— Jon?— Dany chamou pelo marido, entrando na parte mais reservada do seu quarto. Não o havia visto pelo resto do dia, após a Reunião do Pequeno Conselho. E quando ele não apareceu para o jantar, ela havia ficado preocupada. Até lhe dizerem que o Rei já havia subido para seus aposentos.

Estou aqui – ele respondeu, sua voz cansada vindo do cômodo de banho.

— Onde você...porque você está tão sujo?— Dany perguntou, ao cruzar a porta e encontrar o marido tirando suas roupas, ajudado por um jovem pajem – Nos deixe à sós – Dany disse ao rapaz, que se curvou para ela e para o Rei e saiu apressado – Isso é lama? — Dany perguntou, assumindo as funções do servo e ajudando o marido a se livrar do couro negro que vestia.

— Sim, é lama— Jon respondeu, parecendo estar com a mente longe dali.

— Por onde você andou durante o resto do dia? – Dany perguntou, com a voz tranquila, libertando-o da parte de cima das suas vestes e admirando a compleição física do marido.

Quase vinte anos haviam se passado desde a primeira vez que ela o havia visto assim, após ele quase morrer além da Muralha. A primeira vez que havia visto suas inacreditáveis cicatrizes. Ela nunca esqueceria o impacto daquela visão. A dor e o espanto que aquilo provocara nela. E agora, tantos anos depois, elas ainda estavam lá. Haviam deixado de ser vermelhas e grossas, e receberam a companhia de muitas outras. Não tão profundas, não tão cruéis e definitivas, mas ainda assim marcas do sangue que ele sempre estava disposto a derramar.

Dany acariciava aquelas marcas inconscientemente sempre que estavam assim. E nunca cansava de admirar a rigidez dos músculos do seu Rei, mesmo ele já estando com quarenta anos e ela com quase isso. Eles não eram mais os jovens de outrora, mas o tempo havia sido generoso com Jon. Fora algumas rugas no canto dos olhos e ter os cabelos e a barba cheios de fios brancos, ele não havia mudado quase nada. Aos seus olhos estava ainda mais bonito. Ainda fazia seu coração palpitar forte.

— Soube que o abastecimento do principal poço da cidade estava com problemas. Acabei indo ver pessoalmente... – Jon explicou, sentando-se, se livrando de suas botas.

— E foi preciso o Rei em pessoa mergulhar no poço? — Daenerys perguntou, começando a puxar as tiras das suas roupas também, adorando ver o marido por um instante parar o que estava fazendo e olhar para ela.

Um rápido brilho cruzou o olhar de Jon quando, em silêncio, ele levantou e retribuiu o favor que Dany havia feito à ele, lhe ajudando a se despir.

— Não mergulhei. Mas mandei meus guardas ajudarem a cavar, enquanto mais homens eram solicitados. Mas o poço só ruiu mais e ficou definitivamente entupido. Não aguentei apenas ficar olhando. Enfim, parece que água já não estava boa. Ouvi populares reclamando que estava podre... — Jon explicou, entrando na grande banheira de pedra clara, cheia de água morna até a sua borda.

— Isso explica porque você está fedendo desse jeito...- Dany falou com um leve sorriso, franzindo o nariz e entrando na banheira. Apesar do espaço enorme, ela se colocou logo atrás do marido, junto à ele.

— Estou? – Jon perguntou, ainda com a voz distraída. Dany sabia bem o porquê daquela distração toda.

Bastante— ela respondeu, pegando uma esponja e esfregando as costas dele, vendo sua musculatura relaxar – Mas eu aguento.

— Humm...- ele murmurou, encostando sua cabeça nela. Fechando os olhos enquanto sentia ela molhando seu cabelo – Não devo estar tanto assim então – Jon disse, acariciando as pernas da mulher, apreciando o toque dela em si e querendo retribuir.

Dany deixou escapar um risinho baixo e beijou a nuca do marido. Uma verdadeira prova de amor. Ele estava fedendo sim.

— Vou precisar designar alguém de confiança para acompanhar de perto a reforma desse poço. Ano passado liberamos ouro para uma melhoria nele. E pelo que vi lá, ela não foi feita. Ouvi muita insatisfação por onde andei – ele continuou falando, chateado com o assunto, mas não tanto quando teria ficado em situações normais. Dany sabia que o marido reagia com rigor em situações de desvio de dinheiro.

— Deixe Rhaegar cuidar disso...ele está precisando se distrair também. Algo o está preocupando. Talvez o casamento...não sei bem – sugeriu Dany, massageando os ombros de Jon com as mãos envoltas em sabão.

— Ele não pareceu nada preocupado hoje de manhã– Jon falou, balançando a cabeça – O abastecimento de água para milhares de pessoas é algo bastante sério...

— Mas ele está sim. Você não o viu agora à noite. Vi em seus olhos. Ele pode sorrir, debochar e brincar. Mas conheço nosso filho. Delegue isso para ele. Rhaegar é inteligente e capaz. E gosta das áreas pobres da cidade. Adora circular por lá com os amigos. Ele se importa com as pessoas, sabe disso. E no mais, vai ser bom para ele ter algo com que se ocupar...igual deve ter sido bom para você hoje— Dany comentou, vendo Jon olhar de soslaio para ela, uma muda compreensão passando de um para o outro.

Ela conhecia bem o marido. Quando ele estava preocupado com algo fora da sua possibilidade de resolver, sua reação era exatamente aquela. Procurar algo que pudesse resolver. E mergulhar de cabeça naquilo. Com seus próprios braços se fosse preciso.

— Preocupado com a nossa filha? – Dany perguntou, agora esfregando seus braços.

Ele não respondeu imediatamente. Dany esperou calada, continuando a passar a esponja pelo corpo dele, pelo seu pescoço e seu peito, até que ele estivesse pronto para falar, dando-lhe tempo para organizar suas ideias, seus sentimentos.

— Não gosto das opções que ela tem – Jon falou finalmente, com um pesado suspiro – Falar aquilo para ela hoje pela manhã...

Não gosta das opções? Jon...Pequeno Sam é um bom homem. Nós o conhecemos desde garotinho. Nem dessa opção você gosta? Você e Samwell teriam netos em comum... – Dany perguntou – Mergulhe para tirar a espuma— ela mandou e ele obedeceu.

— Ele é um bom rapaz – Jon falou, assim que voltou para a superfície, passando as mãos pelos cabelos e o rosto – Mas eu sei de quem é o sangue que corre nas veias dele. Ele é filho de Craster...

Jon... – Dany falou, em tom de alerta, pegando uma escova para desembaraçar o cabelo do marido – Não fale assim...Sam e Gilly ficariam magoados.

— Não desejo ofender Sam e Gilly, mas voçê não conheceu Craster. Não viu como ele tratava suas mulheres, que eram suas próprias filhas...Não sei se quero um neto com o sangue daquele homem...- Jon falou, parecendo angustiado.

Dany sabia que aquilo era o medo falando por Jon. Ele não era aquele tipo de pessoa. Ele não julgava filhos pelos pais. Fossem de sangue ou não. Mas não o repreendeu mais, era bom que ele conseguisse colocar para fora seus medos.

Bem...Tem o rapaz Tully. Gostei de saber que ele gosta de ler...daria certo com ela...– Dany mencionou apreciando como o marido inclinava a cabeça para trás naturalmente, procurando contato com o ombro dela.

Filho de uma Frey. Robb se reviraria no túmulo. E além disso, também não gosto muito do pai dele – Jon objetou.

— O rapaz Arryn, então. Dizem que é muito bonito. Casar com um homem bonito tem suas vantagens – Dany falou, dando um beijo provocativo no pescoço dele, mas esperando para ver qual defeito ele arrumaria para esse pretendente.

— E se ele traí-la? E se a fizer sofrer? Pior...e se for agressivo? Ela vai...vai estar tão longe de nós. De mim. Eu não vou poder defendê-la – Jon falou, triste e preocupado.

— Meu amor...você parece determinado a achar um defeito para qualquer pretendente que surja...- Dany falou, repreendendo ele sutilmente.

— Talvez – ele admitiu, levando a mão aos olhos, como fazia quando estava cansado – Não nego que para mim nenhum homem no mundo à merece.

— Mas ainda assim...existem bons homens por aí. E às vezes uma Targaryen dá sorte e é visitada por um...- Dany falou, obviamente se referindo ao primeiro encontro dos dois.

— Depois de tudo que vi, me parece que os homens maus são maioria. E sofro só em pensar no que pode acontecer com minha garota...Não sei se vou conseguir entregá-la no altar Dany...Não sei se vou conseguir... – a voz de Jon saiu embargada ao dizer aquelas últimas palavras. Daenerys o abraçou mais forte.

— Ela não é mais uma garotinha, meu amor. Tampouco uma simples donzela indefesa. Ela é filha de Aegon VI e de Daenerys Nascida da Tormenta. Ninguém vai maltratá-la. Ninguém. Ela é uma princesa Targaryen. Tem seu próprio dragão para protegê-la e tem Lys. Ela dorme com aquela loba protegendo sua cama. Homem nenhum vai levantar um dedo sequer contra ela. Lys o arrancaria, Khaleeth voaria até ela ao menor sinal de sofrimento – Daenerys falou com confiança, tentando acalmar os medos dele.

— Não tenho essa sua confiança. Mesmo ela não sendo uma garota comum...ainda assim tenho medo. Não quero que ela sofra. Não quero que ela seja infeliz – Jon falou, se afastando um pouco do corpo da esposa. O assunto o deixava inquieto. O fazia sentir vontade de andar até aquela sensação ruim passar.

— Quando ela fizer sua escolha, nós dois vamos deixar claro ao nosso futuro genro o que acontecerá com ele caso a faça infeliz ou à maltrate – Dany falou, pegando no rosto do marido e olhando em seus olhos – Nós faremos chover fogo e sangue sobre a casa dele, sobre todos que carreguem seu nome até que restem só cinzas, se algo acontecer à ela.

— E quando não estivermos mais aqui para defendê-la? – Jon perguntou, ainda angustiado. Eles não seriam eternos. E pelos deuses, ele já se sentia velho e cansado na maioria dos dias.

— Ela ainda será a única irmã do Rei. Rhaegar a adora e também está triste pela partida dela. Se você tivesse conversado melhor com ele, também teria percebido isso. Ele sempre cuidará dela. Não tenho a menor dúvida – Dany falou, o consolando.

— Parece que você percebeu muitas coisas nessa manhã... – Jon resmungou baixinho.

Claro. Eu estava tensa. De olho em você. E em Rhaegar. E em Lyanna. Pronta para apoiar ou ajudar qualquer um dos três – Dany falou – Você e Rhaegar são fáceis de ler, pelo menos para mim. Já nossa filha... O que vocês ficaram conversando no final?

— Nada demais. Ela estava me dando mais detalhes do papel de conciliador que Jaehaerys I exerceu. Só isso – Jon falou – Por quê?

Bem que Rhaegar disse...- Dany riu – Você precisa deixar de ser tão duro com ele. Você elogia demais Lyanna e sempre exige mais dele sem nenhuma palavra de incentivo – Dany aproveitou par mencionar. Mais uma vez.

Aquilo já tinha sido motivo de inúmeras conversas e brigas entre eles dois ao longo dos anos. Dany achava Jon rigoroso demais com Rhaegar. E Jon a achava compassiva demais. Mas ela não queria brigar por causa daquilo. Não naquele dia. Não quando sabia que o marido precisava do seu consolo.

— Ele um dia vai ser Rei. Preciso exigir dele. Não terei sido um bom pai e nem um bom Rei se eu não o deixar preparado para o que o espera. Para ser melhor. Melhor do que eu. Melhor do que você. E ele pode ser – Jon se justificou.

— Eu sei. Eu sei. Não quero brigar. Conheço seus motivos e você conhece minhas objeções. Só lembre...que também não está sendo fácil para ele, tudo bem? Ele entende o que você está sentindo...sua ligação com Lyanna. E vejo que ele verdadeiramente não tem ciúmes...mas não quero que ele duvide do seu amor por ele...de que ele é menos importante – pediu Dany, pegando no rosto do marido.

— Eu amo meu filho. Ele não pode duvidar disso. Meus cabelos brancos são mais por causa de todas as coisas que ele já aprontou desde criança do que pelos problemas do Reino... – Jon falou, levemente irritado – Eu morreria por ele. Mataria quem tentasse prejudicá-lo sem pensar duas vezes...- ele completou, baixinho, suspirando – Mas você sabe que Rhaegar precisa de um pulso firme. Aquele garoto é...ele não tem muito respeito pelas regras. E consegue tudo o que quer de todo mundo, principalmente da própria mãe. E nesse assunto do casamento...ele não vai embora. Vai ficar aqui conosco. Enquanto minha garotinha...ela vai...

— Eu sei o que você está sentindo – Dany o interrompeu – E eu também ainda a vejo como minha garotinha. Minha menina inteligente. Mas ela não é mais isso. Ela já é uma mulher. Precisa seguir o caminho natural da vida. E nos dar netinhos. Pequenos espertinhos, como ela era. Para nos fazer sorrir – Dany continuou falando, vendo Jon retorcer o rosto ao ouvir a palavra netinhos.

— Rhaegar pode encher esse castelo de crianças e do jeito que ele é, provavelmente vai. Quero minha menina aqui comigo, perto dos meus olhos – Jon falou baixinho, sabendo muito bem aquilo não era possível e que sua esposa tinha razão – Eu...eu a amo tanto. Deuses porque isso é tão difícil? Eu agora vivo com todos os momentos da infância dela na minha cabeça, desejando poder voltar no tempo ou pará-lo.

— Então deixe ela ter o mesmo. Deixe ela sentir o movimento de uma criança em seu ventre. Deixe ela amar alguém, um filho, como nós a amamos – Dany falou, vendo os olhos do marido brilhando pelas lágrimas que ele tentava não derramar.

— Isso a fará feliz? É isso que ela quer? Casar? Ter filhos? – Jon se perguntou.

— Ela não deixa ninguém se aproximar dela, Jon. Por isso ficamos com essa sensação de que ela não quer isso. Nem que inicialmente seja por dever, quem sabe nesse período de comemorações ela não conheça alguém que consiga despertar algo nela? Só os Sete sabem o quanto nossa menina precisa sair daquela biblioteca – Dany argumentou, sentiu Jon acenar com a cabeça, concordando.

— Com o tempo...nós vamos nos acostumar. Já enfrentamos coisas piores...– ela disse, soltando suas próprias lágrimas – Olhe só para nós. Viramos dois velhos chorões.

Jon foi arrancado da sua própria tristeza ao ouvir o fungado da esposa. Ele virou-se para ela e enxugou suas lágrimas com seus polegares.

— Sei que vamos – ele disse, beijando os lábios dela e a puxando para o seu colo. Sua rainha. Seu amor. Sua fortaleza.

~*~

Lyanna não havia conseguido dormir bem. Mas nada que uma visita noturna à biblioteca não desse jeito. Na verdade, só caminhar por aqueles corredores, tocando nos livros e nas prateleiras, já era o suficiente para que ela ficasse mais calma.

Ela havia procurado algo que absorvesse sua mente por completo, tirando o assunto do casamento do seu sentido. E havia conseguido com um pequeno livro em Alto Valiriano, Histórias de um Mercador de Escravos, que narrava a história de um inclemente mercador de escravos que havia se apaixonado por uma das suas mercadorias e mudado todo o seu modo de ver o mundo.

A história era muito boa. Escravidão era um tema muito associado à sua mãe e que sempre despertava seu interesse. Afinal, ela tinha muito orgulho de ser filha da Quebradora de Correntes. Lia tudo que via sobre a antiga Baía dos Escravos, agora Baía dos Dragões, já que sua mãe ainda acompanhava de perto tudo que se passava por lá.

Sempre que os antigos mestres tentavam retomar o infame comércio, a Mãe dos Dragões mandava seus Imaculados restabelecer à ordem. Lyanna lembrava bem quando uma vez, há uns cinco anos atrás, nem os Imaculados conseguiram resolver a rebelião dos Mestres contra o Conselho de Magísteres em Meeren.

Quando recebeu a notícia, Lyanna viu sua mãe sair furiosa para montar em Drogon. E ser contida pelo seu pai. Ela e Rhaegar e o castelo todo ouviram a briga feia que se seguiu à isso. Naquele dia ela se perguntou como duas pessoas tão diferentes como eles dois poderiam se amar e ser felizes.

No final das contas sua mãe fez o quis. Passou um mês ausente, deixando todos preocupados. Quando o irmão quis ir com seu dragão atrás dela, o pai o proibiu. E quando ele tentou fugir escondido, Lyanna o puxou pelos cabelos e acordou o castelo todo para impedi-lo.

O irmão ficou de castigo e sem falar com ela por dias. Mas ela não se abalou. Ele não tinha experiência suficiente para atravessar o Mar Estreito em um dragão e se envolver em uma guerra. Ia acabar morrendo e ela não podia deixar isso acontecer.

Mas tudo foi perdoado e esquecido quando a rainha finalmente surgiu nos céus de Porto Real com Drogon. Rhaegar ficou tão alegre com a chegada da mãe, que agarrou em sua mão enquanto esperavam ela pousar dentro dos limites da Fortaleza. Ela nunca esqueceu o quanto ele tremia.

O pai deles não esperou do lado de fora, como eles ficaram. Lyanna o viu por alguns segundos contemplando a visão de Drogon das janelas vazadas da Fortaleza e depois entrando. Ela até achou que continuariam brigados. Mas no dia seguinte viu o pai e a mãe trocando carinhos no desjejum e soube que tudo já estava normal. Diferentes. Mas se amam. Ela havia pensado outra vez.

Agora, o dia mal começara e lá estava ela de novo. Havia lido Histórias de um Mercador de Escravos muito rápido. Como sempre fazia. Por isso já estava mais uma vez entre os corredores da gigantesca biblioteca da Fortaleza Vermelha. Andando à esmo, olhando para as prateleiras, à procura de outra coisa para ler, quando vislumbrou, por entre os livros, um brilho prateado passando no corredor ao lado. E ela reconheceria qualquer pequena parte daqueles cabelos onde quer que os visse.

O que ele está fazendo aqui? Ela se perguntou, sem se deter. Suspirando mais alto do que pretendia e talvez com isso acusando sua presença para ele.

— Já por aqui, irmã? – a voz de Rhaegar surgiu atrás dela, segundos depois, lhe provocando.

Sim. E você, o que faz aqui? Está perdido? – Lyanna respondeu, não se virando para vê-lo, continuando sua caminhada pelo corredor. Ela não estava com paciência para as gracinhas de ninguém. Nem mesmo as de Rhaegar, as únicas que ela tolerava.

— Por incrível que pareça, não. Eu realmente queria vir aqui – ele respondeu – Mas não encontro o que procuro. Talvez você possa me ajudar...- Rhaegar pediu, com jeito. Percebendo que ela não estava de bom humor. Ultimamente, ela nunca estava.

O que é que você quer?— a irmã perguntou, impaciente, se virando de uma vez, vendo ele interromper seus passos para não da um encontrão nela.

Muitas coisas, Lya. Rhaegar pensou, observando que ela estava com pesadas olheiras. Alguém aqui não dormiu bem.

Um mapa. Dos poços e dos aquedutos de Porto Real...Parece que o principal poço está com problemas. E que alguém sumiu com o dinheiro de uma obra que deveria ter sido feita...Nosso pai literalmente me derrubou da cama antes do sol raiar para me encarregar de resolver isso – explicou Rhaegar, contendo um bocejo. Ela não era a única que não tinha dormido bem ali. E ele achava que o motivo deveria ter sido mesmo.

— Hummm...Fale com Meistre Byron, ele vai ajudar você – Lyanna disse, mencionando o jovem Meistre que cuidava da Biblioteca Real.

— Ele não está na sala dele. Porque você acha que estou rodando sozinho entre essas prateleiras? – Rhaegar falou, com cara de tédio – Aposto que você sabe onde estão. Vive tanto aqui dentro que deve saber até onde estão os volumes perdidos das histórias indecentes de Cogumelo – ele disse, mesmo vendo que ela não estava para gracinhas. Ele não resistia. Era fácil irritá-la.

A irmã não era muito expressiva com a maioria das pessoas. Sempre muito contida quanto ao que estava pensando ou sentindo. Um pouco menos com ele e com seus pais. Rhaegar sabia que alguns olhares e sorrisos só seu pai recebia. Mas ele também já tinha notado que ela tinha uma expressão facial que só fazia para ele. Era um leve franzido na testa, acompanhado de um olhar ligeiramente estreitado, braços cruzados, lábios que se continham para não rir e prontos para brigar. Exatamente como ela fazia agora. Ele adorava provocar ela justamente para ver aquela cara.

— Baelor, o Abençoado mandou queimá-los. Então, não. Eu não sei onde os volumes com as histórias de Cogumelo estão – Lyanna respondeu, estreitando os olhos para o sorrisinho que o irmão tinha no rosto – Mas vou levar você até os mapas, já que o assunto parece importante – ela falou, virando as costas de novo e saindo até o corredor certo, com o irmão em seu encalço.

Obrigada, Alteza. Vai salvar meu dia – Rhaegar falou, enquanto a seguia, vendo-a caminhar com profunda intimidade entre aquelas centenas de corredores estreitos, virando para um lado e para o outro sem o menor aviso, de um jeito que o deixava desorientado. Aquilo era um maldito labirinto.

Em nenhuma outra parte da Fortaleza Vermelha ela caminhava daquele jeito. Relaxada. Com as mãos livres. Tocando nas prateleiras e nos livros conforme passava por elas, como se estivesse cumprimentando velhos amigos. Rhaegar observava tudo calado, vendo que ela fazia aquilo sem nem perceber. Achando bonitinho e guardando para si. Receberia uma resposta atravessada se comentasse algo, sabia bem.

— Provavelmente está em algum lugar por aqui – ela disse finalmente, entrando em um corredor com prateleiras mais espaçadas, repleto de grandes rolos de pergaminho, os maiores e mais largos que Rhaegar já havia visto.

— Achei que você saberia exatamente qual deles seria o que eu procuro – Rhaegar falou, coçando a cabeça, olhando desanimado para aquilo tudo.

Achou errado — disse Lyanna – Mas eu ajudo você a procurar – ela completou, revirando os olhos e ganhando um sorriso agradecido do irmão.

— Segure a escada para mim – ela mandou, puxando a escada que deslizava ao longo de toda a prateleira – Vamos começar do alto.

Rhaegar ainda pensou em dizer algo espirituoso, mas obedeceu calado, vendo ela suspender a barra das suas vestes para subir os estreitos degraus de madeira e depois soltá-las de uma vez quando atingiu a altura que queria, o tecido resvalando de leve no rosto dele e nem isso fazendo ele se mover um milímetro de onde estava.

Um preço pequeno por não ter desviado o olhar do breve vislumbre das pernas da irmã, como um verdadeiro cavalheiro teria feito. Não que ele tivesse visto algo além das panturrilhas dela. Mas ainda assim.

— Pegue esse – Lyanna disse, batendo o rolo de pergaminho com força na cabeça do irmão – Ainda está dormindo? – ela ralhou, vendo que ele parecia estar com o pensamento longe.

— Ai! – Rhaegar exclamou, levando a mão à cabeça – Você é a delicadeza em pessoa – ele disse, pegando o pergaminho que ela lhe entregava. Mas sua reclamação foi apenas protocolar. Ele teria sido mais veemente se não estivesse fazendo algo que sabia que não deveria fazer.

Bem empregado. Ele pensou consigo mesmo. Olhando para as pernas da própria irmã... Baelor, o Abençoado tinha lá suas razões para prender as dele. Não que ele fosse chegar à tanto. Ele nunca gostara muito de Baelor.

— Vá botando ali em cima daquela mesa – Lyanna mandou, sem ligar para a reclamação dele, apontando para a mesa repleta de pesos de papel no final do corredor.

— Você não vai cair? – ele perguntou, genuinamente preocupado, ainda segurando a escada.

— Posso não treinar como vocês, mas garanto que minhas pernas são fortes o suficiente. Vivo subindo essas escadas – ela falou, impaciente, lhe entregando mais pergaminhos e voltando a olhar para a prateleira, remexendo em outros.

— Eu sei – Rhaegar disse baixinho, para si próprio. Acabei de ver uma parte delas. Pensou. Fazendo logo o que ela estava mandando antes que ela resolvesse bater na cabeça dele outra vez. Ela parecia adorar fazer aquilo, desde pequenos, por motivos justos ou não. E ele deixava. Sempre deixava.

Minutos depois, após abrir alguns pergaminhos, eles haviam encontrado exatamente o que ele precisava. Um mapa com todo o precário sistema de abastecimento da capital. Poços, cisternas, aquedutos.

— Obrigado, irmã. Vai me ajudar muito – ele disse, enrolando o pergaminho e o colocando debaixo do braço.

— Você não está pensando em sair por aí com isso, está? – Lyanna falou, arregalando os olhos e tomando o pergaminho dele.

— Estou. Porque? – Rhaegar falou, pegando o pergaminho de volta das mãos dela.

— Mande fazer uma cópia e deixe o original guardado aqui. Você pode danificá-lo – ela explicou, falando o óbvio. O pergaminho era muito antigo e não havia outro.

— Não tenho tempo para isso, Lya. Nosso pai mandou resolver o mais rápido possível. Milhares de pessoas estão sem água – Rhaegar ressaltou – Mando fazer uma cópia hoje a noite ou quando eu voltar, mas preciso sair agora e vou levá-lo comigo.

De jeito nenhum! — Lyanna falou horrorizada, pegando o pergaminho de novo e o abraçando protetoramente.

— Se está tão preocupada com esse pedaço velho de papel, então venha comigo e seja...sei lá...a Guardiã do Pergaminho— ele sugeriu, com um risinho debochado – Porque ele vai comigo agora de um jeito ou de outro – Rhaegar falou, não deixando dúvidas de que faria o que estava dizendo.

— Para onde exatamente? – Lyanna perguntou, dando um passo para trás.

— Até o poço. Onde mais seria? – Rhaegar falou, vendo a cara dela ficando ainda mais resoluta.

Eu não vou. E o pergaminho também não vai. Ele é centenário e você quer andar com ele por aí. Levá-lo para um poço! Um poço! Com lama e água por todo lado. Nem pensar! – Lyanna falou, com firmeza.

— Você estava aqui procurando algo para se distrair, não era? Dá para ver pelos seus olhos que essa sua cabecinha de Anciã está cheia – ele disse, tocando com o indicador na própria testa repetidas vezes – Tem muito mais coisas para serem vistas e vividas fora das páginas dos seus livros irmãzinha...- Rhaegar continuou, se aproximando dela e vendo ela recuar um pouco – Venha comigo, cavalgue um pouco pela sua cidade, veja o mundo lá fora e, de quebra, proteja seu estimado pergaminho – ele convidou, tomando uma última vez o pergaminho das mãos dela.

— Me encontre daqui a meia hora no pátio externo. Vou mandar selar seu cavalo – Rhaegar disse, dando alguns passos para trás, ainda de frente para ela, esperando pelos protestos. Que não vieram.

— Ah...irmã...- ele disse, voltando só a cabeça, ao dobrar para outro corredor – Melhor trocar de roupa. Use uma de montaria de dragão. Ou qualquer coisa com calças e botas por baixo....Porque você tem razão....Vamos estar cercados de água e lama por todos os lados – ele disse, vendo ela fazer aquela expressão de novo.

Aquela que era só para ele.

~*~

— O que estamos esperando, meu Príncipe? – Rhaegar ouviu seu amigo Sam Tarly dizendo, montado à cavalo, assim como ele já estava.

Não só ele e Sam estavam ali, parados, esperando. Mas também o outro irmão de Sam, Jon e seu escudeiro, o garoto Jaime, filho de Lorde Tyrion. Dickon nunca estava com eles durante o dia. Era escudeiro do Rei e sua sombra pessoal.

— Estamos esperando a Guardiã do Pergaminho chegar... – Rhaegar disse, erguendo o rolo de papel, mesmo sabendo que ninguém entenderia.

Ele permanecia olhando para as portas que davam para o pátio. Porque ela esta demorando tanto? Será que não vem? Ele se perguntou. Não. Ela vem. O pergaminho vai fazer ela vir.

Guardiã do Pergaminho? — Jon Tarly repetiu – É um novo cargo chato da Cidadela? – perguntou, sorrindo.

Rhaegar sorriu também mas não disse nada, porque a Guardiã em pessoa acabara de surgir pelas portas, todos os olhares se voltando para ela.

Vestida com negras roupas de montaria de dragão como ele havia sugerido, com os longos cabelos trançados ao estilo da mãe deles, ele viu a irmã caminhar até ele, carregando nas mãos uma espécie de cilindro oco, com uma longa tira de couro ligando cada uma de suas extremidades.

Princesa – todos disseram, curvando suas cabeças, conforme ela se aproximou.

— Bom dia, rapazes – Lyanna disse aos demais – O pergaminho? – ela pediu, com a mão estendida para Rhaegar, parando ao lado do seu cavalo.

Você demorou — ele observou, entregando o rolo para ela, que imediatamente o colocou dentro do cilindro, o tampando e passando a tira de couro pela cabeça de modo que ele ficasse pendurado em suas próprias costas, como uma aljava de flechas ficaria – Onde arrumou isso? – Rhaegar quis saber, fazendo um sinal para trazerem o cavalo da irmã.

Mandei fazer. Por isso demorei – ela explicou, com um olhar presunçoso para ele.

— Ficou muito bom, Guardiã do Pergaminho— ele elogiou, sorrindo – Como tudo que você faz.

Bajulador— Lyanna respondeu, vendo Sam Tarly pular do seu cavalo para receber a montaria dela das mãos de um dos servos do estábulo real.

Ele checava a sela e os estribos, se certificando que tudo estava seguro, como já havia feito muitas vezes. Mas naquele dia em especial tudo parecia um pouco constrangedor depois da conversa que ela havia tido sobre seus prentendentes para o casamento.

— Obrigada, Sam – Lyanna falou, quando ele parou o cavalo na sua frente. Ela subiu rápido, sozinha, não querendo ser ajudada por ele ou por qualquer outra pessoa.

— À seu dispor, Alteza – Sam respondeu, com um sorriso tímido, olhando para ela por um momento e depois se voltando para sua montaria mais uma vez.

Lyanna respirou fundo. Aquilo era estranho. Ela conhecia Sam desde que se entendia por gente. E gostava dele. Ele e o irmão sempre foram grandes amigos. Mas nunca havia imaginado que um dia ele poderia ser seu marido. Que um dia...que seria com ele que ela...Lyanna corava de vergonha só de pensar.

Ela sacudiu a cabeça levemente, se ajeitando sobre o cavalo, quando percebeu os olhos de Rhaegar cravados nela. E em Sam. E de um para o outro.

— Obrigado pelo cuidado com minha irmã, Sam – Rhaegar disse ao amigo, que curvou a cabeça na direção do irmão.

As palavras de Rhaegar e sua expressão eram de sincera gratidão. Mas Lyanna podia jurar que via uma sensação de incômodo perpassar pelo olhar do irmão. Ele acharia estranho o melhor amigo virar seu cunhado?

— Você não estava com pressa? – ela perguntou à Rhaegar, chamando sua atenção.

— Ainda estou. Vamos – Rhaegar respondeu, esporando sua montaria através dos muros da Fortaleza.

Enquanto cavalgavam em grupo pelas ruas da capital, o irmão se isolou à frente com dois guardas, um de cada lado seu. Lyanna vinha logo atrás, ladeada por Sam e Jon Tarly. O pequeno Jaime completava o grupo, seguido de mais três guardas.

O sol ia alto, quando ela começou a ouvir o nome dele sendo gritado pelas pessoas por onde passavam. Rhaegar era muito popular querido, desde criança. Ele era mestre em fazer as pessoas se sentirem especiais e notadas. Como agora. Enquanto ele acenava incansavelmente para a multidão.

Ele era o que ela jamais seria. Político e carismático. Rhaegar e seus sorrisos reluzentes. Um sorriso dele convenceria todo mundo a fazer o que ele quisesse. Seu pai talvez fosse a única exceção. E o que o sorriso não resolvesse, um leve franzido da sua testa resolveria. Pois quando queria, também havia ferro no olhar do irmão. Uma determinação que nem ela começava a desconfiar que ninguém mais conseguiria quebrar. Nem mesmo seu pai.

Os gritos em cumprimento à ele começaram a ficar mais altos conforme se aproximavam da Baixada das Pulgas, a parte mais pobre da Capital. Eram pessoas pedindo coisas. Ajuda. Roupa. Comida. Mulheres assanhadas gritando coisas indecentes. Ninguém parecia notá-la e Lyanna observava tudo calada. As moedas que o irmão mandava entregar, os sorrisos que distribuía, os pedidos que o guarda parecia anotar.

Ele definitivamente era a pessoa mais popular da sua família. Aquilo era incontestável. Seu pai era admirado. Sua mãe também. Apesar de achar que ela era mais temida do que admirada. Mas era seu irmão que as pessoas amavam. Não que ela fosse admitir aquilo para ele. Rhaegar já era convencido demais sem que ela o fizesse.

Quando finalmente chegaram no grande poço, um buraco de pedra no centro de várias ruelas, todos desceram dos seus cavalos e apesar de Sam estar mais próximo, foi Rhaegar quem surgiu ao lado da sua montaria para ajudá-la. Lyanna aceitou sem reclamar seu auxilio para descer. Um grande lameiro se estendia por todo lado. Ela não queria cair. Não com o pergaminho que carregava nas costas.

— Sam, traga o encarregado aqui. Preciso falar com ele – o irmão disse ao amigo, assim que a colocou no chão com firmeza, as mãos soltando sua cintura.

Lyanna observou um aglomerado de pessoas, balançando pequenos pedaços de papel na mão, recolhidos pelos guardas de Rhaegar.

— O que são os pedaços de papel? – ela perguntou curiosa.

— Mais pedidos. As moedas acabam rápido. Eles pedem à alguém letrado que escrevam seus pedidos, seus nomes, onde moram... – Rhaegar explicou, olhando para o poço e para os homens ao redor dele e não para o que Lyanna via.

— E você faz o que com eles? – Lyanna perguntou. Eram muitos. Inúmeros. Só os deuses saberiam quantas coisas, quanto ouro seria preciso para atendê-los.

— Atendo à todos, em algum momento. Entram em uma fila, digamos. Sam me ajuda a fazer uma triagem das coisas mais urgentes – Rhaegar disse – Jon! Veja porque o maldito encarregado está demorando tanto! – ele gritou por cima do cavalo de Lyanna, ainda segurando a rédea dele.

— Sempre que sai é assim, suponho – ela disse, tampando o ouvido para o grito dele. Ele observou e só lhe deu um sorriso cretino – Deve ser uma fila e tanto – Lyanna observou.

— Sim. E eu saio quase todos os dias. Você devia tentar o mesmo, aliás – Rhaegar sugeriu, entregando o animal aos cuidados de um guarda e caminhando com Lyanna em meio ao lamaçal, cansando de esperar.

— Porque eu faria isso? – Lyanna rebateu – Você vai governar essa cidade. Não eu. E pelo visto já faz isso muito bem – ela acrescentou, reconhecendo os esforços do irmão. Se ela cuidasse da cidade, das pessoas dali, seria apenas mais uma coisa para abandonar, para deixar para trás.

— Nunca se sabe o dia de amanhã, Lya. Você bem pode acabar reinando sobre essas pessoas...- Rhaegar falou, o rosto da irmã era indecifrável – Eu posso deslizar nessa maldita lama e quebrar o pescoço...

Isso não vai acontecer— foi tudo que ela disse, com uma firmeza inabalável – Nem nosso pai, nem nossa mãe, nem Stormfire, nem seu lobo esquisito, nem eu deixaríamos nada acontecer com você – Lyanna continuou – Se você escorregar eu o puxo pelos cabelos antes que machuque seu rostinho bonito. Sou boa em impedir que faça besteiras, sempre fui.

— É..sorte à minha ter você ao meu lado — Rhaegar disse, com o olhar incandescente para ela, ganhando um sorriso relutante da irmã. Ela era insuportavelmente boa. De várias formas. E não fazer bom uso disso era uma grande estupidez. E ele estava pensando em dizer exatamente isso para ela, quando Sam e Jon voltaram sem o encarregado pelo reparo daquela confusão, chamando por ele. Rhaegar relutou desviar o olhar do rosto da irmã, mas não pode ignorar o chamado por muito tempo.

— Vamos – foi tudo que ele acabou dizendo, estendendo o braço para ela – Se prepare para achar um lugar para abrir seu precioso pergaminho, guardiã – ele provocou, abrindo caminho em meio à lama e aos trabalhadores que passavam coordenadamente baldes e baldes de lama e entulho pútrido ao longo de uma extensa fila.

O encarregado sumira. Ninguém sabia dizer onde o homem estava. Simplesmente não havia aparecido naquela manhã. Rhaegar conversou com alguns subalternos e nomeou outro, dentre eles, para continuar o trabalho. Visitou o poço mais próximo, pedindo mais vezes que o necessário que a irmã abrisse e fechasse o bendito pergaminho para que ele olhasse algo. Se ela percebeu, não disse nada. Havia ficado estranhamente calada depois da conversa estranha que tiveram assim que haviam chegado ali. Rhaegar não gostava daquilo. Preferia lidar com a língua afiada da irmã do que com aquela expressão que não demonstrava nada.

Três horas depois eles estavam partindo dali rumo à Fortaleza Vermelha, sujos e exaustos, quando uma mulher começou a gritar pelo nome dele. Príncipe! Nosso bom Príncipe! Minha filha! Olhe minha filha! A mulher berrava, agora de joelhos diante do cavalo dele, correndo o risco de ser pisoteada. Os guardas pularam de seus cavalos e a levantaram, mas Rhaegar ergueu sua mão e pediu que ela se aproximasse.

— Como é seu nome? – ele perguntou para a mulher maltrapilha e assustada.

— Gillian, meu Príncipe – ela respondeu, chorando. Lyanna aproximou sua montaria do irmão, curiosa. O povo também estava. Já havia uma pequena multidão ao redor deles.

— O que tenho que olhar na sua filha Gillian? – Rhaegar perguntou, com a voz bondosa, olhando para o bebê que a mulher trazia nos braços.

— Ela está doente. Não sei mais o que fazer, Alteza. Não tenho mais dinheiro para comprar nenhuma erva, nenhum remédio... Por favor...por favor... – ela falava erguendo a menina, que agora começava a chorar – Não quero que ela morra. Ela é tudo que eu tenho...por favor Alteza. Por favor!

Rhaegar olhou para Lyanna, agora ali do seu lado, vendo que a irmã observava condoída a súplica da mulher por sua filhinha doente.

— Sua Princesa decidirá como podemos ajudá-la — Rhaegar falou alto e apontou para Lyanna, que arregalava os olhos para ele e para a mulher. Eles se encararam por um tempo. Até ele ouvir a voz firme dela dizendo:

— Guarda! Leve essa mulher e sua filha até o Grande Meistre. Diga para ele tratá-la e medicá-la – Lyanna falou, vendo os olhos surpresos da mulher para ela. Nem ela nem ninguém do povo a tinham reconhecido até o momento. O que era compreensível. Ela não tinha os inconfundíveis cabelos prateados e olhos violeta dos Targaryen, nem costumava sair pela cidade.

Princesa – a mulher falou, se jogando no chão de novo – Obrigada. Obrigada. Que os Sete a abençoe – ela dizia, em meio à mais lágrimas.

— Vá com este homem – Lyanna falou, pulando do cavalo e erguendo a mulher – Sua filha vai ficar boa – ela disse, sentindo os olhos do irmão cravados nela do alto da sua montaria. Muito satisfeito consigo mesmo. Lyanna respirou fundo e aceitou a ajuda de Sam para retornar ao seu cavalo. E não deu mais nenhuma palavra até estarem de volta ao pátio externo da Fortaleza Vermelha.

Porque fez aquilo?— Lyanna questionou o irmão assim que desceu do seu cavalo, caminhando na direção dele como se estivesse prestes a bater na sua cabeça mais uma vez.

Rhaegar deu um passo para trás e respirou fundo. Não esperava por aquela reação.

— Porque precisamos ter o povo ao nosso lado. Se nós não pudermos resolver os problemas deles, então não somos necessários... – Rhaegar explicou, coçando os cabelos.

— Faz isso para que eles gostem de você então? E resolve me envolver... – ela devolveu. Irritada. Ela estava muito irritada. Não queria aquilo. Não agora. Ele não conseguia percerber?

De nós, irmãzinha. Para que gostem de todos nós. Você faz parte desta família real também – ele a corrigiu – Eu vi como você olhou para ela. Você se saiu bem. Não sei porque está assim – ele disse. Os guardas e os amigos deles tinham se afastado um pouco àquela altura.

Não me envolva nisso— foi tudo o que ela disse, entre os dentes.

— Porque não? – Rhaegar quis saber.

— Porque eu não quero! – Lyanna respondeu, segurando os braços ao redor do corpo, segurando a vontade que tinha de empurrar o irmão, de tirar dele aquele olhar de presunção.

— Tudo bem. Ótimo, na verdade! – Rhaegar disse, se aproximando do rosto da irmã – Pelo menos você abriu a boca para dizer que não quer alguma coisa. Devia experimentar fazer isso mais vezes – mas mal terminou de dizer aquilo, ela já tinha saído, pisando duro porta adentro da Fortaleza.

Jon, Sam e Jaime se aproximaram dele de novo, em silêncio, agora que ela havia saído.

— Algum problema? – Sam perguntou à ele, cauteloso.

— O de sempre, Sam. O de sempre. A pessoa mais inteligente desse castelo insiste em...quer saber...deixa para lá — Rhaegar balançou a cabeça -Jon! Vamos beber alguma coisa! – Rhaegar disse, sacudindo Jon Tarly pelos ombros, que já tinha um largo e devasso sorriso no rosto.