Sair da cobertura do Gustavo foi fácil.


Difícil foi lembrar como se respirava.


Cruzei o hall do elevador em passos largos, agradecendo mentalmente por não ter cruzado com mais ninguém além do Marcos. Minhas mãos tremiam levemente quando destravei o carro na calçada e me joguei no banco do motorista, batendo a porta com mais força do que pretendia. O som abafado do interior do veículo foi o primeiro alívio do dia.


Agora eu só precisava convencer meu cérebro que nada relevante tinha acontecido lá em cima. Tudo aquilo foi apenas uma visita clínica. O paciente estava bem. Os exames estavam bons. Os pinos estavam estáveis.


Todo o resto era irrelevante.


O problema é que o meu corpo parecia não ter recebido o memorando.


Minhas mãos ainda estavam quentes. E eu conseguia sentir, com uma nitidez irritante, a textura da pele dele sob a minha palma. Fechei os olhos por um segundo. Foi só porque ele estava sem camisa. Só isso. Qualquer pessoa teria olhado.


Eu olhei porque precisava avaliar se ele tinha acabado de sair da corrida. Mentira.

Eu olhei porque ele era absurdamente bonito. Bufei para mim mesma.


— Parabéns, Lívia. Excelente capacidade de autodiagnóstico.


Apoiei a testa no volante, fechando os olhos. O cheiro de baunilha do meu próprio perfume parecia misturado ao aroma de mar e suor que emanava da pele do Gustavo. Que inferno.


Forcei-me a respirar fundo, contando até quatro, tentando reidratar o cérebro que parecia ter entrado em curto-circuito no momento em que ele tocou o meu maxilar.


— Profissionalismo, Lívia. Você é uma profissional.


Abri a bolsa de couro com pressa, buscando meu bloquinho de anotações para descarregar os dados técnicos da avaliação do Bóson. Precisava documentar a evolução da bacia, a simetria do apoio, a cicatrização técnica...


Minha caneta travou no papel em branco.


Eu não lembrava de metade. Eu tinha certeza de que tinha verificado a flexão da pata direita, mas o resultado? Sumiu. Minha memória recente tinha sido deletada e substituída por imagens em alta definição do abdômen definido do Gustavo Montserrat, brilhando sob o sol da tarde.


Respirei fundo. A culpa era exclusivamente do Gustavo Montserrat. Ou melhor... Da completa falta de camiseta do Gustavo Montserrat.


Soltei um rosnado de pura frustração e joguei o bloco no banco do passageiro. Eu mapeei cada músculo dele enquanto ele falava sobre "o agora". Que tipo de médica eu era? Eu passei duas semanas revisando aditivos contratuais para me proteger dos jogos mentais dele, e sucumbi na primeira vez que ele apareceu sem camisa. Patético.


E o Marcos... Um xingamento mental bem direcionado ao timing desastroso do amigo dele atravessou o meu pensamento. Se ele não tivesse aberto aquela porta, se ele tivesse demorado mais trinta segundos...


Travei a mandíbula na mesma hora, sentindo uma onda de auto-ódio me atingir. Não. Eu não podia estar pensando isso. Eu não podia estar irritada pela interrupção. O Marcos não tinha estragado nada; ele tinha me salvo. Ele tinha impedido que eu cometesse o maior erro da minha vida profissional.


Se aquele beijo tivesse acontecido, se os meus lábios tivessem tocado os dele... como eu entraria na fundação na segunda-feira? Como eu assinaria um aditivo de fornecedor olhando nos olhos verdes dele sem lembrar da temperatura do corpo dele contra o meu?


Eu precisava agradecer ao Marcos, não xingá-lo.


O problema não era a física quântica colapsando sistemas, como o Gustavo gostava de filosofar. O problema era simples, biológico e dolorosamente previsível: atração.


E a solução também era simples, puramente lógica: distância operacional. O protocolo médico do Bóson estava encerrado. Agora, era só o expediente na fundação. Duas mesas de jacarandá de separação, ar-condicionado no máximo para esfriar qualquer clima e zero visitas técnicas fora do horário comercial.


Girei a chave na ignição, fazendo o motor do carro roncar. Eu ia para casa, daria banho no Téo e revisaria prontuários até que a imagem do peitoral do Montserrat fosse varrida da minha mente por dados de vacinação.


Eu estava no controle. De novo.


Duas horas depois, a atmosfera no meu apartamento era o oposto exato da tensão que quase me consumiu na cobertura.


O Téo, com seus catorze meses de pura energia, cruzava a sala de um lado para o outro com aquela marcha meio desengonçada e decidida de quem acabou de dominar a arte de andar. Ele segurava um dinossauro de plástico em uma das mãos e exibia um sorriso largo que deixava seus quatro únicos dentinhos da frente perfeitamente à mostra. O carisma dele era o meu porto seguro; era impossível olhar para aquele gordinho e continuar pensando em caras arrogantes.


— Dá! — Téo balbuciou, parando na minha frente e esticando o dinossauro. No segundo seguinte, ele mudou de ideia, puxou o brinquedo de volta e soltou um sonoro: — Não!


— Não? Então tá bom — ri, me agachando para apertar aquelas bochechas.


A campainha tocou, cortando o som das gargalhadas dele. Fui até a porta e, ao abrir, dei de frente com a Helena. Ela não esperou nem o meu "oi"; entrou na sala exalando a energia, com um brilho diferente nos olhos.


— Oi, meu amor mais lindo! — Helena se abaixou, enchendo o Téo de beijos e fazendo ele soltar aquela risada gostosa que preenchia a casa. Ela se levantou, ajeitando o cabelo castanho, e me encarou. — Ainda bem que ele está acordado. Eu precisava mesmo pegar vocês dois juntos.


— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — perguntei, estranhando o tom ligeiramente solene dela enquanto ela tirava uma caixinha de veludo texturizado, num tom de verde-oliva profundo, de dentro da bolsa.


— Conversamos sobre o buffet e as flores depois. Primeiro, o mais importante. Toma — ela disse, estendendo a caixinha para mim.


Peguei o objeto, sentindo o peso do estojo nas mãos. Olhei para a Helena, confusa, e depois voltei os olhos para a caixinha. Levei alguns segundos para processar o que aquilo significava. Quando puxei a fita de cetim e abri a tampa, vi um pingente delicado de ouro e, logo abaixo, um cartãozinho escrito com a caligrafia elegante da minha melhor amiga: "Para a dona do meu coração e a melhor parceira de vida. Aceita ser a minha madrinha de casamento?"


Meus olhos marejaram instantaneamente. O nó que estava na minha garganta por causa do estresse do dia se transformou em uma onda de pura emoção. Olhei para a Helena, que já estava com os olhos vermelhos também.


— Finalmente. Eu já estava começando a achar que você ia me trocar pela Malu.


Helena riu.


— Vocês duas já estavam escolhidas antes mesmo de o Arthur comprar as alianças.


Eu a abracei apertado, sentindo uma lágrima quente escorrer pelo meu rosto.


— É claro que eu aceito. Vai ser a maior honra da minha vida. Não vejo a hora de usar a cor que você obrigar e te ajudar com os surtos do buffet.


No meio do nosso abraço, sentimos um puxãozinho na minha calça jeans. Olhamos para baixo e o Téo tentava escalar as minhas pernas, olhando para a caixinha de veludo na mesa de centro com os olhinhos brilhando.


— Água? — ele perguntou, chutando o vocabulário para ver se colava. Quando viu que ignoramos, apontou para a caixinha de novo. — Au-au?


— Não é au-au, meu amor — Helena riu, limpando o canto dos olhos e pegando o Téo no colo, enchendo o pescoço dele de cosquinhas. — É o casamento da titia. E você está convidadíssimo. Na verdade, você foi intimado junto com a sua mãe.


— Intimado para quê? — perguntei, fechando a caixinha com carinho.


— Sábado que vem. O Arthur fechou o reservado de um restaurante na Zona Sul para o nosso primeiro jantar oficial dos padrinhos. Eu, você, a Malu... e os padrinhos do noivo. E o Téo vai junto, porque eu faço questão.


Senti o meu estômago dar uma contração tão violenta que precisei apoiar a mão na mesa de jantar. Os padrinhos do Arthur. O círculo íntimo do noivo.


— Quem são os padrinhos do Arthur, Helena?


— E antes que você invente uma desculpa, sim, o Gustavo vai estar lá. O Marcos também. O Felipe também. Então nem vem dizer que não vai. — Helena respondeu com total naturalidade, ajeitando o Téo no quadril.


Olhei para o meu filho, que agora batia palminhas, completamente alheio ao colapso da mãe dele.


O sábado que vem. Um jantar íntimo. Vinho fluindo. O Gustavo Montserrat sentado na mesma mesa, sem o verniz do terno cinza, sabendo exatamente o calor que os meus dedos deixaram na pele do peito dele poucas horas atrás. E, para completar o cenário de caos, o meu filho como testemunha VIP daquela voltagem elétrica.


O problema da entropia, eu pensei, sentindo o meu coração acelerar, é que o caos não espera você estar pronta para recalibrar as defesas. Ele simplesmente acontece.


— Passo te buscar às oito no sábado, tá? Leva uma bolsa caprichada com as coisas do gordinho — Helena avisou, deixando o Téo no chão e me dando um beijo na bochecha. — Te amo, madrinha! Até sábado!


— Até... — respondi em um sussurro, ouvindo o clique da porta se fechar.


Téo andou até mim, segurou a minha mão com os seus dedinhos gorduchos e olhou para a porta.


— Mamãe? — ele balbuciou, tombando a cabeça.


— É, meu amor... — suspirei, pegando-o no colo e apertando-o contra o meu peito. — A mamãe tem exatamente sete dias para reconstruir uma muralha inteira.


Porque no próximo sábado, nós dois vamos entrar direto no olho do furacão.



A segunda-feira começou exatamente como eu temia: um teste de estresse. Cheguei trinta minutos mais cedo na fundação, o coque tão apertado que repuxava a pele da minha testa e o jaleco abotoado até o último botão.


Eu era a personificação da eficiência médica, uma máquina incapaz de lembrar da textura da pele dele.. A primeira provação veio às duas da tarde, na reunião de orçamento.


O Gustavo entrou na sala vestindo um terno sob medida cinza-chumbo, a gravata perfeitamente alinhada e o rosto esculpido naquela impassibilidade típica de quem move milhões com um aceno de cabeça. O oposto exato do homem descalço e de moletom da minha tarde de sábado.


Quando nossos olhos se cruzaram pela primeira vez, meu coração deu um solavanco estúpido, mas sustentei o olhar, forçando o meu melhor semblante clínico ao cumprimentá-lo como "senhor presidente". Ele tencionou o canto dos lábios, não chegava nem a ser um sorriso, apenas o suficiente para que eu soubesse que ele via através da minha armadura e respondeu torcendo a cadência da palavra produtivo ao desejar que meu fim de semana tivesse sido bom.


Saí da sala com a certeza de que a minha muralha tinha fundações bem mais frágeis do que eu gostaria de admitir.


Na quarta-feira, descobri que manter distância física não impedia Gustavo Montserrat de encontrar outros jeitos de bagunçar o meu dia.


Eu estava na minha mesa, imersa nos relatórios de auditoria, quando a minha secretária entrou segurando um copo térmico de inox e um pequeno envelope pardo. Dentro, não havia assinatura, apenas uma caligrafia firme, decidida: "Para garantir que os seus sistemas continuem perfeitamente controlados. B. também manda lembranças." O copo continha um macchiato duplo com o toque exato de canela que eu gostava.


Girei a cadeira para encarar a parede de vidro que dava para o corredor da diretoria, sabendo que três andares acima a cobertura da presidência me vigiava.


O Gustavo não precisava estar na minha sala para desestabilizar o meu ambiente; ele fazia isso remotamente, e tomei o café até a última gota, irritada com o fato de que a cafeína dele sabia exatamente como me devolver o foco que eu vinha perdendo.


Até que chegou a sexta.


Eu estava saindo da sala de arquivos médicos, carregando uma pasta pesada de relatórios, quando a porta do elevador privativo se abriu no corredor silencioso. O Gustavo estava lá dentro. Sozinho. Meus pés travaram no carpete por um segundo, mas o pragmatismo me forçou a entrar.


Quando as portas se fecharam, o cubículo pareceu encolher de tamanho. O perfume dele preencheu o espaço instantaneamente, o mesmo aroma de mar que tinha se impregnado na minha pele no sábado. Ficamos sozinhos por alguns segundos que pareceram horas. Nenhum de nós olhou para o visor dos andares. O silêncio era tão denso que eu tinha certeza de que ele conseguia ouvir a minha respiração curta.


Ele não se moveu, não tentou encurtar o espaço, não sorriu. Apenas manteve os olhos verdes fixos no meu perfil enquanto o elevador reduzia a velocidade no meu andar. Quando as portas se abriram, ele deu um meio passo para o lado, estendendo o braço para segurar o sensor.


— Doutora — ele disse. A voz em um tom baixo, raspando na minha nuca.


— Presidente — respondi, a voz firme por puro milagre.


Passei por ele sem olhar para trás, mas a falta de qualquer ação, a ausência de piadas ou provocações, fez a tensão explodir dentro do meu peito.


Ele não precisava me encurralar contra a parede; o fantasma do que quase aconteceu no sábado flutuava entre nós, intacto e perigoso.


Às sete e meia da noite de sábado, eu encarava o meu próprio reflexo no espelho do quarto. O vestido midi de seda verde-esmeralda tinha um corte fluido que desenhava a silhueta com elegância, e o cabelo caía em ondas soltas pelos ombros. No berço portátil, o Téo já estava arrumado, vestindo uma mini camisa azul-claro e um sapatinho de camurça que o deixava parecendo um homenzinho, alheio à ansiedade da mãe.


Peguei a bolsa de couro do Téo, recheada de fraldas e brinquedos, e segurei meu filho no colo enquanto descíamos. Durante sete dias eu tentei convencer a mim mesma de que bastava controlar as variáveis, que a distância no escritório e o jaleco abotoado seriam suficientes para neutralizar o que quer que estivesse crescendo entre nós.


No entanto, quando o carro finalmente estacionou na Zona Sul, o manobrista abriu a porta e eu vi o letreiro iluminado do restaurante, compreendi o erro da minha teoria.


O problema nunca tinha sido controlar o caos.

O problema era que Gustavo Montserrat era o próprio caos.

Assim que atravessei as portas do restaurante, fui recebida pelo perfume de comida italiana, pelo som baixo de conversas e pelo abraço apertado da Malu.


— Finalmente! — ela reclamou, pegando o Téo do meu colo antes mesmo de me dar boa-noite. — Meu afilhado favorito chegou.


— Você só tem um afilhado.


— E já basta.


Sorri para Malu enquanto ela tirava gargalhadas de Teo. Helena surgiu logo em seguida, elegante como sempre, mas com aquele brilho nos olhos que denunciava a ansiedade.


— Achei que vocês tinham desistido de vir.


— A culpa é dele. — Apontei discretamente para o Teodoro. — Decidiu que trocar de roupa três vezes era uma ótima ideia.


— Herdou isso de você.


— Muito engraçado.


Arthur apareceu atrás dela e me envolveu em um abraço.


— Que bom que você veio, Liv.


Havia algo diferente nele. Menos o empresário impecável e mais o homem prestes a dar um dos passos mais importantes da vida. Ele exalava aquela satisfação típica de quem finalmente ancorou a vida. O Felipe, do outro lado, já estava na terceira piada consecutiva sobre como o casamento era o fim da sanidade do homem, recebendo em troca um tapa estalado no ombro vindo da Malu.


E o Marcos, claro, exercia com maestria a sua função de ser inconveniente.


— Eu só acho que o noivo deveria ter direito a um aviso prévio de três meses antes do altar — Marcos dizia, rindo enquanto gesticulava com o garfo. — A Helena passou quatro anos controlando a agenda profissional do Arthur como secretária executiva. Agora a mulher ganhou estabilidade vitalícia no cargo. Arthur, meu irmão, você nunca mais vai comprar uma meia sem passar pela aprovação do conselho administrativo dela.


— Cala a boca, Marcos — Arthur rebateu, mas o sorriso dele para a Helena entregava que ele aceitaria aquela submissão de bom grado por mais cinquenta anos.


Helena, impecável em um conjunto de alfaiataria, nem se deu ao trabalho de se estressar.


— Deixa ele falar, amor. O Marcos só está com inveja porque a única pessoa que controla a agenda dele é a terapeuta, e ela claramente está falhando — Helena alfinetou, arrastando uma gargalhada do Felipe.


Olhei ao redor. Malu já havia desaparecido com o Téo. E então eu o vi.


Gustavo. Camisa azul-marinho com as mangas dobradas até os antebraços.


Postura relaxada, ele ergueu os olhos e encontrou os meus. Desviei imediatamente. Respira. Você consegue sobreviver a um jantar.


Quando todos já estavam acomodados, Arthur bateu delicadamente a taça com o garfo.


As conversas cessaram. Helena segurou a mão dele por baixo da mesa.


— Antes de qualquer coisa... obrigado por estarem aqui.


Arthur sorriu para ela antes de continuar.


— Nós sempre soubemos que casamento não é feito só de duas pessoas. É feito da família que a gente escolhe construir. E vocês fazem parte da nossa. — Helena respirou fundo, os olhos já brilhavam. — Por isso... queríamos pedir oficialmente que vocês caminhassem conosco nesse dia.


Helena abriu a bolsa e começou a entregar os envelopes texturizados e as pequenas caixas de presentes personalizadas para os padrinhos. O ambiente mudou instantaneamente. A Malu limpou uma lágrima discreta, o Felipe soltou um estalo com a língua para disfarçar o nó na garganta, e o Marcos deu um soco leve no ombro do Arthur.


Dentro, uma garrafa de vinho personalizada, uma carta escrita à mão e uma pequena placa gravada: Aceitam ser nossos padrinhos?


— Vocês são uns cafonas, sabiam? — Gustavo reclamou, embora o sorriso dele fosse de orelha a orelha. — Mas eu aceito. Só não me pede para usar terno de cor pastel.


Olhei para a caixinha na minha frente, ainda com o Téo brincando com o relógio no meu pulso. Aceitar aquele convite significava muito mais do que usar um vestido bonito no altar ou aparecer em algumas fotos.


Significava meses de degustações, provas de roupa, reuniões, despedidas de solteiro, mensagens em grupo que nunca terminavam.

Significava conviver ainda mais com as pessoas que eu mais amava.


E, inevitavelmente, com Gustavo.


Olhei para a caixinha em minhas mãos, sentindo o nó na garganta se transformar em uma onda de puro afeto pela Helena e pelo Arthur. Olhei para ela e assenti com a cabeça, segurando o choro. Eu aceitaria aquele papel mil vezes se fosse preciso.


— Eu já aceitei. — comecei falando. — Você nem me deu opção.


— Porque não existia.


— Controladora.


— E ainda assim você me ama.


Revirei os olhos.


— Infelizmente.


As risadas ao redor da mesa voltaram a preencher o ambiente. Enquanto Helena seguia distribuindo abraços e Felipe implicava com Arthur dizendo que ainda dava tempo de fugir, senti um par de olhos sobre mim. Gustavo me olhava com um sorriso no rosto.


— Como vai o herdeiro de quatro patas? — perguntei a ele.


O Gustavo soltou um suspiro pesado, daqueles que vinham direto do fundo da alma, e passou a mão pelo rosto.


— O Bóson é um terrorista. Essa é a única definição possível — Gustavo respondeu, e o canto da minha boca tremeu com a vontade de rir. — Em menos de uma semana, ele destruiu o controle remoto da televisão da suíte, engoliu um sapato de couro italiano que eu usei uma vez e arranjou uma utilidade criativa para o cabo da sanduicheira. Os tapetes emborrachados espalhados pelo chão, adivinha? Ele comeu as bordas de dois deles. Sabe Deus o que mais tem no estômago daquele bicho neste momento.


A mesa inteira gargalhou. O Marcos quase engasgou com o uísque.


— O grande analista de risco, mestre da holding, perdendo o controle da própria cobertura para um vira-lata manco — Marcos tripudiou, apontando o dedo para ele. — É o carma, meu amigo.


— Ele não é manco, a recuperação está impecável — Gustavo corrigiu imediatamente, a voz assumindo um tom defensivo que me pegou de surpresa. Ele então direcionou aqueles olhos verdes diretamente para mim do outro lado da mesa. — Mas aceito sugestões profissionais de como adestrar um psicopata, doutora. Porque eu não aguento mais resgatar pedaços de borracha no corredor.


— Paciência, presidente — respondi, sustentando o olhar com um sorrisinho de lado que fiz questão de não esconder. — Ele passou a vida na rua defendendo o próprio território. Agora ele só está testando os limites do seu. Monitore o apetite dele. Se ele digerir um sapato italiano, os pinos da bacia não vão ser o seu maior problema.


No meio do barulho dos talheres e do brinde que se seguiu, o pequeno Téo, instalado em um cadeirão de alimentação ao meu lado, decidiu que a calmaria do momento não era interessante o suficiente. Ele já tinha jogado o dinossauro de plástico no chão duas vezes, ambas resgatadas por mim com um suspiro paciente e agora batia as mãozinhas gorduchas na mesa, testando os limites do restaurante.


— Dá! — Téo balbuciou, apontando para a mesa central. — Água!


— A água está aqui, filho — tentei passar o copinho, mas ele virou o rosto com uma determinação impressionante para seus catorze meses.


— Não! — Ele bateu o pé, os quatro dentinhos da frente aparecendo enquanto ele mirava o copo de água com gás e limão que estava bem na frente do Gustavo. — Esse!


Senti minhas bochechas esquentarem. Tentei contê-lo, segurando sua mãozinha, tensa pela quebra de protocolo do meu filho em um ambiente tão sofisticado. Mas, antes que eu pudesse formular uma barreira ou pedir desculpas, vi o Gustavo sorrir de canto. Ele deixou o seu próprio copo de lado, afastou a cadeira e se inclinou na nossa direção.


— Deixa comigo, Lívia.


Antes que meu cérebro processasse o movimento, o Gustavo passou as mãos grandes por baixo dos braços do Téo e o puxei para o colo dele com uma naturalidade desconcertante. O tecido da camisa de linho azul do meu filho contrastou com a camisa azul-marinho dele. Eu travei, com o garfo no meio do caminho, esperando o colapso: o Gustavo Montserrat, um homem de negócios obcecado por controle, com um bebê babando perto do seu peito


Mas o Téo simplesmente estancou. Olhou para o Gustavo de baixo para cima com aqueles olhinhos curiosos, avaliando o homem na sua frente. O Gustavo levou o copo de água até perto dele, deixando-o tocar no vidro gelado com os dedos gorduchos.


— Au-au? — Téo perguntou, chutando uma das poucas palavras que conhecia para ver se colava.


— Não, garoto. Isso é gelo — o Gustavo respondeu em um tom baixo, a voz grave vibrando perto do ouvido do meu filho enquanto segurava o copo para ele dar um gole pequeno.


O Téo soltou uma risada alta, daquelas que sacodem a barriga, e simplesmente se encostou no peito do Gustavo, esticando as perninhas de camurça por cima das coxas dele, perfeitamente confortável. Ele tinha sido conquistado em três segundos.


Meu coração deu um baque doloroso no peito.


Tentei piscar, tentando fingir para mim mesma que aquilo não tinha importância, que era apenas uma interação banal. Mas a verdade é que o Gustavo tinha acabado de implodir a minha última linha de defesa sem precisar fazer o menor esforço. E o pior: ele sabia disso. Sempre que eu olhava para os dois, os olhos verdes dele já estavam fixos em mim, semicerrados, saboreando a minha completa falta de reação.


O jantar se estendeu até quase a meia-noite entre risadas e histórias antigas da empresa, até que o Téo finalmente desabou no sono, exausto, deitado no meu colo.


Na hora da despedida, o grupo começou a se dispersar na calçada iluminada do restaurante. O manobrista trouxe o carro do Arthur, e o Marcos estava ajudando a Malu a entrar em um táxi, ainda fazendo alguma piada barulhenta que ecoava pela rua vazia de Ipanema. A Helena pegou o Téo no colo por um instante para me ajudar a ajeitar a pesada bolsa de couro nos ombros.


Por um breve alinhamento de segundos, o resto do mundo pareceu se afastar.


Gustavo e eu ficamos parados a um metro de distância um do outro, perto da entrada do restaurante. O vento da noite trazia o cheiro do mar misturado ao meu próprio perfume de baunilha.


Nenhum toque aconteceu. Nenhuma palavra provocativa foi dita. Nós mantivemos a distância regulamentar.


Mas aconteceu tudo.


Os olhos verdes dele se fixaram nos meus com uma intensidade avassaladora, despida de qualquer verniz. Estava tudo ali: o eco do que quase aconteceu no sábado, o peso do meu filho tendo dormido no colo dele e a certeza absoluta de que os próximos meses seriam uma contagem regressiva para o inevitável.


Engoli em seco, segurando firme a alça da bolsa, sustentando a eletricidade que vibrava entre nós no meio da calçada.


— Boa noite, Montserrat — sussurrei, a voz quase sumindo na brisa.


— Boa noite, Lívia.


Ajeitei sua cabeça no meu ombro antes de entrar no banco de trás. Ele suspirou baixinho, ainda perdido no próprio sonho.


Quando o carro arrancou, olhei pela janela quase por impulso. Gustavo continuava parado na calçada. As mãos nos bolsos da calça.


O olhar acompanhando o carro até que a distância começou a apagá-lo da paisagem. Durante uma semana inteira eu acreditei que bastava manter alguns metros entre nós no hospital.


Descobri, naquela noite, que distância física nunca foi o verdadeiro problema. O problema era outro. Era vê-lo rindo com os amigos que agora tínhamos em comum. Era vê-lo conversando com o meu filho como se não existisse esforço algum naquilo. Era perceber que, pela primeira vez em muito tempo...


A ideia de dividir a minha vida com alguém deixou de parecer impossível.


Fechei os olhos.


Aquilo, sim, era perigoso.



Notas finais
Vcs curtem ver esse grupão reunido? Pq eu adoro haha Mas vem cá, estou dando bastante espaço ao Marcos pq a intenção é fechar a trilogia com ele a nossa digníssima Malu. A história deles já têm sinopse e enredo, só basta mesmo dar vida. Um pequeno spoilers, se chama Comum Acordo e será um friends to lovers 🩷 Mas pra isso eu preciso saber, vc ia acompanhar? 💕