A manhã de domingo surgiu nublada e fria, fazendo com que Draco encontrasse o Salão Principal cheio apesar da hora avançada. O ruído alto das conversas preenchia o ambiente, já que todos estavam empolgados em trocar informações sobre o Baile da noite anterior. Draco não compartilhava essa necessidade. Em vez de se sentar para comer, recolheu alguns pães e um pedaço de torta e rumou de volta para seu dormitório. A prática, claro, não era permitida, mas ele não poderia se importar menos. Tivera a pior noite de sono de que se lembrava, acordando com dor nas costelas cada vez que se mexia. Seus breves cochilos eram pontuados por sonhos envolvendo duelos, discussões com Lúcio ou conjunções carnais com certas alunas da Corvinal, todos intensos demais para permitir que ele descansasse.

O quarto se encontrava tão vazio quanto na noite anterior. Aparentemente, ele tinha sido o único a passar a noite ali. Draco jogou-se na cama e voltou a dormir, na esperança de que a dor sumisse se ele descansasse o suficiente. Horas depois, porém, foi despertado por um leve beliscão e abriu os olhos para encontrar uma minúscula coruja pousada em seu peito. Ele se sentou na cama, constatando que suas esperanças tinham sido em vão. Que raios de feitiço era esse que Hermione tinha lançado? A corujinha continuava saltitando em seu colo, sacudindo um bilhete quase maior do que ela. Ele aliviou a pequena ave de seu fardo e desdobrou o pergaminho:

Me encontre em uma hora.

G.

Draco suspirou e fez o papel sumir no ar com um feitiço, enquanto a corujinha desaparecia pela janela aberta por onde entrara. Gina precisava de uma coruja de verdade, não esse pomo de ouro com penas que ela emprestava de Rony. Ele tomou um banho rápido, se vestiu e saiu do dormitório, apressando-se no caminho furtivo que percorria há anos.

*

Draco Malfoy estava sentado no chão frio da Câmara Secreta, perdido em reminiscências. Gina ainda não havia chegado, e toda vez que ficava sozinho naquele lugar não podia evitar pensar nos acontecimentos insólitos que levaram aquela câmara fria a ser um de seus lugares preferidos no castelo. A primeira vez que desceu ali tinha apenas 12 anos e a ideia inconsequente de salvar uma garotinha. Para sua sorte, ela já estava salva. Para seu azar, o maldito Potter estava lá primeiro e se tornou o Grande Herói de Hogwarts. Em sua defesa, porém, Draco tinha chegado até lá sozinho, enquanto Harry foi carregado pela mão pela dupla dinâmica sem a qual não seria nada. Esse pensamento ainda despertava um certo rancor nele, nem tanto pela aparente injustiça da situação, mas mais porque aquele tinha sido o primeiro momento em que se sentiu realmente sozinho.

Potter era um maldito orfão que nem sequer sabia o que era ser bruxo. Weasley e Granger o conheciam há menos de dois anos e ali estavam, dispostos a morrer pelo amigo. Draco não conseguia pensar em ninguém que aceitaria ao menos acompanhá-lo até ali. Claro, Crabble e Goyle viriam se ele mandasse, mas eles fariam qualquer coisa que ele dissesse por pura preguiça de pensar em alternativas. Aquilo não era lealdade, era obediência cega. Em compensação, Draco tinha pais, enquanto Harry tinha sido criado por uma família trouxa, mas essa ideia lhe trouxe pouco consolo na época.

Malfoy havia sofrido um golpe duro quando descobriu a verdade sobre o diário que o pai “acidentalmente” repassara àquela garotinha que se encontrava agora caída num canto da Câmara. Intrigado com a manobra de Lúcio na Floreios & Borrões, Draco não demorou a questioná-lo e ser informado do objetivo de entregar à Gina Weasley o diário de Você-Sabe-Quem. Ficou enojado e decepcionado com a ideia de que seu pai, o homem em quem se espelhava e a quem admirava incondicionalmente, se submetera a fazer o trabalho sujo de uma entidade moribunda que nem sequer tinha corpo. E ele estava orgulhoso! Orgulhoso de ser incumbido da tarefa nobre de trazer Voldemort de volta, mesmo que isso significasse matar uma criança que tinha praticamente a idade de Draco, sem nenhuma segurança de que o plano fosse de fato funcionar. A desilusão de perceber que o pai nutria a mesma obediência cega de Crabble e Goyle mudou para sempre a relação dos dois. Naquele momento, observando Harry, Rony e Hermione, Draco sentiu que o garoto que não tinha nada possuía muito mais do que ele, e esse sentimento jamais o deixou.

Apesar disso, foi um alívio descobrir que Gina estava a salvo. Por algum motivo, sentia que o sangue dela estaria também em suas mãos, e por isso tinha passado os meses anteriores vigiando-a discretamente, hábito que manteve nos anos seguintes. Anos depois, quando se falaram pela primeira vez, a garota se surpreendeu com o quanto Draco parecia saber a respeito dela, e ele a deixou pensar que era coisa do destino. A ruiva já havia percebido o tratamento diferenciado que Malfoy dispensava a ela, sendo a única amiga de Harry, e possivelmente a única grinfinória, que não recebia ofensas gratuitas e azarações aleatórias quando seus caminhos se cruzavam.

O primeiro encontro dos dois aconteceu na própria Câmara Secreta, antes de Gina completar 15 anos. Ambos haviam descoberto uma forma de entrar, apesar de a Câmara ter sido selada, e gostavam da privacidade dali para colocar os pensamentos em ordem. Havia também um significado mais profundo: após os acontecimentos ocorridos ali, nenhum dos dois jamais seria o mesmo. Quando deu de cara com Gina, Draco sentiu-se tão surpreso quanto frustrado, assim como a bruxa, e ambos se retiraram imediatamente sem trocar nenhuma palavra. O segredo compartilhado, porém, os aproximou, e não podiam evitar trocas de olhares furtivas quando se esbarravam no corredor. Duas semanas depois, os dois voltaram a frequentar a Câmara com a vaga esperança de se cruzarem novamente, o que não demorou a ocorrer. Habituaram-se a sentar em cantos opostos da galeria, num acordo informal de preservar o espaço que desciam ali para buscar. Por conta disso, Draco jamais se manifestou durante as crises de choro de Gina, enquanto a garota respeitava em silêncio os ataques de raiva do bruxo.

Num dia de inverno, Draco presenciou de longe uma discussão acalorada entre Gina e Harry, e desceu para a Câmara na mesma noite, sabendo que a encontraria lá. A garota lançava feitiços furiosos contra pedras que haviam desabado, enquanto as lágrimas escorriam ininterruptamente por sua face corada. Vê-la furiosa era tão raro que Draco não se conteve:

— Eu posso matá-lo para você.

Gina sobressaltou-se, no exato momento em que levitava uma pedra que tinha a intenção de espatifar na parede mais próxima. A cabeça de Draco fez as vezes de parede quando, no susto, a garota lançou o rochedo sobre ele. O bruxo evitou o colapso com um feitiço, mas o impacto espatifou a rocha, fazendo cair sobre ele uma nuvem de fragmentos. A Câmara ecoou um silêncio profundo, enquanto a névoa de poeira se dissipava e revelava um Draco Malfoy enegrecido, coberto de pó. Em vez de temer uma retaliação, Gina soltou uma gargalhada diante da cena inusitada. Draco, admirando a coragem dela, não pode deixar de sorrir.

— Eu aceitaria um simples não como resposta – zombou ele, indo sentar-se ao lado dela.

A conversa dos dois durou a noite toda, e muitas outras noites que se seguiram. Draco admirava a sinceridade de Gina, e a associava ao fogo: além dos cabelos ruivos, ela era afiada, teimosa e destemida. A garota, por sua vez, descobria que Draco era muito mais do que um garoto mimado e arrogante cujo hobbie era atormentar seus amigos. Era inteligente, sarcástico e, principalmente, o único que não a tratava como criança. Era um alívio para Gina não ser vista como a caçula. Conforme a amizade entre os dois crescia, os sentimentos se tornaram rapidamente confusos. Quando Rony desconfiou que havia alguém na vida de Gina que ninguém mais conhecia, suspeitou imediatamente de um namorado, e a garota não negou. Ao contrário, ao perceber que Harry dava indícios de ciúmes, apressou-se em confidenciar a Hermione que tinha uma paixão secreta.

— O que pretende com isso, exatamente? – questionou Draco, na noite em que Gina lhe narrou os acontecimentos na Câmara Secreta.

— Exatamente? Não sei. Mostrar a eles que não sou mais criança.

— A eles quem?

— A todos, oras. Rony, minha família, até Hermione... e, bom... sabe, o Harry.

Draco revirou os olhos

— E quando eles souberem que não existe paixão secreta? Não vai causar à reação oposta ao que você espera?

— Quem disse que não existe?

Draco riu, mas se calou quando percebeu Weasley encarando-o e entendeu onde ela queria chegar.

— Eu? Você vai dizer a eles que eu sou sua paixão secreta?

— Eu não vou dizer nada. Apenas... bom, não é uma mentira.

— Gina – ele mudou de posição, ficando de frente para a garota – O que você está dizendo?

— Meu Merlin, eu vou ter que publicar no Profeta Diário? Estou dizendo que quando penso nisso... bom, não parece a pior ideia do mundo

Draco a encarou, sem saber o que dizer.

— Entendo sua surpresa, imagino que deva ser um tormento para a maioria das garotas considerar a ideia de estar com você – emendou Gina, rindo, tentando aliviar o clima.

Draco bagunçou o cabelo da garota, numa represália brincalhona. É claro que não era a pior ideia do mundo, inclusive tinha passado pela cabeça dele uma ou duas vezes. Essa era a primeira relação verdadeira que ele estabelecia com alguém, onde encontrava uma troca real e satisfatória e não uma caricatura que refletia suas próprias ideias sob uma camada de bajulação. Entre os dois não havia a interferência de status, nomes de família ou mesmo idade. Ele sabia, é claro, que ela já não era mais criança, e era uma questão de tempo até que Gina se envolvesse com alguém. Quem seria, se não ele? Sua mente projetou um par de óculos ridículos e uma cicatriz presunçosa na testa, e a ideia fez seu estômago revirar. Sem pensar duas vezes, aproximou-se de Gina e beijou seus lábios delicadamente. A ruiva retribuiu o beijo sem demonstrar surpresa, e, novamente depois de muito tempo, não houve conversa aquela noite na Câmara Secreta.

Notas finais
É impressão minha ou só sobrou a somestars lendo minha história por aqui? :´(
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.