Primeiro dia de comemorações

Dany havia ficado pronta mais cedo do que imaginara. Nenhuma surpresa, na verdade, levando-se em conta que não havia conseguido pregar os olhos.

Enquanto aguardava Jon, suas mãos agarravam a balaustrada de pedra fria, e seu olhar vagava diante da visão privilegiada que tinha da capital do ponto mais alto da Fortaleza Vermelha, o emaranhado de tetos e construções reluzindo sob os primeiros raios de sol daquele dia.

Os sinos do Grande Septo já badalavam insistentemente acordando toda Porto Real, anunciando que aquele dia seria especial, chamando as pessoas para se juntarem à festa pelo décimo oitavo dia do nome do Príncipe e da Princesa dos Sete Reinos, que na verdade só seria no dia seguinte.

Ninguém poderia imaginar que os sinos acabariam não sendo necessários, tanto para eles quanto para o povo da cidade. Afinal, na parte mais alta da Fortaleza de Maegor, ninguém havia conseguido dormir depois do que acontecera no quarto de Rhaegar. E antes que os sinos começassem seu aviso insistente, outro barulho já havia tomado de conta dos céus da cidade.

O ressoar de asas.

Asas fortes e ágeis. E o barulho dos rugidos. Rugidos aleatórios e pacíficos para quem os conhecia bem. Mas para o povo, com certeza os ruídos dos dragões sobrevoando a capital eram a personificação do perigo que representavam. Uma forma mais eficiente de acordar a capital, sem dúvida. O medo com certeza desperta mais rápido do sono do que a expectativa de uma festa.

As asas de Drogon eram tão grandes agora, que o vento movimentado por elas destelhava completamente inúmeras casas se ele voasse baixo. Sua sombra engolia pedaços inteiros da capital. E encobriria vilas interias, se sobrevoasse por elas.

O povo de Westeros dizia que seu dragão era Balerion revivido. O chamavam de sombra alada. Demônio negro. Tantos nomes, que ela já não os contabilizava mais.

Dany não tinha dúvidas de que ele rivalizaria com Balerion, um dia. Outra certeza que ela tinha era de que ela não estaria mais ali para poder contemplar a grandeza de Drogon com seus próprios olhos quando esse dia finalmente chegasse.

Drogon ainda era jovem. Balerion viveu e cresceu por dois séculos. Seus bisnetos o veriam no auge do seu poder. Não ela. Não Jon. Não seus filhos.

Seus filhos. Dany olhava para os três dragões circundando os céus da cidade, Drogon isolado no alto, enquanto Stormfire, o dragão acobreado de Rhaegar e Khaleeth, a dragão cor de oliva de Lyanna mergulhavam e dançavam colados um no outro, com agilidade e rapidez, distantes do dragão mais velho.

Por tanto tempo a visão de três dragões havia sido tudo que ela chamava de filhos. Ela havia perdido dois deles. E havia ganhado dois de verdade. Não de fogo. Mas de sangue. Sangue dela e do homem que ela amava.

Perder dois de seus dragões havia sido doloroso. Muito doloroso. Mas agora ela entendia que aquela dor nunca seria sequer parecida com a dor de perder um filho de verdade, por mais preciosos que seus dragões fossem.

E ela podia ter perdido Rhaegar. Poderia estar chorando sob o corpo do filho, não fossem aqueles lobos. E isso havia lhe tirado o sono. Havia lhe tirado a paz. Ela teria matado com as próprias mãos o homem que havia tentado fazer aquilo, não houvesse uma fila querendo fazer o mesmo.

Os lobos. A própria filha, que nunca havia olhado com um semblante fatal para ninguém, até a noite passada. O próprio Jon.

Jon. Jon não havia sequer questionado a ideia de Arya de deixar os dragões livres durante aquele dia. Logo ele, sempre tão cuidadoso com qualquer coisa relacionada aos dragões. Sempre pragmático com o perigo que representavam. Sempre a voz que pensava nas pessoas e no terror que os dragões representavam para elas.

Ele escondia algo dela. Sabia de ameaças que ela não estava sabendo. Não havia outra explicação. Se ele estava disposto a usar os dragões como intimidação a qualquer ataque que pudessem sofrer durante o percurso até o Septo, sabendo qual seria a reação das feras se isso acontecesse, era unicamente porque a chance de um ataque era real e porque o desespero do marido para impedir isso era grande o suficiente para o fazer arriscar a segurança do povo sem titubear.

Se dar conta disso a deixava aterrorizada por dentro. Em breve o marido estaria ali ao seu lado. Em breve os filhos se juntariam à eles. E sairiam pelas ruas, como se nada tivesse acontecido. Como se nenhum perigo os rondasse, como se nada tivesse conseguido abalar os Targaryens. E pior, a festa duraria por dias. Havia sido encurtada, mas ainda assim seriam duas semanas.

Duas semanas onde teriam que dar atenção para inúmeros convidados. Duas semanas nas quais ela não teria tempo para descobrir de forma satisfatória o porque daquilo tudo. Porque? Porque agora? Depois de tanto tempo?

Eles reinavam há dezessete anos. Dezessete anos. O começo havia sido difícil. Ela e Jon tiveram que reconstruir o que estava destruído. O país. A confiança das pessoas na casa Targaryen. A ordem. As leis. E eles haviam conseguido. Haviam conseguido. Paz e prosperidade se espalhavam pelo reino.

O que havia mudado? Os Dothraki estavam em Dorne há dezessete anos. Eles não haviam tomado Dorne dos Martell. A casa não tinha mais herdeiros homens, estava praticamente extinta ao fim da grande guerra com os Outros, restando apenas parentes distantes, bastardos de origem duvidosa. Eles não foram derrubados ou expulsos ou subjugados.

Havia sido natural para ela entregar aquele território ao povo que havia deixado tudo para trás para segui-la, para ajuda-la a tomar aquilo que era dela. Eles mereciam aquela recompensa. Mereciam um novo lar. E o clima do Dorne era agradável à cultura deles. O lugar era selvagem o suficiente para que se adaptassem bem.

O que havia mudado? Ela se perguntava. Mas engolia em seco por medo da resposta. Parentes distantes da casa Martell queriam voltar a governar o Dorne. Ela não era totalmente alheia àquele sentimento. Sabia o que era lutar para fazer valer seu nome, quando aquilo era tudo que lhe restara, quando o que era dela havia sido tomado ao preço do sangue de sua família.

Mas eles não haviam massacrado os Martells. Ela recusara os pedidos deles de voltar a governar o Dorne, era verdade, mas tentar assassinar seu filho era algo além do que era esperava, mesmo com os alertas de Arya sobre uma possível revolta, ela não esperava que pudesse chegar à isso. E não poderia deixar sem resposta. Não deixaria.

Quando ouviu passos vindo na sua direção, não precisou olhar para saber que era Jon. Mas quando olhou, não pôde deixar de admirá-lo. Trajado em negro, um manto cinza escuro sobre as costas. A coroa simples sobre a cabeça. Garralonga pendendo da sua cintura.

O negro da Patrulha da Noite. O cinza dos Stark. A coroa dos Targaryen, a que ele nunca quisera, nunca esperara, assim como a espada que herdara de um pai sem filho, enquanto ele era um filho sem pai.

Aquele era Jon. Para o mundo, poderia ser Aegon VI. Mas para quem o conhecia direito, como ela conhecia, dos muitos nomes pelos quais ele já havia sido chamado ou reconhecido, aquele era o que menos demonstrava o que ele era de verdade.

Depois de todos aqueles anos, Dany sabia que ele nunca seria como ela. Nunca amaria o nome da sua casa, como ela amava. E ela entendia. E não achava que ele precisasse ser diferente. Ele podia ser o rei que usava cinza em ocasiões públicas onde tudo é analisado e medido, inclusive cores.

Que dissessem que ele era muito mais Stark do que Targaryen. Ela era Fogo e Sangue suficiente. Na alma e no corpo. Nas escamas escarlates e cor de vinho que cobriam sua pele e reluziam feito sangue vivo a cada movimento do tecido que a vestia. Ou na coroa intricada de asas de dragão que pesava sobre sua cabeça.

— Você está...- Jon procurou palavras, olhando-a em detalhes, os olhos encontrando com os dela e permanecendo ali, vidrados no violeta, a mão procurando a dela.

— Eu sei. O traje é quase...dramático demais – Dany apertou de volta a mão dele.

Não. Não para você – o marido respondeu, levando a mão dela até seus lábios e deixando um beijo ali – Eu ia dizer linda. Só achei a palavra insuficienteJon explicou.

— Não me sinto assim. Não depois dessa noite — Dany confessou. Ela não queria se indispor com Jon. Não queria pressioná-lo. Não agora. Não durante a festa, não com outras tensões misturadas. Mas não sabia se iria conseguir.

— Não vamos deixar as crianças perceberem. A noite foi horrível para todos nós, mas precisamos tranquilizá-las. O que aconteceu aqui não vai se repetir – Jon apertou a mão dela, a voz puro ferro e determinação – O castelo todo, todos os eventos, estão sob um novo protocolo de segurança. Tudo foi mudado. Horários. Grupos de troca de guardas. Os dragões vão ficar por perto. Os lobos também. E como eu dificilmente vou conseguir dormir de tanta preocupação, provavelmente vou acabar guardando eu mesmo o sono deles dois – ele terminou dizendo, com um discreto sorriso triste para ela.

— Então vamos ser nós dois – Dany passou a mão no braço de Jon – Cada um em uma porta – ela completou, enquanto saíam dos aposentos.

— Você ainda lembra das lições que teve comigo e com Arya? – Jon quis saber, quase rindo da imagem mental dos dois sentados vigiando as portas dos filhos, cada um com uma espada. Dany era feroz com a dela. Nunca tivera muita disposição para treinar, mas era forte. Sabia o básico para se defender enquanto o socorro chegasse.

— Lembro – Mais ou menos, foi o que ela pensou – Acho que seria mais fácil levar os dois para dormirem conosco de novo, como quando eram pequenos – Dany sugeriu. Não sabia de onde estava conseguindo quase brincar, com tudo que se passava na sua cabeça. Mas estava.

Concordo. Quem dará a notícia à eles? – Jon falou, imaginando a cara dos filhos ao ouvir aquilo, passando os braços na cintura da esposa e beijando carinhosamente sua testa.

Dany sorriu silenciosamente. Mas logo o sorriso morreu e entalou na sua garganta, virando um choro engasgado, um choro que ela não permitia sair, mas que estava ali, à espreita.

Jon havia passado a noite fora dos aposentos, acordado pelo castelo, ajustando detalhes da segurança, com Verme Cinzento e Arya e um batalhão de soldados que caminhavam de um lado para o outro sem parar.

E eles acabaram não tendo nenhum momento sozinhos, só os dois, para falar sobre aquilo. Ela acabara não tendo nenhum momento para chorar. Para ser fraca. Para extravasar o medo com a única pessoa que poderia entendê-la.

E ele arrebentava agora, enquanto o marido a abraçava. Não só o medo, mas também a raiva. A necessidade latejante de fazer alguma coisa.

Precisamos conversar— Dany falou, deixando no ar a seriedade da conversa. Jon assentiu, cuidadoso, olhando em seus olhos.

— Precisamos. Mais tarde, antes do baile, podemos nos reunir, apenas eu, você, Tyrion e Verme Cinzento...- Jon começou a sugerir. Dany concordava em silêncio, mas ele podia ver a fúria que queimava dentro dos olhos da esposa – Temos que tentar arrumar uma solução pacífica para isso, Dany. Enviar um emissário aos Martells e tentar um acordo...

Concordo— Dany o interrompeu, vendo os olhos do marido à sondando, com evidente surpresa – Não quero guerra. Podemos conversar entre nós sobre os termos de um acordo – ela pausou e respirou fundo – Mas o proíbo de entrar em contato com os Martells agora.

— Não faria nada sem estarmos de acordo. Você sabe muito bem disso – Jon falou, o maxilar enrijecido, uma sombra de irritação passando por seus olhos. Dany a ignorou. Afinal ele andava escondendo coisas dela.

— Reconheço que precisamos tentar resolver isso sem entrarmos em guerra com eles, mas não vamos procurá-los logo depois de terem tentado matar meu filho como se fôssemos cachorrinhos assustados. Nós somos dragões— Dany falou, tentando controlar sua raiva o melhor que podia.

Nosso filho. Nosso – Jon enfatizou – Não pense que é a única aqui com mais raiva do que quer demonstrar, porque você não é – Jon afirmou, afastando-se um pouco dela, sem esconder sua irritação.

Dany não queria brigar. Mas precisava deixar muito claro o que fariam. Precisava deixar. Só então poderia descer e encarar aquela multidão. E os dias que se seguiriam.

Quero o mandante. E o quero vivo. Quero cada pessoa que participou desse atentado contra a vida de Rhaegar. Quero ir até o Dorne e queimá-los diante deles. Quero ver as cinzas deles se espalhando por aquelas areias – Dany falou baixo, com o olhar injetado, encarando Jon e observando que ele não parecia nada surpreso – Só depois podemos tentar um acordo. Só depois.

— Arya já está trabalhando nisso – Jon revelou, com um suspiro pesado – Se encontrarmos os mandantes, eles serão seus para fazer o que quiser.

Quando. Quando encontrarmos. Não podemos tolerar isso. Ninguém tenta matar nosso filho, o futuro Rei, e escapa ileso. Ninguém— Dany afirmou, a voz voltando a tremer – Eu sei que você quer resolver tudo sem conflito. Sei que isso vai exigir de mim concessões. Estou disposta a fazê-las até certo ponto, Jon. Mas não sem que o preço seja pago. Se não respondermos com Fogo e Sangue, qualquer um vai achar que pode fazer o mesmo.

— Vamos encontrar quem quer que tenha participado disso. Prometo à você – Jon falou, voltando a tocar no rosto dela.

O toque dele em sua pele a acalmava. Acalmava a ira, a sede por sangue, por justiça. Mas mesmo as mãos carinhosas do marido não conseguiam livrá-la do medo.

Não posso perder meus filhos – Dany falou, com os dentes trincados – Eu não suportaria, Jon – Dany confessou, sentindo os braços dele a envolvendo, trazendo-a para o calor do seu corpo. Só ali ela poderia dizer aquilo em voz alta. Só para ele.

Não vamos perder. Ninguém vai feri-los. Nós não vamos deixar, lembra?— Jon falou, abraçando-a com mais força, recordando das palavras que ela havia dito para ele semanas atrás – Vamos sair pelas ruas da cidade de cabeça erguida. Nós quatro. E vamos resolver isso – ele continuou, falando com tanta convicção que ela realmente se sentia preenchida de certeza.

Havia sido mais fácil do que ela imaginara. Jon podia controlar o fogo que queimava em suas veias melhor do que ela, mas ele estava lá. Estava lá. A família era tudo para ele e por isso ele não a impediria de se vingar. Pelo contrário, por mais que não falasse, ela via que Jon queria aquilo tanto quanto ela, apenas se preocupava mais com as consequências. Porque ele era assim, era um Rei nato, um homem intrinsecamente ligado ao bem comum.

Dany também o era. Mas não quando mexiam com o que ela mais amava.

Vamos. Vamos sim – ela concordou, com um tom conciliatório, feliz por não terem chegado a brigar, os dois voltando para fora da Fortaleza - E enquanto isso, vamos conhecer os futuros pais dos nossos netos – ela completou, apenas para ver Jon suspirar um pouco exasperado, fazendo uma careta de desgosto.

E aquele suspiro, aquela expressão dele, incomodado com algo tão mais banal, quase a relaxou.

~*~

Rhaegar olhava de perto para as esculturas em baixo relevo que decoravam ricamente a quadriga na qual ele e Lyanna atravessariam a cidade, enquanto esperava pela irmã e pelos pais.

A estrutura da espécie de biga, adaptada para um condutor, que naquele dia, especialmente, seria um dos melhores Imaculados de Verme Cinzento, era própria para levar duas pessoas atrás, em pé.

A madeira forte havia sido revestida de branco e toda decorada com folhas de ouro. Os relevos, obviamente, eram quase todos de dragões. O maior deles, idêntico em ambos os lados da quadriga, era o símbolo da sua casa Targaryen, o dragão de três cabeças.

Mas haviam outros desenhos, menores, interligados por finos fios dourados que se espalhavam por toda a estrutura e era para eles que Rhaegar olhava, inclinando-se sob a sua superfície, para ver melhor.

Haviam rosas, lobos, coroas, espadas e pequenos dragões que ele poderia jurar que serem réplicas perfeitas de Stormfire e Khaleeth, até nas cores, com o cobre e o verde brilhando em meio ao dourado de todo o resto. Ele procuraria o artesão depois. O trabalho sem dúvidas merecia elogios.

Admirando nossa carroça?— ele ouviu a voz de Lyanna, seus passos firmes, o farfalhar das suas vestes se aproximando lentamente.

— O nome é quadriga. Mas você com certeza sabe disso – Rhaegar falou, não olhando para trás, apenas se erguendo, tentando pisar sem colocar muito peso no pé machucado.

— Estou vendo os quatro cavalos. Mas ainda é uma carroça. Só é mais enfeitada – ela disse, parando atrás dele – Aliás, carroças permitem que seus ocupantes se sentem. São melhores que isso— completou, olhando para a barra de ferro onde ela e o irmão deveriam se segurar enquanto sorriam e acenavam e tentavam não cair— Porque não podemos ir à cavalo, como nossos pais? Isso é tão... – Rhaegar ouviu um suspiro dela. A irmã não completou a frase.

— O percurso não é tão longo. Vai acabar rápido – ele falou, ainda não encarando a irmã, preferindo ganhar tempo para controlar suas reações à ela, principalmente depois da noite passada. Ele ainda podia sentir as unhas dela em suas costas. Ainda lembrava com detalhes demais, a sensação de tê-la agarrada à ele só de camisola.

Rhaegar olhou para os quatro cavalos brancos que os conduziriam e para os dois cavalos negros separados para seus pais, mais à diante, prontos e aguardando. Lys e Black já estavam ali, com os pelos limpos e reluzentes, sem nenhum vestígio do sangue das víboras. Dezenas de Imaculados com suas couraças lustrosas também. Tudo e todos aguardando apenas que os monarcas chegassem.

O restante da comitiva seguiria logo atrás. Nobres de todo o reino, em cavalos e liteiras, com inúmeras flâmulas de suas casas balançando ao vento. As grandes casas viriam primeiro, com os Stark, representados pelo filho mais velho de Lady Sansa Stark, o Jovem Ned, logo à frente, seguidos pelas demais.

Formariam um mar de cores, de bestas, de lemas. De gente. Tudo organizado para ser um dia memorável. Tudo ofuscado, pelo menos para eles, pelo acontecido na noite anterior.

Rhaegar ouviu um barulho alto e familiar cortando os céus sobre suas cabeças, as sombras aladas se projetando sobre a Fortaleza Vermelha. Ele olhou para cima, para Stormfire e para Khaleeth e finalmente, para Lyanna também, que contemplava os céus como ele fazia, com um sorriso no rosto.

— Ir voando seria tão melhor – ela disse, com a voz desejosa, saindo das suas costas e ficando ao lado dele.

— Não posso discordar – Rhaegar falou, sem olhar mais para o céu, finalmente se permitindo observar a irmã em detalhes.

Os olhos cinzentos com os fios de violeta que quase não se percebiam. O rosto de pele branca e imaculada, moldados pelos longos cabelos negros como a noite, literalmente salpicados de estrelas pelos pontos de luz das pedras do diadema prateado que entremeava os fios, brilhando em contato com os raios de sol.

Ela usava uma veste elaborada, em tons de vermelho vivo, com finos detalhes cor de prata espalhados ao longo do decote, da cintura e das laterais, enquanto ele estava todo de negro com alguns poucos detalhes dourados. Vermelho e Negro. A sutileza Targaryen dos modistas da corte.

O vermelho combinava com ela, parecia deixar sua pele dela ainda mais branca. E a roupa havia sido feita para destacar todas as suas curvas, Rhaegar não conseguia deixar de notar. Ele nunca, nunca, a tinha visto tão linda.

O que foi?— ela perguntou, arqueando uma sobrancelha, observando os olhos dele sobre ela. Se aquele fosse um dia comum, Rhaegar sabia que a irmã teria sido mais ríspida. Mas a pergunta dela tinha saído sem nenhum traço de irritação. Ele sabia bem por que. Ela ainda estava abalada por ontem e, por isso, ainda o tratava com um pouco mais benevolência do que o costume.

— Você está muito bonita – Rhaegar falou, da forma mais natural que conseguiu. Como se alguma gota dele fosse normal quando o assunto era sua irmã. Como se ele não estivesse com a imaginação dando voltas quanto à ela, quanto aos pretendentes que em breve estariam cortejando sua mão.

Obrigada — ela respondeu, tirando os olhos do céu e olhando rapidamente para si mesma e depois para ele. Rhaegar engoliu em seco ao vê que ela o analisava – Não vou devolver o elogio. Você já é convencido o suficiente – ela disse, com um meio sorriso para ele.

— Você tem um dom para me elogiar – Rhaegar respondeu, o sorriso dela aumentando discretamente, ajudando-o a começar a relaxar.

— Sou apenas sincera. Você é convencido— disse Lyanna, dando de ombros, olhando para trás, provavelmente à procura dos pais.

Humm— Rhaegar resmungou ridiculamente, incapaz de provocá-la com aquela história de ser sincera, ainda que mentalmente ele sentisse vontade de dizer será mesmo Lya?

— Chegaram – Lyanna comentou, o pai e a mãe descendo as escadarias que davam para os portões principais da Fortaleza Vermelha.

Rhaegar olhou para os pais também, já podiam ouvir o barulho da multidão lá fora, gritando coisas incompreensíveis. Quando pararam na frente deles, ele e Lyanna se curvaram. Haveria pouco espaço para informalidades dali para frente.

Vossas Majestades— os dois falaram, em uníssono. Quando ergueram as cabeças, os pais sorriam para eles. Não como sorriam quando estavam dentro daquelas paredes de pedra, mas ainda assim, sorriam.

Prontos?— Daenerys perguntou, com as sobrancelhas arqueadas, analisando os dois com um olhar de falcão.

— Temos outra escolha a não ser estar? – Rhaegar falou. O pai deles quase sorriu, o que fez Rhaegar e Lyanna trocarem um breve olhar. Se o pai estava sendo benevolente com as gracinhas dele, significava que as coisas estavam mais sérias do que podiam imaginar.

— Antes filho, preciso que coloque isso – Rhaegar ouviu o pai falando com ele, apontando para um Imaculado que trazia em suas mãos a espada de Rhaegar, embainhada em um novo cinto de couro.

Os dois deram alguns passos na direção do Imaculado, indo ao seu encontro. O pai pegou a espada antes que Rhaegar pudesse fazê-lo, colocando-a contra a sua cintura com firmeza.

Fique atento durante todo o percurso— Jon falou baixo, para que só ele escutasse – Temos homens nossos infiltrados na multidão e à margem dela por todo o percurso, os lobos marcharão ao lado de vocês, os dragões estão sobrevoando os céus, mas ainda assim... – Jon falava, apertando o couro, vendo se estava bem preso, pegando no ombro de Rhaegar ao terminar – Estarei logo à frente de vocês. Verme Cinzento logo atrás – Jon olhou por sobre o ombro, para onde Lyanna e Daenerys estavam aguardando – Se algo acontecer, proteja sua irmã e a si mesmo. Não se preocupe com mais ninguém, entendeu? Traga ela de volta, em segurança. Não tire os olhos dela e não se descuide. Não baixe a guarda— o Pai pediu, encarando-o nos olhos, sem esconder sua preocupação.

Não tirar os olhos da irmã era a parte fácil da coisa toda, Rhaegar pensava consigo mesmo, com uma pontada de culpa, enquanto acenava para tudo que o pai lhe dizia.

— Vou ficar atento. E vou cuidar dela. Prometo— ele afirmou para o pai, com determinação. Faria qualquer coisa por ela, o pai pedindo ou não.

— Então agora estamos prontos para ir – Jon falou, apoiando a mão sob o punho da própria espada, os dois voltando a se aproximar de Dany e de Lyanna, as duas com idênticos olhares de curiosidade contida e de compreensão preocupada.

Ele observou o pai colocar a mãe sobre o cavalo e subir no seu, olhando para eles dois alguns metros atrás. Rhaegar ofereceu a mão para Lyanna, para que ela subisse na quadriga e logo se colocou ao lado dela, disfarçando o incômodo que sentiu no pé ao se impulsionar para cima.

— Seu pé ainda está doendo – Lyanna disse na mesma hora. Não era uma pergunta. E ela o olhava com preocupação.

— Não é nada demais. Está bem apertado na bota. Não vai incomodar – Rhaegar minimizou, no exato momento que os portões foram abertos e a quadriga começou a se movimentar. Institivamente ele se segurou com uma mão e apoiou a outra nas costas da irmã, até que um ritmo estável se estabelecesse.

— O que nosso pai estava falando para você? – Lyanna quis saber, o rugido da multidão agora abafando a sua voz. Lys caminhava ao seu lado da quadriga, em meio as ruas de pedra da capital, enquanto Black fazia o mesmo do outro lado, protegendo o irmão.

Os olhos das pessoas se arregalavam ao ver os lobos gigantes. Muitos apontavam. Devia ser uma imagem impactante, de fato.

— Mandou que ficássemos atentos. E me incumbiu de proteger você – Rhaegar disse, perto do ouvido dela, mas olhando para as pessoas e acenando – Sorria – ele pediu, vendo ela ficar tensa ao ouvir aquilo.

— Me proteger? Com esse pé machucado? – Lyanna comentou, sem acenar ou sorrir, mas olhando para os lados. Sabia que estavam todos alertas com a possibilidade de um novo ataque – Eles estão escondendo o quanto a coisa a grave, não é? – ela perguntou.

— Eu não diria escondendo. Não com toda essa proteção ao nosso redor e não com nosso pai me dizendo isso. Acho que estão tentando entender o quanto é grave – Rhaegar falou – Aliás, meu pé está mordido, não podre. Não faça essa cara como se eu não pudesse proteger você.

— Não estou dizendo que não pode. Só fico preocupada. Não comigo mesma...mas com você – Lyanna explicou, praticamente gritando para que ele ouvisse.

A multidão urrava ao redor deles. Saudavam o Rei. A Rainha. Lyanna ouvia até saudações para ela. Simples Sete Bênçãos, Princesa. Nada comparado à tudo que diziam ao irmão. O povo gritava-o pelo nome, sem saber que por muito pouco não haviam perdido seu Príncipe à poucas horas.

Lyanna se arrepiou em pensar que poderiam estar velando o corpo do irmão. Que aquela multidão poderia estar ali não comemorando, mas sim se lamentando, chorando por ele. E ela não tinha dúvidas de que chorariam. De que gostavam do Príncipe Herdeiro mais do que de qualquer um da família real.

Estou bem – Rhaegar afirmou. Lyanna se sobressaltou por um momento com as palavras dele, como se ele estivesse respondendo aos seus pensamentos lúngebres, quando ainda estava falando sobre o pé.

— Conseguiu convencer o Alto Septão a deixar os lobos nos acompanharem durante a cerimônia? – Lyanna perguntou, mudando de assunto, olhando para Lys acompanhando sem dificuldade o movimento deles pelas ruas da capital.

— Mandei um corvo à ele, ainda ontem. Ele é um bom homem. Entendeu a situação – Rhaegar explicou, confirmando a pergunta dela.

Mais um que faz tudo que ele quer. Lyanna pensou, mas guardou para si, quando viu algo voando na direção do seu rosto, jogado do meio da multidão.

Antes mesmo que seus reflexos pudessem reagir, que suas mãos pudessem proteger o seu rosto, Rhaegar já o fazia, se colocando na sua frente, rebatendo com o antebraço o que agora ela via ser um simples ramalhete de flores. Flores.

Uma dúzia de flores amarelas que agora jaziam caídas para serem pisoteadas pela multidão de lordes que marchavam logo atrás dos dois.

— Eram só flores...- Lyanna balbuciou, olhando para trás e para o irmão, o coração aos saltos. Lys havia mostrado os dentes, Blackfire quase pulara sobre eles para passar para o outro lado.

— Talvez – Rhaegar disse, depois de alguns segundos, o maxilar tenso, observando a reação dos lobos e olhando ao redor deles com atenção – Estamos lidando com o Dorne. Elas poderiam estar envenenadas.

— O ramalhete tocou sua pele? Sua mão? – Lyanna perguntou à ele, com os olhos temerosos, agarrando na mão do irmão antes mesmo que ele respondesse. Nenhum dos dois usava luvas.

— Não. Não tocou – ele disse, olhando para a mão dela sobre a dele. Se tivesse tocado, ela não deveria ter feito aquilo. E ela sabia disso. Ela melhor do que ele tinha conhecimento sobre venenos. Sobre como alguns poderiam matar, horas depois, apenas com um leve contato da substância na pele da vítima.

Aquilo, aquele gesto, aquele risco que ela corria sem se importar, lhe trazia lembranças inapropriadas demais para aquele momento. De algo semelhante. De um dia que ela parecia ter esquecido, ter apagado da mente. Mas que ele nunca conseguiria esquecer.

— Está tudo bem – ele afirmou à irmã, apertando de volta a mão dela e depois soltando – Tente sorrir. As pessoas estão olhando – Rhaegar pediu – Vamos passar pela parte mais pobre agora e logo chegaremos.

Assim? – Lyanna falou, virando o rosto para ele e sorrindo forçosamente. A tensão se esvaiu dos olhos do irmão quando ela fez aquela careta.

— Desse jeito parece até que está sentindo dor – Rhaegar sorriu dela – Só sorria normalmente. Você tem um sorriso lindo, quando se digna a deixa-lo aparecer.

— Dois elogios em um só dia? Estou começando a ficar preocupada – ela implicou. Mas não era verdade. Rhaegar era daquele jeito. Um galanteador por natureza.

O percurso começou a ficar mais estreito e as casas mais simples, as pedras do calçamento escasseando. O caminho que eles percorreriam não seria em linha reta, da Fortaleza até o Grande Septo, à pedido de Rhaegar.

Lyanna lembrava bem que em uma das infindáveis reuniões sobre as comemorações, o irmão havia insistido que fizessem um pequeno desvio e passassem em pelo menos uma área menos nobre da capital.

E agora ela entendia por que. O barulho ali era ainda mais alto. Lyanna via canecas de bebida sendo batidas sobre cabeças, em brindes que molhavam muitos. Via lenços coloridos sendo sacudidos por mulheres com panos nas cabeças e crianças nas cinturas ou nos ombros dos pais. Havia muita alegria ali. Talvez por aquele distrito ter sido o primeiros a receber os pães e a cerveja para a comemoração. Talvez por acharem que a família real se importava com eles, a ponto de fazer um desvio para passar por ali.

Conforme passavam, Lyanna começou a perceber que muitas mulheres gritavam elogios indecorosos para o irmão. Ela revirou os olhos, vendo que ele continuava sorrindo e acenando com simpatia. Até que uma delas abriu suas vestes e mostrou seus seios volumosos, gritando case comigo Príncipe, arrancando gargalhadas da multidão.

Aquilo deixou Lyanna absolutamente desconcertada e a fez olhar encarar o Rhaegar com raiva.

Não sorria— ela o cutucou nas costelas – Não incentive isso, não quero ter que ver uma procissão de peitos de fora até o Septo – Lyanna reagiu, vendo que o irmão parecia achar graça da cena.

Ela achou que Rhaegar fosse lhe ignorar ou dizer algo engraçadinho, mas viu o sorriso dele mais contido quando ele virou o rosto para ela e permaneceu assim.

— O que foi? – perguntou Lyanna, encarando os grandes olhos violeta claro dele.

— Só estou fazendo o que você pediu. Se não devo olhar para os seios das plebeias, vou ficar olhando para você então – ele disse, com um sorriso cínico no rosto.

— Olhe para onde quiser. Só não fique sorrindo feito um idiota – Lyanna rebateu, incomodada por ele continuar lhe encarando.

— Você é sempre um doce, irmãzinha – Rhaegar falou, mantendo o olhar, apesar de ela tentar ignorá-lo. Tentar e não conseguir.

— Ansioso para rever seus amigos do Septo? Quando o inverno acabou e você ficou bom daquela sua febre eu achei que você iria virar um Septão de tanto que ia lá. Eles devem estar com saudades – disse Lyanna, provocando-o, querendo mudar de assunto, lembrando do comportamento estranho do irmão, depois que ele ficou bom de uma terrível febre de inverno que se espalhou por todo o Reino e que chegou a matar muitas pessoas.

Ela não gostava de lembrar daquilo. Não sabia nem porque estava tocando naquele assunto. Rhaegar havia ficado de cama por dias e ela não podia vê-lo, pois temiam que ela também pegasse. Lyanna obedeceu à proibição, mas só até o dia que escutou uma serva chorando enquanto dizia que achava que o Príncipe não passaria daquela noite.

Naquela madrugada Lyanna havia ido escondida até o quarto do irmão e esperado por um momento onde sua mãe saísse do lado dele.

Por mais que Rhaegar a irritasse, ela não queria que ele morresse. E ela pediu incessantemente pela vida dele aos deuses novos e antigos ao lado da sua cama. Aquela noite era um borrão na sua mente. Ela não gostava de lembrar dela. Havia voltado febril e nervosa para o quarto e desde então suprimia aqueles momentos de sua mente com toda a sua força de vontade.

No dia seguinte o irmão começou a melhorar, até ficar totalmente recuperado. Ela não o viu muito depois de ficar bom. Estava ocupada. Precisava se ocupar. Lembrava que Rhaegar havia começado a pedir para ir todos os dias ao Grande Septo para agradecer aos Sete pelo milagre de ter se recuperado.

Lembrava que ele havia passado alguns meses fazendo isso. Até começar a diminuir as visitas para uma vez por semana. O mais engraçado era que algum tempo depois disso, de fiel devoto e constante leitor dos escritos sagrados da Estrela de Sete Pontas, o irmão passou a estar disposto a beijar todas as garotas do Castelo.

Ela cogitou que ele estivesse ficando louco. De monge à devasso, era uma virada grande demais. E desde então os dois haviam se distanciado de alguma forma esquisita, ela não sabia explicar bem porquê, mas no fundo sabia que era melhor assim. Eles se davam bem, ela amava o irmão, mas não passavam mais tanto tempo juntos, como quando eram crianças.

Talvez por gostarem de fazer coisas diferentes. Talvez por ele estar em uma fase diferente. Não importava. Não demoraria muito ela iria se casar com alguém e iria embora dali. Ela sentiria falta dele, mesmo que não gostasse de admitir isso.

— Eu ainda vou sempre lá. Gosto muito do novo Alto Septão. Somos amigos – disse Rhaegar, vendo que a irmã parecia com o pensamento distante.

— Você confessa seus pecados para Sua Santidade de vez em quando? – perguntou Lyanna, não conseguindo imaginar o irmão e o Alto Septão sendo realmente amigos.

— Alguns. Mas nem todos – respondeu Rhaegar, sorrindo com ar de mistério. A quadriga fez uma curva acentuada revelando finalmente as escadarias do Grande Septo reconstruído, assim que ele disse aquilo.

— Finalmente – disse Lyanna, com um suspiro aliviado. Quando a quadriga parou, ela observou Rhaegar pulando dela com agilidade o que a fez prendeu a respiração, pensando mais uma vez no pé dele. Mas se havia alguma dor, o irmão a estava escondendo muito bem agora.

Rhaegar estendeu a mão para ela, solenemente, com o outro braço para trás. O povo observava tudo com avidez, um tanto mais reverentes e menos barulhentos, talvez por estarem no entorno do Septo. Os lobos estavam próximos, os guardas também. Parecia tudo sob controle, mas ele realmente só ficaria um pouco menos preocupado quando estivesse lá dentro.

Ele sentiu o calor da mão dela na sua e a ajudou a descer, os dois encarando os muitos degraus da escadaria, o Alto Septão os aguardando no alto, trajado com suas vestes sacerdotais mais ricas, a coroa de cristal reluzindo. Rhaegar sorriu para ele. Por mais que a irmã desdenhasse, eles realmente se davam bem.

Os dragões circulavam sobre eles, tão próximos que Rhaegar temeu que pousassem sobre uma das torres de cristal do Novo Septo. Os pais deles já subiam a escadaria. Rhaegar entrelaçou o braço de Lyanna no seu e tocou rapidamente na pelagem negra de Black, incentivando-o à subir.

— Quem fez este vestido certamente não lembrou desses malditos degraus – Lyanna resmungou, agarrando com mais força no braço de Rhaegar.

— Não vou deixar você tropeçar – Rhaegar garantiu à ela. Lys deu um pequeno uivo em concordância, mantendo alguma distancia das saias que ela sutilmente levantava com a mão livre.

Lyanna não disse nada quando os quatro começaram a subir as escadarias. Eles dois, ladeados por seus lobos gigantes. Rhaegar olhava com atenção para ela, a outra mão agora sob o cabo da própria espada, achando-a compenetrada demais.

Quando terminasse a subida, eles seriam seguidos por pelo menos quinhentos nobres de todo o reino para só então darem início à cerimônia em agradecimento aos Sete pelo décimo oitavo dia do nome deles, que na verdade seria só no dia seguinte.

Rhaegar tentava não pensar que dali a pouco tempo eles teriam que subir aquelas escadarias para se casarem. Tentava não pensar que tudo poderia dar errado. E que a teimosia de Lyanna ou tantas outras variáveis poderiam fazer com que ele talvez tivesse que vê-la saindo dali de mãos dadas com outro. Com Sam, o que era duplamente ruim. Ou qualquer homem que ele provavelmente invejaria e odiaria em segredo para sempre.

Chegando finalmente no topo, o Alto Septão os recebeu calorosamente, fazendo uma longa reverencia à todos eles e ignorando a presença dos lobos com maestria. Seus pais e eles dois se posicionaram cada um ao lado do homem, que ainda esbanjava vigor do alto de seus cinquenta anos e virados para o público, todos acenaram e finalmente começaram a se dirigir para o interior do Grande Septo.

O Grande Septão ia à frente, com passos apressados, rumo a um dos Sete Altares do Septo, o altar da Mãe, de onde tradicionalmente se celebravam momentos relacionados à nascimentos. Rhaegar olhou de soslaio para o altar seguinte. O altar do Pai. Os casamentos eram feitos entre os dois. Quem estaria ali com ele, dali a algum tempo? Só uma opção era aceitável para ele.

— Me diga que isso não vai demorar demais – Lyanna cochichou no ouvido dele.

— Pelo menos uma hora – Rhaegar respondeu, sentindo essa encolher, ainda de braços dados com ele.

— Vou tentar não dormir – ele a ouviu dizendo. Ela brincava enquanto ele estava uma bagunça por dentro. E aquilo o enlouquecia.

— Tente não roncar. O Alto Septão vai ficar ofendido – Rhaegar cochichou de volta no ouvido dela, gostando de ver como ela ficava tensa quando ele fazia isso. Será que ela não percebia? Como era possível?

— Quando a cerimônia acabar você vai aproveitar que já está aqui, e vai procurar seus amigos Septões para confessar os pecados que ainda guarda aí? – respondeu Lyanna, ignorando a provocação dele e devolvendo em seus termos. Ela não roncava. Mas talvez realmente dormisse.

— Vou confessar todos eles um dia, irmã, não se preocupe. Mas tudo tem seu tempo – ela o ouviu dizer, quando a pequena multidão de nobres começou a entrar e a ocupar o centro do Septo, um nível abaixo dos altares.

Os dois se aproximaram dos pais, ficando nas posições demarcadas e percebendo que os monarcas pareciam tão envoltos na própria conversa que não se davam ao trabalho de sequer tentar diminuir o tom de voz.

Achei ter tido um vislumbre de estandartes da Baía dos Dragões— Jon perguntou à Daenerys – A cerimônia não era exclusivamente para os nobres de Westeros? – ele quis saber, olhando interrogativamente para a esposa.

Rhaegar e Lyanna lembraram da conversa que ouviram dos pais e tentaram parecer alheios ao que eles estavam falando.

— Posso ter aberto uma exceção à comitiva das cidades da Baía – Daenerys respondeu, olhando para a multidão abaixo deles.

— Ele já está aqui então? – Jon perguntou, parecendo tranquilo. Não se dando ao trabalho de passar os olhos em meio aos convidados.

— Não sei. Não acho que ele gostaria dessas...- Dany começou a dizer, quando viu Daario Naharis, em carne e osso, entrando no Septo – Bem, é ele ali – Dany falou mais baixo, com uma discreta indicação com o queixo.

Jon virou de costas para o público, ficando de frente para o Alto Septão. Não procurou o homem com os olhos. Não se dignaria a reconhecer sua presença assim. Os filhos fizeram o mesmo e Daenerys também, respirando fundo.

— Não preciso cumprimentá-lo até o baile de hoje à noite, não é mesmo? – Jon falou, com a voz fria e calma.

— Não. Não precisa – Dany disse, olhando para os filhos, como se só agora se desse conta que eles e o Alto Septão estavam ouvindo tudo que eles diziam. Dany deu um sorriso constrangido para todos e se empertigou em sua posição.

— Vai correr tudo bem – Dany murmurou para ele, consolando a si própria.

Claro. Todos os jovens solteiros estarão cortejando minha filha hoje à noite – Jon falou, olhando para Lyanna – Meu filho vai estar ocupado demais para cuidar da irmã – Jon continuou, olhando para Rhaegar, que ainda abriu a boca para protestar, mas se calou — E eu ainda vou ter que lidar isso, enquanto penso em todo o restofinalizou, beijando a mão da esposa e olhando de relance para os lobos, diligentemente comportados, espreitando de perto.

Alto Septão, pode começar— Jon falou, vendo o homem lhe fazer uma mesura com a cabeça. Ele ia precisar da ajuda de todos os deuses.