Jon entreabiu os olhos quando deixou de sentir o calor do corpo de Daenerys junto ao seu. A esposa se erguia da cama, empurrando a manta que os cobria.

O quarto ainda estava escuro. O sol ainda não havia nascido, mas mesmo na escuridão, ainda assim ele conseguia ver a silhueta do corpo nu da esposa se enrolando à um robe fino de seda, seus passos firmes se dirigindo à porta.

Ele não havia escutado nenhuma batida, mas alguém entregava um pedaço de papel à ela e aquilo foi o suficiente para Jon se sentar, em alerta.

— Não é nada demais. Não se levante – Dany falou, com a voz sonolenta, se aproximando de uma vela sobre uma mesa, lendo o que havia no papel.

Jon permaneceu atento, observando o leve franzir de testa da esposa ao ler a informação que havia ali.

— O que há nisso? – Jon perguntou, mas ela já havia largado o pergaminho e já voltava para cama, para o calor do corpo dele, se livrando do robe bem diante dos seus olhos e puxando a manta sobre os dois, enroscando suas pernas nas dele.

— Nossos filhos acabaram de se recolher. Pedi que me avisassem quando saíssem e que fizessem um breve relatório de como tinha sido a noite de cada um – Dany explicou, agasalhando a cabeça no peito de Jon.

— Mandou espionar nossos filhos? – Jon perguntou, com uma leve repreensão na voz, contendo um bocejo.

— Espionar é uma palavra muito forte. Só mandei que me relatassem o que aconteceu no salão e me avisassem quando fossem para os quartos. Fui clara em dizer que caso saíssem...para um local mais privado...com alguém...isso não deveria ser relatado. Não tenho a intenção de invadir a privacidade dos dois – Dany esclareceu, vendo Jon lhe olhar de canto de olho, com o rosto tenso, com certeza por imaginar se a filha talvez tivesse feito aquilo que ela havia acabado de descrever.

— E o que tinha no papel então? – Jon perguntou, fechando os olhos por mais um instante. Parecia com medo da resposta.

— Bem...seus dois filhos voltaram carregados para os quartos — Dany falou, vendo Jon abrir os olhos rápidos.

O que? Lyanna..?- Jon começou a perguntar.

— ...dançou com Jason Arryn, Sam Tarly, Arthur Tully e Jon Tarly e pouco tempo depois que saímos parece que se cansou do baile. Do Grande Salão foi para a Biblioteca e adormeceu lá, por cima dos livros. Os guardas dela mandaram chamar Verme Cinzento e Lady Jane Rosby para levá-la para o quarto – explicou Dany, com uma leve frustração, sentindo o corpo de Jon relaxar ao longo do contato que havia entre eles.

— Nenhuma surpresa. E Rhaegar? – Jon perguntou, abraçando a esposa.

— Dançou com Q'ira Daxos Emeros, com Lady Arianna Arryn, Lady Diana Lannister e Lady Melissa Redwyne – Dany fez uma pausa. Pensando no que dizer. Em como dizer. Sentindo o olhar inquisidor de Jon – Mas parece que exagerou um pouco na bebida. Os amigos o levaram para o quarto – Dany contou, por fim.

Jon, para a surpresa dela, não parecia zangado.

— Hum. De novo. Nenhuma surpresa – ele disse – Não brigue com Lyanna, e eu não reclamarei com Rhaegar – Jon propôs, fechando os olhos como se fosse dormir um pouco mais.

— Estou com vontade de brigar com os dois— Dany resmungou – Uma foge e se entoca na biblioteca... o outro se embebeda e não dá atenção a mais ninguém além daquela princesa estrangeira abusada. Preciso ter uma conversa com aquele garoto. Não quero uma nora como ela e vou deixar isso bem claro para ele — Dany continuou, bufando.

Uma nora como ela...? — Jon perguntou, mordiscando a orelha de Daenerys, sabendo muito bem qual a razão da rejeição dela pela princesa qarthena.

..que ficaria de olho no sogro— ela explicou, dando uma leve cotovelada nas costelas de Jon. Ele se encolheu e sorriu – Como eu iria consolar meus netos depois de acabar queimando a mãe deles viva? – ela se perguntou, enterrando a cabeça no travesseiro.

— Você não faria isso, faria? Por ciúmes de mim...sua própria nora? – ele perguntou, puxando-a para os seus braços de novo. Ela parecia considerar a pergunta.

Sim — Dany falou por fim. Fria. Séria. Encarando os olhos dele em desafio.

Nenhuma surpresa – Jon falou, com um pequeno sorriso – Se você pode matar uma princesa estrangeira e nos colocar em guerra com a cidade dela, não vai se importar muito se eu acabar matando um certo capitão de Meeren também, não é? As consequências seriam indiscutivelmente menores – Jon perguntou, também sério.

— Eu não gostaria de vê-lo morto. Mas imagino que se isso chegar a acontecer, vai ser porque ele vai ter merecido. Sei o quanto ele pode ser impertinente – Dany falou, com desgosto. Os braços de Jon se soltaram dela – O que foi? – Dany perguntou quando sentiu ele se afastando.

— Você gosta dele – Jon afirmou. Mágoa, ciúme e tristeza irradiavam dele, enquanto ele se levantava da cama.

Claro que não gosto— Dany rebateu ofendida, se sentando, não se importando em puxar as cobertas para cobrir a nudez – Eu amo você. Você não pode duvidar disso. Não depois de todo esse tempo. Eu acabei de dizer que sou capaz de queimar alguém por ciúmes – Dany falou, incrédula, irritada.

— Eu sei. Mas você tem carinho por ele. Eu vejo em seus olhos – Jon falou, de costas para ela, se vestindo de qualquer jeito.

— Menos do que você imagina, tenha certeza – Dany afirmou – Ele foi, antes de qualquer coisa, um aliado inesperado, que poderia ter me matado, mas que preferiu me servir quando eu tinha todas as chances contra mim – Dany continuou explicando.

— Claro. Ele viu uma garota Targaryen, com três dragões que um dia iriam crescer e se tornar mortais e viu uma bela chance de mudar seu destino e de conseguir um lugar na cama de uma mulher bela e poderosa que vivia cercada de velhos e eunucos. Muito altruísta da parte dele – Jon rebateu, não voltando para a cama.

— Eu nunca disse que ele era um homem de sentimentos nobres, disse? Ele não é você. Eu sei disso. Mas não posso apagar o que houve. E ele continuou me servindo fielmente por todos esses anos, continuou defendendo meus interesses na Baía dos Dragões, o que me permite ficar aqui, do outro lado do mar estreito, com minha família – Dany argumentou, sem levantar a voz com Jon, apesar de sentir vontade de fazer exatamente isso – Ele está aqui porque essa foi a forma que pensei para reconhecer anos de dedicação. Só isso, Jon.

Você tem carinho por ele – Jon repetiu. Enfatizando cada palavra – Não só gratidão. Carinho.

— Você não teria carinho por Ygritte se ela estivesse viva? Por tudo que passaram juntos? – Dany falou, fazendo Jon parar seus movimentos pelo quarto. Ele não precisou olhar para ela, para fazê-la se arrepender de ter mencionado a selvagem. Mas ela não se intimidou. Era uma comparação justa.

— Se Ygritte não tivesse morrido por minha culpa, ainda assim, eu nunca teria trazido ela até a sua casa, para o meio da nossa família – Jon falou, sem olhar para Dany.

— Jon...por favor – Dany pediu – Eu falei com você antes. Eu disse que não mandaria o convite se você não concordasse – Dany relembrou, com jeito, com a voz conciliadora. Ela não tinha sentido, até aquele momento, que aquilo poderia estar o afetando tanto, como parecia estar.

— E eu concordei. Sei muito bem. Achei que conseguiria lidar com isso – ele disse, com um suspiro pesado – Parece que apesar dos cabelos brancos, ainda consigo ser um tolo nortenho – Jon disse, saindo do quarto.

Dany não o seguiu.

~*~

Seu pé latejava. O pé que ainda se recuperava da mordida de Black. Rhaegar tentou movê-lo. Não conseguiu. O pé parecia chumbo fundido de tão pesado.

Ele abriu os olhos. Estava deitado. Em sua cama, no seu quarto. O sol passava forte pelas frestas das cortinas pesadas, o que significava que já deveria ser tarde da manhã. Merda.

Ele não se lembrava de ter chegado ao quarto. Na verdade, a última coisa que lembrava era de entornar seguidos goles da bebida forte que Jon Tarly não deixava faltar na sua taça.

Disso. E de Lyanna. Do rosto dela rodopiando sobre o seu. Sorrindo e brigando com ele. Da sensação da cabeça dela encostada em seu ombro. Do beijo no rosto que havia ganhado. Dessa parte da noite, ele lembrava de cada detalhe.

Rhaegar virou a cabeça para o outro lado e tentou olhar para o pé, descobrindo rapidamente porque essa parte do seu corpo doía tanto. Ele estava deitado de barriga para baixo na cama com as pernas pendendo para fora, como se tivesse sido jogado ali. O que provavelmente deveria ter acontecido.

Ele já imaginava até por quem, já que ao lado da cama Jon Tarly estava largado em uma poltrona, com o pé bem em cima do dele. Rhaegar puxou o pé, chutando a canela de Jon para longe, com força, de propósito, mal fazendo o desgraçado do amigo resmungar.

Rhaegar ouviu a porta do quarto abrindo. O barulho parecia alto demais. Ele levou as mãos aos ouvidos. Que bebida dos infernos era aquela?

— Ah...você já acordou. Que bom – disse Sam, se aproximando da cama, de Rhaegar e do próprio irmão – Não demora muito para ter que começar a se preparar para o almoço nos jardins – ele disse – Aliás, Feliz dia do seu nome, Alteza.

Rhaegar mal resmungou. Só afundou na cama de novo, agora com o pé formigando sobre ela, e depois de alguns segundos, murmurou um obrigado. Sam parecia querer rir dele.

— Volto já. Vou buscar Dickon para me ajudar a levar esse aí pro quarto dele. Vou aproveitar e pedir que preparem um tônico para você – Sam disse, puxando as cortinas pesadas antes de sair, cegando Rhaegar com a claridade, e ainda batendo a porta com força demais pela forma como o barulho ecoava na sua cabeça.

Jon— Rhaegar chamou. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Nada – JON! – ele gritou, se esticando e chutando a canela dele mais uma vez. Um par de olhos avermelhados o encarou.

— O que? Não posso mais dormir em paz? – Jon resmungou. Esfregando a cara.

O que diabos aconteceu ontem? Que bebida dos infernos era aquela? Minha cabeça está para explodir – Rhaegar sentou na cama, com muito custo, o mundo rodando ainda.

— Não lembra de nada? – Jon perguntou, sorrindo – Era um destilado lyseno. Tem feito muito sucesso por lá – Jon falou, se espreguiçando na poltrona.

— Quase nada. Desde que comecei a tomar aquela porcaria que você não parava de derrubar na minha taça – Rhaegar confirmou, jogando com força uma almofada bem na cara de Jon.

Bem, ele achava que tinha mirado na cara. Mas passou longe, muito longe. Rhaegar fechou os olhos com força.

— Bem, como você pode deduzir, nós bebemos muito. E durante a bebedeira, a princesa Q'ira não desgrudou de você...Nem você dela...- Jon falou, cheio de malícia. Rhaegar ficou gelado.

— Eu...eu fiz alguma...eu e ela...? – Rhaegar levou as mãos à testa, aos cabelos. Ele lembrava realmente da princesa sentada ao lado dele, conversando com ele. Mas nada mais. Inferno.

Jon olhava para ele, sorrindo descaradamente, percebendo a aflição de Rhaegar e adorando aquilo.

Diga de uma vez. O que diabos eu fiz?— Rhaegar perguntou de novo, irritado e angustiado. A cabeça já pensando em Lyanna. Em como aquilo poderia atrapalhar os planos dele.

— Calma, Alteza. Estou tentado a dizer que você fez tudo o que eu certamente teria feito, mas vocês só conversaram. Apesar de que ela se aproveitou bastante, eu diria. Tocava no seu rosto e nos seus cabelos. Alisava seus braços. E você deixava – Rhaegar sentiu a barriga revirando. Talvez ele vomitasse – Mas Vossa Alteza...só bebia e sorria. Se comportou como um eunuco – Jon falou, com evidente decepção.

Rhaegar respirou aliviado. Muito aliviado.

— Para sua sorte, não foi com Lady Melissa. Agradeça à mim, Alteza, que não desgrudei de você e espantei aquela serpente – Jon sorriu, coçando os cabelos e os bagunçando ainda mais – Se fosse com Melissa...sua irmã não o teria perdoado...

Rhaegar sentiu o sangue congelando nas veias. Precisava tomar água. A garganta já deveria estar seca assim a noite toda. E não só agora. Não só porque ele tinha ouvido aquilo...aquela sutil confirmação de que alguém ali sabia. Alguém via. Notava os sentimentos dele pela própria irmã.

Como? – Rhaegar perguntou, encarando Jon. Como ele sabia? O que o denunciou? Como ele via o que mais ninguém notava? Nem mesmo a própria Lyanna, para o desespero dele.

— Quer mesmo saber? – Jon perguntou, sorrindo. Rhaegar só manteve o olhar sério para ele – Bem...lembre que foi você que pediu, por isso, não ameace quebrar minha cara de novo, ela já não é essas coisas.

— Diga logo. Como percebeu? – Rhaegar pediu, irritado.

— Com todo o respeito, Alteza, eu sei quando um homem quer arrastar uma mulher para a cama. E é isso que você quer fazer com sua bela irmãzinha. Os outros podem confundir seu desejo por ela com carinho e cuidado fraternal ou qualquer outra baboseira assim, mas são todos cegos, se me permite dizer. Você gosta tanto dela que dói de ver. Escorre dos seus olhos – Jon falou. Rhaegar não sabia mais como respirar. Mas nem por um momento cogitou negar.

Ele apenas se levantou da cama, os passos vacilantes, procurando por água.

— Sem julgamentos – Jon completou – Com uma irmã daquela...ontem ela estava absolutamente deliciosa – Rhaegar se virou para Jon e arregalou os olhos numa silenciosa promessa de violência.

— Cuidado, Jon. Eu ainda não estou no meu juízo perfeito – Rhaegar o ameaçou. Nem no equilíbrio. Mas aquilo não o impediria de tentar voar no pescoço de Jon por falar de Lyanna daquele jeito. Ainda que ele muito provavelmente não o alcançasse da primeira vez.

— Ela gosta de você também, se quer saber. Mas acho que já sabe. Enquanto você dançava com Melissa eu achei que a qualquer momento ela me largaria e voaria sobre vocês dois. Ia ter sido um espetáculo à parte que ninguém iria esquecer por dias – Jon deu um sorrisinho debochado.

— Não vou me dar ao trabalho de negar, Jon. Mas espero sua discrição – Rhaegar falou, tenso, passando um copo de água para ele. Um pedacinho de si ficando extremamente feliz pelo que Jon revelava das reações da irmã.

— Você já tem minha discrição, Alteza. Não percebi ontem, sabe? – Jon revirou os olhos e virou o copo de água na boca.

— Não irei esquecer – Rhaegar prometeu. Jon balançou a cabeça em ums quase reverência, quando a diversão sumiu dos seus olhos.

— Já pensou em conversar sobre isso com meu irmão? Ele...gosta dela... – Jon deixou no ar, parecendo um pouco preocupado.

— Não posso falar sobre isso com Sam, não até o momento certo – Rhaegar falou, sentindo vergonha de si mesmo, uma grande pontada de culpa doendo em seu peito ao pensar nos sentimentos do melhor amigo – Lyanna tem mais juízo que eu. E é mais teimosa também. Tem mais força de vontade para suprimir isso do que eu jamais tive. E eu tenho pouco tempo... – ele começou a tentar explicar.

— Já entendi – Jon falou, com uma rara expressão séria e compreensiva — Ela pode querer não ficar com você. E acabar escolhendo Sam. E se você contar para ele antes que ela decida...ele não vai aceitar se casar com ela, mesmo que goste dela, em respeito à você.

Rhaegar acenou positivamente. Jon acenou de volta, em silêncio.

— Eu a quero para mim, não nego. Mas não posso forçá-la. Se ela não ficar comigo... que seja com Sam. Sei que ele...que ele vai cuidar bem dela – Rhaegar falou, cada palavra um ferrete em sua garganta.

Jon escutou e suspirou dramaticamente.

— Eu não queria estar no seu lugar, Alteza. Dando certo ou não – ele disse, dando batidinhas no ombro de Rhaegar – Espero, sinceramente, que tenha um bom plano. Sua amada não é fácil. O pai dela então....- Jon deu um risinho nervoso – Mas você sabe disso melhor do que eu, já que ele é seu pai também – Jon falou, enchendo o copo com mais água e o virando de novo.

Rhaegar acenou com alguma gratidão, pelas palavras dele. Não que elas fossem animadoras. Mas eram verdadeiras.

— Você disse que percebeu antes...quando? – Rhaegar quis saber, curioso. Jon sorriu maliciosamente.

— Quando notei que nunca levava para a cama nenhuma das garotas que eu tão diligentemente trazia para você, Alteza – Jon revelou, com uma cara dramática de decepção e desgosto.

— Comecei a observá-lo melhor, em busca do motivo. Eu queria entender porque o Príncipe Herdeiro dos Setes Reinos beijava tantas garotas...mas só beijava— Jon bufou, continuando – Outro segredo seu que guardarei com a minha vida, não se preocupeele garantiu, levando uma mão sobre o peito, solenemente, mas com um grande e cínico sorriso na cara.

— Bisbilhoteiro desgraçado – Rhaegar resmungou, empurrando Jon de leve, com um meio sorriso. Não estava com raiva dele. Na verdade o que ele sentia era alívio. Alívio por poder confessar aquilo para alguém. Por poder botar para fora.

Eu? Imagina. Só não sou cego – Jon rebateu – Mas agora que estamos falando tão abertamente sobre isso...sempre tive vontade de saber...como você conseguiu se controlar com aquela garota...como era mesmo o nome dela...aquela dos seios enormes, olhos azuis feito dois lagos, loira...que limpava nossa ala na Fortaleza...lembro que ela foi trabalhar nas cozinhas por ordens da Rainha. Enfim, sei que lembra de quem estou falando e sei que ela se trancou com você num armário – Jon relembrou, esperando que ele contasse.

— Você é um pervertido – Rhaegar se afastou e lavou o rosto com a água quer havia em uma tina por ali – O nome dela era Moira. E os seios dela eram absolutamente normais – Rhaegar sorriu – Não que eu tenha olhado muito para eles. Quando ela começou a se despir, eu disse que tinha uma reunião com o Rei e que não podia me atrasar.

— Patético – Jon gargalhou. Bem quando Sam entrou pela porta do quarto mais uma vez, acompanhado de um servo que trazia uma bandeja com uma xícara fumegante.

O que é patético?— Sam quis saber – Ainda bem que você levantou – ele mencionou, se dirigindo ao irmão – Dickon ainda está apagado na cama, como a maior parte do castelo pelo jeito – Sam disse, entregando a xícara à Rhaegar – Beba tudo. Você está com uma cara péssima, Alteza.

— Imagino que sim. Isso é que é patético – Rhaegar falou. Jon concordou.

Rhaegar bebeu tudo. Precisava realmente melhorar. Em algumas poucas horas ele estaria diante de Lyanna de novo e ele não fazia ideia de como a irmã o trataria. Não fazia ideia se ela tinha realmente sentido. Se ela tinha percebido. Apesar de ele achar que sim.

Como ela o trataria? Ele se perguntava, quando o tônico voltou. Rhaegar o colocou todo para fora.

Ele não sabia se era efeito da bebedeira ou do nervosismo por ter que encarar a irmã.

~*~

— Não quero ir com os cabelos soltos. Trancem-os – Lyanna falou as servas que ajudava Lady Jane a vesti-la para o almoço nos jardins.

Jane olhou interrogativamente para ela, diante da ordem.

— Suas vestes para hoje combinam com cabelos soltos, princesa – Jane falou, com cuidado, percebendo que o humor de Lyanna não estava agradável.

— Não vou vesti-las. Quero minha calça de montaria. E por cima aquele sobretudo negro de couro, de mangas compridas, com aberturas laterais – Lyanna falou, a voz determinada.

— Pretende montar Alteza? – Jane perguntou, mas Lyanna não respondeu. Jane soltou um suspiro exasperado e se afastou, com certeza para providenciar o que ela havia pedido.

Na noite anterior ela havia sido vestida e pintada para parecer uma mulher sensual. Tudo que ela não era. Mas hoje não ia acontecer de novo. Não, não. Hoje iam ver ela pelo que ela era de verdade. Com os cabelos e os trajes que ela mais gostava, que mais a deixavam à vontade. E que a deixariam pronta para fazer o que seu coração pedia naquela manhã. Voar.

Ela precisava voar. O vento de maresia que sentira em seu rosto na noite anterior, antes de Rhaegar aparecer e estragar seu sossego, lhe chamava para experimentá-lo.

Lyanna sentiu os olhos ardendo ao pensar naquele corredor. Naquela sensação estranha e adormecida que ela tanto evitava, tanto temia, agora formigando por todo o seu corpo mais uma vez, viva e desperta. Um monstro que ela precisava combater. Ao qual ela não se permitia alimentar.

Ela havia corrido para o único porto seguro contra ele. Seus livros. Seu isolamento na biblioteca. Precisando desesperadamente de qualquer coisa que não a deixasse pensar em como dançar com Rhaegar era igual e diferente de dançar com o pai. Havia o mesmo cheiro e a mesma sensação de casa. Sim. Mas também havia mais.

Um mais que ela empurrava para longe. Um mais que era vergonhoso. Impossível. Proibido.

Pare de pensar nisso. Pare de se perguntar. Ela repetiria para si mesma. Quantas vezes fosse necessário.

— Não quero tranças delicadas! Trance meu cabelo de verdade – Lyanna pediu, irritada, quando viu uma das servas trançando seus cabelos com fios dourados, de um jeito nada apropriado para quem planejava subir em um dragão.

— Eu faço isso. Pode deixar – Jane disse à garota, que pareceu aliviada em sair de perto da princesa – Você acordou mal humorada, Alteza – Jane comentou, não descartando os fios dourados, mas fazendo várias tranças menores e enrolando-as umas as outras, ao estilo que a rainha Daenerys tanto gostava.

— Prontinho. Está bom assim, Princesa? – Jane perguntou, trazendo um espelho pequeno às suas costas.

— Está. Obrigada – Lyanna respondeu. Os fios dourados davam um efeito bonito. Ela não podia negar. E não atrapalharam a firmeza da qual ela precisaria.

— Algo nas bochecas? Nós lábios? – Jane perguntou, imaginando a resposta.

Não— Lyanna disse, se pondo de pé, pegando a calça de couro negro e a vestindo ela mesmo.

— Tem certeza que quer ir assim, Princesa? Hoje é o dia do seu nome. Teremos um lindo almoço nos jardins. Seria uma boa oportunidade de usar algo leve, refrescante, com cores vivas. Não couros e botas – Jane ousou perguntar e comentar, quando mais ninguém teria ousado.

— Se é o meu dia, nada mais justo que eu vá vestida como quero – Lyanna sugeriu – Vamos logo com isso. Antes de ir até os jardins tenho coisas para resolver – Ela pediu, vendo Jane buscando acessórios que a deixassem mais régia.

Se ontem ela não tinha pressa e estava nervosa pela noite de eventos que não a agradava, hoje tudo estava diferente.

Hoje ela seria ela mesma. E a única dança que faria seria nos céus.

~*~

Os jardins estavam lindos. Uma brisa salina circulava deixando o ambiente agradável, apesar das muitas tendas e do sol estar à pino.

Apesar do ambiente ser menos formal, da música ser mais suave e de não haver mais tantos momentos protocolares a serem cumpridos, Rhaegar notava que na mesa principal, com exceção das crianças, todo mundo parecia estar com um humor vindo diretamente dos Sete Infernos.

Para o dia de hoje, o dia do nome deles, a mesa foi composta apenas pelos membros da família, o que se resumia à presença dos dois primos do Norte, Eddard e Robb, de Lorde Gendry Baratheon e as duas filhas, ainda sem a presença da mãe e deles quatro. Ninguém mais.

Lorde Gendry parecia taciturno. Rhaegar não queria nem imaginar o tipo de conversa que ele e sua tia Arya provavelmente teriam quando, ou melhor, se ela aparecesse. Ele sentia pena do homem. Sua tia era uma mulher sem amarras. Uma força que ninguém podia ousar conter.

Seu pai e sua mãe mal se olhavam. Com certeza haviam discutido e Rhaegar imaginava bem pelo que. Os dois sempre sentavam com as cadeiras coladas, os braços sempre em contato um com o outro. E hoje ele caberia tranquilamente entre as duas cadeiras altas ocupadas pelo Rei e pela Rainha.

E para completar, havia Lyanna. Vestida como se fosse para uma guerra, numa versão um pouco mais sofisticada das roupas de montaria de dragão, com certeza à contragosto de suas damas e dos modelos escolhidos pela sua mãe para aquela ocasião.

Ela havia cumprimentado à todos educadamente, claro. Inclusive à ele. Mas com uma frieza de fazer inveja à Muralha de Gelo. Ninguém ousou puxar assunto com ela. Nem mesmo a mãe deles, que ficou claramente espantada quando a viu chegando toda coberta em couro negro e com cara de poucos amigos.

Uma manhã de aniversário animadora, de fato. Até os convidados pareciam lentos nas conversas e na circulação pelos jardins, apesar das músicas e das companhias de danças que se apresentavam diante deles. Muito provavelmente efeito do cansaço da noite anterior.

Rhaegar comeu e bebeu em silêncio. Mais bebeu do que comeu na verdade, e somente água. Os pedaços de carne ele preferia dar para Black, que sentado sobre as patas traseiras ao lado dele, na ponta da mesa, ficava exatamente da altura de todas as pessoas sentadas ali.

Não era só ele que parecia estar com pouco apetite. Lyanna e a mãe mal tocavam nos pratos também. Apenas o pai comia normalmente, sua atenção se voltando para as crianças da mesa, conversando com os sobrinhos sobre coisas de Winterfell, lugares, pessoas, a saudade do Norte evidenciada em cada pergunta.

O pai também dava atenção para as sobrinhas, colocando coisas nos pratos das duas para que, por ordem do Rei, comessem tudo, brincando que estavam só cotovelos e canelas. Lorde Gendry apenas observava calado, silenciosamente agradecido, quando as garotinhas obedeceram, mas só em troca de uma promessa do tio-Rei de levá-las para ver Drogon de perto.

Rhaegar queria falar com Lyanna. Queria conseguir dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas ela não olhava para ele, o único movimento do corpo dela era o da respiração e de uma leve e impaciente batida do pé no chão.

Ela sabe o que sentiu ontem. Sabe e se fechou. Igual à anos atrás. Depois do dia que chorou ao lado da minha cama, enquanto eu lutava para ver o dia seguinte, enquanto o castelo todo deveria vigiá-la e não permitir que ela chegasse perto de mim. Depois daquela noite, ela não olhava para ele, não fazia nada a não ser viver naquela maldita biblioteca. E ela está fazendo tudo de novo.

— Está na hora dos presentes – Dany os avisou, tirando Rhaegar das suas lamentações internas.

Ele sabia muito bem quais presentes ele e Lyanna receberiam dos pais. Dois pergaminhos, dois decretos reais foram colocados diante do Rei e da Rainha, cada um pegou um.

Rhaegar e Lyanna se levantaram e deram à volta na mesa, ficando solenemente diante dos pais. Rhaegar quase ofereceu o braço à irmã assim que levantaram das cadeiras, mas se conteve. Temeu ser ignorado na frente de todos.

Jon e Daenerys se levantaram. E apesar de haver algo mal resolvido entre os pais, Rhaegar viu que os dois lhes concediam sorrisos e olhares amorosos.

— Como presente pelo décimo oitavo dia do seu nome, eu, Aegon VI, da Casa Targaryen, proclamo Rhaegar, da Casa Targaryen, como Príncipe e Senhor de Pedra do Dragão, com direito à posse e às rendas do lar Ancestral da Casa Targaryen. Que os deuses novos e antigos o abençoem com prosperidade e sabedoria filho – Jon falou, em alto e bom som. Entregando o pergaminho nas mãos de Rhaegar, olhando para o filho com uma emoção contida.

Todos ali sabiam o que aquele título significava. Ser o Príncipe de Pedra do Dragão fazia dele oficialmente, o Príncipe Herdeiro dos Sete Reinos. Rhaegar sentiu o peso do pergaminho em suas mãos. Da missão. Da responsabilidade. Palmas calorosas e reverentes se fizeram ouvir quando ele inclinou a cabeça diante do pai.

— Como presente pelo décimo oitavo dia do seu nome, eu, Daenerys I, da casa Targaryen, proclamo Lyanna, minha filha, como Princesa e Senhora de Solarestival, com direito à posse e às rendas do lar de verão da Casa Targaryen. Que os deuses novos e antigos a abençoem com prosperidade e sabedoria filha – Dany falou, com um largo sorriso – Tente não parecer que adoraria ir embora para lá agora mesmo — Dany falou baixinho para ela, ao entregar o pergaminho nas mãos dela. Lyanna deu à mãe um ínfimo aceno positivo e as duas trocaram um discreto sorriso.

Rhaegar e Lyanna entregaram os pergaminhos para que fossem guardados. E viraram de frente um para o outro. Haviam sido instruídos sobre tudo aquilo. O que dizer. Em qual lugar se posicionar. Rhaegar só não imaginava que teriam que fazer aquilo em um momento de tanta tensão entre os dois.

Mas ele não iria perder aquela oportunidade. Eles trocariam presentes agora. E ele haviam pensando muito nas coisas que gostaria de dar para ela. Nas palavras que gostaria de dizer. E ele as diria, aproveitando que ela estava ali, obrigada pelo protocolo, à escutá-lo.

Um guarda se aproximou com uma bandeja e sobre ela uma caixa negra. Fechada. Os olhares dos nobres acompanhavam a caixa, os sussurros de especulação tomando volume por todo o jardim.

— Nós viemos juntos ao mundo, irmã – Rhaegar começou a falar, pegando a caixa nas mãos – Ninguém poderia ter uma irmã e uma filha melhor que você, do que nós – ele continuou, quase não conseguindo olhar para os pais, enquanto os mencionava. O olhar cinzento de Lyanna estava cravado no rosto dele, altivo, esperando, parecendo pesar cada palavra. Era difícil não se perder na complexidade daquelas íris, não se maravilhar com o leve violeta que se concentrava com mais intensidade ao redor da sua pupila.

— Meu presente para você, Princesa de Solarestival, é para demonstrar o quanto você é preciosa para mim... – Rhaegar disse, vendo as pupilas dela se dilatando, o cinza perdendo espaço e deixando o violeta transparecer – ... e para o Reino – ele se obrigou a completar, tentando dar mais normalidade às suas declarações.

Rhaegar ergueu a tampa da caixa e um grande suspiro de perplexidade e admiração se fez ouvir diante da visão da coroa reluzente que havia ali.

Ele colocou a caixa sobre a mesa, diante dos pais, e retirou a coroa da sua cama de veludo negro. Os pais pareciam surpresos, como todos os outros, apesar de ainda ignorantes quanto aos reais sentimentos dele, pelo menos aparentemente.

Mas mesmo eles, olhavam admirados para a coroa que o filho tinha nas mãos. Coroas geralmente eram feitas de ouro, de prata ou de aço e adornadas com pedras preciosas. Mas aquela, era puramente pedra preciosa.

Era toda em rubi. Rubi lapidado em chamas, vermelho como sangue vivo e reluzente como o fogo que ele imitava.

Uma única e gigantesca gema, comprada por uma fortuna, moldada para ela, para a única que ele queria como rainha.

Rhaegar ergueu os braços e levou a coroa para o alto da cabeça da irmã, se perguntando se as pessoas ali notavam, se percebiam que ele a estava coroando, escolhendo. Se percebiam que a coroa dela era muito mais bonita e valiosa que a dos pais somadas. Assim como ela era muito mais do que viam. Muito mais do que ela própria deixava vir à tona.

Uma coroa digna de uma rainha. Cochichavam ao longe, com assombro. Com curiosidade. Com inveja. Tudo que ele pensava era que, sim. Era. Aquela era, de fato, uma coroa para a sua rainha. A rainha que ele queria.

Coração de fogo — Rhaegar disse à irmã, com a voz rouca, quando deixou o peso da coroa afundar nos cabelos trançados dela – Foi o nome que dei à ela – ele completou, deixando os braços cair ao lado do corpo e não conseguindo não fazer uma reverência profunda para a visão poderosa da irmã vestida como uma montadora de dragões selvagem, usando aquela coroa digna de uma imperatriz Valiriana.

~*~

Meu presente...é para demonstrar o quanto você é preciosa para mim.

As palavras do irmão ecoavam como pequenas explosões pela cabeça dela. E isso, somado à visão da coroa que ele exibia...Ela estava sem palavras. Sem reação.

Aquilo não era uma coroa. Era...era... uma declaração. Uma declaração de...de insanidade. Sim. A palavra certa era essa. Insanidade. Não outra coisa. Só estupidez. E desperdício de uma quantidade de ouro que ela não era sequer capaz de imaginar.

Coração de fogo. Rhaegar disse, quando Lyanna sentiu o peso da coroa. Quando quase levou as mãos à cabeça, para impedi-lo, para segurá-la, para fazer alguma coisa, ela não sabia bem o que. Só sabia que havia conseguido controlar o reflexo, talvez por não querer que ninguém percebesse o quanto suas mãos fechadas em punho tremiam.

Uma coroa com nome. Ela nunca tinha ouvido falar em nada parecido. Ela só podia imaginar o tamanho do rubi que havia sido lapidado para se transformar naquilo. E o quanto custara. Uma breve olhada ao redor lhe mostrou que o pai parecia se questionar a mesma coisa.

O pai e todo mumdo. As pessoas olhavam surpresas, chocadas com a beleza da coroa e com o gesto do Príncipe Herdeiro. E Lyanna procurava palavras. Para pelo menos entregar seu presente para ele logo e finalmente poder sair dali.

Lyanna levou as mãos à cabeça e tocou na coroa fria e angulosa, cheia de facetas na superfície da pedra. Ela não tinha coragem para sequer se movimentar com aquilo. Por isso, a tirou com cuidado e a colocou de volta na caixa, sob o olhar atento da mãe que ainda parecia muito impressionada com a joia.

Lyanna tinha certeza, olhando para a coroa da mãe, que todos ali concluíram que aquela monstruosidade em rubi era muito mais bonita que a coroa de asas negras que a Rainha usava. E ela não gostava daquilo. Das especulações que poderia gerar.

Mas ela ainda precisava dizer alguma coisa para Rhaegar. Em agradecimento. Ela respirou fundo antes de começar.

— Suas palavras me emocionam, irmão – Lyanna falou, não tão alto como deveria, não tão forte como gostaria – Meu presente para você, Príncipe de Pedra do Dragão, é, receio eu, muito mais singelo. Qualquer coisa no Reino todo seria diante dessa coroa eu acho – Lyanna ousou dizer e alguns risos se fizeram ouvir pelos jardins. Seu pai, Rhaegar e sua mãe olhavam surpresos para ela.

Sim, sou capaz de fazer uma piada. Lyanna olhava de volta para os três, com uma sobrancelha arqueada.

— Além de muito mais singelo, ele tambem não podia ser trazido numa caixa – Lyanna falou, entregando um cilindro como o que ela havia feito para o pergaminho do mapa de abastecimento da capital.

O irmão abriu o cilindro com curiosidade, desenrolando o papel que havia ali. Era enorme. E muitos conseguiam ver o que estava desenhado em grande escala, além dos desenhos esmiuçados de uma infinidade de dispositivos.

Selas de dragão? – o irmão perguntou, parecendo maravilhado.

— Sim. Lorde Tyrion e eu desenhamos e supervisionamos a produção pessoalmente – Lyanna explicou, procurando a Mão do Rei e fazendo um distinto e agradecido cumprimento à ele.

— Não posso colocá-la sobre a sua cabeça, irmão – mais sorrisos ecoaram – Mas, ao seu modo, elas também devem ser provadas – Lyanna falou, quando o ressoar das asas de dois dragões cortaram o céu sobre eles, fazendo todas as pessoas olharem para cima.

Bem na hora. Os guardas dos dragões tinham sido precisos. Como ela pedira.

Khaleeth e Stormfire mergulharam rente à balaustrada de Pedra que ladeava a extensão do Jardim, rumo à base da montanha sobre a qual a Fortaleza Vermelha se erguia, como se fossem se chocar no chão, mas apenas à caminho de pousar em um dos largos pátios que haviam bem abaixo, no nível do mar.

Com o baque do pouso dos Dragões, Lyanna observou algumas pessoas se levantando de seus lugares, indo até a amurada de pedra e olhando para baixo.

— Você vem? – Lyanna perguntou, de um jeito que deixava bem claro que ela iria.

Rhaegar se surpreendeu com o convite. E se apressou em aceitá-lo. Ele iria ao inferno com ela se ela o chamasse, se o quisesse ao seu lado.

— Claro – Rhaegar respondeu – Com sua licença, Majestades — ele acrescentou para os pais, que não tiveram tempo de protestar, não quando os dois já caminhavam em meio aos convidados, seguidos apenas por Black e por Lys.

Lordes e Ladys se levantaram conforme passavam, fazendo-lhes mesuras. Rhaegar observava que não se sentavam mais. Que os próprios pais estavam de pé, que Imaculados se apressavam em segui-los.

Lyanna Targaryen tendo coragem de estragar a programação de uma festa, quem diria. Ele se admirava, seguindo os passos dela pela estreita e antiga escadaria de pedra que levava para o pátio aberto cravado na rocha da Colina de Aegon, onde os dragões deles, selados, os aguardavam.

Uma multidão de cabeças se avolumava enquanto desciam e desciam. Lys à frente, Black em seu encalço, os barulhos dos passos sincronizados dos Imaculados se aproximando ao longe.

Quando parou ao lado de Stormfire, Rhaegar admirou a estrutura de couro e metal que agora havia entre as asas do seu dragão. Duas largas estruturas de placas de metal negro brilhavam sobre as escamas bronze de Storm, à frente e por trás das asas, cruzadas sob o peito do Dragão.

Suba— disse Lyanna, batendo a mão em uma saliência na liga de metal, um apoio para o pé.

Rhaegar ergueu as sobrancelhas para ela, mas apenas obedeceu.

— Tem dois buracos aqui – ele observou, em pé entre o pescoço e a asa de Storm, tentando entender como a sela que ela havia desenhado funcionava.

— Pise na outra outra placa e termine de subir. Esses buracos são para as suas pernas. A ideia é que seja confortável como montar um cavalo. Por isso a sela é um pouco elevada e há esse espaço. Eu e Lorde Tyrion levamos em conta a anatomia masculina e o quanto dragões crescem. Fica difícil para vocês encaixarem as pernas em algo plano e largo demais – Lyanna explicou, dando de ombros, como se estivesse falando do tempo e não das partes sensíveis dos homens da própria família.

Rhaegar pisou na outra aba metálica, um verdadeiro degrau na lateral do seu dragão e sentou na sela, suas pernas mergulhando para dentro da estrutura de couro. Era estranho. Parecia realmente que estava sobre um cavalo. Mas o calor das escamas de dragão não permitiam esquecer que aquele cavalo tinha asas e cuspia fogo.

Lyanna subiu no encalço dele, assim que ele sentou, olhando para dentro da estrutura, parecendo analisar se tudo estava certo, o corpo muito perto do dele, aparentando ser imune ao quase contato na inversa medida em que ele se sentia tão afetado por qualquer ínfima proximidade entre os dois.

— Não mexa as pernas – ela mandou – Empurre para baixo essa alavanca agora – ela orientou, apontando para o dispositivo. Rhaegar, mais uma vez, só obedeceu.

Ele olhou para baixo rapidamente. As pernas, os pés, agora estavam presos. O lugar onde estavam encaixados confortavelmente, agora havia ficado mais estreito, impedindo que ele movesse um dedo do pé sequer. Ele entendia a utilidade, mas não sabia realmente se gostava daquilo.

— A sensação não é muito boa, eu sei. Mas você se acostuma. Também pode acionar o dispositivo só quando sentir necessidade – Lyanna explicou, puxando a alavanca na direção oposta e liberando as pernas dele – Mas pelo menos prenda isso ao redor do seu quadril – ela indicou uma larga faixa de couro endurecido, presa por correntes à estrutura da sela.

— Como queira, Princesa de Solarestival— Rhaegar falou, prendendo o que parecia um cinto largo e acorrentado ao redor do seu quadril. Lyanna revirou os olhos pela resposta debochada dele.

Rhaegar respirou aliviado com a reação dela. O clima entre os dois finalmente parecendo que voltaria ao normal.

— O que é isso? – Rhaegar perguntou, apontando para dois pontos fundos na sela, um pouco acima de onde suas coxas agora estavam.

— É para colocar os pés. Para voar em pé. Como Aegon fazia. Com o cinto nos quadris, basta colocar peso ali, que os pés serão presos – Lyanna explicou – Mas não vamos testar isso hoje. Acho que nossos pais não sobreviveriam se levantassemos vôo em pé – ela disse, vendo Rhaegar sorrir e concordar.

— Fizeram uma dessas para Drogon também? – Rhaegar quis saber, vendo os Imaculados finalmente chegando, preenchendo as laterais do pátio, mas sem nenhuma ordem para que eles voltassem. Black e Lys se posicionando entre os dragões e a fileira de soldados.

— Fizemos. Mas ele não deixou que fosse colocada. Nossa mãe vai ter que ir até ele, mas sinceramente, acho que talvez ele nunca aceite – Lyanna falou, se soltando da sela de Rhaegar e pulando no chão.

Stormfire não gostou do barulho e do movimento. Espirais de fumaça sairam de suas narinas acobreadas, enquanto a cabeça do Dragão se virava na direção dela.

— Já estou saindo, garoto. Calma – Lyanna disse, dando batidinhas nas placas de metal do dragão do irmão e caminhando para sua Khaleeth.

Rhaegar observou Lyanna subindo, se encaixando na sela, puxando a alavanca que prendia as pernas, ouvindo o barulho das correntes da faixa de couro que ela prendia no quadril. Rapidamente ela estava pronta, ajustando as luvas nas mãos, colocando fios soltos de cabelo atrás das orelhas.

Os dois trocaram um breve olhar, em silêncio. Rhaegar deveria estar com cara de bobo enquanto admirava a destreza dela com aquela parafernália que ela mesma havia inventado. Mas se ela percebia, estava ignorando muito bem.

— Está pronto? – Lyanna perguntou. Khaleeth se remexeu em expectativa, abrindo as asas.

— Acho que sim – Rhaegar disse, olhando ao redor, à tudo que lhe prendia e de volta para ela – Vamos?

— Vou tentar não deixar que percebam que eu vôo melhor do que você – Lyanna disse, inclinando-se na direção do pescoço de Khaleeth enquanto a dragão se impulsionava para o ar, as poderosas asas levando-as a voar no nível do mar, em um largo círculo, buscando velocidade – Tente me seguir— Lyanna gritou para Rhaegar, quando guiou Khaleeth para subir vertiginosamente rente à encosta pedregosa da colina, em direção à balaustrada cheia de curiosos que agora pareciam atônitos com a aproximação delas duas.

Rhaegar seguia em seu encalço, com Stormfire conseguindo voar ao lado de Khaleeth no exato momento em que irromperam verticalmente, subindo em disparada ao céu, diante dos jardins e dos convidados.

Lyanna riu das pessoas se afastando e relaxou de verdade pela primeira vez no dia. Afinal, aquele espetáculo ela era perfeitamente capaz de proporcionar.

Presa pela sela ela fazia Khaleeth dar guinadas e piruetas no céu, bem diante da plateia, resistindo à vontade de soltar os braços quando seu mundo girava sobre as costas da sua dragão.

Stormfire imitava, muito próximo. Os dois dragões pareciam se provocar tanto quanto ela e o irmão às vezes faziam, tocando as asas, as cabeças um no outro, provocando pequenos solavancos a cada contato.

Ou talvez fizessem aquilo por que eram espelhos dos reflexos e dos desejos dos seus montadores. E os deuses bem sabiam que Lyanna realmente tinha vontade de dar uma cabeçada em Rhaegar, as vezes. Ou uma cotovelada. Ou apenas empurrá-lo para longe. Mais ou menos como Khaleeth estava fazendo com Stormfire.

Os dois dragões desceram em queda livre para o nível do mar, Lyanna notando a multidão de pessoas se apertando lado à lado para vê-los, para olhar para baixo, ficando cada vez mais para trás, mais longe.

Para onde quer ir?— Rhaegar gritou acima do barulho do vento, olhando para a Fortaleza Vermelha ficando para trás.

Lugar nenhum— Lyanna respondeu, fazendo Khaleeth se inclinar e raspar uma das asas na água do mar, o jato atingindo Rhaegar e Stormfire. O dragão acobreado não pareceu se importar, mas Rhaegar não gostou nada.

Isso vai ter volta! — ela ouviu o irmão gritando, ensopado, sacudindo a cabeçae os cabelos prateados, como um cachorrinho molhado faria. Lyanna sorriu.

Você vai ter que me pegar primeiro – ela o desafiou e subiu novamente, agora rumo à cidade.

~*~

Dany conseguiu ficar sentada diante da saída repentina dos filhos, dando o seu melhor para parecer que aquilo era esperado, programado e que tudo estava dentro da mais perfeita normalidade.

Mas quando os dois dragões dos filhos surgiram feito duas flechas, com apenas as asas e a parte de baixo à mostra com, as garras quase raspando na balaustrada do Jardim e nos convidados, ela se levantou. E Jon fez o mesmo.

Os dois caminharam buscando ver melhor, fugindo da cobertura da tenda que os impedia de ver os filhos no céu. E apesar de Jon não estar falando com ela direito, foi instintivo agarrar na mão do marido quando viu as manobras que Lyanna e Rhaegar estavam executando.

Ele não recusou o contato. Pelo contrário. Parecia a ponto de ter um leve ataque do coração enquanto olhava pra os céus. A forma como ele apertava a mão de Dany de volta, demonstrava bem isso.

Os convidados abriram caminho para eles dois enquanto procuravam a melhor vista possível, o contato das mãos passando para o braço que Jon gentilmente oferecia à ela.

Que os deuses me ajudem – Jon exclamou quase inaudivelmente — Parece que nossos filhos podem voar de cabeça para baixo agora – Jon comentou, sentindo Dany apertar o braço dele diante da cena de Rhaegar e Lyanna fazendo círculos completos no céu, seus corpos momentaneamente ficando para baixo, virados para o mar.

— Você sabia dessas selas? – Dany perguntou, hipnotizada, sorrindo para o que os olhos contemplavam, mesmo com o coração aos saltos dentro do peito.

— Não – Jon respondeu – Você sabia daquela coroa exagerada? – ele perguntou, franzindo um pouco a testa.

— Não. Fiquei tão surpresa quanto você. Ele não me disse nada. Não me mostrou nada – Dany disse, observando a reação de Jon.

— Bem, ele vai ter que me explicar de onde veio o dinheiro para mandar fazer aquela...extravangancia – Jon afirmou, prendendo o fôlego com o mergulho que os filhos davam na direção do mar, se afastando mais da Fortaleza.

Dany imaginava de onde o ouro poderia ter vindo, mas não disse nada. Aquela era uma conversa para outro momento.

— Olhe para eles – Dany disse, encostando a cabeça no ombro de Jon – Nem nos meus melhores sonhos eu imaginei que conseguiria isso – ela continuou, com a voz embargada, os olhos violeta abertos e alertas, observando cada movimento dos filhos e de seus dragões.

Jon a passou para frente do seu corpo. E a envolveu com os braços, empurrando para longe qualquer mal estar entre eles. Pelo menos ali, diante do que se desenrolava às vistas de todos.

— Quando vejo eles assim, nossos filhos, parte de mim e parte de você...- Dany tentou dizer, sentindo os olhos ardendo – Só consigo pensar que tudo valeu à pena. Cada perda, cada decisão difícil. Cada dia de fuga e de medo. Cada lágrima que Viserys e eu derramos quando vendemos a coroa da nossa mãe para conseguirmos sobreviver. Valeu à pena. Só para vê-los assim. Cortando os céus. Lindos. Inteligentes. Saudáveis. No lugar ao qual pertencem e com tudo o que eu por tanto tempo não pude ter – Dany continuou, os braços de Jon a apertando mais.

— Eu queria que tantas pessoas pudessem estar aqui...para vê-los agora – Jon disse, pensando em seu pai. No que ele talvez veria no rosto de Eddard Stark, se o homem que guardou o maior segredo de um reino todo por amor à irmã, estivesse ali, vendo os sobrinhos-netos voando em dragões.

Pensou também em Robb. E em Rickon. E em Bran. E em Meistre Aemon, o parente que ele ignorava e que havia estado tão perto dele, lhe ensinando coisas tão preciosas. Ele não havia esquecido dos detalhes dos rostos de nenhum deles. Nenhum. Mas Dany tinha razão. Tudo pelo que eles passaram em suas jornadas, ignorantes da existência um do outro, mas destinados a se encontrar enquanto o mundo parecia desabar ao seu redor, enquanto perderam tantas pessoas queridas, tudo valera à pena.

— Eu também penso naqueles não estão aqui – Dany disse, baixinho, emocionada, rindo dos filhos brincando, da asa de Khaleeth raspando a superfície do mar e molhando Stormfire.

Rhaego. Por um momento, lembrou de Rhaego, da visão do poderoso Dothraki com as feições de Drogo e de cabelos prateados. Um filho que não era para ter sido. Que não foi. Mas que sempre estaria ali, em alguma parte vital dela, lhe lembrando da dor de perder algo tão valioso.

Ela se pegou pensando também em Sir Barristan, que pela idade que já tinha, não teria vivido o suficiente para estar ali, mas que ainda assim se fora antes do tempo, antes de ela ter podido colocar Rhaegar em seus braços.

Como ela queria que o velho cavaleiro tivesse morrido sabendo que um dia Westeros teria um rei com o nome do irmão à quem ele admirara e servira. Como ela queria ter podido dizer ao velho amigo que o sangue do irmão corria nas veias do futuro Rei, não por causa dela, mas porque um filho de Rhaegar havia sobrevivido. E a encontrado.

E Sir Jorah. Ele teria sido como um avô para os seus filhos. Teria se maravilhado com eles, como quando o fez por ela. Anos atrás. Vidas atrás. Em algum lugar em meio ao deserto, do outro lado do Mar Estreito.

— Não sei como consegue caber, Jon. Não sei. O amor que tenho por eles. Aqui – ela colocou a não sobre o coração — Obrigada— ela disse, virando-se para dentro do abraço do marido, pouco lembrando que estavam em público, que todos deveriam estar olhando – Obrigada por me dar um lar. Uma família. Tanta coisa poderia ter dado errado. Entre nós. Com eles. Com a guerra. Às vezes ainda não acredito que não deu.

— Não lhe dei nada, Dany. Não me agradeça. Sempre foi tudo seu. Sempre. Só posso agradecer por você ter tido força para reinvidicar a felicidade que merecia e por eu estar incluído nisso, compartilhando essa vida com você – Jon disse, tocando de leve seus lábios nos de sua Rainha – Vocês três são o meu lar.

~*~

Sam não se surpreendeu quando os dragões de Rhaegar e Lyanna passaram voando baixo pelos jardins e mergulharam para pousar abaixo da Fortaleza Vermelha. Também não se levantou quando a maioria dos convidados saiu dos seus lugares e foi tentar ter um vislumbre do que acontecia metros abaixo de onde estavam.

Mas nem mesmo ele se conteve quando o Príncipe e a Princesa começaram a voar perigosamente pelos céus, de uma forma que ele nunca havia visto, graças às selas de dragão que agora montavam.

Olhando para o alto, Sam tinha a vaga noção de que havia acabado encontrando um lugar na amurada, próximo de Jason Arryn e sua irmã e também de onde estavam o Pequeno Jaime e Diana Lannister. Ele perferiu se posicionar mais perto dos Lannisters do que dos Arryns, mas todos estavam calados, admirando as duas bestas aladas que perseguiram uma à outra em meio ao cpeu claro e ensolarado.

— Eles estão seguros, não estão? – o escudeiro de Rhaegar perguntou à Sam, preocupado com o Príncipe Herdeiro.

— Estão Sim, Jaime. Não se preocupe. Sabem o que fazem – Sam o tranquilizou, tocando em seu ombro.

— Um dia alguém consegue se acostumar com a visão disto? – Sam ouviu uma voz meiga perguntando. Diana, a filha da Mão, envolvia o irmão enquanto olhava para os dragões com evidente admiração.

— É difícil, milady – disse Sam, vendo a garota de cabelos dourados levar uma das mãos à frente dos olhos, se protegendo da claridade dos raios de sol.

— Você diria que já se acostumou? – ela perguntou, ainda olhando para o céu.

— Acho que acostumar não é bem o termo. É impossível olhar para eles e não pensar que são criaturas extraordinárias, que nossos olhos estão vendo algo extraordinário – disse Sam, vendo os dois dragões mergulharam e se afastarem do mar, vendo Khaleeth jogar um jato de água em Stormfire.

A garota Lannister levou as mãos à boca cobrindo um risinho surpreso, com a travessura da Princesa com o próprio irmão.

— Eles se parecem com deuses, em um mundo só deles, você não acha? – ela perguntou à Sam, finalmente desviando o olhar do céu e dos dragões e olhando para ele – A sensação que tenho é de são inalcançáveis – ela continuou ponderando, olhando além, para Jason Arryn e a irmã e para o garoto Tully, que havia acabado parando ali também.

— Às vezes penso assim também – Sam confessou à Diana, os olhos verdes da garota demonstrando surpresa – Quando estão aqui, conosco, podemos pensar que são pessoas como nós, da realeza sim, mas pessoas normais, quando a verdade é que não são.

— Mesmo em terra, não acho que sejam. Não com aqueles lobos – Sam viu a garota dourada se inclinar um pouco na direção dele, dizendo aquilo em um tom mais baixo e com um sorriso pensativo.

— Deve ser incrível ter algo tão poderoso à sua disposição, pronto para lhe obedecer, para lhe levar aonde você quiser – uma voz sensual e com sotaque surgiu entre eles – Vi o grupo dos pretendentes admirando Suas Altezas aqui, tão unido, que não resisti em me juntar a vocês – disse à princesa Q'ira, com uma risadinha irônica, deslumbrante em suas roupas soltas e transparentes demais, mas com os dois seios cobertos dessa vez.

— Me diga, melhor amigo do Príncipe, eles podem levar alguém com eles? O dragão aceitaria? — Q'ira perguntou para Sam, ficando ao seu lado, quase empurrando Arianna Arryn para longe, enroscando o seu braço ao dele, sem a menor cerimônia.

Diana notou que Sam Tarly parecia incomodado com aquele contato, com a proximidade da princesa Q’ira. Mas que permanecia educadamente parado.

— O dragão aceitaria se fosse a vontade do seu montador e se a outra pessoa estiver acompanhando o montador, Princesa. A Rainha já levou muitas pessoas na costas de Drogon, uma certa vez – Sam explicou e automaticamente todos eles olharam da Princesa Q'ira para o céu novamente, para os dois pontos escuros, voando cada vez mais longe, talvez imaginando se algum deles, algum dia, teria esse privilégio, caso se transformassem em consortes reais.

— Mas dizem que o Rei voa sozinho no dragão da Rainha. Que o Dragão mais velho serve aos dois igualmente – Q’ira observou.

O Rei é um Targaryen, princesa Q’iraSam falou, com uma expressão de obviedade – Drogon o serve porque sua domadora, a Rainha, assim o quer. Mas se ele não fosse o que é, mesmo que ela quisesse, o dragão não aceitaria voar sob o comando dele, não sem sangue valiriano correndo nas veias. Ainda assim, sua lealdade é, acima de qualquer coisa, à Rainha Daenerys.

— E Drogon é o único dragão da casa Targaryen a aceitar algo assim. Dois cavaleiros de dragão, ao mesmo tempo. Não há relatos de que isso já tenha acontecido alguma vez antes – Arthur Tully acrescentou, timidamente, parecendo ficar ainda mais vermelho do que já era, quando todos olharam na direção dele.

— Você fala, beijado pelo fogo! – Q’ira se admirou, se referindo à cor dos cabelos dele, dando um sorriso espetacular à Arthur. Um sorriso que não era debochado ou depreciativo, mas puramente surpreso – Sua voz é agradável. Deveria usá-la mais – a princesa incentivou, piscando seus incandescentes olhos para Arthur, que apenas olhava para os pés.

— Perdoem a minha ignorância – Q’ira continuou, o sotaque arrastando as palavras – Estou tentando entender como é a relação da família real com seus dragões – ela explicou, se voltando para Sam – Adoraria que alguém me contasse mais sobre eles – toda a sua posição corporal deixava claro quem era essa alguém.

— Ah...- Sam gaguejou, diante daquele convite implícito.

— Arthur pode ajudá-la, princesa – Diana se intrometeu, com pena do rapaz que agora arregalava os olhos azuis na direção delas duas – Podemos ir agora, Sr. Tarly? – Diana perguntou, para Sam, que olhava surpreso para ela, sem entender – Me mostrar os jardins. Se ofereceu mais cedo, se recorda? – ela acrescentou, piscando inocentemente para ele.

— Claro, milady. É verdade – Sam disse, se inclinando para ela – Me perdoe. Vamos – ele disse, estendendo o braço para Diana, para o desagrado da princesa Q’ira.

— Se comporte, Jaime – Diana disse ao irmão mais novo, que ainda olhava para o céu, apesar de não haver mais nenhum sinal do Príncipe e da Princesa e de seus dragões.

Diana e Sam se afastaram do resto do grupo dos pretendentes, como a princesa Q’ira os classificara, rumo aos corredores dos jardins que não estavam sendo usados para o almoço de comemoração naquela manhã.

— Obrigado – disse Sam, quando já estavam longe o suficiente. Dianna Lannister balançava a cabeça em negação, os cabelos dourados brilhando ao sol.

— Alguém precisava salvar o melhor amigo do Príncipe. Ela parece gostar de dar nomes, não é? Somos oficialmente agora o grupo dos pretendentes unidos pelo visto – Diana comentou, com um pequeno sorriso.

— Sinceramente. Ela me dá medo – Sam respondeu, fazendo a garota dourada sorrir mais largamente.

— Ela vai tentar tirar mais informações de você, Sam Tarly, em outro momento. Que os deuses o ajudem – Diana afirmou, dando batidinhas consoladoras no braço dele, com sua mão livre.

— Não sei o que ela espera conseguir de mim – Sam suspirou, olhando para os céus por um breve momento.

— Não sei em outro momento, mas hoje, com aquelas perguntas, ela queria saber se conseguiria, caso se case com o Príncipe Rhaegar, se poderia voar no dragão dele em sua companhia.... e sem ele – Diana observou.

— Duvido que ele a escolha – Sam disse, olhando com mais atenção à garota Lannister e pensando que ela realmente era filha de seu pai. Pegava as coisas no ar. As intenções por trás das palavras.

— Também não acho que ela tenha chance – Diana comentou, com um sorrisinho enigmático – Mas ela deve achar que tem – Diana ponderou, olhando para a Fortaleza Vermelha acima das cabeças dos dois.

— Como é viver aqui? Com a família real? – ela perguntou à Sam.

— Tentando conseguir suas próprias informações agora, milady? – Sam brincou com ela, fazendo-a corar.

— Talvez eu esteja – Diana respondeu – Mas não se preocupe. Não tenho a menor pretensão de subir em um dragão – ela completou, sorrindo para Sam.

— Vim para cá ainda criança, meus dois irmãos mais novos nasceram aqui. A Fortaleza Vermelha tem sido meu lar desde então. E para mim é como viver com uma grande família. É uma grande honra para nós ajudar a família real no que estiver ao nosso alcance. Eles são boas pessoas. Todos eles. E os Sete Reinos não têm isso, uma boa família no Trono de Ferro, desde Jaehaerys I eu acho – Sam tentou explicar, responder à pergunta dela.

Diana observou o herdeiro de Jardim de Cima enquanto ele falava. A devoção dele pelos Targaryen era visível. E a maneira como falava do Castelo Vermelho que fazia sombra ao passeio deles em meio ao belo jardim...ela nunca conseguiria falar daquela forma de Rochedo Casterly. Aquilo era um lugar vazio e sem vida, com apenas ela e a mãe vivendo lá.

— Você fala deles de um jeito muito bonito, Sam Tarly – Diana disse, olhando nos olhos dele – Fico aliviada que nossos soberanos sejam pessoas tão boas quanto diz.

— Eles são. Eles realmente são – foi o que Sam conseguiu dizer, meio sem graça com o jeito sincero e direto dela.

— Acho que seria fácil chamar você de amigo, Sam – ele ouviu ela dizendo, os intensos olhos verdes o analisando como se já o conhecessem.

— Acho que já posso chamá-la assim. Só amigos salvam o outro de princesas estrangeiras curiosas demais – Sam respondeu, a última parte em um tom de voz mais baixo, o que fez Diana sorrir com gosto.

Amigos, então – ela concluiu, enquanto continuavam passeando pelos jardins.

~*~

Rhaegar e Lyanna sobrevoavam baixo sobre a cidade, as sombras dos dragões fazendo as pessoas pararem nas ruas e apontarem para eles nos céus.

Mesmo que nenhum dos dois aparentemente estivesse com a menor vontade de voltar para a festa deles. Rhaegar sabia que deviam voltar.

E então?— Rhaegar gritou para Lyanna, depois de sobrevoarem sobre a cidade toda.

O que?— foi o que ele mal ouviu em resposta.

Vamos voltar?— Rhaegar perguntou, olhando para a Fortaleza Vermelha.

Fique à vontade— ela gritou de volta, com cara de desgosto. Rhaegar suspirou alto. Sua respiração e o vento que cortava sobre Stormfire, agora uma coisa só.

As selas já estão testadas! Devemos voltar! – ele chamou de novo, mas Lyanna se o ouviu direito, o ignorava.

Rhaegar então viu ela mexendo na alavanca que prendia suas pernas e enrolando suas mãos nas correntes que seguravam a faixa de couro da sua cintura. Com as pernas soltas do dispositivo, ele observou a irmã se erguer sob a sela, os pés se encaixando onde ela havia mostrado mais cedo para ele.

Ainda falta testar isso! – ela gritou para ele, as mãos segurando nas correntes enquanto Khaleeth parecia tentar voar o mais plano possível, como se estivesse ciente que sua montadora estava de pé sobre ela. De pé.

Rhaegar não conseguia nem se mexer. Apenas olhava. Olhava para a alegria que via no rosto de Lyanna. O sorriso nervoso que havia ali, pelo desafio, pela ousadia de fazer aquilo. E vê-la daquele jeito era de tirar o fôlego.

— Não vai testar? É maravilhoso! – ela gritou para ele, quando algo passou cortando o ar à centímetros dela, passando direto por cima de Stormfire, gelando o sangue de Rhaegar.

FLECHAS! – Rhaegar urrou para ela, vendo mais três setas vindo na direção deles dois, vendo Lyanna ainda de pé e Khaleeth hesitando em fazer movimentações mais bruscas, com medo de derrubar sua montadora, sem entender direito que ela não cairia.

Rhaegar circulou ao redor de Khaleeth, vendo Lyanna tentando sentar, tentando soltar os pés, precisando da cobertura dele. Stormfire voava parado, batendo às asas freneticamente, à frente delas, sabendo que estava se expondo, e talvez por isso, espirais de fumaça se soltavam de suas narinas, enquanto mais flechas eram disparadas, flechas que tentavam atingir à eles dois, pois seriam inofensivas às escamas dos dragões, que eram mais duras que o mais forte dos aços.

Mas Rhaegar agora vira de onde elas haviam sido disparadas, do alto de uma torre em parte quebrada, em meio à um bairro de comerciantes da capital.

Quando as flechas se aproximaram, Stormfire soltou suas chamas na direção delas, clareando os céus de Porto Real e fazendo com que a população à baixo deles se aterrorizasse.

Rhaegar precisava pensar rápido. Sua vontade era de reduzir a torre à cinzas, mas o incêndio não se limitaria à ela, iria se espalhar para os prédios vizinhos e inocentes morreriam. Isso também mataria os atiradores, o que não era interessante.

Lyanna! – ele gritou, ainda voando à frente dela, não querendo olhar para trás, não podendo desviar o olhar daquela torre, das flechas que continuavam sendo disparadas e desviadas pelo fogo de Stormfire.

Volte para o castelo! Mande os Imaculados aqui! Agora! – Rhaegar gritou, sem olhar para trás, sem olhar para ela.

O que você vai fazer? Vamos juntos! – Lyanna respondeu, já sentada, o coração batendo forte, o medo de que Rhaegar fosse atingido por alguma daquelas flechas...ele não estava de armadura...e estava na frente dela...protegendo-a.

VOLTE PARA O CASTELO. AGORA! – Rhaegar berrou, com raiva, sua voz sendo coberta por um rugido forte de Stormfire. Um flecha furando a membrana de uma das asas do dragão cor de cobre. Nada que o fizesse ter que descer, mas o suficiente para deixá-la ainda com mais medo.

NÃO VOU SEM VOCÊ! – ela berrou de volta.

— Preciso dos Imaculados por terra! Se quer me ajudar vá e volte. MAS VÁ AGORA! – Rhaegar gritou de novo. Precisando que ela saísse para lidar com aquilo sem estar preocupado com a segurança dela. Torcendo que o pai e a mãe não permitissem que ela voltasse voando para ali.

Lyanna hesitou. Ele tinha algo em mente. Tinha um plano. Mas ela não queria deixa-lo ali. Não podia. Se algo acontecesse com ele ela nunca se perdoaria.

Rhaegar olhou para trás, para ela, com os olhos reluzindo raiva, com o rosto mandando que ela fosse embora, suplicando que ela fizesse o que ele pedia.

Vamos Khaleeth. Rápido. Rápido— ela falou com sua dragão, as palavras amargando em sua boca, arrasada por deixar o irmão para trás enquanto voava feito um raio para o castelo.