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1 Capítulo 1
A CORTE
~ A Família Real ~
AEGON TARGARYEN, Sexto do seu Nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor dos Sete Reinos, filho de Rhaegar Targaryen e Lyanna Stark, criado em segredo por seu tio, Eddard Stark, chamado de Jon Snow antes da revelação de sua origem. Conhecido como Bastardo de Winterfell, Lorde Snow, Corvo, o Lobo Branco, 998º Lorde Comandante da Patrulha da Noite, Rei do Norte, agora Aegon VI, ainda chamado de Jon pelo seu círculo íntimo. Casado com Daenerys Targaryen, sua tia, Rainha e Governante dos Sete Reinos com ele. Um homem de quarenta anos, sério, austero e honrado, com a aparência dos Stark. Seu dragão, Rhaegal, foi morto na guerra contra os Outros. Voa em Drogon, quando necessário.
DAENERYS TARGARYEN, a Primeira de Seu Nome, Rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhora dos Sete Reinos, Khaleesi do Grande Mar de Grama, chamada de Daenerys Nascida da Tormenta, a Não Queimada, Mãe dos Dragões. Senta-se em um trono de obsidiana ao lado do marido e governa com igual poder os Sete Reinos. Primeira esposa de um Rei a não ser apenas uma Rainha Consorte. Aos trinta e nove anos, sua beleza valiriana ainda impressiona quem a vê. Voa constantemente em Drogon.
RHAEGAR TARGARYEN, Príncipe Herdeiro dos Sete Reinos, prestes a se tornar oficialmente Príncipe de Pedra do Dragão. Um jovem de dezessete anos, carismático e de beleza valiriana desconcertante, com seus cabelos platinados e vívidos olhos violeta. Anda sempre acompanhado de Blackfire, seu lobo gigante negro e sinistro. Voa em Stormfire, um jovem e ágil dragão cor de cobre. Irmão gêmeo de Lyanna Targaryen.
LYANNA TARGARYEN, Princesa dos Sete Reinos, prestes a se tornar oficialmente Princesa de Solarestival. Uma jovem inteligente e fechada, de dezessete anos, dona de longos cabelos negros ondulados, como os de seu pai, e de olhos predominantemente cinzentos, rajados de lilás valiriano. Dona de Lys, uma loba gigante de pêlos brancos e olhos violeta. Voa em Khaleeth, uma bonita dragão de escamas cor de oliva. Irmã gêmea de Rhaegar Targaryen.
~ O Pequeno Conselho de Aegon VI e Daenerys I ~
TYRION LANNISTER – Mão do Rei Lorde Protetor das Terras Ocidentais. Casado com Elena Westerling. Pai de Jaime Lannister e Diana Lannister.
SAMWELL TARLY – Mestre da Moeda Lorde Protetor das Terras da Campina. Casado Gilly Tarly. Pai de Sam, Jon, Dickon e Aemon Tarly.
GRANDE MEISTRE Gerard
SENHOR COMANDANTE DA GUARDA REAL — Verme Cinzento
MESTRE DOS NAVIOS — Davos Seaworth, já idoso; seu filho Jonas, em preparação para assumir o cargo.
MESTRE DOS SUSSURROS – Arya Stark, Lady de Ponta Tempesta, casada com Gendry Baratheon. Residência na Fortaleza Vermelha. Mãe de Nymeria e Visenya.
MESTRE DAS LEIS – Daemon Celtigar
~ Lordes Protetores dos Territórios e suas famílias ~
NORTE
Sansa Stark e Brandon Karstark. Filhos: Eddard Stark (9 anos), Robb Stark (8 anos), Brandon Stark (6 anos), Rickon Stark (4 anos), grávida do quinto.
VALE
Harrold Arryn e Gena Royce. Filhos: Jason Arryn (19 anos) e Arianna Arryn (20 anos).
TERRAS FLUVIAIS
Edmure Tully e Roslin Frey. Filhos: Arthur Tully (18 anos).
TERRAS DA TEMPESTADE
Gendry Baratheon e Arya Stark. Filhas: Nymeria (7 anos), Visenya (6 anos)
TERRAS OCIDENTAIS
Tyrion Lannister e Elena Westerling. Filhos: Diana Lannister (16 anos) e Jaime Lannister (12 anos)
CAMPINA
Samwell Tarly e Gilly Tarly. Filhos: Sam, Jon, Dickon, Aemon.
DORNE
Khal Haggo e sua Khaleesi Mirra
~ Os jovens da Corte ~
SAM TARLY — 22 anos, melhor amigo do Príncipe Rhaegar. Chamado de Pequeno Sam.
JON TARLY – 18 anos, jovem fanfarrão e desinteressado em qualquer coisa que não sejam mulheres, festas e bebidas.
DICKON TARLY – 17 anos, escudeiro do Rei, encantado por cavalaria.
AEMON TARLY – 16 anos, um jovem tímido e dado à leitura.
JAIME LANNISTER— 12 anos, escudeiro e sombra do Príncipe Rhaegar.
SARAH MANDERLY— 16 anos, dama de companhia da Princesa Lyanna.
JANE ROSBY— 18 anos, dama de companhia da Princesa Lyanna.
MELISSA REDWYNE— 17 anos, dama de companhia da Princesa Lyanna
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Porto Real — Fortaleza Vermelha – 17º ano do Reinado de Aegon VI e Daenerys I sobre os Sete Reinos
— Bom dia, princesa — Lyanna ouviu uma voz suave invadindo seu sono e seus sonhos.
Ela permaneceu quieta. Ainda de olhos fechados. Acordada, mas contemplando em sua imaginação as imagens do sonho que já se dissipavam em sua mente.
Um céu noturno. O mais bonito que já vira. Com intensas estrelas reluzindo um brilho violeta para ela. Ela ainda ouvia o barulho do vento. Ainda sentia a emoção do voo. E ainda se arrepiava com a voz que chamava seu nome. Uma voz que chamava seu nome acima do vento, que queria algo, enquanto ela apenas olhava para as estrelas violetas. No sonho ela havia relutado em olhar para a direção de onde a voz vinha. Sentira o medo gelando suas veias enquanto tentava segurar algo que rugia para se libertar de dentro dela mesma. Mas não teve força suficiente. A voz venceu. Sempre vencia. E quando virou seu rosto para ela, uma estranha sensação de plenitude lhe invadiu. Até ouvir bom dia, princesa.
Que sonho estranho. De quem era aquela voz? Ela não a reconhecia. Lyanna pensava. Olhos ainda fechados. Apenas um sonho. Foi apenas um sonho. E sonhos nem sempre significam algo.
— Alteza?— a voz de Lady Jane Rosby, uma de suas damas de companhia, a chamou novamente. Um literal chamado à realidade. Lyanna pensou, resignada.
— Hummm..— Lyanna resmungou – Bom dia, Jane – respondeu por fim, sonolenta, rouca, esfregando os olhos e se espreguiçando.
Juntamente com Lady Jane algumas servas já entravam e se espalhavam pelo seu quarto, abrindo as pesadas cortinas que escondiam a visão do mar da Baía de Água Negra, recolhendo e substituindo coisas por todo o lugar.
— Ainda com sono? Vejo que Vossa Alteza leu até tarde... – Lady Jane observou, pegando dois livros que se encontravam misturados com as mantas da cama de Lyanna e os entregando à uma das servas.
— Li como de costume. Você que está me acordando cedo – Lyanna respondeu, sentando-se à contragosto.
Ela sempre levava livros para seu quarto e sempre os lia até que seus olhos não aguentassem mais permanecer abertos. E Jane sabia muito bem disso.
— Perdoe-me, Alteza. Ainda é cedo, é verdade. Mas sua presença foi requisitada na reunião do Pequeno Conselho de hoje, está lembrada? – Lady Jane lhe disse, um pouco constrangida.
— Estou— Lyanna falou, ainda esfregando os olhos que ardiam pela falta de descanso. Ou talvez pela luminosidade mágica das estrelas em seu sonho – Não tem como esquecer. E acredite, eu tentei— ela completou, vendo Jane lhe lançar um olhar de solidariedade. Não era preciso muito esforço para imaginar qual assunto seria tratado na reunião do Pequeno Conselho daquela manhã. Não com seu aniversário chegando.
— Vamos, Lys. Hora de acordar – disse Lyanna, tocando na grande loba de pêlos brancos, deitada no chão, ao lado da sua cama. Sua loba abriu os olhos violeta e olhou para ela com evidente desagrado. E a cor daqueles olhos a fez pensar no sonho mais uma vez. Lyanna espantou a recordação – Não me olhe assim, mocinha. Hoje nem é dia de banho para você — disse ela, recebendo uma lambida de Lys. E nem vão tentar lhe arranjar um marido. Pensou, suspirando desanimada. Lys tremeu em desagrado, como se tivesse ouvido seus pensamentos. Lyanna lhe deu um pequeno sorriso. Exatamente, Lys.
Lyanna se preparou para o encontro com seus pais e com o Pequeno Conselho em silêncio, não dando uma única palavra durante o banho, mesmo a água não estando aquecida como deveria. Também não opinou no traje que gostaria de vestir, nem em como seus cabelos deveriam ser arrumados, deixando tudo isso à escolha para Jane, sua dama de companhia mais próxima. A única de quem ela gostava de verdade, enquanto ainda tentava mandar para longe o sonho sem nexo que havia tido.
Quando finalmente saiu de seus aposentos rumo à fatídica reunião para a qual era aguardada, acompanhada apenas por Jane, por sua loba e por dois Imaculados da Guarda Doméstica da Fortaleza, Lyanna se sentiu estranhamente preenchida de sentimentos contraditórios.
Ela olhava para os corredores fervilhando de movimento, para os membros da corte que se curvavam e lhe davam sorrisos falsos e bajuladores conforme cruzava com eles, sabendo que nada daquilo lhe faria falta quando tivesse que partir. Ela não escondia de ninguém sua preferência pela companhia da sua loba, dos seus livros e da sua dragão.
O resto, toda a costura social da corte, pouco lhe importava ou agradava. Sim, ela conhecia suas obrigações como Princesa dos Sete Reinos. Sabia o que era esperado dela. Sabia que deveria ser simpática e amável com suas damas de companhia. Sabia que deveria construir elos com os nobres súditos dos seus pais. Vínculos fortes, que viriam a calhar para o Reino em momentos de necessidade.
Mas ela nunca havia gostado de falsidades. Das palavras gentis que escondiam inveja e desejo de poder. Apenas às tolerava, com bastante esforço. Era muito pouco política, como sua mãe a lembrava às vezes, e a boa Jane também. Mesmo suas outras damas de companhia representavam um pequeno martírio de convivência para ela.
Jane era a única que era doce e verdadeira. E de todas elas, também era a única que vinha de uma casa menos importante. Não que isso lhe incomodasse. Mas demonstrava o quanto ela não conseguia se relacionar pensando politicamente. Ou gostava de alguém ou não gostava. E Jane era uma garota ótima. Um ano mais velha que ela. Com um rosto bondoso que era querido por muitos ali, ainda que ela não tivesse uma beleza chamativa.
Talvez por isso se dessem tão bem. Era algo que as elas tinham em comum. Jane tinha olhos cor de mel e cabelos castanhos claro, que ela própria classificava como sem nenhuma graciosidade. Lyanna poderia dizer o mesmo de si. Dos seus cabelos negros. Ela havia puxado ao seu pai. Era uma Targaryen de cabelos escuros e rosto nortenho, em nada admirada como seu irmão gêmeo, que havia puxado às características do sangue da Antiga Valíria.
Mas aquilo também não lhe incomodava. Não de verdade. Mesmo quando ouvia algum comentário maldoso sobre sua aparência, como os de Melissa Redwyne. Sua outra dama de companhia, que agora se juntava à ela e Jane, em seu longo trajeto pela Fortaleza de Maegor, a área residencial dentro da Fortaleza Vermelha, até alcançar a sala do Pequeno Conselho.
Melissa era linda. E esnobe em igual escala. Tinha a mesma idade dela. Dezessete anos. Ostentava uma impressionante cabeleira ruiva e olhos verdes ferinos, andando sempre ricamente trajada, como se ela fosse a real princesa daquele castelo. Tudo graças à fortuna da sua casa, os famosos Redwyne, donos da segunda maior frota do Reino e comerciantes dos melhores vinhos de Westeros.
Lady Melissa andava sempre com Lady Sarah em seu encalço. Sarah Manderly. Outra dama de companhia de Lyanna. Dezesseis anos, cabelos escuros, olhos azuis. Meio boba e fofoqueira, mas não maldosa como Melissa sem dúvida era.
E Lyanna era obrigada a circular sempre rodeada desse grupo de pessoas. Jane, Melissa, Sarah. No mínimo. Quando Lys, sua loba, era a única bem vinda de verdade. Além de Jane, é claro. A presença constante dos guardas não a incomodava muito, pelo menos não tanto quando Lady Melissa e seu intocável ar de superioridade.
Pensar nos detalhes enfadonhos da sua rotina e de como ela detestava aquilo, era o que estava despertando sentimentos contraditórios nela naquela manhã. Pois mesmo não gostando muito da corte, ainda assim, ela não queria ir embora. Sempre soube que aquele dia chegaria. Que um dia se casaria e não viveria mais ali, com o pai que ela tanto amava, com a mãe que tanto admirava, com seu irmão.
Ela sentiria muita falta deles. Sempre. Até das duas pestes ela sentiria falta, Nymeria e Visenya, suas duas priminhas, filhas da sua tia Arya e tormento da corte inteira com suas traquinagens. Delas e de tantas outras coisas. Da maior biblioteca do reino à sua disposição. Dos melhores lugares para ler e se esconder do mundo e de tudo que lhe perturbava nele. De tudo isso.
Mas ela tinha um dever à cumprir. Enquanto atravessava o salão do trono na companhia do seu pequeno séquito, Lyanna olhou para os dois tronos vazios, resignando-se com seu destino. Os dois tronos lhe ajudavam a lembrar quem ela precisava ser. O de Ferro retorcido, lendário, cruel. Desejado de maneira insana pelos anais da história de Westeros. O trono que marcou a ascensão da sua casa ao poder. E o segundo, posicionado ao seu lado. Forjado de vidro de dragão, à imagem do outro. Símbolo da restauração da Casa Targaryen. Símbolo da vitória contra os Outros. Símbolo da mulher que sentava nele.
Ela devia aquilo à Casa Targaryen. Aos seus pais. A todo o sofrimento e sangue já derramados. E talvez por isso, por calar tão forte suas tristezas, ela não tenha escutado os passos atrás dela, não até ouvir com um pequeno sobressalto, a voz que lhe cumprimentava.
— Bom dia, irmã— Lyanna ouviu a voz animada do irmão surgindo das suas costas, os olhos reluzindo como duas ametistas – Vejo que você também foi chamada. Promissor!— Rhaegar disse, com um toque de ironia e um grande sorriso para ela, beijando seu rosto brevemente e logo se abaixando para acariciar Lys, que sempre se esfregava nas pernas do seu irmão, quando o via.
Loba assanhada. Mais uma que se derrete por ele. Ela pensou, vendo Lys fechar os olhos de prazer ao receber uma coçadinha na orelha, lambendo os dedos de Rhaegar. Ao longe Blackfire parecia olhar tudo com o mesmo desdém. O irmão, assim como ela, sempre andava na companhia do seu lobo.
Parado à alguma distância do grupo, Lyanna olhou para aqueles olhos vermelhos que observavam tudo de um jeito ameaçador e alerta, se dando conta que jamais ousaria fazer nele o mesmo carinho que Rhaegar fazia em Lys.
O lobo que andava na sombra do seu irmão era do tamanho de um pônei, muito maior que sua Lys e nada sociável. Todos na Fortaleza Vermelha tinham medo dele. Mesmo para ela, o lobo negro de olhos cor de sangue, era sinistro e nada amigável. Até Lys evitava se aproximar dele.
— Bom dia, miladys – o irmão cumprimentou suas damas de companhia – Vocês estão esplêndidas hoje! – ele elogiou, como sempre fazia, sempre galanteador.
— Bom dia, Alteza – Jane, Melissa e Sarah disseram em uníssono, todas fazendo suas reverências à figura do irmão, cada uma à sua forma. Jane serena, Sarah com um sorriso bobo, olhando Rhaegar dos pés à cabeça e Melissa com o olhar de cobiça que sempre surgia quando estava próxima do príncipe herdeiro.
Lyanna já estava acostumada à reação de toda e qualquer moça, nobre ou não, à beleza do seu irmão. Era sempre a mesma coisa. Bochechas coradas, olhares tímidos demais ou ousados demais, risadinhas. Ridículas risadinhas. Era patético. E ela geralmente conseguia fingir que não via.
— Sigo com minha irmã daqui, miladys— seu irmão falou, dispensando suas damas de companhia. Lyanna sentiu certo alívio por se ver livre de Melissa e Sarah. Mas o alívio durou pouco. Ela e Rhaegar seguiram caminhando lado à lado, acompanhados por seus lobos e logo atrás pelos Imaculados. No mais puro silêncio. Um pensativo e incômodo silêncio. Os dois sabiam o que lhe aguardavam.
— Você está mais simpática que o de costume hoje, irmã – Rhaegar disse, após alguns minutos, observando que os olhos cinzentos da irmã pareciam nuvens de tempestade.
— Porque acha isso? – Lyanna perguntou, um tanto ríspida, vendo que ele a olhava de canto de olho.
— Sequer respondeu ao meu bom dia... – ele explicou, encarando-a. Nada ofendido com o seu tom. Apenas esquadrinhando o rosto da irmã, claramente sondando seu estado de espírito.
— Desculpe – Lyanna respondeu, à contragosto – Bom dia, irmão – ela disse, resistindo à vontade de revirar os olhos ou de dar língua para ele. Não que esse dia vá ter algo de bom. Pensou. Vendo o irmão sorrindo.
— Todo mundo já está aí dentro, Pat? – Lyanna ouviu Rhaegar perguntando à um dos guardas que ladeavam a porta da Sala do Pequeno Conselho, quando finalmente a alcançaram.
— Sim, meu Príncipe— respondeu o soldado, curvando a cabeça rapidamente. O outro abrindo as portas do recinto para que eles entrassem.
— Não sei como você consegue saber o nome de todo mundo aqui... – cochichou Lyanna para o irmão, avistando a grande mesa, apenas com o Rei, a Rainha e a Mão sentados ao redor.
— Eu pergunto. E depois que descubro, os uso. Simples assim – Rhaegar respondeu, no mesmo tom de voz baixo dela, com seu usual sorriso presunçoso, lhe dando uma piscadela.
— Finalmente! Aí estão eles – Lyanna ouviu sua mãe dizendo, levantando-se da cadeira que ocupava e caminhando na direção dos dois. Uma reação pouco comum e claramente nervosa.
Fora dos muros da Fortaleza Vermelha, aquela era a temida e poderosa Rainha Daenerys Targaryen, a Mãe dos Dragões. Mas naquela manhã, ali naquela sala, Lyanna via apenas sua mãe, caminhando de braços abertos para abraçá-los, com os olhos visivelmente apreensivos, o que só confirmava suas suspeitas sobre aquela reunião.
— Estávamos esperando por vocês – disse Daenerys, beijando os filhos no rosto.
Daenerys olhou para os dois filhos, para as duas coisas mais preciosas da sua vida, os dois milagres que Jon havia concebido juntamente com ela, sentindo suas emoções aflorarem. Eles sempre seriam seus bebês. Mas não havia como ignorar o que ela via agora. Eles haviam crescido. Eram agora um homem e uma mulher prestes à completar dezoito anos. Prestes a se tornarem adultos, ainda que seu coração insistisse em pensar neles como suas crianças.
E seu filho havia se tornado um homem. Ela repetia para si mesma. Um homem extremamente bonito. Com seus olhos violeta claro. Com os cabelos prateados como os dela, curtos como ela havia acostumado a cortar desde criança.
A mulher que se casasse com ele carregaria o peso não apenas de ser sua rainha, mas de conviver com um homem intensamente desejado por outras mulheres, e ela sabia bem o quanto aquilo era difícil, havendo amor ou não. E ela duvidava existir alguma moça imune aos encantos de Rhaegar. Nunca havia visto um sorriso mais deslumbrante do que o do seu filho. Por isso ela acreditava que, fosse quem fosse a escolhida, provavelmente ela iria amá-lo.
Quem não amaria casar com um príncipe herdeiro gentil, bonito, capaz, querido por todos? Apesar de provavelmente ter que lidar com alguma infidelidade, as nobres solteiras do reino fariam fila para se casar com ele. E dado o comportamento do filho, sua futura nora dificilmente teria a sorte dela. Daenerys ainda se lembrava dos primeiros anos ali na Fortaleza Vermelha, de quantas moças viviam se insinuando para Jon. Todas querendo lançar seus encantos sobre o Rei jovem e bonito que se sentava no Trono de Ferro. E ela reconhecia que o marido nunca dera confiança para nenhuma delas. Diferente do filho.
Ela sabia que Rhaegar à muito tempo já andava por aí aos beijos com todas as jovens da Fortaleza Vermelha. Nesse assunto, ele não tinha muito do pai. Jon inspirava confiança por sua lealdade e seriedade. Rhaegar era naturalmente carismático. Vivia cercado de amigos. E conseguia o que queria de todos, inclusive dela mesma, sua rainha e sua mãe. As pessoas simplesmente não conseguiam dizer não para ele.
Mas não era o filho que a preocupava. Ela olhava para Lyanna e seu coração se apertava. Sua filha também havia se tornado uma linda mulher. Com a pele tão branca e os cabelos tão negros que o contraste entre ambos era algo raro de se ver por aí. Seus olhos eram impressionantes. Uma mistura do violeta dela com o cinzento de Jon. O cinza prevalecia, mas quando se olhava mais de perto os riscos violeta incandesciam.
Mas a beleza dela e daqueles olhos era difícil de ser apreciada. Era preciso estar muito próximo para ver os riscos de violeta e cinza misturados. Ou mesmo para ver o quanto o cabelo dela reluzia ao seu próprio modo. E era justamente o estar muito perto, a coisa difícil. A filha sempre fora fechada. Fechada demais.
O irmão gêmeo era sempre tão transparente em seus sentimentos. Alegre, ativo, cheio de amigos, gostava de coisas comuns à sua idade. Já ela sempre fora reservada. A garota era constrangedoramente inteligente, falava várias línguas, conhecia as histórias de todos os reis, vivendo com o rosto enfiado atrás de livros e mais livros, desde a tenra idade, como se algo no mundo real a impelisse a buscar refúgio nas histórias que lia. Ou como se o mundo de verdade fosse simplesmente irrelevante, desinteressante.
Rhaegar vivia sorrindo. Lyanna só sorria largamente para Jon. Algumas vezes para ela também, era verdade. E para o seu irmão. E mais ninguém. Apesar de perceber que ela se dava bem com Lady Jane Rosby, não havia mais ninguém. E isso a preocupava. Fora essas pessoas, a filha vivia na companhia da sua loba ou voando no seu dragão. Parecia gostar mais dos animais e dos livros do que de gente, com exceção do pai dela. Era por eles dois que ela realmente estava apreensiva. Pelo sofrimento que seria vê-los tendo que se separar. Pai e filha. Aquele pai e aquela filha. Tão apegados. Tão parecidos.
— Filhos, sentem-se. Precisamos tratar de um assunto com vocês – disse Jon, apontando duas cadeiras vazias. Daenerys via a aflição velada nos olhos do marido. O sofrimento que ele tentava esconder de todos, mas que não passava despercebido dela.
— Em poucos meses Vossas Altezas irão completar dezoito anos. Estávamos conversando sobre as comemorações para o dia do nome do Príncipe e da Princesa – começou a dizer Tyrion, com a voz animada – Teremos um grande torneio, claro. É uma data importante. Afinal, estarão atingindo a maioridade. Estamos pensando em um baile também...- continuou a Mão, olhando para seu Rei e depois de volta para o príncipe e para a princesa.
— E estamos aqui para que?— interrompeu Rhaegar, observando a forma com que seu pai olhava para sua irmã e já imaginando o assunto que seria tratado.
— Vocês dois precisam escolher com quem se casar. Está na hora...- disse Daenerys, com jeito, analisando a expressão dos filhos, sentada ao lado de Jon e vendo o marido fechando a mão com força, em reação às palavras dela.
Daenerys suspirou. E observou as reações dos demais. Rhaegar parecia tranquilo, fitando à todos com uma expressão determinada. E Lyanna, bem, sua filha não demonstrava nada. Sempre fechada e solene, igualzinha ao pai.
— Na verdade está passando da hora...me permita dizer, minha Rainha. O príncipe, pelo menos, já deveria estar casado e com um filho. Precisamos garantir a linha de sucessão – disse Tyrion, com um tom de urgência na voz.
— Nós discutimos isso dois anos atrás, Tyrion. O que foi decidido, foi decidido — interviu Jon. Na época ele não havia suportado a ideia de casar Lyanna aos dezesseis anos. Daenerys disse que se a filha não iria se casar com dezesseis, Rhaegar também não poderia ser obrigado. Cada um deles dois querendo preservar por mais tempo seu filho preferido.
Jon havia concordado e a questão havia sido adiada. Rhaegar era seu herdeiro, quando casasse permaneceria ali com eles, mas Lyanna teria que ir embora, constituir sua família com algum herdeiro de algum território, longe da sua casa, longe dos seus pais. E a ideia de não poder mais ver sua garotinha todos os dias dilacerava seu coração. Mesmo que seus olhos deixassem claro que ela não era mais sua menina, mas sim uma bela mulher, ele não conseguia não pensar nela como sua garotinha.
— Eu sei, meu Rei. Fui voto vencido. Mesmo depois da terrível convalescência do Príncipe no final do último inverno à dois anos atrás. Mas agora é chegada a hora. E todos nós concordamos com isso. Graças aos deuses – Tyrion falou. Sabia que o assunto da febre que quase matou o Príncipe anos antes era algo que ninguém gostava de relembrar – E antes que me pergunte novamente meu Príncipe, vocês estão aqui, porque gostaríamos de analisar alguns nomes com a participação de vocês – explicou Tyrion, com um sorriso animado que mais ninguém compartilhava.
— Não queremos impor um nome à nenhum dos dois – completou Daenerys, pegando na mão de Jon, olhando para o marido e desejando que os filhos pudessem casar com alguém de quem gostassem de verdade, como havia sido com ela, apesar de saber que aquilo seria difícil.
— Mas temos alguns que consideramos adequados...- disse Tyrion, abrindo um rolo de papel cheio de anotações – Vamos começar com as pretendentes à esposa do nosso Príncipe – a Mão disse, se ajeitando na cadeira e limpando a garganta.
— Lady Arianna Arryn. Filha do Lorde Protetor do Vale. Tem 20 anos. Cabelos e olhos negros. Dizem que é razoavelmente bonita... – Tyrion começou a dizer, olhando ao redor da mesa — Seria um escolha estratégica. Atualmente o Trono de Ferro tem boas relações com o Norte, com as Terras Fluviais, com as Terras Ocidentais, com a Campina e com as Terras da Tempestade, mas não com o Vale – Tyrion ponderou, e com o Dorne, ele pensou, mas aquilo era assunto para outra hora.
— O Lorde do Vale ficou ressentido com as recusas da sua tia Sansa aos seus pedidos de casamento... – Daenerys completou, contendo um sorriso, olhando de Jon para o filho.
— Ouvi dizer que lady Arianna é extremamente tímida. Mal fala. Minha esposa será a futura rainha dos Sete Reinos. Não quero uma muda como Rainha. Preciso de alguém que tenha opinião sobre as coisas... – Rhaegar argumentou, com o rosto tranquilo, fazendo o sorriso de Tyrion sumir. Todos na mesa olhavam surpresos para ele. Inclusive sua irmã.
Ele não teria ido até ali sem buscar suas próprias informações sobre as moças que seriam cogitadas como pretendentes adequadas para ele. Se o Pequeno Conselho de seu pai achava que ele deixaria um assunto tão importante unicamente ao cargo dos outros, não faziam ideia de quem ele realmente era.
— Ela com certeza tem outros talentos, meu Príncipe. Dizem que costura muito bem, por exemplo. Ela pode surpreendê-lo...- Tyrion falou, tentando animar o Príncipe.
— Que ótimo. Um futuro Rei realmente não deve andar com roupas puídas. Por certo é essencial que a futura Rainha saiba costurar... – Rhaegar falou, se recostando displicentemente na sua cadeira.
— Rhaegar... – Daenerys chamou a atenção do filho, com um tom de alerta que gritava se comporte.
— Mãe, Lorde Tyrion disse que vocês queriam analisar os nomes com a nossa participação. Eis a minha participação. Pode ir para a próxima, Lorde Tyrion – Rhaegar falou, com aceno de mão para Tyrion e um sorrisinho indolente para a mãe, que balançava a cabeça e tentava não rir.
— Certo, Alteza. Tem razão – Tyrion concordou, remexendo no papel – Bom, levando em consideração que a Protetora do Norte não tem nenhuma filha mulher. Assim como não há filhas dos Lordes da Campina, do Dorne e das Terras Fluviais. E que as primas de vocês, filhas de Lorde Gendry e Arya Stark, tem apenas sete e seis anos...A próxima candidata seria minha própria filha, Diana Lannister – ele falou, um tanto constrangido – Ela tem quinze anos. Se parece tanto com minha irmã Cersei, que me dá pesadelos. Mas pelo que sei é uma boa garota.
— Ela é inteligente como você? – Rhaegar perguntou – Uma rainha inteligente seria algo bom, não é verdade? – ele completou, batucando os dedos na mesa, olhando para o pai, a mãe e de canto de olho para a irmã, por tempo suficiente para ver que ela estreitava os olhos para ele em uma clara mensagem: Não abuse da paciência do nosso pai.
Ele adorava quando ela fazia aquela cara. Ela tinha a mesma idade que ele, haviam compartilhado o mesmo ventre. Mas ela sempre agia com aquele ar de maturidade, com aquela cara de que sabia o que era melhor para ele, como se ele fosse um tolo. A irmã era como o seu pai. Séria demais para perceber quem ele realmente era por trás dos seus sorrisos fáceis. Sorrisos não significavam ausência de astúcia. E estava chegando a hora em que todos eles iriam se dar conta disso.
— Meu Príncipe, eu não saberia dizer. É do conhecimento de todos que prefiro viver a léguas da bruxa...quero dizer...da minha querida esposa. E isso infelizmente incluiu viver longe da minha filha. Diana cresceu em Rochedo Casterly e nós não temos muito contato – Tyrion, mencionou, com alguma tristeza – Eu diria que ela parece ser uma garota dócil. Ela me lembra da minha falecida sobrinha Myrcella. Nisso não puxou nem à mim e nem à mãe, aquela cobra. Mas quanto à ser inteligente...
O casamento de Tyrion com Elena Westerling havia sido político, feito unicamente para resolver questões beligerantes das Terras Ocidentais. Político e totalmente infeliz. Ele viva na corte com o filho mais novo, Jaime, um garotinho esperto de doze anos, que idolatrava o Príncipe Rhaegar e o perseguia para cima e para baixo pela Fortaleza Vermelha, enquanto sua filha vivia com a mãe. Longe da capital e dele.
— Então descubra. Eu quero como esposa uma mulher com qualidades. Não faço questão de simpatia, bordados, pinturas, se canta feito um rouxinol, nada disso. Quero alguém forte. Inteligente. Que me auxilie em minhas funções. Não quero uma Rainha decorativa, quero alguém que se sente aqui, como minha mãe faz, decidindo o futuro do reino junto com meu pai – Rhaegar falou, olhando para os pais e para a irmã, dessa vez sem nenhuma brincadeira ou ironia.
— Nem todo Rei teve uma Daenerys ao seu lado Rhaegar... – Jon falou, com a voz severa, positivamente surpreso com as palavras do filho, sim, mas sentindo que deveria alertá-lo de que mulheres como a que ele descrevia não se encontravam com facilidade.
— Eu sei. Mas eu gostaria ter a minha – Rhaegar respondeu, olhando para a mãe e piscando. E vou ter.
— Isso é bom filho. Você está certo. Lorde Tyrion vai procurar por mais pretendentes, das casas menores. Alguém que seja perfeita para você – Daenerys falou, feliz por ver o quanto a dinâmica do seu casamento e do reinado ao lado de Jon influenciava o que o filho queria para si.
— Claro, Majestade. Farei isso – Tyrion assentiu – Vamos então aos nomes para marido da Princesa – Tyrion sugeriu, pegando outro papel e o desenrolando – Felizmente temos mais candidatos de grandes casas para a princesa – a Mão falou.
— Temos Sam Tarly, nosso Pequeno Sam. Agora não mais Pequeno. Herdeiro das Terras da Campina. Não preciso descrevê-los para vocês. O garoto cresceu conosco – Tyrion mencionou, se detendo na expressão surpresa do Príncipe.
— Sam? Meu melhor amigo, Sam?— Rhaegar perguntou, surpreso, olhando para a irmã e para o pai. Os irmãos Tarly haviam crescido com eles na Fortaleza Vermelha. E Rhaegar se dava bem com todos eles. Sam, o mais velho, era seu melhor amigo e companheiro de treinos. Ele também gostava de Jon, de Dickon e até do mais novo, Aemon. Ainda assim, ele não queria ver nenhum deles casado com sua irmã. Principalmente Sam.
— Sim. Ele tem 22 anos, é o Herdeiro da Campina, filho do nosso Mestre da Moeda, que por acaso é o melhor amigo do Rei – disse Tyrion, imaginando se a proximidade que ele achou que seria um ponto à favor, acabaria se tornando um contra – Além dos outros garotos Tarly, e deuses, eles são muitos, temos também Jason Arryn, o herdeiro do Vale. Tem 19 anos e dizem que é um rapaz muito bonito. Bom cavaleiro e espadachim. E por último, das grandes casas, temos Arthur Tully, filho de Lorde Edmure, herdeiro das Terras Fluviais. Pelo que soube ele gosta de ler, não tanto quanto nossa princesa, mas parece gostar mais do que a maioria das pessoas. Tem 18 anos e aparência agradável – disse Tyrion, remexendo no papel e olhando com expectativa para Lyanna.
— Quer falar alguma coisa filha? Tem alguma pergunta? Sobre eles? – Daenerys falou, olhando dela para Jon. Os dois eram irritantemente iguais. Estavam calados, com a mesma cara de quem preferia estar em qualquer lugar que não fosse ali. Daenerys apertou na mão de Jon. Ele precisava ajudar naquilo. Lyanna precisava casar. Eles eram apenas quatro. Quatro Targaryens. Sobre todos eles recaía a missão de restaurar o nome da família definitivamente.
— Faça suas observações se quiser, como seu irmão fez. Estamos aqui para ouvi-la e para facilitar sua escolha filha. É seu dever com a casa Targaryen se casar. Restaurar a árvore genealógica da família. Mas queremos que você seja feliz. Que case com um bom homem – Jon falou, com relutância, vendo o olhar vazio de Lyanna, que até então não havia dito uma única palavra.
Lyanna sentiu vontade de lembrar ao pai que quaisquer filhos que ela tivesse não seriam Targaryens. Que eles carregariam o nome da casa do pai deles e não da dela. Que aquela missão deveria recair unicamente sobre Rhaegar e não sobre ela. Que ela não queria se casar com ninguém. Nunca. Que aquilo, escolher entre um deles, jamais a faria feliz...e que odiava o fato de ter quer servir como uma reprodutora.
Mas ela não disse nada daquilo. Olhando para o semblante preocupado do seu pai, para seus cabelos grisalhos presos para trás, para as rugas ao redor dos seus olhos, evidências claras do quanto o reino pesava sobre seus ombros... Ela o amava muito para ser mais um problema para ele. Para não cumprir com seu dever.
— Me casarei com quem acharem mais adequado, pai – Lyanna respondeu, com a voz fria, sem deixar nenhuma emoção escapar, pensando apenas em orgulhar seu pai. Seus sentimentos não importavam. Ela cumpriria o seu dever com a coroa.
Daenerys, Jon e Tyrion se entreolharam. Rhaegar olhava para a irmã, bastante sério, com a respiração ruidosa.
— Pelos deuses. Escolha com quem raios você quer se casar, Lyanna – ela se espantou com o irmão lhe dizendo, irritado. Ela olhou para ele sem entender aquela reação. Ele que embarcasse na busca pela rainha perfeita. Ela não criticaria. Achava até...correto. Simplesmente não tinha nenhuma intenção de fazer o mesmo.
— É uma escolha muito importante, filha. Ninguém aqui vai fazê-la por você, a não ser que sejamos obrigados – Daenerys disse, olhando condoída para os dois filhos.
— Bom, ninguém precisa escolher hoje. Pensamos que as comemorações seriam uma boa oportunidade para que vocês vissem e analisassem melhor esses nomes e até mesmo de outros nobres que porventura compareçam – concluiu Tyrion, olhando para os dois jovens.
— Quando as comemorações acabarem, nós nos reuniremos novamente. E então vocês deverão nos dizer quem escolheram. E começaremos os preparativos – disse Jon, sem conseguir encarar sua filha.
— Querem nos casar no mesmo dia também? – perguntou Rhaegar, com uma mal disfarçada voz de deboche.
— Isso é sério, Rhaegar. Escolham bem. Os dois— disse Jon, suspirando.
— Eu sei pai. Não se preocupe. Prometo que irei escolher a melhor candidata – disse Rhaegar, encarando o pai.
— Para o reino eu espero – diz Tyrion, sorrindo para o Príncipe.
— Claro, Lorde Tyrion – Daenerys escutou o filho respondendo, com o olhar brilhando. Ela conhecia aquele olhar. Rhaegar estava com a expressão que sempre fazia quando queria muito alguma coisa. Ela torcia para que aquele brilho estivesse realmente relacionado a escolher a melhor candidata a futura rainha dos Sete Reinos, mas quando o filho voltou a falar, ela achou que poderia ser por outra coisa.
— Dessa vez poderei competir no torneio? – perguntou Rhaegar, olhando para o pai e para a mãe.
— Não. Você sabe que não pode disputar torneios. Não podemos arriscar que se machuque – disse Daenerys, respondendo a pergunta do filho, vendo as feições dele se contraírem em desagrado.
— Gostaria que reconsiderasse mãe, por favor. Eu sou um bom lanceiro. Meu pai bem sabe disso. Essa proibição é um excesso de zelo da parte de vocês e...me impede se ser sagrado cavaleiro – Rhaegar argumentou.
— Depois que casar e tiver um herdeiro, você poderá competir Príncipe – disse Tyrion, tentando resolver a questão – E ser sagrado cavaleiro não é algo tão importante assim...Seu pai nunca o foi e duvido que alguém, de Dorne à além da Muralha, não tem há ouvido falar da sua honra.
— Mas eu não sou o meu pai. E tampouco sou o único herdeiro do trono. Se algo por ventura acontecesse à mim, minha irmã está bem aqui para ocupar o meu lugar – disse Rhaegar, apontando para Lyanna.
— Não insista, Rhaegar – disse Jon, com a voz grave, pondo fim à questão.
— Mas...- começou a dizer Rhaegar, quando sentiu a mão da irmã apertando seu braço.
— Não insista, idiota – Rhaegar ouviu ela dizendo baixo, entre os dentes, com uma voz e uma expressão imperiosa, como só ela era capaz de fazer.
— Mas, o que? – perguntou Jon, esfregando sua fronte, demonstrando seu cansaço com o assunto.
— Nada, pai. Já entendi – respondeu Rhaegar, sentindo a mão da irmã soltando seu braço.
— Ótimo. O que mais temos para resolver hoje Tyrion? Peça para os demais membros do Conselho para entrarem de uma vez – Jon pediu, impaciente.
— Claro, Vossa Graça – Tyrion disse, fazendo um sinal para um Imaculado.
— Estamos dispensados? – Rhaegar perguntou, não escondendo o quanto gostaria muito de estar. Ele participava de quase todas as reuniões do Pequeno Conselho, desde os seus quatorze anos, por determinação do seu pai. Mas muitas delas eram mortalmente chatas. Ele sabia que quando fosse Rei precisaria se dedicar aos assuntos debatidos ali. E se dedicaria. Mas agora, tudo que ele queria era treinar no pátio com Sam e seus outros amigos, até não aguentar mais ficar de pé.
— Não. Fiquem. Os dois – disse Jon, no momento em que o restante do Pequeno Conselho entrava na sala e tomava seus lugares.
O Grande Meistre Gerard, com sua grande corrente de elos fazendo barulho a cada passo que dava. Lorde Samwell Tarly, Mestre da Moeda e velho amigo do Rei. Jonas Seaworth, filho de Lorde Davos, oficialmente ainda Mestre dos Navios, mas ultimamente acamado, sendo substituído pelo filho. Arya Stark, Mestre dos Sussurros, prima-irmã do Rei, casada com Lorde Gendry Baratheon, morando atualmente na corte. Daemon Celtigar, Mestre das Leis e Verme Cinzento, Mestre de Guerra.
— Agora que estamos todos aqui – Tyrion começou a dizer – Precisamos conversar sobre dois assuntos. O primeiro é o problema com Dorne. A questão dos parentes distantes do ramo da família Martell... Lady Stark, temos novas informações?
— Os pretendentes Martell continuam procurando os lordes dorneses em busca de apoio. Mesmo depois de tantos anos, continuam insatisfeitos com a decisão do Trono de Ferro de deixar Dorne sob o governo dos Dothraki. A Khaleesi de Khal Haggo quase foi atacada em Lançasolar por populares. Estamos monitorando qualquer apoio que consigam – Arya informou, olhando com expectativa para a reação da rainha diante das notícias.
— Não voltarei atrás com a minha palavra aos Dothraki – Daenerys falou, irritada.
— Ninguém está cogitando isso, minha Rainha – Tyrion falou logo, olhando para Jon.
— Não quero ter que lidar com uma rebelião dornesa. O custo humano e financeiro seria incalculável. Precisamos encontrar uma forma pacífica para resolver isso – Jon disse, com o semblante grave.
— Vamos nos empenhar nisso, Vossa Graça – Tyrion garantiu. Arya o olhou com incredulidade, não escondendo que achava aquilo improvável.
— Temos outro problema grave para resolver, Majestade – disse Sam — O conflito entre as cidades livres está se fazendo sentir do nosso lado do Mar Estreito. Pentos, Myr e Volantis então oficialmente em guerra uma contra as outras. As marinhas das cidades atacam e afundam qualquer navio mercante que cruze com eles. Inclusive os westerosis. Já estamos sentindo escassez de vários itens. O povo está insatisfeito.
— Recebemos emissários das três cidades, Majestades – disse Tyrion – Cada um com uma proposta de aliança com o Trono de Ferro, com o objetivo de derrotar as outras duas. A proposta Pentoshi é, sem dúvida a mais interessante das três, mas...
— Os Magísteres de Pentos são os responsáveis por essa confusão comercial. Eles deram início à isso. Não haveria honra em aceitar uma aliança com eles – interrompeu Lorde Celtigar, ciente de que esse sempre era um ponto analisado pelo Rei.
— Os Magísteres de Myr também não ficam atrás, Lorde Celtigar – disse o Grande Meistre Gerard – Tampouco os de Volantis. Não há um lado certo nessa história. Apenas ganância. É uma guerra pelo domínio do Mar Estreito, pelo domínio da circulação de mercadorias.
— O Grande Meistre tem razão – disse Arya – Precisamos analisar com cuidado os critérios de uma aliança com qualquer uma delas...
— Não podemos fazer nenhuma aliança com qualquer uma delas— Lyanna disse, interrompendo o debate dos demais membros do Conselho.
— Porque não, princesa? – Meistre Gerard perguntou. Lyanna olhou para o pai e a para mãe, em um mudo pedido de permissão para dar sua opinião. Ambos pareciam querer ouvir o que ela tinha à dizer.
— Porque se o Trono de Ferro aceitar uma aliança com alguma delas, as outras imediatamente passarão a ser extremamente hostis com os navios westerosis, e não apenas ocasionalmente hostis, como vem acontecendo – Lyanna explicou.
— E o que você sugere que façamos, filha? – Jon perguntou, voltando toda a sua atenção para ela.
— Isso não é a primeira vez que acontece. Na época o Rei Jaehaerys I, outras cidades livres entraram em guerra e ele foi procurado para mediar uma solução para o conflito, quando a situação ficou insustentável. O Trono de Ferro não deve deixar chegar à esse ponto. O povo sofrerá. Deixem que cada cidade saiba que fomos procurados pelas outras. Se ofereça para mediar o conflito pai. E para sermos garantidores dos termos do acordo...— disse Lyanna, sentindo todos os olhos nela, mas olhando apenas para seu pai.
— E garantiríamos os termos como? Não desejo atravessar o Mar Estreito com navios e homens westerosis para levá-los à morte por causa de uma guerra que não é nossa – observou Jon, esperando uma resposta do Conselho, mas principalmente da filha.
— Essa guerra não é nossa. Mas afeta nosso reino. E vai afetar cada vez mais se não fizermos algo. Quanto mais sangue for derramado entre os magísteres das cidades livres, mais difícil será conseguir um acordo de paz. Se uma das cidades descumprir os termos acordados, não precisaremos enviar navios, nem exércitos...- disse Lyanna, olhando para sua Mãe e para seu irmão.
— Os termos serão garantidos com Fogo e Sangue. O Trono de Ferro têm três dragões à sua disposição... – concluiu Rhaegar, entendendo o que a irmã estava propondo e vendo a mãe deles acenando positivamente para a ideia.
— Tampouco quero enviar minha mulher e meus dois filhos para garantir os termos de paz – disse Jon, coçando sua barba, remoendo a ideia.
— Não me parece ter nenhuma alternativa melhor, pai – Lyanna disse.
— O que acham? – perguntou Jon, olhando para Tyrion e Sam Tarly.
— Acho que a solução apresentada pela princesa tem seus méritos. Seria insensato deixar isso tomar grandes proporções. O comércio não aguentaria, a violência nos mares e nas cidades portuárias já tem aumentado — disse Tyrion, olhando para seu Rei e logo em seguida para a garota de mente afiada.
O anão não se surpreendia com a opinião dela, pelo contrário, ele a conhecia desde criança, e sabia que a princesa era muito mais que um rosto bonito. Ele era absolutamente encantado por ela, na verdade. Para ele, Lyanna Targaryen havia herdado o melhor dos seus pais. Ela era linda como sua mãe apesar de haver nela mais do Norte, além de absurdamente inteligente e astuta. Um pouco fechada como o seu pai, mas com uma mente mais engenhosa, não tão incapaz de artimanhas como o Rei. E o melhor, não era tão fácil de se irritar, como a mãe. O que Tyrion considerava algo muito importante, em se tratando de alguém com um dragão.
Ele sentiria falta da princesa na corte. Os dois costumeiramente trocavam sugestões de leitura quando se encontravam na biblioteca real. E eles se encontravam sempre. Era lamentável ver uma mente como a dela ter que se enfiar em algum castelo para ser uma simples senhora de alguém. Mas aquele seria o destino dela, uma vez que o herdeiro do trono era seu irmão.
E sobre o Príncipe Rhaegar, Tyrion ainda não havia conseguido desenhar um panorama totalmente claro. O jovem Príncipe era um bom rapaz. Disso ele tinha certeza. Ele era bem humorado, carismático e muito bom com a espada, como seu pai. Muito bom em inspirar lealdade. Mas ele o achava ligeiramente desinteressado pelos assuntos do trono, apesar do rapaz sempre fazer o que o pediam. Como quando ficou decidido que ele deveria começar a estar presente nas reuniões do Pequeno Conselho.
Ele sempre ia, mas muitas vezes Tyrion observava que ele claramente preferiria estar em outro lugar. Algumas vezes ele e o Rei achavam quer o garoto sequer estava escutando o que todos eles diziam. Mas sempre que perguntavam algo sobre o assunto em debate, o Príncipe demonstrava que estavam errados. Ele sempre sabia do que estavam falando e geralmente dava opiniões corretas, desde que incentivado à isso. O que pelo menos demonstrava que ele não era um tolo.
Talvez essa sensação de descompromisso que Tyrion sentia nele, fosse assim porque ele o comparava com a irmã, que nada tinha dos hábitos de uma jovem. E hábitos de jovem o Príncipe tinha de sobra. Principalmente com as jovens do Palácio, no que Tyrion não o repreendia nem o culpava, não com a aparência e a posição que o rapaz tinha, apesar de ter conversado uma vez com ele sobre bastardos reais. O que parecia ter surgido efeito, pois até então não se tinha notícia de nenhum, apesar de não ser difícil flagrá-lo aos beijos com alguma garota pela Fortaleza Vermelha.
— Se todos concordam com a sugestão da princesa Lyanna, tomem as providências nesse sentido – disse Jon, olhando com orgulho para a filha. Todos os membros do Conselho concordaram com as palavras do Rei e a reunião se encerrou. Quando ficaram apenas os quatro, Daenerys observou Jon se levantar e caminhar até o assento da filha, beijando-a sobre a cabeça.
— Você é meu tesouro – o Rei falou para Lyanna, um sorrindo para o outro – E nenhum homem nesse mundo merece você— Jon disse, recebendo um abraço carinhoso da filha.
Dany notou que mais alguém também observava a cena entre pai e filha com atenção. Rhaegar. Jon sempre se desmanchara em elogios para a filha e raramente fazia o mesmo pelo filho. Como mãe, ela sempre tentava compensar a falta de palavras de afirmação de Jon. Para Rhaegar o marido sempre tinha lições de rigor, de dever, de honra. Sempre pensando na função que o filho teria que exercer um dia. Nunca lembrando que esse dia ainda não havia chegado. Ela entendia. Mas se preocupava também.
— Rhaegar, venha cá – Dany o chamou, caminhando de braços dados com ele até a varanda da sala do Pequeno Conselho, ambos sendo atingidos por uma suave brisa marinha – Você também é precioso para o seu pai, você sabe disso, não sabe? Ele está assim porque não para de pensar que sua irmã em breve terá que ir embora daqui. E isso vai deixá-lo muito triste. Eles são tão parecidos...tão apegados...
— Não precisa justificar nada, mãe. Eu sinceramente não me incomodo – ele disse ainda fitando Jon e Lyanna conversando mais afastados.
Dany respirou aliviada. Não havia mágoa ou inveja nas suas palavras.
— Lya é meu orgulho também. E..eu entendo eles serem mais apegados. Acho normal. Eles têm um ao outro, assim como eu tenho a você. Eu sei que nosso pai vai ficar triste com a partida dela... – Dany o ouviu dizendo.
Ela alisou o bonito rosto do filho com um sorriso aquecido pelas palavras dele. Eles formavam uma família curiosa. Ela e Rhaegar realmente tinham uma ligação especial. Como Jon e Lyanna tinham a deles. Mas ela amava seus dois filhos igualmente. E tinha orgulho do respeito que havia entre os dois. Apesar de serem tão diferentes, sempre foram preocupados e companheiros um com o outro, apesar das brigas e implicâncias ocasionais. E aquilo era tudo que uma mãe poderia desejar.
— Todos nós vamos ficar tristes. Este lugar não vai ser a mesma coisa sem ela... – Dany disse, suspirando, recebendo um abraço caloroso do filho.
— É...O que vai ser de nós sem essa criatura sabichona e rabugenta perambulando por aí com a cara enfiada em algum livro? — Rhaegar brincou, recebendo um tapinha da sua mãe, que parecia indecisa entre o choro e o riso.
— Sua irmã não é rabugenta, não fale assim...- Dany ralhou, fungando.
— Ela é sim, às vezes – Rhaegar disse, cochichando, olhando para Lyanna conversando entusiasmadamente com o pai, muito provavelmente despejando todas as informações históricas possíveis e imagináveis do papel de Conciliador de Jaehaerys I.
— Às vezes...só um pouquinho...- reconheceu Daenerys baixinho, também olhando para o marido e filha – Mas eu vou sentir muita falta dela, mesmo assim – Dany disse, fungando mais uma vez.
— Eu também – Rhaegar disse, beijando a mãe, quando o olhar cinzento da irmã encontrou com o dele, lhe dando um pequeno sorriso de compreensão.
Mas aquele sorriso não alcançava os seus olhos.
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