Fora de Si

5 Aquele das desculpas


Ao fim da segunda semana de aulas, finalmente aconteceu.

Tsukishima estava indo de um prédio para o outro, headphones sobre as orelhas e o típico olhar de indiferença profunda em seu rosto. Ele realmente não poderia ligar menos para o ambiente a seu redor, que estava especialmente barulhento por causa do clima agradável e do céu sem nuvens. As pessoas pareciam andar em bandos cada vez maiores e mais falantes, uma risada ou outra ultrapassando a barreira de isolamento de som que seus fones proporcionavam. Bufou. Só queria chegar logo na sua próxima aula, ainda que ela fosse do outro lado do campus.

Continuou andando em seu passo apressado quando avistou uma cabeleira conhecida logo adiante.

Kuroo estava sentado em frente a um dos cafés de dentro do campus. De certa forma, ele parecia muito mais velho, mas talvez fosse porque Tsukki não o via há algum tempo. Congelou ao avistá-lo. Kuroo não havia notado sua presença ainda, e, aproveitando a oportunidade, Tsukishima resolveu observá-lo.

O sol fazia com que ele apertasse os olhos para enxergar. Havia uma barba rala adornando o queixo de Kuroo, e seus ombros pareciam mais largos. O cabelo… bom, o cabelo continuava exatamente como se lembrava, espetado para todos os lados como se ele tivesse acabado de acordar.

E julgando pela cara de sono dele, talvez ele realmente tivesse acabado de acordar.

Kuroo parecia estar esperando alguém, observando calmamente cada um que passava a sua frente enquanto bebericava seu café-para-viagem. Kei bufou novamente, apreensivo. Tudo o que menos precisava no momento era drama e raiva, e no entanto lá estava ele, parado no meio do campus e encarando o outro.

Que, agora, estava encarando-o de volta.

Engoliu em seco e sustentou o olhar do outro, sentindo-se incapaz de quebrar o contato. Kuroo levantou a mão e o cumprimentou com um aceno. Era como se uma foto resolvesse se mexer de uma hora para outra. Tsukki piscou algumas vezes antes de assentir com a cabeça. Kuroo continuava na mesma posição, sentado displicentemente na frente do café, a mão que havia acenado de volta para seu colo.

Nada de drama, de raiva. Nada de convite. Nada de nada.

Tsukishima sentiu como se seu estômago fosse um buraco negro que o estava consumindo de dentro pra fora.

Sua mente se desligara e ele não conseguia pensar em nada. Suas pernas, por sorte, não falharam e começaram a mover-se quase que imediatamente, levando-o em direção à sua próxima aula.

Chegou no prédio sem fôlego (desde quando ele estava correndo?!) e sentou-se no fundo da sala. Seu rosto ardia e ele arfava, incapaz de focar sua atenção à aula que começara assim que ele chegou. Ao invés disso, sua cabeça achou que seria uma boa hora para ruminar os acontecimentos do passado, alternando entre deixá-lo com raiva de si mesmo, culpado por ter deixado seu orgulho falar mais alto e regado em uma certa dose de amargura. Amargura essa que se originava do fato de que Kuroo parecia estar seguindo sua vida normalmente, ainda que Tsukishima estivesse remoendo a briga durante todo esse tempo.

É claro que está vivendo normalmente, idiota. Ou você achou que ele ia sentir sua falta?

Seus pensamentos não paravam de girar ao redor do assunto, que martelava insistentemente. Tsukishima só conseguia pensar que para ele a perda fora muito maior, afinal, Kuroo tinha dezenas de outros amigos. Centenas. Milhares. Não é como se ele fizesse diferença. Não é como se ele fosse algo além de uma decepção, algo além de “aquele calouro que adotei e me decepcionou”.

Mas talvez, talvez, Tsukki tivesse esperança de que ele significava mais do que isso.

—--

Era plena tarde quando Tsukishima chegou no apartamento de Akiter- seu apartamento e deixou seu corpo cair pesado sobre o sofá.

Patético.

Tirou os óculos e cobriu o rosto com um dos braços, respirando fundo e tentando se acalmar. Seu corpo ainda irradiava calor, a adrenalina ainda corria em suas veias e sua respiração ainda estava descompassada. Doía. Não era para ser assim.

Sua mente o levou de volta para seu último ano do colegial.

Lembrou-se dos treinos puxados e de comandar a equipe, de confiar em seus colegas para motivarem o time enquanto ele os mantinha na linha.

Lembrou-se do acampamento e da bagunça na praia, dos jogos acirrados que mais pareciam com final de campeonato do que um simples set de treino. Lembrou-se do calor, das vitórias e das derrotas, lembrou-se do gosto doce da melancia e de como os primeiro-anistas haviam ficado encantados com tudo.

Lembrou-se de seu primeiro acampamento de treinos e não pode conter um sorriso, afinal, se não fosse por essa viagem ele não teria chegado tão longe.

Fora trabalhoso, fora cansativo, mas se ele tivesse a chance de voltar atrás, faria tudo de novo.

Bom, quase tudo.

Passou horas deitado no sofá olhando para o teto, ponderando o que deveria fazer. A brisa que vinha da janela o acalmava e trazia consigo o murmurinho da cidade lá fora. A agitação, tanto interna quanto externa, foi aquietando-se e lentamente cedeu lugar à calma, ao pensamento racional e às estrelas no céu noturno. A amargura e o sentimento de rejeição foram substituídos por culpa.

Tsukishima detestava admitir que estava errado. Preferia fechar a cara e encarar as consequências de seu mau humor do que assumir um erro e pedir desculpas. Por isso, quando finalmente admitiu que estava sendo um babaca desde sempre, foi como se o universo saísse de eixo, deixando-o confuso e ameaçando deixar uma dor de cabeça também.

Estava errado esse tempo todo, e com essa nova informação ele foi capaz de relaxar e pensar com clareza.

Ele ainda gostava de vôlei.

Levantou-se e tomou um banho rápido, deixando a água gelada despertar seus sentidos.

Ele não tinha que lidar com seus problemas sozinho.

Lembrou-se da conversa com Yamaguchi e com sua cunhada, as palavras ditas a tanto tempo ainda frescas em sua mente.

Ele havia sido um babaca por muito tempo.

Trocou mensagens com Kenma, conseguindo as informações que precisava e um “boa sorte”.

Vestiu-se e abriu a porta da frente, sentindo o vento gelado contra seu rosto. Respirou fundo e começou a correr.

Ele precisava pedir desculpas.

—--

O dia havia sido muito estranho para Kuroo.

Acordara atrasado. Seu despertador não disparou por algum motivo cármico do universo e Kenma não o havia chamado... ou pior: chamou e ele não ouviu. Pulando da cama e correndo para o banheiro, pegou a primeira roupa que viu pelo caminho para ter tempo de tomar uma xícara de café antes de sair. Infelizmente, sua cafeteira tinha outros planos, e resolveu que aquele era o dia perfeito para deixar de funcionar. Reclamando e xingando em voz alta, Kuroo saiu de casa usando uma meia de cada par e uma das camisetas de jogo que com certeza não lhe pertencia, se o comprimento podia ser considerado um indicativo.

Seu humor já não estava dos melhores, e ele teve de passar o primeiro período (uma bela aula dupla de biologia) esforçando-se ao máximo para não dormir.

Resolveu ir até uma das cafeterias do campus para consumir sua dose matinal de cafeína, e, como o dia estava bonito, decidiu sentar-se em uma das mesas ao ar livre, coisa que nunca fazia. O calor ameno estava agradável e ele observava o fluxo constante de pessoas que passavam por ele sem compromisso, apenas deixando que os efeitos do café fizessem sua mágica enquanto o sol esquentava seu corpo.

Até que uma pessoa parada no meio do caminho chamou sua atenção, primeiramente por ser a única pessoa parada no meio do caminho, e em seguida por ser uma pessoa alta e meio difícil de não enxergar.

O sol ofuscava sua visão, mas ele logo reconheceu seu ex-pupilo. Sentiu como se suas entranhas fossem puxadas todas para o chão, e por uma fração de segundo não soube como agir.

Aja naturalmente.

Levantou a mão e deu a Tsukishima um aceno breve e cordial. Também se deu um tapinha nas costas em sua imaginação, parabenizando a si mesmo por ser tão polido e educado com uma das pessoas que ele menos queria ver naquele campus. Talvez na vida.

Talvez estivesse sendo dramático demais e seu peito estivesse doendo não por mágoa ou por raiva, mas por saudade das conversas despretensiosas e sem sentido que tinha com Tsukishima.

Viu o outro jovem se distanciar.

Nada de drama, de raiva. Nada de reconciliação. Nada de nada.

Suspirou e voltou a tomar seu café, que agora estava mil vezes mais amargo do que antes.

Que droga, Tsukki.

—--

[Tsukishima] Boa noite, Kozume. Esse ainda é seu número?

Kenma franziu a testa e o nariz ao ver o remetente da mensagem. Não detestava o rapaz, até que gostava dele, mas não se falavam desde aquele fatídico dia e Kenma tivera que lidar com um Kuroo deprimido por um bom tempo… e tudo era culpa dele.

Ponderou por alguns instantes se devia responder, mas acabou cedendo à curiosidade de ver o que Tsukishima queria.

[eu] É sim, Tsukishima. Aconteceu alguma coisa?

Deparou-se com o dilema de começar uma partida nova em seu jogo ou esperar pela resposta, que viria em breve. Resolveu levantar e ir buscar um copo d’água, ou seja, resolveu dar uma chance para Tsukishima. Sabia o que acontecera após a derrota e sabia como Kuroo havia ficado abalado com a briga, por mais que não demonstrasse. Mas era apenas um dos lados da história. E Kenma sabia melhor do que ninguém que, as vezes, Kuroo passava dos limites e magoava as pessoas. Era raro, mas não impossível.

Além disso, estava muito curioso.

Tsukishima está digitando…

Bebeu toda a água enquanto olhava para o celular, tentando se distrair com alguma coisa. O outro rapaz devia estar escrevendo uma dissertação de vinte e cinco linhas, a julgar pela demora.

Largou o celular em cima da mesa e deixou o copo na pia, abrindo a geladeira para ocupar o tempo de espera pela próxima mensagem de Tsukishima.

[Tsukishima] Mais ou menos. Preciso do endereço do Kuroo, se não tiver problema.

Heh. Ele deve ter digitado milhões de mensagens diferentes e resolveu me mandar a misteriosa.

Obviamente, não era tão misteriosa assim. Sendo o rapaz esperto que era, Kenma já sabia mais ou menos os motivos do interesse repentino de Tsukishima em visitar a casa deles. Mas não faria mal algum confirmar, certo?

[eu] Hm. Não vou sair dando o nosso endereço assim. O que você vai fazer?

A resposta foi quase instantânea.

[Tsukishima] Eu sou um idiota e eu quero acertar algumas coisas com ele. Vou entender perfeitamente se você não quiser me dar o seu endereço, posso me encontrar com ele em outro lugar.

Finalmente, pensou ele, enquanto voltava rapidamente para seu quarto e trocava de roupas. Não queria estar em casa quando Tsukki chegasse lá.

Sorriu.

[eu] Rua x, número tal. Kuroo chega em casa daqui 10 minutos. Boa sorte.

[Tsukishima] Obrigado, Kozume.

[eu] :)

Agasalhou-se e, ao fechar a porta, mandou outra mensagem.

[eu] Shouyou, estou indo para a sua casa.

[Shouyou] YAY! mas pq?

[Shouyou] quer dizer, n quero que vc pense que n quero vc aqui mas é que

[Shouyou] assim do nada?!

[eu] Kuroo precisa de um tempo pra ele.

[Shouyou] ehhhhhhhhhhhhhhh

[eu] Chego aí em 20 minutos.

[Shouyou] okaaaaaaay! (๑•̀ㅂ•́)و✧

[Shouyou] te encontro no lugar de sempre

[eu] Ok.

Aquela seria uma noite interessante.

—--

Kuroo chegou em casa meia hora depois. Sua última aula durou mais do que o planejado, já que o professor resolvera chamar cada aluno individualmente para fazer comentários sobre seus desempenhos na prova mais recente. Desempenho que não havia sido muito satisfatório no caso de Kuroo, ou seja, os minutos reservados para falar com ele foram preenchidos com desapontamento, sermões e puxões de orelha. Tudo o que ele precisava.

Chegou em casa ansioso para reclamar do dia com Kenma, que provavelmente estava grudado em seu novo jogo, mas logo percebeu que algo estava errado. Num geral, Kenma era silencioso, com as raras exceções de grunhidos de frustração em chefões particularmente difíceis ou fases de água. Dessa vez, porém, Kuroo não ouvia nada além de sua própria respiração dentro da casa.

A casa estava imersa em silêncio e nenhuma das luzes estava acesa.

Bufando, Kuroo tirou os sapatos e a jaqueta, largando-os no meio da sala. Ia tomar um banho e se recuperar do dia de merda que estava tendo. Ficou profundamente chateado ao procurar por Kenma e descobrir que ele realmente não estava, saindo sem sequer avisá-lo. Kuroo jogou o corpo na cama do outro e mandou uma mensagem para ele, preocupado. Não era de seu feitio sumir assim, muito menos sem avisar. Impaciente, ele observou o quarto a seu redor por algum tempo até se cansar e levantar-se. Ao fazer isso, porém, sentiu que tinha algo de diferente no cômodo.

A pilha de jogos parecia menor. Examinando de perto, ele viu que os jogos de esporte e de luta não estavam lá, o que indicava que, muito provavelmente, Kenma estava na casa de Hinata.

Kuroo não pode conter um sorriso, apesar de ainda estar bravo.

Resolveu continuar seu plano original e foi tomar um banho, ainda pensando sobre quem poderia ser a vítima de seu mau humor. Kenma estava ocupado. Pensou em ligar para Bokuto, mas achou que seria muito cara de pau, até mesmo para os padrões dele. Akaashi também estava fora de cogitação, e ele não ia ligar para um de seus calouros da Nekoma só para reclamar.

Ele poderia ligar para Tsukishima, se isso tivesse acontecido a um ano atrás.

Ele poderia ligar para Tsukishima, se não estivesse tão bravo com ele.

Ele poderia ligar para Tsukishima, se eles ainda fossem amigos.

Mas não eram mais, não depois da briga e da frieza com que haviam se tratado hoje.

Que definitivamente não era o que ele queria.

Kuroo repousou a cabeça na parede, a água açoitava suas costas enquanto ele deixava toda a raiva se dissipar como o vapor. Não tinha muito o que fazer, de qualquer forma, e não é como se o dia pudesse trazer-lhe ainda mais estresse agora que ele estava em casa e sozinho.

Vestiu-se e estava no processo de escolher um filme para assistir quando ouviu batidas insistentes na porta.

Kenma deve ter esquecido alguma coisa.

Arrastou-se até a entrada, reclamando em voz alta.

“Ei, Kenma, você não sabe que dia de merda eu estou tendo hoje. Até encontrei o Tsukki na frente do ca…”

As palavras tornaram-se silêncio em sua boca quando ele abriu a porta e viu que quem estava lá não era Kenma.

Arfando e com o rosto coberto por minúsculas gotículas de suor, Tsukishima mal teve tempo de recuperar sua dignidade antes de ouvir a voz do outro, ríspida e grave.

“E então, Tsukishima, o que te traz aqui?”

Ele sustentou o olhar de Kuroo, devolvendo-o com a mesma intensidade. Não deixou sua voz estremecer quando falou:

“Precisamos conversar.”

“Hm? Precisamos?”

“Sim. Posso entrar?”

“Claro, fique a vontade.”

Notas finais
Fim! Espero que tenham curtido essa jornada! A fic está escrita desde o final de 2015, mas eu tinha travado no terceiro capítulo e não conseguia terminar de escrever de jeito nenhum. Sério. Perdi a vibe de escrever, perdi o fio da meada, perdi o tempo que tinha pra escrever. MAS Tamos aí, e a fic ta postada :) Obrigada pelos comentários no Whats, nas DMs, aqui no site - eu largaria essa fic pra sempre não fosse por vcs, sério ♥ Enfim, espero que tenham aproveitado um pouquinho pelo menos, não é uma obra prima mas é de coração!