Fora de Protocolo - concluída

10 10. Domingo no Bistrô


O domingo à tarde em Botafogo tinha aquele ritmo mais lento, quase residencial, que desarmava qualquer tentativa de manter o foco puramente no trabalho.

Eu tinha passado as últimas duas horas no apartamento da minha irmã mais velha, tentando mediar uma discussão exaustiva sobre o planejamento sucessório dos imóveis da família, o tipo de burocracia que me esgotava.

Para ser justo, meu mau humor já tinha começado bem antes do almoço em família.

Às dez horas da manhã em ponto, eu estava estacionando na porta da clínica veterinária, cumprindo o protocolo que havia desenhado na noite anterior. Acordei com a certeza de que pegaria a Dra. Coimbra no meio da troca de turno, cansada e sem defesas. Mas minha ideia falhou miseravelmente. Ao cruzar a porta de vidro procurando aqueles olhos castanhos, dei de cara com um plantonista antipático de meia-idade.

O cão estava estável e o prontuário limpo, mas a médica responsável já havia assinado o ponto e ido embora há horas. Ninguém podia me ceder o endereço, e o máximo que consegui da recepção foi um seco: ela só volta na próxima escala, senhor.

Eu havia saído de lá puto.

O homem que antecipava movimentos alheios tinha tomado um bolo invisível de uma veterinária.

Quando finalmente me despedi da minha irmã e desci para a rua, ainda digerindo aquele drible no meu ego, a brisa do final de agosto trouxe um aroma familiar de café fresco e ervas aromáticas que vinha de um casarão antigo e preservado a poucos metros dali.

Eu conhecia o lugar. Era o bistrô da Helena.

Olhei para o relógio no pulso: pouco mais de quatro da tarde. O carro estava estacionado na quadra seguinte, e a perspectiva de enfrentar o trânsito de volta para Copacabana sem uma dose decente de cafeína parecia um erro. Decidi entrar. O ambiente misturava com precisão a imponência da arquitetura clássica com um acolhimento sutil, o tipo de lugar que convidava as pessoas a baixarem a guarda.

Assim que passei pelas portas de vidro, encontrei Arthur perto del balcão de atendimento, conferindo algumas notas fiscais. Ele ergueu os olhos, surpreso com a minha presença, e o habitual semicerrar de olhos dele deu lugar a um meio sorriso. Arthur bateu com o calcanhar da mão no meu peito e me deu dois tapinhas no ombro, um cumprimento silencioso de quem dividia histórias desde a época da faculdade.

Trocamos poucas palavras, mas o suficiente para ele notar, com a astúcia de quem me conhecia desde a faculdade, que a minha postura carregava uma tensão diferente da habitual. Antes que pudesse começar a escavar o que estava me deixando aéreo, o celular dele vibrou, forçando-o a se retirar para resolver um problema com um fornecedor no escritório nos fundos.

Caminhei até o balcão principal, onde Helena finalizava a organização das mesas para o encerramento do expediente

— Gustavo? — ela sorriu genuinamente. — Que milagre ver você por esses lados em um domingo. Deram uma trégua para você?

— Eu estava visitando a minha irmã aqui perto e o cheiro do café de vocês funcionou como um excelente convite — respondi, apoiando uma das mãos no balcão de madeira escura.

Foi só então que notei o pequeno volume que ela sustentava no quadril. Helena estava com um bebê no colo, um garotinho de pouco mais de um ano, vestindo um macacãozinho de algodão azul claro. O menino tinha olhos grandes, muito atentos, e no segundo em que fixou o olhar na minha direção, abriu um sorriso que ostentava 4 dentinhos perolados, esticando as mãozinhas gordinhas para o ar.

Involuntariamente, senti os meus lábios relaxarem. Dei um sorriso de lado para a criança, estendendo o dedo indicador. Ele segurou de imediato com o punho miúdo, um gesto puramente instintivo que fugia totalmente do meu padrão racional de sempre.

— Ele parece um cliente exigente — comentei, olhando para a energia do menino, que balançava as perninhas com entusiasmo. — De quem é esse garoto, Helena? Como ele se chama?

Helena ajeitou o menino no colo, retribuindo o sorriso com uma pontada de orgulho que eu não soube decifrar de imediato.

— Esse aqui é o Téo, Gustavo. Ele tem um ano e três meses e quando está presente, é o dono do pedaço por aqui — ela explicou, dando um beijo na bochecha gorda do menino, que continuava focado em tentar puxar o tecido da minha camisa.

Eu estava prestes a perguntar qual das funcionárias era a mãe do garoto quando o som de uma porta de madeira se abrindo ao meu lado cortou a calmaria do bistrô.

Ajeitando a alça de uma bolsa de couro no ombro, Lívia surgiu no corredor que dava acesso aos banheiros. Ela usava uma calça jeans escura e uma blusa casual, os cabelos escuros soltos e ligeiramente bagunçados ao redor dos ombros. A expressão dela era relaxada, leve, desarmada de toda aquela armadura médica que ela usara na sala de trauma na noite anterior.

Até ela focar o olhar no balcão. E me ver ali.

O corpo dela travou por completo no meio do salão. Vi o momento exato em que as pupilas dela se dilataram e o maxilar se contraiu. Ela soltou o ar pelo nariz, soltando um bufo sonoro e indignado, e caminhou a passos largos na minha direção.

— Você está me perseguindo? — ela disparou, a voz saindo cortante, ácida, sem qualquer filtro de cortesia social. — Primeiro a minha clínica no meio da madrugada, agora o bistrô da minha amiga? Qual é o seu problema, afinal?

Ergui as sobrancelhas, mantendo a caneca de café no meio do caminho até a boca, enquanto processava a entrada triunfal da Dra. Coimbra.

O salão do bistrô, que até três segundos atrás exalava uma calmaria dominical, foi instantaneamente tomado por uma voltagem estática palpável.

— Perseguindo você? — repeti, soltando uma risada curta, genuinamente achando graça da ironia daquilo tudo. — Lívia, eu tenho mais o que fazer com os meus domingos do que mapear a sua rotina.

Olhei para Helena, esperando que ela risse do absurdo, mas a dona do bistrô estava estática. Ela alternava o olhar entre mim e Lívia com as sobrancelhas tão arqueadas que quase sumiam sob a franja. O pequeno Téo, alheio ao colapso, continuava tentando alcançar o botão da minha camisa.

— Espera aí — Helena interveio, ajeitando o bebê no quadril e apontando o dedo indicador na nossa direção. — De onde vocês dois se conhecem?

— Nós nos... — comecei, mas Lívia me atropelou com a velocidade de um trator.

— Ele atropelou um cachorro ontem à noite e foi parar na minha clínica, Helena. Só isso — ela disparou, cruzando os braços e me fuzilando com os olhos castanhos. Depois, virou-se para a amiga, estreitando o olhar. — E você, desde quando conhece ele? E por que ele está agindo como se fosse de casa no seu balcão?

— Como assim "desde quando"? — Helena piscou, chocada. — Lívia, o Gustavo e o Arthur são praticamente irmãos. Eles estudaram juntos.

Dessa vez, foi a vez de Lívia travar.

O queixo dela caiu de leve, e eu assisti de camarote ao momento exato em que o cérebro dela tentou processar a informação. A pose de veterinária durona e soberana desmoronou por um segundo, dando lugar a um choque de pura incredulidade. Ela olhou para Helena, depois para me ver, e por fim apontou para a porta do escritório onde Arthur tinha acabado de entrar.

— O Arthur? O seu Arthur é amigo dele? — a voz dela subiu meio tom, o desespero de perceber que o mundo dela e o meu estavam perigosamente interligados vazando por cada poro.

— É, Lívia. O meu Arthur — Helena respondeu, ainda tentando juntar as peças do quebra-cabeça. — E você não me disse que o cara do Porsche daquela noite era o...

— Helena! — Lívia cortou a amiga com um grito sufocado, as bochechas corando instantaneamente num tom de vermelho que eu ainda não tinha visto nela.

Aquilo ficou ainda mais interessante. Dei um gole lento no meu café, saboreando o espetáculo e a confirmação de que o Rio de Janeiro é, afinal, um ovo. O orgulho dela estava tentando desesperadamente cavar um buraco no piso de madeira do bistrô para sumir.

— Pelo visto, o mundo é um sistema bem menor do que você imaginava, Dra. Coimbra — comentei, deixando um sorriso de puro deboche desenhar-se nos meus lábios enquanto a encarava de cima. — E então? Ainda acha que eu sou seu stalker?

Antes que Lívia puessse formular uma resposta à altura do meu deboche, o pequeno Téo soltou um balbucio alto, batendo a mãozinha gorda no balcão e esticando o corpo em direção a ela.

— Mamãe! Mamãe! — o menino reclamou, manhosamente, pedindo colo.

Lívia descruzou os braços em um movimento automático, a expressão rígida derretendo-se instantaneamente em uma ternura que me pegou totalmente desprevenido. Ela pegou o garotinho do colo de Helena, aninhando-o contra o peito com uma naturalidade tocante. Téo escondeu o rosto no pescoço dela, segurando uma mecha dos seus cabelos escuros.

Fiquei estático.

Olhei para o menino de olhos doces, depois para Lívia, sentindo um curto-circuito violento travar a minha linha de raciocínio. Aquela mulher independente, afiada, que tinha virado a minha cobertura de cabeça para baixo e comandado uma sala de trauma com pulso de ferro...

— Você... é mãe? — a pergunta saiu antes que eu pudesse filtrá-la, a minha voz perdendo o tom analítico e entregando uma surpresa genuína.

Lívia ajeitou o filho no quadril e me encarou de cima, os olhos castanhos voltando a ficar frios como duas pedras de gelo.

— Sou, Gustavo. Mas você já deixou bem claro que tem problemas com isso, não foi? — ela respondeu, a voz mansa, mas carregada de um veneno letal. Ela sustentou o meu olhar com uma audácia inabalável. — Como era mesmo a expressão? Uma conta que não fecha? Jamais me envolveria com uma mãe?

E então, no segundo em que aquela resposta bateu no meu sistema, as engrenagens travaram. A linha do tempo recuou trinta dias num estalo violento.

Sábado de manhã. Minha cozinha. Marcos virando o shake no liquidificador. Minha própria voz ressoando com uma arrogância confortável: "Mulher com filho pequeno é uma conta que não fecha... Fica longe de mãe solteira. É o melhor conselho que te dou."

O chão pareceu sumir sob os meus sapatos de couro.

Tudo se encaixou com a violência de um soco no estômago. Eu tinha dado uma bola fora, e ela tinha guardado o recibo por um mês inteiro para esfregar na minha cara no momento mais improvável possível.

Engoli em seco, sentindo o gosto amargo do meu próprio veneno. Pela primeira vez na vida, a minha mente analítica entrou em pane, incapaz de formular uma saída elegante ou uma justificativa lógica. Eu estava completamente desarmado, exposto diante da Helena e com o ego sangrando no meio do bistrô.

Não dava para consertar o estrago ali, e muito menos para negar. Minha única opção de sobrevivência era bater em retirada daquele assunto antes que eu perdesse o resto de dignidade que me restava. Desviei o olhar para o balcão, limpando a garganta e forçando uma rigidez profissional que eu mal sentia para tentar estancar o sangramento do meu orgulho.

— Como está o cachorro? — a pergunta saiu rascante, o tom casual simulado falhando miseravelmente enquanto eu tentava, de forma desesperada, mudar o foco para o único terreno onde eu ainda tinha algum direito de resposta. — Ele passou bem pela cirurgia?

Eu já sabia a resposta para ambas as perguntas, mas Livia não sabia que eu tinha ido à clínica mais cedo a procura dela.

A postura profissional dela se reativou imediatamente.

— A cirurgia ortopédica foi um sucesso. O especialista conseguiu colocar a cabeça do fêmur de volta no lugar sem grandes intercorrências. Ele já acordou da anestesia, está com dreno e sob uma carga pesada de analgésicos.

— E qual vai ser o destino dele agora? — perguntei, apoiando os cotovelos no balcão e me inclinando de leve na direção dela. — Vai ter mais gastos? Se tiver, pode mandar os custos médicos direto para mim. E eu vou passar lá para visitá-lo amanhã cedo.

Lívia franziu o cenho, avaliando a minha insistência.

— O destino dele é a recuperação na UTI por mais dois dias. Depois, vai precisar de um lar temporário ou adoção, porque ele não pode voltar para a rua nesse estado. Quanto aos custos, a cirurgia já cobriu o principal, mas a fisioterapia vai ser necessária mais para a frente. E você pode visitá-lo. Ele é o paciente, não o prisioneiro.

Ao lado do balcão, Helena alternava o olhar entre nós dois, os olhos arregalados enquanto as engrenagens da mente dela trabalhavam em alta velocidade. Helena levou a mão à boca, olhando para mim com uma mistura de choque e um divertimento absurdamente indiscreto.

— Sabe de uma coisa? — Helena limpou a garganta, soltando uma risadinha nervosa e dando dois passos para trás. — Eu acabei de lembrar que o Arthur precisa de ajuda. O estoque de amanhã está uma bagunça. Vou deixar vocês conversando... com licença.

Antes que Lívia pudesse protestar, Helena girou nos calcanhares e praticamente fugiu em direção ao escritório dos fundos, deixando o salão do bistrô em um silêncio carregado, quebrado apenas pela respiração tranquila de Téo no colo da mãe.

— E lá se vai a nossa mediadora — comentei, quebrando o silêncio e deixando um sorriso de lado aparecer.

Lívia nem piscou. O choque de ver Helena nos abandonar durou pouco, antes de ser substituído por aquela postura defensiva e afiada que eu já conhecia bem. Ela ajeitou o bebê no colo, como se estivesse estabelecendo um escudo físico entre nós.

— A Helena tem a língua grande, Montserrat — ela rebateu, com a voz baixa para não assustar o garoto. — Mas não se ache tão importante. Para ela, você era só um rosto sem nome em uma noite de folga. Um parêntese.

— Um parêntese bem misterioso, se bem me lembro — provoquei, inclinando-me um pouco mais para a frente, diminuindo a distância entre nós. Meu olhar desceu por puro reflexo para o menoinho no colo dela. — Você esconde bem o jogo. Passamos uma madrugada inteira conversando e você não fez a menor menção de que tinha um filho. Ou de que trabalhava em uma emergência de madrugada.

A expressão de Lívia mudou na hora. O deboche sumiu, dando lugar a uma barreira protetora que parecia feita de concreto armado.

— O Téo é a minha vida real, Gustavo. E a minha vida real não entra no mesmo espaço que homens que vivem em uma bolha de privilégios e acham que gerenciam o mundo através de números — ela disse, a voz descendo para um tom firme, protetor. — Aquela noite acabou quando eu passei pela sua porta. Eu não misturo os meus mundos.

— Uma bolha que estourou direto na sua mesa ontem à noite — lembrei, mantendo o tom calmo, embora a firmeza dela estivesse me instigando mais do que deveria. — E agora que eu sei que você é amiga da Helena e do Arthur, vai ser bem difícil manter esse distanciamento que você tanto quer.

Lívia respirou fundo, parecendo contar até dez mentalmente. Ela olhou para a porta dos fundos, provavelmente praguejando contra a Helena em silêncio, e depois voltou a focar em mim.

— O Rio de Janeiro é pequeno. É só uma coincidência infeliz. Você continua sendo o responsável financeiro do cachorro. Eu continuo sendo a veterinária. Nós não precisamos estender isso além do estritamente necessário.

— Você tenta ser muito pragmática, Dra. Coimbra. Mas esquece que eu lido com fatos. E a chance de eu te encontrar aqui de novo ou na clínica é bem alta, já que eu pretendo acompanhar a recuperação daquele vira-lata de perto.

— Ele não é seu cachorro — ela retrucou, estreitando os olhos.

— Passou a ser a partir do momento em que o meu carro adotou a bacia dele — dei de ombros, pegando a minha carteira e deixando o valor do café em cima do balcão. — Te vejo amanhã na clínica, Lívia. Cuida bem do paciente. E do garoto também.

Ela não respondeu, apenas manteve os olhos castanhos fixos nos meus, uma mistura de irritação e algo que ela tentava esconder a todo custo. Dei um aceno leve com a cabeça para o pequeno Téo, virei as costas e saí do bistrô, sentindo que o jogo estava ficando muito mais complexo do que eu havia planejado.

Entrei no Porsche e bati a porta, sentindo uma leveza no peito que há muito tempo não experimentava. Dei a partida e, enquanto o motor roncava baixo pelas ruas de Botafogo, não consegui conter um sorriso largo, quase de garoto, no espelho retrovisor.

Eu estava me divertindo. Genuinamente me divertindo com toda aquela situação.

Se alguém me dissesse, na semana passada, que o meu fim de semana seria virado do avesso por um vira-lata e um para-choque amassado, eu provavelmente teria achado a previsão ridícula. Mas a matemática do destino era caprichosa demais. Trinta dias sem um único sinal daquela mulher, trinta dias tentando apagá-la do meu sistema analítico, e então, do nada, o universo a jogava na minha frente no sábado e no domingo. Dois dias seguidos. Duas colisões frontais com a realidade dela.

Eu definitivamente via aquilo como uma tendência clara de alta.

Para quê? Eu ainda não sabia com exatidão. Não sabia se era para curar o meu ego ferido, se era para decifrar o enigma daquela veterinária durona que derretia segurando um bebê de um ano, ou se era simplesmente porque a minha vida impecavelmente controlada precisava do caos que ela carregava nos olhos castanhos.

Mas de uma coisa eu tinha certeza absoluta: eu não ia recuar.

Segurei o volante com mais firmeza, engatando a terceira marcha enquanto cortava o trânsito interno em direção à Zona Sul. Lívia achava que podia erguer muros de concreto, usar o filho como escudo e me tratar como uma "coincidência infeliz". Ela achava que o pragmatismo dela era o suficiente para me manter em uma órbita distante.

Ela mal podia esperar. Eu ia fazer exatamente o que sabia fazer de melhor nas minhas estratégias de mercado.

Eu ia investir. Com paciência, com técnica, mapeando cada ponto de resistência dela até que aquela barreira de concreto virasse pó. O jogo estava apenas começando, e eu não entrava em campo para perder.

O celular vibrou no console central, o nome de Beatriz piscando na tela e interrompendo o fluxo dos meus pensamentos. Toquei no painel para atender pelo viva-voz, ajustando o volume enquanto o Porsche mantinha o ritmo firme pela avenida.

— Gustavo? — a voz dela veio leve, com o barulho suave de fundo de quem aproveitava o final de um domingo tranquilo. — Tudo bem por aí? Como foram as coisas na sua irmã?

— Tudo sob controle, Bia. Burocracias de família resolvidas — respondi, mantendo o tom casual.

— Que bom. Olha, eu estava aqui pensando... já que os nossos planos de sábado foram completamente atropelados por aquele imprevisto, o que você acha de jantarmos hoje? Podemos pedir algo no Leblon ou ir àquele japa que você gosta. Aliás, como estão as coisas? Ficou tudo bem com você, com o cachorro... e com o carro?

A menção ao carro me fez lembrar do amassado no para-choque, mas, bizarramente, aquela não foi a primeira imagem que me veio à mente. A primeira imagem foram os olhos castanhos de Lívia me fuzilando atrás do balcão do bistrô.

Eu gostava da companhia da Bia. Ela era inteligente, previsível, circulava no mesmo ambiente que eu e nunca causava turbulências no meu cronograma. Seria o desfecho perfeito para um domingo. Mas a perspectiva de um encontro com ela me pareceu absurdamente sem graça. Eu simplesmente não sentia vontade nenhuma. Meu cérebro ainda estava processando o curto-circuito que Livia provocava em mim

— Obrigado pelo convite, Bia, de verdade — comecei, controlando a voz para soar o mais diplomático possível. — O carro já está agendado para a oficina e o cachorro passou bem pela cirurgia, felizmente. Mas hoje eu vou passar. O dia com a minha família foi meio exaustivo e eu preciso realmente dar uma desacelerada antes de a semana começar com as novas consultorias. Fica para a próxima?

Do outro lado da linha, houve uma pequena pausa, seguida por uma risada curta e genuinamente divertida. Beatriz me conhecia o suficiente para saber que eu raramente recusava um compromisso por "cansaço", a menos que houvesse algo muito mais instigante ocupando a minha mente. Ela não ficou nem um pouco ofendida; a nossa dinâmica era transparente demais para isso.

— Gustavo Montserrat cansado de domingo à tarde? — ela provocou, o tom descontraído e cheio de ironia. — Tudo bem, eu aceito a desculpa. Mas me diz uma coisa... você está bem mesmo?

— Estou. Por que não estaria?

— Não sei, sua voz está diferente. Um pouco... aérea. — Ouvi o farfalhar de lençóis do outro lado, indicando que ela estava se acomodando na cama. — Deixa eu te fazer uma pergunta de analista: você está gostando de alguém, Montserrat?

— O quê? Não! — respondi de imediato, deixando o desdém transbravam pela voz enquanto soltava uma risada seca, tentando cortar aquela linha de raciocínio antes que Beatriz achasse que tinha decifrado o meu comportamento. — De onde você tirou essa teoria, Bia? Eu só estou focado no fechamento de alguns fundos e nos relatórios estratégicos deste mês, você sabe como eu sou.

— Sei, sei exatamente como você é — ela rebateu, e eu quase podia ver o sorriso astuto no rosto dela do outro lado da linha. — Você é o homem mais pragmático que eu conheço, Gustavo. Mas até os sistemas mais avançados oscilam, e essa sua resposta defensiva só confirmou a minha suspeita.

— Não tem defensiva nenhuma, Beatriz — curvei o Porsche na avenida da praia de Copacabana, os prédios iluminados e o mar escuro desenhando o cenário da minha rota habitual. — É só cansaço.

— Se você está dizendo... — ela usou aquele tom de quem finge acreditar só para não estender a discussão, mantendo a leveza de sempre. — Mas olha, se essa mulher misteriosa for a responsável por te fazer salvar vira-latas na rua e cancelar jantares, eu já sou fã dela. Boa noite, Montserrat. Descanse essa mente brilhante.

— Boa noite, Bia.

Desliguei o viva-voz com um toque no painel. O silêncio voltou a tomar conta da cabine do carro, mas a pergunta dela continuou flutuando no ar, ecoando no compasso do motor.

Gostando de alguém? Que palavra ridícula e simplista para aplicar ao que estava acontecendo. Eu não gostava de pessoas daquele jeito, não operava sob a lógica dos sentimentos impulsivos. O que eu sentia em relação à Lívia era algo puramente tático, um desafio à minha capacidade de previsão e controle. Ela era uma anomalia que insistia em quebrar todas as minhas projeções.

Estacionei o carro na garagem subterrânea. Subi o elevador privativo em silêncio e, assim que entrei no apartamento, joguei as chaves em cima do aparador de vidro. Caminhei até a varanda, olhando para a imensidão escura do oceano Atlântico lá embaixo.

Peguei o celular do bolso. Abri a minha agenda de compromissos de amanhã e, antes das minhas reuniões matinais de mercado, digitei uma nota rápida: 9h30. Passar na clínica veterinária. Checar prontuário do cachorro.

Gostando ou não, o investimento já tinha começado. E eu não costumava retirar as minhas ações antes de ver o resultado final.