O cheiro de antisséptico hospitalar e café requentado de cafeteira elétrica já estava grudado na minha pele. Eu estava na décima primeira hora de um plantão que parecia não ter fim. Meus olhos ardiam, as costas reclamavam do peso de dois procedimentos de urgência que fiz mais cedo e a única coisa que me mantinha de pé era a perspectiva de, em menos de uma hora, passar o bastão para o colega do turno da noite e voar de volta para Laranjeiras para cheirar o cangote do meu filho.

Eu estava terminando de preencher o prontuário de um felino na recepção quando a porta de vidro da clínica foi empurrada com uma violência desnecessária. O estalo do vidro batendo no batente ecoou pelo ambiente asséptico, e uma voz masculina, grave, potente e carregada de uma arrogância que eu reconheceria até se estivesse em coma, cortou o ar.

— Preciso de ajuda aqui! Agora! Eu acabei de atropelar um vira-lata...

Meu coração deu um solavanco violento contra as costelas, uma batida errada que me tirou o ar por um segundo. Ajustei o estetoscópio no pescoço com os dedos subitamente rígidos e caminhei em direção à recepção, prendendo o cabelo escuro em um coque rápido com um elástico que estava no meu pulso.

Quando cruzei o vão da porta e meus olhos focaram no homem parado no centro do saguão, o mundo real deu um looping completo.

Gustavo Montserrat.

Ele estava ali. Trinta dias exatos desde que eu tinha batido a porta daquela cobertura triplex em Copacabana, deixando-o estático no meio dos lençóis de luxo. E o universo, que claramente adorava zombar do meu pragmatismo, me jogava o homem de volta no meio do meu plantão de sábado.

E para piorar o meu estoque de sanidade: ele estava ainda mais bonito e gostoso do que na minha memória.

A camisa de linho azul-claro estava com os primeiros botões abertos, expondo o início do peito largo onde eu tinha cravado as unhas; as mangas estavam dobradas até os antebraços, revelando os músculos tensos e algumas veias saltadas pela adrenalina. O cabelo escuro estava levemente bagunçado, dando a ele um ar selvagem que destruía qualquer verniz aristocrático.

Contra todas as minhas defesas racionais, meu corpo traidor reagiu instantaneamente. Uma onda de calor elétrico subiu pelo meu ventre, a memória muscular da parede de concreto e do quadril dele batendo contra o meu estalando na minha mente como um flash de alta voltagem.

Eu fiquei puta. Uma raiva instantânea e nuclear subiu pela minha garganta, não apenas por vê-lo, mas por perceber o poder de perturbação que ele ainda tinha sobre o meu sistema nervoso.

Gustavo me encarou, e a expressão de comando no rosto dele desmoronou, substituída por um choque de pura incredulidade. Ele soltou uma risada curta, seca, dando um passo para trás.

— Só pode ser brincadeira... — ele murmurou, os olhos verdes arregalados, fitando o meu jaleco. Ele piscou duas vezes, tentando processar a cena, antes de soltar a pergunta em um tom genuinamente atordoado: — Você... você é veterinária?

Dei um sorriso lateral, transbordando o mais puro sarcasmo, enquanto ajeitava o estetoscópio com a ponta dos dedos.

— Não, Gustavo. Eu sou uma grande entusiasta do fetiche de jaleco verde e resolvi vir passar o meu sábado à noite aqui na recepção brincando com seringas — retruquei, a minha voz saindo fria e cortante quanto uma lâmina de bisturi. — Eu garanto que não estou rindo, Montserrat.

Afastei o choque e ativei o modo Dra. Lívia Coimbra. A veterinária experiente, a mulher que comandava aquela ala de emergência, assumiu o controle absoluto do meu corpo.

— Onde está o animal? — perguntei, passando por ele como se ele fosse apenas um obstáculo móvel na recepção, fazendo sinal para os dois auxiliares, o Rodrigo e a Camila, me acompanharem com a maca.

— No banco de trás do meu carro — ele respondeu, correndo atrás de mim enquanto cruzávamos a porta de vidro em direção à calçada. — Eu tentei frear, mas foi insuficiente. E o pior é que aquela porcaria de cachorro amassou e riscou todo o meu para-choque. Um carro de coleção, Lívia! O estrago na lataria vai me custar uma fortuna em restauração de importados e...

Eu parei abruptamente na calçada, virando-me de frente para ele. Meus olhos faiscaram com tanto ódio que ele chegou a dar meio passo para trás. O ranço atingiu o nível máximo .

— Cala a boca, Gustavo — disparei, a voz baixa, pausada e carregada de uma autoridade tão brutal que o calou instantaneamente. — Cala a porra da boca. Tem um ser vivo sangrando e sentindo dor no seu banco, e você está chorando por causa de uma lâmina de metal? Poupe-me da sua futilidade de herdeiro por pelo menos dez minutos.

Abri a porta traseira do Porsche. O vira-lata caramelo estava encolhido em cima de um moletom cinza de marca, tremendo da cabeça aos pés, soltando ganidos sôfregos. Vi que ele tinha usado toalhas para forrar e conter o bicho. Pelo menos uma decisão decente ele tinha tomado.

— Rodrigo, Mari, entrem pelo outro lado. Ele está em choque, cuidado com a coluna. Vamos movê-lo em bloco direto para a prancha — ordenei, minha voz assumindo o tom técnico e firme de quem faz aquilo todos os dias.

Aproximei-me do cachorro, deixando que ele cheirasse as minhas costas da mão antes de tocar na sua cabeça.

— Calma, amigão... A tia está aqui. Você vai ficar bem — murmurei para o bicho, contendo o choro dele. — Vamos lá, no três. Um, dois, três.

Movimentamos o cão com precisão para a maca de metal. O animal ganiu, os dentes à mostra pelo pânico, mas conseguimos estabilizá-lo.

— Direto para a sala de trauma um. Quero acesso venoso periférico, Ringer Lactato correndo rápido e kit de ultrassom FAST ligado — comandei os auxiliares, que saíram empurrando a maca em direção ao interior da clínica.

Girei nos calcanhares e olhei para Gustavo, que continuava parado ao lado da porta aberta do carro, parecendo uma estátua de linho azul, olhando para as próprias mãos com uma expressão completamente atordoada.

— Você vem comigo — determinei, apontando para a entrada. — Já que foi o responsável pelo impacto, vai ajudar a conter o bicho. E sem reclamações sobre o cheiro de sangue. Anda.

Para o meu absoluto choque, ele não retrucou. O gênio dos números, o homem que tinha resposta para cada flutuação de mercado e que adorava manter o controle de tudo, apenas assentiu com a cabeça, a boca fechada em uma linha rígida, e me seguiu para dentro da sala de cirurgia como um aluno obediente.

A luz branca da sala de emergência era implacável. O cachorro estava deitado na mesa de aço inoxidável, os olhos arregalados, a respiração curta e superficial indicando o início de um colapso por choque volêmico ou dor extrema. Mari já estava tosando a patinha dianteira para pegar a veia.

— Montserrat, aqui. Fica na cabeceira — ordenei, puxando as luvas de procedimento de látex com um estalo ruidoso que cortou o som dos monitores. — Segura a pata dianteira esquerda dele com firmeza, logo acima da articulação, para a Camila conseguir introduzir o cateter. E mantém a outra mão na base da nuca dele, impedindo que ele vire o pescoço para morder.

Gustavo se aproximou da mesa de metal. Vi o momento exato em que ele olhou para as luvas que eu ofereci, depois para o pelo sujo de sangue e asfalto do cão. Ele hesitou por um momento, o nojo aristocrático lutando contra a minha ordem, mas eu o encarei de volta com uma promessa de morte no olhar.

Ele vestiu as luvas e segurou a pata do cachorro exatamente onde mandei. As mãos dele eram grandes, firmes, as mesmas que tinham mapeado cada centímetro da minha pele, e a proximidade física dele estava fazendo o meu estômago dar nós de pura tensão.

— Ele está tremendo muito, Lívia... — a voz de Gustavo saiu num tom diferente, menos encenada, quase baixa, enquanto ele sentia a vibração de dor do animal sob os seus dedos de látex.

— É a dor e o choque neurogênico — respondi de forma mecânica, deslizando o transdutor do ultrassom pelo abdômen do animal, focando a tela preta e branca para procurar líquido livre ou hemorragia interna. — Camila, o acesso foi?

— Foi, Dra. Lívia. Correndo o soro com o analgésico agora.

— Ótimo. Monitora a saturação.

Deslizei o aparelho pela região do baço e da bexiga. Minha mente trabalhava em alta performance, cruzando sintomas: mucosas hipocoradas, tempo de preenchimento capilar aumentado, mas o ultrassom mostrava que o abdômen estava limpo. Nenhuma ruptura de órgão interno.

— O diagnóstico de imagem está limpo na cavidade abdominal — anunciez, soltando um suspiro audível e limpando o gel do transdutor. Olhei para as patas traseiras do caramelo, que continuavam estendidas sem reflexo. — O impacto foi concentrado na pelve. Provavelmente temos uma fratura de bacia ou luxação coxofemoral. Vamos precisar de raio-X assim que ele estabilizar com a medicação de dor.

Afastei-me da mesa por um segundo, arrancando as luvas de látex e jogando-as no lixo infectante com precisão. Quando me virei, peguei Gustavo olhando para mim. Não era o olhar de deboche do bar, nem o cinismo transacional da manhã seguinte na cobertura. Era um olhar de puro assombro, o analista comportamental tentando processar a visão da mulher que ele não sabia absolutamente nada sobre a profissão comandando uma equipe de emergência médica com a precisão de um general de exército.

Cruzei os braços sobre o jaleco verde, sustentando o olhar dele, sentindo o ranço e o tesão residual travando uma guerra civil dentro do meu peito.

— Ele vai sobreviver, Montserrat — avisei, a voz firme, cortando o silêncio da sala. — O analgésico já está fazendo efeito, a frequência cardíaca está baixando. Ele vai ficar bem. Agora, se você quiser ir lá fora chorar pelo conserto do seu Porsche, a recepção tem lenços de papel de graça.

— Eu não vou a lugar nenhum — Gustavo rebateu. A voz dele, embora mais baixa por conta do ambiente hospitalar, recuperou aquela cadência firme e obstinada de quem se recusa a aceitar uma derrota na mesa de negociações.

Ele arrancou as luvas de látex com força, jogando-as no mesmo cesto de descarte, os olhos verdes travados nos meus com uma intensidade que fez o ar condicionado da sala de trauma parecer subitamente insuficiente.

— Ótimo. Então assuma a sua responsabilidade. Camila, leve-o para a sala de radiologia assim que o monitor indicar que a pressão estabilizou. Eu vou abrir a ficha de internação — ordenei, virando as costas para ele sem dar tempo para réplicas.

Saí da sala pisando firme, sentindo os meus saltos de borracha estalarem contra o piso vinílico. Eu precisava de espaço. Precisava respirar o ar sem o perfume amadeirado dele, ou meu cérebro ia acabar sofrendo um apagão técnico. Aquela proximidade forçada estava mexendo com os meus circuitos de um jeito perigoso; a memória do cheiro dele, da voz rouca no meu ouvido na cobertura, tudo parecia ter voltado à tona com o impacto daquele maldito para-choque.

Fui direto para trás do balcão da recepção, puxando a cadeira com força e ligando a tela do computador. Meus dedos voavam pelo teclado, abrindo o sistema de prontuários com uma urgência quase cômica.

— Nome do proprietário ou responsável — ditei em voz alta, sem erguer os olhos da tela quando ouvi o som dos passos dele parando exatamente do outro lado do balcão de atendimento.

— Gustavo Montserrat. Você sabe o meu nome, Lívia.

— No sistema da clínica você é apenas o responsável financeiro por um atropelamento, Montserrat. CPF, por favor.

Ele ditou a sequência de números com uma fluidez irritante. Continuei digitando, preenchendo os campos de endereço de Copacabana, dados de contato e a descrição do ocorrido: Canino, sem raça definida, pelagem branca, vítima de trauma por projétil automotivo de alta performance. Fiz questão de incluir o deboche na descrição técnica.

— Pronto. A taxa de atendimento emergencial, os exames de imagem e a diária de internação com analgesia inicial ficam em setecentos e oitenta reais. Você prefere pagar como? — joguei a pergunta com o queixo erguido, destilando todo o veneno que estava acumulado na minha garganta há trinta dias.

Gustavo não puxou a carteira. Em vez disso, ele se inclinou levemente sobre o balcão de granito, diminuindo a distância entre nós dois. O olhar dele desceu pelo meu rosto, demorando-se nos meus lábios por o que pareceu ser um minuto inteiro antes de voltar para os meus olhos. O cinismo analítico estava de volta, mas havia uma camada nova ali. Uma curiosidade genuína. E perigosa.

— Você estava fantástica lá dentro — ele disse, a voz descendo para aquele registro rouco que ele usava quando estávamos a centímetros de distância no bar. — Uma precisão técnica invejável, Dra. Coimbra. Eu admito que eu não fazia a menor ideia de que esse era o seu mundo. Você comanda aquela sala como um cirurgião de Wall Street.

Meu estômago deu uma cambalhota, mas eu não recuei um milímetro. Prendi o ar, mantendo a postura de esfinge.

— Elogios não dão desconto na ficha, Gustavo.

— Não estou tentando conseguir um desconto — ele deu um sorriso de lado, os olhos brilhando com o desafio. — Estou constatando um fato. Você é uma caixinha de surpresas muito instigante. Passou trinta dias sumida, ignorando a minha existência, para reaparecer no meio da minha linha de tráfego salvando um vira-lata. Qual é a probabilidade disso acontecer?

— No Rio de Janeiro? Altíssima, considerando o número de motoristas arrogantes que andam distraídos pensando na própria prepotência — retruquei, batendo o dedo na máquina de cartão. — Vai pagar como?

Antes que ele pudesse responder, Camila despontou no corredor segurando os exames de raio-X impressos em película escura.

— Dra. Lívia, saíram as imagens.

Aproveitei a deixa como quem encontra uma saída de emergência em um prédio em chamas. Peguei os exames das mãos de Camila e os estendi contra o negatoscópio da parede, ligando a luz fluorescente por trás da imagem em preto e branco.

Gustavo se aproximou, parando logo atrás do meu ombro direito. O calor do corpo dele era quase palpável, e eu podia sentir a respiração dele mexendo de leve nos fios soltos do meu coque. Concentrei toda a minha capacidade cerebral na anatomia óssea projetada na tela.

— Aqui — apontei com a ponta de uma caneta para a estrutura circular. — Luxação coxofemoral bilateral. A cabeça do fêmur saiu completamente da cavidade do acetábulo com a força do impacto mecânico. Felizmente, não há fratura exposta e nem fragmentação óssea na bacia. Mas ele vai precisar de uma cirurgia de redução cirúrgica e fixação interna. Um procedimento ortopédico complexo.

— Ele vai voltar a andar? — Gustavo perguntou. Olhei de relance para ele e percebi, com um sobressalto, que a expressão dele era de genuína preocupação. O analista intocável parecia ter desenvolvido um ponto fraco pelo vira-lata nas últimas duas horas.

— Com a cirurgia certa e fisioterapia? Sim. Noventa por cento de chance de recuperação total — respondi, desligando a luz do aparelho e me voltando para ele. — O problema é que o custo de uma cirurgia ortopédica dessa magnitude com especialista não é baixo. Fica em torno de quatro mil reais, fora o material cirúrgico. Como o cão não tem dono...

— Eu pago — ele interrompeu, sem hesitar por um único milésimo de segundo. Ele puxou o cartão de crédito da carteira e o colocou em cima do balcão com firmeza. — Passe o valor total. O atendimento de agora, a cirurgia, a internação, os medicamentos e o que mais esse bicho precisar até sair daqui andando.

Fiquei encarando o cartão magnético por alguns instantes, o meu cérebro tentando processar a contradição daquele homem. Segundos atrás, ele estava na minha calçada tendo um ataque de pelanca por causa de um risco na lataria e uma lâmina de metal. Agora, estava ali, entregando um cartão sem limite para salvar a vida de um cachorro de rua que ele nem sequer conhecia.

Esse homem é um enigma irritante, pensei, sentindo uma rachadura microscópica aparecer na parede de ranço que eu vinha construindo contra ele.

Peguei o cartão dele e passei na máquina, digitando os valores. Gustavo inseriu a senha com a mesma segurança de quem fecha um grande negócio. Quando o papel do comprovante foi impresso, eu o estendi para ele junto com uma caneta.

— Assine aqui. O paciente entra na escala de cirurgia de amanhã de manhã. Ele vai passar a noite na UTI de pequenos animais sob observação e monitoramento de dor. Você pode ir para casa, Montserrat. O seu papel de cidadão consciente acabou.

Gustavo pegou o papel assinado, mas não guardou a caneta. Ele a girou entre os dedos longos, os olhos verdes cravados nos meus com uma audácia que fez meu coração errar a batida mais uma vez.

— O meu papel com ele acabou por hoje, Lívia. Mas o meu papel com você está apenas começando — ele deu um passo para trás, guardando a carteira no bolso da calça, a postura impecável e o magnetismo operando em voltagem máxima. — Trinta dias atrás você me deu um fecho e foi embora dizendo que eu era previsível.

Ele caminhou em direção à porta de vidro, mas parou antes de empurrá-la, virando o rosto de perfil para me encarar uma última vez. Um sorriso cínico e absurdamente atraente desenhou-se nos seus lábios.

— Existe um conceito na Teoria do Caos sobre sistemas dinâmicos complexos. A entropia dita que o universo tende à desordem, mas existem momentos em que o caos se organiza de um jeito estatisticamente impossível. Qual era a probabilidade de eu desviar de um caminhão na Avenida Atlântica, atingir um animal e vir parar exatamente na sua mesa de trauma? Zero.

Ele inclinou de leve a cabeça, fixando aqueles olhos verdes nos meus.

— Eu não acredito em destino, tempestade. Eu acredito em variáveis caóticas. E você é a única força de destruição que os meus modelos de não conseguem prever.

Ele empurrou a porta de vidro.

— Eu volto amanhã às dez para ver como o meu cachorro passou a noite. E para garantir que a médica responsável não vai fugir outra vez. Tenha um bom resto de plantão, Dra. Coimbra.

Aporta de vidro se fechou com um clique suave, deixando o silêncio da noite entrar no ambiente. Fiquei parada atrás do balcão, com o comprovante de quatro mil reais na mão, o peito subindo e descendo acelerado e a certeza absoluta fincada na minha mente:

Gustavo Montserrat tinha voltado para a minha vida. E o meu sistema de defesa estava prestes a entrar em colapso outra vez.