A primeira coisa que Lyanna fez ao entrar no castelo, mesmo estando cansada e suja de lama, foi solicitar ao Meistre Byron que os copistas da biblioteca real providenciassem com urgência uma cópia detalhada do bendito pergaminho que ela tinha nas mãos. Não importava se estivessem ocupados, se tivessem coisas mais importantes para fazer, para replicar. Suas ordens foram bem claras. Deveriam começar imediatamente. Ela não iria se submeter àquilo novamente, a outro dia com Rhaegar pela cidade. De jeito nenhum. E mesmo que o dia raiasse e uma cópia ainda não estivesse pronta, então para o inferno com a segurança do pergaminho antigo. Seu irmão que se virasse sem ela.

Meistre Byron pareceu entender a urgência do pedido dela quando saiu apressado caminhando pela biblioteca. Talvez ela tivesse falado com o pobre Meistre ainda dominada pela raiva que estava sentindo de Rhaegar e de seus jogos. Daquela estúpida tentativa de fazer dela a princesa ideal, quando ela não era, nem nunca seria. Nem tinha porque ser.

Pensando nisso, em ter descontado em quem não merecia, Lyanna saiu da biblioteca com uma pontada de culpa. Mas logo voltou a exalar raiva quando viu para onde seus passos a conduziam. Para a torre do Grande Meistre, para avisar da sua ordem de cuidar daquela criança. E para deixar bem claro que queria ser informada do progresso do seu tratamento, seja lá o que ela tivesse.

O Grande Meistre Gerard pareceu tão surpreso quanto o Meistre Byron havia ficado, apesar dela ter certeza que os motivos haviam sido diferentes. Ela nunca havia sido ríspida com Meistre Byron. E nunca pedira pela saúde de ninguém ao Grande Meistre. Mas o velho homem com correntes garantiu que atenderia com o máximo da sua capacidade quem quer que ela enviasse até ele. Lyanna bufou em agradecimento e desceu a escadaria da torre pisando duro, caminhando sem se interromper até a Fortaleza de Maegor, pensando no quanto precisava de um banho. E no quanto precisava do silêncio e da paz dos seus aposentos, sem ver a cara de ninguém por algumas horas até que sua cabeça esfriasse.

Preciso ler alguma coisa. Alguma coisa boa e difícil que me faça esquecer esse dia. Ela pensava enquanto caminhava. Sua respiração até já estava mais calma quando cruzou a ponte levadiça sobre o fosso que separava a Fortaleza de Maegor do restante da Fortaleza Vermelha, lembrando-se dos detalhes da construção que havia lido há não muitos dias. A-fortaleza-dentro-da-fortaleza, era o que Maegor Targaryen havia idealizado com aquela construção. E os espigões de ferro ao fundo do fosso deixavam claro que o filho de Aegon, o Conquistador, havia herdado da mãe Visenya o pendor da desconfiança.

Não que Lyanna achasse que eles não tinham razão. Seu pai, claro, não gostava muito daquele isolamento. Uma vez ela o ouvira dizendo que o muro de doze pés de espessura não havia impedido que os filhos de Elia Martell fossem assassinados. E aquilo era verdade. Mas de sua parte, Lyanna não se incomodava com o isolamento que a Fortaleza de Maegor deveria proporcionar. Deveria. Porque para ela, não proporcionava isolamento coisa nenhuma.

Nisso ela e o pai eram diferente. O Rei gostava de calor humano. Da família, dos amigos. Gostava de jantar cercado das pessoas que lhes eram caras. Resquícios de sua vida na Patrulha da Noite, talvez. Ou do tempo que vivera entre os selvagens. Ou do tempo em que vivera em Winterfell, criado em meio à uma família numerosa. Às vezes ele ceiava apenas com sua mãe. Ou apenas eles quatro. Mas o mais comum era que o fizesse no Salão da Rainha, com todos os residentes da Fortaleza de Maegor. Que para ela, era gente demais.

Os Tarly viviam ali com eles. O cavaleiro da Cebolas e seu filho também. Lorde Tyrion também, apesar de a Torre da Mão ocupar uma parte mais isolada da Fortaleza. Não que ela não gostasse daquelas pessoas. Ela gostava. Ela gostava de Lorde Tyrion e de Lorde Samwell e Lady Gilly, gostava de Verme Cinzento e Missandei, a amiga e conselheira da sua Mãe. Gostava da sua tia Arya e das duas pestes que ela colocara no mundo. Mas era gente demais. Barulho demais. Sentimentos demais com os quais lidar.

Só suas primas, Visenya e Nymeria, valiam por dez crianças peraltas. Ninguém podia esquecer as portas dos cômodos abertas com elas por perto se não quisesse encontrar alguma surpresa embaixo da sua cama, ou pendurada na sua porta, pronta para cair sobre a cabeça do primeiro que a cruzasse. E mesmo que um andar todo da Fortaleza de Maegor tivesse sido separado para ela e o irmão, enquanto o último e mais alto era destinado aos aposentos do Rei e da Rainha. Mesmo assim, haviam dias em que a Fortaleza de Maegor parecia uma feira. Dias em que sua vontade era de montar Khaleeth e voar para Solarestival. E ficar sozinha lá, longe de tudo e de todos.

Solarestival. Lyanna fechou seus olhos por um momento pensando na paz do antigo palácio de Verão dos Targaryen. Um lugar marcado, sim, mas agora reconstruído. E que seria dela, oficialmente, muito em breve. Assim como Pedra do Dragão seria de Rhaegar. De Solarestival ela não precisava ter medo. Ninguém o tomaria dela. Ela nunca precisaria abandoná-lo. Seria seu pelo resto da sua vida. Ainda que fosse morar no castelo do seu futuro marido. Ela teria um lugar para ir quando quisesse. Um lugar dela. E aquilo era de certa forma, um grande consolo.

Mas até que esse dia chegasse, lhe restava a vida tumultuada da Fortaleza Vermelha. Os quartos dela e do irmão ocupavam os extremos opostos daquele andar, daquela parte da Fortaleza. Adjacentes à eles, haviam acomodações para as damas de companhia de Lyanna e para os amigos de Rhaegar, no caso, todos os garotos Tarly. E bem no meio havia um salão comum aos dois, não muito grande, menor que o salão da Rainha que se localizava mais abaixo, mas confortável o suficiente para receber um grupo de vinte ou trinta pessoas.

Lyanna nunca o usara. O espaço era praticamente de Rhaegar e de seus amigos para beberem e fazerem o que bem quisessem. Mas não naquele dia. Não tão cedo. Porque quando Lyanna chegou à ala reservada para ela e o irmão, e ouviu a algazarra que vinha do bendito salão, aquilo a fez sentir uma imediata pontada de incômodo atravessar sua cabeça. E a pontada só se intensificou quando ouviu mais gargalhadas. Gargalhadas. Reação à voz de Jon Tarly contando o que parecia ser uma piada suja. Atrapalhando qualquer perspectiva que ela tivesse de paz e sossego.

Lyanna parou de frente para as portas fechadas do salão, dando de cara com Blackfire. O lobo enorme, preto como uma noite sinistra, a encarou com aqueles olhos vermelhos sem se mover do lugar. Lyanna engoliu em seco. Lobo metido. Sabe que bota medo em todo mundo.

— Saia da frente, Black – Lyanna falou, ainda com raiva. O lobo mal se mexeu, apenas fez um leve movimento com a cabeça e ela podia jurar que ele estava estreitando os olhos para ela e a cheirando – Não vou matá-lo, se é isso que teme. Não de verdade – Lyanna falou para o lobo. Nada. Nenhuma concessão da parte do animal – Black...quero passar. Por favor— ela pediu, com toda a calma e a educação que conseguiu juntar dentro de si. E o lobo finalmente se afastou voltando sua atenção para o corredor, ainda mantendo guarda.

Lyanna abriu as portas do salão sem nenhuma cerimônia, quase que teatralmente, silenciando todos que estavam ali. Rhaegar estava sentado na mesa ao fundo com os pés jogados displicentemente sobre o tampo de madeira rústica. Quando a viu, rapidamente se sentou direito, mas sem largar a garrafa de bebida que levava para a boca e sem tirar da cara o sorriso cretino que era sua marca registrada.

Lyanna olhou ao redor e se perguntou como diabos eles já poderiam estar bêbados em tão pouco tempo. Os olhos de Rhaegar já brilhavam de um jeito pesado pelo efeito da bebida. Jon, Sam e Dickon, este último que nem deveria estar ali, mas sim acompanhando o Rei por algum lugar, não ficavam muito atrás.

Já havia comida espalhada sobre a mesa e um dos músicos da corte preparava seu instrumento de cordas num canto do pequeno salão. Tudo muito bem organizado para uma festinha particular. Suas damas de companhia já estavam por ali. Todas três. Até Jane. Que havia ficado de pé assim que ela irrompera no recinto. Parecendo indecisa entre a culpa e a diversão que com certeza os garotos estavam proporcionando.

Ela atravessou o salão e caminhou até onde o irmão estava. Jon, Sam e Dickon se levantaram da mesa deixando seu Príncipe sozinho e se espalharam pelo salão com uma velocidade incrível. Jon Tarly ria da cara de Rhaegar, sem nem ao menos disfarçar. Idiota. Lyanna pensou e olhou de soslaio para Sarah Manderly e para Melissa Redwine. Sarah estava com as bochechas rosadas, com certeza efeito do vinho que já deveria ter provado, mas Melissa parecia bastante controlada, sempre em cima do seu pedestal.

Lyanna sabia muito bem porque ela estava ali. Ela odiava os garotos Tarly. Os desprezava com toda a sua arrogância. Mas sempre que os garotos se reuniam e a convidavam ela estava presente. Mesmo havendo uma querela antiga ali. O pai dos meninos, Samwell, amigo de longa data do Rei, havia sido humilhado pelo pai e pelo tio de Melissa quando visitara o lar ancestral dos Redwine na sua juventude, antes de ser obrigado a servir na Patrulha da Noite. E a poderosa família não havia gostado nada de não ter sido eles a suceder os Tyrell no comando da Campina e sim os Tarly.

Consideravam uma verdadeira humilhação que aquele que um dia havia sido um garoto gordinho e sem talentos fosse agora o seu Senhor Suserano e íntimo do Rei e da Rainha dos Sete Reis. E Melissa deixava isso bem claro em cada palavra e atitude direcionada aos irmãos Tarly. Mas mesmo assim, ela diligentemente os suportava. Por causa do grande prêmio, claro. Rhaegar.

Jon Tarly, que ainda ria olhando dela para Rhaegar, o segundo dos filhos de Samwell e Gilly, nomeado em homenagem ao seu pai, era um verdadeiro patife. E Lyanna poderia facilmente odiá-lo, quer fosse por sua falta de compromisso com qualquer coisa séria ou por ser o agenciador oficial de garotas de Rhaegar, não fosse justamente por Melissa. Jon conseguia sempre provocá-la. Era um cretino debochado. Sim, era. Mas um cretino debochado útil. Muito útil.

Como estava sendo agora, quando escolheu se sentar justamente o mais próximo possível de Melissa, para horror dela. Lyanna quase sorriu. Mas estava ali para dar um recado. E iria se concentrar em dá-lo.

Veio se juntar à nós, irmã? Pegue uma taça...- Rhaegar falou, agarrando uma taça e despejando vinho dentro. Lyanna estreitou os olhos para ele, quase pegando a taça apenas para derrubar seu conteúdo na cabeça do irmão. Mas se controlou.

Não, irmão— ela disse, apoiando as duas mãos sobre a mesa e se inclinando na direção do rosto de Rhaegar. Ele teve a decência de se encolher um pouco diante do olhar dela – Só vim aqui para dizer que quero paz e sossego pelo resto do dia. Vá procurar outro lugar para se embebedar – Lyanna falou, com a voz de pura ameaça.

— Se você pedisse direito, eu poderia considerar. Sei que está cansada depois de hoje de manhã, mas eu também estou...E meu jeito de descansar é esse...- Rhaegar provocou, voltando a jogar os pés sobre a mesa e a se inclinar com a cadeira.

Igualzinho ao lobo dele. Do lobo eu até tenho medo. Mas não do seu dono. Não mesmo. Pensou Lyanna, quando ouviu o músico puxar uma corda do instrumento, emitindo um som.

Nem comece— Lyanna falou para o homem, apontando um dedo para o músico, enquanto ainda encarava Rhaegar. O homem soltou o instrumento de uma vez, assustado.

— Não seja estraga prazeres irmã. Porque não vai para a biblioteca um pouco. Prometo que quando voltar de lá já vamos ter acabado. Você passa seus dias por lá mesmo... – Rhaegar sugeriu, colocando os braços atrás da cabeça, na pose mais indolente que conseguiu fazer.

Melissa soltou uma risadinha debochada quando Rhaegar falou aquilo. Lyanna não ousou olhar para trás. Não iria dar esse gostinho à ela, mas seus olhos arderam. E como ela apenas continuou encarando o irmão, talvez ele tivesse percebido. Porque ele não sorria mais.

Rhaegar franzia a testa para Melissa, no melhor estilo não ria da minha irmã. Eu posso. Você não. A bruxa fazia cara de constrangimento e de desculpas para ele. Falsa. Falsa e dissimulada. No fundo Lyanna sabia que o irmão não gostava da garota. Podia achá-la bonita, mas não gostava da forma como ela tratava os amigos dele. E pelo visto parecia que aquilo se estendia à ela também. Pelo menos isso.

Rhaegar se arrependeu das palavras que disse assim que ouviu Melissa rindo delas. Aquilo bastou para acabar com qualquer vontade de continuar provocando-a. Ele nunca aceitaria ninguém rindo dela. Nunca. Se Melissa desejava debochar da sua Princesa, que o fizesse bem longe dali, como Sua Alteza desejava e não na companhia dele.

— Não tive a intenção de atrapalhar seu descanso – Rhaegar disse, se colocando de pé – Vamos, rapazes. Vamos descer para o salão da Rainha – Rhaegar disse, com a voz calma, com um olhar de desculpas para Lyanna.

Ela quase agradeceu. Quase. Mas não o fez. Só virou as costas e saiu dali, sob o olhar atento de Blackfire. E ela podia jurar que o lobo havia lhe dirigia um olhar de compreensão. De compaixão até. Seus olhos queimaram. E seus passos se apressaram rumo ao seu quarto.

~*~

Lyanna não viu o irmão pelo resto do dia. E recusou o convite para jantar no salão da Rainha naquela noite, o que fez seu pai passar em seu quarto antes de se recolher. Ela não mencionou nada sobre ter acompanhado o irmão pelas ruas de Porto Real naquela manhã, apenas assegurou ao pai que estava bem, mas cansada. Os olhos cinzentos do Rei, tão parecidos com os dela mesma, não pareceram acreditar no que ela havia falado, mas ele não insistira. Havia lhe dado um carinhoso beijo na sua testa e feito um afago em Lys, antes de sair.

Quando o dia amanheceu, parecia que ela vivia uma repetição. Mais uma vez sua presença foi requisitada para uma reunião com o Pequeno Conselho. Mais uma vez ela se levantou sem a menor vontade de juntar à reunião e debater o assunto que imaginava seria tratado lá. E mais uma vez ela viu caminhando até a sala do Pequeno Conselho na companhia do irmão. A única diferença era que dessa vez ela encontrou com ele parado bem diante da sua porta, assim que saiu com Jane. Antes mesmo das outras se juntarem à ela.

— Bom dia, irmão – Lyanna o cumprimentou. As chateações de ontem não a abalariam mais. Percebendo que ele a acompanharia, ela dispensou Jane e seguiu apenas com Lys em seu encalço.

— Bom dia, Lya – ele respondeu. Sem gracinhas. Sem sorrisos. Tão atípico para ele, que Lyanna o olhou duas vezes.

— Será que já arrumaram mais nomes? – ela perguntou, tentando conversar. Blackfire, obviamente, se juntando à Rhaegar e fazendo Lys se encolher um pouco com sua presença dominante.

— Veremos – Rhaegar respondeu, enfiando as mãos nos bolsos das suas vestes, carregando uma expressão muito pensativa – Mas não faz diferença para você, não é? Já que vai se casar com quem o Pequeno Conselho julgar mais adequado...- ele falou, com evidente desprezo pelas palavras que ela havia dito dois dias atrás.

— Porque você se incomoda com isso? Se quer fazer diferente, não estou impedindo nem criticando, nem olhando para você com essa cara...- Lyanna falou, com um tom de aviso.

— Por você, não se casaria com nenhum deles, não é? – Rhaegar perguntou à ela, buscando seus olhos. Lyanna não ousou encará-lo.

— Se eu pudesse, não casaria com ninguém – foi tudo que ela falou, quando chegaram diante das portas do recinto, seus lobos se afastando, Lys tomando mais distancia de Black, lhe olhando como se desejasse entrar com ela só para não ficar sozinha ali fora com o irmão-lobo.

— Esse é o seu problema – Rhaegar falou baixinho, com uma raiva contida. Lyanna olhava para ele sem entender, pronta para rebater, quando as portas se abriram e ele falou só para que ela ouvisse, mas ainda com raiva, ainda com a expressão dura – Você é do sangue do dragão, Lyanna. Faça apenas o que você quer fazer, droga.

Ela ainda abriu a boca para responder, mas a fechou em seguida. Todos os membros do Pequeno Conselho já estavam ali. E ela e Rhaegar logo se sentaram. E esperaram. Um silêncio incômodo entre os dois.

— Bom dia, Altezas – Lorde Tyrion tomou a iniciativa. Os pais olhavam para os dois, atentos – Definimos a programação para comemorar o dia do nome do nosso Príncipe e da nossa Princesa e queríamos compartilhar com vocês, talvez queiram dar alguma sugestão... – a Mão falou, mexendo em seus papeis e olhando de soslaio para Lyanna e Rhaegar.

— Bem, as comemorações durarão um mês, com muitos eventos por toda a capital, a maioria apenas para a população – Tyrion começou, observando a Princesa fechar os olhos quase como se estivesse sentindo dor, o que logo ela disfarçou – Cinco dias antes da data teremos um cortejo real que sairá da Fortaleza Vermelha pelas ruas da capital até o Septo de Baelor, onde o Alto Septão fará suas orações pelas vidas de Vossas Altezas. Aproveitaremos para saudar a população – ele informou, fazendo uma pequena pausa, olhando ao redor e simplesmente continuando – No dia seguinte teremos um Baile Real oferecido à nobreza e aos dignatários estrangeiros que foram convidados, os convites já começaram a ser enviados, alguns vão para muito longe – Tyrion acrescentou rápido – No dia seguinte daremos início ao Torneio. Nosso Mestre da Moeda ainda está vendo quanto poderemos oferecer em prêmios – Tyrion continuou, olhando para Samwell Tarly, que acenou em concordância – No dia dos vossos nomes, celebraremos com um grande almoço nos jardins da Fortaleza, onde oficialmente receberão os presentes dos convidados e alguns dias depois encerramos as comemorações juntamente com a final do Torneio – Tyrion completou, soltando os papéis e olhando ao redor mais uma vez.

— Parece bom – disse Daenerys, olhando para o marido e para os filhos – Então entregaremos os decretos reais de Pedra do Dragão e Solarestival no almoço nos jardins? – ela quis saber.

— Sim, minha rainha – Tyrion confirmou, olhando com alguma expectativa para Rhaegar e Lyanna.

— Gostariam de sugerir alguma coisa, filhos? – Jon questionou, parecendo impaciente. Mal escondendo o que achava daquilo tudo. A aversão do Rei à pompas era conhecida.

Não – os dois responderam ao mesmo tempo e se olharam rapidamente.

— Nenhuma sugestão – completou Rhaegar, ainda anormalmente sério.

— Minha também não – Lyanna também afirmou, olhando para o pai.

Muito bem. Vamos nos concentrar em todos os preparativos então. Só não esqueçam de aproveitar todos esses dias para conhecer melhor os jovens solteiros do reino. No dia seguinte ao final do Torneio nos reuniremos mais uma vez para ouvir quem foram os escolhidos – Tyrion os lembrou, como se fosse possível que esquecessem.

Rhaegar olhou para Lyanna, intensamente. E ela quase podia ouvir o irmão gritando com ela. Seus olhos berravam diga alguma coisa, diga que não quer. Lyanna covardemente ignorou o apelo mudo de Rhaegar. Apenas respirou fundo e permaneceu calada e escutou Rhaegar bufando ao seu lado.

— Bom. Se está tudo resolvido quanto à isso... – Rhaegar falou, tomando a palavra. Lorde Tyrion não estava esperando uma resposta deles quando aproveitar os dias para conhecer melhor os jovens solteiros do reino – Se me permitem, gostaria de trazer ao Pequeno Conselho o assunto o abastecimento de água, já que meu pai me incumbiu de fiscalizar os reparos do principal poço da cidade.

Lyanna observou como ele se empertigou displicentemente na cadeira ao falar aquilo. Calculadamente imponente, o pulso fechado sobre a mesa, o rosto altivo e determinado.

— Claro, Alteza. Estamos escutando – disse Tyrion, ouvindo-o com atenção.

— A reforma do poço é um erro. Vamos enterrar ouro à toa ali – Rhaegar começou a falar – A ali está poluída e imprópria para o consumo da população. Nem para limpar uma fossa serve. O melhor que podemos fazer é fechar o poço de vez e reformular todo o sistema de abastecimento da capital, cavar novos poços, mais distantes e trazer água deles.

— Seria uma obra de enormes proporções meu Príncipe – ponderou o Grande Meistre.

— Não temos condições financeiras de suportar o gasto. Não imediatamente. Precisaríamos de um planejamento melhor – afirmou Samwell Tarly – Talvez daqui a dois anos, reduzindo gastos em outras áreas, eu consiga...

— Me perdoe, Lorde Samwell, mas o que as pessoas irão fazer sem água, por dois anos? – Rhaegar interrompeu.

— Por hora vamos apenas recuperar esse poço, enquanto planejamos... – Tyrion começou a falar – A coroa já vai gastar com as comemorações do aniversário de vocês – a Mão continuou a ponderar.

— Não precisamos passar um mês comemorando. Diminuam para uma semana – Rhaegar sugeriu, olhando para a mãe e depois para o pai.

— Mas é uma data muito importante, Alteza. Passa uma mensagem para o reino. Não pode não ser comemorada como deve ser— afirmou o Grande Meistre.

— Se uma semana é pouco... – Lyanna começou a dizer, olhando de esgueira para o irmão, sentindo que ele precisava de alguma ajuda – Que sejam quinze dias então. A economia não seria suficiente para pelo menos dar início à obra? – ela perguntou, olhando para Lorde Samwell, sentindo a atenção do pai repousando nela, com uma leve surpresa.

— Ah...não seria Alteza. Mesmo sem os números exatos. Posso afirmar que não seria... – O mestre da Moeda falou, com algum pesar na voz, olhando para o Rei.

— Sei que não é ideal meu Príncipe, principalmente se a água está assim tão ruim, mas vamos ter reparar o poço até nos organizamos para resolver o problema em definitivo – Tyrion falou, muitas cabeças balançando em concordância, mas não o Rei e a Rainha, que trocavam olhares silenciosos entre si.

— Muito bem. Acham que da para só concertar o poço? – Rhaegar perguntou, se colocando de pé, com um meio sorriso que não lhe alcançava os olhos – Me permitam trazer uma coisa para vocês – ele disse, caminhando até a porta da sala a abrindo e deixando passar um copeiro trazendo uma bandeja, com uma grande jarra de metal cercada de muitas taças. Assim que o rapaz entrou um cheiro fétido se espalhou pelo recinto.

— Sirva para eles – Rhaegar falou ao rapaz, que olhava assustado e constrangido para os membros do Pequeno Conselho – Vamos. Sirva – Rhaegar reforçou, com um olhar férreo ao rapaz, que começou a espalhar as taças e servir a água suja e fedorenta com uma expressão mortificada, tremendo as mãos quando serviu a taça do Rei e da Rainha.

— Pelos sete, Alteza – o Grande Meistre Gerard exclamou, observando a água – Se tomarmos isso, adoeceremos todos.

— Imagino que esta seja a água do poço – disse Daenerys, afastando a taça para longe, com as sobrancelhas erguidas – Reconheço o cheiro. Seu pai chegou fedendo à isso quando foi ver o tal poço – Dany falou, sorrindo um pouco para o filho – Você tem razão, Rhaegar, não podemos fazer as pessoas esperarem. Não é aceitável.

— Há um outro poço perto desse. E se canalizássemos a água de lá, dividindo para os dois distritos? – Jon perguntou ao filho, coçando a barba, a fronte franzida.

— O outro poço está quase tão ruim quanto este que entupiu. Seria, de novo, ouro jogado fora – Rhaegar falou, apontando para a taça com água podre.

— Analise melhor, com um dos engenheiros...- ia sugerindo Jon, quando Lyanna o interrompeu.

— Fui com meu irmão olhar os poços. Ele tem razão pai. Pode mandar outras pessoas analisarem todos os poços ao redor. A água está podre. Qualquer um com nariz consegue chegar à essa conclusão. A não ser que a coroa possa criar um saneamento melhor para a capital, o que imagino que seja ainda mais caro, devemos cavar mais poços, fora dos limites da cidade e canalizar a água limpa para as pessoas – Lyanna disse, vendo o olhar agradecido de Rhaegar. Não que ela estivesse fazendo aquilo por ele. Ele simplesmente tinha razão – Ouçam o que ele diz— ela completou, com uma expressão de não me faça me arrepender de dizer isso.

— Muito bem. Faremos o que meu filho diz – Daenerys disse – Se não temos fundos, vendam isso. Não preciso dele – ela falou, tirando do pescoço um colar de cravejado de diamantes em forma de asas de dragão, que dava toda a volta pelo seu pescoço, jogando-o sobre a mesa. O brilho que viu no olhar do filho valia mil colares daquele. O bem estar da população também valia.

— Minha Rainha, sinto dizer, mas acho que não seria suficiente...- começou a dizer Tyrion.

— Então escolherei outras – disse Dany, com a voz decidida.

— Podem vender as minhas também – falou Lyanna, em apoio à mãe e ao irmão, um pequeno sorriso surgiu no rosto do seu pai diante da cena.

— Não podemos fazer isso. Uma Rainha e uma Princesa sem joias. É um absurdo. Vocês representa a força do Trono de Ferro. As joias representam isso também – observou Lorde Celtigar, até então calado e fazendo careta para o fedor da água.

— Não sei, tampouco, se seria suficiente Lorde Celtigar – Tyrion falou mais uma vez, olhando para Samwell.

— Se as joias da minha mãe e da minha irmã não cobrem o valor da obra...pelo visto dinheiro nenhum será. Mas eu tenho a solução. Vamos vender um dragão. O que acham? Com certeza arrumaremos dinheiro suficiente. Que tal a Khaleeth, irmã? Ela é a mais mansinha...- Rhaegar ironizou, vendo os olhares chocados de Lorde Celtigar e do Grande Meistre.

Sua mãe continha o riso. Lyanna olhava para ele com a sobrancelha erguida em desafio, balançando a cabeça como se não acreditasse que ele realmente estava falando aquela insanidade em voz alta.

Muito bem, Rhaegar. Já entendi. Vocês venceram— Jon disse, erguendo a mão, interrompendo o filho antes que ele sugerisse vender o palácio. Rhaegar era igual à mãe. Quando se determinava por algo, nada tirava aquilo da sua cabeça. E até a filha estava lhe dando razão.

Jon se colocou de pé e pegou o colar que Daenerys havia jogado sobre a mesa. Ele caminhou até as costas dela e o colocou de volta no seu pescoço.

— Sam, vamos fazer acontecer. Se for preciso, pegaremos um empréstimo – Jon disse, vendo Sam assentir, e reparando no olhar satisfeito do filho – Mas Rhaegar vai ajudar você com a contabilidade. Ele vai ter que decidir o que cortaremos do orçamento para pagar a parcela do empréstimo – Jon acrescentou, vendo aquela satisfação sumir do rosto do filho.

Jon queria que ele soubesse o quanto aquelas decisões eram difíceis. Que empréstimos não podiam ser tomados levianamente. E que não podiam ser a solução para tudo. O dinheiro tinha que sair de algum lugar. Tinha que ser cortado de algum lugar. O olhar do filho demonstrava bem que ele sabia que aquilo tomaria horas dele. Horas trancado em um escritório com Samwell. Decidindo entre diminuir dinheiro repassado para orfanatos ou entre dispensar o serviço de famílias inteiras ou por adiar obras já em andamento em outros locais da capital. Ou pior, tudo isso junto.

Jon sentiu um chute em sua canela por baixo da mesa. Um chute certeiro que vinha da sua esposa. Ele a encarou, disfarçando a dor, apenas para se deparar com aquele olhar. O olhar de silenciosa ameaça que só Dany conseguia fazer para ele. Ele sabia bem pelo que. Ela comeria seu couro assim que ficassem sozinhos, se ele não elogiasse a atitude do filho.

— Tudo bem, Pai. Obrigado. Foi a decisão certa – Rhaegar falou, suspirando com a condição que o pai havia colocado.

— Você defendeu bem o seu ponto – foi tudo o que Jon disse – E Tyrion, diminua as comemorações para quinze dias, o dinheiro economizado vai ser utilizado para comprar água potável para os distritos da capital que estão precisando. Creio que estamos dispensados – ele falou, pondo fim à reunião, vendo os filhos e demais membros do Pequeno Conselho saindo. Ele piscou para Lyanna e ganhou um sorriso triste da filha. Iria visitá-la de novo mais tarde e dessa vez tentaria conversar com ela.

Quando se viu sozinho com Daenerys, ele não se surpreendeu nada pelo puxão que recebeu em sua capa. Quase já esperava por aquilo.

— Você chama isso que falou de elogio? “Você defendeu bem o seu ponto?” – Dany disse, zangada, batendo no ombro dele, sem força nenhuma –Seu filho foi brilhante. Defendeu uma causa digna. Trouxe essa água podre para nos convencer...

— É ele foi... – Jon concordou, com um meio sorriso – Ele é muito esperto. Sempre foi. Mas tem que saber que o dinheiro vai sair de algum lugar e que não é fácil decidir de onde. E quando finalmente decidimos, temos que lidar com as reclamações que vão surgir... – Jon explicou, pegando no rosto da esposa e lhe dando um beijo na testa. Dany fingiu não querer receber aquele carinho.

— Ainda assim. Você tem razão, é claro. Mas custa dizer que tem orgulho dele? Que ele estava defendendo a coisa certa, como a própria irmã fez? – Dany argumentou, batendo nele de novo.

— Vamos sair daqui, Dany. Continue brigando comigo em outro lugar, pelos deuses...o fedor dessa água está embrulhando meu estômago – Jon pediu, contendo um sorriso.

— Eu devia mesmo era derramar essa água na sua cabeça, isso sim – Dany disse, caminhando para fora da sala – Você precisa aprender a elogiar seu filho...

— Se jogar, não reclame do fedor quando estiver me banhando – ele falou, dando de ombros, pegando na mão dela. O olhar de Dany ainda era de irritação. Mas ela não soltou sua mão.

~*~

Lyanna caminhou ao lado de Rhaegar até o salão do trono. Ele ainda estava calado. Mas com a expressão mais leve. Com uma sutil determinação no olhar tremulando pelos olhos violeta. Ele havia conseguido o que queria, apesar da condição que o pai deles havia imposto.

— Vou até o pátio. Black vai acompanhar você de volta – Rhaegar disse, mesmo vendo Lys ali aos pés da irmã – Obrigado por me ajudar lá dentro. Acho que trabalhamos muito bem juntos – ele completou, sem olhar nos olhos dela, dando as costas para a irmã, os passos ecoando pelo salão do trono, enquanto ela continuava parada, olhando dele para Black, que havia ficado ao lado dela.

— Você conseguiu tudo sozinho. Precisou dar uma de louco, levando a água podre e querendo vender minha dragão, mas eu não fiz nada. Foi mérito seu – Lyanna falou, ainda parada, não o seguindo.

Rhaegar parou. E olhou para trás com o sorriso canalha de volta aos lábios.

— Foi você que me deu a ideia de uma abordagem dramática quando entrou daquele jeito e atrapalhou minha festinha – ele disse, mas então o sorriso sumiu e calou a reclamação que ela já estava pronta para fazer.

— Não esqueça o que eu lhe disse. Acorde pra quem você é, Lyanna – o irmão falou, e seguiu seu caminho.

Lyanna podia jurar que havia visto medo nos olhos dele. E algo lhe dizia que os dela poderiam estar refletindo a mesma coisa.