A casa estava silenciosa. Silêncio demais.

Joguei a chave sobre o aparador de jacarandá, afrouxei o nó da gravata e fui recebido pelo estrondo de patas deslizando pelo piso de porcelanato.


— Não. Nem vem.


O Bóson ignorou completamente a ordem. Saltou em mim como se eu tivesse passado seis meses fora, abanando o rabo com tanta violência que o corpo inteiro chacoalhava, quase me derrubando.


— Você tem algum problema sério de abandono.


O vira-lata respondeu trazendo na boca... um controle remoto completamente destruído. O plástico preto estava estilhaçado, expondo a placa de circuito verde com marcas profundas de dentes.


Fechei os olhos, massageando as têmporas.


— Esse é o terceiro, Bóson. O terceiro.


Ele largou o troféu de plástico aos meus pés e latiu, orgulhoso, com a língua para fora.


— Você comeu dois sapatos italianos, um carregador de celular, três controles, metade do estofado do sofá da sala e uma planta decorativa que custou mais caro do que deveria. E ainda acha que merece elogio.


Ele deitou de barriga para cima, esticando as patas traseiras na minha direção, totalmente satisfeito com o próprio relatório de danos.


— Você tem sorte de ser bonito — resmunguei, mas acabei me inclinando para dar um empurrão de leve na barriga dele, arrancando uma batida rápida de rabo contra o chão.


Caminhei até o bar e servi duas doses de uísque puro. Deixei o paletó jogado em uma das poltronas e fui para a varanda. A vista da cobertura para a praia de Copacabana costumava ser o meu ponto de calmaria, o lugar onde eu organizava os fluxos de caixa da holding e calculava os riscos do mercado financeiro antes de dormir.


Naquela noite, isso não funcionou.


O reflexo das luzes do Rio de Janeiro na água escura parecia irritantemente opaco. Dei um gole longo, sentindo o líquido queimar a garganta, mas a distração durou pouco.


Eu passei os últimos sete dias encontrando desculpas cada vez menos convincentes para me manter presente. Na segunda-feira, apareci na reunião de orçamento vestindo um terno que sabia que chamaria a atenção dela. Na quarta, enviei o café exato que ela gostava porque a ideia de atravessar a semana sem lembrá-la da minha existência pareceu subitamente insuportável. Na sexta, o acaso me entregou alguns minutos sozinho com ela dentro de um elevador e eu aceitei a oportunidade com entusiasmo muito pouco profissional.


Hoje, olhando para trás, parecia mais que eu estava procurando qualquer motivo para permanecer no radar dela.


Eu tinha passado o jantar inteiro a menos de dois metros dela. Eu assisti de camarote ao momento em que ela tentou me ignorar, ao tom rosa que subiu pelas bochechas dela sempre que percebia que eu já a estava olhando, e ao colapso definitivo das suas barreiras quando puxei o Téo para o meu colo.


Eu joguei o jogo de longo prazo exatamente como mandava o manual. Tinha sido uma semana inteira de contato.


E, mesmo assim, enquanto olhava para o mar, percebi que queria mais.


O Bóson trotou até a varanda e sentou ao meu lado, encostando o focinho úmido no meu tornozelo. Olhei para baixo, encarando o cachorro que ela tinha costurado, o bicho que ela tinha salvado da sarjeta e que agora ditava o ritmo da minha rotina.


— Eu estou com problemas, garoto — confessei em voz baixa, girando o copo de uísque.


O diagnóstico que eu vinha tentando evitar no carro, no restaurante e durante todo o trajeto de volta finalmente começou a tomar forma.


O problema que me mantinha acordado à uma da manhã já não era o desejo.


Desejo era simples. Objetivo. Quase matemático.


Eu sabia exatamente o que queria quando olhava para a Lívia dentro daquele vestido verde-esmeralda. Sabia como meu corpo reagia à voz dela, ao perfume dela, ao jeito como ela me encarava quando fingia estar irritada.


Isso era fácil de identificar.


O difícil era explicar por que, depois de passar horas ao lado dela, eu ainda sentia a mesma inquietação.


Eu a tinha visto durante a semana inteira.


Tinha cruzado com ela em reuniões, corredores e elevadores. Tinha passado um jantar inteiro observando cada mudança de expressão no rosto dela.


E, mesmo assim, quando voltei para casa, a sensação era a mesma.


Como se alguma coisa tivesse ficado faltando.


Como se nenhuma quantidade de tempo ao lado dela parecesse suficiente.


Eu sentia falta do som da risada dela quando ela esquecia de ser a "Doutora Coimbra". Sentia falta da eletricidade silenciosa que ficava flutuando no ar quando estávamos sozinhos na calçada, sem que nada precisasse ser dito.


Dei o último gole no uísque, deixando o copo vazio sobre o parapeito de vidro.


O pior era que aquilo não fazia sentido.


Eu a tinha visto todos os dias daquela semana.


Tinha cruzado com ela nos corredores do hospital, provocado sorrisos discretos durante reuniões, arrancado olhares contrariados no elevador e passado quase três horas sentado à mesma mesa naquela noite.


Racionalmente, eu tinha tido mais contato com a Lívia naquela semana do que com qualquer outra pessoa fora do ambiente corporativo.


Ainda assim, a sensação era de insuficiência.


Como se nenhuma hora ao lado dela fosse suficiente para saciar alguma coisa que eu ainda não conseguia definir.


Soltei uma risada curta, desacreditada.


— Isso é ridículo.


O Bóson ergueu as orelhas ao ouvir minha voz, como se aguardasse uma explicação melhor.


— Não olha assim para mim. Você também é culpado.


O cachorro apenas inclinou a cabeça. Balancei a minha, vencido.


— Antes de você aparecer, ela era só a mulher que eu dormi. Agora eu chego em casa e tudo me lembra dela.


Olhei para o vira-lata, que batia o rabo no chão sempre que ouvia o nome dela, completamente alheio ao estrago que havia causado.


— Ela salvou você... e acabou bagunçando a minha vida junto.


Acordei na segunda-feira esperando que o dia fosse consideravelmente mais fácil. Afinal, a lógica estava do meu lado: as próximas doze horas seriam preenchidas pela realidade esmagadora da minha Holding.


Reuniões de conselho, alinhamento com investidores estrangeiros, auditoria de aquisições no setor hoteleiro. O tipo de ruído corporativo que sempre ocupou a totalidade da minha cabeça e que, por si só, deveria ser suficiente para silenciar qualquer resquício do jantar de sábado.


Só que a mecânica da minha mente não quis colaborar.


Às dez da manhã, durante a apresentação de metas de expansão para o segundo semestre, percebi que os gráficos de barras projetados na parede de vidro tinham se tornado apenas borrões de luz. Eu estava olhando pela janela, observando o tráfego travado na avenida lá embaixo, pensando no contraste absurdo entre o peso daquele terno cinza e a memória da textura da seda verde-esmeralda contra os meus dedos na calçada de Ipanema.


— ... e com a flutuação do câmbio, estimamos um impacto de três por cento na margem líquida. Senhor Montserrat? O senhor concorda com o provisionamento? — O diretor responsável apontou, aguardando o veredito.


Virei o rosto lentamente, assentando os papéis na mesa.


— Qual foi o percentual estimado de impacto no fechamento anterior? — perguntei, tentando reidratar o foco.


O diretor franziu o cenho de leve, confuso.


— Três por cento, Gustavo. Foi o que acabei de reportar.


Minha secretária executiva, que anotava a ata logo ao lado, ergueu os olhos do tablet com uma expressão sutil de estranhamento. O tipo de deslize de atenção que cometi era inédito na minha gestão. No final da reunião, enquanto os diretores recolhiam os notebooks, ela se aproximou da cabeceira da mesa com uma pasta de assinaturas físicas.


— O senhor está bem, senhor Montserrat? — ela perguntou, o tom profissional mitigado por uma preocupação genuína. — Quer que eu cancele o almoço com o comitê de risco?


— Estou bem. Dormi pouco — respondi automaticamente, pegando a caneta de tinto para rubricar os documentos.


Uma mentira conveniente. Eu não tinha dormido pouco por causa de insônia de mercado ou preocupações financeiras. O culpado era o maldito vira-lata manco que agora ocupava metade da minha suíte e o fantasma da médica que o costurou, flutuando no escuro da minha cobertura.


Na metade da tarde, o algoritmo de distração piorou. Recebi na minha caixa de entrada o relatório semanal de admissões e triagens da Fundação Montserrat. Normalmente, eu apenas passava os olhos pelo sumário executivo, conferia se o teto de gastos orçamentários estava dentro do previsto e encaminhava o arquivo diretamente para o departamento financeiro sem segunda leitura.


Dessa vez, abri o PDF inteiro.


Li cada parágrafo sobre a alocação de residentes, a escala de plantões da ala de ortopedia e o cronograma de cirurgias reconstrutivas do Bóson. Meus olhos desceram a página até pararem no nome impresso logo abaixo da assinatura digital: Dra. Lívia Coimbra.


Me peguei sorrindo para a tela do computador, traçando a curva das letras do sobrenome dela com o olhar.


Fechei a aba do navegador abruptamente, irritado comigo mesmo. Aquilo estava beirando o patético. Eu era um homem de trinta e cinco anos com um império financeiro para gerir, não um adolescente decodificando sinais em um relatório de insumos hospitalares.


Por volta das cinco, o telefone da mesa tocou. O visor indicou o ramal direto da diretoria clínica da fundação. Senti o músculo da minha mandíbula tencionar antes mesmo de atender.


— Montserrat — respondi, mantendo a voz no tom controlado de sempre.


— Gustavo, desculpe ligar na holding, sei que a sua segunda é caótica — a voz da Lívia veio ligeiramente apressada, o barulho de papéis ao fundo indicando que ela estava no meio do turbilhão dela. — É sobre a liberação de verba para os novos equipamentos de diagnóstico e a reforma da ala oeste. O pessoal da engenharia civil precisa da sua assinatura física na planilha de custos até amanhã cedo, ou o fornecedor vai cancelar o lote promocional que conseguimos de Berlim. Eu posso mandar o motoboy levar os documentos até a sua cobertura hoje à noite?


Qualquer executivo sensato aceitaria. Eu poderia assinar na mesa de jantar, tomando um uísque, enquanto o Bóson roía mais um pedaço de borracha ao meu lado.


— Não precisa de motoboy, Lívia — respondi, ajeitando os punhos da camisa antes mesmo de processar o curso da decisão. — Estou saindo de uma reunião agora. Passo na fundação no fim do dia e assino isso na sua mesa. Deixe a papelada pronta.


— Gustavo, não precisa se deslocar por isso, o motoboy...


— Eu já decidi, doutora. Até logo.


Desliguei antes que ela formulasse uma objeção técnica baseada na minha falta de tempo. Eu realmente precisava ver aquela planilha. O cronograma de obras era crucial para a governança do trimestre. Pelo menos foi exatamente isso que repeti para mim mesmo, em um looping mental perfeitamente plausível.


O problema foi o mercado de commodities de Chicago. Uma oscilação violenta às cinco e meia travou a diretoria inteira na sala de situação da holding. O que deveria ser uma assinatura rápida se transformou em duas horas de calls internacionais e alinhamento de risco.


Quando finalmente consegui me desvencilhar de Clara e descer para a garagem, o relógio do painel do carro já marcava quase oito da noite.


O expediente da Lívia terminava às sete.


Digitei uma mensagem rápida no comando de voz do carro enquanto cortava o trânsito em direção à Zona Norte. "Lívia, me atrasei na holding. Não me espere. Deixe os documentos com a segurança, passo aí, assino tudo e amanhã cedo estará na sua mesa de uma vez."


Estacionei o carro na vaga da presidência com o motor ainda quente. O prédio da fundação tinha aquela penumbra típica de fim de noite: luzes reduzidas nos corredores, o som distante do bip dos monitores das alas de internação e o silêncio pesado da administração vazia.


Subi pelo elevador privativo direto para o andar da diretoria clínica, com a caneta montblanc já no bolso do paletó, pronto para pegar a pasta na recepção e ir embora.


Mas quando a porta do elevador se abriu, vi um feixe de luz cortando o corredor escuro. Vinha exatamente da sala dela.


Caminhei a passos silenciosos pelo carpete. A porta estava entreaberta.


A Lívia ainda estava lá.


Ela estava sentada atrás da mesa de jacarandá, o jaleco branco jogado no encosto da cadeira, revelando os ombros cansados sob uma blusa de gola alta preta. O cabelo estava preso em um coque frouxo, alguns fios caídos perto do pescoço, e ela massageava as têmporas enquanto encarava a tela do computador. Ao lado do teclado, a pasta azul com os documentos que me esperava.


Só os dois. Sozinhos. No andar inteiro.


Dei dois toques leves na madeira da porta, quebrando o silêncio do escritório.

Ela deu um pequeno sobressalto, os olhos castanhos se arregalando de leve quando me viu parado no batente, segurando o paletó por cima do ombro.


— Eu avisei para você não me esperar, doutora — comecei, dando o primeiro passo para dentro do território dela.


Notas finais
O próximo capítulo tá logo ali hehe