A verdade era que eu poderia ter ido embora às sete. A pasta já estava pronta. Os pareceres revisados. As planilhas conferidas pela terceira vez.


Mesmo assim, quando o Gustavo disse que passaria pessoalmente, eu simplesmente respondi que tudo bem.


Passei a hora seguinte inventando justificativas perfeitamente razoáveis para continuar ali.


Precisava revisar os contratos da engenharia.


Precisava responder alguns e-mails. Precisava conferir a previsão orçamentária antes da reunião de quarta. Eu só tinha combinado com ele.


Era isso.


Esperar que o presidente da fundação aparecesse para assinar documentos não era exatamente um comportamento suspeito.


O fato de uma parte muito inconveniente de mim enxergar naquela noite a oportunidade perfeita para ficarmos sozinhos era um detalhe que eu me recusava terminantemente a analisar.


Quando ouvi duas batidas leves na porta, meu coração resolveu ignorar completamente os meus diplomas.


Levantei os olhos. Ele estava ali.


— Eu avisei para você não me esperar, doutora — o Gustavo começou, dando o primeiro passo para dentro da minha sala.


Ele segurava o paletó cinza por cima do ombro com uma mão, a gravata já ligeiramente afrouxada e os dois primeiros botões da camisa social abertos. Ele parecia exausto do dia na holding, mas os olhos verdes mantinham aquela vivacidade afiada, quase predatória, quando se fixaram em mim.


— Eu já estava terminando de revisar os prontuários da triagem de amanhã — respondi, fechando a aba do notebook com um clique um pouco mais rápido do que o planejado.


Uma mentira conveniente. Os prontuários já estavam fechados desde as sete e quinze.


Quando a mensagem dele chegou no meu celular avisando do atraso e dizendo para eu deixar os documentos com a segurança, minha mão travou no teclado. Minha mente, sempre tão lógica e cheia de protocolos de segurança, encontrou uma justificativa impecável: nós combinamos.


Era mais seguro garantir pessoalmente que a planilha estaria assinada sem rasuras. Mas a parte de mim que não usava jaleco sabia a verdade nua e crua: aquela era a oportunidade perfeita. Uma brecha no espaço-tempo para ficar sozinha com ele, sem os olhares do conselho, sem as brincadeiras do Marcos e sem a proteção do colo do meu filho.


E o melhor de tudo? Não pareceria que eu tinha cavado aquela oportunidade. Tinha sido o trânsito, o mercado de commodities, o acaso.


Eu estava totalmente protegida pela desculpa do destino.


O Gustavo caminhou até a minha mesa, o som dos sapatos dele ecoando no escritório vazio, e jogou o paletó na cadeira de aproximação antes de se inclinar sobre o jacarandá. O perfume dele, aquele aroma de mar que agora eu reconheceria de olhos fechados, invadiu o meu espaço.


— Deixe-me adivinhar — ele disse, um sorriso de canto desenhando-se nos lábios enquanto puxava a pasta azul para perto de si. — A Dra. Coimbra não confia na capacidade do presidente de assinar um documento sem a supervisão de um adulto responsável.


— O lote promocional é por tempo limitado, Montserrat — rebati, cruzando os braços e tentando manter a voz firme. — Não posso correr o risco de você esquecer alguma rubrica.


— Justo — ele murmurou, tirando a Montblanc do bolso da camisa.


Ele começou a folhear as páginas da planilha. O silêncio do andar inteiro parecia se concentrar ali, na luz amarelada da luminária da minha mesa.


— Aqui. Reforma da ala oeste, equipamentos de diagnóstico e os contratos da engenharia. Os locais para assinatura já estão marcados.


— Você facilita bastante a minha vida.


— Tento facilitar a de todo mundo.


— Eu percebi.


Eu observava os movimentos dele: a forma como os antebraços tencionavam sob o tecido da camisa dobrada, a seriedade analítica que assumia quando checava as colunas de valores, a firmeza da caligrafia dele ao assinar a última folha. A concentração dele era quase bonita de assistir.


A tensão na sala estava tão densa que eu tinha certeza de que, se esticasse os dedos, conseguiria tocá-la. Meu coração batia contra as costelas em um ritmo frenético. Eu estava esperando o movimento dele. O comentário capcioso. A menção ao sábado. Qualquer coisa.


O Gustavo fechou a pasta com um estalo seco, guardou a caneta no bolso e me encarou, os olhos verdes brilhando sob a luz fraca.


— Pronto, doutora. Tudo assinado e provisionado. Era só isso?


Pisquei, pega de surpresa pela crueza da pergunta.


— Sim. Era só isso.


Ele assentiu uma única vez.


— Excelente. Então eu vou deixar você descansar.


Ele se levantou.


Meu cérebro entrou em curto-circuito. Vem aí, eu pensei, prendendo a respiração, sentindo o corpo inteiro tencionar enquanto esperava que ele contornasse a mesa de jacarandá, que estendesse a mão, que fizesse qualquer uma das provocações que vinha ensaiando a semana inteira.


Mas ele não fez.


Gustavo simplesmente pegou o paletó do encosto da cadeira, jogou-o no braço e deu as costas para mim, caminhando calmamente em direção à saída.


Uma onda de frustração tão violenta e ácida atingiu o meu estômago que precisei cravar as unhas na palma das mãos. Ele não ia tentar nada. Sete dias de tortura psicológica, um jantar inteiro me vigiando como se eu fosse o seu único foco de interesse no universo, para ele simplesmente assinar um papel e ir embora como um cara exemplar? Eu me senti patética. Ridícula por ter ficado ali até as oito da noite esperando por um fantasma de desejo que, claramente, só existia na minha cabeça.


O que exatamente eu esperava? Que ele atravessasse a sala e me beijasse no meio da diretoria clínica? Ridículo, Lívia.


Observei enquanto ele caminhava até a porta. O Gustavo parou com a mão na maçaneta de metal da porta.


O tempo congelou. Foram cinco segundos que pareceram durar uma eternidade. Ele não abriu a porta. Ficou ali, de costas para mim, os ombros largos subindo e descendo com uma respiração profunda. A atmosfera na sala parecia prestes a implodir.


Então, o clique metálico ecoou pelo escritório.


Mas não foi o som da porta abrindo. Foi o som da chave girando. Ele tinha trancado a porta por dentro.


Antes que eu pudesse processar o barulho, ouvi o Gustavo soltar um suspiro áspero. Achei ter ouvido um resmungo quase inaudível jogado contra a madeira.


— Que se dane...


Ele girou nos calcanhares e voltou. Ele não caminhou; ele cruzou a distância entre a porta e a minha mesa com passos largos, decididos, derrubando qualquer rastro daquela pose corporativa impecável.


Não houve aviso, não houve conversa fiada e não houve protocolo.


O Gustavo contornou a mesa, segurou o meu maxilar com a mesma mão quente de sábado e me puxou para cima.


E então, ele me beijou.


Foi o maior beijo da minha vida. Era uma colisão de tudo o que vínhamos reprimindo há semanas. Os lábios dele eram quentes, urgentes, famintos, invadindo a minha boca com uma intensidade que me fez perder o chão na mesma hora.


Um gemido baixo e involuntário escapou da minha garganta, e eu simplesmente desabei contra ele, enterrando minhas mãos no cabelo curto da nuca dele, puxando-o para ainda mais perto, retribuindo o beijo com o mesmo nível de desespero que ele carregava. A boca dele desceu pelo meu lábio inferior, mordendo de leve, antes de voltar a dominar tudo, me prensando contra a borda da mesa de jacarandá.


O Gustavo afastou a boca da minha por apenas alguns centímetros, a respiração dele vindo tão curta e caótica quanto a minha, os olhos verdes escuros de desejo fixos nos meus.


— Eu estou pensando nisso há semanas, Lívia — ele sussurrou, a voz rouca, raspando contra a minha pele de um jeito que me fez estremecer por inteiro. — Sete dias inteiros assistindo você fingir que eu não causo nenhum impacto nesse seu sistema perfeito.


Um sorriso genuíno, carregado de uma audácia que eu achei que tinha perdido há anos, desenhou-se nos meus lábios. Eu o puxei pela gola da camisa, colando nossos corpos novamente.


— Cala a boca, Montserrat — respondi contra a boca dele, antes de voltar a beijá-lo com toda a força que me restava.


Eu o puxei com força, e o Gustavo respondeu colando o corpo dele contra o meu de um jeito que me tirou o ar. Não havia mais espaço para dúvidas, métricas ou orgulho. Se o escritório vazio da diretoria clínica era um cenário proibido, a urgência com que as mãos dele apertavam a minha cintura transformava o resto do mundo em um borrão irrelevante.


Ele me suspendeu com facilidade, e eu passei as pernas ao redor dos seus quadris, prendendo-me a ele. O jacarandá da mesa rangeu sob o peso dos nossos corpos quando ele me empurrou contra a superfície, arrastando pastas, canetas e o notebook para o lado sem o menor cuidado. A Montblanc e os contratos de Berlim foram ao chão, mas nenhum de nós se importou.


O beijo mudou de ritmo, tornando-se mais profundo, mais quente. A língua dele mapeava a minha boca com uma familiaridade possessiva, enquanto os meus dedos se cravavam nos ombros largos sob o tecido fino da camisa social. Ouvir a respiração dele falhar contra o meu pescoço me causou um arrepio que desceu direto pela espinha.


— Lívia... — ele roçou os lábios pela linha do meu maxilar, a voz tão rouca que era quase um rosnado. — Você não tem ideia do quanto eu me segurei naquele jantar.


Minha única resposta foi puxar o cabelo dele, expondo a minha nuca. O Gustavo desceu os beijos com sofreguidão por ali, mordendo de leve a pele macia antes de descer para a gola da minha blusa preta. As mãos dele abandonaram a minha cintura e subiram, tateando o tecido até segurarem a barra, puxando-a para cima. Eu me inclinei, ajudando-o a se livrar da peça, e quando o ar condicionado frio da sala bateu na minha pele exposta, o calor das mãos dele veio logo em seguida, cobrindo o meu peito com uma firmeza que me fez arquear as costas.


Eu precisava tocá-lo da mesma forma. Minhas mãos, trêmulas e apressadas, atacaram os botões restantes da camisa azul-marinho dele. Um por um, eles cederam até que eu pudesse deslizar as palmas pelo peito rígido, sentindo os batimentos cardíacos dele disparados sob a pele quente. O contraste do corpo dele contra o meu era uma sobrecarga sensorial.


Ele se afastou o suficiente para desabotoar a minha saia executiva, deslizando o tecido pelas minhas pernas com uma impaciência que me fez arfar. Os olhos verdes dele estavam completamente escuros, fixos em cada centímetro meu que se revelava sob a luz fraca da luminária. Havia uma adoração crua e despida ali que me deixou vulnerável, mas, pela primeira vez, eu não senti medo.


Com um movimento rápido, o Gustavo se livrou do próprio cinto e da calça. Após rasgar um pacote de preservativo que nem de onde tirou e colocá-lo, ele voltou a se encaixar entre as minhas pernas, o contato direto do corpo dele contra o meu me fez soltar um gemido sutil, que ele abafou imediatamente com a boca.


Ele segurou as minhas coxas, erguendo-me um pouco mais sobre a mesa, e pressionou a intimidade contra a minha. O atrito inicial me fez travar os dedos nos ombros dele, buscando apoio.


— Olha para mim, Lívia — ele pediu, a voz falhando, a testa encostada na minha.


Abri os olhos, encontrando o olhar dele no escuro da sala. Não havia o homem arrogante, nem a médica defensiva. Éramos apenas nós dois, consumidos por uma necessidade inevitável.


O Gustavo afundou em mim de uma vez só.


Prendi a respiração, cravando as unhas nas costas dele enquanto o meu corpo se moldava ao preenchimento firme e profundo. Foi uma onda de prazer tão avassaladora que os meus olhos se encheram de lágrimas. Ele esperou alguns segundos, tenso, os músculos dos braços rígidos enquanto eu me acostumava à sua presença dentro de mim.


Quando comecei a me mover contra ele, o Gustavo soltou um suspiro pesado e iniciou o movimento.


O ritmo era intenso, ritmado pelo som abafado dos nossos corpos colidindo e pela respiração sôfrega que preenchia a sala. Cada estocada dele era profunda, atingindo o ponto exato que me fazia perder o controle. Segurei-me nas bordas da mesa, jogando a cabeça para trás enquanto o prazer começava a se acumular na base do meu ventre, uma tensão quente e insuportável.


O Gustavo desceu o corpo sobre o meu, os nossos peitos colados, colhendo os meus gemidos diretamente da minha boca. O suor tornava a nossa pele escorregadia, e o perfume de baunilha e mar se misturavam no ar denso do escritório. Ele acelerou o ritmo, os movimentos se tornando mais urgentes, quase desesperados, como se ele também estivesse prestes a quebrar o próprio sistema de controle.


— Gustavo... — chamei o nome dele entre um suspiro e outro, sentindo o ápice se aproximar rápido demais.


— Estou aqui. Estou com você — ele murmurou contra o meu ouvido, a voz trêmula, apertando o meu quadril com ainda mais força, guiando cada movimento.


A onda me atingiu primeiro. Meu corpo se contraiu inteiro ao redor dele em espasmos fortes e ritmados. Soltei um gemido agudo, escondendo o rosto no pescoço dele enquanto o ápice me desestruturava por completo. Sentir o meu aperto fez o Gustavo perder o resto do controle que lhe restava. Ele deu três estocadas profundas, o corpo inteiro tencionando ao limite, antes de soltar um gemido rouco e desabar contra mim, derramando-se quente e intensamente.


Ficamos ali por longos minutos, em silêncio, ouvindo apenas o som das nossas respirações tentando voltar ao normal no meio do escritório vazio. O peso do corpo dele sobre o meu era reconfortante, uma âncora necessária depois do colapso.


O Gustavo se afastou devagar, depositando um beijo suave na minha testa antes de se levantar. Ele me puxou pela mão com cuidado, ajudando-me a sentar na borda da mesa. Nós dois estávamos completamente desgrenhados, cercados por papéis espalhados e roupas jogadas pelo chão da diretoria clínica.


Ele soltou uma risada baixa, uma mão passando pelo cabelo curto enquanto olhava para a bagunça ao redor.


— Acho que nós arruinamos os relatórios de conformidade, doutora.


Ajeitei alguns fios de cabelo que caíam no meu rosto, sentindo o calor do meu próprio sorriso.


— O presidente vai ter que assinar tudo de novo amanhã — respondi, esticando o braço para puxar a minha blusa do chão.


O Gustavo deu um passo à frente, segurando o meu queixo, obrigando-me a olhar para ele. O sorriso dele sumiu, dando lugar a uma expressão incrivelmente suave.


— Eu assino quantas vezes você quiser, Lívia. Desde que o final do expediente seja sempre assim.


Puxei-o pela gola da camisa social aberta, unindo nossos lábios em um beijo calmo, calando as últimas defesas que eu ainda insistia em carregar. Aquilo era perigoso, caótico e quebrava todas as minhas regras.


Mas enquanto eu sentia o toque dele na minha pele, descobri que não dava a mínima para os meus protocolos.


Notas finais
Top curiosidades dessa história que se eu não escrever em lugar nenhum eu vou esquecer e queria deixar registrado em algum lugar. Téo tem 1 ano e pouquinho pq é a idade da minha bebê, então eu sei como um bebê dessa idade se comporta. Livia foi idealizada para ser amiga de Helena em termos e condições pensando justamente em dar um par ao Gustavo. De todos os casais que já escrevi, até das histórias que não publiquei ainda, eles são oq mais me diverti (mas eu to amando escrever Malu e Marcos tb) A história deles nasceu do diálogo da aposta, foi a primeira coisa que escrevi deles. Eles são a primeira sequência que eu faço, assim como termos e condições é a primeira obra que finalizei (começo várias e nem todas eu terminei ainda 😶) Enfim, espero que estejam gostando e até o próximo 💕