Notas iniciais
Para um autor as vezes alguns capítulos são mais especiais que outros porque finalmente chegamos em alguma cena que idealizamos antes de muitas outras...Esse capítulo é um desses para mim! Boa Leitura!

O som das flechas cortando o ar e a visão de uma delas atravessando a membrana da asa de Stormfire fizeram Lyanna cortar os céus rumo à Fortaleza Vermelha feito um raio.

Um raio que precisa decidir onde cair. Onde pousar. Que precisava pensar. Ela precisava ponderar suas opções e não se deixar levar pelo medo. Porque qualquer decisão mal pensada, qualquer segundo a mais que essa decisão lhe custasse, poderia fazer diferença para Rhaegar. Poderia significar vida ou morte.

Quando ela convidou Rhaegar para saírem para aquele vôo experimental, Lyanna lembrava de ter visto Verme Cinzento na festa nos jardins, com Missandei, próximo à mesa dos seus pais. Mas a guarnição de Imaculados ficava mais próxima dos pátios frontais.

Eles atenderiam uma ordem dela, não atenderiam? Muitos guardas estavam espalhados pelo castelo. Centenas. Mas ainda deveriam ter algumas dezenas de soldados perto da entrada principal da Fortaleza Vermelha. Teria que bastar.

Lyanna tentava decidir isso, onde pousar, se sua palavra bastaria, enquanto sentia apenas vontade de voltar, de estar com Rhaegar, de ajudá-lo. Mas já estava perto demais do Castelo. E precisava tomar uma decisão imediatamente.

Ela não desceria perto dos jardins. Não havia jeito de dizer o que estava acontecendo com calma, sem estragar de vez a festa, sem espalhar o pânico entre os convidados. E, também, sem deixar a imagem deles fragilizada diante de todos os nobres do Reino.

Não. Ela precisava ser rápida. Sua palavra teria que bastar. Precisava pousar onde encontraria mais Imaculados. O irmão dela estava servindo de isca para que conseguissem pegar as pessoas que tentavam feri-los, matá-los, atingir seus pais e a dinastia que tentavam reerguer. Tudo para que conseguissem informação. Pistas. Nomes. Ela tinha que fazer valer à pena o risco que Rhaegar corria naquele momento.

Lyanna fez o pouso mais brusco da sua vida diante dos portões principais da Fortaleza Vermelha, as asas e a cauda de Khaleeth derrubando e quebrando coisas que ela não tinha tempo de ver direito o que eram.

Suas mãos tremiam para se soltar dos dispositivos da sela, mas em compensação suas pernas reagiram ao mínimo pensamento, fazendo-a pular apressada e com firmeza de cima da dragão.

Ela já corria para o guarda mais próximo, quando as portas principais da Fortaleza se abriram revelando um grupo que ela não imaginou encontrar ali, todos andando apressados na direção dela, todos com os semblantes preocupados e em alerta, como se já soubessem de tudo.

Verme Cinzento. Seu pai. Sua mãe. E sua Tia Arya além de, mais atrás, ninguém menos que o capitão de Meeren, Daario Naharis.

Uma explosão de perguntas saiu deles. E ela não sabia a qual responder primeiro.

Onde está Rhaegar? – Dany perguntou

Você está ferida? – Jon perguntou também.

O QUE ACONTECEU? – Arya perguntou, mais alto que todos eles.

— Estávamos voando sobre a cidade. E então...flechas. Muitas flechas. Rhaegar está lá ainda. Ele quis que eu voltasse para avisar, para buscar Imaculados. Para que peguem quem está dentro da torre – Lyanna falou, de um fôlego só – Torre quebrada, no centro do bairro dos comerciantes, Rhaegar está sobrevoando ao redor dela – Lyanna continuou, dando as costas para o grupo, voltando a correr na direção de Khaleeth, vendo Arya e Verme Cinzento já saírem correndo para tomar providências, quando sentiu seu braço sendo puxado. Por seu pai.

Você fica – Jon falou. Com firmeza. O semblante duro.

Rhaegar precisa de ajuda! – Lyanna rebateu, puxando o braço da mão do seu pai. Ignorando o olhar surpreso dele por sua reação.

— A ajuda está a caminho. Eu mesmo vou. E você fica — Jon repetiu, apontando para as portas da Fortaleza Vermelha.

— Drogon não está aqui. Rhaegar precisa de outro dragão ao seu lado — Lyanna argumentou, irritada, com os olhos arregalados para o seu pai, buscando a ajuda da sua mãe que só olhava para os dois, engolindo em seco. Sem dizer o que ela queria ouvir. Que ela fosse. Que subisse em Khaleeth e fosse ajudar Rhaegar.

Mãe...- Lyanna apelou, com a voz trêmula. Dany olhava dela para os céus. Com uma expressão furiosa e temerosa.

— Entre no castelo, Lyanna! Me obedeça! – A voz de Jon estrondou quando trouxeram seu cavalo. Quando a cavalaria de guardas passou, às dezenas, gritando em polvorosa, com Arya à frente, alguns poucos se detendo e esperando pelo Rei.

Não – ela gritou de volta pronta para correr para Khaleeth.

Obedeça seu pai – Dany finalmente disse. Cada palavra parecendo lhe custar muito.

Khaleeth explodiu em urros, fazendo todos se moverem dos seus lugares e deixando o cavalo de Jon nervoso. Expressando a frustração de Lyanna. O desespero que sua domadora sentia.

Ela entendeu que precisava se acalmar antes que sua dragão perdesse o controle. E ela tentou. Respirando mais fundo. Ficando quieta. Deixando parecer que tinha aceitado. Mas assim que o pai saísse, ela iria. O desobedeceria. Pela primeira vez em sua vida.

Vá logo— Dany disse, se aproximando de Jon, que já subia no cavalo – E traga nosso filho de volta— ela pediu, segurando a mão de Lyanna com força – Ela não vai sair daqui – Dany garantiu, olhando para Daario Naharis, em algum tipo de comando silencioso. Vendo Jon partir em disparada.

KHALEETH! — Lyanna gritou, quando sentiu mãos lhe segurando. Segurando seus braços com força. Tentando arrastá-la para dentro do castelo – VÁ! VOE! VOLTE! AJUDE RHAEGAR! AGORA!– ela mandou, apontando para o céus, tentando se soltar de quem a arrastava para mais perto dos portões.

Mas sua dragão parecia indecisa. Olhava para ela mostrando os dentes. Achando que ela corria perigo. Fumaça saindo de suas narinas e de sua boca.

Me solte! Me solte para ela poder ir — Lyanna pediu. Se debatendo. E foi obedecida, mas só conseguiu ficar de pé tempo o suficiente para ver que Khaleeth finalmente parecia que ia levantar vôo. Logo seus joelhos desabaram no chão quando ela ouviu o ressoar das asas partindo sem ela.

— Me perdoe princesa. Por mim, você estaria nos céus com seu dragão – Lyanna ouviu a voz do capitão de Meeren lhe dizer, enquanto sentia as mãos da mãe a ajudando a se colocar de pé.

— Guarde sua opinião para si, Daario – Daenerys o cortou, sem se surpreender quando Lyanna rejeitou seu toque, sua ajuda. A filha estava agitada. Com raiva. E ela mesma estava de si própria. Da situação que tinha diante de si e que exigira dela tomar aquele tipo de decisão.

— Perdão, minha Rainha – o homem respondeu, não arredando de perto delas duas.

Ele não está de armadura – Lyanna se levantou e se afastou dos dois – Não está de armadura— repetiu. Com angústia. Olhando para o céu – Vocês já estavam saindo. Já sabiam? – ela perguntou, caminhando de um lado para o outro.

Arya. Ela disse que estava voltando para a Fortaleza. Que tinha visto vocês sobrevoando a cidade. E que já estava quase nos portões principais quando viu o fogo no céu. Quando viu um dos Dragões soltando fogo. Ela então correu para nós avisar. Por isso já estávamos aqui – Dany explicou. Tensa. Olhando para o alto. Desejando poder estar sobre Drogon. Desejando que seu filho voltasse ileso. Chamando Drogon com seus pensamentos. Com seus sentimentos.

Mais passos vinham das portas abertas. Apressados. Barulhentos. Lyanna viu então. Os lobos dos dois. E mais atrás, os seguindo, Sam, Jon, Dickon e Aemon Tarly. E o pequeno Jaime Lannister. E correndo atrás dele sua irmã, Diana. Com cara de que não fazia ideia do que estava acontecendo.

— Quando vimos os lobos correndo, imaginamos que havia alguma coisa errada – Sam chegou dizendo, ofegante – Ouvimos Khaleeth também, quando já estávamos quase chegando nos portões. O que houve? – ele perguntou, se dirigindo à Lyanna.

— Majestade, onde está meu Rei? – Dickon perguntou, com uma clara determinação de partir para onde quer que Jon estivesse, como um fiel escudeiro faria.

— Partiu à cavalo. Foram para a torre quebrada que fica no centro do Distrito do comércio – Lyanna falou, antes que a mãe sequer abrisse a boca, chegando perto de Dickon – Vá atrás dele. Leve os lobos com você. Proteja meu pai, Dickon — ela falou e não precisou dizer mais nada. Dickon Tarly já saía correndo rumo aos estábulos. Black e Lys em seu encalço, mal precisando receber um comando direto dela.

— Onde está o Príncipe? – Sam perguntou, para Lyanna, o medo dela refletido nos olhos do amigo do irmão. Seu amigo também.

— Está lá. Está lá Sam. Disparavam flechas para todos os lados. Eu...eu estava voando em pé. Ele me cobriu. Ficou na minha frente o tempo todo – Lyanna começou a dizer em torrente, os dentes batendo, segurando nos braços de Sam, aceitando seu conforto – Stormfire está ferido. Uma flecha atravessou sua asa. Não parecia grave. Mas se mais flechas o atingirem... – Ela continuou dizendo, um soluço de sua mãe cobriu sua voz quando ela falou aquelas palavras – E eu o deixei lá. O deixei lá. Sozinho. Ele mandou que eu voltasse. E eu vim. Eu vim— Lyanna repetia, sendo abraçada por Sam. Se controlando para não chorar.

Merda!— Jon Tarly praguejou ao ouvir aquilo – Perdoem-me, Alteza, Majestade – ele se apressou em pedir desculpas – Não consigo ficar aqui. Vou com Dickon – ele disse e saiu apressado também, na mesma direção do irmão mais novo.

Lyanna sentiu os braços de Sam tremendo ao seu redor e ela se afastou dele, percebendo que ele também queria ir com os irmãos. Por Rhaegar. E não seria o nervosismo dela que iria impedi-lo. Que iria fazer com que ele achasse que deveria ficar ali, lhe consolando.

Vá, Sam— Lyanna disse – Tome cuidado – ela pediu, olhando nos olhos dele, vendo-o acenar silenciosamente e seguir os passos de Jon e Dickon.

Eu quero ir também – o pequeno Jaime gritou, sendo segurado pela irmã.

— Se você for...eu...eu também vou – Aemon Tarly falou, ajeitando a postura, parecendo receoso, mas decidido.

— Vocês são muito jovens ainda. Não podem ir até lá – Diana Lannister se abaixou, segurando o irmão pelos ombros.

Mas eu sou o escudeiro do Príncipe. Tenho que protegê-lo. É meu dever – o garoto loiro falava, a voz embargada.

— Ele está no dragão dele. Não se preocupe. Vai dar tudo certo. O Príncipe vai retornar em segurança – Diana Lannister continuou consolando o irmão, tocando no ombro de Aemon também.

Poucos minutos depois os três irmãos Tarly passaram feito raios em seus cavalos. E Lyanna apenas continuou ali. Dando pequenos passos. Olhando para o alto. O tempo parecendo que não passava. A raiva em seu peito prestes a explodir de um jeito muito feio, com quem estivesse por perto.

Se algo acontecer com ele— Lyanna começou a dizer, com a voz gelada — Se algo acontecer com Rhaegar. Eu não vou perdoar vocês — ela falou, olhando nos olhos da mãe, que parecia querer se encolher, como se tivesse sido atingida por algo cortante, doloroso.

— Não se preocupe. Eu mesma não vou me perdoar – Dany falou baixo, não fugindo do olhar que a filha lhe dava – Um dia, você será mãe. E então vai entender. Vai entender porque eu não podia deixar os dois ficarem em risco, ao mesmo tempo.

— E foi por isso que não me deixou voltar? Ou pelo Trono? Pela preocupação com a sua linhagem? – Lyanna rebateu, se afastando da mãe de novo antes que perdesse o resto de bom senso que ainda tinha.

— Você acha que seu irmão queria que você voltasse até lá? Ele sabia que não deixaríamos. Aposto que Rhaegar contava com isso. Ele quis protegê-la da mesma forma que nós. Pelos mesmos motivos que nós. Porque não queremos que se machuque. Ou pior. Que seja atingida por uma flecha e morra! O Trono sequer passou pela minha cabeça ou pela de seu pai, tenha certeza! – Dany completou, com firmeza.

Um silêncio pesado se levantou entre as duas. Muitas palavras parecendo entaladas em ambas, nenhuma proferida de fato.

— Bem...o Príncipe parece ser muito popular – Daario Naharis comentou, diante do silêncio que continuou entre aquele grupo estranho que havia restado ali, esperando.

Lyanna e Daenerys mal se olhavam. Diana Lannister com os braços sobre dois garotos com expressões aterrorizadas. Jaime por seu Príncipe, e Aemon Tarly, com certeza preocupado com os três irmãos que agora cavalgavam para o foco de toda aquela confusão.

— Até as crianças do Castelo querem correr para ajudá-lo – Naharis acrescentou, olhando para os garotinhos. Lyanna viu uma lágrima silenciosa escorrer pelo rosto da sua mãe, mas ela não disse nada. Sequer se virou para ver o que o capitão estrangeiro falava.

— Nosso Príncipe orgulha o Reino – o garoto Jaime falou, parecendo muito mais maduro do que realmente era, as palavras ditas com reverência e solenidade.

Daenerys soltava mais lágrimas silenciosas. Uma após a outra. Ela as enxugava rápido. Mas outras vinham em seguida. Lyanna não aguentava ver a mãe daquele jeito. Mesmo com raiva. Ainda assim ela sentia seu coração se partindo imaginando o medo que a mãe vivia pelo filho naquele momento. Talvez porque ela mesma sentia algo que imaginava ser parecido.

— Estão demorando muito – Lyanna falou, para si mesma, para ninguém. Controlando a sua vontade de chorar.

— Que tal voltarmos para a festa, meus pequenos lordes? Vamos circular entre os convidados e informar que está tudo bem. O que acham? Vamos ajudar mais assim – Diana sugeriu aos dois garotos, os dois se afastando dos seus braços na mesma hora.

Eu não vou sair daqui! – Jaime gritou em resposta à irmã, os olhos cheios de lágrimas. Lyanna não aguentou olhar para elas. Não queria ver nenhuma lágrima. Elas só serviam para chamar as suas. E ela não as derramaria. Rhaegar voltaria seguro. À salvo. Estavam preocupados à toa. Tinham que estar.

— Você é filho de Lorde Tyrion, não é? – Naharis perguntou ao pequeno Jaime – Eu vivi algumas aventuras com seu pai, aquela coisinha esperta, lá em Meeren – ele continuou dizendo – Sabia que eu e ele estávamos lá quando a Rainha Daenerys fez seu primeiro vôo em Drogon? – ele contava, tentando distrair o garoto.

— Estávamos numa situação pior do que a que o seu Príncipe está agora, tenho certeza. Fomos cercados na Arena de Meeren. Mas ainda assim nós saímos muito bem. O Príncipe também vai se sair. Confie, garoto.

Assim que o capitão falou aquilo, o coração de Lyanna quase parou não pelo que ouvia, mas pelo que viu diante de si. Asas. Asas acobreadas encobrindo o sol.

Eles se afastaram do meio do pátio para que Stormfire pudesse pousar. E Lyanna sentiu as pernas lhe faltando quando finalmente viu Rhaegar inteiro em cima do dragão. Ela quis correr para perto. Mas não conseguiu. Estava paralisada.

Mas sua mãe correu. Correu para receber o filho, tocando nele, no rosto sujo de cinzas, observando a mão que ele levava ao braço. Uma mancha vermelha empoçava a manga das vestes de Rhaegar.

Filho— Daenerys exclamou, com a voz cheia de dor – Você está ferido. Está ferido — ela repetia, preocupada, tocando nele.

— Foi de raspão. Nada de mais. Está tudo bem mãe. Deu tudo certo. Eles foram pegos. Todos estão bem. Papai já está voltando – Lyanna o ouviu responder, com os olhos fixos nela e não na mãe. Encarando o olhar que ela lhe dava. Que ela não fazia ideia do que passava para ele, quando nem ela sabia direito o que estava sentindo.

— Precisamos ver um Meistre, filho. Agora. Agora! Pode ter veneno – a voz de Daenerys falhou diante da possibilidade.

Lyanna observou Rhaegar dando um passo para frente, quase de desvencilhando da mãe. Olhando para ela ainda, de um jeito grave, urgente. Como fizera desde que pousara, desde que havia descido de Stormfire.

Mas a sua reação àquilo foi dar um passo em falso. Para trás. Para longe dele. Para longe do que sentia. Para longe do que poderia fazer. Da vontade que sentia de abraçá-lo. E também de bater nele. De chutá-lo. De passar a mão no rosto dele só para ter certeza de que era verdade. De que ele estava ali. À salvo. E logo depois estapeá-lo.

Lyanna...- Rhaegar ainda falou, percebendo a irmã se afastando. Lhe doendo o jeito como ela o olhava.

Os dois se encaravam de um jeito tão intenso, que perifericamente Rhaegar notava a mãe deles observado, olhando de um para o outro.

O olhar confuso de Daenerys para eles foi o suficiente para Lyanna sentir forças para sair dali. Para não se aproximar. Para não brigar com o irmão por tê-la feito voltar. Para não abraçá-lo por ter voltado inteiro. Para não dizer que se por acaso aquele corte tivesse veneno e ele morresse...ela não conseguia pensar naquilo.

— Que bom... – Lyanna começou a dizer, procurando palavras, segurando as que realmente queria dizer – ...que seu plano deu certo – completou. E se virou para entrar no castelo, antes de ouvir qualquer coisa que ele falasse. Mesmo que sua vontade fosse a de acompanhá-lo até o Meistre.

Lyanna...– Rhaegar a chamou de novo, querendo se soltar dos braços da mãe, pouco ligando que tanto ela quanto aquele capitão de Meeren estivessem observando os dois, pouco ligando que Diana Lannister não estivesse muito longe dali, mesmo sabendo que a garota dourada era esperta demais.

Depois, Rhaegar. Depois vocês se acertam. Ela está zangada com todo mundo. Não é só com você – Dany disse, com firmeza – Mas você vai ver um Meistre. Agora!

— Não estava envenenada. Não sinto nada de estranho. O corte foi superficial – Rhaegar tentou argumentar com a rainha, mas sem soltar o corte. Ele estava mentindo. Não era tão superficial assim. Iria precisar costurar. Mas ele diria qualquer coisa para não ser obrigado a ir em outra direção que não fosse a que Lyanna seguira.

— Vamos logo – Dany o ignorou, o tirando do lugar – Se eu tiver que bater em você no dia do seu nome, eu vou bater — ela o ameaçou. Rhaegar olhou para a mãe incrédulo, mas entregando os pontos. A conversa com Lyanna ficaria para mais tarde. Não ia ter jeito.

— Você nunca conseguiu me bater, mãe. Duvido que vá começar hoje – ele disse à Daenerys, dando um beijo estalado nela, sujando o rosto da rainha das cinzas das flechas que Stormfire incinerou a poucos metros dele. A mãe não parecia se importar nem um pouco.

— Não duvide de mim garoto – ela disse, lhe dando um tapinha de leve no meio das costas, lhe abraçando com força em seguida. Rhaegar sorriu. E olhou ao redor. Para quem ainda estava ali.

Para o capitão Naharis, que mantinha uma distância educada deles dois. A mão sobre a espada, pronto para os acompanhar. E para a garota dourada, com ao dois garotos, que parecia aliviada com o desenrolar dos fatos. Por certo, não era a única.

Jaime— Rhaegar chamou, vendo o garotinho olhando ansioso para ele – Venha. Nos acompanhe. Vou precisar de você – o garoto afastou o braço da irmã e em segundos estava do outro lado de Rhaegar, com um sorriso aliviado no rosto.

— E Aemon, seus irmãos já estão voltando. Pode ficar aqui esperando por eles, ou se preferir, pode nos acompanhar. Jaime pode não dar conta de segurar meus braços quando forem me costurar. Odeio agulhas – Rhaegar sugeriu, brincando, ao mais novo dos Tarlys.

— Preferia esperar pelos meus irmãos, Alteza. Se isso não o ofender – Aemon Tarly respondeu, com timidez. Era o mais parecido com o pai.

— Eu espero com você – Diana Lannister se ofereceu, sorrindo para o garoto – Jaime dará conta de segurar os braços do Príncipe, tenho certeza.

Rhaegar trocou um olhar de gratidão com ela. E partiram para dentro da Fortaleza, antes que a mãe o arrastasse pelos cabelos.

—*-

Como Rhaegar está? – Jon perguntou à Daenerys, assim que ela entrou na sala do Pequeno Conselho.

Além do Rei, Verme Cinzento, Tyrion, Samwell Tarly e Arya, que limpava os braços e o rosto do que parecia ser sangue, já estavam aguardando.

— Está bem. Graças aos Deuses não havia veneno na flecha. Consegui segurá-lo em observação nessas últimas horas, mas ele estava impaciente para sair. Está no quarto dele agora. Cercado pelos amigos. Blackfire está lá – Dany falou, desabando em uma cadeira.

— E Lyanna? – ela perguntou, olhando para Jon. A cena entre eles dois voltando à sua mente. Nunca vira a filha daquele jeito. Nunca. Jon com certeza sentia o mesmo choque.

— Trancada no quarto. Não quis falar comigo quando fui lá – Jon admitiu, com um suspiro pesado.

— E a festa? Os convidados...- Dany quis saber, olhando para Tyrion. Nenhum deles quatro havia voltado para os jardins.

— A pior festa de aniversário que já vi. A torta de pombos nem foi partida. Precisaremos nos redimir na do próximo ano – disse Tyrion, dando de ombros, com seu humor afiado – Mas ninguém vai esquecê-la tão cedo. Tenho certeza. Afinal, antes de tudo dar errado, Suas Altezas providenciaram um espetáculo impressionante.

— Os convidados...imagino que tenham ficado sabendo... – Dany falou, esfregando os olhos, se sentindo cansada.

— Não se fala em outra coisa. Na capital toda. Todos sabem que flechas foram disparadas contra o Príncipe e a Princesa no começo dessa tarde – Arya respondeu, parecendo também muito cansada, estendendo um mapa da capital sobre a mesa, um mapa com alguns lugares marcados.

— A torre de onde saíram os disparos – ela apontou para deles – Já estava numa lista de lugares suspeitos. Venho monitorando lugares onde dorneses se reúnam, sejam vistos com frequência, ou pessoas com quem tenham entrado em contato, enfim. A torre era um desses lugares. Quando entramos, vimos que tinham um estoque enorme de flechas lá. Todas de madeira. Sem veneno – Arya informou, deixando a informação no ar.

— Pouca letalidade contra dragões. Nem atingindo um olho ou as asas, os derrubariam – Samwell acrescentou.

— Eles não queriam matar ninguém. Queriam provocar apenas. Os três homens que encontramos lá, me confirmaram isso, separadamente— Arya informou de novo.

— Queriam então que os dragões reagissem? Que queimasse a cidade? – Tyrion perguntou, retoricamente. Ainda assim, Arya assentiu em concordância – Muito esperto. Queriam que as pessoas se voltassem contra o Trono de Ferro. Que perdessem a confiança nos dragões.

— Sorte à nossa que meus filhos não são tolos – Dany acrescentou, aliviada. Algo endurecendo em seu olhar em seguida – Quero um nome. Quero um responsável. E quero as cinzas dele espalhadas pelas areias do Dorne — Dany disse, olhando para Arya.

— Já tenho seu nome. Dois na verdade. E a sede da rebelião. Não estava fora de brincadeira, Majestade— Arya soltou o pano imundo de sangue sobre a mesa, sangue dos homens que ela havia interrogado, com certeza.

— A informação que tenho é que os ataques forem ordenados por duas pessoas diferentes. O primeiro, das víboras, foi obra de Loreza Sand. A filha mais nova de Oberyn Martell e Elaria Sand. Ela deve guardar algum ressentimento pela morte da Mãe e das irmãs à seu serviço, durante a Reconquista – Arya começou a dizer.

— Não sabia que Elaria tinha outra filha além daquelas três – Tyrion mencionou, surpreso.

— Era pequena demais durante a guerra. Ficou escondida em Toca do Inferno. Elaria era filha bastarda do senhor de lá, Hammen Uller – Arya explicou – Toca do Inferno é o centro da rebelião nas terras dornesas. Loreza governa o lugar, em nome da filha que teve com um primo Uller, o herdeiro legítimo do lugar, que morreu dormindo não muito tempo depois de se casarem – Arya deu um risinho – Nymeria Uller, é o nome da garota, uma jovem de dezessete anos. Ela é quem eles querem que seja reconhecida como uma Martell e que governe o Dorne. O nome, claro, não foi escolhido à toa – Arya ponderou.

— Quem então planejou o ataque de hoje? – Jon quis saber.

Sarella Sand – Arya revelou – Tyrion deve conhecer essa.

— Sim. Dessa já ouvi falar. Outra filha bastarda de Oberyn Martell. Dizem que sua mãe era uma capitã comerciante das Ilhas do Verão. Estava em Essos no tempo da guerra – Tyrion repassou a informação que tinha – É tudo o que sei.

— Existe divisão entre eles então? O que essa Sarella quer? É mais velha? Quer Dorne para si? – Daenerys questionou.

— Não. Ela apoia Nymeria Uller também. Mas acho que sua estratégia para conseguir isso, é mais sofisticada que a meia-irmã. Ela tomou Jardim de Águas. Sem derramar uma gota de sangue. Ela é quem nós devemos temer – Arya avisou.

— Dei Lançassolar e os Jardim de Águas aos Dothraki – Daenerys falou, se referindo às duas antigas sedes da casa Martell, erguendo-se da cadeira, sem acreditar no que ouvia.

— Ela entende que é dela. Como filha de Oberyn...– Arya explicou, parecia admirar a mulher.

— Mas devemos nos preocupar mais com Toca do Inferno e com os Uller no momento, mesmo sem tirar os olhos da outra – Arya opinou – A posição deles é estratégica. Estão bem no centro do território dornês e bem...eles têm fama de serem...

— ...impulsivos e imprevisíveis...- Samwell completou – “Metade dos Uller são meio-loucos e a outra metade é pior”. É um ditado conhecido por lá.

— Eles não me botam medo. Sinto pelo fato que ela seja filha de Elaria, mas ela vai pagar caro por tentar matar meus filhos. Vejam o que é necessário para investirmos contra esse lugar – Dany ordenou – Não quero que fique pedra sobre pedra para contar a história.

— Vamos com calma, Dany – Jon pediu, olhando com cautela para a esposa – Não podemos esquecer que Toca do Inferno foi o lugar onde conseguiram derrubar Rhaenys Targaryen na época da Conquista. Precisamos avaliar melhor. À sangue frio.

— Isso não pode ficar sem resposta – Daenerys rebateu – Vamos esperar até quando? Até conseguirem? Até conseguirem matar Rhaegar ou Lyanna? Ou ambos?

Não vai ficar sem resposta — Arya garantiu, com uma firmeza que fez Dany titubear naquilo que ainda ia alegar.

— Posso matar Sarella. Ela é a mais perigosa de todas. Posso trazer a cabeça dela para que você mande enfiar em um dos espigões da Fortaleza Vermelha. Seria um duro golpe para a causa em prol do remanescente Martell. E daria a vocês a vantagem de negociar. De oferecer algo a Nymeria Uller, algo bom o suficiente para acabar com isso – Arya deixou no ar.

— Você se refere à ideia do casamento – concluiu Daenerys.

Sim. Case a garota com seu Khal Dothraki. Posso dar um jeito na esposa dele também, se for necessário — Arya sugeriu, encarando Daenerys.

— Você não vai dar um jeito em ninguém, Arya – Jon interveio, mas Arya o ignorou, ainda mantendo o olhar fixo no da Rainha. Um acordo se tecendo entre as duas em meio àquele silêncio.

— Me traga a cabeça dela então e eu prometo pensar no casamento – Daenerys desafiou Arya.

— Considere feito, Majestade – Arya aceitou, satisfeita.

— Vocês duas não decidem isso sozinhas – Jon interpelou, mas Arya o olhou intensamente, quase gritando pelas pupilas para que ele ficasse calado. Fazendo-o lembrar da conversa que tiveram antes. Sobre como convencer Daenerys sobre a ideia do casamento entre Dothraks e Martells.

— Tem uma ideia melhor, Majestade? – Tyrion se intrometeu, mas com um tom conciliador, respeitoso.

— Tem certeza que foi Sarella Sand que planejou o ataque de hoje? – Jon questionou a irmã.

— Tenho, Jon. Os três homens disseram a mesma coisa. Separados. Com a riqueza de detalhes que só quem quer muito ver a luz do sol outra vez tem para oferecer. Os três vieram de Jardim de Águas. Tudo bate com a informação que eu já vinha coletando antes, sobre as duas meia-irmãs – Arya disse, convicta.

— Faça, então – Jon disse, com muito custo. Resistindo à vontade de submeter a mulher à julgamento, como a sua consciência demandava. Se aquele era o caminho para acabar de vez com essas ameaças às vidas dos filhos, ele o trilharia – Mas fique pelo menos o resto do dia de hoje e amanhã com as suas filhas. Veja o seu marido – Jon pediu. Não ordenou. Pediu.

— Tudo bem. Preciso mesmo desse tempo para organizar algumas coisas. E...preciso também de mais ouro. De mais espiões. Todas as pessoas que trabalham na Fortaleza Vermelha precisam ser monitoradas, seguidas. Todas. Sem exceção. Se forem abordadas nas ruas, precisamos saber – Arya explicou, tentando ignorar o olhar de repreensão que Jon lhe dava quando disse que precisava desse tempo para organizar as coisas.

Arya sabia que era o contrário do que ele estava lhe pedindo. Mas não significava que ela não ia ver as filhas. Ou o marido.

— Samwell vai lhe dar tudo que precisar – Dany falou, olhando para o Mestre da Moeda. Jon concordou.

— Ainda vamos ter algum evento agradável hoje? – Tyrion quis saber, tamborilando os dedos sobre a mesa.

— Ninguém está com cabeça para isso. Amanhã o bendito torneio se inicia. Teremos mais jantares e música. Por hoje, só quero me deitar – Daenerys disse, se sentindo cansada até os ossos – Ofereceremos um jantar no grande salão, como previsto. Mas não pretendo comparecer. Lyanna muito menos, se bem a conheço. Rhaegar talvez faça as honras. Não sei. Mandarei perguntar à ele – Dany completou, com um suspiro.

— O Rei vai estar presente? – Tyrion perguntou à Jon, que olhou para Daenerys por um instante.

Não— foi tudo que o Rei respondeu.

— Então me permitam me retirar. Preciso esticar e descansar minhas belas pernas. A noite vai ser longa substituindo o Rei e a Rainha junto aos convidados.

—*-

Rhaegar havia reprimido, durante todo o restante do dia, a vontade que sentia de procurar Lyanna e conversar com ela. Entender porque ela havia reagido daquela forma.

Enquanto cuidavam do ferimento no seu braço, sua mãe havia lhe dado alguns pedaços de informação sobre o que havia acontecido no pátio externo da Fortaleza Vermelha após a chegada da irmã. O pai deles a proibindo de voltar. E que ela havia ficado muito nervosa, o tempo todo.

Sua mãe achava que Lyanna estava zangada com ela e com o pai pela proibição e um pouquinho só com ele, principalmente porque ela havia dito, na esperança de convencer a filha a ficar ali, que Rhaegar provavelmente tinha contado com aquilo, que eles não a deixariam voltar depois que ela estivesse ali.

Aquilo era verdade. A mãe dele o conhecia muito bem. Sabia como a mente dele funcionava, ele não podia negar. Ele havia contado com aquilo sim.

Mas o olhar que havia trocado com a irmã lhe dizia que havia muito mais ali. Talvez ela tivesse sentido o mesmo medo que sentira anos atrás, quando ele esteve doente.

Sim. Talvez fosse isso. Uma pequena parte dele torcia para que junto desse medo, tudo que ela fazia questão de esconder também ressurgisse, também viesse à tona.

Mas ao invés de ir logo até ela, ele se obrigou a descer para o salão principal. Sabia que ela não ia. Mas não era de bom tom que nenhum deles aparecesse. Alguém da família real ali passaria uma imagem de normalidade. De segurança. E quem melhor do que ele, já que todos sabiam ter sido atingido por uma flecha durante o voo?

Rhaegar comeu e bebeu pouco, não dançou com ninguém, mas circulou bastante pelo salão, respondendo as mesmas perguntas preocupadas, minimizando o ataque, contando alguns detalhes e omitindo outros, fazendo as pessoas sorrirem nos momentos certos e explicando que os pais e a irmã estavam cansados e que o dia seguinte seria animado, o grande dia da estreia do Torneio. E que todos estariam seguros. Que tudo iria correr dentro do programado.

Ele nunca teve dificuldades em ser simpático, mas sentia como se estivesse usando uma máscara que a cada minuto pesava mais.

Ainda assim, o esforço estava valendo à pena. Quando chegara o salão estava silencioso, cauteloso, mas agora, horas depois, todos riam e conversavam alto e dançavam, como se nada tivesse acontecido. Ele distribuía tantos sorrisos que sua bochecha estava doendo. Sua missão estava cumprida.

E antes que a noite virasse madrugada, ele tinha outra missão à cumprir. E nessa, ele não tinha certeza que iria se sair tão bem.

—*-

Lyanna não havia saído do quarto para nada. Nada mesmo. Não havia aberto a porta nem para o seu pai quando ele foi procurá-la, o dispensando com um frio “não desejo falar com você agora, Pai”.

Ela nunca havia dito aquelas palavras para ele. Nunca.

Mas a lembrança do pai a segurando pelo braço ainda doía, mesmo que no fundo ela entendesse a preocupação dele e da mãe dela.

Ainda assim ela se sentia, mais uma vez, dominada por todos os outros, refém da vontade dos outros, manipulada pelo querer dos outros. Porque era isso que Rhaegar havia feito com ela. Ele a havia manipulado. Enganado. E ela caíra na teia dele.

Quando sua mãe lhe disse que Rhaegar provavelmente havia contado com aquilo, que eles não a deixariam voltar, uma certeza se instalou dentro dela de a mãe tinha razão. De que ela havia sido burra em não se dar conta daquilo.

Inconscientemente, ela talvez tivesse se dado conta de que sim, poderia ter alguma dificuldade para voltar e, por isso, havia escolhido pousar no pátio e não nos jardins.

Mas isso, a sensação de ter os braços segurados por seu pai e depois por um estranho, era apenas a superfície do que a revoltava. Do que a havia feito ficar trancada naquele quarto pelo resto do dia. Abaixo daquele sentimento ruim tinha todas as coisas nas quais ela não queria pensar. E não pensaria. Não pensaria.

Depois de beliscar a comida que lhe foi levada e de se refrescar, ela espalhou mais velas pelo quarto e se esparramou pela cama, se agarrando à um livro sobre a história de Braavos, a cidade feita por escravos após a queda do Império Valiriano. Seus livros eram sempre sua escapatória. Nunca lhe falhavam.

Lys deitou ao seu lado, lhe fazendo companhia, olhando para cada página que ela virava e a cutucando com o focinho quando ela demorava demais, quando até a própria loba percebia que ela havia perdido o fio da meada, que os olhos e a mente haviam deixado as linhas do livro.

Ela já havia perdido a noção das horas, quando uma batida na porta a sobressaltou.

Quem poderia ser uma hora daquela? Seria o pai dela mais uma vez? Ela se perguntou, se sentando, fechando o livro.

Mas se deu conta de quem realmente era assim que viu Lys se levantando e indo até a porta, cheirando o chão e abanando o rabo com felicidade.

Lyanna engoliu em seco. Lys só ficava daquele jeito por uma pessoa. Rhaegar.

Lyanna? – ela ouviu a voz do irmão chamando além da porta – Posso falar com você? – ele pediu.

Lyanna ficou calada por alguns segundos, olhando para a porta. Olhando para Lys gemendo e pulando de um canto ao outro da porta enquanto decidia se abriria ou não.

Com um suspiro, ela levantou da cama, vestiu um hobby de seda por cima da camisola e o amarrou bem na cintura. Assim que abriu a porta e que o rosto do irmão surgiu diante dela, ela precisou se lembrar de que estava com raiva dele.

Pelos trajes que vestia, ele vinha do jantar. Ele estava elegante. Alinhado. As cores sempre parecendo destacar suas íris violeta.

— Acordei você? – Rhaegar perguntou, os olhos profundos analisando ela de cima à baixo enquanto entrava sem cerimônias no quarto e fechava a porta atrás de si, para a alegria da sua loba, que se deitou no chão aos pés do irmão.

Loba boba. Se derrete toda por ele a ponto de esquecer que é uma loba gigante. Parece uma cachorrinha quando o vê. Pensou Lyanna, reprovando o comportamento de Lys, que recebia satisfeita os carinhos de Rhaegar.

— Não. Não estava dormindo. Estava lendo – ela disse, voltando para perto da cama, apontando para o livro – O que quer? Já está tarde... – disse Lyanna, sem se preocupar com gentilezas, sentando-se na cama e cruzando os braços em torno de si própria.

— Queria ver como você estava. E já que você não compareceu ao jantar... — explicou Rhaegar, agachado, Lys lambendo seu rosto – Mesmo que prefira a companhia de livros e de bichos, como gostam de dizer por aí, você deveria ter descido.

— Eu realmente prefiro a companhia dos meus livros e dos meus animais – Lyanna rebateu, com irritação – Você olha nos olhos uma fera e sabe exatamente o que se passa em seu coração. Eles sempre são verdadeiros – disse Lyanna, olhando com carinho para Lys, mas não para ele, puxando instintivamente um dos travesseiros da cama e colocando sobre seu colo.

— Algumas pessoas também são fáceis de ler, irmã – Rhaegar disse, encarando Lyanna, observando as mãos dela agarradas ao travesseiro, tensas.

Aqui nessa corte? Muito poucas. Mas você não veio até aqui para falar sobre isso, tenho certeza – ela o cortou, resistindo à vontade de dizer à ele que os acontecimentos daquela tarde à haviam magoado e que ela não o queria ali.

Mas já que ele estava, ele que começasse, que tocasse no assunto. Queria ver o que o irmão tinha a dizer antes de despejar o que estava entalado em sua garganta.

— Não. Não foi para falar disso que eu vim aqui – Rhaegar respondeu, com um pequeno sorriso para ela – Além de ver como você estava, ainda é nosso aniversário... e eu tenho outro presente para você – Rhaegar disse, estendendo um embrulho para ela, voltando a se abaixar para acariciar Lys.

— Achei que já tivesse esvaziado os cofres do Reino com aquela coroa exagerada – disse Lyanna, revirando os olhos, mas levantando-se e pegando o pacote da mão dele, percebendo que era surpreendentemente pesado.

— Não se preocupe, esse foi bem mais barato. E quanto à sua coroa, não saiu nenhuma moeda dos cofres do Reino para comprá-la – Rhaegar esclareceu, olhando para ela com expectativa.

— E de onde saiu então? – Lyanna perguntou, sem entender como ele tinha conseguido, voltando a sentar na cama.

— Gastei do meu próprio ouro – Rhaegar disse, displicentemente, caminhando na direção dela.

Lyanna tentou permanecer no mesmo lugar, mas não podia negar que o seu coração batia ligeiramente mais rápido quando Rhaegar sentou na ponta oposta, de frente para ela.

— Nem que você nunca tivesse gastado um só dragão de ouro dos nossos fundos pessoais, ainda assim não teria o suficiente para comprar aquela coroa Rhaegar – Lyanna questionou, estreitando os olhos para ele, que sorria misteriosamente.

Desde que nasceram uma quantia de ouro era guardada em nome dos dois, todos os meses. Podiam usar o dinheiro se quisessem, mediante a autorização dos pais. Lyanna nunca havia tocado no fundo dela, mas sabia que não era nenhuma fortuna.

— Retirei meus fundos pessoais do tesouro real há algum tempo...e investi o ouro em outras coisas. Sua coroa foi absurdamente cara, é verdade, mas só arranhou o que eu tenho guardado no banco de Braavos – ele revelou à ela, vendo a cara de surpresa da irmã.

— Nosso pai nunca deixaria que você retirasse seus fundos. Como conseguiu isso? – Lyanna perguntou, sem acreditar no que ouvia.

— Ele não sabe. Retirei com autorização apenas da nossa mãe. Aproveitei uma das viagens dele e a convenci – Rhaegar confessou, sem nem ao menos piscar, como se não estivesse admitindo que fez algo sem a autorização do pai. Do próprio Rei — E depois que fiz o ouro render, devolvi a quantia que havia sacado. Ele nunca percebeu – ele dizia, tamborilando os dedos no colchão, como se não quisesse perder tempo falando sobre aquele assunto – Não vai abrir o presente? – ele perguntou, olhando para o embrulho largado entre eles dois.

— Você não está envolvido com nada ilegal ou perigoso, está?— Lyanna perguntou, desconfiada. Segurando a caixa que ele havia lhe dado, mas ainda sem abri-la.

Rhaegar lhe deu um sorriso felino. Ela não gostava daquele sorriso. Era lindo como todo o arsenal que ele tinha. Mas não podia significar boa coisa.

Não— ele respondeu. Lyanna não acreditou muito. Procurou nos olhos dele algum indício de que estivesse escondendo algo. Mas logo se arrependeu de ter feito isso.

Rhaegar a encarou de volta. Sem piscar. Sem sorrisinhos. Com uma intensidade que a deixava nervosa.

Em segundos a atmosfera entre eles acabou ficando estranha novamente, como havia ficado naquela tarde, quando ele desmontou do seu dragão, como havia ficado quando eles terminaram de dançar, na noite anterior.

Para a sua sorte, ele mesmo levantou da cama, de uma vez, com uma expressão estranha, que ela não conseguia ler.

Porque fez isso?— ela se ouviu perguntando, sem pensar no que dizia. Ele olhou confuso para ela – Porque quis retirar seu ouro? Porque investi-lo? – Lyanna esclareceu, limpando a garganta, fazendo aquelas últimas duas perguntas com mais força, antes que ele pensasse que a primeira pergunta havia sido por ele ter se levantado da cama com aquela expressão estranha. Apesar de que talvez realmente tivesse sido.

— Porque eu queria ter meus próprios recursos – ele disse, dando de ombros, agarrando o rosto de Lys, tocando sua testa na testa da loba, que fechava os olhos em êxtase.

Lyanna franziu o cenho. Para a resposta e para a atenção exagerada que ele dava à sua loba, que já era toda derretida por ele.

— Isso eu já entendi. Estou perguntando para que você precisa ter seus próprios recursos. Não se finja de idiota. A flecha pegou em seu braço, não na sua cabeça – Lyanna rebateu, sem paciência. Espantando a imagem que suas palavras criaram. Ela jamais desejaria que uma flecha sequer chegar perto da cabeça dele.

— Para quando eu precisar – ele disse, simplesmente, como se estivesse explicando o óbvio – Para situações como essa. Se eu não tivesse meu próprio ouro, não poderia ter comprado o que eu precisava dar para você.

Lyanna ficou em silêncio. A palavra que ele escolheu usar pairando entre eles dois.

Ele precisava ter dado aquela coroa para ela? Era isso que ele estava dizendo? Porque? O que ele queria com aquilo? Ela nunca teria coragem de fazer aquelas perguntas em voz alta. Sabia disso. Tinha medo das respostas.

— Sei que você não fazia questão nenhuma da Coração de Fogo, apesar de eu querer muito que você tivesse algo como ela. E foi exatamente por isso lhe comprei outro presente – ele quebrou o silêncio, olhando para a caixa – Se você o abrir algum dia, acho que vai gostar – ele provocou, arqueando uma sobrancelha para ela.

Lyanna bufou e voltou sua atenção para a caixa, enquanto o irmão apertava o focinho da sua loba e conversava com ela, como se fosse uma pessoa. Ela começou a desamarrar o embrulho que envolvia a caixa, tentando não rir da conversa que se desenrolava entre os dois.

Quando você vai dar uma chance para o Black, Lys? O irmão perguntava. E a loba bufava, fazendo-o sorrir. Você é uma loba muito difícil. Rhaegar dizia, recebendo em resposta uma bufada ainda maior da loba, um sorriso ainda mais largo surgindo em seu rosto. Lys deu uma grande lambida na boca dele. Definitivamente sua loba era mais uma apaixonada pelo sorriso indolente do seu irmão.

Eu sei, ele é meio esquisito, mas é um bom lobo. Vocês dividiram a mesma barriga. Não precisa ter medo dele. Acho que deveriam ficar juntos e povoar o mundo de lobos gigantes. Tia Sansa já vai ter seu quinto filho. Poderíamos mandar os filhotes de vocês para os nossos primos. Aliás, meus filhos têm que ter lobos também, você não acha? E você gosta de mim, que eu sei. Me dê esse presente. Seja uma loba boazinha. Lyanna continuava ouvindo, vendo a loba morder de leve a mão do irmão, aparentemente discordando da ideia dele, mas olhando para ela com um olhar de dúvida, como se buscasse a opinião da sua dona.

Eles são irmãos. Não é recomendável. Podem haver complicações...- Lyanna falou, engolindo em seco, olhando para a loba e para o irmão – Meistre Seyfir em seu Tratado sobre a reprodução dos animais afirma que...

— Besteira. Eles são únicos – Rhaegar a interrompeu. E algo na sua voz e no jeito que olhava para ela a silenciou – Acho que estão destinados a ficarem juntos, não importa o que digam. Essas coisas, essas regras, não se aplicam à eles. Eles não são...comuns— Ele completou, ainda a encarando, sério demais por alguns segundos, até voltar a acariciar Lys.

— O que você acha Lys? Faça isso por mim. Dê uma chance para o Black. Eu desconfio que ele seja tímido...- Rhaegar pediu.

Pare de tentar perverter a minha loba— Lyanna brigou com ele, realmente se controlando para não sorrir. Blackfire. Tímido. Era ridículo.

Rhaegar ergueu as mãos em sinal de derrota, mas piscou para Lys com a cara mais cínica que ela já havia visto nele. A loba parecia sorrir, como se fosse gente.

Ela voltou a olhar para o presente e finalmente soltou o embrulho que o envolvia, revelando uma caixa de madeira com um desenho de uma chama entalhada em sua parte superior.

Lyanna olhou para Rhaegar curiosa, notando que agora ele voltava a se aproximar dela, sentando-se na cama de novo, mais perto dessa vez. E ela tentou não se importar com isso.

As pernas dos dois ainda estavam à uma distância respeitosa. Mas ela não fazia ideia de porque exatamente estava olhando do seu joelho para o dele, de porque estava medindo aquela distância.

Ela abriu a caixa e viu que seu interior estava repleto de velas diferentes, pequenas, e feitas de um material que ela desconhecia, uma espécie de cera aparentemente mais escura e dura do que as comuns.

Velas? – perguntou Lyanna, surpresa, pegando uma delas e olhando de perto. Eram vermelhas. Escuras. Tinham um cheiro agradável que ela nunca havia sentido.

— Velas especiais. Velas perenes. Uma dessas dura quase um dia inteiro e não apenas uma hora, como as que você tem. São feitas especialmente para corujas velhas que pensam que a noite foi feita para ler e não para dormir. Gente como você. Vieram do outro lado Mar Estreito, de Myr – explicou ele, provocando ela de leve. Um resquício de sorriso surgiu no rosto dela.

— Nunca tinha ouvido falar em velas assim – reconheceu Lyanna, admirada pelo presente, agora sorrindo com gratidão para o irmão.

Rhaegar não pôde deixar de pensar que ele faria qualquer coisa para que a irmã sorrisse mais. O pouco violeta que havia em seus olhos cinzentos parecia brilhar mais quando ela sorria. E era de tirar o fôlego.

Despertava nele o desejo de ter todos aqueles sorrisos para si. E de poder beijá-los assim que se formassem em sua boca.

— Uma coisa que Lyanna Targaryen, a maior sabe tudo dos Sete Reinos, não conhecia. Parece que eu me superei dessa vez – disse Rhaegar, precisando desviar o olhar do rosto dela, pegando uma das velas também e balançando em seus dedos.

— Parece que sim. Obrigada. Eu... eu adorei— ela disse, agradecida, um pouco sem jeito, surpresa pelo gesto dele em pensar naquilo. E ignorando as provocações só por isso.

— Sabia que ia gostar. Conheço você, irmãzinha. Sei o que pode fazê-la feliz – Lyanna o ouviu responder, de novo com o rosto mais sério, lhe dando a sensação de que queria dizer mais do que aparentava. Ela rapidamente suprimiu a sensação. Como sempre fazia. Como precisava fazer.

Como ele não parecia inclinado a tocar no assunto do ataque que sofreram, ela resolveu que ela mesmo o faria. Já havia aguardado demais.

— O que esperava quando me mandou voltar? – Lyanna perguntou, a raiva havia sumido. Sua voz saindo baixa, triste.

Ele ficou um tempo em silêncio. Parecia precisar respirar fundo antes de dizer qualquer coisa.

— Esperava que buscasse ajuda. E que não conseguisse voltar. Que não deixassem. Não queria você lá. Não queria você correndo perigo – Rhaegar respondeu, com sinceridade, esperando que ela entendesse. Que não o odiasse por aquilo.

Sou capaz de me defender. De ajudá-lo— Lyanna disse, o maxilar tremendo. A raiva voltando a fervilhar dentro dela. O gesto dele com aquelas velas sumindo da sua cabeça.

— Eu sei disso. Você é capaz de qualquer coisa, Lya. Nunca duvidei disso – ele falou, sua mão indo até a dela. Lyanna puxou a mão para longe antes que ele a tocasse.

— Eu não conseguiria executar com tranquilidade o que eu havia planejado, se estivesse morrendo de medo que uma daquelas flechas acertasse você – Rhaegar explicou, os olhos brilhando, a mão que ela rejeitou subindo até seu próprio rosto, mexendo nos cabelos prateados, com nervosismo.

— Eu não podia queimar aquela torre. Mas também não queria que saíssem impunes. Realmente precisava de alguma força por terra enquanto eu os detinha ali, tentando atingir o seu alvo, não deixando que se sentissem seguros para sair da torre. Precisei voar baixo ao redor daquele lugar, desviando das flechas – ele começou a explicar o que se passará – Pode me odiar por isso, mas eu não queria você lá. Essa é a verdade – Rhaegar confessou, esperando pela reação dela.

— Eu tentei voltar – Lyanna falou, agarrando as próprias mãos.

— Eu sei – Rhaegar disse, baixinho.

— Briguei com nosso pai. Tentei desobedecê-lo – ela continou.

Eu sei – Rhaegar repetiu.

— Fui segurada. Arrastada – ela completou – E pelo quê? Por estar preocupada com alguém que não me queria lá – os olhos de Rhaegar se arregalaram. Aquilo ele parecia que não sabia.

— Não posso dizer que sinto muito – Rhaegar reconheceu – Mas mesmo assim, espero que me perdoe. E saiba que mesmo não indo, mandou Khaleeth voltar e ela ajudou muito. Entendeu o que fazíamos, voou ao redor daquela torre quando Stormfire já estava cansado – Rhaegar suspirou, olhando para ela com uma certa aflição.

— Se você tivesse morrido...minha vida teria acabado – Lyanna deixou escapar, os olhos embaçando, deixando sua cabeça cair entre suas próprias mãos. Um engasgo escapando de sua garganta.

Porque?— Rhaegar perguntou, imediatamente, com um tom de voz estranho. Quase trêmulo.

Lyanna levantou os olhos. Fungando. O maxilar tremendo. Essa é a pergunta para a qual eu não tenho resposta. Foi o que ela quase disse.

— Porque eu não suportaria assumir o seu lugar. Não nasci para isso. Não sou boa nisso. Com pessoas. Com relacionamentos. Com essa...responsabilidade – ela disse.

Aquilo poderia até ser verdade. Mas não era toda a verdade. Ela sabia. E por um momento, pela tristeza que vislumbrou no rosto de Rhaegar, ela suspeitou que o irmão também sabia.

— Bem...voltei inteiro e sua vida não está acabada. Espero que me perdoe – Rhaegar disse, fazendo uma longa pausa – Quis que você voltasse porque não suportaria ver você se machucando. Porque eu amo você – Rhaegar falou, precisando dizer aquilo em voz alta. Se recusando a dizer outras palavras, a dizer algo mais, algo que indicasse que aquele sentimento era fraterno.

Porque não era. E ele não diria nada que fizesse parecer que fosse. Ela que entendesse o que bem quisesse. Que entendesse a verdade que ele tentava a todo o momento fazer com que ela visse.

— Eu entendo – Lyanna disse, após redescobrir como falar, após se convencer de que ele falava aquilo como um irmão. Apenas como um irmão – Fiquei magoada. Mas acho...acho que já está passando – ela tentou usar um tom mais leve. Mas não o achou dentre de si.

— Não imaginei que você me daria dois presentes. Não pensei em mais nada além do que já lhe dei hoje de manhã...- disse Lyanna, mudando de assunto, se desculpando com o irmão – E por causa do meu presente, ainda aconteceu tudo isso – ela lembrou, agarrando o travesseiro contra si, odiando ver que os olhos dele acompanhavam cada movimento dela, talvez cientes de cada reflexo das fraquezas dela.

Rhaegar se colocou de pé. Ajeitou as roupas. Apenas para ocupar as mãos, para parar de pensar em tocar nela.

Ele virou às costas para Lyanna e para aquela cama que testava seu autocontrole, seus passos lhe custando toda a sua força de vontade. Estava doendo em seus pulmões continuar a respirar ali, perto dela, naquele quarto fechado. Só os dois.

Ele ouviu Lyanna se colocando de pé. Saindo da cama. O seguindo até perto da porta. E por um instante pensou em jogar sua paciência para o alto. Em se virar e tocar no seu rosto. Em se aproximar dela até que não houvesse mais nada entre os dois. Porque o resto...seus gestos...suas palavras...parecia que nada adiantava. Ela fazia de tudo para não encarar o que sentia de verdade.

Rhaegar parou de se mover. Sentiu ela parando também. Ouviu a respiração tensa dela. Mas quando se virou, aquela sombra de medo que ele via nos olhos de Lyanna o impediu de fazer qualquer coisa.

— Quanto ao segundo presente...quem sabe você consegue pensar em mais alguma coisa que eu gostaria de ganhar até o final das comemorações — disse Rhaegar, olhando para ela uma última vez de sair – Boa noite, Lyanna – ele disse, com um suspiro pesado, beijando a testa dela com rapidez e dando um passo para trás, para longe dela, antes que perdesse o controle.

Lyanna tremia quando ele se aproximou. Quando sentiu os lábios dele tocando em sua testa. As palavras dele, a sugestão de que ele ainda queria algo dela. Ela não sabia sequer como dizer boa noite. Não com ele ainda parado, olhando para ela. Como se estivesse esperando por algo.

Boa noite— Lyanna respondeu, finalmente. Ganhando um meio sorriso triste dele em resposta.

Ela observou calada ele caminhar em direção à sua porta, com Lys em seu encalço, esfregando-se em sua perna.

— Boa noite, Lys. Pense no que eu lhe disse, sim? — Lyanna viu ele dizer, piscando um olho para a loba, enquanto acariciava sua cabeça, dando um beijo acima dos olhos de Lys, como tinha acabado de fazer com ela, antes de ir embora.

Quando a porta se fechou, Lyanna sentiu as mãos suando frio. Aquilo...aquele sentimento escuso, aquele tormento que ela nunca entendera direito, estava desperto, quase fora de controle.

Tantos anos. Ela estava há tantos anos sem senti-lo. Achando que havia se curado. Que ele nunca havia existido de verdade. Que tudo não havia passado de uma má interpretação resultante do medo bobo de uma criança de perder seu único irmão. Mas ali estava ele de volta. Para lhe atormentar.

Ela sabia que precisava tomar medidas drásticas. E as tomaria.