Fora do normal - Draco e Luna
9 A fúria de Hermione
Draco respondeu ao ataque de Hermione com uma série de feitiços rápidos, que ela defendeu sem pestanejar. Os raios de luz disparavam por todos os lados, atingindo objetos ao redor, enquanto os dois bruxos moviam-se em círculos, mantendo uma distância segura entre si. Draco estava ofegante, o que intensificava a dor do primeiro feitiço de Granger, mas ele se mantinha focado, assim como a bruxa. Hermione avançou em passos rápidos na direção dele, quebrando a dança circular de ambos, e proferiu o feitiço seguinte com tanta força que mesmo o contra-feitiço de Draco não foi capaz de pará-lo. Ele foi atingido no ombro e jogado de encontro à parede, tornando a dor que ele já sentia nas costelas uma pontada aguda que o fez perder o ar. Sentado no chão, Draco lançou um último ataque na tentativa de retardar o avanço de Hermione, que agora se encontrava a poucos metros dele. Assim que ela contra-atacou e o feitiço de Malfoy se desfez no ar, a varinha do bruxo voou de sua mão, indo parar do outro lado do recinto. Ele estava sem fôlego, apertando a lateral do corpo, mas levantou os olhos para enfrentar o ataque final de Hermione com dignidade.
Draco surpreendeu-se ao encarar a expressão abismada de Granger, ao invés da fúria controlada que ela tinha vinha mantendo durante o duelo. Reparou então que ela também se encontrava sem sua varinha, o que indicava que ambos haviam sido desarmados ao mesmo tempo. Como se tivessem coreografado, Draco e Hermione olharam nos olhos um do outro por breves momentos de confusão, e então moveram o rosto simultaneamente em direção à Luna, que se encontrava em pé na cama de Draco, empunhando a própria varinha.
— Luna – começou Granger – o que pensa que está fazendo?
— O que vocês pensam que estão fazendo? Estão duelando dentro do dormitório!
— Foi ela que começou! – esbravejou Draco, num tom mais infantil do que pretendia.
— Cala a boca, Malfoy – reagiu Hermione – Eu te avisei o que aconteceria se você não se afastasse da Luna.
— Meu Merlin! Garota, você está cheirando pó-de-flu? – retrucou o garoto, levantando com dificuldade – Quem é você para decidir o que eu posso ou não fazer?
— Você pode fazer o que quiser, desde que enfrente as consequências depois.
— Consequências do que? Eu não fiz nada! Pergunta pra sua amiga quem foi que beijou quem primeiro!
Hermione virou-se para Luna, que pareceu encontrar uma flor particularmente interessante em seu vestido e a revirava entre os dedos, evitando olhar para os demais presentes.
— Isso não importa – voltou-se Hermione – Não faz de você menos crápula manipulador, e eu me recuso a deixar outra amiga nas suas mãos sujas.
— Ah, não acredito, ainda esse assunto? – exasperou-se Draco
— Imagino que seria fácil para você esquecer o que fez com a Gina, mas não vai se eu puder evitar.
Draco respirou fundo, engolindo a resposta que estava na ponta de sua língua. Granger não sabia 1/3 da verdade sobre ele e Gina, mas não cabia a Draco contar a ela, apesar da sua vontade de jogar alguns fatos na cara daquela menina petulante.
— Luna – virou-se Hermione para a amiga – Não sei o que ele te disse, mas te garanto que é mentira. Além disso, você precisa evitar o... conflito de interesses.
Luna fitou Hermione em silêncio, mas Draco pode adivinhar um diálogo inteiro naquela troca significativa de olhares.
— Como tem tanta certeza? – perguntou Luna.
Hermione olhou para Draco, claramente não querendo revelar nada na frente do bruxo.
— Te dou minha palavra de que tenho certeza. E você também terá em breve.
Luna baixou os olhos, convencida.
— Alguém se importa em me dizer o que está acontecendo? – intrometeu-se Draco.
— Para ser sincera, me importo – retrucou Hermione – Por mim você poderia cair morto de curiosidade nesse momento.
A bruxa caminhou até o canto do quarto, recolhendo sua varinha. Draco alcançou a própria varinha rapidamente, apenas por garantia.
— Não tenha medo, Malfoy – sorriu Hermione – Meu recado está dado, e você ainda vai se lembrar dele por um tempo.
Ela abotoou a capa e se retirou do quarto.
— O que essa sangue ruim paranoica quis dizer?
Luna o encarou duramente, devido ao tom ofensivo de suas palavras.
— Não importa o que ela quis dizer – resignou-se a garota – Nada do que aconteceu hoje importa.
— Não importa porque não é você que está sentindo dor! Espera, o que você quer dizer com nada do que aconteceu hoje?
— Quis dizer: nenhum dos eventos dessa noite.
— Eu sei qual o significado de nada! Quis dizer... incluindo o que estávamos fazendo antes da Granger nos interromper?
Luna deu de ombros e voltou a examinar o que parecia a flor de tecido mais interessante do Universo. Draco acercou-se dela e a envolveu pela cintura, certo de que o que quer que Luna estivesse sentindo, nada não era uma opção. A garota afastou-se sem muita convicção.
— Você ouviu a Hermione. Conflito de interesses.
— E o que isso quer dizer – disse ele, aproximando-se novamente e fazendo menção de beijá-la.
— É... é que... quando duas coisas que você quer apresentam resultados contraditórios, sabe? E você... não pode ter as duas – gaguejou ela, sem coragem de olhar para ele.
Draco sussurrou em seu ouvido:
— Eu não preciso de um dicionário, preciso que me diga a verdade – finalizou, com um longo beijo no pescoço de Luna, sentindo os pelos de sua nuca se eriçarem.
Uma batida forte na janela sobressaltou os dois, e Luna aproveitou o momento para se desvencilhar dos braços de Draco. Ele virou-se automaticamente para a janela, e a batida se repetiu. No mesmo instante, ouviu outro estrondo atrás dele, e se virou para encontrar a porta do quarto fechada e nenhum sinal de Luna. Frustrado, Draco dirigiu-se para a janela no momento em que soava a terceira pancada, abrindo as pesadas cortinas de veludo com violência. Do outro lado do vidro, um par de grandes olhos redondos cor de âmbar o encararam, e a enorme coruja-das-torres bicou o vidro mais uma vez, solicitando entrar. Draco bufou em desagrado. Quem manda uma maldita ave entregar recados no meio da madrugada com boas intenções?
Quando abriu a janela, a coruja adentou no quarto de forma hostil, indicando sua insatisfação com a demora do garoto em recebê-la. Pousou sobre o malão de Draco, que se encontrava depositado aos pés de sua cama, e estendeu a perna sem fazer contato visual, sinalizando seu desprezo. Draco suspirou, sentando-se na cama enquanto pegava o pergaminho amarrado na perna da coruja, mas antes que pudesse abri-lo, o animal pousou em seu joelho e o olhou fixamente para ele. “Que diabos ela pensa que está fazendo?”. Ele agitou a perna, intencionando que a coruja voasse para longe, mas o animal arrancou o pedaço de papel da mão do garoto e voou, pousando em cima do dossel da cama de Luna. Draco o encarou, incrédulo. Reformulou mentalmente sua pergunta: quem manda uma ave retardada não entregar recados no meio da noite? Draco tentou alcançar a coruja de diversas formas, sem sucesso, enquanto a ave apenas o olhava de cima, altiva, e desviava de todas as suas investidas.
— Certo, Draco, calma – disse a si mesmo, sabendo que não se acalmaria – Esse passarinho idiota não é melhor que você.
Aparentemente capaz de compreender as palavras de Draco, a coruja voou até ele e bicou dolorosamente sua cabeça. Encolhendo-se quando percebeu a proximidade do animal, Draco reanimou o ferimento na lateral de seu corpo, soltando um grito abafado que serviu para extravasar ambas as dores. Satisfeita, a coruja-das-torres retomou seu posto. Draco evitou respirar, o que piorava a agonia nas costelas, enquanto comprimia o local dolorido. Nesse meio tempo, finalmente se deu conta do que faltava. Foi até seu criado mudo e pegou uma bolsa de couro de dragão, retirando algumas moedas de bronze. Dirigiu-se ao leito de Luna e estendeu a mão para cima, mostrando à coruja que estava com o dinheiro. O animal voou e pousou na mesinha de cabeceira ao lado da cama, estendendo a perna para que ele colocasse os nuques em uma pequena bolsinha.
Draco bufou, enquanto colocava as moedas com certa agressividade. Quando ele terminou, a coruja observou o conteúdo da bolsinha e lhe lançou um olhar de desdém diante da miséria que ali fora depositada. Devolveu a carta de Draco à contragosto, aproveitando a oportunidade para bicar-lhe a mão. O garoto tirou a mão rapidamente, olhando com ódio o pequeno arranhão que a coruja fizera. Indiferente, ela abriu as asas e levantou vôo, mas não saiu pela janela aberta como o garoto esperava com algum alívio. Ao contrário, deu uma volta pelo quarto, e pousou na cama dele. Draco fitou a criatura com estranheza e, como se lesse seus pensamentos, o animal voou novamente até ele e lhe bicou a cabeça. Só depois de ouvir o grito de Draco é que sumiu no céu estrelado.
Após a saída da ave, Draco pegou sua varinha e lançou um feitiço na cama de Ernesto, fazendo-a subir no ar e voltar ao chão violentamente, desmontando-se com estrondo. O vandalismo o acalmou um pouco e ele finalmente pode observar o pergaminho que lhe fora entregue a muito custo. Do lado de fora do papel dobrado, lia-se “Draco MALFOY”, numa letra fina e firme. O sobrenome grande e floreado em detrimento de seu nome, escrito aparentemente às pressas, seria suficiente para que Draco adivinhasse o autor da mensagem. Não obstante, a personalidade esnobe e gananciosa da coruja, e sua disposição em provocá-lo, lhe deu uma certeza que fez seu estômago despencar dez andares. Afinal, por que seu pai lhe escreveria agora, faltando ainda duas semanas para as férias de natal? Apreensivo, desdobrou a carta e leu:
Draco
Venha para casa no próximo fim de semana.
Sem desculpas.
Lúcio
Draco largou-se na cama, desanimado. Isso não parecia promissor, de jeito nenhum, especialmente após os eventos que antecederam sua vinda para a escola. A briga homérica que quase fez seu pai deserdá-lo levara Draco a acreditar que eles não se dirigiriam a palavra por um bom tempo. O que poderia ser tão urgente que o pai não podia esperar duas semanas? Ele tinha certeza de que, o que quer que fosse, ele não iria gostar. Fechou os olhos, sentindo-se desconfortável e aflito. Percebeu em minutos que não era apenas angústia, mas um desconforto físico, que o dominava. Levou um certo tempo para notar algo morno sob seu corpo, o que o fez se levantar e tatear as costas em busca da origem dessa sensação. Seus dedos encontraram um ponto úmido em sua camisa, e quando se virou para observar o local onde deitara, deparou-se com uma mancha gosmenta e esbranquiçada. “Mas que droga é isso? O que p...”
— Filha da @#&%*! – deixou escapar em voz alta.
Ao perceber, finalmente, o que a coruja fizera quando pousou em sua cama antes de ir embora, Draco mal podia conter a raiva dentro de si. A ave evacuara em seu leito.
— Ela cagou na minha cama! Coruja imbecil do #%%@&! Tinha que ser coisa do meu pai, velho demoníaco! Vai tomar no @! Passarinho desgraçado, tomara que morra atropelado por uma vassoura! Vai se @#$!!! – esbravejava ele, enquanto arrancava a roupa rapidamente.
Draco não podia acreditar no tamanho de seu ódio. Com certo nojo, colocou seu traje e toda a roupa de cama onde os elfos recolheriam mais tarde, e foi tomar um banho. Quando voltou para o quarto, sua cama já estava novamente arrumada e ele foi direto para debaixo das cobertas, mesmo sabendo que seria incapaz de dormir. Como era possível que seus problemas não parassem de se acumular? Tanta coisa havia acontecido em uma única noite que sua mente mal podia dar conta. “Se um dia minha vida virar um livro, essa noite vai ocupar uns 4 capítulos”, pensou. Parecia que anos haviam se passado desde que ele entrou no Salão Principal de braços dados com Luna. Luna... Somente agora começava a compreender tudo que aconteceu entre eles, e mesmo assim era uma ideia bem vaga. Seu corpo, no entanto, não parecia participar desses conflitos, e ele sentiu um calor subir enquanto rememorava as cenas recentes. Imediatamente afastou tais pensamentos. Essa não era a cabeça que deveria usar nesse momento.
Aos poucos, porém, o sono e o cansaço iam vencendo sua preocupação, e sua mente começou a vagar entre a suspeita mensagem de seu pai para a suspeita conversa entre Hermione e Luna, as borboletas nos cabelos dela, os beijos ardentes que tinham trocado, Luna desarmando ele e Granger ao mesmo tempo... quem diria que ela tinha essa habilidade? O que seu pai queria com ele? Não podia ser bom... Beijar Luna era bom. E se alguém descobrisse, o que seria de sua reputação? Mas ninguém sabia, a não ser Granger. Maldita Granger, ainda sentia a dor do primeiro feitiço... e entre pensamentos desconexos, Draco finalmente adormeceu.
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