Fora de Si

2 Aquele da praia


Era muito fácil cair na rotina e fazer tudo automaticamente.

Acordava pela manhã, ligava o som e fervia a água do café enquanto se trocava. Sempre jeans e camiseta, uma jaqueta quando necessário, raramente um cachecol no pescoço para evitar o vento gélido. Não gostava de cachecóis, porém, pois eles tomavam o lugar de seus headphones no pescoço.

Ah, essa música.

Os primeiros acordes do violão soaram assim que ele saiu do quarto. Gostava daquela música, lhe trazia boas lembranças... Até hoje não sabia bem por que havia topado viajar para a praia com aquele bando de malucos de Tóquio, mas, no geral, havia sido uma experiência divertida.

Aquela música, porém, também fazia ele se sentir idiota. Olhou para a mão direita, franzindo o cenho ao ver as pequenas marcas esbranquiçadas: cicatrizes. Não eram muito aparentes, mas renovavam o sabor da derrota em sua última partida do ensino médio. Mais do que a derrota, faziam-no lembrar de que fora um babaca completo com alguém que só queria ajudar.

Suspirou. Seria um dia difícil, afinal.

Aumentou o volume da música e deixou que sua mente trouxesse diversas lembranças à tona enquanto terminava de coar o café.

Lembrava-se nitidamente do luau, ou seja lá como chamavam aquilo, das músicas que saíam do violão de Daichi. O ex-capitão havia concordado em acompanhar a equipe uma última vez, seu carinho pelos agora terceiro-anistas evidente em seu sorriso.

Tsukishima encheu sua caneca e sentou-se no sofá, deixando que as memórias daquele dia invadissem sua mente.

—--

A escola que sediou o último acampamento de treino de Tsukishima era próxima de uma cidade costeira, então, nada parecia mais óbvio do que organizarem uma festa na praia no último dia. Nem todos foram, porém, aproveitando para descansar.

Tsukishima era um dos que haviam decidido ficar. Não era muito fã de praia (“Ugh, areia.”) e estava realmente cansado. Uma noite sem ter de treinar com Kuroo e Bokuto, agora jogadores universitários, já parecia convidativa, mas uma noite de sossego com tempo para ele mesmo sem ter de se preocupar com seus companheiros de time parecia melhor ainda. Sabia que podia contar com Yamaguchi e Yachi para cuidar dos mais jovens, e por isso permitiu-se negar o convite.

Menos de cinco minutos haviam se passado quando Kuroo abriu a porta do alojamento de repente e encontrou um Tsukishima sentado na cama com as costas apoiadas na parede.

“Como assim você não vai?! É claro que você vai!”

Era praticamente uma ordem. Mas ele não gostava de receber ordens.

“Não, Kuroo, não vou. Preciso de um tempo pra descansar e-”

“Mas é o último dia!”

“Justamente por isso, eu estou cansado e vou ficar por aqui para-”

“É o nosso último dia.”

Tsukishima detestava ser interrompido, mas a escolha de palavras do outro chamou sua atenção. Levantou a cabeça para olhar diretamente para Kuroo, que havia se sentado logo a sua frente na cama. Tsukki puxou as pernas mais para perto de si, apoiando o queixo sobre os joelhos.

Ambos sustentaram o silêncio e o suspense das palavras de Kuroo, e foi Tsukishima quem falou primeiro.

“E então, você vai explicar ou não?”. Tsukki usou seu tom de voz mais neutro mas estava legitimamente curioso. O que diabos você quis dizer com isso, Kuroo?

O outro rapaz havia virado o rosto, mas Kei conseguia ver um rubor sutil em sua face.

Mas que diabos?

“Kuroo… tem alguma coisa pra me contar? Por que esse drama todo?”

“Aaah, não… Eu falei besteira mesmo, perdão. Não é como se um de nós fosse sumir… Ou morrer… ou coisa do tipo…”

Tsukishima sentiu seu coração pular uma batida. Que papo era aquele?!

“Kuroo eu juro p-”

“Eu me expressei mal, desculpa!” Kuroo levantou-se tão rapidamente quanto havia se sentado, ainda sem dar explicações para o outro, que estava ficando cada vez mais curioso e preocupado. Andou até a porta e a abriu, virando o corpo na direção de Tsukki antes de sair. “Vou deixar você em paz, já te enchi muito o saco por uma vida.”

“Esse papinho de vítima não combina com você.”

Ah, ali estava o sorriso que Tsukishima havia aprendido a odiar-um-pouco-menos. Suspirou. Ia participar do joguinho de Kuroo mais uma vez. Arrastou seu corpo para fora da cama e parou na frente do outro rapaz, colocando as duas mãos na cintura. Bufou novamente. Admitindo a derrota, ele olhou para o rosto ligeiramente surpreso de Kuroo.

“O que eu preciso levar?”

—--

Fazia muito sol mas nem tanto calor, embora Tsukishima nunca fosse admitir que o clima estava, de fato, agradável. Enfiado embaixo de um guarda-sol enorme, ele observava o caos que se instaurava a seu redor. Hinata, Bokuto e Lev corriam pela praia, seguidos de perto por primeiro anistas de Karasuno, Fukurodani e Nekoma. Kageyama havia levado uma bola de vôlei e brincava com ela, com um sorriso que Tsukki quase nunca vira em quase 3 anos de convivência. Yamaguchi e Yachi estavam construindo alguma coisa na areia, algo que ele não conseguia discernir a distância. Parece um castelo de areia. Mas também parece um cupcake gigante. Talvez um buldogue deitado.

Estava tão concentrado em tentar adivinhar o que eles estavam construindo que não percebeu quando Kuroo sentou a seu lado.

“Vai dizer que você veio pra praia pra ficar embaixo de um guarda-sol olhando os outros se divertirem.”

A voz do outro tão próxima o assustou, mas ele fez seu melhor para não demonstrar. O sorriso de Kuroo dizia que ele não havia conseguido esconder sua surpresa, mas o outro não comentou nada, contentando-se em sorrir apenas.

Tsukishima deu de ombros e voltou-se para o oceano, tentando calcular a distância do horizonte.

“Detesto areia e calor num geral.”

“Como assim detesta calor e areia?! Você está na praia!”

“É, porque um idiota me obrigou a vir.”

“Ei. Não seja ingrato.” Kuroo deu-lhe uma cutucada amigável com o cotovelo. Tsukki sentiu a areia grudar em sua pele após o toque. Torceu o nariz. Kuroo havia insistido para que ele fosse, passara o dia todo fazendo outras coisas e nem tinha dado atenção pra ele direito. Não que ele quisesse a atenção de Kuroo, obviamente, só achava esquisito ele ser tão enfático em chama-lo e depois deixa-lo sozinho.

Talvez ele quisesse a atenção de Kuroo, mas ele nunca ia admitir. Fez um esforço enorme para colocar a feição de indiferença novamente, e nessa hora o outro rapaz pôs-se a falar mais uma vez.

“Eu vi que você estava sorrindo agora a pouco, me pergunto o motivo dessa ‘torceção’ de nariz agora...”

“Eu estava me divertindo até você chegar.” A resposta saiu automaticamente e o sorriso sarcástico foi de brinde. Por uma fração de segundo, Tsukki pensou se havia ultrapassado os limites da babaquice daquela vez, mas o sorriso de Kuroo continuava ali. Estava tudo bem.

“Como você é cruel, Tsukki!” Apesar das palavras de reprovação, o tom de Kuroo era descontraído e alegre. Tsukishima gostava de ouvir as diferenças mínimas no tom de voz do outro, mas no momento tinha que cumprir seu papel.

“Não me chame assim, Kuroo.”

Mas o outro já não prestava atenção nele, voltara-se para a água e observava as pessoas se divertirem com uma expressão serena. Apesar da aparente calma, Tsukki sabia que algo incomodava o outro. Ele parecia pensativo demais. Parecia triste.

Imerso em seus pensamentos, ele não percebeu quando o outro garoto voltou-se para ele e sustentou seu olhar, curioso. Tsukki se deu conta de que estava encarando Kuroo quando o mais velho sorriu.

Até seu sorriso parecia diferente de alguma forma.

“Você vai continuar embaixo desse guarda-sol pra sempre? Não vai dar nem um mergulho?”

“Não.”

“Mas você já veio até aqui! A parte mais difícil já foi...”

Tsukishima bufou e desviou o olhar, ligeiramente irritado por concordar com Kuroo. Ele já estava lá mesmo. Talvez não fosse uma má ideia.

Provavelmente não.”

Voltou a olhar para o oceano. As ondas estavam pequenas e constantes, o sol estava começando a se pôr. O mar parecia refrescante, e apesar de não estar insuportável, fazia calor afinal de contas. Engoliu em seco: era tentador.

“Eu até iria, mas não posso deixar as coisas aqui sozinh-”

“Tsukki! Kuroo!”

Na mesma hora em que ouviu a voz animada de Yamaguchi, ele conseguiu sentir o sorriso característico de Kuroo se formando. Valeu Yamaguchi. Que timing.

“Ooo sardas! Que apropriado você aparecer agora! Tsukki e eu estávamos indo dar um mergulho. Você pode olhar as coisas do pessoal um pouco?”

Yamaguchi fitou ambos por um momento. Kuroo mantinha seu sorriso e Tsukki franzia o cenho com tanta força que não havia espaço entre suas sobrancelhas. Apesar disso, um leve rubor tingia suas bochechas, e Yamaguchi o conhecia bem demais para saber que ele não era 100% contra a ideia de um mergulho.

Além disso, Yachi estava caminhando em direção a eles e ele queria mais um tempo a sós com ela.

“Claro, vão lá! Divirtam-se!”

A voz dele saiu uma oitava acima do esperado, mas Tsukishima não teve tempo de provocá-lo pois Kuroo tirou seus óculos, colocou-os em cima da toalha de banho e estava guiando-o pela mão em direção à água.

Água parecia uma boa opção para tirar a sensação da mão de Kuroo na sua.

Assim que entraram no mar, ele viu a tensão nos ombros de Kuroo se dissiparem com as ondas que quebravam ao redor deles. Por outro lado, Tsukki sentia seu corpo tensionar com cada passo que eles davam em direção a parte mais funda. Não conseguia enxergar mais o guarda-sol, não enxergava mais as pessoas, quase não enxergava mais a areia.

“Kuroo...” sua voz saiu ligeiramente trêmula e ele se odiou por isso.

O outro rapaz andava um pouco a frente, dando passos firmes contra as ondas. Tsukishima parou onde estava. Não queria mais. Não era o maior fã de mar, e ainda menos quando não conseguia enxergar direito.

“KUROO!”

Tetsurou virou-se rapidamente e, ao ver que o outro estava parado, voltou para onde ele estava, gritando por cima do barulho das ondas.

“O que houve Tsukki? Se machucou?”

Tsukishima sentia-se um idiota e estava envergonhado. O sal da água fazia seu rosto arder e ele tinha que lutar um pouco contra a força das ondas para ficar de pé. Patético. Kuroo logo estava parado bem na frente dele, seu semblante preocupado.

“Tsukki? Você ta bem?”

“Estou… é que…”

Era difícil não ficar nervoso sob o olhar intenso de Kuroo, que o examinava em busca de ferimentos ou qualquer outra coisa que pudesse ter feito Kei parar no meio do caminho.

“Pisou em alguma coisa? Sentiu algum bicho encostar em você? Ta queimando?”

“Kuroo. Eu já disse que estou bem.” Tsukishima esticou os braços e segurou o outro pelos ombros, fazendo com que o olhar intenso fosse dirigido diretamente à face dele. Contrastando com o resto do mundo, ele conseguia ver o rosto de Kuroo perfeitamente, ainda mais estando tão perto. Era meio desconcertante. Ele bufou. “Como você sabe, eu estou sem óculos.” O outro rapaz prestava muita atenção nele, o que o deixava ainda mais nervoso. “Seria legal se você não saísse correndo na minha frente e me largasse pra trás quando eu nem enxergo mais o caminho de volta.”

“Putz, verdade. Foi mal, Tsukki.” Kuroo esticou o braço e bagunçou o cabelo de Tsukki, que retraiu-se ao contato e finalmente soltou os ombros do outro. Viu a marca de suas mãos e não pode esconder a surpresa quando percebeu que estivera apertando tanto. Não teve tempo de pensar muito, porém, porque Kuroo deslizava o braço por seus ombros e o guiava de volta alguns metros. Torceu o nariz.

“Você ta grudento.”

Kuroo olhou para ele, ligeiramente surpreso, e riu.

“Você também, estão estamos quites.”

Tsukishima bufou e Kuroo abriu seu sorriso costumeiro.

Num momento que Tsukki já não se lembrava com clareza, as provocações tornaram-se brincadeiras e então estavam fazendo guerra de lama, pegando a areia de dentro do mar e jogando um no outro. Sem seus óculos, Kei estava com dificuldades para acertar o outro, que se movia freneticamente e se aproximava cada vez mais.

Quando Kuroo finalmente o alcançou, porém, Tsukki estava preparado com dois punhados de lama para atacá-lo na distância corpo-a-corpo. Kei deu um passo pro lado e Tetsurou passou direto por ele. Sem pensar duas vezes, esticou os braços e esfregou a lama com vigor nas costas do outro, que deu um gritinho de surpresa e virou-se rapidamente.

“Tsukishima Kei! Você joga sujo!”

“Não sou eu que tenho lama até nas costas.”

“Você tem lama no seu cabelo!”

“Mas não nas costas.”

“Ohoho! Não comemore sua vitória por muito tempo!”

Kuroo arremessou-se contra Tsukki, que tentou desviar mas não conseguiu. Por ser mais forte, ele conseguiu segurar o mais jovem contra si enquanto ele tentava se desvencilhar de todas as formas possíveis. A areia arranhava a pele de ambos, mas eles estavam se divertindo. Ainda brigando de mentirinha, Kuroo virou Tsukishima para si num abraço meio esquisito. Sorriu. E recebeu um sorriso de volta. Foi estranho. Ver Tsukki sorrindo assim tão sinceramente, e tão de perto. Soltaram-se rapidamente, tentando não deixar o momento mais estranho ainda.

Kuroo coçou a nuca, visivelmente constrangido. Ele parecia querer falar alguma coisa, e essa coisa parecia séria, pois ele havia virado o rosto e encarava o horizonte, a testa ligeiramente franzida.

Será que ele finalmente vai falar por que está agindo como se fosse o fim do mundo?

E então, sem avisos, um par de braços fortes pegou Kuroo e puxou-o para trás, derrubando-o na água. Tudo aconteceu muito rápido, e ele não teve reação até ver Bokuto emergir, sorrindo de orelha a orelha e fazendo um sinal de vitória.

“E aí, Tsukishima, o que achou do meu super ataque especial?”

Tsukki tentou segurar o riso, e até estava conseguindo, quando Kuroo levantou-se atrás do amigo. Seu cabelo, que não era o mais arrumado de todos, estava todo para baixo. Dividido no meio. Tsukishima teve um ataque de riso que o deixou sem ar, acompanhado pelos gritos de Bokuto (“Bro, você ta ridículo!”) e de Kuroo (“Eu não estaria se ALGUÉM não tivesse resolvido me pegar desprevenido!”). Tsukki gargalhava. Estava feliz por ter ido, afinal.

Estava tão ocupado rindo que não percebeu o olhar de incredulidade dos outros dois jovens, pegos de surpresa pela reação sincera e espontânea. Bokuto ainda sorria, cutucando as costelas do amigo com o cotovelo. Kuroo estava, literalmente, de queixo caído. Era a primeira vez que o viam rindo tanto e tão despreocupadamente.

Talvez Kuroo tenha ficado vermelho. Talvez.

Depois de um tempo, Tsukishima conseguiu parar de rir, sua barriga doendo e os olhos cheios de lágrimas. Nem lembrava mais o motivo da crise de gargalhadas, mas sabia que aquele era um momento que ele não esqueceria tão cedo.

Voltaram para a areia com o sol se pondo às suas costas, o vento frio que anunciava a chegada da noite fazendo o trio se arrepiar. Bokuto logo saiu correndo, provavelmente indo atrás de Akaashi ou Hinata. Tsukishima e Kuroo continuaram andando lentamente lado a lado. Apesar de ter sido contra o passeio no começo, ele havia se divertido muito (embora não fosse admitir isso tão cedo) e agora não conseguia apagar o sorriso de sua cara. Entrelaçou os dedos na frente do corpo e franziu a testa. Queria agradecer o outro, mas não sabia como. Depois de alguns passos, sentiu a mão de Kuroo em seu ombro e virou-se para ele.

O céu estava vermelho e laranja, os tons do por-do-sol tomavam-o por inteiro. Sentiu seus olhos ficarem ofuscados por alguns instantes, enquanto se acostumavam com a claridade. Não demorou para que ele se deparasse com o olhar intenso de Kuroo, combinado com seu sorriso padrão. Era intimidador, mas ao mesmo tempo era extremamente contagiante. Ele parecia realmente feliz

“Obrigado por vir, Tsukki.”

Ele não sabia se o ardor em suas bochechas era dos últimos raios de sol, de alguma queimadura adquirida durante o dia ou se era apenas vergonha mesmo.

Resolveu arrumar os óculos apenas para descobrir que eles não estavam em seu rosto, fazendo com que ele se sentisse ainda mais patético e envergonhado.

Virou o rosto para esconder o sorriso que estava ameaçando se formar.

“Não me chame assim.”

—--

Ele abriu os olhos e percebeu que provavelmente estava muito atrasado para sua aula. Terminou seu café sem pressa e levantou-se, esticando os braços pra cima o máximo que conseguia.

Já fazia quase um ano dessa viagem.

O tempo passa depressa…

Há meses que ele não via Kuroo. Eles ainda trocavam algumas mensagens de vez em quando, mas nada comparado a algum tempo atrás, quando conversavam quase todo dia.

Ao contrário do machucado em sua mão, a ausência dele ainda doía.