Forbidden
4 Capítulo 4
Uma cópia do mapa de poços e aquedutos tinha sido feita à tempo e Lyanna havia mandado entregá-la ao irmão. Coincidência ou não, os dois mal tinham se cruzados nos dias que se seguiram e aquilo lhe trouxe certo alívio.
Não podia negar que as palavras de Rhaegar tinham mexido em algo. E não vê-lo ajudou-lhe a não pensar demais naquilo. A manter o foco apenas no que ela sabia que precisava fazer.
Ela não gostava de admitir, mas o irmão tinha razão em parte pelo menos. Ela podia, devia na verdade, escolher. Era o mínimo.
E talvez...talvez não fosse tão ruim quanto ela temia. Talvez ela pudesse casar com alguém que seria um bom um companheiro agradável, talvez com o tempo pudesse gostar dele até.
Era melhor pensar assim. Positivamente. Mesmo que uma parte dela gritasse em protesto à ideia conformista. Por isso ela vinha tentando. Principalmente quanto encontrava com Sam, já que ele era um dos candidatos a futuro marido.
Eles dois não eram tão próximos, mas Lyanna até o considerava um amigo. Afinal, haviam crescido e brincado juntos. Bem, ele brincava, enquanto ela lia alguma coisa e olhava os garotos vez ou outra sobre a capa do livro antes de voltar os olhos para a leitura.
Sam era...calmo. Era a melhor definição que tinha dele. Seus modos eram profundamente gentis para alguém daquele tamanho. E ele era grande. Forte. Treinava todos os dias no pátio e já havia ganhado de Rhaegar inúmeras vezes, apesar de o irmão gradativamente passar a dar mais trabalho ao longo dos anos.
Não que ela assistisse os treinos dos dois todos os dia para saber daquilo. Mas ela ouvia os comentários. De como os dois duelavam bem. De como o Príncipe era mais rápido e ágil em seus movimentos e de como Sam era mais forte nos dele. De como as lutas entre os dois eram consideradas quase que um espetáculo diário na corte.
Sabendo que o irmão estava passando os dias trancado com o outro Samwell Tarly daquele castelo, cumprindo dedicadamente a difícil tarefa que o pai deles havia lhe determinado, Lyanna arriscou caminhar até o pátio de treinos durante a manhã, para a felicidade de suas damas de companhia, principalmente de Sarah Manderly, que lançava olhares abobalhados para os garotos treinando sem camisa.
Lyanna precisava se conter para não revirar os olhos à todo momento diante das reações dela. Lady Melissa, sua fiel parceira, não apreciava a visão doa garotos Tarlys e de outros guardas se digladiando diante da pequena plateia, não sem Rhaegar ali. Mas também estava lá, claro.
Lyanna raramente se dava ao trabalho de assistir àquilo. Não lhe agradava nada ver os garotos se golpeando com espadas de madeira, com espadas cegas, muito menos com as lâminas de verdade. Rolando no chão aos socos. Tentando acertar aos outros com grandes estacas que podiam atravessar um coração. Não, não. Causava-lhe tensão. Angústia. A fazia pensar nas coisas que os obrigavam a ter que desenvolver aquelas habilidades. Guerra. Traição. Morte. Nada animador. Não para ela.
Sam havia lhe dado um sorriso tímido quando a viu chegando pelos corredores vazados que circundavam o pátio. Estavam cheios de pessoas apoiadas nas baixas amuradas góticas, olhando para toda atividade violenta que se desenrolava, pessoas que se afastaram para conceder à ela é ao seu pequeno séquito um bom lugar para assistir.
Sam acompanhou cada passo dela. Ela não pode deixar de notar. E aquilo fez sua garganta se apertar um pouco. Eles estavam estranhos um com o outro. Com certeza ele havia sido informado que estava sendo cogitado como futuro marido dela. Talvez por isso, mesmo depois de algum tempo que ela já estava ali, ele parecesse tão inquieto e nervoso ao circular pelo pátio de luta. Talvez achasse que ela estava ali o avaliando.
Não que ela não estivesse fazendo aquilo em algum nível. Ela relutantemente estava. Mas não ligava se ele ganhava ou perdia os duelos que disputava, apesar de notar que ele estava perdendo todos. Ela apenas queria olhar para ele e tentar imaginar. Se imaginar com ele. Se imaginar como esposa dele. Vivendo em um lugar com Sam, longe dali. E era...difícil. Mas talvez requeresse alguma...persistência. Sim. Talvez.
Sam nunca era o alvo dos olhares femininos. Logo sempre andava com Rhaegar. Ela imaginava como aquilo deveria frustrante para ele. Ele sempre seria a segunda opção de qualquer grupo de garotas. Sempre o amigo do Príncipe. Mas olhando bem para Sam, ele não era feio. Ele só era comum. Enquanto Rhaegar era alguém totalmente incomum com aquela beleza Valiriana desconcertante. Ela sabia bem o que era conviver com aquele contraste desproporcional.
Os cabelos de Sam eram castanho escuros. Os olhos também. O nariz levemente torto, quebrado nas lutas que ele tanto gostava. E esse detalhe até lhe conferia algum charme. E vendo-o ali sem camisa, Lyanna não podia dizer que o corpo dele não era bonito também. Ele era musculoso. Mais alto e mais corpulento que Rhaegar e os outros Tarlys, apesar de Dickon já não ficar muito atrás do irmão mais velho.
— Você vai fazer Sam sair daqui direto para a enfermaria hoje – Lyanna se espantou com Jane falando baixo em seu ouvido. Ela não sabia o que dizer.
— Eu? O que... – Lyanna respondeu, suspirando, erguendo os cotovelos da amurada – Você acha que ele está...incomodado? Por eu estar aqui? Nem estou olhando muito pra ele...estou? – ela perguntou, mais baixo ainda.
— Levando em consideração que nunca vi Vossa Alteza olhando para ninguém, eu diria que está fazendo isso razoavelmente bem – Jane respondeu – Quero dizer, você estava até com a cabeça levemente inclinada. Igualzinho fica quando lê aqueles seus livros velhos – observou, olhando dela para Sam lutando ao estilo dos Imaculados, com lança e escudo.
— Não estava não – Lyanna falou, ajeitando a cabeça. Estava sim. Que sutileza – Mas não quero incomodá-lo...ou pior...
— Incentivá-lo? – Jane completou, com um olhar de compreensão – Ele não precisa de nenhum incentivo, Princesa. Sam já olha para você à algum tempo. Na verdade acho que a amizade com o Príncipe é o que faz com que ele nunca tenha sido mais...aberto...em seu interesse.
— Interesse? Não exagere, Jane. Sam sempre me tratou normalmente. Nunca percebi nada – Lyanna contestou, meio insegura, inevitavelmente olhando de relance para Sam, que olhava para ela e não para o oponente, lhe custando mais um golpe não defendido. Lyanna se encolheu com o barulho.
— Para percebemos as coisas, Princesa, temos que nos dar ao trabalho de olhar – Jane falou, com aquele jeito doce e sutil de ser sincera com ela, de dizer o que pensava.
Jane sempre era sincera. E Lyanna gostava daquilo. Gostava da calma dela. Da maturidade dela. A dama de companhia já estava noiva de um jovem lorde das Terras da coroa e encarava a perspectiva da nova vida de uma forma tão tranquila que Lyanna quase sentia inveja, dada a situação que ela própria se encontrava.
— E eu não olho. É isso que quer dizer? Que ando por aí feito uma cega? – Lyanna rebateu, começando a se afastar das demais pessoas que assistiam, suas damas automaticamente lhe acompanhando, Melissa e Sarah sempre alguns passos atrás delas duas.
Jane caminhava de braço dado com ela, ainda sorrindo serenamente. Ela sabia bem quando Lyanna estava realmente irritada. E não era bem o caso.
— Eu não diria que feito uma cega. Cegos não enxergam porque não podem enxergar...não é bem o seu caso, Alteza – Jane respondeu, com um olhar perspicaz.
— Você está afiada hoje – Lyanna bufou, sem argumentos para rebater Jane – Bem...Não quero mandar ninguém para a enfermaria... E se Dickon está aqui, significa que meu Pai também está e estou precisando conversar com ele. Fique aí com as outras. A pobre Sarah estava quase avançando em Dickon, vai ficar aborrecida se tiver que voltar agora – Jane pareceu surpresa com o comentário dela – Viu como eu vejo as coisas?— Lyanna falou, estreitando os olhos, Jane lhe deu um sorriso incrédulo – Lys me acompanha, não se preocupe.
— Como queira, Alteza – Jane falou, lhe fazendo uma breve reverência e voltando a caminhar para onde estavam. Lyanna respirou fundo enquanto seguia em frente, o focinho de Lys roçando a barra de suas vestes.
Aquilo tudo significava o que? Que Sam gostava dela? Seria tão menos complicado se os dois partissem do mesmo ponto de sentimentos...caso realmente eles viessem a...Ah chega! Chega disso tudo por hoje.
Lyanna sacudiu a cabeça e apressou o passo para a Fortaleza de Maegor, para a sua parte mais alta, perguntando pelo Rei no caminho, por onde passava. Lys se distraiu com alguns pássaros que entraram pelas varandas vazadas e disparou em perseguição à eles. Lyanna não se deteve ao ficar só. Apenas queria um momento com seu pai. Conversar sobre qualquer coisa. Sentar no colo dele e recostar a cabeça no seu peito, como quando fazia quando era criança.
Próximo aos aposentos reais do seu pai e da sua mãe, havia um amplo escritório com livros e papéis dos dois. Lyanna caminhou até lá, até as pesadas portas de madeira ladeadas por dois guardas.
Quando abriu a boca para perguntar à eles se o Pai estava lá dentro e se poderia recebê-la, as portas de abriram e Rhaegar colocou a cabeça para fora, olhando-a com surpresa e com um leve desapontamento. Ela não gostou nada daquilo.
— Ah...é você— ele deixou escapar, escancarando uma das portas, parecendo impaciente – Estou esperando nosso pai. Queria falar com ele também? – Rhaegar perguntou, apontando com uma das mãos para dentro, para que ela entrasse.
— Sim, queria – ela disse, hesitando um pouco – Mas não é nada importante – Lyanna falou, observando as leves olheiras que maculavam o rosto do irmão – Conseguiu cortar gastos suficientes para chegar à quantia necessária para o empréstimo? – Lyanna perguntou, imaginando que ele estava ali para falar sobre aquele assunto com o pai.
— Você sabe que as pessoas podem conversar sentadas, não sabe? Vai entrar ou não? – Rhaegar perguntou, revirando os olhos – Não precisa ficar me evitando, irmãzinha. Não vou mais tocar naquele assunto, se é isso que te preocupa. Já falei o que tinha para falar. A decisão é sua.
— Não estou evitando você. E acabou de tocar no assunto... – Lyanna falou, entrando de uma vez, ouvindo o barulho da porta fechando atrás de si, mas não se dirigindo de imediato até as largas poltronas que haviam ali – E então?— ela insistiu.
— Então o que? – Rhaegar falou, caminhando até perto da mesa do seu pai. Haviam duas mesas ali. Lado à lado. E uma porta quase imperceptível ao fundo delas. Levava à um corredor estreito que ligava outros cômodos daquele andar. Lyanna cruzou os braços para ele e o olhou com impaciência – Sobre o orçamento?— Rhaegar resolveu falar – Acho que sua Majestade vai ficar satisfeito, não durmo direito à dias – ele disse sentando na cadeira do pai e esfregando os olhos.
— Saia daí— Lyanna falou, tensa.
— Porque? É só uma cadeira...– Rhaegar falou dando de ombros, soltando um bocejo contido.
— Que não é sua— Lyanna frisou, entre os dentes.
— Não se preocupe. Não quero que seja minha ainda. Por um bom, um bom tempo. Amo meu pai tanto quanto você sabe... – Rhaegar falou, esfregando os olhos.
— Você obviamente está bastante cansado. Deveria sair daí e ir dormir— Lyanna mandou, olhando dele para a porta.
— Eu vou. Assim que falar com nosso pai. Pretendo me deitar e só acordar amanhã. Não se preocupe – ele falou, pegando um pergaminho da bandeja de correspondências do pai e passando-o de uma mão para a outra.
— Não mexa nisso. Está ficando louco? – Lyanna falou, irritada, com os olhos arregalados.
— Imagina...Só fiquei curioso. Acho que vi seu nome aqui... – ele disse, colocando o pergaminho contra a luz e depois olhando divertido para a irmã – Devem ser mais notícias de bons pretendentes – Rhaegar falou, jogando o pergaminho sob a mesa ao lado da que ele estava, a que a sua mãe ocupava.
— Não quer ver? – ele instigou, apontando com o queixo para a cadeira vazia ao lado da dele.
— Não – Lyanna respondeu, firme – Isso é ridículo. Você parece uma criança...
— Falando nisso...lembra de quando nos escondíamos aqui? Quando éramos crianças... – o irmão falou, se pondo de pé, mudando completamente de assunto. Maluco. Definitivamente.
— Lembro. E?— Lyanna perguntou, cruzando os braços diante do corpo.
— Parecia tão maior do que isso – ele recordou, com um sorriso tranquilo – Tranquei você uma vez ali atrás, papai me colocou castigo – ele disse, apontando para a porta discreta na parede atrás das mesas. Era preciso olhar com atenção pra identificá-la.
— Foi bem merecido – Lyanna falou, com um meio sorriso relutante – Estava escuro e uma aranha caiu em cima da minha cabeça – ela lembrou, apenas para fazer o irmão gargalhar. Ela mordeu as bochechas por dentro para não sorrir também.
Lyanna observou o irmão se dirigir até a bendita porta, procurando sua abertura secreta, passando por ela e a deixando-a aberta.
Ela não o seguiu. Mesmo quando ele não voltou. Mas depois de alguns minutos olhou nervosa para a outra porta, a que dava para fora da sala.
A cadeira do pai estava fora do lugar, sua correspondência remexida, uma delas jogada sobre a outra mesa, e ela estava aparentemente sozinha ali dentro, já que a peste do seu irmão não retornava. Ela não queria ser encontrada ali. Sozinha.
Uma pequena pancada se fez ouvir da escuridão da porta secreta, e Lyanna deu um pequeno pulo.
— Espero que as aranhas tenham picado você aí dentro – ela disse, depois de um tempo – Não tem graça Rhaegar! – mas o irmão não disse nada.
— Droga – ela resmungou, ajeitando a cadeira do pai, pegando o pergaminho, tentando deixar tudo no lugar. A porta secreta estava aberta muito perto dela para que resistisse.
Vai que o idiota tivesse caído. Batido a cabeça. Ele podia estar muito bem babando no chão frio...Ela devia olhar... Mas assim que colocou a cabeça para dentro, se arrependeu da graça imediatamente.
— As aranhas estavam perguntando por você! – o irmão falou, jogando algo nela, a assustando.
Lyanna gritou e rebateu o que quer que estivesse vindo na sua direção e estava pronta para chutar a canela de Rhaegar quando ouviu o barulho de vozes meio alteradas se aproximando. Vozes que ela conhecia muito bem.
Ela sentiu um puxão no braço lhe direcionando mais para dentro do corredor mal iluminado e estreito que a porta cerrava, porta essa que o irmão fechou rápido, fazendo sinal de silêncio para ela.
— Que diabos...? – ela começou a dizer, mas ele tampou sua boca e apontou para a porta. Para o barulho da porta principal abrindo.
Preciso logo da sua resposta, Jon. Pare de me enrolar. Era a voz da mãe deles. Ela e o pai estavam na sala agora. Enquanto eles dois estavam escondidos ali. Mesmo no escuro ela conseguia ver Rhaegar sorrindo da situação, os dentes brancos reluziam. Lyanna mordeu sua mão. O sorriso sumiu. Ela estava sorrindo agora.
Já dei minha resposta. Faça como achar melhor. Quer enviar um convite para ele. Envie. Jon respondeu. A voz dos pais era perfeitamente audível dali. Rhaegar balançava a mão mordida, ainda com cara de dor. Mas fez sinal de silêncio para Lyanna mais uma vez, com os olhos alarmados. As orbes violetaa reluzindo na escuridão.
— Porque raios estamos escondidos? – Lyanna cochichou. Rhaegar cobriu a boca dela de novo, quase pulando. Ele tinha coragem por estar com a mão ali de novo, ela não podia negar.
— É surda? Não vê que estão brigando? – ele cochichou no seu ouvido.
Não é questão de querer. Mas sim de dever. Ele tem servido fielmente em Meeren. À minha causa. Por todos esses anos. Mas só enviarei se você concordar. A voz da mãe era cautelosa. Conciliadora. Lyanna não via nada de briga ali.
Envie então. Jon respondeu. A voz parecia ligeiramente incomodada. Lyanna olhou interrogativamente para Rhaegar, ele deu de ombros. Escutaram papéis sendo remexidos insistentemente. Parecia que o Rei estava procurando alguma coisa.
Você realmente não vai se sentir ofendido caso ele venha? Pode ser que ele não venha, mas se vier...É uma ocasião tão importante. Não quero...problemas entre nós. Ouviram a mãe falando.
Ele virá. Não vai perder a oportunidade de passar alguns dias olhando para você. O pai respondeu. Mais barulho de papeis sendo remexidos. Mais um olhar trocado entre Rhaegar e Lyanna.
— De quem diabos eles estão falando? – ela perguntou ao irmão, o mais baixo que pode. Cada palavra dela parecia que iria matá-lo do coração e tudo que ele disse foi:
— Não sei. Cale a boca – apurando a audição para continuar ouvindo a conversa.
Não sei como pode ter tanta certeza que ele virá. É uma longa viagem. A voz da mãe falou. Rhaegar e Lyanna mal respiravam. De quem será que eles estavam falando? Quem era essa a pessoa? Esse homem de Meeren cuja presença poderia ofender seu Pai? Era a pergunta que ambos se faziam.
Tenho certeza, porque é exatamente o que eu faria. O pai falou e pareceu soltar alguma coisa em cima da mesa. Não sei onde estão as coisas que deixei aqui logo cedo. Parecia irritado. Fazia barulho como se estivesse abrindo alguma gaveta com mais força que o necessário.
Você sabe que não precisa ter ciúmes dele, não sabe? Não significou nada...Já faz tanto anos. Ouviram passos e silêncio. Lyanna não gostava nada daquilo. De estar ouvindo aquela conversa.
Sentia vontade de bater em Rhaegar. De puxar sua orelhas até as arrancar. Aquilo era ridículo. E constrangedor. E uma invasão da privacidade dos seus pais.
Já disse. Faça como achar melhor. Se ele vier, irei recebê-lo da mesma forma que receberei à todos os outros estrangeiros que virão do quinto dos infernos. Jon disse, claramente à contra gosto. Pelos deuses! Porque eu não acho nada nessa sala? Você mudou de novo as servas que cuidam do nosso andar?
Mudei. A mãe respondeu, em um tom desafiador.
Você entende que toda vez que faz isso, as servas novas mudam as coisas de lugar? Não encontro nada. E quando começo a me acostumar com a nova ordem, você as muda de novo.
Direi à elas que não mudem as coisas de lugar. A voz de Dany falou, displicentemente. Quase como Rhaegar adorava falar.
Você me pede para não ter ciúmes, mas mesmo depois de tantos anos, continua implicando com a criadagem, como se eu tivesse tempo e interesse de sequer olhar para qualquer uma dessas garotas. Rhaegar e Lyanna finalmente entendiam do que os pais estavam falando, pelo menos agora. O ciúme da mãe era conhecido pela Fortaleza Vermelha.
Sei que não olha para elas. Mas elas, algumas delas, olham para você. E é disso que eu não gosto. Não gosto de ninguém olhando com desejo para o que é meu. A voz da mãe havia mudado. Parecia dominadora e...sensual.
Lyanna ficou nervosa, mudando o peso do corpo de um pé para o outro. Aquilo já era muito ruim. Ouvir a conversa dos seus pais, já era muito ruim. Mas...se eles...Rhaegar olhava para ela de canto de olho. Ele também parecia nervoso.
— Quero sair daqui – Lyanna moveu os lábios para que ele visse, com os olhos arregalados. E caminhou tateando para o corredor, apenas para dar em uma porta fechada. E mesmo dali, ouvia tudo que os pais diziam.
Só eu posso olhar para você assim. A mãe dizia, um pouco mais longe, mas ainda audível.
Dany. A porta não está fechada. Qualquer um pode... A voz do pai foi calada por um beijo. Lyanna se sentiu quente e incomodada, com se as paredes estivessem caindo sobre ela. Ela definitivamente não queria ouvir aquilo. E aproveitando que estavam o mais longe possível dos pais, ela emendou um tapa no ombro de Rhaegar.
— Não quero ouvir isso. Quero sair daqui – Lyanna sibilou.
— Não sou mágico. Só tem um jeito de sair...fique à vontade – ele falou, rindo da cara dela, apontando para a porta – Deixe de besteira...não é como se nunca tivéssemos visto os dois se beijando.. – ele respondeu para a irmã, sussurrando.
Dany. Não...Deixe isso para mais tarde. Estão me esperando. A voz do pai ecoou pelas paredes de pedra, com muito pouca convicção do que pedia à rainha.
Eu também estava sendo esperada naquele dia na sala do Pequeno Conselho. A porta também não estava fechada. Isso não impediu você de me sentar naquela mesa e enfiar a cabeça por debaixo das minhas vestes.
— Não estou ouvindo isso. Não estou ouvindo isso! Não estou! — Lyanna tapou os ouvidos dramaticamente. Rhaegar apenas balançava os ombros de tanto sorrir silenciosamente.
— Se controle! Vão acabar nos ouvindo!— ele sibilou para Lyanna, puxando as mãos dela do ouvido, tampando a boca dela com suas duas mãos, e a puxando para mais longe até topar com o fundo do corredor, o impacto fazendo ela ficar totalmente encostada nele.
Em minha defesa, eu tinha acabado de chegar de viagem. Estava com saudades. E você estava linda. Não resisti. O pai deles respondeu, a voz mais baixa, como se estivesse dizendo aquilo no ouvido da mãe deles. E eles ainda escutavam tudo perfeitamente.
Lyanna àquela altura rezava aos Sete para que aquilo acabasse logo. Para que os pais não resolvessem...
Tem certeza que quer que eu me afaste? Dizendo que sou linda e que não resiste à mim? Chego a duvidar... Mais um barulho de beijo.
Rhaegar sentia ela se retorcendo incomodada pelos barulhos que os pais faziam. E ela fazia aquilo perto. Muito perto dele. As costas apoiadas em seu peito enquanto bufava de exasperação.
Rhaegar sentiu o coração começar a bater fora do ritmo com aquela proximidade. Com aquele escuro. Com o perfume suave que só agora ele havia conseguido sentir.
Lyanna só percebeu como suas costas estavam apoiada no peito de Rhaegar no exato momento em que um suspiro forte exalou por seu ouvido, seguido dele a afastando delicadamente e dando um grande passo para o lado.
Ela olhou assustada para o irmão. Por um instante achou que...que talvez ele estivesse trêmulo. Mas talvez fosse ela. Ela estava imaginando coisas. Ele apenas...parecia tão tenso quanto ela. Eles...na certa Rhaegar finalmente estava se dando conta de que aquilo não ia acabar bem. Para os pais deles certamente ia, mas...
Passos se fizeram ouvir. E depois pararam. Não trabalhe até tarde hoje. E não reclame da minha organização com a criadagem. Era a voz da mãe deles. Estava saindo da sala.
Vai enviar o convite? O pai perguntou. Arrastando uma cadeira. Estava saindo também. Lyanna soltava lufadas de alívio. Colocando passos de distancia entre ela e o irmão.
Certa vez ele disse que não se importaria com qual aristocrata perfumado se sentaria ao meu lado no salão do trono...Confesso que tenho alguma vontade de mostrar o que arrumei...Dany falou, provocativamente. Rhaegar podia ouvir a diversão na voz da mãe.
Parece alguém que quer fazer ciúmes...a voz do pai comentou, fria feito gelo.
Não quero. Estou apenas brincando. A mãe respondeu. Em tom de desculpas.
O que quer, então? Jon perguntou.
Poder honrar um velho amigo e aliado. É isso que ele é para mim. E que eu sou para ele. Nada mais. Ela completou, agora mais séria.
Muito bem. Vou me esmerar na educação aristocrata e no perfume quando o maldito dia chegar. Jon disse.
Até parece. A mãe gargalhou. Prometo que hoje vou me esmerar no perfume também. Só para você. Mais tarde. Quando você chegar cedo no nosso quarto. Dany respondeu, parecendo imensamente satisfeita.
Aviso logo que só hoje é pouco. Mais um estalo de beijos. Mais um puxão de Lyanna nas próprias vestes. Sinal de que ela estava prestes a explodir, a querer sair dali de qualquer jeito. Rhaegar fechou os olhos. Não ia tentar impedi-la. Aquela tinha sido uma ideia muito, muito estúpida.
Vamos logo. Ouviram. Passos ecoaram juntos. Seguidos de uma porta se abrindo e se fechando.
Lyanna e Rhaegar se entreolharam aliviados e esperaram um pouco. Até finalmente acharem ter passado tempo suficiente para abrirem a porta secreta.
Lyanna irrompeu à frente de Rhaegar, doida para sair dali. Precisando sair dali. Estava suada. As vestes colavam em seu corpo de um jeito sufocante pelo calor que haviam passado lá dentro.
— Você!— Rhaegar ouviu a irmã dizer alto, virando-se para ele de uma vez, apontando o dedo para sua cara. Ele dramaticamente colocou a mão sobre o peito, esperando qual acusação injusta ela faria – Sempre que me junto com você, me meto em situações...porque diabos tinha que nos puxar para ali?
— Achei que estivessem brigando. Agi por impulso! Sei que você não sabe muito bem o que é isso...mas não precisa me agradecer por colocar alguma emoção nessa sua vidinha monótona – Rhaegar falou, mal tendo tempo de desviar do livro que voou na direção dele.
— Ei...- ele exclamou, levantando o corpo à tempo de ver ela saído feito um furacão, batendo a porta com força.
Por um segundo ele quis rir. Mas não conseguiu. Porque tudo que pensava era em como ela ficava incrivelmente bonita quando estava zangada. E pensar nisso fazia qualquer riso morrer na sua garganta.
Rhaegar apoiou as mãos nos joelhos, respirando fundo. Ele não podia falhar. Não podia se precipitar. Não podia fazer nada fora do que havia planejado. Mesmo agora quando questionava seus próprios planos.
Não havia mais tempo para questioná-los. Nem quando a realidade nauseante de que estava arriscando alto demais o atingia, como tinha atingido agora. Ele sabia o que sabia. Confiava nos seus extintos. Parte já estava feito. Ajustado. Pronto. Esperando.
Esperando pela parte mais difícil. A única que importava. A única que realmente o deixava apavorado de medo.
~*~
Um mês depois
— Jantar nos jardins. Nada comum. O que deu em você hoje? – Arya falou ao irmão, se aproximando da mesa com algumas cadeiras montada em um lugar refrescante nos jardins privados da Fortaleza de Maegor.
Apenas o Rei estava ali, em pé, com o olhar longe, apesar de obviamente mais gente estar sendo aguardada. Ele havia mencionando um jantar em família.
— Esses dias estão quentes demais – Jon respondeu, caminhando até ela.
— Sempre um Snow. Saudades da neve de Winterfell, aposto – Arya provocou, abraçando Jon, os dois se servindo de vinho.
— Talvez. Falando em Winterfell...nossos sobrinhos já chegaram? Alguma carta de Sansa? – perguntou Jon.
— Sim, o Jovem Ned já chegou. Veio representado o Norte. Vai se juntar a nós amanhã. Estava muito cansado. No mais está tudo bem por lá. Com os outros garotos e com a gravidez dela. Em breve ela colocará mais um Stark no mundo. Quem diria. Sansa, mãe de cinco – Arya riu.
— Falando em crianças. Onde estão minhas sobrinhas? – Jon quis saber, bebericando o vinho.
— Jantaram mais cedo. Mandei botar um calmante na comida delas hoje. Estão dormindo. Graças ao Estranho – Arya explicou, como se estivesse falando do tempo e não de drogar as próprias filhas.
— Você não fez isso... – Jon disse, incrédulo. Contendo um sorriso culpado.
— Fiz. Ah fiz — ela suspirou cansada. Estressada até os ossos – Visenya quebrou sem querer o braço do filho de uma das cozinheiras do castelo. E Nymeria tentou consertar o garoto e quase o matou de vez. Não sei o que fazer com elas. São impossíveis. Parecem duas bestas selvagens. Vou mandá-las de volta para o pai delas..
— Elas tem a quem puxar querida irmã...faça um esforço para aguentar – Jon provocou – E o pai delas as mandou para ficarem com a mãe porque Ponta Tempestade ficou pequena para elas. Devolvê-las não resolveria nada.
— Eu não era assim – Arya falou, mas se viu obrigada a remendar um pouco com o olhar que Jon lhe dava – Não tão assim. E elas são duas. Duas!
— Duas pequenas Aryas – Jon completou, rindo.
— Duas pequenas pestes. Eu não era uma peste do nível delas – Arya afirmou, virando a taça de vinho.
— Já lhe passou pela cabeça que elas são assim apenas porque querem a atenção da mãe? – Jon falou. Tocava num ponto sensível. Sabia disso.
— Já – Arya respondeu. Triste. Ríspida.
— Já pensei em dispensá-la da função de Mestre Espiã. Mas acho que arrumaria outro motivo para viver por aí. Longe do marido e delas – Jon confessou, sendo sincero com a irmã.
— Eu tentei – Arya falou. Derrotada. Mas igualmente resignada – Por ele. Por você e por Sansa, que queriam me ver feliz. Tentei de verdade. Para que ninguém, nem eu mesma, pudesse dizer que eu era covarde por não ter dado uma chance à essa vida. Mas não consigo. Não...
— Eu sei – Jon pegou na mão de Arya – Não quero torturá-la com o assunto. Mas não as mande de volta. Deixe elas aqui. Como estão. Elas só se rebelariam mais se tivessem que voltar. Nós cuidaremos delas.
— Iam botar abaixo aquela merda de lugar. E eu bem que ia gostar. Fico tentada à deixar – Arya falou, com um riso maldoso. Jon sorriu também.
— Gosto muito de Gendry. Não ia querer o teto desabando sobre a cabeça de um dos meus Lordes Protetores – Jon ponderou, dando mais um gole no vinho.
— Deveria cair sobre a minha. Estraguei a vida dele. Sei disso – Arya falou, se mexendo na cadeira. Gendry a amava e a odiava. Sabia quem ela era. Se magoava por quem ela não havia conseguido ser. E se culpava também. Pelo fracasso que era de ambos.
Ela até gostaria de ficar mais incomodada do que realmente ficava ao constatar aquilo. Mas não ficava. Aquilo não era ela. Nunca foi. E se ela tivesse tido a coragem de ser sincera para si mesmo, bem, a história poderia ter sido outra. Para eles dois.
— Você não me chamou aqui, mais cedo do que todo mundo, para falar da minha vida – Arya jogou, mudando de assunto.
— Você parte amanhã que horas? – Jon perguntou, praticamente confirmando o que ela supôs.
— Cedo— Arya disse.
— As comemorações começam amanhã. Estou tenso. Com a situação toda – Jon disse. Com o olhar significativo. Ela sabia ao que ele se referia.
— Eu voltarei logo. Mas não para o castelo. Pelo menos não evidentemente. Preciso investigar essa ameaça. Em dois dias estarei aqui de novo. Terei homens disfarçados pelas ruas. Bares. Prostíbulos. Por todo lugar. Se algum maldito dornês conspirar contra vocês, vamos ficar sabendo. A segurança no castelo estará reforçada. Vai correr tudo bem – garantiu Arya – Desde que sigam tudo à risca — acrescentou.
— Vamos seguir – Jon afirmou – Queria que essa maldita questão se resolvesse de uma vez – ele falou, esfregando as têmporas.
— Só tem um jeito. E você sabe qual é. Case o merda do Khal com a garota Martell. Problema resolvido – Arya falou, batucando os dedos na mesa.
— Você sabe muito bem que ele já tem sua Khaleesi. E filhos – Jon falou, suspirando.
— Ele poderia ficar viúvo...casava com a Martell...prometia o filho mais velho à alguma filha que tivesse com ela...ou outra garota Martell qualquer...- Arya sugeriu. Jon já havia ouvido aquilo da irmã antes.
— Daenerys não aceitaria nunca. Iria ser um inferno. Ela não vai aceitar rebaixar uma Khaleesi. Já foi uma. E eu não vou fazer um acordo envolvendo casamento entre meio-irmãos, Arya. Precisamos arrumar outra forma de resolver isso – Jon falou.
— Não vejo nenhuma outra. Vai ter que esmagá-los em uma rebelião. E mesmo se conseguir, essa merda vai durar para sempre. Estamos falando da porra do Dorne. Nós Starks sabemos bem o que é levar um lema à sério, não É? Os Martell também sabem— Arya se empertigou na cadeira – Descarte a Khaleesi. Case o Khal com uma Martell. Os dorneses tem mais facilidade com alianças por casamento. Foi assim com Nymeria e os Roinares. Com os Targaryens. Vai ser assim com os Dothraki. Não tem outra saída pacífica. Não se iluda – ela decretou.
— Ela pregaria minhas bolas numa parede se pelo menos sonhar que estamos cogitando essa manobra. Não gosto disso Arya.
— Você é o Rei. Faça o melhor para o Reino – Arya provocou.
— Ela é tão Rainha quanto eu. Não posso e não vou impor algo que ela não concorde. Quando discordamos, um acaba tendo que convencer o outro. Sempre foi assim. Vai continuar sendo – Jon explicou. Imaginando como faria para convencer Daenerys dessa vez.
— Bem...você pode perder muito mais que suas bolas se não conseguir convencê-la – Arya disse, irritada – Já mostrou a carta à ela?
— Não. Nem sei se vou – Jon disse, em alerta. Olhando para os lados. A qualquer momento os outros começariam a chegar.
— Talvez devesse. Os dorneses são bons com cartas. Que o diga Aegon, o Conquistador. A que ele recebeu daquelas bandas foi suficiente para fazê-lo tremer – Arya comentou.
— Você não a conhece como eu. Uma ameaça daquela, contra os nossos filhos, só alimentaria a fúria de Daenerys contra os dorneses. Ela é passional. Se eu tenho vontade de queimar o maldito Dorne inteiro só de lembrar daquela ameaça. Contra meus filhos. Imagina ela. Não. Melhor não. Eles estão seguros, não estão? – Jon perguntou, olhando para o alto do castelo, pedindo aos deuses que estivessem.
— A segurança de Rhaegar é mais complicada, você sabe. Ele sai muito. Se expõe mais. Lyanna é mais previsível. Faz praticamente as mesmas coisas todos os dias. Mas quase não sai do castelo. Reforcei a segurança em torno deles, mas todo cuidado é pouco – Arya disse – Fale para ela. Convença-a. Facilite minha vida. E a sua. E a de todos nós – ela pediu de novo, por puro desencargo de consciência.
— Alguém vem vindo – Jon disse, ouvindo o movimento. Era Daenerys. O assunto estava morto. Por enquanto.
— Boa noite. Chegaram cedo – Dany disse – Arya— ela cumprimentou, parando par dar um beijo no rosto do marido e se sentando ao seu lado – O que conversavam? – Dany quis saber.
— Sobre a segurança da cidade. Está absurdamente cheia. Tivemos que triplicar o número de capas douradas. A história de que o Príncipe e a Princesa dos Sete Reinos escolherão seus noivos durante as festividades se espalhou feito rastilho de pólvora. Todas as pessoas do mundo parecem achar que tem uma chance se vieram para cá – Arya enrolou. Falando e usando a verdade. E também a escondendo.
Jon lhe lançou um olhar de gratidão. O irmão tinha dificuldade com mentiras, ou com omissões, como era o caso. Principalmente se fossem direcionadas à sua mulher. Para sua sorte, Arya não tinha. Com nenhuma das duas.
— Isso não deveria ter vazado – Dany falou, os lábios uma linha fina – Só coloca mais pressão neles dois.
— Falando neles, onde estão? – Jon quis saber.
— Estavam fazendo as últimas provas das vestes para os eventos da comemoração. Os dois vão chegar de péssimo humor. Provar tantas vestes assim é mortalmente enfadonho – Dany constatou. Arya e Jon concordaram – A verdade é que mal começou e eu só quero que acabe. O Castelo está um caos – ela completou.
— Conseguiram acomodar todos à contento? – Jon perguntou, se referindo aos nobres das grandes casas. Todos ficariam hospedados na Fortaleza Vermelha. E todos já haviam chegado.
— Sim – Dany respondeu. Se servindo de vinho também. Beliscando um pedaço de queijo.
— A delegação de Meeren...- Jon deixou no ar, esperando a resposta dela, o maxilar contraído.
— Acho que chegam amanhã – Dany falou, tentando soar casual – Aliás...vi de relance o garoto Arryn. Fiquei surpresa. Ele realmente é muito bonito – ela comentou, mudando de assunto. Jon bufou, com evidente desagrado.
— Eu o vi quando desembarcaram no Porto. Um pedaço de mal caminho, realmente. E pelo que apurei sobre ele, parece que ele sabe bem o que fazer com aquela beleza...- Arya se interrompeu, gargalhando para a cara que Jon fazia para ela – Desculpe, mas sua filha vai casar. Como boa tia que sou, analisei isso também no rapaz.
— Você já conversou com ela...sobre isso? Sobre as intimidades...entre um casal? – Jon perguntou para Daenerys, parecendo precisar de mais ar. Dany trocou olhares com Arya antes de responder.
— Não acho que isso realmente seja necessário – Dany falou – Tenho a forte impressão de que nossa filha iria me expulsar do quarto assim que eu começasse – ela afirmou, olhando para Jon com as sobrancelhas erguidas.
— Alguém precisa oferecer algum conselho... – Jon falou, inseguro.
— Fique à vontade para tentar, meu amor – Dany falou, dando tapinhas na mão dele, quando viu os dois filhos se aproximando, caminhando lado à lado.
Lyanna vinha caminhando duro, as costas rígidas, com o rosto vermelho e irritado. Rhaegar com um mal disfarçado divertimento. Tinham escutado. Dany fechou os olhos por um instante antes de fingir inutilmente que não estavam falando sobre aquilo.
— Boa noite – Rhaegar cumprimentou – Tia— ele se dirigiu à Arya, beijando demoradamente sua mão. Arya lhe deu um tapinha no ombro quando ele a soltou e um grande sorriso. Ele seguiu para a mãe, lhe dando um beijo estalado no rosto e inclinou a cabeça para o pai antes de se sentar.
Lyanna apenas se sentou. Sem dar uma palavra, o queixo erguido. Parecia estar desafiando qualquer um a tocar no assunto que estavam falando antes.
— Algum problema filha? – Dany perguntou, sorrindo para ela.
— Não – Lyanna respondeu.
— Não seja assim, irmã – Rhaegar provocou – É normal que se preocupem com a sua primeira noite...- Rhaegar riu – Não pudemos deixar de escutar...
Todos olharam para Rhaegar como se fossem matá-lo. Jon principalmente. Depois olharam para Lyanna. Preocupados. Consternados. Parecendo que lidavam com uma flor de vidro que poderia se quebrar ao vento.
— Pelos deuses, parem de me olhar assim – Lyanna falou, se servindo da comida, com uma expressão inabalável – Sei tudo que acontece entre um homem e uma mulher. Li os dez volumes do Compêndio dos Prazeres da Carne do Meistre Aydan.
Arya quase cuspiu no prato. Dany certamente estava engasgada. Jon só olhava a filha com os olhos arregalados.
— Todos os dez?— Rhaegar perguntou, fingindo estar chocado – Pelo visto achou a leitura interessante... É aquele com gravuras? – ele provocou.
— Sim— Lyanna respondeu, corando. Mas impassível. Comendo lentamente.
— Um clássico! Talvez eu precise dos seus conselhos... – Rhaegar falou, com sua melhor expressão de humildade. Arya continuava sorrindo. Jon parecia querer sumir dali.
— Você com certeza supera meus conhecimentos na área, irmão. Eles são puramente teóricos. Diferentes dos seus — ela o rebateu, apertando o garfo com mais força do que o necessário.
— Será mesmo? – Rhaegar duvidou, recostando-se na cadeira, com uma expressão misteriosa, um sorriso no canto dos lábios.
Lyanna estreitou os olhos para ele feito um gato selvagem pronto para atacá-lo. O que ele queria dizer com isso? Que ela não era virgem? Ou que ele não tinha experiência tanto quanto ela? Dois absurdos! Ele merecia ter a mão espetada por aquele garfo, isso sim.
— Chega desse assunto. Vamos jantar em paz. Amanhã teremos um longo dia – Jon interferiu. E ninguém deu mais uma única palavra durante o jantar.
~*~
A leitura que ela escolhera para aquela noite era lamentavelmente maçante. Nem para dar sono servia, muito menos para lhe fazer esquecer da conversa constrangedora do jantar.
Lyanna fechou o livro e o jogou em cima da cama, ao seu lado, soprando a vela que iluminava o cômodo e puxando as cobertas sobre si. Lys gruniu baixinho ao pé da cama quando a escuridão tomou conta do aposento.
— Boa noite para você também – ela respondeu à loba, suspirando. Sem sono nenhum.
Talvez sua mente não quisesse descansar porque sabia que se fizesse isso, o amanhã chegaria mais rápido.
E o amanhã...nele começariam as comemorações. Iriam até o Grande Septo. Os quatro. Em uma espécie de desfile aberto para cumprimentar a multidão pelo caminho. Só de pensar no que a aguardava, sua barriga revirava.
Melhor não pensar nisso. Não vou conseguir dormir se ficar pensando. E já é de madrugada. Vou estar com enormes olheiras amanhã. Que linda e bela princesa passará diante da plebe. Ela debochava de si mesma, apertando os olhos com força e repetindo para si mesma durma. Apenas durma. Durma. Quando Lys se colocou de pé com um salto, os pêlos visivelmente arrepiados.
A loba disparou até a porta e começou a arranhá-la, olhando desesperada para Lyanna. Desesperada.
— O que foi Lys? – Lyanna perguntou alarmada, se sentando. A loba mal a olhou de novo. Arranhava a porta, sobre as duas patas traseiras, uivando e mostrando os dentes.
Lyanna sentiu um aperto no peito. Lys não ficaria daquele jeito à toa. E se não era nada com ela...só podia ser...Lyanna pulou da cama e abriu a porta. Lys atravessou a antesala do cômodo e se chocou contra a porta externa, rachando-a.
Lyanna vinha trôpega atrás, tentando acompanhá-la, abrindo a porta agora capenga e cercada de guardas assustados com o barulho. Sua loba passou por eles feito um raio. E Lyanna acompanhou correndo. Sem se importar por estar só de camisola. Sem ligar para os cabelos soltos e assanhados.
— Lys! – ela gritou, vendo a loba disparar ao longo do corredor, para o outro lado, para a ala de Rhaegar.
Lyanna apertou o passo. Rhaegar. Rhaegar. Os guardas corriam atrás dela. Os da porta de Rhaegar não sabiam se apontavam as lanças para a loba ou se a deixavam passar.
No final das contas eles apenas se afastaram, observando assustados a loba uivar para a porta, se chocando contra ela, enquanto Lyanna finalmente a alcançava.
Ela encostou o ouvido na porta e bateu com força, o coração aos saltos quando ouviu um baque dentro do quarto. E algo se rasgando. Lys arranhava a porta freneticamente como se sua vida dependesse daquilo.
— Rhaegar! – Lyanna gritou. Sem nenhuma resposta. Um rugido de Blackfire estremeceu a porta. Um rugido de...dor.
— Arrombem a porta! – ela gritou para os guardas, saindo da frente – Agora!
Os quatro guardas se lançaram juntos para a larga porta e o estrondo que se fez ouvir parecia alto o suficiente para acordar o castelo inteiro.
À porta rangeu e tremeu, cedendo um pouco e antes que eles pudessem se lançar sobre ela de novo, sua loba o fez, derrubando-a, partindo velozmente para dentro da antesala dos aposentos do irmão.
Lyanna tremia. Estava com medo do quer iria encontrar lá dentro. Com medo que Rhaegar estivesse ferido ou...ou pior. Mas o medo não a paralisou. Ela pulou por sobre a porta, deixando os guardas peara trás e correu ate à porta que cerrava o quarto de Rhaegar constatando que já estava posta abaixo por Lys e que ela deveria estar tão nervosa que mal tinha escutado o som.
Lyanna só pulou por cima dela também a tempo de ver a loba voando sobre a cama do irmão toda melada de sangue, toda rasgada talvez por Blackfire, que também estava em pé, em cima do colchão, com o focinho e as patas mergulhadas nele.
— Rhaegar! – Lyanna gritou, em pânico, quando algo desabou perto dos seus pés com um baque frio.
Lyanna pulou para trás quando Lys voou na sua direção com a boca arreganhada para morder a víbora vermelha e venenosa que ameaçava lhe dar um bote.
Blackfire gruniu alto novamente, estraçalhando o colchão de vez, o focinho jogando para longe vários pedaços vermelhos da mesma cobra que havia caído perto dos seus pés, mas eram tantos pedaços que não poderiam ser de uma só. Eram muitas. Tinham que ser.
Onde está Rhaegar. Onde está Rhaegar. Onde está. Era o que sua mente gritava com puro horror. Mais guardas vinham chegando. Ela ouvia gritos. Toda a ala estava acordando. E ela não via Rhaegar. Tinha que procurá-lo. Tinha que achá-lo. Tinha que...ele não podia...não.
— Rhaegar, por favor — ela deixou escapar, revirando o quarto, pisando descalça em pedaços sanguinolentos de cobra e não se detendo por isso, olhando ao lado da cama e embaixo dela. Blackfire pingava sangue, Lys estava com seu pêlo branco manchado de carmesim. E a camisola branca e solta dela também estava suja agora, assim como a cama.
Suas pernas tremiam quando sentiu uma mão tocar no seu braço por trás dela. Não precisou se virar para saber quem era. A certeza de que era Rhaegar brotou dentro dela quando foi puxada, ouvindo o barulho de uma espada tinindo ao ser largada no chão, enquanto ela abraçava o irmão.
— Onde diabos você estava – Lyanna perguntou, se afastando do abraço dele – Está ferido? Foi picado? – ela perguntou, tocando no rosto dele e nos braços. Ele estava sem camisa e ela não via nada. Nenhuma picada. Nenhuma picada. Nenhuma mancha de sangue. Graças aos deuses.
— Estou bem – Rhaegar falou – Ileso. Quando Black me derrubou da cama eu fui pegar minha espada. Só isso – ele explicou e Lyanna se jogou nos braços dele de novo. Abraçando-o com força.
— Já passou. Estou bem – ele disse baixinho, abraçando ela de volta, sentindo o peito ficando molhado pelas lágrimas que ela deixava correr.
Quando o susto passasse, ela ia odiar ter chorado na frente dele. Pior ainda, nele. Rhaegar quase sorriu ao pensar naquilo. Mas não disse nada. Não ia ser ele quem iria interromper aquele abraço. De jeito nenhum.
Ele sentia a respiração entrecortada dela, subindo e descendo acelerada, em seu próprio peito nu. As unhas dela estavam enterradas em suas costas. Doía, mas ele não se importava. Não enquanto podia acariciar seus cabelos e beijar o alto se sua cabeça, repetindo eu estou bem, eu estou bem, até que a respiração dela começasse a se acalmar, até que o peito dela parasse de se mover daquele jeito acelerado que lhe provocava sensações que ele nunca deveria sentir.
— Lya...- ele a chamou. Precisavam ir para fora. Os pais deles logo estariam ali. Com certeza estariam muito preocupados. Iriam querer vê-los.
Os guardas reviravam o quarto, estupefatos com a cena de destruição. Lys se enroscava neles dois. Blackfire arfava pesadamente bem na frente dele, ainda em alerta, ainda com os olhos vermelhos atentos e injetados. Amo esse lobo. Rhaegar constatava, sentindo uma lambida dele em seu tornozelo.
Estava ferido, mas não era nada grave. Blackfire o agarrara pelo pé e o puxara para fora da cama. Parecia pedir desculpas por ter enfiado ao dentes no tornozelo dele. Rhaegar ainda estava zonzo. Tudo tinha acontecido tão rápido. Ele ainda não sabia o que Lyanna fazia ali. Como souberam tão rápido. Talvez Lys...
— Lys. Ela...sentiu. Ficou desesperada – e eu também, Lyanna quase falou – Entrei aqui e vi sangue para todo lado. E você não estava em lugar nenhum – Lyanna afastou o rosto do peito do irmão, tentando se recompor, limpando as lágrimas com as mãos.
— Ela sabe que você não vive sem mim. É uma boa loba. Foi ela que derrubou a porta então?– Rhaegar tentou brincar, soltando um suspiro.
— Foi. Mas não comece com suas gracinhas – Lyanna protestou. O irmão ainda estava com os braços ao redor dela. Ela podia muito bem bater nele, mas não conseguiu. Não conseguia se mover. Suas pernas estavam moles.
A força que tinha lhe impelido a correr e pular por cima de portas derrubadas havia se esvaído e deixado apenas a reação ao susto agora. Ela precisava do apoio que encontrava nos braços do irmão. Ou talvez sentar.
— Filho? Rhaegar! Onde ele está? – os dois escutaram a voz do pai. E Rhaegar se preparou para vê-la saindo dos seus braços assim que a figura do pai surgisse diante deles.
Ele avistou Garra Longa pendendo na cintura do pai antes de qualquer outra coisa. Observou o olhar do Rei percorrer o cômodo, com fúria e medo até parar neles dois. Em Lyanna abraçada nele. Ainda abraçada nele. Para sua surpresa. Ele mal a tocava. Tinha um braço passando na altura dos seus ombros e nada mais. E mesmo só isso para ele ainda era muito.
— Vocês estão bem? – a voz do pai soou preocupada, os braços dele ao redor dos dois. Rhaegar soltou o ar que prendia. O pai olhava normal. Agia normal. Só ele, pelo visto, enxergava mais do que dois irmãos abraçados e assustados.
Lyanna o soltou quando o pai os abraçou e se encostou no peito do pai no exato momento em que a mãe deles entrou pelo quarto caótico seguida por Arya e por Verme Cinzento. Rhaegar ignorou o vazio que havia nos seus braços. O pai tocava-lhe na nuca, procurava seus olhos. Rhaegar o tranquilizou.
— Estou bem. Blackfire me salvou – ele falou, fazendo todos olharem para os lobos.
Daenerys cobria a boca com a mão, olhando para a cama e para os filhos, em choque. Os olhos uma poça de rasa tempestade se aproximando.
Sua tia Arya se abaixava próximo da serpente que Lys abatera. A que estava mais inteira. Depois olhou para o colchão. Para Blackfire. Para Lyanna suja de sangue. Para Lys também. E por último, deu um longo olhar para o Rei.
— Isolem o andar. Quem estiver acordado, coloquem para dormir ser novo. Nenhuma palavra sobre o que aconteceu aqui. Nenhuma. Tragam todos os criados que trabalham na ala do Príncipe e da Princesa para o salão privado deles. Todos. — Arya falou para Verme Cinzento e para os outros guardas. Jon e Daenerys assistiram e os guardas seguiram para cumprir suas ordens. E logo estavam apenas os cinco ali e os dois lobos.
— O que aconteceu? – Arya perguntou para Rhaegar – Em detalhes.
— Deitei para dormir. Não percebi nada diferente. Mas não dormi bem. O colchão parecia...estranho. Não ouvi nenhum barulho. Não senti nada sob as camadas. Simplesmente acordei com Blackfire me derrubando da cama, abocanhando meu tornozelo. Do chão vi ele pulando sobre o colchão, vi as cobras e saí para pegar minha espada no cômodo de vestes quando ouvi a porta sendo arrombada, as duas. Eram Lys...e Lyanna. Quando voltei os lobos já tinham matado as cobras – Rhaegar contou, os olhar sendo atraído pelo de Lyanna, que tinha voltado a se aproximar mais dele enquanto contava brevemente o que tinha se passado.
Jon acariciou Lys, respirando aliviado, olhando para Black com uma expressão agradecida e transtornada.
— Dorne, não é? – Dany falou, para Arya. A respiração da rainha tremia.
— Sim. Provavelmente – Arya falou – Vamos já descobrir.
— Você não tinha que partir? – Jon perguntou. Lyanna, Rhaegar e Dany olharam sem entender.
— Vou me atrasar um pouco. Não vou sair sem antes resolver isso – Arya falou, firme.
— São muitos serviçais. Vai demorar – Jon ponderou.
— Não vai não. Se meus sobrinhos vierem comigo e me emprestaram seus lobos – Arya falou, misteriosa.
Rhaegar finalmente se moveu. Saiu de aperto do pai e se abaixou diante do focinho de Blackfire. O povo lhe deu uma grande lambida no rosto. Rhaegar encostou a testa no focinho dele e coçou suas orelhas.
— Claro tia. Só um instante – o Príncipe pediu, indo até seu quarto de vestes, mancando um pouco, voltando com um blusão folgado sobre o peito e um robe, que ele colocou sobre os ombros de Lyanna.
Os outros poderiam não ter notado a transparência da camisola dela, ou simplesmente preferido não comentar, diante da situação inusitada, mas obviamente ele havia notado. Tentara não notar. Em vão. Ele era quem era. E ela era tudo o que ele queria. E Rhaegar não conseguia se desligar daquilo nem mesmo em uma situação de perigo como aquela.
Lyanna enfiou os braços, antes cruzados na frente do corpo, pelas mangas do roupão. O pai deles desviou o olhar. Todos desviaram. E ele ganhou um olhar agradecido dela antes de todos rumarem para o salão comum dos dois.
O lugar estava lotado. Cheio de guardas e de servos assustado que haviam sido tirados às pressas da cama.
— Não fiquem assustados. Logo logo quase todos estarão de volta às suas camas. Um de vocês recheou o colchão do Príncipe com víboras – Arya falou, com um sorriso gelado, caminhando em frente à fileira de homens e mulheres – Se alguém souber de algo, fale agora – ele mandou.
Silêncio absoluto. Todos encaravam o Rei e a Rainha em completo horror.
— Ninguém? Nada? Que pena – Arya falou com ironia, virando-se para Rhaegar.
— Traga Blackfire aqui, Alteza – ela pediu, chamando o lobo. Sem medo dele, se abaixando ao lado do enorme animal – Quem quis matar seu dono Blackfire? Quem aqui é nosso inimigo? – ela perguntou pro lobo, encarando seus olhos vermelhos por alguns segundos, em um mudo entendimento, os dois olhando ao mesmo tempo para os serviçais, a maioria dando um passo para trás enquanto o cheiro do medo impregnava o ar.
Arya se afastou, observando, mãos atrás do corpo. Rhaegar tocou no pelo do lobo e também se afastou, deixando Blackfire livre para fazer o que a tia pedia. E ele não tinha dúvida de que o animal era capaz de fazer aquilo. De sentir aquilo.
Black circulou entre as pessoas, cheirando, olhando, fazendo as tremer ainda mais enquanto estava na frente, deixando aliviadas as que deixava para trás. Até parar na frente de um homem e mostrar os dentes para ele.
As outras pessoas se afastaram como se o homem carregasse alguma praga contagiosa. E Blackfire o acuou contra a parede.
— Bom trabalho Blackfire – Arya cumprimentou o lobo, se aproximando do homem – Quem o mandou fazer isso? Responda logo. Detesto interrogatórios com tortura. Mas sou boa neles. Garanto que vai falar de qualquer forma – ela afirmou, cruel e fria.
— Milady...- o homem se jogou no chão com as mãos unidas – Não fiz nada. Na-da – gaguejou, o rosto vermelho.
Lyanna viu Lys saindo do seu lado, sem que ela mandasse, sem entender o que a loba estava fazendo. Lys ainda estava suja de sangue. E sem dúvida, naquela noite, sua aparência botava tanto medo quanto a do irmão lobo.
Ela se aproximou do homem, os olhos violeta pareciam queimar. Lyanna mal respirava. Ou seu pai, ou sua mãe. A loba então mordeu a perna do homem e o grito de dor dele se fez ouvir pelo salão.
— Ela vai arrancar seu pé da próxima vez, rapaz. Vamos fazer isso durar. Desembuche logo – Arya incentivou, pegando no rosto do homem e o sacudindo. Soltando em seguida com desprezo.
— Não o conheço. Juro. Não o conheço. Um homem alto, magro, me abordou na rua. No mercado. Me ofereceu ouro. Muito ouro – o homem soltou, chorando.
— Quantas moedas de ouro valem a vida do Príncipe Herdeiro? Fiquei curiosa...- Arya perguntou, apertando a mordida que Lys fizera no homem.
— Trinta! Trinta dragões de ouro! Trinta – O homem gritou, em agonia.
Lyanna sentiu um ódio percorrer seu sangue. Seu irmão podia ter morrido por trinta moedas de ouro. Aquilo era...era absurdo além do que ela conseguia racionalizar.
— Como o homem estava vestido? Ele tinha sotaque? – Arya perguntou, enfiando uma adaga no machucado do homem. Os outros servos se recolhiam diante dos gritos dele.
— Era dornês, milady. Por favor...por favor...me mandem para a Muralha – o homem pediu.
— Como sabe com tanta certeza? – Arya retorceu a adaga.
— Quando me entregou as serpentes ele disse: Dorne nunca se renderá – o homem confessou, pálido, prestes à desfalecer.
Arya levantou. Olhou para Jon e Daenerys e caminhou na direção dos dois.
— Vocês decidem. Se querem a cabeça dele sobre os portões, digam logo. Tenho trabalho à fazer – ela disse, limpando a adaga na manga de couro.
— A muralha...por favor...meu Rei...por favor...- o homem pedia, segurando a perna tentando conter o sangramento, olhando com medo para Black e Lys que ainda o rodeavam.
— Tem coragem de pedir à mim para ir para a Muralha? À mim? – a voz de Jon ecoou fria e enojada, o barulho do fio de Garra Longa sendo desembainhada preenchendo o ambiente.
Lyanna nunca vira o pai tão furioso. Nunca. Ela mesmo estava. Ela mesmo sentia as mãos tremendo de ódio. Ela mesmo queria poder voar na garganta daquele homem e de quem o subornou.
E talvez ela tenha sentido essa vontade forte demais. Com intensidade demais. Pois enquanto o homem ainda clamava, Lys voou em sua garganta, Blackfire se juntou em seu auxílio.
Gritos de horror se fizeram ouvir. Do homem. Dos outros servos. Mas não dela. Ela se mantinha firme, assistindo a carnificina.
Segundos depois Lys jogou a cabeça do homem aos pés de Rhaegar. Que olhava impassível para loba, até fitar o rosto de Lyanna. Querendo entender. Perguntando silenciosamente o que estava acontecendo. Lyanna conseguia lê-lo, quando talvez ninguém mais conseguisse. Mas tampouco tinha respostas.
— Se alguém falar uma só palavra do que aconteceu aqui, terminará como ele – Daenerys falou alto – Acho que não preciso dizer que se mais alguém ousar nos trair, terá uma morte pior do que essa.
— Voltem para os seus quartos. O dia já vai nascer. E hoje é dia de festa. Vão! — Arya falou, batendo as mãos, pernas apressadas fazendo o grupo sumir das vistas deles.
— Duas coisas para vocês, para o evento de amanhã, quando estarão cercados de multidão por todos os lados – Arya falou, se dirigindo à Jon, Daenerys e aos sobrinhos – Os lobos vão com eles. Para qualquer lugar. Quando subirem na carruagem, os lobos caminham ao lado. Quando entrarem no Grande Septo, os lobos entram também. Qualquer lugar. Entenderam?
Lyanna imaginou que isso traria problemas. Os lobos eram praticamente um símbolo dos deuses antigos. O Alto Septão não ia querer tê-los ao lado do altar sagrado. A não ser que Rhaegar desse um jeito. Ele era estranhamente próximo do homem.
— E a outra coisa? – Lyanna ousou perguntar, engolindo em seco.
— Soltem os dragões. Todos três.
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