O jardim do casarão em Santa Teresa estava decorado com tanto capricho que, por um instante, cheguei a pensar que a Helena tinha contratado a mesma florista do meu antigo pesadelo de salões de gala. Mas não havia nada ali que lembrasse o Copacabana Palace daquela primeira noite. Havia luzinhas amarelas penduradas entre as árvores, mesas de madeira rústica, e um arco de flores brancas e folhagem verde onde, em poucos minutos, a minha melhor amiga ia se casar com o homem que, segundo ela mesma, tinha "roubado a sua vida inteira sem pedir desculpa".

Ajeitei o vestido verde-oliva, o mesmo tom que a Helena tinha escolhido para as madrinhas, e olhei para o outro lado do corredor improvisado entre as cadeiras, onde o Gustavo, impecável no terno escuro, ajeitava a gravata com uma concentração exagerada demais para uma peça de roupa que já estava perfeita.

Ele sentiu o meu olhar e ergueu os olhos, cruzando o espaço entre nós com aquele sorriso de lado que, oito meses depois de tudo, ainda conseguia me desarmar com uma facilidade ridícula.

Não precisamos dizer nada. Só ficamos ali, cada um do seu lado do corredor, na posição de padrinhos que os dois tínhamos aceitado meses atrás, numa época em que eu ainda fingia, para mim mesma e para todo mundo, que aquilo entre nós era só um acordo casual bem redigido.

A vida, pensei, tinha um senso de humor cruel e generoso ao mesmo tempo.

A cerimônia foi exatamente do jeito que a Helena sempre quis: simples, emocionada, com o Arthur chorando mais do que ele jamais admitiria em qualquer reunião de diretoria. Quando os dois trocaram as alianças, a Malu, sentada ao meu lado com o Téo cochilando no colo dela, apertou a minha mão com tanta força que quase cortou a circulação.

— Eu avisei que eles iam se casar primeiro — sussurrou, limpando uma lágrima discreta. — Quem diria que eu estaria certa duas vezes na vida.

— Duas vezes?

— A segunda foi sobre você e o Montserrat. Eu sabia desde a degustação de bolo.

Não tive tempo de rebater, porque o Téo escolheu aquele exato momento para acordar, esfregar os olhos com as mãozinhas e procurar, instintivamente, a pessoa certa na multidão.

— Guga — chamou, baixinho no começo, e depois mais alto, já se contorcendo no colo da Malu. — Guga!

Do outro lado do corredor, o Gustavo, que ainda estava ao lado do Arthur recebendo cumprimentos, ouviu o próprio apelido e virou o rosto na mesma hora, o sorriso se abrindo largo antes mesmo de ele terminar de localizar o Téo entre as cadeiras.

O menino, com dois anos e meio de idade e uma determinação cada vez mais parecida com a minha, desceu do colo da Malu, cambaleou pelo gramado desviando de duas cadeiras e um vaso de flores, e, ao chegar perto de nós, ignorou completamente os meus braços abertos, correndo direto para as pernas do Gustavo.

— Dá! — exigiu, erguendo os bracinhos, exatamente a mesma palavra que tinha usado para pedir o relógio do avô, meses atrás, numa festa muito mais formal que aquela.

O Gustavo riu, abaixando-se para pegá-lo no colo com a mesma naturalidade de sempre, como se aquele peso pequeno e aquela autoridade de dois anos já fizessem parte do corpo dele.

— Bom, carinha, acho que dessa vez é colo mesmo que você quer, não um relógio suíço.

— Guga — o Téo repetiu, satisfeito, enroscando os bracinhos no pescoço dele e apoiando a cabeça no ombro do terno impecável, sem a menor preocupação com amassar o tecido.

Fiquei ali, parada, olhando aquela cena — o homem que um dia disse, sem me conhecer, que mulher com filho era uma conta que não fecha, agora com o meu filho adormecendo de novo no colo dele, bem no meio do casamento do melhor amigo — e senti uma felicidade tão simples, tão doméstica, que quase doeu.

— Ele te escolheu — comentei, me aproximando.

— Ele sempre me escolhe — o Gustavo respondeu, baixinho, para não acordar o Téo de novo. — Eu só ainda não decidi se mereço essa sorte toda.

No meio da recepção, encontrei a Bia perto do bar, impecável como sempre, rindo de alguma coisa que o Marcos tinha acabado de dizer, com o Felipe tentando, sem sucesso, convencer o Bóson a não roubar canapés da bandeja mais próxima.

— Esse cachorro vai acabar comendo o bolo inteiro antes do corte oficial — a Bia avisou, apontando para o vira-lata, que já tinha deixado um rastro de destruição debaixo de duas mesas. — O Gustavo devia ter deixado ele em casa.

— Ele implorou — respondi, rindo. — E o Gustavo, apesar de toda a reputação de homem de negócios, não sabe dizer não para esse cachorro.

— Ele não sabe dizer não para muita coisa, ultimamente — a Bia me olhou de lado, com aquele brilho malicioso de sempre, mas sem nenhum resquício da tensão que existiu entre nós no início. — Você sabe que estava certa, naquele dia na sala de reunião? Sobre eu e ele. Nunca foi nada sério. E olhando para como ele é com você, eu nem lembro direito como aquilo um dia pareceu complicado.

Sorri, apertando a mão dela de leve.

— Obrigada por nunca ter dificultado as coisas, Bia.

— Eu nunca disputo nada que já está decidido — ela deu de ombros, erguendo a taça de champanhe. — E vocês dois estavam decididos desde aquele beijo no bar do Copacabana Palace. Só vocês não sabiam ainda.

Encontrei a dona Marta perto da mesa de doces, impecável como sempre, com um prato de brigadeiros que ela claramente não tinha a menor intenção de comer, só de carregar com elegância pelo salão.

— Dra. Coimbra — cumprimentou, com aquele mesmo tom que eu já tinha aprendido a decifrar como carinho disfarçado de formalidade. — O Téo está enorme. Da última vez que o vi, ele mal alcançava o meu joelho.

— Ele cresce rápido demais, dona Marta.

— Frederico perguntou por ele semana passada — ela comentou, como quem não quer nada, olhando para as próprias unhas. — Perguntou se o menino já estava pronto para aprender a jogar xadrez. Acho que ele está se candidatando ao posto de avô, mesmo sem ninguém ter oficializado nada.

Senti o peito apertar de um jeito bom, surpreendente, ao perceber o tamanho do espaço que o meu filho já tinha conquistado naquela família que, meses atrás, eu nem imaginava que um dia chamaria de família.

— Ele vai adorar a ideia — respondi, sincera. — Principalmente se envolver mexer em alguma coisa que não deveria.

— Isso é bem da família Montserrat — ela riu, um riso raro e genuíno. — Cuide bem do meu filho, Lívia. Ele nunca foi tão gente boa quanto é com você por perto.

Antes que eu conseguisse responder qualquer coisa, a Isabel apareceu arrastando a Clara pelo braço, as duas já visivelmente afetadas pelo champanhe, interrompendo o momento com a delicadeza de sempre.

— A gente está apostando quanto tempo até vocês dois também estarem ali na frente de um arco de flores — a Isabel anunciou, sem o menor pudor. — Eu disse um ano. A Clara, pragmática como sempre, disse dois.

— Vocês dois são impossíveis — respondi, rindo, enquanto a Marta revirava os olhos para as próprias filhas com um carinho que desmentia a reclamação.

Mais tarde, já com o céu escurecido e as luzinhas do jardim brilhando por cima das mesas, sentei com o Gustavo numa das pontas mais afastadas da festa, vendo o Téo dormir profundamente no carrinho que a minha mãe tinha trazido, prevendo exatamente aquele momento de colapso pós-festa.

— Semana que vem é a audiência de revisão — comentei, baixinho, olhando para o filho. — O Dr. Ricardo disse que é só formalidade. O Lucas assinou tudo, a pensão está em dia há meses, e ele nem contestou o valor atualizado.

— Ele desistiu de brigar — o Gustavo constatou, sem nenhuma surpresa.

— Ele percebeu que não tinha mais com quem brigar — corrigi. — Eu parei de dar o troco, você parou de dar o troco, e sem audiência para alimentar o ego dele, ele simplesmente... sumiu de vez. Nem mensagem mais manda.

— Bom — ele disse, simplesmente, passando o braço pelo encosto da minha cadeira. — Esse capítulo está fechado, então.

— Fechado — confirmei, encostando a cabeça no ombro dele, sentindo o peso dos últimos meses se acomodar num lugar tranquilo, finalmente, depois de tanto tempo carregado.

Foi nesse instante que a Helena, já sem o véu, descalça, subiu numa cadeira no meio do gramado, segurando o buquê acima da cabeça, gritando para que todas as mulheres solteiras se aproximassem.

— Vai lá — o Gustavo me cutucou, divertido.

— Eu não sou solteira.

— Tecnicamente não precisa ser solteira para pegar o buquê, doutora. É só não ter medo de superstição boba.

Levantei, rindo, e me juntei ao grupo de mulheres que se formava, entre elas a Malu, que já estava se posicionando estrategicamente na primeira fila, de olho fixo no alvo.

A Helena contou até três e jogou o buquê por cima do ombro.

Ele voou alto, girando no ar entre as luzinhas penduradas, e, por um daqueles acasos que o Gustavo adorava chamar de "estatisticamente improváveis", caiu direto nas minhas mãos, por cima de qualquer disputa, antes mesmo de a Malu conseguir se mexer.

A Malu soltou um grito de protesto teatral. O resto das convidadas aplaudiu. E eu fiquei ali, parada, segurando um buquê de flores brancas, olhando para o Gustavo do outro lado do gramado, que tinha se levantado da cadeira e me encarava com um sorriso que eu já conhecia bem o suficiente para saber que vinha problema por trás dele.

— Não — avisei, apontando o buquê na direção dele antes mesmo de ele se aproximar. — Nem pensa.

— Eu não disse nada.

— Você está com aquela cara.

— Que cara?

— A cara de quem está calculando o próximo movimento, como se fosse um predador hostil.

Ele riu, atravessando o gramado até parar bem na minha frente, roubando o buquê da minha mão com uma delicadeza que não combinava nada com o brilho nos olhos dele.

— Eu só estava pensando — começou, cheirando as flores com uma seriedade exagerada — que, já que você pegou o buquê, e já que o Téo adora um irmãozinho de brincadeira, talvez a gente devesse considerar ampliar um pouco o portfólio por aqui.

— Gustavo Montserrat.

— O que foi? É só uma observação.

— A gente namora há oito meses.

— E eu já sei exatamente que tipo de pai eu quero ser — respondeu, sem nenhum traço de brincadeira agora, os olhos fixos nos meus. — Eu só não tenho pressa nenhuma, Lívia. Eu finalmente aprendi a esperar o tempo certo das coisas. Mas, quando chegar a hora, eu quero que você saiba que eu já decidi, há muito tempo, que quero a vida inteira com você. O Téo incluído. Qualquer outro que vier, incluído também.

Fiquei ali, com as luzinhas do jardim piscando por cima dos dois, o som distante da festa, o Téo dormindo tranquilo a poucos metros, e aquele homem absurdo, impossível, que um dia tinha dito que mulher com filho era uma conta que não fechava, agora me olhando como se eu fosse, finalmente, a única equação que ele realmente queria resolver pelo resto da vida.

— Me beija logo, Montserrat — falei, puxando-o pela gola do paletó. — Antes que o Bóson estrague mais um momento importante.

E, bem a tempo, como se tivesse ensaiado a deixa, ouvimos um grito abafado vindo da mesa do bolo, seguido da voz do Arthur gritando "ALGUÉM SEGURA ESSE CACHORRO", e o som inconfundível de uma bandeja inteira de canapés indo ao chão.

Rimos, encostando a testa um no outro, sem nenhuma pressa de nos separarmos para resolver aquele caos específico.

Porque, afinal, o caos sempre fez parte da nossa história desde o início.

E eu não tinha nenhuma vontade de controlá-lo sozinha.



Notas finais
Eu amo escrever os agradecimentos porque isso significa que encerrei mais uma obra. É sempre um misto de sentimentos me despedir de um casal (nem tanto assim, né? Porque todo mundo vai estar de volta em Comum Acordo. rs) Queria agradecer de verdade a cada uma de vocês que curtiu, comentou, compartilhou e esperou ansiosamente por cada capítulo. Em alguns momentos, eu pensei seriamente em abandonar isso aqui, mas isso não aconteceu por causa de vocês. Então, dedico cada linha dessa história a vocês. Em especial a três leitoras, Debinha, Brunaras e Fernanda, se essa história teve um fim, foi graças a vcs 💖✨ Eu sei que a obra tem vários pontos que precisam ser corrigidos e algumas inconsistências: o nome do genitor do Téo, a idade dele, o trabalho do Gustavo, entre outras coisas em que eu dei uma escorregada aqui ou ali. Vocês mereciam, sim, uma fic revisada e corrigida, mas não vou mentir para vocês: eu tenho ✨ preguiça ✨. Então vai ficar assim mesmo. Acho que nada disso atrapalha tanto a imersão e, se atrapalhar, finjam que não viram. Dito tudo isso, chegou a hora de finalizar essa trilogia com Marcos e Malu. Espero de verdade que vocês gostem de acompanhar esse casal tanto quanto eu gostei de escrever os dois. E que, no fim, vocês entendam por que esses dois tinham tudo para dar errado... e justamente por isso deram tão certo. Nos vemos em Comum Acordo (já esta postado). 💖
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!