Forbidden

6 Capítulo 6 - Dança de Sentimentos


Jane— Lyanna chamou baixinho, agarrando em uma das mãos da sua dama de companhia enquanto caminhavam pelo corredor que levava diretamente à parte elevada do salão do trono.

— Me relembre...porque eu deixei...porque preciso estar vestida assim...– Lyanna pediu, tentando bloquear o barulho abafado de milhares de vozes reunidas não muito longe dali. Milhares de pessoas que passariam a noite analisando cada detalhe dela.

— Porque essa noite é para que Vossa Alteza brilhe. É a sua noite. O seu baile. É o momento para a Princesa dos Sete Reinos ser a mulher mais admirada por todos. E Vossa Alteza vai ser. Eu nunca a vi tão...– Jane falava, procurando uma palavra adequada, apertando a mão dela, com certeza sentindo como ela suava frio.

— ...tão parecida com uma cortesã?— Lyanna interrompeu. Sentindo o frio das correntes de ouro que tocavam na pele nua das suas costas.

— Não Alteza! Pelos deuses! – Jane parou de andar, olhando de esguelha para os Imaculados que as seguiam, pegando as duas mãos de Lyanna nas suas agora – Vossa Alteza não está parecida com uma cortesã. Suas vestes não tem nada disso! São apenas diferentes das que está acostumada a usar – Jane garantiu.

— Pois eu me sinto como uma. Essa maldita roupa mal deixou espaço para que eu respire. E meu rosto...eu não quero aparecer assim. Não sei se consigo – Lyanna falou, paralisando onde estava, fechando os olhos em agonia, lembrando que até eles estavam pintados. Assim como seus lábios e suas bochechas.

— Princesa....você está exagerando. Não confia em mim? – Jane perguntou com uma expressão chateada – Você está linda. Linda. Acredite em mim. Seu rosto, suas vestes...Está tudo perfeito. Entre com segurança, de cabeça erguida Alteza – Jane pediu, apertando mais as mãos de Lyanna, vendo os guardas inquietos pela demora delas duas – Suas Majestades estão aguardando. Já nos demoramos demais. Precisamos ir, Alteza. Vai dar tudo certo. Não se preocupe – garantiu Jane.

Lyanna respirou fundo. Balançando a cabeça em afirmação. Ridiculamente. Debilmente. E se obrigou a dar um passo após o outro, um passo após o outro, até chegar ao local onde os pais e o irmão a aguardavam.

Ela tentou caminhar ereta. Com confiança, como Jane havia dito, tentando não pensar muito naquela veste que era dura em alguns lugares e lânguida em outros, tentando lembrar como sua mãe se movimentava quando usava roupas como aquela. Roupas feitas para mulheres seguras de si e não para aquelas que apenas gostavam de ficar quietinhas no canto mais silencioso de uma biblioteca.

Seus ombros pesavam, cobertos de escamas de dragão de ouro, finas correntes passando de um lado ao outro sobre suas costas, sobre a pele em grande parte descoberta, visível através da cascata de elos dourados.

Tão descoberta como seu colo estava naquele decote. Mostrando demais. Colado demais. Ela nunca havia usado algo assim, sem muitas camadas de tecido cobrindo seu pudor, com tudo tão agarrado ao seu quadril, à sua cintura, restando algum movimento apenas nas pernas, ainda assim, sem nenhum volume decoroso.

Porque deixei que fizessem algo assim? Onde eu estava com a cabeça? Não sou sensual. Não sou bonita. Não sou isso. Lyanna se lamentava. Até se deparar com o restante da família real de olhos arregalados para ela.

~*~

— O sol já se pôs. Ainda teremos toda a parte formal antes de podermos começar o baile. Onde ela está? – Jon perguntou para Daenerys, olhando para trás e não vendo nenhum sinal de aproximação da filha, enrugando a testa de preocupação.

— Não fique ansioso. Não aconteceu nada. Ela já deve estar chegando – disse Dany, ajeitando a pesada coroa na cabeça, mexendo na de Jon em seguida, e passando as mãos pelas lapelas das vestes de Rhaegar.

— Posso ir até lá. Ver se está tudo bem. Buscá-la...– Rhaegar sugeriu, tentando não revirar os olhos para o repetidos toques da mãe nas vestes dos três, quando viu a irmã surgir no corredor, acompanhada de Lady Jane, de Lys e de sua comitiva de Imaculados.

Rhaegar deu um passo pra trás, como se alguém tivesse lhe dado um soco no estômago. A sensação de tentar respirar e não conseguir era impressionantemente igual. Por sorte seus pais estavam tão surpresos quanto ele para perceber sua reação. Os dois deram um passo para frente, se virando para encarar Lyanna. Todos sem palavras.

De quem foi a ideia de vesti-la desse jeito?— Rhaegar ouviu o pai sibilando pausadamente para a mãe. Em choque. As costas rígidas. Igualzinho à como ele próprio estava.

Eu aprovei pessoalmente todos os desenhos de todas as nossas vestes para as comemorações – Daenerys afirmou, com a voz impositiva – Se controle, Jon. Pelos deuses! Você nem viu as costas. O detalhe mais bonito está nas costas – Dany provocou o marido.

Bonito? Você ficou louca? – Jon rebateu – Ela está...está...

— Linda? Deslumbrante? – Dany perguntou, olhando para trás, para o filho e vendo-o com o mesmo olhar assustado de Jon. Homens. Ela pensou, suspirando.

— Isso é muito chamativo. Sensual demais. Ela é só uma criança. E não tem jeito para isso – Jon argumentou, se calando em razão da aproximação da filha. Tentando sorrir para ela. Tentando não olhar com severidade para o decote da roupa. Tentando. E achando que não estava conseguindo.

— Ela não é mais uma criança – Dany revirou os olhos – É uma mulher. E é tímida demais. Não sabe o quanto é bonita. Precisava de um...incentivo...para essa noite – Dany falou baixo, apenas para Jon escutar. O maxilar do marido pareceu ficar ainda mais tenso. Ela se conteve. Não disse mais nada. E tentou sorrir para Jon.

Jon engoliu a resposta que se formou em sua boca. Lyanna não era mais uma criança. Ele sabia daquilo. Seus olhos viam aquilo, naquele exato instante. O que não tornava menos difícil saber que ela tinha sido vestida para ser o objeto do desejo e da admiração de qualquer homem que colocasse os olhos sobre ela naquela noite.

Ela era uma Princesa. Isso por si só já faria dela uma mulher disputada. Aquilo, aquela roupa, não era necessária. E ele quase disse isso para Dany, mas se calou. Principalmente depois de observar melhor as vestes que a própria esposa usava.

Luxuosas, sim. Dignas de uma rainha. Mas o vestido roxo escuro era extremamente coberto e com cortes retos. Dany havia se vestido para não chamar atenção. Para não tirar o protagonismo da filha. Jon podia não admitir, mas aquilo o deixava profundamente grato. Ele não tinha nervos suficientes para ver centenas de homens admirando lascivamente as duas mulheres da sua vida e não perder as estribeiras em algum momento.

— Perdoem meu atraso – Lyanna falou, fazendo uma mesura diante dos pais. Uma meia mesura na verdade. Não dava para fazer uma direito sem mostrar ainda mais o seu decote. E o pai dela podia até estar tentando disfarçar, mas ela o conhecia bem demais para saber que ele não estava gostando nada do que via.

— Não tem problema – Dany disse, sorrindo para a filha – Você está deslumbrante. Estou orgulhosa, filha – ela falou. O sorriso de Lyanna foi vacilante em resposta ao elogio da mãe.

Ela olhou para o irmão, que estava incomumente silencioso e quieto, e para o pai deles que lhe deu um sorriso nervoso antes de oferecer o braço para Daenerys.

— Vamos entrar de uma vez – Jon disse, limpando a garganta, acenando com a cabeça para os Imaculados, um deles indo à frente para mandar que anunciassem a entrada da família real.

Rhaegar estendeu o braço para ela. Ainda sem dizer nada. E ela notou que eles estavam vestidos com cores opostas às do evento da manhã, no Septo.

Ela era quem usava negro e dourado agora, enquanto o irmão trajava uma luxuosa casaca vermelho escuro, bordada com o que lembravam chamas prateadas ao longo do peito, até a gola alta, com um botão aberto, com certeza seu toque pessoal de displicência.

Mas diferente dela no Grande Septo, ele não estava todo de vermelho. As calças pretas, as botas escuras na altura dos joelhos e a faixa negra que atravessava seu peito faziam dele uma pintura da casa Targaryen.

Vermelho e Negro em cores. Prata e violeta nas feições sem defeito. Uma perfeição Valiriana ambulante. Como ele sempre havia sido.

— Está tudo bem? – Lyanna perguntou à ele. Olhando ao redor, observando os lobos ladearem os dois, se perguntando porque ele estava tão quieto e calado. O irmão estaria nervoso também? Não. Dificilmente. Ele sempre se saia muito bem nesse tipo de evento. Deveria haver outro motivo. Algo com a segurança talvez? Ela se perguntava.

— Sim – foi tudo que ele disse por alguns segundos, até que os quatro finalmente começassem a andar em direção ao fundo do salão do trono.

— Está nervoso? – Lyanna perguntou, tentando um tom mais leve, quase uma provocação. Rhaegar olhou nos olhos dela com uma seriedade fora do comum e ela podia jurar que sentiu o braço dele entrelaçado no seu se enrijecer um pouco.

— Não – ele disse, quase ríspido. Lyanna se encolheu com aquela resposta brusca. E talvez ele tivesse percebido, porque quando continuou falando, tentou parecer mais relaxado – Vamos receber convidados, elogios, presentes, dançar e beber a noite toda. Fácil— o irmão falou, com um meio sorriso, sim, mas ainda sem olhar para ela.

Fácil. Ele dizia. Bem, para ele com certeza seria. Lyanna pensou, ajeitando a postura o melhor que pode, enquanto finalmente convergiam para o salão do trono, direto para o Trono de Ferro e para a multidão que os aguardava.

~*~

Rhaegar nunca havia visto o Grande Salão daquele jeito. Tão repleto de gente que não havia sequer um espaço vazio por todo o lugar.

As grandes colunas espalhadas ao longo do maior recinto da Fortaleza Vermelha tinham ganhado uma nova decoração, fios de ouro, prata e cobre rodopiavam nelas destacando dragões ricamente entalhados, brilhando à luz dos inúmeros candelabros suspensos por todo o lugar, milhares de velas bruxuleando e iluminando o teto alto acima de todos.

Flâmulas finas pendiam de alguns lugares do teto também, mas não com o dragão de três cabeças e sim com os dragões deles, o mesmo desenho da casa real, mas apenas uma única cabeça ao invés das três, e não o dragão vermelho, e sim em algumas um dragão acobreado sob fundo negro, em outras um dragão verde oliva sobre fundo negro. Stormfire e Khaleeth. Em homenagem à ele e à irmã.

Longas mesas foram dispostas por todo o lugar, de uma lateral à outra. Eram tão longas que com certeza haviam sido encomendadas para aquela ocasião. E não era ladeadas por bancos e sim por luxuosas cadeiras. O que significava que deveriam haver cerca de três mil delas ali. Agora ele entendia como o Pequeno Conselho havia gastado tanto ouro para a bendita comemoração.

A única parte do salão que estava vazia era a parte separada para a dança e para as apresentações musicais. Logo abaixo da escadaria que levava aos tronos, delimitada por uma comprida e luxuosa mesa que havia sido posta ali, virada de frente para o restante do salão.

Até o entorno dos tronos havia ganhado adições decorativas, dois assentos de obsidiana, negros e brilhosos como o da mãe, mas não tão grandes e imponentes como o dela. Os lugares deles para aquele primeiro momento, que já ia se iniciar.

Todos os presentes no salão estavam de cabeças curvadas com a entrada dos quatro. Com o Rei conduzindo sua Rainha até os tronos de ambos e sentando neles, sob um silêncio respeitoso e reverente. Rhaegar vinha logo atrás, caminhando firme ao lado de Lyanna, levando-a formalmente pela mão até o assento de obsidiana ao lado da mãe.

Eles não haviam treinado aquela entrada, apenas sido informados de que sentariam ao lado dos pais, ao lado dos tronos.

Lyanna permaneceu de pé, em frente ao seu, olhando para ele com aquela expressão de nervosismo e insegurança que Rhaegar detestava ver no seu rosto, enquanto as mãos dos dois ainda estavam unidas.

— Você está perfeita – ele sussurrou para ela, engolindo em seco, deixando um beijo breve na mão da irmã e lhe fazendo uma profunda mesura – Relaxe— ele completou, ao levantar o tronco, conseguindo lhe dar uma rápida piscadela, enquanto seu próprio coração ribombava em seu peito, enquanto ele próprio não estava nada relaxado.

Rhaegar caminhou até seu próprio assento de pedra negra, ao lado do seu pai e só então ela, os dois, se sentaram também, para o alívio de seus súditos, que agora podiam erguer as cabeças e olhá-los diretamente, apreciando o espetáculo sombrio que era ver dois lobos gigantes se sentando como gárgulas ao lado da família real. Blackfire e Lys sabiam como causar impacto para o público.

E a parte chata da coisa toda iria começar. Uma voz retumbante dava as boas vindas aos lordes e ladys de todo o reino e para os ilustres convidados do além-mar.

Os membros do Pequeno Conselho, com exceção daqueles que eram Protetores de Territórios, Lorde Samwell e Lorde Tyrion, foram os primeiros a vir até o espaço vazio diante do trono, para os cumprimentos formais, depositando presentes aos pés da escadaria do trono e proferindo palavras de felicitações ao Príncipe e à Princesa dos Sete Reinos.

Primeiro Lorde Daemon Celtigar e sua esposa, Lady Elide, seguido pelo Grande Meistre Gerald e suas correntes barulhentas.

Aquilo levaria uma eternidade. Rhaegar se lamentava. E ao final, vou estar com torcicolo. Concluía, maneando a cabeça em agradecimento a cada palavra e a cada presente depositado diante deles e imediatamente recolhido pelos guardas.

Sir Davos Seaworth e seu filho, Sir Jonas e sua família, foram os próximos e ele observou o sorriso do pai aparecer ao ver o velho amigo aparentemente melhor de saúde, caminhando sem a bengala. Verme Cinzento e Missandei surgiram em seguida, acompanhados de uma garota que eles não conheciam.

— Suas Majestades. Suas Altezas – a conselheira da Rainha falou, curvando a cabeça – Está é Nehemia. Em nome dos órfãos de Porto Real, ela trás um singelo presente ao Príncipe e à Princesa, feito por eles mesmos, em agradecimento ao sustento que Vossas Graças mantém à eles.

Rhaegar observou a garotinha sardenta e de pele queimada nervosamente colocar duas pequenas caixas incrustadas de conchas do mar, diante deles.

Missandei cuidava de todos os orfanatos da capital à muito tempo, com muita dedicação. Ela não podia ter filhos de Verme Cinzento, mas era a mãe de todas as crianças que também não podiam contar com seus pais.

Os quatro sorriam para o casal e para a pequenina. Mas o sorriso de Lyanna era o maior de todos eles. O que não era, definitivamente, pouca coisa, quando todos sabiam o quanto a irmã era difícil para sorrir.

Rhaegar estava tentando, com todas as suas forças, não ficar olhando muito para ela, desde que ela surgira diante dele daquele jeito, vestida como uma deusa, com os lábios vermelhos, os olhos pintados e realçados, sem falar nas outras...nas outras coisas igualmente realçadas. No decote. Na cintura.

Pelos deuses. Preciso me controlar. Principalmente com o reino todo de testemunha, de olho em tudo que eles faziam. Mas com aquele sorriso estampado, ele estava falhando miseravelmente em seu propósito.

Obrigada, Nehemia – a voz de Lyanna se fez ouvir, surpreendendo à ele e aos pais também – É uma honra receber o seu presente – a irmã completou, levando uma mão ao coração. E ao decote que obviamente estava acima dele.

Rhaegar precisou desviar o olhar mais uma vez e praguejou mentalmente.

Com os membros do Pequeno Conselho tomando assento na mesa de honra, era chegada a hora dos Lordes Protetores dos Territórios. E o Norte, por ser o maior deles e pela proximidade com o Trono de Ferro, obviamente seria o primeiro.

Sua tia, Lady Sansa Stark, a Protetora do Norte, não pôde viajar até a capital em razão do estado avançado da quinta gravidez. O marido, Lorde Brandon Karstark, não quis deixá-la. Por essa razão os Starks de Winterfell seriam representados pelos dois filhos mais velhos da tia, Eddard e Robb, seus primos, com nove e oitos anos, cada um.

Rhaegar observou os pequenos lordes, com os pesados mantos de pele de lobo se colocarem diante deles e deu um grande sorriso para os dois. Eddard, a quem todos chamavam de Jovem Ned, não podia ter recebido um nome mais apropriado.

Era muito parecido com o Rei, que todos diziam que era muito parecido com o Tio que o criara como pai, sem que ninguém nunca suspeitasse. O mesmo rosto comprido, os mesmos cabelos negros, a mesma expressão séria, apenas os olhos eram diferentes, de um azul límpido como os de Sansa, herança dos Tully, e não o cinzento cortante que ele tão bem conhecia, marca dos Stark e dos Karstark.

O irmão mais novo, Robb, tinha cabelos ruivos como os da mãe, uma cara sapeca que lembrava à Rhaegar das filhas da sua tia Arya, Visenya e Nimerya. Os olhos eram azuis também. O que levava ele a pensar que o garoto seria de fato, parecido com o Jovem Lobo, com o irmão que o pai havia perdido no Casamento Vermelho.

— Meu Rei. Minha Rainha – Jovem Ned os cumprimentou, com uma reverência, o irmão o imitando – Em nome de Lady Sansa Stark, o Norte os cumprimenta e deseja os melhores votos ao Príncipe Rhaegar e a Princesa Lyanna. Que os deuses novos e antigos os abençoe hoje e sempre — o garoto completou, com segurança, apresentando baús com ricas peles de lobos diante deles.

Rhaegar não se surpreendeu nada quando o pai se levantou do trono e desceu os degraus que levariam até os sobrinhos. A maioria do salão tornou a reclinar as cabeças, enquanto os olhos observavam atentos àquela demonstração de explícito carinho do Rei.

— Bem vindos, sobrinhos – Jon falou, beijando cada um deles no rosto, sorrindo como só sorria para a família – Sintam-se em casa – o Rei completou, voltando para o Trono sob o olhar quase repreensivo de Daenerys, enquanto os garotos Stark seguiam para a mesa de honra.

Mas a mãe não disse nada ao marido. Afinal, aquela era uma briga que ninguém deveria comprar. Apesar de ser Rei de todos e não dever demonstrar favorecimentos, o pai dele sempre seria caloroso com a família. Sempre. Sem se importar com a ocasião. Dissessem o que dissessem.

Os próximos a virem diante deles, foram os Arryns. Representados unicamente pelo filho e pela filha de Lorde Harrold Arryn. O homem não gostava muito dos Starks. Principalmente da Lady de Winterfell. Paixão não correspondida, pelo que as más línguas diziam. Não era surpresa que não tivesse se dignado a vir pessoalmente.

Sir Jason Arryn e sua irmã, Arianna Arryn, se colocaram diante deles e Rhaegar não gostou nada de para onde Sir Jason olhava. E nem para quem olhava de volta, surpresa e curiosa.

~*~

— Suas Majestades – Lyanna ouviu Jason Arryn dizer para seus pais – Alteza – ele falou em seguida, rapidamente, para Rhaegar – Minha Princesa— ele disse, virando-se na direção dela, em uma mesura profunda. A mais profunda de todas que ele se dignou a fazer até o momento, os olhos verdes pinho cravados nela, olhando-a de cima à baixo.

Lyanna se remexeu na cadeira, sentindo-se nua diante da avaliação do belo homem à sua frente. Ousado. Ela pensou, observando-o agora de pé, os dedos da mão ajeitando os cabelos negros com charme. Bonito. Muito bonito, como realmente havia sido dito pelo Pequeno Conselho. Uma beleza máscula, ela notava. Nomeado cavaleiro aos dezoito anos, agora com vinte, ele era alto e obviamente forte. A túnica azul que usava era colada o suficiente nos braços e no tórax para deixar pouco espaço para a imaginação.

— O Vale os cumprimenta nesse dia festivo, com sua amizade e lealdade. Que o Príncipe e a Princesa – o jovem lorde continuava dizendo, ainda com os olhos voltados apenas para ela – sejam abençoados pelos deuses. Eu e minha irmã, Lady Arianna – ele apontou para a garota tímida e sem graça parada desengonçadamente ao lado dele, obrigando todos a se darem conta da sua presença ali também – estamos profundamente honrados em celebrar o dia do nome de Vossas Altezas aqui em Porto Real – ele concluiu, com mais uma mesura, para Lyanna.

A garota, que na verdade não era mais uma garota, mas sim uma mulher, tinha vinte e dois anos, se Lyanna bem se lembrava dos relatórios constrangedores de Lorde Tyrion. E parada ali, diante deles, corava profusamente ao olhar para Rhaegar, com os olhos arregalados. Típico. Lyanna bufou, tentando não revirar os olhos.

O que o irmão dela tinha de bonito e imponente, a garota tinha de...simples. Nada dos traços fortes de Sir Jason, nem dos olhos verdes incandescentes e espertos. Seus cabelos eram castanhos e os olhos também. E ela parecia agora que estava tremendo. Lyanna sentiu empatia por ela. E tentou sorrir amigavelmente para a garota, quando ela finalmente tirou os olhos do seu irmão.

Enquanto caixas eram colocadas diante deles, Lyanna olhou para sua família. O pai parecia ter comido algo amargo demais. Rhaegar mal olhava para a pobre da garota Arryn, preferindo encarar altivamente o irmão dela. E sua mãe, bem, a Rainha parecia que estava admirando Jason Arryn tanto quanto qualquer outra mulher com olhos naquele salão.

Para sua surpresa, Sir Jason pegou uma das caixas e a abriu virando-a para a direção dela. E, obviamente, ela olhou com curiosidade para dentro.

— Livros raros das cidades livres, Princesa Lyanna. E os meus preferidos da biblioteca do Ninho da Águia – ele disse, pronunciando o nome dela de um jeito que fez seu pai limpar a garganta mais alto do que era necessário – Espero que sejam do seu agrado.

— Obrigada, Sir Jason. Tenho certeza que serão – ela respondeu, com um leve inclinar de cabeça – Lady Arianna, bem vinda – ela incluiu, com pena da garota, soltando a respiração quando o casal de irmãos também se dirigiu à mesa de honra.

Os próximos foram os Tullys. Lorde Edmure, a esposa, Lady Roslin e o filho deles, Arthur, um rapaz ruivo e um pouco sardento, com olhos azuis de atenção dispersa, parado quase atrás da mãe, como se não quisesse chamar atenção para si.

Lorde Edmure proferiu palavras breves e cordiais, apresentou seus presentes e logo estavam se dirigindo à mesa de honra, como todos os outros que haviam passado por ali. Arthur olhou nos olhos de Lyanna uma única vez, apenas para lhe fazer uma mesura. Tímido. O leitor. Segundo a análise de Lorde Tyrion. Lyanna avaliou, suspirando, ajeitando a postura.

Em seguida Lorde Tyrion surgiu, com uma profunda expressão de desagrado por ter que caminhar ao lado da esposa, Lady Elena Westerling. O Jovem Jaime vinha sorridente ao lado do pai, encarado apenas Rhaegar, claro. O menino idolatrava ele. Mas a atenção de Lyanna se voltou para a garota ao lado de Lady Elena. Dianna Lannister.

Tudo que Lyanna pensou ao vê-la foi que Lorde Tyrion tinha razão. A filha era muito bonita. Os cabelos eram dourados e ondulados, como as vestes que ela usava. Os olhos verdes claros, bondosos como os de Jane pareciam ser, mesmo a quem a olhasse pela primeira vez.

O rosto era redondo. Angelical. O sorriso, doce, tímido. Ela olhava com curiosidade para Rhaegar, mas sem se demorar abobalhadamente, já que em seguida Lyanna observou que ela olhava para ela também. E para o Rei e para a Rainha. Parece esperta. Tem um olhar perspicaz. Como o pai. Lyanna observou, ela própria cumprimentando a Mão do Rei com um leve aceno da cabeça.

Um emissário das Ilhas de Ferro surgiu diante deles em seguida, também sendo breve. E depois Lorde Gendry Baratheon e suas primas, sem a presença da mãe, que só os deuses deveriam saber por onde andava. Lyanna não gostava de pensar nos perigos que a tia enfrentava pela segurança da sua família.

Ela olhou para as pequenas diabinhas, tão parecidas com ela, tão felizes por estarem perto do pai, e pediu silenciosamente aos deuses para que elas nunca precisassem chorar pela perda da mãe, mesmo ela sendo como ela era.

Ninguém se surpreendeu quando Visenya quis levar seu presente diretamente para Rhaegar, e ainda apontou para a própria bochecha para ganhar um beijo dele. Nem quando Nymeria só deixou o pai levá-la para longe depois de acariciar Lys.

Os Talys, quando surgiram, ocuparam quase toda a frente dos dois tronos e dos dois acentos de obsidiana. E receberam sorrisos calorosos de todos os quatro.

Lorde Samwell e Lady Gilly eram queridos por todos, eram como se fossem família, de verdade. Espalhados ao redor dos pais, Lyanna tentava não rir da cara que Jon Tarly fazia para Rhaegar, de puro divertimento e sem vergonhice, ou da expressão platônica e respeitosa de Dickon para o Rei, ou do jeito tímido de Aemon, o mais novo dos Tarlys.

Ou de Sam. Que estava claramente nervoso, sob o olhar de falcão de Jon. E de Rhaegar. Qual era o problema deles? Sam não merecia aquilo. Aquela...intimidação. Não era um desconhecido. Nem atrevido, como aquele Jason havia sido. Não à toa, ele pareceu suspirar quando acompanhou sua família até a mesa, agora quase cheia.

Lyanna sabia que Khal Haggo e sua Khaleesi Mirra, não compareceriam. Haviam sido informados disso por Arya na noite anterior. Não era um bom momento para que eles se ausentassem de Dorne. Mas eles haviam enviado um emissário Dothraki e lindos cavalos de presente, pelo que Lyanna ouviu dizer. Ela ainda não os tinha visto pessoalmente. Mas não via hora de poder cavalgar neles.

Emissários de outros reinos e das cidades livres passaram diante deles, alguns precisando de intérpretes, todos oferecendo presentes exóticos e bonitos, enquanto o tempo corria lentamente, maçantemente. Até que só restavam mais duas delegações estrangeiras para se apresentarem diante deles.

Uma princesa qarthena, filha do líder dos Puronatos, o grupo que governava a cidade de Qarth e o Capitão das forças Targaryen na Baía dos Dragões. Um homem chamado Daario Naharis.

Rhaegar e Lyanna trocaram um breve e aflito olhar, quando o capitão finalmente surgiu diante deles.

~*~

Bem, o momento havia chegado. Jon pensava consigo, controlando a respiração. Ele podia sentir a tensão de Daenerys ao seu lado, a maneira como ela o olhava. Os olhos violeta ansiosos para que tudo corresse bem.

Mas ele estava calmo. E continuou assim, quando viu o guerreiro caminhar a passos largos e firmes para diante deles dois.

Ele estava determinado a não demonstrar uma gota sequer de incomodo com a presença do homem ali. Mesmo que muitos sussurrassem sobre o antigo envolvimento dele com a Mãe dos Dragões. Aquilo não o abalaria. Ele não permitiria.

O homem era alguns anos mais velho que ele. Não muitos. E como ele, ainda exibia boa forma, cada pedaço do seu corpo gritava sua perícia na guerra. Jon conseguia reconhecer aquilo com facilidade. A linguagem corporal de um predador.

Os cabelos eram menos grisalhos que os dele, poucos fios brancos. O rosto, entretanto, apesar de coberto por uma barba negra, era mais maltratado, queimado do sol. As vestes eram diferentes das westerosis, a couraça mais colorida. E no centro dela, um dragão de três cabeças reluzia, chamando atenção.

Mãe dos Dragões— Jon ouviu a voz do homem ressoar enquanto ele se ajoelhava diante do trono de Daenerys, olhando para ela, unicamente, com uma lâmina curva, em meio círculo, estendida sobre as mãos na direção dela.

— Capitão Naharis – Daenerys falou – Bem vindo ao meu lar – ela o cumprimentou e sorriu discretamente. Jon precisou usar toda a sua força de vontade para não fazer nenhum movimento que revelasse seu desconforto. Não se permitiu sequer fechar as mãos com força.

— É uma honra, minha Rainha – o homem respondeu, ainda de sob um joelho, ainda com a cabeça curvada.

— Levante-se, Daario Naharis – Daenerys pediu e foi atendida prontamente – Esse é meu marido. Sangue do meu sangue. Filho do meu irmão Rhaegar – Dany falou, uma das mãos sutilmente tocando no braço de Jon – Aegon VI. Rei dos Sete Reinos – ela completou, e Jon podia jurar que os olhos dela brilharam um pouco mais ao dizer aquilo.

Um dragão, como eu. Foi o que ela quis dizer nas entrelinhas para o ex amante. Jon a conhecia bem demais para ver com clareza o brilho determinado e cheio de avisos ao capitão nos olhos dela.

— E esses, são nossos filhos. Príncipe Rhaegar e Princesa Lyanna – Dany completou, olhando para os dois e depois para o capitão novamente.

Majestade. Altezas. É uma honra conhecê-los – Naharis os cumprimentou, inclinando-se na direção de Rhaegar e de Lyanna, mas não exatamente na de Jon.

Uma resistência sutil. Jon notou. E ignorou. Daenerys olhava para ele, esperando que dissesse algo. Os filhos certamente não diriam, os dois estavam tensos, como se soubessem de tudo que se passava ali entre o pai e a mãe e o estrangeiro diante deles.

Talvez eles soubessem, de fato. Os dois eram muito espertos. E por qual outro motivo Blackfire estaria mostrando as presas para o homem? O lobo ainda estava silencioso e quieto, mas o olhar do capitão para o animal era de alerta.

Jon não iria lamentar nenhum pouco se o lobo gigante mordesse sem querer alguma parte não vital de Naharis e o deixasse convalescente até o final das comemorações.

— Bem vindo à nossa corte, capitão Naharis. Junte-se à nós em nossa mesa de honra, em nome da Baía dos Dragões – Jon falou, encarando o homem nos olhos e não vendo ele desviar do seu olhar por nenhum segundo. Está me medindo, o desgraçado. Analisando se sou um aristocrata perfumado que aquece o trono ao lado dela. Jon notava, lembrando das palavras de Dany sobre o que o ex amante dizia sobre um futuro marido dela.

— Obrigado, Sua Majestade – foi tudo que Naharis, inclinando-se para Daenerys mais uma vez, antes de seguir para a mesa.

Jon podia jurar que ouviu um suspiro coletivo de alívio de tensão surgir entre eles quatro. Os filhos sabiam. Sem dúvida. E por algum motivo, aquilo o irritava ainda mais.

Dany olhava para ele com uma expressão de “não foi tão ruim assim, não é?”, quando a última delegação estrangeira foi anunciada. Qarthenos. Uma princesa qarthena.

Um grupo com vestes exóticas se destacou da multidão, caminhando na direção dos tronos, causando certa comoção, pelo olhar de surpresa e pela murmuração que as pessoas desatavam a elevar assim que os viam.

E Jon entendeu o porque, assim que a princesa qarthena surgiu diante de seus olhos, caminhando na sua direção.

~*~

Pelos deuses! – Lyanna deixou escapar, baixinho, diante da visão da mulher de pele negra e de olhos impossivelmente cinzentos, quase azuis, quase prateados, ela mal saberia dizer a cor certa. E mal se deteve olhando para os olhos, quando todo o resto...quando dava par ver todo o resto.

— É um tokkar, uma veste tradicional qarthena – Daenerys explicou, a delegação ainda estava longe o suficiente para não ouvirem. O barulho de múrmuros chocados também ajudava a abafar o som.

Todos eles, o salão todo ainda estava sem polvorosa. O tal tokkar não passava de faixas de tecido enroladas no corpo da mulher, deixando um seio de fora. Completamente descoberto. Assim como parte da sua barriga e de suas pernas. Não que não desse para ver muito bem a forma do restante, os quadris largos estavam muito bem marcados pelo tecido iridescente, brilhoso, quase da cor dos olhos dela.

Lyanna podia jurar que ouvia engasgos surgirem pelo salão. E em um olhar rápido, muitas senhoras descontentes puxando os maridos para longe da cena que se desenrolava.

— É estranho para os nossos costumes, eu sei, mas até que é agradável de usar, se bem me lembro. Principalmente quando está calor – Dany comentou, atraindo os olhares estupefatos do marido e dos filhos para ela.

— Você já vestiu...isso? – Jon perguntou, voltando a olhar na direção da princesa, agora muito mais próxima, e depois para a esposa.

— Uma vez só, em Meeren – Dany explicou, achando que o marido havia ficado um pouco mais pálido – Fui aconselhada a usar...em uma reunião de estado— ela completou, sorrindo um pouco.

— Estou tentando não imaginar a cena – Rhaegar comentou, com desgosto.

— Suas Majestades. Suas Altezas. Lhes apresento Q’ira Daxos Emeros, filha de Egon Emeros, líder dos Puronatos, princesa de Qarth – um vassalo fluente no idioma comum, parte da comitiva dela, proclamou, curvando-se para eles e depois para a princesa qarthena, que caminhou altivamente, parando diante do Trono de Ferro.

— Suas Majestades. Suas Altezas – ela os cumprimentou, com um sotaque arrastado, inclinando a cabeça levemente, os cabelos longos e negros ondulando como seda ao redor do seu corpo, resvalando em seio nu exposto em meio ao tecido que se enrolava por seu corpo.

— Bem vinda, princesa Q’ira – Daenerys a cumprimentou, amigavelmente, fazendo um grande esforço para não olhar para o seio da princesa. Não só ela, mas todos ali.

— Estou muito feliz por conhecer Porto Real em uma data tão alegre – a princesa falou, em um alto valiriano perfeito. Daenerys sorriu, mas antes que pudesse responder, alguém o fez por ela.

— E nós estamos igualmente felizes por tê-la conosco, princesa – Lyanna se antecipou, adorando usar seu alto valiriano, e principalmente, ver o olhar de surpresa que surgiu no rosto da beldade morena parada à sua frente.

— Trouxemos presentes. Espero que gostem. Do coração de Qarth para os dragões – Q’ira Emeros apontou para baús abertos, ainda em alto valiriano. Dentro do de Lyanna e de Daenerys haviam joias e braceletes e um tokkar para cada uma.

Lyanna corou. Daenerys sorriu tranquilamente, enquanto agradecia e pedia à princesa que se juntasse à mesa deles, como haviam feito todos os outros que passaram por ali. Lyanna se manteve calada, observando o olhar da princesa para Rhaegar e o dele para ela. Lyanna tentou não imaginar os dois dançando, apesar de saber que com certeza veria aquilo em momentos.

Mas quando a princesa caminhou lentamente para a mesa de honra, ela podia jurar que não era para o irmão que ela estava olhando e sim para seu pai.

~*~

Música encheu o grande salão enquanto o jantar começou a ser servido. Música como Lyanna pouca vezes tinha ouvido naquela corte. Rica, exótica, com batidas instigantes. Boa o suficiente para quase lhe fazer esquecer que em breve teria que dançar muitas vezes ao som delas diante de três mil pessoas.

Mas não para distrair totalmente da tensão que era comer e beber qualquer coisa naquela noite, com a ameaça de Dorne sobre as cabeças deles, sobre as vidas deles.

Não quando todas as pessoas com assento na mesa de honra tinham alguém designado para provar a bebida antes que fossem servidas em suas taças, às vistas de todos, e não apenas nas cozinhas como comumente acontecia.

As bebidas eram provadas lá antes de virem para as mesas, mas Verme Cinzento e Arya haviam insistido que não era suficiente. Um servo poderia colocar algo no caminho, entre as cozinhas e as mesas. Por isso as bebidas deveriam ser provadas novamente, logo antes de serem servidas. E ver aquilo se repetir toda vez que sentia sede, estragava qualquer jantar, pelo menos para ela.

As comidas foram preparadas com os Imaculados nas cozinhas. Lyanna tinha ouviu falar dos transtornos que isso havia causado por lá. Se um mero ajudante sequer enfiasse as mãos nos bolsos na área do preparo, os Imaculados arrastavam para fora. E até que o mal entendido fosse desfeito, muito tempo se passava. E o preparo de tudo demorou ainda mais.

Os ingredientes foram testados separadamente. E tudo era provado depois de feito. Mas ainda assim os pratos saíam das cozinhas escoltados por dois Imaculados até chegarem às mesas.

Ver aquilo, simplesmente lhe tirava a vontade de comer. E numa mesa de jantar, quando não se come, pelo menos se conversa. Outra coisa à qual ela não era naturalmente muito inclinada à fazer.

Mas ela era a Princesa dos Sete Reinos. Precisava ser uma anfitriã agradável, foi educada para isso. Com isso em mente, ela se obrigou a trocar breves amenidades com Arianna Arryn e com Diana Lannister, apesar de não conseguir conversar por muito tempo com ninguém, não com todos os mais jovens à mesa tendo sido posicionados propositalmente próximos dela e de Rhaegar e longes de seus pais ou acompanhantes.

Jason Arryn, com aquele olhar penetrante e cheio de sorrisos charmosos estava sentado bem à sua frente, entre Arthur Tully e a própria irmã, Arianna. Sam ocupava seu lado esquerdo e Rhaegar, graças aos deuses, seu lado direito. Ainda assim, estava muito próxima dos três candidatos à marido. E aquilo a deixava tensa. Saber que provavelmente estavam observando até o jeito como ela levava a taça de vinho para a boca.

Já decidiu qual deles vai ter a honra de ser o primeiro a dançar com você?— Rhaegar se aproximou do ouvido dela e perguntou, com um olhar cínico no rosto depois de mal ter tocado na comida também.

Nosso pai vai ser o primeiro a dançar comigo. Como nós ensaiamos, lembra? Se me recordo bem, você estava lá também, dançando com nossa mãe – Lyanna respondeu, com uma sutil careta para ele.

— Quis dizer depois da dança inicial. Você entendeu... – Rhaegar falou, bebericando seu vinho.

— Você já sabe quem vai convidar por acaso? – Lyanna devolveu a pergunta.

— Com certeza, a princesa qarthena – ele disse, contendo um sorriso, mas não olhando na direção da beldade morena que a cada movimento do seio desnudo fazia todas as mulheres da mesa corarem e todos os homens se remexerem nas cadeiras.

Você não presta— Lyanna respondeu, dando um tapinha de leve no braço dele por baixo da mesa. O sorriso de Rhaegar só se alargou.

— Pretendo voltar, ficar sentada aqui e esperar – Lyanna falou, suspirando sem animação.

Então o primeiro que chegar leva?— Rhaegar perguntou, erguendo a sobrancelha, divertidamente curioso.

— Que palavreado é esse? É um novo dialeto da Baixada das Pulgas? Pelos deuses... – Lyanna o repreendeu, bebericando seu vinho também.

— Então dance comigo. Já vamos estar no salão de danças – ele pediu, ainda sorrindo, ainda parecendo divertido, mas com algo nos olhos que Lyanna não sabia dizer o que era. Desafio. Talvez. Não importava.

— Ninguém veio até aqui para nos ver dançando, Rhaegar. Temos que socializar com os preten..com os outros— Lyanna rebateu, sem olhá-lo – Vá dançar com a princesa qarthena— ela disse, com um aceno de mão, despachando a ideia e ele e a princesa qarthena, todos de uma vez.

— Eu pelo menos não ia deixar ninguém perceber que o quanto você dança mal – Rhaegar falou no ouvido dela e se levantou em seguida.

Ela não teve tempo para responder à provocação. A primeira dança da noite estava sendo anunciada.

~*~

Todos se levantaram, muitos se aproximando como dava, abrindo lugar entre a multidão, ansiando por um vislumbre do espaço reservado para as danças, quando o Rei e a Rainha se levantaram e caminharam com os filhos para a primeira dança da noite.

Rhaegar conduzia Daenerys com graciosidade. Um grande sorriso estampava o rosto da Rainha, enquanto o filho a rodopiava pelo salão. Lyanna podia ouvir os suspiros das donzelas com a cena, se sobrepondo às palmas que ecoaram por todo o lugar com os primeiros passos dos dois casais.

Ela e o pai valsavam de forma menos exibida. Nenhum dos dois era muito bom naquilo. E aquela igualdade, aquela cumplicidade, trazia um grande conforto para Lyanna. Fazia com que ela sentisse vontade de encostar a cabeça no peito do pai e ignorar a plateia e os movimentos que deveria fazer, os giros, as inclinações, as trocas de mão.

Ela trocaria tudo isso para apenas se balançar devagarinho com o Rei, aproveitando cada segundo que ainda tinha com ele.

— Quando a música terminar, por mim já podemos encerrar a noite – ela disse para o pai e ele sorriu baixinho, os olhos lhe dizendo que por ele fariam exatamente isso.

— Os jovens lordes ficariam revoltados se isso acontecesse – Jon falou, segurando com carinho na cintura da filha, ainda estranhando vê-la com o rosto pintado e com aquela roupa sensual – Você é a mulher mais bonita desse salão hoje – ele afirmou, rodopiando-a.

— Não esqueça que temos outra princesa presente e que ela chama bastante atenção – Lyanna falou – Talvez eu deva trocar de roupa e vestir o tokkar que ganhei – ela brincou, para horror do pai.

— Vou dar aquelas vestes para Khaleeth queimar. Nem você nem sua mãe vão usar aquilo. Nunca— Jon afirmou, em tom de conspiração – Não conte meus planos para ela, aliás. Ela é capaz de querer usar só para me contrariar.

Os dois sorriram um para o outro e olharam para Dany e Rhaegar rodopiando por todos os cantos da área de dança, proporcionando o perfeito espetáculo que os súditos esperavam. Era estranho ver a mãe dançando daquele jeito. Mas Lyanna pensava que se existia alguém no mundo que merecia ter um aquilo, ser uma rainha, uma mãe que podia dançar com um filho daquele jeito, esse alguém era Daenerys nascida na Tormenta.

Exibidos – ela e o pai disseram ao mesmo tempo, balançando as cabeças do mesmo jeito, diminuindo ainda mais o ritmo, nem tentando competir com a exuberante elegância valiriana que dominava as atenções do salão.

Os dois só sorriam e tentavam não revirar os olhos com a mesma impaciência, quando percebiam que as pessoas olhavam curiosas demais para cada cochicho que davam no ouvido um do outro.

— Está indo tudo bem até agora, para você? Com os pretendentes? Conversou com algum? – Jon perguntou, as palavras saindo inseguras e preocupadas.

— Hoje é só o primeiro dia, pai. Mas está indo tudo bem sim – Eu acho — E com vocês? – ela perguntou, com as sobrancelhas arqueadas, deixando no ar a questão delicada do capitão de Meeren.

O olhar do pai brilhou em muda compreensão. Ele entendeu do que ela estava falando.

— Como ficaram sabendo? – Jon perguntou à ela. Lyanna engoliu em seco. Ouvindo você e mamãe discutindo e depois se beijando e depois conversando obscenidades sobre mesas e cabeças enfiadas embaixo de vestes.

— Rhaegar comentou comigo. Não sei como ele soube – Lyanna falou. Ela tinha ouvido aquela conversa por culpa do irmão, nada mais justo que ele se virasse para explicar ao pai como havia ficado sabendo.

Hum— o pai murmurou, franzindo a testa – Estou tentando fingir que ele não existe – Jon confessou – Estou me saindo bem? – o Rei perguntou, com um sorriso meio triste, rugas se formando ao lado dos olhos.

Lyanna amava até mesmo aquelas dobrinhas de pele no rosto do pai. Deixavam a sua expressão mais suave, mais normal. Afastavam a máscara do rei que ele tanto era obrigado a usar.

— Claro que está. Uma perfeita pedra de gelo nortenha— Lyanna falou, com orgulho, recebendo um beijo na testa e uma risada rouca do seu pai.

— Não sei se posso confiar na sua opinião. Você é muito condescendente com seu velho pai – Jon afirmou, tocando no rosto da filha, quando os acordes finais da canção se fizeram ouvir.

Lyanna se inclinou diante dele. Balançando a cabeça em negação ao que ele dissera.

— Não sou não. O que posso fazer se tenho o melhor pai do mundo? – ela disse, quando ele a tomou pelo braço mais uma vez, estrondosas palmas ecoando ao redor deles.

— Aproveite sua noite, minha princesa – foi tudo que ela ouviu de volta, na voz rouca do pai, enquanto ela ganhava mais um beijo na testa, dessa vez rápido demais.

Ela podia jurar que os olhos do Rei estavam brilhando mais do que normal.

~*~

O salão se encheu de casais dançando, a música alta desfazendo muito do clima formal, permitindo que as conversas circulassem mais altas e à vontade.

Rhaegar mal devolveu sua mãe até a cadeira que ela ocupava na mesa, quando viu Jason Arryn caminhar na direção de Lyanna e Jon. Ele trincou o maxilar ao ver o herdeiro do Vale se inclinando diante da irmã, sem dúvida nenhuma lhe pedindo para que ela lhe concedesse a honra da próxima dança.

Ele se despediu da mãe e tentou não caminhar apressado demais para fazer a única coisa ao seu alcance naquele momento. Voltar para o salão de dança e observar a irmã de perto, enquanto fingia dar atenção para quem quer que estivesse tendo que conduzir.

— Princesa Q’ira – ele cumprimentou a mulher qarthena, com aqueles olhos felinos o avaliando dos pés à cabeça – Me concede a honra? – ele perguntou, estendendo a mão para ela, o outro braço às costas, como um perfeito cavalheiro, principalmente levando- em conta que ele estava conseguindo olhar apenas para o rosto dela.

Ela aceitou a mão dele e juntos deram alguns passos até estarem de volta ao meio dos casais dançando. A atenção de todos voltando-se para eles. Ou para o seio de fora da princesa.

Rhaegar respirou fundo ao ver Jason Arryn valsando com Lyanna. A mão sobre a cintura dela enquanto os dois conversavam. Conversavam. Suas entranhas se retorciam a cada vez que o rosto do homem se aproximava do de Lyanna para lhe falar algo.

Merda de noite. Ele quase bufou. Mas os olhos da princesa Q’ira estavam grudados nele, vívidos demais, espertos de mais. Foco, Rhaegar. Foco. Concentre-se no que precisa fazer. Ele ralhou consigo mesmo, enquanto passava a mão para a cintura descoberta de Q’ira Daxos Emeros.

— Eu nunca tinha visto olhos valirianos tão de perto – Q’ira falou. A voz quase uma carícia sensual. A mão apoiada em seu braço o apertando suavemente, o seio da mulher quase encostado no peito dele – O violeta dos seus olhos é impressionante – ela completou, com um sorriso provocativo.

— Os seus olhos são igualmente deslumbrantes, princesa. Mas tenho certeza que já ouviu muito isso – Rhaegar respondeu, olhando de esguelha para os lados, procurando Lyanna e Jason Arryn como o tolo que era. E os encontrando mais perto do que imaginava. Os olhos de Lyanna cruzando com os dele por alguns segundos e se desviando como se ele a tivesse pego em flagrante.

Pelo menos ela também observa com quem eu estou dançando. Ele notou.

Rhaegar deu o seu melhor sorriso para Q’ira, sem precisar fazer nenhum esforço.

~*~

Sir Jason a conduzia de forma surpreendentemente leve e respeitosa, desfazendo um pouco a imagem de ousadia que ela havia formado dele horas antes.

A mão dele em sua cintura não se movia do lugar e nem a apertava. Tampouco ele a puxava para mais perto do que o decoro exigisse, como ela observava muitos fazendo, por alguns segundos, quando achavam que ninguém estava olhando.

— Eu não esperava que você fosse tão bonita, Alteza – ele falou em dado momento, os olhos verdes pinho faiscando para ela.

— Com certeza não é a primeira qualidade que eu gostaria que mencionassem à meu respeito – Lyanna respondeu, afiada, mas com a melhor cara de educação que conseguia fazer.

— Então ficará feliz em saber que, de fato, não foi a primeira que ouvi – ele disse, nem um pouco abalado com a resposta dela – A primeira coisa que ouvi a seu respeito foi que era assustadoramente inteligente, além de bonita. E agora que a vejo, bonita é uma palavra que não lhe faz jus.

Um galanteador nato. Igualzinho à alguém que ela conhecia.

— E quanto a assustadoramente inteligente? – ela perguntou – Faço jus?

— Não sei por que uma grande inteligência deveria ser considerado algo assustador – foi a resposta dele, dando de ombros. Lyanna lhe deu um relutante pequeno sorriso. E ganhou em troca um sorriso de canto que revelava covinhas perfeitas.

— Talvez usem essa expressão porque sou uma jovem mulher – ela conjecturou, quando viu de relance o irmão valsando lindamente com princesa Q’ira. A mão dele na cintura descoberta da mulher curvilínea. A mão dela claramente apertando o braço do irmão. Isso sem falar no bendito seio de fora.

Os olhos de Rhaegar encontraram com os dela e Lyanna rapidamente voltou sua atenção para Sir Jason, ignorando o que se passava entre o irmão e a princesa estrangeira, por mais indecoroso que fosse. Não era da conta dela.

— Talvez – ela ouviu Jason falando e precisou de alguns segundos para recuperar o fio da meada – Mas posso confessar uma coisa? Acho que sua loba gigante faz jus à essas palavras. Ela encara as pessoas de um jeito muito...humano...como se estivesse nos lendo – ele falou, franzindo um pouco a testa, como se estivesse refletindo sobre o assunto.

— Tem dias que juro que ela parece conseguir ler meus livros junto comigo – Lyanna se viu falando. Um sorriso deslumbrante se formando diante dela. Inegavelmente bonito e charmoso. E aparentemente, não apenas isso, pelo pouco que conversavam.

— Eu daria tudo para ver isso – ele respondeu, os acordes finais os levando a se inclinar diante um do outro, fazendo Sor Jason pegar sua mão e deixar um beijo ali. Rápido, cortês. Mas quente. Os lábios dele eram quentes. Os olhos verdes também eram. E por sorte as bochechas dela já estavam pintadas de vermelho.

Mas antes que Lyanna pudesse aceitar o braço de Sir Jason para retornar à mesa, Sam estava lá parando diante deles, ruborizando ao se inclinar diante dela, pedindo que lhe concedesse a próxima dança.

Ele e Jason Arryn trocaram um tenso olhar de avaliação mútua e Lyanna não gostou muito da superioridade que viu nas feições do herdeiro do Vale. Bonito. Inteligente. Mas orgulhoso. Talvez não só do nome, muito mais tradicional do que o dos Tarly. Mas também da beleza que sabe que tem. Lyanna avaliou.

— Claro, Sam. Seria uma grande honra – Lyanna fez questão de dizer – Foi um prazer, Sir Jason – ela disse ao herdeiro do Vale, mal olhando na sua direção e aceitando a mão de Sam, sentindo que estava levemente trêmula.

— A honra com certeza é toda minha, Alteza – Sam disse, timidamente. Os dois se posicionando. Aguardando a próxima música. Que não era animada com a anterior. E sim mais melódica, mais romântica. Lyanna podia jurar que Sam havia soltado um suspiro de alívio. Ele não tinha jeito de ser um bom dançarino. Assim como ela.

Quando os braços de Sam a envolveram e eles começaram a dar alguns passos, ela se sentiu pequena e frágil diante do porte físico dele. Os dois nunca tinham ficado assim, tão próximos, e agora, que ela estava literalmente nos braços deles, pelo menos Lyanna não se sentiu tensa, não como havia ficado com Jason.

Ela não deveria se surpreender com aquilo. Sam não era um estranho. Era seu amigo. Ou algo perto disso. E ela não gostava nada do clima estranho que havia se instalado entre eles dois.

Sam...- ela começou, procurando as palavras, vendo o olhar ansioso dele e tentando não ficar nervosa – Essa situação...não precisamos ficar esquisitos um com o outro...- ela conseguiu dizer, encarando o olhos dele – Obviamente você sabe que é uma das opções que eu devo considerar, mas...não fique diferente comigo...- ela pediu, vendo que Sam parecia estar prendendo a respiração enquanto ela tentava articular o que queria dizer.

— Eu estou diferente? – ele perguntou, parecendo envergonhado, olhando para baixo, como um garotinho que foi pego fazendo algo errado.

— Não sei bem. Algo está. Talvez porque estamos tendo que nos olhar por uma nova perspectiva – Lyanna falou. Pela perspectiva de termos que compartilhar uma vida juntos. Uma cama juntos. Pelos deuses – O que quero dizer é que...é que nós nos conhecemos desde sempre e que você não precisa provar nada para mim, nem ficar diferente comigo. Tudo bem?

Sam meneava a cabeça enquanto ela dizia aquilo, compreendendo o que ela estava falando, ainda que as palavras dela não estivessem expressando de maneira satisfatória o que ela queria falar para ele.

— Tudo bem – ele disse, parecendo criar coragem para dizer algo mais – Mas eu preciso dizer...que para mim...seria uma honra...se você me escolhesse – ele disse, pausadamente – Não porque você é a Princesa dos Sete Reinos. Apesar disso ser uma honra também – ele se apressou em completar – Mas porque é você. Eu ficaria... eu realmente ficaria feliz— Sam completou, engolindo em seco, também parecendo insatisfeito com suas palavras.

— Acho...que é bom saber disso – Lyanna disse, ficando sem jeito – Não quero escolher alguém que me considere um fardo ou que me ache uma ranzinza assustadoramente inteligente, como dizem por aí de mim...- ela tentou brincar, girando, se afastando e voltando para perto de Sam.

— Você não é nada disso Lyanna – ele falou, com uma expressão dura, inconformada.

Nem ranzinza, nem assustadora, nem inteligente?— ela perguntou, sorrindo para ele. Não deixando passar que ele havia voltado a usar seu nome. O que era uma coisa boa.

— Um pouco da primeira, nada da segunda, muito da terceira – Sam respondeu. Lyanna mordeu as bochechas para não sorrir mais alto. Ele parecia aliviado em ver que sua sinceridade não a ofendera.

Não sou ranzinza— ela rebateu, mas ele só sorriu mais, como se dissesse você sabe que é, mas eu não me importo.

Rhaegar passou perto deles, encarando os dois com o rosto tenso, enquanto dançava com Arianna Arryn. A garota parecia que ia ter uma síncope nos braços do irmão. Lyanna sentiu pena dela mais uma vez. E voltou sua atenção para Sam, que também tinha observado Rhaegar.

— Acho que o Príncipe não gosta muito da ideia de que eu...talvez...possa me tornar seu marido – Sam comentou, triste, olhando para Rhaegar, para o amigo que o Príncipe Herdeiro sempre foi para ele.

— Talvez ele só não queira perder você também – Lyanna falou, baixinho – Mas não se preocupe Sam. O que meu irmão gosta ou não, nesse assunto, não importa – ela completou.

— Importa para mim – Sam falou, meio sem jeito, os olhos preocupados. Leal. Um amigo verdadeiro e leal, era o que Sam era para Rhaegar.

— Para mim também – Lyanna confessou, tocada pelos sentimentos dele com relação ao irmão – Só um pouquinho— minimizou, e os dois sorriram com alguma cumplicidade, quando a música finalmente terminou.

~*~

Rhaegar nunca mais queria ouvir aquela música. Nunca mais. E ele gostava da maldita canção. Gostava. No passado. Agora toda vez que a escutasse ele iria lembrar de Lyanna dançando nos braços de Sam, sorrindo com intimidade para ele. Sorrindo. Ela estava sorrindo. Sorrindo e parecendo tão à vontade que o fazia querer gritar.

Para piorar, ele estava dançando com uma criatura trêmula, que não conseguia olhar para ele sem corar profusamente e que respondia às tentativas de conversa com respostas monossilábicas e logo olhava para os próprios pés. Pés que pisavam nos dele o tempo todo. O tempo todo. Ele nunca se sentiu tão feliz por uma música acabar. Nunca.

Ele caminhou de volta para a mesa, conduzindo Lady Arianna, com os pés latejando e precisando de um gole de uma bebida mais forte, só de pensar com quantas garotas ainda precisaria dançar naquela noite e quantas vezes mais teria que ver alguém dançando com Lyanna.

Mas antes de conseguir, ele esbarrou com um paredão de senhoritas ansiosas para serem convidadas por ele. As damas de companhia da irmã, cercadas por outras mais, com Melissa Redwyne bem à frente de todas, a cabeleira ruiva e os olhos verdes brilhando convidativos para ele.

Onde diabos estavam os outros rapazes? Porque, em nome dos Sete Infernos, essas garotas não estavam valsando com os jovens lordes e sim ali, esperando por ele? Ele não podia ter um harém. Não podia casar com todas. Só com uma. Só escolheria uma. E não seria nenhuma delas. Será que não se davam conta disso?

Ele sorriu educadamente para elas e passou direto. Direto para a mesa. Direto para o copo de bebida que tomou da mão de Jon Tarly e que virou de uma vez. Jon não reclamou, só sorriu. Ele sempre arranjava bebidas diferentes e exóticas e as contrabandeava para os jantares. Se tinham sido provadas antes Rhaegar não sabia, mas como Jon estava bebendo aquilo e ainda estava vivo para rir com deboche da cara dele, era de se presumir que não tinha nenhum veneno ali.

— Não me diga que está tendo uma noite difícil, Alteza – Jon Tarly provocou.

— Cala essa boca, Jon – Rhaegar respondeu, entregando a taça vazia na mão dele.

— Estou doido para fazer melhor uso dela, acredite. Os velhos precisam se recolher para que as coisas comecem a ficar interessantes – Tarly falou – Me diga que você vai arrastar aquela princesa estrangeira para um canto desse salão, por favor, ela não tira os olhos de você. Seria um desperdício de oportunidade – ele disse, apontando com o rosto em uma direção.

Rhaegar olhou e viu Q’ira o observando, sem nenhum pudor.

— Se sobrar alguma coisa de mim depois que tiver dançado com dezenas de mulheres, quem sabe...- Rhaegar falou, fazendo Jon sorrir.

Seu olhar vagou pela mesa de honra, pelas muitas cadeiras vazias agora, até recair sobre Diana Lannister, conversando com o pai. Ele sabia que deveria dançar com ela agora. Era o esperado. Por um momento ele pensou que não deveria atrapalhar os dois, levando em conta que Lorde Tyrion convivia tão pouco com a filha. Mas se viu caminhando até lá. Que fizesse logo o que tinha que fazer.

E lá vamos nós de novo.

~*~

Diana Lannister era, graças aos deuses, o perfeito equilíbrio entre Q’ira e Arianna. Sua beleza não era provocativa demais e seus modos não era tímidos demais, apenas normais. Ela não demonstrava estar nervosa ao dançar com ele. E nem pisava nos seus pés, graças aos deuses.

— Espero que sua estadia em Porto Real esteja sendo agradável, milady – Rhaegar começou, com as gentilezas protocolares de sempre.

— É sempre bom poder estar com o senhor meu pai e com o meu irmão, Alteza – Diana respondeu para ele, com uma expressão suave. Os cabelos reluziam feito ouro, algo redundante para uma Lannister, mas Rhaegar não podia deixar de notar o quanto eram belos.

— Imagino que sim. Gosto muito dos dois. Jaime cuida muito bem de mim – Rhaegar comentou. O seu pequeno escudeiro cumpria intrepidamente qualquer comando dele. Rhaegar realmente gostava muito do garoto.

— Ele só fala em Vossa Alteza, o tempo todo – Dianna comentou – Ele o admira muito, Alteza.

— Ele é um ótimo garoto – Rhaegar falou, sem saber o que mais poderia dizer a ela. Seu leque de conversas educadas e rasas estava acabando rapidamente.

— Podemos apenas dançar. Não se preocupe – Rhaegar a ouviu dizendo, com um sorriso perspicaz, os olhos verdes claros parecendo que liam tudo que se passava por sua mente – Imagino que deva ser mortalmente enfadonho procurar assunto com todas as garotas com as quais tem que dançar, Alteza.

Rhaegar olhou para ela surpreso. Ela era direta. De um jeito que não era arrogante ou desconcertante. Algo raro de se ver. Principalmente quando se é da realeza.

— De fato é, Lady Diana – Rhaegar respondeu, o sorriso dela aumentou. Ela tinha uma expressão doce e angelical, mas as palavras que saiam dela demonstravam que ele estava diante de uma mente afiada.

Não que aquilo o assustasse. Ele estava acostumado a lidar com garotas de mente afiada.

— Então não se preocupe em ter que fazer isso comigo. Eu gosto de simplesmente dançar, Alteza – ela falou, fechando os olhos por alguns segundos, como se a música estivesse entrando em seu corpo de fato, e os abrindo novamente, encarando os dele, sem truques, sem segundas intenções.

— Então, vamos só dançar. Dançar de verdade – ele concordou, rodopiando a garota dourada.

~*~

Daenerys tentava conversar com Elena Westerling, apesar de achar os assuntos da Lady de Rochedo Casterly mortalmente enfadonhos. A esposa de Tyrion adorava fazer comentários sobre a riqueza das taças, os custos da festa, o luxo de um artigo ou outro do salão. Maçante. Extremamente maçante.

Quando Missandei se aproximou dela dizendo que precisava cumprimentar um convidado qualquer, Dany agradeceu à amiga profundamente.

— Obrigada por me salvar. Se aquela mulher falasse mais uma vez sobre o valor de qualquer coisa eu juro que iria perder a educação – Dany comentou no ouvido da amiga. As duas riram. E logo pararam de rir, quando viram que Daario Naharis vinha caminhando na direção delas.

Missandei de Nath— ele a cumprimentou – Você não mudou nada nesses anos.

— Daario Naharis – Missandei o cumprimentou, com um leve sorriso – Faz muito tempo.

— Verdade. Bons tempos – Daario disse. E voltou sua atenção para Daenerys – Pena que nunca fizemos uma festa como essa em Meeren, Khaleesi.

— Espero que esteja gostando – Dany respondeu, com cortesia, ainda de braços dados com Missandei.

— Estou. Ver você dançando com seu filho, foi algo que nunca imaginei ver na minha vida. Ele se parece muito com você. Puxou a beleza da mãe – comentou Daario, com o usual charme.

Dany riu silenciosamente.

— Sua filha também é linda. Não posso negar – ele completou, olhando para o salão, para a princesa Lyanna dançando com um rapaz ruivo.

— Puxou a beleza do pai – Dany disse, repetindo as palavras dele de propósito.

O sobrinho— Daario sorriu cinicamente – Imagino que você não gostou muito quando descobriu a existência dele – Missandei se remexeu ao lado de Dany.

— Antes que eu e ele descobríssemos, eu já o amava. E já estava esperando uma criança, duas na verdade. Isso simplificou um pouco as coisas – Dany explicou.

Quando esteve em Meeren, anos antes, os dois mal haviam se visto em meio a contenção da rebelião dos antigos senhores de escravos, Daario ainda havia se machucado em batalha e tudo isso impediu que conversassem melhor, como dois amigos teriam feito.

Tudo que Dany quis, na época, foi voltar o mais rápido possível para casa, para Jon e para seis filhos. Mas agora, como teria sido útil se eles pudessem ter tido a chance de conversar antes.

— Ele não vai dançar nenhuma vez com você? – Daario perguntou, olhando para onde Jon estava sentado, conversando tranquilamente com Sor Davos e Lorde Gendry e sequer olhando na direção deles.

— Essa noite é para os jovens, Daario – Dany respondeu, com um olhar de aviso para o capitão.

— E ele já se considera assim tão velho? – Daario provocou, rindo – Porque você certamente não é.

— Você entendeu o que eu quis dizer – Dany falou, tentando ficar séria diante da situação.

— Eu posso dançar com você, se ele não se incomodar. Ele parece que não se incomoda – Daario afirmou, olhando para Jon de novo.

Ele, é Vossa Graça para você. Ou Sua Majestade. Ou apenas Rei. Fique à vontade para escolher uma das formas adequadas de se referir ao meu marido. E quando for fazer uma reverência, não se esqueça de fazer na direção certa. O Rei pode ser um homem benevolente com esses pequenos deslizes, mas eu não sou— Dany aproveitou para deixar bem claro.

— Como queira, minha Rainha. E a dança?— Daario perguntou, oferecendo a mão para ela.

Aproveite a noite, Daario Naharis— Dany falou, recusando-o, vendo ele baixar a mão com o sorriso cínico e obstinado que ela conhecia muito bem, que ele havia dado a cada tentativa de conquistá-la quando os caminhos dos dois se cruzaram, a cada rosa que ele havia levado para ela enquanto cruzavam a Baía dos Escravos.

Ela e Missandei se afastaram dele. Dany respirou fundo. Missandei também.

— Ele não toma jeito – Missandei comentou, trocando um olhar com Daenerys – O que você vai fazer?

— Vou torcer para que ele não provoque Jon o suficiente para perder a cabeça. Só isso – Dany confessou, sorrindo para a amiga, quando viu algo que não lhe agradou nem um pouco.

~*~

Gendry havia acabado de se oferecer para acompanhar Sor Davos até os seus aposentos. O velho homem não tinha saúde para ficar acordado até tarde naquele barulho. E o filho, Jonas, não estava à vista. Jon tentou durante a conversa, não olhar mais do que uma vez, para o capitão Naharis conversando com Dany e Missandei. Tentou e conseguiu. Com muito esforço.

Mas seus outros sentidos estavam tão concentrados naquele exato lugar do salão, que talvez por isso ele não tivesse notado a aproximação da princesa Q’ira. Quando deu por si, notou que ela estava ao seu lado apenas ao ouvir a voz melodiosa da mulher morena e desnuda, bem ao lado dele.

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Majestade — ela o cumprimentou – É raro ver um Rei tão moderado. Em ocasiões assim – ela disse, perto demais dele.

— Moderado? – Jon perguntou, educadamente. Dando um discreto passo para o lado, criando alguma distancia entre a mulher e ele.

— Usei a palavra errada? – ela perguntou, com expressão de dúvida, o sotaque forte sobressaindo – Eu estive o observando. Quis dizer que pouco bebe, come, dança, pouco...conversa com outras mulheres – Q’ira explicou, com um sorriso contido.

— Deixo isso para os jovens – Jon respondeu, dando mais um pequeno passo para longe, enquanto a princesa dava um para mais perto dele.

— Então quando Vossa Majestade era jovem...- Q’ira deixou no ar.

— Posso ter cometido algum desses excessos, uma vez ou outra, sim...- respondeu Jon.

— Gostaria de ter visto isso – ela respondeu, inclinando a cabeça para ele, o movimento do seio desnudo ficando impossível de não observar. Onde diabos está Daenerys? Jon se perguntou, desviando o olhar, procurando pelos lados e encontrando o rosto observador da esposa vindo na sua direção. Graças aos deuses— Teria sido uma honra dançar com Vossa Majestade, quando era jovem. Acredito que não tenha mudado muito – ela dizia, piscando os longos cílios para ele.

— Ele não mudou, mesmo – Daenerys respondeu, finalmente chegando ao lado de Jon, passando seu braço junto ao dele, em uma clara demarcação territorial. A princesa qarthena sequer mudou de expressão ao vê-la. Essa é perigosa. Não bastasse o jeito que dançou com Rhaegar, que ela bem viu, agora quer jogar charme para cima do pai também. Dany avaliava.

— Vamos nos recolher, meu amor? Os jovens ficarão mais à vontade quando não estiverem sob a mira do olhar atento do Rei – Dany falou, ignorando a presença da princesa, que continuava parada, com certeza observando a dinâmica entre os dois. Missandei começou a conversar com a qarthena e Dany aproveitou para se afastar com Jon.

— O que a princesa Q’ira tanto conversava com você? – Dany perguntou entredentes, fingindo uma expressão serena e plácida.

— Acho que estava tentando me fazer convidá-la para dançar – Jon respondeu, calmo – E o que o capitão de Meeren queria? – ele devolveu.

— Ele é menos sutil. Me convidou para dançar com todas as letras – Dany falou, sentindo Jon se enrijecer ao lado dela e parar de caminhar.

— Eu recusei. Obviamente – Dany completou, vendo o olhar irado de Jon – E já o coloquei no devido lugar.

— Espero que ele permaneça nesse lugar então. Ou não respondo por mim, Daenerys – Jon afirmou, com a voz gelada. Dany não gostava quando ele a chamava de Daenerys. Ele só usava o nome dela quando estava com raiva.

— Cuidado com a princesa Q’ira, ou eu não respondo por mim também – Dany devolveu a ameaça. Jon a olhou ainda mais irritado. As situações tinham peso diferente, Dany sabia, claro. Mas não precisava admitir.

— Não quero me recolher agora. Não vou deixar as crianças sozinhas – Jon falou, soltando o braço dela devagar, os dois já muito acostumados a serem contidos em público, mesmo quando estavam brigando e aquilo estava se encaminhando para isso.

— Eles estão seguros, tem mais guardas aqui que convidados se duvidar. E os lobos. E sinceramente, para mim já basta de estrangeiros abusados – Dany falou, fingindo que estava dando um beijo no rosto do marido para finalmente dizer – Pena que você quer me deixar sozinha— ela falou sensualmente e começou a se afastar do marido.

— Espere – ela ouviu a voz dele dizendo, poucos segundos depois. Dany riu por dentro quando o braço dele lhe alcançou.

~*~

Lyanna não queria dançar mais. Para ela já bastava. Ela havia valsado com Arthur Tully e o rapaz havia se mostrado tão tímido quanto ela havia avaliado mais cedo.

Eles mal haviam conversado. Trocavam sorrisos gentis e educados e mais nada. Enquanto isso Rhaegar dançava com Diana Lannister. Dançava como tinha feito com sua mãe. E Lyanna ficou surpresa com aquilo.

Ela e Arthur olhavam para o casal que dominava as atenções do salão, quase esquecendo dos passos que eles mesmos deveriam estar executando.

Pelo menos Lyanna não se sentiu mal em não dar tanta atenção para o rapaz. Ele não parecia estar muito interessado, de qualquer forma.

O irmão e a garota Lannister formavam um belo casal. Lady Diana valsava lindamente. Os dois combinavam. Lyanna observou, se dando conta que ela provavelmente seria a escolhida dele.

Analisando friamente as opções que ele tinha, ela sabia que Rhaegar não escolheria uma mulher estrangeira. O povo de Westeros nunca havia gostado muito disso. O Pequeno Conselho com certeza seria contra. E o irmão dificilmente compraria essa briga.

Arianna Arryn com certeza também não seria a escolhida. O irmão havia deixado isso claro desde quando o nome da jovem foi cogitado para ele, antes mesmo de vê-la.

Das grandes casas, então, só sobrava Diana Lannister. E ela parecia perfeitamente adequada. Os dois pareciam estar se dando bem. E aquilo era bom. Ela deveria ficar feliz pelo irmão.

Ele poderia escolher outra jovem lady, de uma casa menor, com certeza. E haviam inúmeras ali, claro. Mas não havia porque não escolher a filha de Lorde Tyrion, Lyanna supôs.

A não ser que o irmão se apaixonasse de verdade por outra. O que ela não imaginava que fosse acontecer, com o pouco tempo que tinham. Mas se tratando de Rhaegar, tudo era possível.

Quando a dança acabou, muitas pessoas bateram palmas para Rhaegar e Diana, Lyanna e Arthur inclusive.

E ela não sabia bem porque, mas já queria sair dali sem ser notada, quando ninguém menos que Jon Tarly apareceu na frente dela, pedindo-lhe a próxima dança.

Lyanna olhou para aquela cara desavergonhado que conhecia tão bem e até pensou em recusar, mas seus modos não permitiram.

— Nosso Príncipe sabe como capturar a atenção das pessoas – Jon comentou, quando começaram a dançar.

— Ele adora isso. Nasceu para isso, eu diria – Lyanna respondeu. Jon Tarly a girou e ela teve um vislumbre de com quem Rhaegar dançava agora. Melissa Redwyne.

Sarah Manderly, sua fiel amiga, parecia tão extasiada por Melissa, que parecia prestes a se soltar dos braços de Dickon Tarly, apenas para ficar olhando o Príncipe dançar com a beldade ruiva.

Ela deve ter feito uma cara de desgosto muito perceptível para que Jon se aproximasse de seu ouvido e dissesse:

Ela é uma vaca. E ele sabe disso – Jon falou, com um sorriso debochado, enquanto a conduzia de um jeito solto, que sabe-se lá porque fazia com que Lyanna se sentisse mais confiante em seus passos.

— Ela é muito bonita. Não sei se algum homem consegue enxergar muito além disso – Lyanna respondeu, percebendo que eles estavam atraindo alguns olhares. E se perguntando o porque. Não deviam estar dançando tão bem assim.

— Você é mais bonita que ela, Princesa. Hoje, principalmente – Jon falou, com malícia, com aquela cara que ela conhecia muito bem.

Você não está tentando me seduzir. Está Tarly?— Lyanna perguntou à ele, com uma sobrancelha erguida, estreitando os olhos, enquanto ele a passava de um lado para o outro, fazendo o vestido dela se movimentar de um jeito bonito, dramático.

— Não, não estou. Sei que não tenho chance – ele respondeu, com um sorriso travesso, olhando para alguém no salão, ela não virou para ver para quem ou para onde – Só estou constatando um fato, Princesa. Não que eu não fosse gostar de beijar essa linda boquinha, só para deixar claro – ele completou, subindo a mão pelas costas dela, roçando na parte exposta de sua pele.

Tenha modos— Lyanna falou, se controlando para não dar um tapa nele. Ele gargalhou. Mais pessoas olharam para os dois. Lyanna não sabia porque mais sentiu vontade de sorrir também – E pare de mover essa mão pelas minhas costas ou vou pisar no seu pé com toda a minha força!

— Ela está no mesmo lugar! – ele respondeu, parecendo ofendido. Cretino. Lyanna não sabia porque gostava dele. E muito menos porque tinha aceitado aquela dança.

— Lys esta por aqui. Você sabe. Mova essa maldita mão de novo e vou fazer com que ela corra atrás de você na frente de todos – Lyanna sibilou para ele entre os dentes, o sorriso canalha de Jon só aumentou.

— Vou me comportar. Juro – ele disse, com cara de santo – Além do mais, Blackfire me alcançaria primeiro. Morro de medo daquela besta demoníaca – Jon falou, com uma expressão presunçosa que não a agradava em nada.

— Não mando em Blackfire – Lyanna rebateu. Não sabia bem porque havia sentido vontade de dizer aquilo.

Não? Devia tentar – Jon sugeriu, com um risinho de canto, inclinando ela sem o menor aviso, quando a música acabou.

Lyanna não sabia bem o que ele estava insinuando e nem teve tempo de perguntar. Não quando viu Melissa beijando o rosto do irmão na frente de toda a corte.

Ver aquilo parecia ter deixado o ar mais pesado, de repente. E tudo que ela queria, era realmente sumir dali.

~*~

Quando Rhaegar conseguiu se livrar de Melissa, limpando o rosto onde ela tivera a audácia de beijá-lo, ele ignorou mais um vez as centenas de moças o olhando de forma esperançosa, esperando por uma dança e foi direto até Jon, puxando-o para um canto mais afastado, com vontade de arrastá-lo pelo pescoço enquanto via o desgraçado sorrindo para ele.

O que diabos você pensa que estava fazendo com a minha irmã? – Rhaegar perguntou, encostando o amigo numa parede, sem nenhuma delicadeza, pouco se importando com quem olhava.

— Dançando, Alteza. Só estávamos dançando – Jon Tarly respondeu, com um sorriso debochado. Rhaegar bufou de raiva.

— Contenha essas suas mãos devassas perto da minha irmã, Jon, ou eu arrebento a sua cara – Rhaegar o ameaçou, soltando ele, se irritando por Jon apenas continuar sorrindo enquanto ajeitava as próprias vestes e passava um braço sobre seu ombro, como se nada tivesse acontecido.

— Eu sei. Eu sei. Não se preocupe. A ameaça que ela mesma me fez foi suficiente – Jon disse, passando as mãos pelos cabelos – Não precisa se preocupar comigo, meu Príncipe – ele disse, oferecendo do seu cantil para Rhaegar, que o aceitou e deu um longo gole, xingando Jon baixinho – Mas eu me preocuparia com o cavaleiro bonitinho do Vale. Aliás onde ele está? Não vejo a princesa em lugar nenhum também – Jon falou, olhando por cima do ombro de Rhaegar.

Antes que Jon pudesse dizer qualquer outra coisa, Rhaegar já havia saído pelo meio do salão.

~*~

Lyanna havia conseguido sair de fininho pelo acesso lateral ao fundo do Grande Salão do Trono, o mesmo por onde haviam passado horas antes, para dar início aquela noite sem fim.

Lys caminhava tranquilamente ao seu lado e dois Imaculados a seguiram silenciosamente, mas ela não se importou. Apenas respirou fundo quando finalmente alcançou o largo corredor.

Um vento de maresia circulava por ali, refrescante e suave, entrando por entre as pilastras laterais que davam, naquela parte do castelo, para a imensidão das águas da Baía de Água Negra.

O vento ali era um grande alívio em comparação ao calor abafado do Grande Salão. Lyanna foi até a mureta que unia as pilastras e aproveitou melhor a sensação em seu rosto, enquanto se recostava na pedra fria.

Fazia uma bela noite de luar sobre a capital. A luz da lua entrava e iluminava todo o corredor, muito mais do que as tochas que haviam ali, com guardas posicionados em vigília, perto de cada uma delas.

Lyanna sentia as pernas doendo. Estava cansada. Havia dançado cinco músicas sem nenhum descanso e agora os pés reclamavam seu preço. Ela deu alguns passos para trás e simplesmente se sentou no chão.

E soltou um grande suspiro aliviado quando se encostou na parede, esticou as pernas e tirou os sapatos. Paz.

Ninguém além deles e dos membros do Pequeno Conselho poderiam circular por aquela parte do Castelo, então ela realmente não estava preocupada que alguém a visse daquele jeito.

Lys se deitou ao seu lado, esfregando o focinho em seu colo, os olhos violeta arregalados para ela. Ela acariciou o pelo da sua loba e se sentiu triste. Profundamente triste.

Talvez fosse a solidão do corredor. Ou a poesia que havia naquele luar prateado, que a cobria por inteiro. Talvez fosse o barulho da musica, tão perto dali, e da algazarra alta da qual ela não conseguia aproveitar. Não conseguia fazer parte. Não de verdade.

Ou talvez fosse por medo. Um medo que lhe gelava os ossos enquanto ela ficava revendo na sua mente a cena de Melissa beijando o rosto de Rhaegar. Medo de que o irmão se deixasse encantar por ela. Medo do que alguém tão ardilosa quanto ela poderia fazer se um dia se tornasse rainha.

Sim. Era isso. O incômodo. O medo. Era isso. Temor pelo bem estar do irmão e do Reino. Talvez o perigo fosse real. Porque apenas isso poderia explicar a vontade que ela estava sentindo de chorar.

Mas o som de passos que se aproximavam chamou sua atenção. E o barulho deles segurou a represa das emoções sem sentido que se agitavam dentro dela.

Lyanna não levantou. Não ia levantar. Não agora. Fosse quem fosse. Ela só encarou a vista do mar aberto, acariciando Lys, quando viu de canto de olho, o irmão surgir pelo corredor, caminhando apressado, o rosto tenso ser substituído por alívio assim que a viu ali.

Rhaegar olhou para os lados e para além do corredor, como se esperasse ver mais alguém, outra pessoa, em algum canto do lugar, enquanto dava mais alguns passos na direção dela, Black logo atrás, como sempre.

Ela voltou a olhar para o mar. Ignorando-o.

Porque você saiu do salão desse jeito? Eu estava preocupado. Não achava você em lugar nenhum ele falou, a voz alta e irritada se sobrepondo ao barulho da música que parecia ser tocada ali.

— Eu precisava descansar. Não foi minha intenção preocupar ninguém – Lyanna esclareceu, ainda olhando apenas para a luz da lua sobre as águas.

— Se estava cansada, poderia ter sentado num cadeira ao invés de se esconder aqui – Rhaegar rebateu, agora parado em frente à ela, bloqueando sua visão de propósito.

— Eu queria ficar sozinha – Lyanna disse, erguendo o rosto e olhando nos olhos dele – Ainda quero – Ela deixou claro.

— Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou, menos irritado, parecendo preocupado.

— Não – foi tudo que ela respondeu.

Rhaegar a analisou calado. Passando as mãos pelos cabelos prateados.

Saiam. Todos – Lyanna ouviu o comando imperioso do irmão, direcionado ao guarda mais próximo.

— Temos ordens, Alteza – o homem respondeu, inseguro. Encarando o príncipe e não sustentando o olhar por muito tempo.

— Tem novas ordens agora – Rhaegar falou, a voz mortalmente calma, o olhar dobrando qualquer resistência que o guarda pudesse pensar em oferecer.

Lyanna observou tudo calada, a mão paralisada sob os pelos de Lys, admirada como sempre ficava quando tinha um vislumbre do Rei que habitava sob a pele do irmão.

Ela não se surpreendeu quando os guardas acataram a ordem dele. Nem quando ele se sentou ao lado dela, esticando as pernas no chão de pedra também.

Lys se ergueu entre os dois, esfregando o focinho em Rhaegar com uma descarada satisfação e se afastou. Não para perto de Black, mas ficando como o irmão lobo, em guarda para um dos lados do corredor.

— Isso não era necessário – Lyanna falou, voltando a olhar para o mar. Para as pilastras, para os lobos. Para qualquer lugar. Menos para ele.

— Você disse que queria ficar sozinha – Rhaegar respondeu, dando de ombros.

— No entanto, você continua aqui – Ela respondeu, irritada. Vá. Embora. Ela quase disse.

Rhaegar não se encolheu com aquela resposta. Ela estava irritada. E não o queria ali. Ele já tinha entendido. Ainda assim ele não estava com a mínima intenção de sair dali e deixá-la sozinha.

Ele havia procurado por ela sentindo tanto medo, guiado pelas insinuações de Jon, de que ela poderia estar em algum lugar como aquele, mas na companhia de Jason Arryn, que ele também não vira em lugar nenhum.

Ele havia sentido ciúmes de Sam, de Jon, de todos que se aproximaram dela naquela noite, era verdade, mas imaginar, ainda que por um momento, que ela pudesse estar flertando, beijando, ou pior, se apaixonando por outro, trouxe a pior sensação que ele já tinha experimentado na vida até agora.

O alívio que ele sentiu ao vê-la ali, sozinha, sentada no chão apenas com Lys de companhia, foi proporcional à angústia que agora tinha embora.

— Pensei que sua noite estava sendo agradável. Com exceção do garoto Tully, você parecia estar gostando muito das outras companhias masculinas, até mesmo de Jon – Rhaegar provocou. Não aguentava ficar calado, mesmo sabendo que talvez devesse.

— Nada comparado às suas, com certeza – Lyanna devolveu, estreitando os olhos com raiva. Com uma raiva que vinha de um canto profundo da sua alma.

Porque ela não enxerga que está com ciúmes? Rhaegar se perguntou, se controlando para não acabar falando aquilo em voz alta.

— As minhas não foram nada demais, lhe garanto. Eu ainda não dancei com a mais interessante e bela de todas as companhias femininas da noite – ele arriscou dizer, ouvindo a música que acabara de começar a tocar e tomando coragem. Ficando de pé e estendendo a mão para ela.

— Dança comigo? – Rhaegar pediu. E esperou.

Lyanna encarou a mão estendida dele, o luar refletindo nos olhos violeta, fazendo brilhar qualquer que fosse a emoção que ele guardava ali.

O que era aquilo? Ele estava com pena dela? Ela não queria nenhuma compaixão dele, nenhuma preocupação pela irmã deslocada.

Porque? – Lyanna perguntou, ainda encarando aqueles olhos violeta e a mão que continuava estendida na direção dela.

Por favor— foi o que ela ouviu ele dizer.

Ao invés do motivo, um pedido. Um pedido ao qual ela não conseguia dizer não.

Ela tocou na mão de Rhaegar e ele a levantou. E fez que não com a cabeça quando ela tentou calçar os sapatos novamente.

— Fique sem eles – ele pediu, deslizando a mão pela cintura dela, passando pelas costas nuas e ficando ali, os dedos abaixo das correntes de ouro.

Lyanna não se incomodou com o toque, apenas afastou com os pés os sapatos, um pequeno sorriso surgindo no rosto do irmão.

— Tentando proteger os seus pés, não é? – Lyanna perguntou, enquanto apoiava uma das mãos nos braços de Rhaegar.

Ele não respondeu. Só a puxou mais para perto.

— Nós ensaiamos uma vez, ao som dessa canção. Lembra dos passos? – ele perguntou no ouvido dela, quando começaram a se mover, um passo lento, então outro e outro, os dois entrando devagar no ritmo, na melodia constante da canção.

Lyanna lembrava vagamente da coreografia. Lembrava que era complicada. E que ela havia odiado tentar acertar aquilo tudo.

— Não lembro direito – ela confessou, soltando um suspiro cansado.

— Não tem problema. Só sinta a música. Não tem ninguém assistindo. Se mova para onde quiser – ele pediu – E tente não pisar nos meus pés – Rhaegar brincou. E ela sorriu.

A música se desenvolveu mais alta, mais rápida, mais intensa, e Lyanna se deixou levar pelas mãos de Rhaegar, deixou que ele a fizesse girar e a trouxesse para perto de si quantas vezes ele achasse necessário.

E sempre que ela tinha um vislumbre dos próprios pés descalços, ela sorria. E ele sorria de volta. Dançar com ele era tão bom, tão leve, não havia aquele peso que ela sentira com os outros, apenas parecia, natural.

— Lembra dessa parte? – ele perguntou, com uma expressão travessa.

Lyanna arregalou os olhos. Ela lembrava. Havia um salto, uma suspensão no ar da mulher pelo homem.

Não. Não faça. Não faça! – Lyanna suplicou quando ele agarrou a cintura dela e a suspendeu no ar, girando os dois.

Pare de girar. Nós vamos cair— Ela gritou, agarrando os ombros dele, enquanto ele simplesmente continuava com aquela loucura.

Lyanna fechou os olhos. E se preparou para o tombo. Mas sentiu os pés tocando no chão, as mãos dele lhe trazendo para baixo, só para no segundo seguinte voltar a suspendê-la, e a girá-la no alto de novo.

Não era assim. Não eram dois giros! Rhaegar! Pare!— ela protestou, tonta, fechando os olhos, começando a balançar as pernas para que ele a descesse de uma vez, quando sentiu o equilíbrio dele vacilar por um segundo.

Lyanna se agarrou ao pescoço de Rhaegar e enterrou o rosto ali esperando pelo impacto. Quando ele não veio, ela estava com a cabeça rodando tanto, que achou que o vinho que ela já havia tomado, voltaria pela sua garganta.

Ia ser merecido vomitar nas vestes de gala do irmão. E pensar naquilo a fez sorrir. Sorrir de verdade. Gargalhar.

~*~

Rhaegar podia sentia o sorriso dela no seu pescoço. As mãos dela agarradas nele buscando equilíbrio, esperando a tontura passar.

Ele a segurava forte. As duas mãos nas costas dela. Seu rosto, àquela altura, tocava e sentia os cabelos de Lyanna. E era por causa disso e não da dança, que a respiração dele estava irregular, que o coração dele batia mais forte no peito.

Ele aproveitou a mudança de canção e a balançou sem sair do lugar. O coração dando um salto quando ela relaxou nos braços dele e aceitou ser conduzida novamente, deixando a cabeça ainda apoiada em seu ombro.

Diga alguma coisa. Diga agora. Que a ama. Que quer casar com ela. Com ela e não com nenhuma outra. Ele brigava consigo mesmo, as palavras engasgadas em sua garganta. O corpo querendo aproveitar cada segundo de proximidade com ela.

Seu pescoço parecia ganhar vida própria ao sentir a respiração dela ali, tentando se aproximar mais, querendo que a boca dela encostasse na sua pele. Sonhando com isso.

Mas antes que ele se desse conta do tempo, a música começou e acabou e nenhuma palavra saiu da sua boca. E ela parou de se mover. Erguendo a cabeça do ombro dele, soltando sua mão. Como se tivesse sentido. Sentido o que havia ali, entre os dois.

Ela estava corada. Os olhos não o encaravam. Mas ainda estava perto, perto o suficiente para um beijo, perto o suficiente para ouvir o que ele precisava tanto falar.

— Rhaegar... – ele a ouviu dizendo baixinho e seu coração acelerou um pouco mais – Obrigada pela dança, boa noite – disse ela respirando fundo, como ele respirava.

Rhaegar sentiu suas entranhas se revirando quando ela se aproximou do rosto dele e deixou um beijo na sua bochecha, rápido, trêmulo.

E foi só a pura angústia que ele viu no olhar dela o impediu de buscar sua boca, de segurar o rosto dela contra o dele e acabar com aquilo de uma vez.

Mas ele não podia fazer isso. Tinha que partir dela. Tinha que partir dela. Ele repetiu para si milhares de vezes antes.

E repetia agora, mais uma vez, como um mantra, com mais força de vontade do que ele imaginava ter, enquanto a via agarrar os sapatos no chão e caminhar para dentro do castelo, apressada, vacilante.

Ele não sabia como, mas a deixou ir.