Fora de Protocolo - concluída

25 Planos para um Domingo


— Deixa eu ver se eu entendi bem, Montserrat — Helena disse através do viva-voz do carro, a voz misturando descrença e divertimento. — Você quer que eu minta para a minha amiga, monte uma emboscada de domingo à tarde no parque, dê um bolo nela no último minuto, tudo para que você possa aparecer de surpresa com um cachorro vira-lata e um pote de sorvete?


— Exatamente.


— Você tem algum problema.


— Tenho. Ela. — respondi, mantendo os olhos na estrada enquanto dirigia de volta para a Zona Sul após deixar a Lívia no apartamento dela. A boca dela ainda parecia quente contra a minha na despedida apressada que tivemos no corredor, e o cheiro do perfume dela estava impregnado no meu estofado. — E preciso que você faça isso parecer a ideia mais orgânica e casual do mundo.


— Gustavo, isso é assustadoramente manipulador, sabia?


— Não é manipulação, Helena. É economia comportamental aplicada às relações humanas — justifiquei, com a maior naturalidade do mundo. — Charles Duhigg explica no livro dele que, para consolidar um novo hábito na mente de alguém, você não pode deixar um hiato grande entre a deixa e a recompensa. Se eu der vinte e quatro horas de silêncio para a Lívia no domingo, o cérebro dela vai categorizar a noite espetacular que tivemos como uma "anomalia de percurso". Ela vai racionalizar tudo, reerguer as defesas de forma pragmática e amanhã de manhã na fundação eu vou receber um aperto de mão formal. Eu preciso quebrar o padrão. Preciso que o domingo dela seja nosso também.


— Você está usando psicologia para conquistar uma veterinária.


— Estou usando tudo o que eu sei.


Helena soltou uma risada alta pelo telefone.


— Meu Deus, você é um caso perdido. Mas me diz uma coisa... Por que tanta estratégia? Por que você simplesmente não liga para ela, diz que adorou a noite e a convida para sair de novo como uma pessoa normal?


Suspirei, parando no sinal vermelho do Jardim Botânico. Olhei para o banco do carona vazio e me peguei sorrindo ao lembrar da Lívia deitada na minha cama poucas horas atrás.


— Porque eu tentei fazer isso ontem à noite no restaurante — admiti, a voz descendo um tom, perdendo a empáfia corporativa. — Eu estava pronto para abrir o jogo com ela. E ela me atropelou sugerindo um arranjo casual sem compromisso. A Lívia tem muros altos demais, Helena. Se eu for direto, ela se assusta e corre. Eu preciso fazer as coisas no ritmo dela... mas sem deixar que ela escape de mim.


O silêncio do outro lado da linha durou alguns segundos. Quando Helena voltou a falar, o tom dela era infinitamente mais suave e afetuoso.


— Você está realmente apaixonado por ela, não está?


— Estou completamente ferrado — confessei, passando a mão pelo rosto. — Então, por favor, me ajuda a ganhar essa rodada. Além disso...


Passei o polegar pelo volante, lembrando da forma como ela tinha me olhado quando falou do Téo.


— Ontem ela dormiu comigo. Hoje ela vai acordar sendo mãe em tempo integral de novo. Fralda, brinquedo, parque, almoço... Se eu quero fazer parte da vida dela, não posso existir só depois que o filho dela dorme.


— Então você quer entrar na rotina dela.


— Exatamente. Qualquer um pode impressionar uma mulher num restaurante à luz de velas. Eu quero descobrir se ela ainda sorri para mim enquanto o filho dela tenta comer areia e o Bóson rouba o lanche de alguém no parque.


— Tudo bem, Montserrat. Eu ajudo — ela cedeu, suspirando. — Mas se ela descobrir e me odiar, eu juro que conto que a culpa foi toda da sua teoria de hábitos. Onde vocês vão se encontrar?


— Na Quinta da Boa Vista. Tem espaço para o Téo brincar e para o Bóson correr sem coleira.


— Fechado. Vou mandar a mensagem para ela agora. Boa sorte, parceiro. Você vai precisar.


O restante da minha manhã foi uma contagem regressiva irritante. Voltei para a cobertura, tomei outro banho para tentar tirar a sensação de letargia do meu corpo e me peguei encarando o closet. Acabei escolhendo uma bermuda escura, uma camiseta de algodão preta simples e um tênis.


Eu precisava parecer o cara que acorda no domingo e decide, despretensiosamente, levar o cachorro para passear.


O Bóson parecia saber que era o protagonista do plano. Ele sentou ao lado da porta da sala, com a língua para fora e a cauda batendo ritmadamente contra o piso de madeira, esperando eu pegar a guia.


Às catorze e quarenta, o meu celular vibrou no bolso da bermuda. Era uma mensagem curta da Helena.


Helena: Isca fisgada. Ela acabou de confirmar que está a caminho da Quinta com o gordinho. Boa sorte, cérebro brilhante.


Dei um sorriso de canto, guardando o aparelho.


— Vamos trabalhar, Bóson — chamei ele, que deu um latido agudo de comemoração.


A Quinta da Boa Vista estava exatamente como se espera de um domingo ensolarado no Rio de Janeiro: um formigueiro de piqueniques, famílias estendendo cangas na grama, crianças correndo atrás de balões e cachorros de todos os tamanhos tentando se entender.


Estacionei o carro e caminhei devagar pelas alamedas de terra batida, deixando o Bóson ditar o ritmo enquanto farejava cada árvore imperial. Eu segurava a guia com uma mão e, na outra, equilibrava um copo médio de sorvete de duas cores com duas colherinhas plásticas que comprei no quiosque da entrada. Um detalhe bobo, mas eu lembrava exatamente do sabor que ela havia comentado preferir na nossa primeira conversa longa.


Meus olhos varreram a multidão, filtrando o cenário até que a encontrei perto do lago dos pedalinhos.


Lívia estava de costas para mim, inclinada sobre o carrinho de bebê, ajustando o boné do Téo. Ela usava um short de linho claro, uma blusa de alças branca e os cabelos presos de qualquer jeito em um coque frouxo. Era a versão mais desarmada e real dela, e meu peito deu um estalo incômodo de pura posse e uma vontade absurda de pertencer àquele domingo me atravessou.


A poucos metros de distância, vi quando ela puxou o celular do bolso, leu algo na tela e soltou um suspiro pesado, olhando para os lados com uma expressão frustrada. O bolo da Helena tinha acabado de acontecer.


Era a minha deixa.


Soltei metade do comprimento da guia do Bóson.


— Vai lá, garoto. Atinge o alvo.


Ele não precisou de um segundo comando. Ele disparou como um míssil peludo pelo gramado, desviando de um grupo de adolescentes e correndo em linha reta na direção do carrinho. O latido estridente dele ecoou pelo espaço.


Lívia se sobressaiu, virando-se rapidamente com os olhos castanhos arregalados de surpresa.


— Bóson? — ouvi-a murmurar, a voz misturando descrença e choque.


O cachorro apoiou as patas dianteiras na roda do carrinho e começou a abanar a cauda com tanta força que o corpo inteiro dele balançava. Téo, que estava sentado com as bochechas coradas pelo calor, soltou uma gargalhada instantânea, esticando as mãozinhas gordinhas para tentar puxar a orelha do cachorro.


Aproximei-me devagar, parando a dois passos dela. Tirei os óculos escuros e os pendurei na gola da camiseta, deixando que ela visse exatamente o divertimento nos meus olhos.


— Que coincidência encontrar você por aqui.


Lívia estreitou os olhos castanhos, cruzando os braços sobre o peito. Ela olhou para mim, depois para o sorvete, depois para o Bóson que agora tentava lamber a jardineira jeans do Téo, e as engrenagens daquela mente brilhante começaram a girar rápido demais.


— Você mora do outro lado da cidade.


Dei de ombros.


— Moro.


— E resolveu passear justamente na Quinta da Boa Vista?


— O Bóson gosta daqui.


Ela arqueou uma sobrancelha.


— Desde quando?


— Desde... hoje.


Ela soltou uma risadinha pelo nariz.


— Você e a Helena armaram isso — ela afirmou, convicta.


Mas o canto dos lábios dela vacilou, desenhando o início de um sorriso que ela tentou muito esconder de mim. Eu não daria o braço a torcer tão fácil. Dei um passo à frente, diminuindo o espaço pessoal entre nós e deixando que o cheiro do meu perfume a lembrasse do que tínhamos feito poucas horas atrás.


— Eu não faço ideia do que você está falando — mantive a voz mansa. — Aceita um sorvete?


Ela me encarou por mais alguns segundos, aquela resistência teimosa tentando lutar contra a evidência de que eu tinha vencido aquela rodada. Por fim, ela soltou um suspiro dramático e esticou a mão, pegando a colherinha de plástico dos meus dedos.


— Você é um babaca pretensioso, Montserrat — ela murmurou, embora os olhos dela brilhassem com uma doçura que fez meu estômago dar voltas.


— Eu prefiro "persistente". — respondi com sinceridade, abrindo um sorriso largo.


Ela tinha descoberto a armação em menos de dois minutos. Eu já esperava isso. O objetivo nunca foi enganá-la. Era fazê-la rir. E, olhando para aquele sorriso que ela tentava esconder atrás da colher de sorvete, concluí que a operação tinha dado um lucro muito acima do esperado.


— Persistente? — ela repetiu, pegando a colher da minha mão. — Eu chamaria de premeditado.


— Também aceito.


Ela experimentou uma colherada do sorvete e arqueou discretamente as sobrancelhas.


— Doce de leite e coco?


Dei de ombros.


— Você comentou naquele jantar.


Ela levantou os olhos para mim.


— Você lembra disso?


— Eu lembro da maioria das coisas. Das que envolvem você, praticamente todas.


Lívia balançou a cabeça, rindo, e se abaixou para soltar o cinto do carrinho. Téo, que já estava quase pulando de ansiedade, nem esperou ser pego no colo. Assim que os pés tocaram o chão, ele se equilibrou nas pernas gordinhas dentro da jardineira jeans, apontou o dedo gordo para o cão e deu um grito agudo de pura felicidade:


— Au au!


— É o au au, filho. Mas vai devagar — Lívia avisou, ajeitando o boné dele.


Téo ignorou o aviso com a audácia típica de um bebê aventureiro. Correu em passos desajeitados e meio tortos para a frente, quase caindo, mas logo pegou o jeito e começou a marchar rápido na direção do Bóson. O cachorro, percebendo o movimento, deitou a cabeça de lado, abanando a cauda tão rápido que parecia que ia levantar voo.


Soltei a guia do Bóson, deixando que ele ficasse livre, mas ainda perto de nós. O cachorro deu duas voltas ao redor do Téo, correndo em câmera lenta para o bebê conseguir acompanhar, e o pequeno soltou uma gargalhada gostosa, tentando agarrar o vento.


Dei uma risada, parando ao lado dela enquanto observávamos os dois brincando na grama. Téo tropeçou nas próprias pernas e caiu sentado na grama.


Dei um passo automático na direção dele, por puro reflexo, mas antes mesmo que eu o alcançasse ele já tinha colocado as duas mãozinhas no chão e levantado sozinho.


— E isso aí, carinha... — murmurei.


Ele apontou para o cachorro de novo e gritou "Au au!" com toda a força dos pulmões, fazendo o Bóson latir de volta.


— E aí? — perguntei, enfiando as mãos nos bolsos da bermuda e olhando para ela. — Para onde a gente vai caminhar?


Lívia me olhou de lado, com um sorriso que alcançava os olhos.


— "A gente"? Achei que você só estivesse passeando com o cachorro.


— Eu estava. Mas o Bóson me deu um ultimato: ou a gente acompanha vocês, ou ele entra em greve de fome de novo. Qual é o roteiro do senhor Téo agora?


Ela arqueou uma sobrancelha.


— Senhor Téo?


— Imagino que ele seja o responsável pelo planejamento desse passeio.


— É uma ditadura bastante rígida.


— Então vamos seguir as ordens dele.


Ela me olhou por um instante antes de responder. Foi um olhar diferente. Mais calmo e mais aberto. Como se, pela primeira vez, conseguisse me imaginar encaixado naquele tipo de domingo.


— Ele gosta de ver os pedalinhos — disse por fim. — Depois a gente costuma andar perto do lago.


Começamos a caminhar devagar. Eu empurrava o carrinho vazio com uma das mãos, enquanto a outra vez ou outra esbarrava na dela enquanto caminhávamos lado a lado pela terra batida. Téo ia um pouco mais à frente, correndo com os braços abertos atrás do Bóson, que parava a cada dois passos para garantir que o seu pequeno humano não estava ficando muito para trás.


Passear por um parque num domingo, empurrando um carrinho de bebê, com um vira-lata completamente sem educação e uma mulher comendo sorvete ao meu lado, era o oposto absoluto de tudo o que costumava preencher os meus fins de semana.


Durante anos eu acreditei que liberdade era poder ir embora quando quisesse.


Descobri, olhando o Téo correr atrás do Bóson e a Lívia rindo logo à frente, que talvez liberdade fosse encontrar um lugar onde eu simplesmente não tivesse vontade nenhuma de ir embora.


Notas finais
Pra mim, eles são os casal mais fofo que já escrevi 🥰 acho eles muito piticos. Foi um capítulo mais curtinho, mas eu escrevi ele todo sorrindo, amo gente apaixonada