar com elas desde pequena. Rhaegar com seu jeito extrovertido e carismático, sempre era visto como promissor. Como um herdeiro à altura. Lyanna, não. Sabiam que falava-se da sua inteligência, mas ela muitas vezes se sentia aquém daquela Dinastia, talvez por culpa dela mesma.
Ela havia se fechado para o mundo por medo de si própria. Dos sentimentos pelo irmão. Da dor da despedida, quando tivesse que deixar sua família para trás. Nunca tinha sido uma princesa como Rhaegar fora um príncipe. Não circulava entre o povo. Não ajudava tanto nos assuntos administrativos quanto poderia.
Fechada. Isolada em si própria. A única abertura que concedia era ao seu pai. E agora ele não estava mais ali. E tampouco ela iria embora. Agora ela seria Rainha um dia. E isso...ela sabia que precisava abrir seu coração para as outras pessoas que a amavam.
Não seria fácil. Nem rápido. Mas ela o faria. A partir daquele momento.
— Desejo falar com minha Mãe – Lyanna disse aos Imaculados que guardavam as portas dos aposentos dos seus pais, após pedir que Jane procurasse saber onde a Rainha se encontrava.
As portas se abriram imediatamente, sem que ela fosse anunciada. Como se tivessem ordens para fazer isso.
Lyanna avistou sua mãe sentada em uma mesa, as mãos entre vários pergaminhos, mas os olhos fixos no mar além do horizonte das janelas abertas.
— Mãe? — Lyanna chamou, baixinho. Daenerys virou o rosto surpresa, como se mal tivesse ouvido as portas se abrindo – Posso falar com você um instante? – Lyanna pediu.
Daenerys se levantou apressada, surpresa por ver a filha ali.
— Claro. Aconteceu alguma coisa? — Dany perguntou, apontando para a cadeira diante dela, ao redor da pequena mesa de madeira.
Lyanna sentou e pareceu hesitar, até por fim responder.
— Sim. Aconteceu – Lyanna limpou a garganta, diante do olhar preocupado da mãe – Rhaegar dormiu no meu quarto esta noite— ela falou logo, sem subterfúgios – Não posso dizer que não fizemos nada. Mas também não...fizemos...algo que pudesse...resultar em uma criança – Lyanna tentou explicar. Mortificada – Me perdoe. Por não...ter obedecido.
— Porque não estou surpresa? – Daenerys resmungou – Eu ia acabar sabendo, mas obrigada por me contar. Aquele garoto...Sem Jon aqui...
— Eu o deixei entrar. E ficar. Sou tão culpada quanto ele – Lyanna saiu em defesa de Rhaegar.
Daenerys a observou com atenção. Surpresa. Aquela nova dinâmica entre seis filhos...ela ainda não tinha se acostumado. Mas iria. Com o tempo, iria.
— Vão continuar me desobedecendo? – Dany perguntou, esfregando as têmporas, com calma – Não tenho intenção de torturar vocês...eu só...só quero ganhar tempo. Tempo para que ele volte. Não quero ter que casar vocês dois sem Jon aqui – Dany esclareceu, pegando na mão da filha.
— Também não quero que isso aconteça – Lyanna concordou, apertando a mão da sua mãe em retribuição – Sinto falta dele – ela confessou, com a voz embargada.
— Eu também, filha. Eu também – Dany falou precisando limpar a garganta, lutando para não sucumbir à tristeza que a ausência de Jon provocava.
— Quero escrever para Winterfell. Quero saber notícias dele. Quero implorar para que ele volte. Quero escrever todos os dias – Lyanna desabafou, a voz saindo em torrentes.
— Então escreva. Sei que deve sentir falta de conversar com ele... Eu provavelmente escreverei também – em algum momento, Dany pensou.
— Mas saiba que eu estou aqui. Para o que você precisar. Sei que você sempre foi mais chegada ao seu pai...e eu entendo...mas eu também estou aqui para você. Eu queria muito que você tivesse certeza disso – Daenerys falou, as duas de mãos dadas e cada vez mais apertadas.
— Obrigada— Lyanna falou, fungando – Estou tão emotiva hoje. Não queria chorar...- ela revirou os olhos por um momento.
— É compreensível. Muita coisa aconteceu nos últimos dias – Dany a consolou.
— Mãe...me perdoe por...por ter me afastado de você – Lyanna botou para fora a segunda coisa que precisava confessar.
Um silêncio calmo e reflexivo caiu sobre as duas, que ainda estavam de mãos dadas.
— Me perdoe por ter deixado você se afastar – foi a resposta de Dany à filha – Por ter visto você cada vez mais reclusa naquela biblioteca e por não ter ido lá, como seu pai fazia. Eu falhei com você. Eu deveria saber, sentir, que alguma coisa estava errada. Eu que preciso do seu perdão, não o contrário. Eu— Dany levou a mão ao peito, observando as lágrimas que brotavam no rosto de Lyanna.
Elas não haviam feito muita coisa juntas nos últimos anos. Mas agora Dany podia sentir o elo entre mãe e filha sendo reforjado. As mãos apertadas das duas uma na outra, as lágrimas derramadas delas duas, a saudade e o medo que as duas sentiam, todo aquele sofrimento pela ausência Jon, todo aquele amor por Rhaegar, tudo finalmente às aproximava de novo.
E Dany não permitiria mais que aquilo se quebrasse. Nunca mais.
—*-
— Magnânima todos os baús foram acomodados na cabine ao lado, os guardas estão discretamente vigilantes, como Vossa Alteza ordenou.
— Obrigada Zehra – Q'ira respondeu à sua aia de confiança, ainda com o pergaminho na mão. Ela já o tinha lido mil vezes. E em nenhuma delas as palavras que ele continha ficavam mais fáceis de digerir.
— Princesa...- Zehra oscilou pelo balanço do navio finalmente se movimentando – Sirvo à você assim como servi à sua mãe e os deuses sabem o quanto ainda choro por ela não estar mais entre nós...
— Eu sei Zehra. Você cuidou muito bem de mim todos esses anos — Q'ira concordou, se sentando na cama estreita da cabine conseguida às pressas.
— O que está acontecendo? Porque saímos assim? Estamos voltando para casa? – Zehra perguntou, com evidente preocupação.
— Não — Q'ira respondeu com um risinho – Estamos indo para outro lugar.
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