Fora de Si
4 Aquela do soco
Tsukishima sentia-se frustrado. Frustrado de uma forma que nunca havia se sentido antes, frustrado com a vida, com o universo, com o time, mas, acima de tudo, consigo mesmo. Como deixara as coisas chegarem àquele ponto? Era inadmissível.
Patético.
Ele queria gritar, queria chorar, queria correr. Queria dar vazão a tudo o que sentia. Mas no momento em que eles se alinharam para cumprimentar o outro time, ele manteve a mesma expressão séria de sempre e curvou-se o mínimo possível, segurando mão atrás de mão sem demonstrar qualquer emoção.
Patético.
Mesmo não querendo, ele havia se empenhado. Ele havia dado o seu melhor. Ele havia treinado, se machucado, suado, sofrido, mesmo quando havia prometido a si mesmo que não o faria.
Ele havia se entregado a apenas um clube de colegial e agora sentia na pele o gosto amargo de uma derrota que poderia ter sido de qualquer um dos times. Eles perderam. Era o fim. Sua carreira de jogador colegial acabava naquele momento, com aquela derrota na final.
Nunca mais iria jogar vôlei.
Não queria mais.
Era muito esforço pra nada.
Era patético.
Andava a esmo pelo ginásio, trombando com várias pessoas no caminho sem se preocupar em pedir desculpas. Sua mente estava a mil, relembrando seus jogos desde o primeiro até o que acabara alguns minutos atrás.
Levantou a mão para proteger os olhos do sol, o vento gelado cortando seu rosto.
Quando ele havia saído do ginásio principal?
A escuridão entre as paredes do vestiário do terceiro ginásio era ideal para descansar e botar as ideias no lugar.
Quando ele havia entrado ali?
Tsukishima encostou-se na parede e respirou fundo, recobrando sua compostura. Após uma eternidade, pode sentir suas emoções diminuindo e seu coração voltando ao ritmo normal. Secou o rosto com a camisa, ainda úmida de suor.
Ele não havia trocado de roupa?
“Tsukki?” uma voz familiar ecoou pela sala.
Desde quando ele estava ali?
Kuroo Tetsurou era uma das últimas pessoas que Tsukishima queria encontrar naquele momento. Se ele estava naquele estado, era parcialmente por culpa do ex-capitão da Nekoma, que havia insistido tanto para que ele se esforçasse e se divertisse. Tsukki, porém, não tinha forças o suficiente para discutir ou até mesmo provocar o outro, resignando-se em continuar apoiado na parede e olhando para seus pés.
Não queria desabar na frente do outro.
Kuroo, por sua vez, encostou-se na parede do lado dele e não disse nada. Apenas ficou ali, lhe fazendo companhia.
Depois de um tempo, a tensão se dissipou e Tsukishima deixou o corpo relaxar contra a parede. Escorregou por ela e sentou-se no chão, apoiando a cabeça nos braços e os braços nos joelhos.
Kuroo permaneceu em pé a seu lado. Sua presença era, ao mesmo tempo, desconfortável e familiar. Ele não conseguia discernir se estava incomodado ou agradecido.
“Por que está aqui, Kuroo-san?” Sua voz estava rouca, abafada.
“Vim ver como você está… O jogo foi bem acirrado e qualquer time poderia ter ganhado.”
“... Mas nós perdemos.” Tsukishima interrompeu o outro, sentindo a frustração revirar seu estômago novamente.
“É… Eu sei. De qualquer forma, fiquei impressionado com o seu desempenho e com sua liderança. Nem parece a mesma pessoa que…”
“Vai ficar jogando na minha cara que você me ajudou dois anos atrás?”
“Hein? Calma lá, Tsukki.”
“Não me chame assim.”
“Você sabe que é verdade que você mudou bastante… E para melhor.”
Tsukishima riu secamente. “O que seria ‘para melhor’? Sentir raiva? Ficar nervoso com coisas que não me importava? Isso não é ‘para melhor’. Sua definição de melhor é muito estranha, Kuroo.” As palavras foram ditas de forma ríspida e hostil, cuspidas com desdém e raiva.
“Não fui isso que eu q-”
“Claro que não, você queria que eu sentisse algo né, queria me ver quebrado, irritado, queria alguma reação…”
Em algum ponto da discussão, Kei havia se levantado e agora estava frente a frente com Kuroo. Gostava de ver como havia crescido e ficado alguns bons 5 centímetros mais alto do que o outro, isso fazia com que ele se sentisse mais forte ainda que não fosse.
Gostava de se sentir intimidador.
Mas o outro rapaz não parecia intimidado, apenas… chateado?
A frustração o atingiu em cheio novamente. Que direito Kuroo tinha de olhar para ele daquele jeito?
Kei sentiu mais do que viu quando o rapaz mais velho respirou fundo e levantou um pouco o queixo para olhá-lo diretamente. Parecia um desafio.
Ele encarou como um desafio.
Aquilo era novo.
Tsukishima sentia seu corpo vibrar de adrenalina e raiva enquanto observava o outro rapaz atentamente.
“Não era esse tipo de reação que eu esperava.”
“O que você quer de mim então? Me deixa em paz.”
“Eu não quero nada de você.”
“Então por que você está aqui?!”
“Eu já disse, só vim ver como você estava. Você saiu do ginásio e parecia alterado, eu só queria trocar meia dúzia de palavras com você.”
“Ah claro, agora que você já conversou comigo, que tal ir embora?”
“Entendo como você se sente.”
“Não, você não entende.”
Kuroo respirou fundo, derrotado. Tsukishima estava segurando-o pela frente de seu moletom, empurrando-o contra a parede.
Desde quando Tsukki estava nessa posição?
“Tsukki, eu sei que você está frustrado e-”
“VOCÊ NÃO SABE COMO EU ME SINTO, ERA MUITO MELHOR QUANDO EU NÃO SENTIA NADA. ESTARIA MUITO MELHOR SE NÃO TIVESSE CONHECIDO VOCÊ. A CULPA DISSO É SUA.”
“Tsukki-”
“NÃO ME CHAME ASSIM. SAIA DA MINHA FRENTE.” O mais jovem arremessou o outro na parede, dando alguns passos para trás. Kuroo olhou para ele e franziu o cenho, visivelmente irritado.
"Ei, só vim ver como você estava. Não precisa disso. Eu já passei por isso e sei como você se sen-"
Kuroo foi rudemente interrompido pela colisão do punho de Tsukishima com a parede, bem ao lado de sua cabeça.
"VOCÊ NÃO TEM IDEIA DE COMO EU ME SINTO. EU NEM LIGAVA PRA ESSE CLUBE IDIOTA ATÉ VOCÊ ESFREGAR NA MINHA CARA QUE EU ERA UM LIXO. E TUDO ISSO PRA QUE? PRA QUE EU ME ESFORCEI TODOS ESSES ANOS? PRA QUE EU TREINEI Se tudo termina assim?" a voz de Tsukishima falhou no final da frase, e ele engoliu um soluço. Não ia chorar. Não ali. Não agora. Sua mão doía muito e ele sentia algo viscoso e quente na ponta de seu punho.
Kuroo não disse nada. Olhou para o mais jovem, sua expressão ilegível, e saiu da sala.
Não olhou para trás.
Não disse nada.
Apenas se foi.
Kei ficou observando a porta fechada por alguns momentos, absorvendo a informação de que estava sozinho novamente e de que havia acabado de machucar — não só física como emocionalmente — uma das pessoas a quem mais devia gratidão.
Sentia-se um idiota.
Era um idiota.
E então desabou, a adrenalina da discussão fazia seu corpo tremer. Deixou o corpo cair em um dos bancos do vestiário e enterrou o rosto nas mãos, respirando fundo.
Era um idiota e havia acabado de discutir com uma pessoa que era importante para ele. Alguém que mesmo com a distância e a universidade e a vida completamente diferente da dele se dava ao trabalho de estar sempre presente. Alguém que ele considerava uma constante em sua vida. Exceto que, agora, já não tinha tanta certeza se o outro continuaria sendo uma constante.
Tudo aquilo por causa do vôlei.
Era patético.
Sentiu a primeira lágrima de frustração escorrer e parar em seus óculos, mas estava determinado a não chorar. Não ali. Não agora.
Tirou os óculos e debruçou-se na pia, abrindo a torneira e enfiando a cabeça embaixo da água gelada.
Deixara um gosto horrível. Era amarga e rasgava sua garganta e enchia sua cabeça e seus pulmões e suas mãos não paravam de tremer. Aquela havia sido a pior derrota de sua vida. Uma que ele tinha certeza que poderia ter evitado caso tivesse se esforçado um pouco mais, treinado um pouco mais, pulado um pouco mais alto. Falhara com seu time, devia ter sido um capitão melhor. Falhara com seus companheiros de time, com Hinata e Kageyama, aqueles dois imbecis que mereciam aquela vitória muito mais do que ele. Falhara com Yamaguchi, seu melhor — e, por muitos anos, único — amigo, cujos saques flutuantes agora eram temidos por todo o distrito, mas que não seriam reconhecidos pelo resto do país. Falhara com os mais novos, que o enxergavam como um exemplo a ser seguido, por mais que ele odiasse aceitar isso. Falhara com todos que já haviam sido seus companheiros em quadra, que tinham ido assistir o jogo.
Deixara todos para trás sem explicações ou avisos.
Ele olhou para o espelho.
Por um segundo inteiro, Tsukishima sustentou seu próprio olhar no reflexo. Depois, virou o rosto. Sentia-se ridículo e idiota por ter fugido, um fracassado patético que não soube apoiar seu time quando ele mais precisou. Um babaca.
Mas ele também era o capitão. Ele deveria estar dando suporte para os primeiro e segundo anistas, devia estar consolando aqueles dois idiotas e Yamaguchi.
Fechou a torneira e deixou que a água gelada escorresse por mais alguns segundos antes de levantar a cabeça. Era hora de encarar a verdadeira face da derrota, os ‘e se’, e os arrependimentos.
Antes que saísse do vestiário, porém, sentiu o coração bater na ponta de seu punho, em cada ossinho embaixo da pele esfolada. Doía menos do que sua cabeça. Menos do que seu orgulho ferido. Menos do que a culpa de ter agredido Kuroo. Mas ainda assim, sua mão doía muito.
Soltou um silvo irritado quando a água gelada bateu diretamente sobre a parte esfolada, fazendo tudo arder, e se amaldiçoou por ter agido daquela forma irracional. Não era de seu feitio, e ele sentia-se muito idiota. A expressão de Kuroo não saía de sua mente. Ele parecia desapontado. Machucado. Surpreso. Irritado. E algo mais.
Apesar da dor, o machucado não parecia grave e estava parando de sangrar.
Ao contrário do fluxo de pensamentos em sua mente, que continuavam de forma vertiginosa, espiralando até chegarem num ponto central: ele era o capitão. Ele devia estar lá para seu time. Ele devia voltar.
Ele iria fazer isso agora.
As palavras de Kuroo ressoavam em sua mente, como um mantra.
Qualquer time poderia ter ganhado, mas dessa vez, não havia sido o dele. Não era culpa de ninguém em particular. Não era algo que pudessem mudar. Não era algo que ia destruir a carreira de quem realmente se interessava pelo esporte.
Mas ainda assim era uma derrota, e uma das mais amargas.
Reuniu seus pensamentos e voltou a vestir os óculos, abrindo a porta do vestiário do ginásio 3. O vento gelado parecia cortar seu corpo, que ainda estava quente por causa do jogo e da adrenalina — e do soco, seu cérebro fez questão de lembrar.
Tirou esses pensamentos da cabeça e se concentrou no que realmente precisava se concentrar no momento. Era hora de encarar sua última derrota como capitão de Karasuno.
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