Fora de Protocolo - concluída
30 Honestidade
Nos dias seguintes, o Gustavo ficou mais cuidadoso comigo, sem nunca perguntar o motivo.
Não parou de aparecer. Não parou de mandar mensagem. Só passou a fazer tudo com um cuidado redobrado, do jeito de quem percebe que pisou, sem saber onde, numa parte do chão que estava rachada, e decide andar mais devagar por perto, sem exigir que eu explicasse onde ficava a fissura.
Na terça, ele mandou uma foto do Bóson deitado em cima da minha blusa, que eu tinha esquecido na cobertura semanas atrás, com a legenda "ele reivindicou isso como propriedade dele. Acho que não vou conseguir devolver." Eu ri sozinha na minha sala, pela primeira vez em dias, e respondi alguma coisa sobre o cachorro ter bom gosto, e por um instante tudo pareceu quase normal.
Quase.
Porque, por baixo do normal, eu continuava carregando a mesma sensação que a Malu tinha nomeado no sábado.
Não era ciúme.
Era medo.
E medo, diferente de ciúme, não passa com uma foto engraçada de cachorro.
Na quarta-feira, ele apareceu em casa sem avisar, com uma sacola de comida tailandesa e o Bóson na coleira, alegando que o cachorro tinha "insistido muito" em visitar o Téo. Ficamos os quatro no tapete da sala, o Téo tentando ensinar o Bóson a "sentar" com uma autoridade que o cachorro ignorava solenemente, e eu observava o Gustavo rir daquilo com uma soltura que parecia genuína, sem nenhuma das manobras que ele costumava usar no começo.
Em nenhum momento ele perguntou por que eu tinha ficado estranha na sexta. Em nenhum momento tentou arrancar de mim uma explicação que eu não estava pronta para dar.
Só ficou. Comendo pad thai sentado no chão, deixando o cachorro destruir mais uma almofada, rindo de alguma coisa boba que o Téo fez, como se aquilo fosse o lugar mais natural do mundo para ele estar.
Quando foi embora, já perto das dez, parou na porta e me olhou por um instante mais longo do que o normal.
— Eu não sei o que aconteceu na sexta, Lívia — disse, com uma calma que doía mais do que qualquer cobrança. — Mas, quando você quiser me contar, eu estou aqui.
Fechei a porta depois que ele saiu e fiquei encostada nela por um bom tempo, sentindo o peso daquela frase afundar mais fundo do que eu esperava.
\* \* \*
Foi na quinta-feira que a Malu apareceu de novo, dessa vez sem fingir que era coincidência.
— Eu vim com um propósito — anunciou, assim que entrou, largando a bolsa no sofá e se jogando ao lado dela, enquanto o Téo, no tapete, tentava empilhar blocos coloridos uns em cima dos outros com uma concentração solene. — Não vim trazer cafeína nem fofoca. Vim conversar.
— Isso soa ameaçador.
— É ameaçador — ela confirmou, sem sorrir. — Senta aqui.
Sentei, porque discutir com a Malu quando ela estava naquele estado de determinação era uma causa perdida desde sempre. Ela esperou eu me acomodar, olhou para o Téo por um segundo, garantindo que ele estava entretido o suficiente, e só então voltou a atenção inteira para mim.
— Sábado você me disse uma coisa que eu não consegui tirar da cabeça — começou. — Você disse que não tem direito de sentir o que sentiu. Que você mesma escreveu as regras. E isso é verdade, Lívia. Você escreveu. Mas eu preciso te perguntar uma coisa, e eu quero que você responda sem pensar na resposta certa, nem na resposta segura. Só a verdade.
— Tudo bem.
— Por que você escreveu aquelas regras?
A pergunta me pegou de um jeito que eu não esperava, simples demais para a resposta complicada que eu tinha guardado para ela.
— Para me proteger — respondi, devagar.
— Proteger de quê?
— De... — parei, tentando encontrar a palavra certa. — De me machucar. De repetir o que aconteceu com o Lucas. De depender de novo de alguém que pode simplesmente ir embora.
— E funcionou?
Fiquei em silêncio, olhando para o Téo, que tinha acabado de derrubar a própria torre de blocos e ria sozinho da bagunça, sem o menor traço de frustração, como só as crianças sabem rir das próprias quedas.
— Não — admiti, finalmente. — Não funcionou. Eu passei dois dias inteiros sofrendo por uma coisa que nem aconteceu, só porque as regras me proibiam de perguntar, de confiar, de simplesmente dizer o que eu estava sentindo. As regras não me protegeram de nada, Malu. Elas só me deixaram sozinha dentro do próprio medo.
A Malu assentiu devagar, como quem já sabia exatamente aonde aquela conversa ia chegar, mas precisava que eu chegasse lá sozinha.
— Lívia — disse, por fim, a voz baixa, sem nenhuma das provocações de sempre. — Você ama ele?
Não respondi de imediato. Não porque não soubesse a resposta, mas porque dizer aquilo em voz alta, pela primeira vez, parecia que ia tornar tudo definitivo demais, real demais, impossível de desfazer depois.
— Amo — falei, por fim, a palavra saindo quase num sussurro, como se o próprio apartamento pudesse ouvir e cobrar alguma coisa em troca. — Eu amo ele, Malu.
Ela não comemorou. Não bateu palmas, não soltou nenhuma daquelas piadas que costumava fazer. Só esticou a mão e segurou a minha, com uma seriedade que eu via muito raramente nela.
— Então pronto — disse, simplesmente.
— Como assim "pronto"? Isso não resolve nada. Eu ainda tenho um filho, um emprego que depende dele, de certa forma, e um acordo que eu mesma redigi e que ele assinou de boa vontade.
— Resolve o que mais importa — ela rebateu. — Você passou os últimos meses tentando descobrir se conseguia confiar em alguém de novo. A resposta chegou. Você ama o homem. O resto é logística, Lívia. E logística você resolve rápido. Sempre resolveu.
A campainha tocou antes que eu respondesse. A Malu se levantou para atender, sem nem perguntar quem era, e eu ouvi a voz da Helena no corredor antes mesmo de vê-la entrar.
— Me liga às quatro da tarde dizendo "você precisa vir aqui agora" e some — a Helena reclamou, entrando com a bolsa ainda no ombro e o casaco do trabalho por cima do braço — e eu larguei uma reunião com o fornecedor de flores para vir correndo. É bom que seja importante.
— É importante — a Malu confirmou, puxando-a pelo braço até o sofá. — Senta. A Lívia acabou de admitir que ama o Gustavo.
A Helena parou no meio do caminho, olhando para mim com uma expressão que misturava surpresa e um alívio que eu não esperava.
— Finalmente — disse, se jogando no sofá ao meu lado. — Lívia, eu amo você, mas vocês dois já estavam insuportáveis de assistir de fora.
— Vocês sabiam?
— Todo mundo sabia, Lívia — a Malu revirou os olhos, voltando a sentar na poltrona. — Menos você.
A Helena pegou a minha mão, com aquela seriedade que ela só mostrava quando o assunto deixava de ser brincadeira.
— Posso te contar uma coisa? — perguntou, e não esperou resposta. — Eu passei quatro anos organizando a vida do Arthur Harrington. A agenda dele, os compromissos, os jantares, até os presentes de aniversário da família. Eu sabia tudo sobre aquele homem, menos uma coisa: o que fazer com o que eu sentia por ele. Porque admitir aquilo significava perder o controle de uma vida inteira que eu tinha construído em cima de ser útil, discreta e nunca, jamais, misturar trabalho com sentimento.
— E o que aconteceu?
— Quase perdi ele — ela respondeu, simplesmente. — Fiquei meses fingindo que não sentia nada, inventando justificativa profissional para cada coisa boba que me deixava com o estômago embrulhado. Quando finalmente criei coragem para admitir, já estava quase tarde demais. O medo não protege ninguém, Lívia. Ele só atrasa o que já é inevitável, e às vezes esse atraso custa caro.
Fiquei em silêncio, olhando para as duas, sentindo o peso daquelas palavras se encaixar exatamente onde eu precisava que encaixassem.
— Eu escrevi um contrato inteiro para não sentir isso — admiti, com um risinho fraco. — Numerado. Com cláusulas.
A Helena soltou uma gargalhada que ecoou pelo apartamento.
— Claro que você escreveu. Depois de mim, você é a pessoa mais organizada que eu conheço — disse, ainda rindo, mas logo voltando à seriedade de antes. — Mas me escuta. Nenhum contrato segura amor de verdade por muito tempo, Lívia. Em algum momento ele rasga sozinho. A única escolha que você tem é se vai ser você quem rasga primeiro, ou se vai deixar o medo rasgar por você, de um jeito muito mais doloroso.
Depois que a Malu e a Helena foram embora, levando um pedaço de bolo de cenoura que minha mãe tinha feito de manhã, fiquei sentada no sofá por um bom tempo, com o Téo já cochilando no colo, pensando em tudo o que eu tinha dito sem planejar dizer.
Eu amo ele.
A frase continuava ecoando, cada vez menos assustadora a cada repetição, como um músculo que dói menos depois que você finalmente para de evitar o movimento.
Pensei no acordo. Nas seis cláusulas, numeradas com toda a seriedade de quem redige um termo de consentimento cirúrgico. Pensei na folha A4 que o Gustavo tinha imprimido no papel timbrado da Fundação, com a ressalva sobre o Bóson escrita à mão. Pensei em como aquele papel, que devia ser a minha proteção, tinha virado a própria coisa que me impedia de dizer a verdade a ele há uma semana inteira, quando ele tentou explicar e eu cortei a frase pela metade.
Eu não queria mais aquilo.
Não queria mais cortar frases. Não queria mais fingir indiferença quando ele mencionava um compromisso. Não queria mais passar noites em claro imaginando cenários que nunca aconteceram, só porque as próprias regras me proibiam de perguntar.
Deitei o Téo no berço, com cuidado para não acordá-lo, e fiquei parada por um instante ao lado da grade, olhando o peito dele subir e descer no ritmo tranquilo de sempre.
— Eu preciso fazer isso direito, filho — sussurrei, baixinho, mais para mim mesma do que para ele.
Peguei o celular na sala, sentei na beirada do sofá e fiquei olhando para a tela por um longo minuto, o polegar pairando sobre o nome dele na lista de conversas.
Não queria mandar mensagem. Mensagem era fácil demais, era uma porta que eu podia fechar no meio do caminho se o medo voltasse a falar mais alto. Aquilo precisava ser dito olhando para o rosto dele, com a voz tremendo se precisasse tremer, sem a proteção de uma tela entre nós dois.
Digitei, apaguei, digitei de novo.
Lívia: Você tem um tempo amanhã à noite? Preciso conversar com você. Sério.
A resposta veio rápido, como sempre vinha quando eu precisava dele.
Gustavo: Tenho. Aconteceu alguma coisa?
Lívia: Não é nada ruim. Prometo. Só preciso conversar. Pode ser aqui em casa? O Téo vai estar com a minha mãe.
Gustavo: Estarei aí às oito.
Gustavo: Lívia?
Lívia: Oi?
Gustavo: Qualquer que seja o assunto, está tudo bem. Eu estarei aí.
Larguei o celular no sofá e respirei fundo, sentindo o coração martelar contra as costelas num ritmo que eu não sentia desde a primeira noite em que ele me beijou num bar, há tantos meses, quando eu ainda achava que aquilo tudo seria apenas uma noite para quebrar o jejum e nada mais.
Eu não sabia exatamente o que ia dizer no dia seguinte. Não tinha um discurso pronto, nenhuma das frases afiadas que eu costumava usar para me defender. Só sabia que não ia mais esconder a verdade atrás de uma lista numerada, nem atrás do medo que a minha própria mãe tinha me ensinado, sem querer, a carregar desde muito antes de eu entender o que era amor.
Minha mãe saiu do quarto nesse instante, enrolada num roupão velho, a caminho da cozinha para beber água, e me encontrou sentada no escuro da sala, com o celular ainda nas mãos e os olhos vermelhos.
— Você está bem? — perguntou, parando no meio do caminho.
— Vou estar — respondi, e, pela primeira vez em dias, acreditei de verdade na própria resposta. — Amanhã eu vou contar para ele, mãe. Que eu amo ele.
Minha mãe não disse nada de imediato. Apenas atravessou a sala, sentou ao meu lado no sofá e passou o braço pelos meus ombros, do jeito que fazia quando eu era pequena e tinha pesadelo.
— Já não era sem tempo — murmurou, com um meio sorriso cansado, e não precisou dizer mais nada.
Fiquei ali, encostada nela, em silêncio, até o sono finalmente chegar.
Amanhã eu ia rasgar o contrato.
Ou pedir para ele rasgar, já que a letra tinha sido dele.
Passei a tarde inteira ensaiando frases que nunca usei.
Minha mãe tinha levado o Téo para dormir na casa dela, com a desculpa de uma "noite de avó", e eu passei as duas horas sozinha no apartamento andando de um lado para o outro, trocando de roupa três vezes antes de decidir que roupa nenhuma importava para aquela conversa, e mandando mensagens desesperadas para a Malu que não ajudavam em absolutamente nada.
Lívia: E se ele achar que é cedo demais?
Helena: Lívia. O homem riscou a própria geladeira para arrumar espaço para o seu chá. Relaxa.
Lívia: E se eu começar a falar e esquecer tudo o que eu ia dizer?
Malu: Você não vai esquecer. Você decorou o esqueleto de quarenta capítulos de um livro que nem escreveu ainda. Vai dar conta de uma conversa.
Isso não me acalmou nem um pouco, mas pelo menos me fez rir, o suficiente para eu parar de andar em círculos pela sala e sentar no sofá, tentando organizar um discurso que, na minha cabeça, soava maduro, equilibrado, cheio de palavras como "reavaliar" e "amadurecer". Um discurso de adulta responsável lidando com um sentimento adulto e responsável.
Esqueci cada palavra dele no instante em que ouvi a campainha, às oito em ponto, porque o Gustavo Montserrat, pontual até para o próprio desastre, nunca se atrasou um minuto na vida.
Abri a porta e ele estava ali, sem gravata, com aquela mesma expressão cuidadosa que vinha usando a semana inteira, como quem não sabe em que ponto do chão pisar. O Bóson espiava por trás das pernas dele, a coleira frouxa na mão do Gustavo, como se tivesse sido trazido de propósito para suavizar qualquer coisa que estivesse por vir.
— Oi — disse, só isso, antes de eu puxá-lo pela mão para dentro e fechar a porta.
Não tive coragem de deixá-lo sentar. Se ele sentasse, eu ia sentar também, e se eu sentasse, ia começar a enrolar, a oferecer água, a adiar.
Fiquei parada no meio da sala, com os braços cruzados sobre o peito como uma armadura que eu sabia que não ia funcionar, e falei antes que o medo tivesse mais uma chance de vencer.
— A gente precisa parar.
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