Fora de Protocolo - concluída
31 31. Fora de Protocolo
Por um segundo, o mundo inteiro parou de fazer sentido.
Eu já tinha fechado negociações de valores que mudavam o destino de empresas inteiras sem que a minha pulsação subisse um único ponto. Tinha visto fundos desabarem, ações despencarem, ministros perderem o cargo numa manhã, e nunca tinha sentido o chão se mover daquele jeito específico, violento, abrupto.
A gente precisa parar.
Quatro palavras. Foi só isso que precisou para que todo o meu sistema analítico, treinado para prever cada movimento, simplesmente travasse.
— Lívia...
— Deixa eu terminar, por favor — ela pediu, a voz tremendo, mas os olhos firmes nos meus, o tipo de firmeza que ela usava quando estava prestes a fazer algo que a assustava mais do que qualquer coisa. — Eu não consigo mais fazer isso do jeito que a gente combinou. Não consigo olhar para você sabendo que amanhã você pode sair com outra mulher e eu não ter nenhum direito de sentir nada. Não consigo fingir que isso continua sendo casual, Gustavo. Eu estraguei o próprio acordo que eu inventei.
Fiquei ali, parado, sentindo cada uma daquelas palavras caírem como um veredito, incapaz de adivinhar para que lado aquilo ia.
— E a única coisa que eu sei, com certeza absoluta — ela continuou, a voz baixando, quase um sussurro — é que eu me apaixonei por você.
Ela tinha dito. Finalmente, sem a proteção de nenhuma cláusula entre nós dois.
E eu não consegui fazer absolutamente nada além de sorrir.
Não um sorriso pequeno, educado, de quem recebe uma notícia e organiza a resposta adequada. Um sorriso enorme, aberto, do tipo que eu não lembrava de ter usado desde muito antes de conhecer os detalhes da própria vida financeira dos meus pais.
Vi o rosto dela mudar na mesma hora, o alívio de ter falado sendo substituído, rápido demais, por uma vergonha que virou raiva antes que eu pudesse impedir.
— Não ri de mim, seu idiota — disparou, dando um passo para trás, os braços se apertando mais ainda sobre o peito. — Eu passei a tarde inteira juntando coragem para dizer isso, e você fica aí parado sorrindo como se eu tivesse contado uma piada. Eu sabia que isso ia ser ridículo.
— Lívia, espera...
— Não, você espera — cortou, a voz subindo, o orgulho ferido tomando conta de tudo mais rápido do que qualquer medo. — Eu abro o jogo inteiro, confesso que estraguei o próprio acordo, e a sua reação é essa? Eu devia ter ficado calada. Devia ter deixado tudo exatamente como estava, porque pelo menos assim eu não precisava ficar aqui parecendo uma idiota na frente de...
— Eu não estou rindo de você — interrompi, dando um passo à frente, a voz agora completamente séria, o sorriso ainda ali, mas diferente, mais contido, como quem segura alguma coisa grande demais para caber num só gesto. — Lívia, olha para mim.
Ela olhou, ainda com os olhos marejados de raiva, pronta para discutir mais.
— Está sorrindo!
— Porque eu estou apaixonado por você há tempos, Lívia.
A frase saiu antes que eu pudesse pesar as consequências, mas não me arrependi nem por um segundo.
Ela parou, a boca entreaberta, os braços ainda cruzados, mas agora numa pose diferente, de quem precisava de alguma coisa para se segurar.
— Como assim há tempos?
— Lembra do jantar em Santa Teresa? — perguntei, dando um passo à frente, com cuidado, como quem se aproxima de um animal assustado que pode fugir a qualquer movimento brusco. — Naquela noite, eu tinha decidido que ia te propor algo sério. Tinha ensaiado o discurso inteiro no carro, Lívia. Ia te dizer que sabia que era recente, que respeitava o seu ritmo, mas que queria mais do que uma noite.
— Você nunca me contou isso.
— Porque você falou primeiro — respondi, com um meio sorriso que já não escondia mais nada. — Você sentou na minha frente e me ofereceu exatamente o acordo casual mais bem redigido que eu já vi na vida, com uma segurança tão grande que eu fiquei completamente desarmado. E a minha primeira reação, honestamente, foi de pânico. Achei que, se eu insistisse naquele momento, ia te perder. Então aceitei. Decidi jogar o seu jogo até você perceber, sozinha, que já não era mais um jogo para nenhum dos dois.
Ela ficou em silêncio por um instante, os olhos brilhando, processando cada palavra.
— Eu achei que você tivesse ficado aliviado — murmurou, por fim. — Daquela noite. Achei que fosse exatamente o que você queria.
— Eu estava tendo uma crise existencial, Lívia. Debaixo da mesa, o meu joelho não parava de tremer.
Ela soltou um riso trêmulo, meio chorando, meio rindo, e aquilo foi o suficiente para que eu cruzasse de vez a distância entre nós, segurando o rosto dela com as duas mãos.
— Então pede — falou, sem pensar, a voz saindo num fio.
— Pedir o quê?
— Namoro. Do jeito certo. Sem cláusula nenhuma.
Ri, baixinho, encostando a testa na dela.
— Lívia Coimbra — comecei, com aquela voz que eu sabia exatamente o efeito que tinha sobre ela — você quer namorar comigo? De verdade. Sem numeração, sem letra pequena, sem ressalva sobre cachorro nenhum.
Ela fechou os olhos por um segundo, e eu vi, claramente, o peso de todos os próprios medos dela ainda tentando puxar a resposta para trás.
— Eu tenho um filho, Gustavo.
— Eu sei. Ele me ensinou a dizer "au au" em três línguas diferentes e já destruiu metade do meu guarda-roupa junto com o Bóson.
— Eu trabalho na sua fundação.
— Você trabalha na fundação — corrigi, com paciência. — Existe um conselho inteiro, formado justamente para que eu não tenha o menor controle sobre a sua carreira. A Clara cuidou disso há semanas, sem eu nem pedir.
— A minha vida não é igual à sua. Eu não tenho nem metade do que você tem.
— Ainda bem — respondi, sem hesitar. — Eu já tenho uma vida cheia demais de coisa. Eu não estou procurando uma fusão patrimonial, Lívia. Estou pedindo você em namoro.
Vi cada argumento que ela tinha preparado a tarde inteira desmoronar um atrás do outro, como peças de dominó. Mas sabia que ainda havia um, o mais fundo, o que ela nem sabia bem como formular.
— E se eu te decepcionar? — perguntou, baixinho, a voz perdendo toda a firmeza de antes. — E se, daqui a um ano, você olhar para essa vida toda, filho dos outros, plantão de madrugada que eu ainda carrego na memória, mãe solo com um apartamento pequeno, e perceber que isso não é o que você queria?
Não respondi de imediato. Segurei o rosto dela com as duas mãos, com uma delicadeza que eu sabia que contrastava com a firmeza do resto do meu corpo, e esperei até ela me encarar de novo antes de falar.
— Lívia, eu passei a vida inteira calculando risco. É literalmente o que eu faço para viver — disse, devagar. — E eu já fiz essa conta, mais vezes do que você imagina, sozinho, na cobertura, com um copo de uísque e um cachorro roncando no meu colo. O risco de ficar com você nunca foi o problema. O problema sempre foi o risco de não ficar.
Os olhos dela se encheram de novo, e dessa vez ela não tentou disfarçar.
— Isso foi horrivelmente romântico para um homem que fala de risco e portfólio o tempo todo.
— Eu avisei que ia te fazer refém dos meus próprios termos, tempestade — sorri, usando o apelido antigo pela primeira vez em meses, e vi nos olhos dela que aquilo doeu de um jeito bom, de nostalgia, lembrando o bar, o Porsche, a primeira noite inteira.
Havia só uma coisa que eu ainda precisava dizer antes de deixá-la responder.
— Lívia, eu preciso te pedir desculpa por uma coisa, e dessa vez eu quero fazer direito — falei, afastando-me um pouco, para que ela pudesse ver o meu rosto inteiro. — Aquela frase, na primeira manhã, sobre mulher com filho ser uma conta que não fecha. Eu já disse, de um jeito torto, que você não é um fardo. Mas eu nunca disse o resto. Eu nunca te disse que entendi, de verdade, o tamanho do estrago que aquilo causou. Eu falei aquilo sem saber nada sobre você, repetindo um medo idiota e raso que eu nem sabia de onde vinha. E você carregou aquela frase, até ela virar outra coisa, até ela se misturar com o seu pai, com o Lucas, com tudo que você já tinha sofrido antes de mim. Eu sinto muito, Lívia. De verdade. Você nunca foi, e nunca vai ser, uma conta que não fecha.
Os olhos dela se encheram de água de novo, mas dessa vez ela não tentou esconder.
— Tem mais uma coisa — continuei, porque, se eu ia fazer aquilo direito, precisava fazer inteiro. — Você falou, na noite do Lucas, que não sabia mais onde terminava a sua independência e começava a minha generosidade. Eu não te respondi direito naquela hora, porque eu tinha medo da resposta. Mas eu preciso te contar agora. Eu assumi a diretoria da fundação por sua causa, Lívia. Não só pela causa animal, embora eu tenha aprendido a me importar de verdade com ela. Eu vi uma oportunidade de ficar perto de você, e usei isso. A Isabel e a Clara sabem disso desde sempre. Eu só não tive coragem de te contar antes.
Ela ficou em silêncio, absorvendo aquilo, e por um instante eu tive medo de verdade, o tipo de medo que nenhuma negociação nunca tinha me ensinado a administrar.
— Você está me dizendo que o meu emprego começou como uma manobra de sedução? — perguntou, por fim, mas havia um quê de riso escondido na voz.
— Estou te dizendo que o meu interesse por você foi genuíno desde o primeiro segundo, e que ele contaminou todas as minhas decisões depois disso — respondi, sem desviar o olhar. — Mas o seu trabalho é seu, Lívia. Você provou isso sozinha, todos os dias, para o conselho, para a imprensa, para a minha própria mãe. Eu só abri a porta. Você construiu tudo o que está do outro lado dela.
Ela ficou ali, olhando para mim, e eu podia quase ver as engrenagens daquela cabeça brilhante decidindo qual parte dela ia vencer: a Dra. Coimbra, que deveria estar furiosa com a manipulação, ou a mulher que, no fundo, talvez já suspeitasse de tudo aquilo havia algum tempo.
— Isso explica uma coisa — falou, por fim, cruzando os braços, mas sem a mesma raiva de antes. — Você ficou estranho naquela noite, na Fundação, quando eu disse que não sabia onde terminava a minha independência e começava a sua generosidade. Eu vi a sua cara mudar. Achei que fosse só desconforto.
— Era culpa — admiti. — Uma culpa específica, de quem sabe uma coisa que a outra pessoa merece saber e não tem coragem de contar.
— Você devia ter me contado antes.
— Eu sei.
— Eu podia ter descoberto de outro jeito. Por alguém, por um comentário errado, numa festa qualquer.
— Eu sei disso também — disse, sem me defender, porque qualquer tentativa de justificativa, naquele momento, só ia soar como mais uma manobra. — Eu não tenho desculpa boa, Lívia. Só posso te dizer que não contei antes porque tinha medo de que isso mudasse a maneira como você olhava para o próprio mérito. E você trabalhou demais, durante anos, para que uma frase minha fizesse esse trabalho todo parecer menor do que é.
Ela suspirou, e eu vi a raiva esvaziar aos poucos do corpo dela, dando lugar a um cansaço bom, do tipo que vem depois de carregar alguma coisa pesada por tempo demais e finalmente largar no chão.
— Tudo bem — falou. — Eu aceito a desculpa. Mas, Gustavo, essa é a última coisa que você esconde de mim. A última.
— Combinado — respondi, sem hesitar, e ela deve ter percebido que eu falava sério, porque o rosto dela relaxou de um jeito que eu não via havia dias.
— Eu devia estar brava — disse, por fim, limpando o rosto com as costas da mão.
— Pode ficar brava. Eu aceito.
— Eu vou ficar brava amanhã — decidiu. — Hoje eu só quero saber de uma coisa.
Esperei, sem fazer ideia do que vinha a seguir.
Ela caminhou até o aparador da sala, abriu a gaveta de baixo e tirou de lá a folha A4 amassada, guardada havia semanas atrás de prontuários velhos e de um carregador que ela nunca usava. Estendeu para mim sem dizer nada.
Olhei para o próprio contrato, para a própria letra, para a ressalva sobre o Bóson que eu tinha escrito à mão no rodapé, e senti um sorriso lento se formar no canto da boca.
Peguei a caneta que estava em cima da mesa, risquei com um traço firme a primeira linha — ninguém está namorando ninguém — e escrevi, logo acima, em letras grandes:
REVOGADA.
Devolvi a folha para ela, com a mesma solenidade de quem assina um tratado internacional.
— Pronto, doutora. De pleno acordo, outra vez.
Ela olhou para a palavra REVOGADA escrita com a minha caligrafia, e eu vi alguma coisa se soltar no rosto dela, um nó que, imaginei, ela vinha carregando havia tanto tempo que já tinha esquecido como era viver sem ele.
— Você guardou isso tudo esse tempo todo? — perguntou, olhando para a folha, visivelmente idêntica à dela.
— Na gaveta da escrivaninha. Ao lado dos contratos que realmente importam — respondi, com um meio sorriso. — Eu disse que ia imprimir em duas vias, Lívia. Eu levo contrato a sério.
— Você é ridículo.
— Você escreveu um contrato de não-namoro com numeração. Nenhum de nós dois tem moral para chamar o outro de ridículo.
Ela riu, de verdade, um riso que saiu limpo, sem nenhum resto de medo grudado nele, e foi nesse instante, com a folha ainda na mão dela e o meu rosto a centímetros do dela, que percebi que não existia mais nenhuma palavra importante entre nós dois. Só existia aquela distância pequena, que ela mesma tinha ajudado a construir e que agora os dois só queríamos ver desaparecer.
Não houve mais nada para dizer depois daquilo.
Puxei-a pela cintura, e o beijo que se seguiu não teve nada da urgência da primeira noite, nem da provocação dos meses seguintes. Foi um beijo devagar, cheio de meses inteiros de coisas não ditas finalmente encontrando lugar, as minhas mãos na nuca dela, as dela presas na gola da minha camisa como se precisasse confirmar que aquilo era real.
Foi o Bóson, inevitavelmente, quem resolveu que a cena precisava de um final menos solene.
O cachorro, que tinha passado a conversa inteira cochilando perto da porta, escolheu exatamente aquele momento para se levantar, esticar o corpo todo numa preguiça escandalosa e derrubar, com o rabo, o vaso de plantas que ficava ao lado do sofá, espalhando terra pelo tapete inteiro.
Nos afastamos, ainda rindo contra os lábios um do outro, olhando para o estrago.
— Ele tem um talento especial para arruinar os seus melhores momentos — comentei, sem nenhuma vontade real de me afastar dela para resolver aquilo.
— Ele fechou esse livro todo, Montserrat — ela respondeu, puxando-me de volta pela gola da camisa. — Acho justo que ele também fique com os créditos do final.
Enquanto ela ia buscar a vassoura, sentei no chão ao lado do Bóson, que me encarou com aquela cara de quem não entendia por que a bagunça tinha gerado tanta risada em vez de bronca, e puxei o celular do bolso.
Tinha três mensagens do Marcos, mandadas nas últimas duas horas, cada uma mais impaciente que a anterior.
Arthur: E aí? Já rasgou o contrato ou ainda está ensaiando no espelho do carro?
Marcos: Montserrat.
Marcos: Se você não responder em dez minutos eu vou aí.
Digitei, com o sorriso que eu simplesmente não conseguia controlar.
Gustavo: Revogado. Oficialmente.
A resposta veio em segundos, como se ele tivesse o dedo pairando sobre a tela o tempo inteiro.
Marcos: FINALMENTE. Ganhei do Arthur.
Arthur: Merda, eu apostei que ia levar até sexta-feira.
Gustavo: Vocês apostaram sobre isso?
Arthur: Óbvio.
Marcos: Eu ganhei.
Guardei o celular, balançando a cabeça, e olhei para o Bóson, que tinha se aproximado e apoiado o focinho no meu joelho, como se também quisesse fazer parte da comemoração.
— Eles apostaram a nossa vida, garoto — falei, baixinho, coçando atrás da orelha dele. — Que falta de noção.
A Lívia voltou com a vassoura e uma pá de lixo, ainda descalça, o cabelo caindo sobre os ombros, e parou no meio da sala quando me viu sentado no chão, sorrindo sozinho para o celular.
— O que foi? — perguntou, desconfiada.
— Nada — respondi, levantando para ajudá-la a limpar a terra. — Só descobri que fui objeto de aposta entre os meus melhores amigos.
— E quem ganhou?
— O Marcos. Infelizmente.
Ela riu, balançando a cabeça, e por um instante, ajudando-a a recolher os pedaços de vaso quebrado do chão, com o Bóson tentando "ajudar" de um jeito que só atrapalhava, pensei que aquela cena boba, doméstica, sem nenhuma elegância de salão de gala, valia mais do que qualquer negócio que eu já tinha fechado na vida.
A vida continuava exatamente tão caótica quanto sempre tinha sido.
Só que, agora, eu não precisava mais assistir àquele caos de fora.
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