Fora de Sintonia (Especial de Natal e Ano-Novo)

2 Presentes, Saga de Sunga e Viagem Súbita


Notas iniciais
Oiee, tudo bem? 🎄✨ Jingle bell, jingle bell, jingle all the way… Esse capítulo segue com clima caótico dos presentes, decisões questionáveis e pensamentos nada santos. Obrigada por estarem aqui e por acompanharem esse especial comigo 💙 Boa leitura e… bora continuar 🎁✨

Camus ainda não tinha decidido se o pior momento daquela semana tinha sido a quantidade de relatórios que estava tendo que ler… ou a mensagem que recebera no grupo do seu amigo secreto logo depois.

Jabu: “Então… se puder ser um pijama, eu ia gostar. Pijama com tema de Natal”

Camus releu a frase pela terceira vez, com o cenho franzido.

Um pijama.

Pijama, para ele, era algo íntimo demais. Algo que não se pedia. Muito menos em um amigo secreto. Camus jamais teria coragem de escrever algo assim em uma lista de preferências. Na verdade, ele nem havia escrito nada. Preferia o desconforto da surpresa ao constrangimento da sugestão.

E agora estava ali, andando pelas ruas do centro de Rodório, com as mãos nos bolsos do casaco e a paciência por um fio, tentando encontrar presentes para dois escorpianos.

Ele soltou um suspiro lento.

Comprar o presente de Milo, tecnicamente, deveria ser mais fácil. Eles se conheciam há anos. Tinham uma história longa, feita de provocações, silêncios compartilhados e uma intimidade construída antes mesmo de o namoro começar.

O namoro, aliás, ainda era recente. Não tinham nem dois meses juntos.

Recente o bastante para que Camus ainda medisse cada gesto. Cada escolha. Cada possibilidade de erro.

Na amizade, nunca haviam sido de trocar presentes. Mas agora havia sentimento e expectativas.

Camus parou diante de uma vitrine de livraria, observando o interior.

Ele sabia, mesmo que Milo nunca fizesse alarde, que o escorpiano era um leitor ávido. Gostava de romances policiais, histórias de investigação, mistérios cheios de pistas falsas. Também se aventurava pela fantasia, especialmente aquelas com mundos bem construídos e personagens moralmente duvidosos.

Camus, no entanto, gostava de outro tipo de leitura. Literatura clássica, filosofia, história, textos que exigiam concentração. Nunca havia se atentado aos títulos que Milo lia. Nunca perguntara.

E agora isso cobrava seu preço.

“E se eu comprar algo que ele já leu?”

“E se eu errar completamente o estilo que ele gosta?”

“E se parecer que eu não o conheço tão bem quanto deveria?”

Entrou na livraria mesmo assim. Caminhou entre as estantes, passou os dedos pelas lombadas coloridas, leu sinopses rápidas, analisou capas.

Nada parecia certo.

Tudo parecia… arriscado demais.

Depois de quase meia hora, saiu de mãos vazias.

A perfumaria foi descartada antes mesmo de considerar entrar. Milo já havia ganhado perfumes suficientes no aniversário.

Passou também longe da loja de lingerie.

No aniversário de Milo, havia dado uma cueca provocante. Milo adorara, disso Camus não tinha dúvidas. Mas agora… agora tinha medo de parecer que só pensava em uma coisa. Medo de reduzir o gesto a desejo, quando queria expressar algo mais sólido.

Mais sério.

A joalheria foi o ponto final.

Camus parou diante da vitrine por poucos segundos antes de desviar o olhar. Anéis brilhavam sob a luz artificial, promessas silenciosas de compromisso e futuro.

Ele não tinha coragem.

Ainda não.

Não como Hyoga, que já havia dado um anel ao namorado com a maior naturalidade.

Camus sentiu o peso da comparação, mesmo sabendo que não era justa.

Desistiu temporariamente do presente do namorado.

Focaria no de Jabu.

O problema é que nenhuma loja em Rodório parecia vender pijamas masculinos.

Entrou em uma, depois em outra. Nada. Apenas modelos femininos e infantis.

“Que tipo de presente esse garoto foi pedir?”, pensou, irritado.

Depois da quarta loja, desistiu.

O frio do fim de tarde parecia mais intenso agora, refletindo seu humor. Camus voltou para o Santuário com passos firmes, o maxilar tenso e a sensação incômoda de estar falhando miseravelmente em algo que, para a maioria das pessoas, deveria ser simples.

Comprar presentes.

Mas nada sobre sentimentos, ou escorpianos, era simples como parecia ser.

~*~

Para Hyoga, o inverno na Grécia era tranquilo.

Depois de treinar enfrentando o frio polar da Sibéria, aquele inverno grego parecia quase confortável. O vento cortava menos, a neve era quase inexistente.

Faltava uma semana para o Natal.

Hyoga já tinha comprado suas roupas para as festas de fim de ano, separado um cachecol claro que combinava com o casaco novo e escolhido chocolates para presentear seus colegas de Bronze. Tudo organizado. Tudo sob controle.

Quase tudo.

Faltavam duas compras importantes.

O presente de Natal do seu namorado…

E o presente do seu amigo secreto.

Milo de Escorpião.

Hyoga soltou um suspiro lento ao pensar nisso.

Sim, havia tirado Milo no amigo secreto.

E agora precisava comprar um presente para o seu ex-crush, embora ainda não tivesse certeza se essa era a melhor forma de se referir a ele.

No passado, Hyoga nutrira uma paixão absoluta pelo Cavaleiro de Escorpião. Uma daquelas paixões silenciosas, intensas, cheias de expectativa. Milo sempre fora calor, presença, provocação, e Hyoga, inevitavelmente se perdera nisso.

Mas tudo mudara quando ele percebera os sentimentos do escorpiano por seu mestre.

Hyoga não se orgulhava, mas fora naquele momento que desistira. Não por falta de amor, mas por respeito. Recolhera seus sentimentos, guardara o que doía e abrira espaço para algo novo.

Foi então que Jabu aparecera.

Bêbado. Confuso. Declarando-se de forma completamente desajeitada… e desmaiando logo em seguida.

A lembrança arrancou um sorriso involuntário de Hyoga.

Jabu era sua mais nova alegria.

O relacionamento ainda era recente, fazia pouco mais de um mês desde o pedido de namoro. Um pedido acompanhado de um anel de compromisso de ametista, tão sério e intenso que mais parecera um pedido de casamento.

Hyoga riu sozinho ao lembrar.

E agora lá estava ele, encarregado de comprar um presente para o homem que amava… e outro para o homem que já amara.

Nos últimos meses, Hyoga havia comprado muitas coisas para Milo. Chocolates. Perfumes. Pequenos agrados. No último aniversário do escorpiano, inclusive, havia dado um porta-retrato com uma foto de Milo e Camus juntos, um gesto que fora sua forma silenciosa de despedida.

Agora, precisava pensar em algo novo.

Algo diferente.

Para piorar, Milo havia escrito no grupo do amigo secreto:

“Querida pessoa que me tirou… me surpreenda!”

Aquilo o irritara mais do que gostaria de admitir.

Tudo o que vinha à sua mente para Milo eram coisas que ele mesmo já havia dado no passado. Nada parecia surpreendente. Nada parecia adequado. E havia ainda o medo constante de Camus interpretar errado qualquer escolha.

O pensamento o deixou desconfortável.

Quanto ao seu belo namorado… esse era outro dilema.

Jabu era apaixonado por Natal. Falava da festa há semanas, empolgado, luminoso, quase infantil em sua alegria. Pijamas natalinos haviam sido mencionados mais de uma vez, com brilho nos olhos e sorrisos largos.

Hyoga já estava decidido a comprar um pijama para ele.

Mas então Jabu pedira justamente isso como presente do amigo secreto.

E lá se fora o plano.

Hyoga respirou fundo e tentou reorganizar os pensamentos.

O que ele sabia sobre Jabu?

Gostava de Natal.

Rock.

Preto.

Pizza.

Beber até cair.

Falar absurdos nos momentos mais aleatórios possíveis.

E nadar.

Hyoga parou.

Nadar.

Piscina. Mar. Água fria. Água profunda.

Era isso que tinham em comum. Sempre fora. Desde o início.

Um sorriso lento se formou em seu rosto.

— Perfeito… — murmurou para si mesmo.

Hyoga já sabia o que dar para Jabu.

A decisão trouxe alívio imediato.

Quanto ao seu amigo secreto…

Milo de Escorpião teria que esperar.

Esse presente…

Hyoga deixaria para depois.

~*~

Jabu amava o Natal.

E todos os seus amigos de Bronze sabiam disso.

Na primeira semana de dezembro, ele, Hyoga, Shiryu e Shunrei tinham ido juntos a uma pizzaria em Rodório. Era para ser só uma saída simples, sem grandes expectativas, até Jabu ver a decoração de Natal da cidade.

Ele simplesmente surtou.

A árvore de Natal no centro principal era enorme, feita inteiramente de pisca-piscas brancos e azuis, com algo em torno de trinta metros de altura. A praça estava viva, cheia, iluminada. As casas ao redor também estavam enfeitadas, janelas brilhando, guirlandas nas portas, luzes refletindo nas ruas de pedra.

E ali, perto da árvore, estava o Papai Noel.

Tirando fotos com crianças.

E, claro, com Jabu.

Sem vergonha alguma.

Hyoga tinha a foto guardada no celular, nela Jabu estava sorrindo de orelha a orelha, abraçado ao Papai Noel como se ele fosse criança. Shiryu tinha rido até passar mal. Shunrei achara a coisa mais fofa do mundo.

A lembrança fez Jabu sorrir agora, sozinho, sentado em sua cama no quarto do casarão próximo ao Santuário.

Era ali que ele e os outros Cavaleiros de Bronze estavam morando enquanto se preparavam para, um dia, substituir os Dourados.

Com cuidado, ainda que desajeitado, Jabu embrulhava o presente de Natal do seu namorado.

O papel estava torto, mas o entusiasmo compensava tudo.

Dentro do embrulho havia um kit com o perfume, creme de barbear e óleo de massagem da fragrância favorita de Hyoga. Que, por consequência, havia se tornado a favorita de Jabu também.

Alguns dias antes, Hyoga comentara casualmente que o perfume estava acabando.

Jabu não pensara duas vezes.

Na perfumaria, acabara optando pelo kit completo, principalmente pelo óleo de massagem. Tinha o mesmo cheiro do perfume… e, além disso, abria espaço para algo mais.

Um momento íntimo.

Afinal, passar a mão no namorado podia muito bem ser justificado como uma “massagem”.

Com o presente finalmente embrulhado, Jabu se recostou na cama, satisfeito.

Até se lembrar do amigo secreto.

Ele havia tirado Saga.

E o desgraçado pedira uma sunga.

Uma sunga.

Jabu passou a mão pelo rosto, bufando.

Saga era alguém mais afastado do grupo. Depois de tudo o que acontecera no passado, mesmo com o perdão de Atena, existia uma exclusão silenciosa, e Jabu percebia isso com clareza nas confraternizações com os Cavaleiros de Ouro.

Shaka, Dohko e Shura ainda tentavam puxar conversa. Mas, fora isso, Saga parecia sempre à margem. E, muitas vezes, parecia fazer questão de se manter assim.

Aquilo incomodava Jabu.

Sentia pena.

E, talvez por isso, queria agradar o máximo possível com o presente.

Mas o pedido não ajudava.

“Sunga tamanho M.”

Só isso.

Nenhuma cor. Nenhum modelo. Nenhuma preferência.

E foi aí que o problema começou.

Jabu começou a imaginar.

Saga de sunga preta, cavada.

— Hm… ele ficaria bonito assim…

Saga de sunga boxer preta.

— Também ficaria bem…

Saga… pelado na praia.

— Ele é bonito. Ficaria bem até assim.

Jabu franziu a testa.

O pensamento não parou.

Saga saindo do mar, a água escorrendo pelo corpo.

Saga ajeitando a sunga.

Saga abaixando a sunga.

Saga sobre ele… Pedindo para Jabu tirar a sunga dele com os dentes.

— Eita porra.

Jabu deu um pulo da cama e ficou de pé, o rosto vermelho e quente.

— Calma, Jabu — murmurou para si mesmo. — Você tá pensando essas coisas só por causa do presente. Só por causa do presente.

Mas a imagem não ia embora.

Saga continuava ali, na mente dele, usando diferentes sungas. Sempre com aquele olhar sério e distante. Sempre absurdamente sexy.

Jabu passou as mãos pelo cabelo, nervoso.

— Amanhã eu compro logo essa porcaria de presente… e me livro disso.

Era isso.

Ele precisava resolver aquilo rápido.

Antes que sua imaginação naturalmente fértil, resolvesse ir ainda mais longe.

~*~

A cabeça de Milo estava a mil.

Não bastasse ter que comprar um presente para Camus como namorado, o destino fizera questão de colocá-lo na situação de comprar outro presente para Camus, o de amigo secreto. Justamente Camus.

Agora, além de amante, namorado e fonte constante de provocação, Camus também era sua responsabilidade natalina.

— Ótimo — Milo murmurou para si mesmo. — Duas chances de errar com a mesma pessoa.

Camus tinha saído cedo para Rodório. Milo sabia. E sabia também que aquela era sua oportunidade perfeita de xeretar a Casa de Aquário sem a supervisão do namorado.

Entrou como quem não queria nada… e foi direto para o quarto.

Armários. Gavetas. Cômoda.

Tudo de Camus era exatamente como ele imaginava: organizado, limpo, meticuloso demais para parecer humano. As roupas estavam dobradas com precisão absurda, em tons majoritariamente cinza, azul e branco. Nada fora do lugar. Nada amassado. Tudo parecia novo.

Milo franziu a testa.

— Como é que alguém vive assim?

Abriu a primeira gaveta da cômoda.

Cuecas.

As cuecas de Camus.

Milo não perdeu tempo dando a elas a atenção que mereciam.

Um sorriso lento, safado, se formou em seu rosto quando se lembrou da primeira vez com Camus, da cueca vermelha que ele mesmo havia lhedado, da expressão constrangida, da entrega tímida que viera depois.

A maioria das cuecas ali eram brancas e pareciam nunca usadas.

— Isso é biologicamente impossível — murmurou Milo. — Como você consegue essa proeza, Aquário?

Olhando as cuecas brancas do namorado, uma ideia lhe surgiu.

Súbita e um pouco safada.

Milo fechou a gaveta devagar, já sabendo exatamente o que daria de presente para Camus como namorado.

Problema resolvido.

Quase.

Ainda faltava o presente de Camus… como amigo secreto.

Suspirando, continuou vasculhando a casa.

Foi ao banheiro. Todos os produtos de higiene pareciam recém-abertos. Importados da França. Perfumes, sabonetes, cremes. Até a toalha pendurada ao lado do box parecia nova em folha.

Milo revirou os olhos.

— Você vive como se estivesse num catálogo — resmungou.

Seguiu então para a sala.

A estante de livros ocupava boa parte da parede. Bastou um olhar para perceber que o gosto literário de Camus era completamente diferente do seu.

Shakespeare.

Aristóteles.

Flavius Josephus.

Jules Verne era o único nome familiar, e o único que Milo já havia lido algo.

— Comprar livro pra você também vai ser um desafio… — murmurou.

— Oi, Milo. Cadê o Camus?

Milo deu um pulo.

Virou-se rápido demais e deu de cara com Shaka.

— Por Atena, Shaka! — levou a mão ao peito. — Ele saiu. Foi a Rodório… acho que comprar o presente do amigo secreto.

Shaka assentiu lentamente, mas manteve o olhar fixo nele.

— E o que você faz encarando a estante do Camus?

Milo hesitou.

Pensou em inventar qualquer desculpa idiota… mas se lembrou de que Shaka vivia conversando com Camus sobre livros. Talvez ele pudesse ajudar.

— Eu estou sondando um presente pra ele — confessou, meio envergonhado. — E, por incrível que pareça, eu não conheço tão bem o gosto literário dele.

Shaka inclinou levemente a cabeça.

— Eu posso ajudar.

Milo se animou na hora.

— Esses dias — continuou Shaka — Camus comentou que queria reler O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Ele leu a tradução grega que tem na biblioteca do Santuário, mas como o autor é francês… sempre quis ler na língua original.

Milo arregalou os olhos.

— Isso é… perfeito.

— Se você der uma edição francesa, ele vai amar — completou Shaka.

Milo quase beijou Shaka na boca.

Acabou acertando o canto dos lábios no impulso, seguido de um abraço apertado e um agradecimento empolgado.

— Você salvou meu Natal!

Saiu praticamente correndo em direção à Casa de Escorpião, já puxando o celular do bolso para comprar o livro.

E foi aí que veio o problema.

Nenhuma loja online que importava a edição francesa entregaria a tempo do Natal.

A frustração caiu sobre ele como um balde de água fria.

Não. Aquilo não era aceitável.

Milo já tinha decidido. Aquele era o presente ideal. Não havia plano B.

Respirou fundo.

Uma ideia louca surgiu em sua mente.

Ele abriu o aplicativo de passagens aéreas.

— Se o presente de Camus não vem até mim… — murmurou com um sorriso — então eu vou até o presente do Camus.

E, sem pensar duas vezes, comprou uma passagem para a França.

Notas finais
Não sei quem gosta mais de Natal: eu ou o Jabu 😂 Beijinhos 💋 E até o próximo capítulo ✨