Fora de Si
1 Aquele da noite
Era estranho morar sozinho.
Não que estivesse realmente sozinho quando Akiteru aparecia em sua porta todo dia. Teoricamente aquele apartamento ainda era dele, exceto que, com o casamento marcado e se aproximando, ele quase nunca estava lá de verdade. Por um lado, isso tornava a transição mais fácil para Kei, já que ele iria ter que aprender a se virar sozinho em breve de qualquer forma, mas por outro, era bem estranho entrar numa casa que não é a sua e se obrigar a ficar a vontade sem o dono da casa por lá. Ou pior. Com o dono da casa podendo voltar a qualquer segundo, sem avisar antes. Parecia proposital. Quando ele começava a se sentir confortável e organizar suas coisas, seu irmão voltava e ele tinha que se adaptar novamente.
Ao menos Akiteru cozinhava razoavelmente bem e fazia a janta para ele.
O apartamento não era tão perto da universidade quanto ele gostaria, mas era a opção mais viável no momento. Não queria se jogar em um dormitório apinhado de gente que ele não conhecia, muito menos ir morar no campus com alguém aleatório.
Lembrou-se dolorosamente de que ele estudava naquele campus e que provavelmente tentaria convencê-lo de que ir morar junto com ele era a melhor decisão que Kei poderia tomar em sua vida inteira. Bufou. Estava um pouco ansioso — não, aliviado— por não ter encontrado com o rapaz nas vezes que estivera lá, e gostaria que continuasse assim, mas também sabia que isso era improvável.
Alguma hora, estudando no mesmo campus, ele ia acabar encontrando Kuroo.
—--
A primeira semana de aulas passou sem nenhum incidente. A correria para encontrar suas salas de aula e aprender a se locomover sozinho o mantiveram ocupado a ponto de ele não ter ficado paranóico com a premissa de talvez, quem sabe, encontrar o outro jovem sem querer.
Yamaguchi o convidou para visitá-lo em Miyagi, uma vez que estaria em casa no final de semana e eles não se viam há algum tempo. Escolheram ir para universidades diferentes, ao contrário das expectativas de muitos de seus amigos, mas não significava que estivessem brigados ou coisa do tipo. Apenas deixaram seus caminhos se separarem.
O que, obviamente, não significava que eles não eram mais amigos.
Era estranho, Tsukishima pensava, o quanto tudo estava igual e ao mesmo tempo tão diferente. Não num sentido ruim, apenas… diferente. Andava pela rua tranquilamente, observando os detalhes de um caminho que havia trilhado por anos e só estava conseguindo apreciar agora que não o via há algum tempo. Era nostálgico e familiar.
Deixou esse e outros pensamentos de lado quando viu seu amigo praticamente pulando na frente da porta de sua casa, acenando e chamando sua atenção.
“Tsukkiiiiiii!”
Não pode deixar de sorrir um pouco. Algumas coisas não mudavam nunca.
—--
Estava confortável. Haviam jantado, jogado videogame e até comido bolo de morango. Agora estavam deitados, Yamaguchi em sua própria cama e Tsukishima no futon que ele geralmente usava. Fazia tempo que não iam na casa um do outro, ainda mais com o início das aulas das faculdades e a distância. Conversavam muito menos do que na época de colégio, mas ainda procuravam manter o contato. Era fácil ouvir os problemas de Yamaguchi e opinar. Era fácil (e engraçado) ouvir suas histórias de desventuras amorosas. Também foi fácil perceber que a paixonite que ele nutria pela pequena assistente do time continuava a crescer, ainda mais depois que os dois haviam se reencontrado no campus. Era fácil, muito fácil, lidar com ele, que sabia exatamente o que falar e, mais importante, quando calar.
Não era muito fácil lidar com a inveja de ter a vida resolvida e promissora, enquanto Kei parecia ter parado no tempo. Não tinha vivido nenhuma aventura depois do último acampamento de treino. Não tinha mais jogado depois do último jogo do colegial. Não tinha nenhum interesse romântico — ao menos não que ele soubesse. Não tinha amigos novos e os velhos estavam distantes demais, ainda que ele não tivesse tanta vontade de interagir com eles quanto tinha de saber que eles estavam lá caso, sei lá, quem sabe um dia ele precisasse. Yamaguchi era um desses que ele sabia que poderia contar, não importa quanto tempo tivesse passado.
Talvez fosse por isso que ele estava ali agora, deitado de barriga pra cima e fitando o teto do amigo, sem conseguir dormir. Piscou milhares de vezes e tentou deixar que a sensação de estar satisfeito o levasse pela mão para um sono tranquilo, mas aquilo era inútil. Frustrante. Rolou de um lado para o outro, tentando fazer o mínimo de barulho possível para não incomodar Yamaguchi.
“Tsukki, o que você tem? Está inquieto demais, nem parece você.”
Tsukishima suspirou e voltou a deitar de barriga para cima. Conseguia ver um dos pés do outro jovem saindo do meio dos cobertores e da cama. Sorriu, mas logo o sorriso se desfez e ele voltou a olhar para o teto, pensando se deveria responder.
Yamaguchi estava quase caindo no sono quando recebeu uma resposta carregada por uma voz rouca e mais grave do que o esperado.
“Eu… não sei. É meio surreal, não? O quanto a gente mudou nesses últimos anos.”
“Como assim, Tsukki?”
“Karasuno… Você treinou tanto e se tornou um dos pinch servers mais temidos do Japão. Aqueles dois imbecis… bom, continuaram sendo dois imbecis e me irritam até hoje, mas não dá pra negar que eles evoluíram muito durante esse tempo. Não é a toa que ambos estão no time oficial do país. E eu…”
Tsukishima perdeu a vontade de falar.
“Depois daquele acampamento em Tóquio, parece que você cresceu muito. Quer dizer, não fisicamente, mas… Aliás, eu me sinto um pouco mal por ter gritado com você.”
“Não se preocupe. Foi bom, fez eu perceber o quanto estava sendo ridículo.”
“Mas… desde aquele treinamento, deu pra perceber que você realmente começou a se empenhar. Eu gosto do Akiteru, mas você demorou um pouco demais para superar.”
“Obrigado, Yamaguchi, estou me sentindo bem melhor mesmo agora que você está jogando todos os meus problemas na minha cara.”
“Desculpa Tsukki.”
Tsukishima bufou.
“Não quer dizer que eu não precise ouvir essas coisas de vez em quando.”
Yamaguchi soltou uma risada baixinha, e Kei sorriu, ciente de que o outro não podia ve-lo.
“Dá pra acreditar que ele vai casar?”
“Não. Meu irmão deve ter algum parafuso solto.”
“Ela é uma boa pessoa, vai. E é muito bonita também, daquele jeito meio… selvagem dela.”
Eles riram em uníssono.
“Não posso discordar de você, meu irmão é, além de desmiolado, um cara de sorte.”
“Você já sabe o que vai vestir? Podemos ir alugar ternos se você quiser…”
“É, parece uma boa ideia. Tem alguma lojas perto do apartamento do Akiteru.”
“Tsukki, você não vai se acostumar com a sua casa nova se continuar falando dela como se ela ainda fosse do seu irmão e-”
Tsukishima bufou novamente, apertando a base de seu nariz com as pontas dos dedos.
“Ta, ta bom.” Suspirou. “Não é como se eu fosse morar lá pra sempre. É só durante a faculdade.”
“A faculdade dura bastante tempo…”
Tsukishima não respondeu, perdendo-se em pensamentos sobre o curso de escolhera. Era um curso de tecnologia da informação, duraria quatro anos se ele conseguisse passar em todas as matérias de primeira, o que não era impossível, mas era bem improvável. Mesmo sendo inteligente, teria que se esforçar para conseguir se formar. Não tivera muitas dúvidas quanto ao curso, era algo promissor e que ele gostava se fazer de certa forma, então a escolha pareceu natural. Além disso, ele trabalhava muito melhor sozinho.
Mas até mesmo ele tinha um limite para a solidão.
Sentia-se sonolento, mas não queria dormir. Estava se sentindo aliviado por ter alguém que o escutava e respondia. Conversar com os cactus de Akiteru- seus cactus - não dava essa sensação de alívio.
Abriu a boca antes que pudesse pensar.
“Nunca pensei que estar sozinho seria tão entediante.”
A resposta de Yamaguchi demorou um pouco.
“Encontre alguém.”
“Não é tão simples assim. Sinto que nem consigo cuidar da minha vida, se tivesse que me preocupar com mais alguém seria terrível e eu provavelmente ia explodir.”
“As vezes não, Tsukki. Você ta complicando uma solução hipotética e viável. Não é possível que todo mundo da sua sala seja ruim-”
“Não só é possível como é verdade.
Yamaguchi suspirou, ignorou o comentário e continuou a falar.
“Como eu ia dizendo. Não é possível que todo mundo seja uma pessoa horrível. Além disso, você está em Tóquio, e até onde eu sei, temos amigos em Tóquio. Ou você se esqueceu do Kuroo e do Bokuto, Akaashi, Kenma…”
Tsukki encolheu-se um pouco ao ouvir o nome de Kuroo, um grande peso voltando a cair sobre seus ombros. Levantou a mão direita até a altura de seus olhos e observou as pequenas marcas esbranquiçadas na ponta de seu punho, em cima dos ossinhos da mão.
“Eles tem a vida deles para se preocupar.”
“Mas são amigos! Não vão te tratar mal e não é como se você tivesse que começar a amizade com eles do zero.”
Exceto que é exatamente isso.
“Deixa pra lá, Yamaguchi. Foi um erro te encher o saco com esses assuntos.”
“Tsukki?”
Nenhuma resposta.
“Bom. Já que você não quer falar, eu falo. Você terminou o colégio como capitão do time. Todos os nossos colegas respeitavam — não, ainda respeitam você. Mesmo com a derrota no último jogo, você conseguiu lidar e motivar o time.”
Touché.
“Yamaguchi, chega.”
Tsukishima sentia como se todas as mágoas, raiva e incerteza daquele dia tivessem sido jogadas em cima dele novamente. Sabia que o amigo estava tentando ajudar, mas não queria mais ouvir sobre aquele jogo. Na verdade, não queria mais ouvir nada.
“Você sabe que é verdade! Se não fosse por você, aposto que muitos dos mais jovens teriam desistido e que a gente nem teria chegado àquela final, e as coisas que você disse depois do jogo foram essenciais, você falou como um verdadeiro capitão e…”
Era como se ele estivesse fazendo de propósito. Sentiu vontade de gritar para ele parar, que não sabia de nada. Contentou-se em agarrar o cobertor com as duas mãos e respirar fundo, controlando-se para não agir daquele jeito novamente. O que ele menos queria era perder outro amigo da mesma forma e pelo mesmo motivo.
“Não fale mais sobre isso.”
“Mas Tsukki-”
“Chega.”
Virou para o lado e cobriu-se até a cabeça, desejando não ter aberto a boca se isso significava ter que lembrar daquele jogo. Daquele dia. De Kuroo.
Fechou os olhos e viu a cena acontecer novamente.
Decepção.
Raiva.
Sangue.
Dor.
Nada.
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