Fora de Protocolo - concluída

26 O Acordo que Não Parece Casual


Notas iniciais
ELA TÁ VIVAAAAAA Sentiram saudades? Por que eu senti, viu… Aí gente, como eu estava com saudade desses dois e de desenvolver o relacionamento deles. Eu estava em um período que vamos chamar de ressaca, onde eu não conseguia escrever NADA, mas passouuuuu e agora to de volta com atualizações frequentes viu mores

Descobri a armação do parque em menos de dois minutos.


A mensagem da Helena dizia que o Arthur tinha "pegado uma virose horrível", que o encontro ia ficar para outro dia e que ela sentia muito, muito, muito, com três pontos de exclamação. O Arthur Harrington tem o sistema imunológico de um cofre de banco. Eu li aquilo de pé, ao lado do carrinho, com o Téo agarrado à minha perna, e ainda estava decidindo se ficava ofendida quando um vira-lata branco de dezenove quilos atravessou o gramado feito um míssil desengonçado e o Gustavo Montserrat apareceu logo atrás, de bermuda e camiseta preta, segurando um copo de sorvete de duas cores como quem carrega um documento oficial.


Eu deveria ter ficado ofendida. Tinha até uma lista de motivos, organizada por ordem de gravidade.


Em vez disso, tomei sorvete de doce de leite com coco, ri de uma piada péssima sobre pedalinhos e deixei que ele empurrasse o carrinho vazio pela alameda das árvores imperiais como se aquilo fosse um assunto de Estado.


O pior é que foi bom.


Foi bom de um jeito bobo, sem nenhuma das vitrines que eu esperava dele. Ninguém olhou para o relógio. Ninguém falou de holding. O Téo perseguiu o Bóson por metade do parque e caiu sentado umas quatro vezes, e o Gustavo, em vez de correr para levantá-lo, ficou onde estava, de braços cruzados, com uma cara de respeito profissional, esperando o menino se levantar sozinho. E ele se levantava. Sempre se levantava. Eu nunca tinha reparado, até ver outra pessoa esperar por isso, quanta paciência existe em deixar uma criança cair.


— Vinte minutos de corrida controlada, no máximo — avisei, com a voz de veterinária, quando o Bóson voltou ofegante e feliz. — Os pinos aguentam, mas a musculatura ainda está aprendendo.


— Anotado — o Gustavo respondeu, e apertou alguma coisa no relógio de pulso. — Alarme de vinte minutos programado.


Fiquei olhando para ele. O homem que coordena uma malha aérea inteira estava programando o alarme do relógio para vigiar o passeio de um vira-lata. Eu não sabia se ria ou se me preocupava comigo.


O Téo apagou dentro do carrinho às cinco e pouco, com o boné torto e uma mancha de sorvete na barriga, e nós dois voltamos para o estacionamento em silêncio, para não acordá-lo. O Gustavo empurrou o carrinho até o meu carro. Ajudou a passar o Téo para a cadeirinha sem que ele abrisse um olho, com uma delicadeza que denunciava que tinha prestado atenção em como eu fazia. E depois ficou parado ao lado da porta, com o Bóson sentado em cima dos sapatos dele, e não me beijou.


Eu percebi porque esperei que ele beijasse. O corpo inteiro esperou.


— Boa noite, doutora — ele disse apenas, ajeitando o boné do Téo com a ponta dos dedos. — Obrigado pelo sorvete.


— Eu não paguei o sorvete.


— Então obrigado por aceitar — Gustavo sorriu para mim.


Dirigi até Laranjeiras com o coração descompassado e a sensação estranha de ter perdido um jogo sem entender qual era o placar.


\* \* \*


Foi só depois que o Téo dormiu de verdade, às oito, e o apartamento ficou naquele silêncio de casa com criança pequena, que eu entendi o tamanho do problema.


Nada do que tinha acontecido naquele domingo estava previsto no acordo. Ninguém tinha combinado parque. Ninguém tinha combinado sorvete, nem a maneira como ele olhou o Téo cair e levantar, nem o fato de que eu tinha acordado naquela manhã numa cama com o cheiro dele e passado o dia inteiro com vontade de ficar mais. E um acordo casual, eu sabia melhor do que ninguém, só funciona quando tem bordas.


Sou veterinária. Eu trabalho com protocolo. Um protocolo que existe só na cabeça das pessoas não é protocolo: é boa vontade. E boa vontade, como eu aprendi da pior maneira, dura até o primeiro imprevisto.


Peguei o celular, abri o bloco de notas e digitei, com a seriedade de quem redige um termo de consentimento cirúrgico:


TERMOS DO ACORDO (v1.0)


1. Ninguém está namorando ninguém.


2. Expediente é expediente. Fundação é fundação.


3. O Téo fica fora da equação.


4. Sem exclusividade, sem cobranças, sem "onde isso vai dar".


5. Cada um cuida da própria vida e não deve satisfação sobre ela.


6. Qualquer um pode encerrar quando quiser, com uma conversa, sem drama.


Li duas vezes. A terceira cláusula me incomodou um pouco, porque o Téo tinha passado a tarde inteira correndo atrás do cachorro de um homem que ele mal conhecia, mas eu deixei como estava. Era uma regra de proteção. Alguma coisa precisava proteger o meu filho.


Enviei antes que me arrependesse.


Lívia: Para evitar mal-entendidos futuros.


A resposta veio em menos de um minuto.


Gustavo: "v1.0" pressupõe uma v2.0.


Lívia: Não pressupõe.


Gustavo: Recebido. Vou imprimir.


Lívia: Você não vai imprimir.


Gustavo: Vou.


Na segunda-feira, quando cheguei à minha sala na Fundação, havia uma folha A4 em cima da mesa, no papel timbrado da instituição, o que era um abuso de recursos institucionais e, ao mesmo tempo, um deleite.


Estava impressa com a minha lista exata, sem mudar uma vírgula. Embaixo, na caligrafia firme dele, feita com aquela caneta cara: De pleno acordo. G. Montserrat. E, em letra menor, uma ressalva: (O Bóson não foi consultado.)


Eram duas vias. Uma para cada um, como qualquer contrato decente. Guardei a minha na gaveta debaixo dos prontuários, atrás do carregador do celular, onde ninguém procuraria. E fiquei um bom tempo olhando para a ressalva, tentando decidir se estava irritada.


Não estava.


Essa foi a primeira pista, e eu ignorei.


Almocei com a Malu naquele mesmo dia, na copa da Fundação, e cometi o erro de mostrar a lista. Ela leu com os cotovelos na mesa e o garfo suspenso. Quando chegou ao item 3, começou a rir baixinho. No item 4, engasgou com uma azeitona.


— Você redigiu um contrato de não-namoro — disse, quando conseguiu respirar. — Com numeração. Lívia, você é a única mulher do planeta que transforma "vamos ver no que dá" em ata de reunião.


— Alguém precisa ter método — argumentei.


— E ele assinou — uma risada espancou dela. — E imprimiu em papel timbrado.


— E imprimiu em papel timbrado — repeti, com menos convicção.


Malu devolveu o celular para mim com uma delicadeza suspeita.


— Só uma pergunta técnica, doutora. A cláusula dois diz que expediente é expediente. O acordo prevê o que acontece quando o presidente da Fundação pega no sono no seu sofá numa terça à noite?


— Isso não aconteceu.


— Ainda — ela disse, e voltou para a salada.


\* \* \*


O que se seguiu foi o acordo casual mais ridículo da história do Rio de Janeiro.


Começou pela terça-feira.


Terça, na minha vida, é o dia em que tudo acontece ao mesmo tempo: cirurgias eletivas de manhã, reunião de auditoria à tarde e, à noite, a minha mãe com aquela dor na lombar que ela nega e eu finjo não ver. No fim da primeira semana o Gustavo já sabia disso, sem que eu tivesse dito uma palavra. Ele simplesmente começou a aparecer.


Primeiro foi o macchiato na minha mesa, às onze da manhã, com duas gotas de adoçante e canela, deixado pela secretária dele como se tivesse sido teletransportado. Depois vieram as mensagens. Eu mandava fotos aleatórias entre uma cirurgia e outra, um labrador com o cone da vergonha ao contrário, um papagaio que só sabia dizer "Vai, Flamengo", e ele respondia com uma seriedade que me fazia rir sozinha no corredor.


Gustavo: Isso é um cachorro ou uma antena parabólica?


Lívia: É um paciente. Respeite.


Gustavo: Respeito absoluto. Jantar hoje?


Lívia: Hoje é terça.


Gustavo: Eu sei. Justamente.


Ele me buscava na saída, ou eu ia até a cobertura no meu carro, e aprendi mais sobre aquele apartamento nas semanas seguintes do que na noite em que estive ali pela primeira vez. Aprendi que o Bóson dorme de barriga para cima em cima do tapete de Istambul, que agora só sobrevivia como memória, que ele rouba apenas o pé esquerdo de cada par de meias e que uiva quando o micro-ondas apita, o que obrigava o Gustavo, um homem que já negociou com fundos soberanos, a correr até a cozinha para tirar a comida antes do último segundo. Aprendi que ele tinha comprado, sem comentar nada, o chá de camomila que eu tinha dito uma única vez que gostava. Que a geladeira dele, antes ocupada por champanhe e uma caixa de morangos, agora tinha iogurte de coco e, escondido no fundo, um maço de coentro que ele mantinha longe de tudo, porque eu tinha dito que odiava.


Descobri também que ele esquecia de comer quando trabalhava em casa. Na terceira vez em que o vi responder “já almocei” olhando para o relógio como se precisasse conferir, parei de perguntar. Passei a pedir comida para dois.


Ele nunca comentou.


Só começou a deixar o meu chá no armário mais baixo.


Ele também aprendia. Aprendeu que eu tenho cócegas atrás do joelho, que depois de uma cirurgia longa eu não quero conversa, só pizza e silêncio, e que quando pego no sono no sofá é melhor não me acordar com um "Lívia" alto, porque eu acordo brava e ofendo pessoas.


E nem toda noite terminava onde você imagina que termina.


Isso era o que ninguém conseguia entender quando eu tentava explicar, incluindo eu mesma. Algumas noites, sim. Outras eu chegava cansada demais, comíamos macarrão requentado no sofá, com o Bóson roncando entre nós dois, e falávamos de tudo, da faculdade dele em Oxford, do meu primeiro estágio, de uma vaca que atravessou a sala do meu professor de anatomia, menos do "nós". Às dez horas eu olhava o relógio, calçava o sapato e ia embora. E entrava no carro com uma leveza na cabeça que eu não sabia nomear.


Foi numa dessas noites que percebi o problema. Eu tinha ido até lá sem nenhuma promessa. Tinha atravessado a cidade para comer macarrão requentado e ouvir um homem me contar sobre a vez em que confundiu um sheik com o motorista do sheik. Eu queria estar ali.


Cláusula quatro, pensei. Sem cobranças, sem "onde isso vai dar".


Eu não estava cobrando nada. Só ia. Todo dia. Sem cobrar.


E o mais irritante, o que me deixava em silêncio dentro do elevador, era que ele tinha parado de jogar. O Gustavo da Quinta da Boa Vista, o das emergências fictícias e dos cachorros doentes de mentira, tinha desaparecido. Eu esperava manobras. Tinha me preparado para elas, com as minhas cláusulas e as minhas bordas. Nada. Ele apenas... aparecia. Perguntava se eu queria jantar. Aceitava o "não" sem me olhar torto e o "sim" sem comemorar. Era como discutir com uma parede que me trazia café.


Quanto mais eu esperava a jogada dele, menos jogada havia. E menos eu sabia como me defender.


\* \* \*


No sábado da terceira semana teve a degustação do bolo de casamento, no bistrô da Helena, depois do horário de fechamento. Os padrinhos foram convocados para "opinar", o que na prática significava comer sete fatias de bolo sob a supervisão de uma noiva com prancheta.


Sentei entre a Malu e uma cadeira vazia. A cadeira vazia foi ocupada, dois minutos depois, por um homem de camisa azul que fingiu muito bem que era coincidência.


— Massa de baunilha com recheio de damasco — a Helena anunciava, distribuindo pratinhos. — Notas de zero a dez. Sem diplomacia. Arthur, isso quer dizer você.


— Eu sou sempre diplomático.


— Você deu nove para o bolo de laranja da minha mãe, e ela não sabe cozinhar.


O Marcos, do outro lado da mesa, com uma taça de vinho já pela metade, observava tudo como quem assiste a uma final de campeonato. O Felipe, ao lado dele, fingia estar entretido com o garfo. Foi o Marcos quem quebrou o protocolo.


— Então vocês dois estão... casuais — ele disse, olhando de mim para o Gustavo, com um sorriso que eu quis apagar com um pedaço de bolo. — Escolha de vocabulário interessante.


— Cala a boca, Marcos — respondemos, os dois, ao mesmo tempo.


A Malu engasgou de rir. A Helena bateu palmas.


Eu me concentrei no bolo. Peguei a fatia de chocolate e comecei, como sempre, pela borda, a parte mais crocante, onde a cobertura endurece. Só quando percebi que o meu prato tinha, de repente, um pedaço extra de borda que não estava ali antes é que olhei para o lado.


Ele conversava com o Arthur sobre a lista de convidados, sem olhar para mim. Com a mão esquerda por baixo da mesa, passou a borda do prato dele para o meu, discretamente, como quem passa um bilhete numa sala de aula.


— Você reparou que eu como a borda primeiro? — sussurrei, sem mexer os lábios.


— Desde a primeira noite. — Ele não virou o rosto. — É a parte que você guarda para o final quando o dia foi ruim.


Chutei o tornozelo dele por baixo da mesa, com mais carinho do que a violência que pretendia. A Malu, do meu outro lado, ergueu uma sobrancelha de tal modo que eu senti a pele arder.


— Casual — ela murmurou, no meu ouvido. — Uhum.


\* \* \*


Numa quinta-feira, no fim daquela mesma semana, minha mãe se atrasou.


Ela vai à hidroginástica às quintas, e naquela quinta o ônibus quebrou no meio do caminho, e eu tinha combinado com o Gustavo às sete um jantar rápido antes de uma reunião dele. Eram sete e cinco, o Téo estava com a fralda a meio caminho de ser trocada, e a campainha tocou.


— Abre você, Gustavo, a porta está destrancada! — gritei do quarto, com um pé de meia numa mão e o Téo escorregando pelo outro braço. — Dez minutos! Cinco! Estou quase pronta!


Ouvi a porta abrir. Ouvi o Bóson, que ele tinha trazido no passeio, entrar feito um furacão de unhas no piso de tacos. Ouvi um "opa" abafado e, depois, silêncio.


Terminei de trocar o Téo, coloquei o meu filho no chão e ele saiu engatinhando, decidido, pelo corredor. Fui atrás, com a camiseta do avesso, prendendo o cabelo com uma presilha. E parei no batente da sala.


O Gustavo estava sentado no chão.


Não numa cadeira, no sofá, no braço de qualquer móvel. No chão da minha sala, de calça de alfaiataria cinza e camisa social, com as pernas cruzadas como uma criança de escola. O Téo, com aquela solenidade que só as crianças têm, tinha se instalado no colo dele e tentava, com muito empenho, enfiar uma peça de montar dentro do sapato de couro dele. O Bóson babava na perna da calça, com a cabeça apoiada no joelho dele, de olhos fechados. E o Gustavo, o homem que mandava dedetizar jatinho, não se mexia.


— Ele está me cobrando pedágio — disse, sem tirar os olhos do Téo. — Estou negociando os termos.


— Gu! — o Téo anunciou, apontando para ele com o dedo lambuzado. — Gu!


O meu coração fez uma coisa que eu decidi ignorar.


O que me atingiu, ali em pé no batente, foi o rosto dele. Eu já o tinha visto sorrir para conquistar, para provocar, para negociar. Aquele sorriso não era nada disso. Ele não estava fazendo pose. Não estava, evidentemente, nem lembrando que eu estava no cômodo. Ele estava só ali, com a expressão de quem descobriu um jeito de estar em algum lugar sem precisar de performance.


Cláusula três, lembrei. O Téo fica fora da equação.


Oficialmente violada por um bebê, um cachorro e um homem sentado no chão.


A campainha tocou de novo e a minha mãe entrou sem esperar, com a bolsa de hidroginástica no ombro e o cabelo ainda molhado, pedindo desculpas pelo ônibus. Parou no meio da sala. Olhou para o Gustavo, para o neto no colo dele, para o cachorro babando na calça caríssima. Depois olhou para mim.


— Esse é o do cachorro? — perguntou, sem cerimônia.


— Gustavo, dona Teresa — ele respondeu, tentando se levantar com um bebê agarrado ao pescoço, o que resultou numa dança desastrada até o Téo aceitar ser depositado no colo da avó. — Um prazer.


— Levanta do chão, meu filho, que você vai machucar as costas — ela disse, com uma autoridade de sogra que ainda não tinha título. E me lançou um olhar que dizia, muito claramente, que a conversa não ia acabar ali.


No caminho até o restaurante, eu segurava a bolsa com as duas mãos e ele dirigia calado, com uma mancha de baba na coxa que não tinha tido tempo de limpar.


— Ele gostou de você — comentei, olhando pela janela. — Isso me preocupa.


— Por quê?


— Porque criança não entende cláusulas.


O Gustavo demorou dois sinais vermelhos para responder.


— Eu sei o que estou fazendo com ele, Lívia — disse, por fim, com uma calma que me pegou desprevenida. — Nada. Só sentando no chão.


Esperei que ele argumentasse, que discutisse, que fizesse alguma das manobras que eu tinha a essa altura aprendido a desarmar. Ele não fez nada. Apenas acrescentou, olhando para a rua:


— Anotado, doutora.


E o silêncio, de novo, foi confortável. Era isso o que me assustava.


\* \* \*


A sexta-feira seguinte começou com uma notificação do banco.


Eu estava no consultório, entre uma cirurgia e uma consulta, quando o celular vibrou: transferência recebida. Abri sem muita atenção e li duas vezes. Era o valor de várias pensões atrasadas, de uma vez só, como eu não via desde antes de o Téo nascer. O Dr. Ricardo ligou logo depois, com a voz de quem entrega uma vitória sem fazer barulho.


— O bloqueio se efetivou na madrugada, doutora, e o valor integral do atraso foi transferido. O senhor Lucas foi notificado esta manhã e a audiência já tem data. A partir de agora, ele paga em dia ou responde por isso.


Agradeci. Desliguei. Fiquei um bom tempo olhando o teto do consultório, respirando fundo, esperando um alívio que veio pela metade. Porque o alívio era enorme, mas o Lucas não era um homem que aceitava perder em silêncio.


As mensagens começaram às duas da tarde, de um número desconhecido. O dele eu tinha bloqueado depois da última ligação, então só podia ser um chip novo.


Você deve estar muito feliz.


Colocou advogado de rico atrás de mim. Parabéns.


Vive de esmola de playboy agora, né?


Li as três no banheiro da Fundação, com a porta trancada, sentada na tampa do vaso, com as mãos tremendo mais do que eu queria admitir.


Não era medo.


Eu conhecia o Lucas o suficiente para saber que aquilo era só barulho. Era outra coisa: era o golpe certeiro na parte que doía. Esmola. A palavra tinha sido escolhida com cuidado, como quem sabe exatamente onde o bisturi entra.


Eu nunca tinha aceitado nada de ninguém. Nem do Lucas, quando ele ainda me prometia metade do mundo. E agora eu tinha um advogado da holding cuidando de uma briga que era minha, um emprego que tinha surgido pelas mãos do Gustavo e um café aparecendo na minha mesa todo dia às onze da manhã, e um pedaço de mim tinha, sim, medo de que ele tivesse razão.


Guardei o celular no bolso do jaleco. Lavei o rosto. Voltei para a triagem.


A quarta mensagem chegou às quatro e pouco, quando eu lavava o instrumental depois de uma cirurgia, com as luvas ainda molhadas.


Ele vai enjoar quando descobrir o que é dividir a vida com criança. Eles sempre enjoam.


Eu tinha ouvido cada sílaba, naquela manhã de sábado, na cozinha da cobertura. Uma conta que não fecha. Fica longe de mãe solteira. Eu guardava aquilo numa gaveta bem no fundo da cabeça e, de tempos em tempos, a gaveta abria sozinha.


O Gustavo nunca tinha voltado ao assunto. E eu, evidentemente, nunca tinha lhe dado a chance.


Apoiei as mãos na pia de inox e respirei até a pulsação diminuir.


Eu podia ter contado a ele. Teria respondido em dois minutos, com uma frase seca, e talvez me ajudasse a respirar. Mas a cláusula cinco dizia que cada um cuida da própria vida, e a minha vida era o que eu tinha construído antes dele. Dele eu tinha aceitado um jantar e um advogado. Não ia pedir também o meu colo.


Foi só no meio da tarde que percebi o silêncio.


Ele não tinha mandado mensagem. Nem "bom dia", nem foto do Bóson, nem o "isso é um cachorro ou uma antena parabólica" que eu já tinha começado a esperar como quem espera o intervalo da novela. Perguntei à secretária dele, com uma naturalidade que não enganava ninguém, e ela disse que o presidente estava em São Paulo desde cedo, numa reunião do conselho que devia acabar tarde.


Fiquei sabendo. Não deveria ter importado. Era só uma sexta-feira.


Olhei o celular às três e dez. Às três e quarenta. Às quatro e vinte e cinco, com as luvas ainda nas mãos. Contei mentalmente enquanto lavava o instrumental e cheguei, humilhada, ao número quatorze. Catorze vezes. Eu, que dizia que ele era só um homem bom ajudando uma amiga, tinha checado o celular catorze vezes num único dia por causa de uma mensagem que não veio.


E o pior, ali no corredor da Fundação, era entender por quê. Eu tinha recebido quatro mensagens de um homem que queria me ferir e queria desesperadamente uma de um homem que não me devia nada.


Cheguei em casa às oito, dei banho no Téo, ouvi a minha mãe contar da hidroginástica. Coloquei o meu filho no berço e fiquei alguns minutos olhando para ele. E a tela do celular se acendeu em cima da cômoda.


Gustavo: Voo atrasado, cheguei agora. Como foi o seu dia?


Dei um sorriso tão espontâneo que me assustei. Sentei na beirada da cama, com o celular nas duas mãos, e li de novo. Cinco palavras que ele nem sabia que eram esperadas.


Casual, pensei.


Digitei: Longo. E o seu?


A resposta começou a ser digitada quase imediatamente.


Fiquei olhando para os três pontinhos surgirem na tela e senti o corpo relaxar.


Casual, pensei.


Claro.


Notas finais
Relaxa, que nem vai dar tempo de sentir saudades dessa vez pq logo logo eu to de volta, tá bom? Juro de dedinho 🤞🏾