Eu já deveria saber que segundas-feiras têm uma propensão natural ao desastre, mas o plantão de hoje estava se superando. Entrei na clínica com o café aguado da garrafa térmica queimando o meu estômago e uma pilha de prontuários para atualizar, após uma noite em claro pensando na audácia daquele homem no bistrô da Helena ainda pesava na minha cabeça.

Eu só queria doze horas de rotina normal. Mas a realidade adora rir da minha cara.

Eram pouco mais de nove e meia quando ouvi o sininho da recepção. Quando dobrei o corredor, parei de chofre, sentindo o meu estômago dar um nó.

Lá estava ele. Gustavo Montserrat.

Mesmo sem o Porsche na porta, ele conseguia encher o ambiente. Usava uma camisa escura com as mangas dobradas até os antebraços e um relógio que provavelmente pagaria um ano do meu aluguel. Mas o que realmente me deu um ódio instantâneo não foi a presença dele. Foi o comitê de boas-vindas.

Camila, a veterinária mais cética que eu conhecia, estava praticamente debruçada no balcão, exibindo um sorriso que eu nunca tinha visto ela usar com ninguém. Ao lado dela, as duas estagiárias pareciam duas adolescentes em dia de autógrafo, balançando a cabeça para qualquer bobagem que saía da boca dele.

— ...e nós realmente admiramos a sua atitude, Sr. Montserrat — Camila dizia, com uma voz absurdamente mansa. — A maioria das pessoas teria sumido depois do acidente. O senhor trouxe o cão de madrugada, pagou tudo e ainda faz questão de vir ver como ele está. É muito bonito da sua parte.

— É o mínimo que eu poderia fazer, Camila — Gustavo respondeu, com aquela voz pausada e irritantemente segura. Ele deu um sorriso de lado que fez as duas estagiárias trocarem olhares cúmplices. — Me sinto responsável pelo grandalhão.

Aquilo acabou com o meu restinho de paciência.

Senti o sangue subir para o pescoço. Eu queria, do fundo do meu coração, que todo mundo naquela clínica detestasse aquele homem na mesma intensidade que eu. Queria que enxergassem o herdeiro mimado por trás daquela pose toda. Mas ali estava ele, jogando charme e transformando o meu local de trabalho em um fã-clube particular.

— O que é isso, uma reunião de condomínio ou o trabalho de vocês foi cancelado e ninguém me avisou? — disparei, a voz saindo cortante enquanto eu marchava até o balcão.

As estagiárias praticamente pularam para trás, digitando furiosamente nos computadores. Camila apenas ergueu as sobrancelhas, achando graça da minha patada.

Gustavo se virou devagar. Os olhos verdes dele me escanearam de cima a baixo, brilhando com aquele deboche silencioso que me dava vontade de voar no pescoço dele.

— Bom dia, Dra. Coimbra — ele disse, baixando o tom de voz para me provocar. — Pontual como sempre. Vim ver o cachorro. E, pelo visto, a sua equipe é bem mais simpática do que você.

— Ele passou a noite bem, Montserrat — respondi, batendo a minha prancheta no balcão para marcar território. — A cirurgia deu certo, ele não tem dor e está medicado. Respondendo ao que você estava usando como desculpa para flertar com as meninas: ele fica aqui na UTI por mais dois dias.

— Ótimo — ele deu um passo à frente, apoiando os cotovelos no balcão e ficando perto demais, o suficiente para me deixar desconfortável. — E para onde ele vai depois? Você disse ontem que ele não pode voltar para a rua. Se faltar espaço ou dinheiro para os remédios, é só me mandar a conta.

— Dinheiro não resolve tudo, Gustavo — rebati, estreitando os olhos e falando baixo para as meninas não ouvirem. — Ele vai precisar de uma casa e de cuidado de verdade. Alguém que tenha tempo, não só um cartão de crédito sem limite.

— Quem sabe eu não resolvo isso? — ele deu de ombros, sustentando o meu olhar. Então, ele inclinou um pouco a cabeça, mudando o rumo do ataque. — Mas me diz... como está o garoto? O Téo.

O nome do meu filho na boca dele fez todas as minhas defesas entrarem em alerta máximo. Senti meu corpo inteiro ficar rígido.

— Ele está ótimo. — respondi, com a voz mais seca que consegui demonstrar.

— Ele é uma figura, Lívia. E tem os seus olhos — ele continuou, o tom macio demais para o meio da recepção. Ele estava me testando, querendo entrar na minha vida. — Uma criança bem esperta. E o pai? Ele puxou essa energia toda de quem? É veterinário também?

A pergunta sobre o pai do Téo bateu na minha parede e ricocheteou. Eu não ia deixar aquele homem dar um único passo para dentro da minha intimidade. Ele não tinha esse direito. O Téo era a minha vida, o meu lado sagrado, e Gustavo Montserrat era só um cara de passagem.

— O Téo puxou a mim, Gustavo — cortei, fria como gelo, apertando a prancheta com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. — E a minha vida pessoal não é assunto de recepção, muito menos para você ficar investigando.

Dei um passo para trás, quebrando o contato visual e apontando para o corredor.

— Se quiser ver o cachorro, a visita está liberada. A Mariana te leva até lá. Eu tenho uma cirurgia agora e não posso perder tempo.

Girei nos calcanhares antes que ele pudesse abrir a boca para soltar mais alguma gracinha. Caminhei pelo corredor pisando firme, sentindo os olhos verdes dele cravados nas minhas costas. Eu precisava sumir dali, porque a presença desse homem estava transformando a minha rotina em um campo minado que eu não fazia a menor ideia de como desarmar.

Entrei na sala de preparação, bati a porta com um pouco mais de força do que o necessário e joguei a prancheta em cima da mesa de inox. O metal soltou um estalo alto, ecoando pelas paredes brancas e frias da sala de cirurgia. Respirei fundo, puxando o ar com força, tentando expulsar aquela sensação de invasão que o Gustavo deixava por onde passava.

Aquele homem me tirava do sério de um jeito que eu mal conseguia explicar.

— Problemas no paraíso? — Mariana perguntou, entrando logo atrás de mim com um sorrisinho de canto, já caminhando em direção à pia para começar a escovação dos braços.

— Não começa, Mari. Sério — avisei, pegando o sabão antisséptico e abrindo a torneira com o pé. A água fria bateu na minha pele, mas meu rosto ainda parecia queimar de raiva. — Eu só não aguento esse tipo de cara que acha que, porque tem um sobrenome importante e uma conta bancária sem fundo, pode chegar em qualquer lugar e fazer todo mundo de capacho. Ou de fã-clube, que foi o que vocês viraram lá na frente.

— Ah, para com isso, Lívia — ela riu, esfregando as mãos com calma. — O cara foi super educado. Ele nem precisava estar aqui, podia só ter mandado o motorista ou um assistente resolver a burocracia e pagar a conta. Mas ele veio. Ontem e hoje. E convenhamos, ele é um colírio para os olhos, um ótimo jeito de começar a semana.

— É um arrogante, isso sim — resmunguei, enxaguando os braços e mantendo as mãos para cima. — E o pior é que agora eu descobri que ele é amigo da Helena e do Arthur. Acredita nisso? O Rio de Janeiro é um ovo podre, só pode.

Mariana parou de esfregar as mãos por um segundo, os olhos arregalados de surpresa.

— Mentira! O boy do Porsche de sábado é amigo da sua amiga? Menina... isso não é uma coincidência, é um sinal do universo.

— É uma praga, isso sim — rebati, pegando a toalha estéril para me secar. — Um sinal de que a minha paz de espírito foi pro espaço. Ele ficou fazendo perguntas sobre o Téo, quis saber do pai dele... Uma audácia sem tamanho. Quem ele pensa que é para querer investigar a minha vida?

— E o que você respondeu?

— Que não era da conta dele, óbvio. Comigo ele não se cria.

Mariana me encarou enquanto eu vestia o avental cirúrgico. O olhar dela mudou de brincalhão para algo mais analítico, o que só me irritou ainda mais.

— O que foi? — perguntei, enfiando as mãos nas luvas estéreis com um estalo rápido do látex.

— Nada. Só que você está defensiva demais, Lívia. Geralmente, quando um cara mala aparece por aqui, você dá um fora, ignora e segue a vida. Mas com esse aí... você está vibrando na mesma frequência de irritação dele desde sábado. Você não está só brava. Você está abalada.

— Eu não estou abalada com nada, Mariana. Eu tenho um filho para criar, uma clínica para tocar e um cachorro com a bacia fraturada para tirar da UTI. Não tenho tempo para joguinhos de sedução de herdeiro entediado — cortei, caminhando em direção à mesa onde o nosso paciente da primeira cirurgia já estava anestesiado e entubado.

Olhei para o monitor de sinais vitais, vendo o traçado regular do coração do animal. Peguei o bisturi da bandeja e foquei toda a minha atenção ali, naquele corte preciso que eu dominava perfeitamente. Ali, no controle da cirurgia, tudo fazia sentido. O mundo fazia sentido.

Mas no fundo da minha mente, por mais que eu tentasse focar apenas na anatomia do animal, a voz mansa do Gustavo perguntando sobre o meu filho e aquele olhar verde insolente continuavam orbitando, como uma tempestade que eu sabia que não ia conseguir evitar por muito tempo.

A cirurgia durou pouco mais de uma hora. Foi um procedimento limpo, sem grandes surpresas, o tipo de trabalho que normalmente me deixaria com aquela sensação boa de dever cumprido. Mas, enquanto eu lavava as mãos na pia da área de expurgo, o silêncio da sala parecia pesado demais.

Tirei a touca e a máscara, jogando-as no lixo, e encarei o meu reflexo no espelho acima da pia. Eu parecia cansada. Mais do que o normal para uma manhã de segunda-feira.

— Ele já foi — Mariana avisou, entrando na sala com dois copos de plástico cheios de café fresco. Ela me estendeu um deles. — Ficou um tempão com o cão. Levou até uns petiscos especiais que o pessoal da recepção liberou.

Peguei o copo, sentindo o calor do plástico aquecer minhas mãos.

— Ótimo. Espero que ele tenha gastado todo o estoque de simpatia dele e resolva dar um tempo de aparecer por aqui — comentei, dando um gole longo no café amargo.

— Não contaria com isso — Mari deu de ombros, encostando-se na parede. — Ele conversou com o pessoal da administração antes de ir. Deixou um cartão corporativo black cadastrado no sistema da clínica. Falou que qualquer gasto extra com o cachorro, desde exames de sangue até a ração especial da internação, é para passar direto na conta dele. Ele não quer que o cachorro passe por nenhuma restrição.

Olhei para o nada, sentindo uma mistura incômoda de gratidão e irritação. Era difícil continuar odiando as atitudes de um cara que estava fazendo tudo certo pelo animal, mas o problema nunca foi o que ele fazia, era como ele fazia. Com aquela segurança absurda de quem domina o mundo.

— Ele é muito previsível — resmunguei, saindo da área de expurgo e voltando para o corredor principal da clínica.

— Você quis dizer generoso, né? — Mariana me seguiu. — Lívia, relaxa um pouco. O cara está ajudando. Aliás, ele perguntou que horas você costuma sair do plantão.

Parei no meio do corredor, virando-me para ela com os olhos estreitados.

— Você não disse, não é?

— Claro que não, não sou traíra — Mariana ergueu as mãos em sinal de paz, rindo. — Só disse que seus horários são malucos por causa dos plantões. Mas ele não pareceu se importar. Só deu aquele sorrisinho de lado e disse: Eu descubro. Cara, chega a dar um arrepio. Ele é muito focado.

— Ele é um desocupado, isso sim — retruquei, embora meu coração tivesse dado uma batida mais rápida, uma reação física estúpida que eu fiz questão de ignorar.

Caminhei até a ala de internação para checar o cachorro eu mesma. Quando entrei na baia, o vira-lata branco ergueu a cabeça devagar, batendo o rabo de leve no colchonete emborrachado assim que me viu. Notei um brinquedo de corda novo, daqueles caros, deitado bem ao lado dele.

Aproximei-me, agachando para fazer um carinho na cabeça do cachorro.

— Ele te mimou bastante, né, garoto? — sussurrei, vendo o Ozzy soltar um suspiro longo e apoiar o focinho na minha mão. — Não se acostuma não. Aquele homem é problema.

Meus pensamentos voaram de volta para o domingo, para o momento em que Gustavo olhou para o Téo. Havia tanta coisa implícita naquele olhar. Curiosidade, surpresa e uma intensidade que me desarmou. Ele estava tentando achar as minhas rachaduras, os pontos fracos na minha armadura de mãe solo e veterinária durona. E o pior era saber que, de alguma forma, ele estava conseguindo me fazer pensar nele muito mais do que eu gostaria de admitir.

Meu celular vibrou no bolso do jaleco. Peguei o aparelho, esperando uma mensagem da minha mãe sobre a rotina do Téo, mas era apenas um alerta de aplicativo. Respirei fundo, guardando o telefone de volta.

Gustavo Montserrat achava que a vida era um jogo onde ele sempre podia comprar a próxima jogada. Mas eu tinha construído a minha realidade com muito suor, parede por parede, e não seria um herdeiro de olhos verdes e sorriso insolente que iria bagunçar tudo. Pelo menos, eu esperava que não.

Caminhei até a minha sala e me joguei na cadeira de rodinhas, massageando as têmporas. A menção ao "pai do Téo" feita por Gustavo mais cedo na recepção tinha aberto uma gaveta que eu preferia manter trancada a sete chaves. Abri a gaveta real da minha mesa e encarei o extrato bancário impresso. Nenhuma notificação de depósito.

Lucas não via o próprio filho há três meses. Três meses em que o Téo aprendeu a bater palmas, ensaiou os primeiros passos e mudou o tom do balbucio sem que o pai fizesse a menor questão de testemunhar. Para piorar, a pensão alimentícia já acumulava duas semanas de atraso. No início, a ausência dele me dilacerava; hoje, gerava apenas um pragmatismo frio.

Minha filosofia de vida em relação a isso era muito bem definida: eu jamais imploraria pela presença dele. Não vou enfiar o meu filho na vida de quem não o quer, nem forçar o Téo a estar onde não é bem-vindo. Amor não se taxa. Mas a pensão? A pensão ele ia pagar sim. Cada centavo. Era o direito do meu filho, e por isso eu brigaria até na última instância jurídica, se fosse necessário. Lucas que lidasse com o oficial de justiça, porque eu não passaria pano para a irresponsabilidade dele.

Encostei a cabeça no encosto da cadeira, olhando para o teto da clínica. O contraste era quase cômico. De um lado, o pai biológico do meu filho sumia por covardia financeira e emocional; do outro, um completo estranho, motivado por um ego ferido e uma arrogância inacreditável, assinava cheques em branco para um vira-lata de rua e tentava decifrar a minha rotina.

Fechei os olhos por alguns instantes, e a lembrança daquela madrugada na cobertura de Copacabana voltou a assombrar os meus pensamentos.

Havia uma verdade incômoda ali, uma faísca que eu tentava sufocar a todo custo: eu queria voltar a sair. Queria me sentir viva, bonita, inteligente e desejada, exatamente como tinha me sentido durante as horas em que conversei com Gustavo antes de o mundo real desabar sobre nós na manhã seguinte. Sentir aquela eletricidade de novo era tentador. Mas a realidade de uma mãe solo nunca vinha com um botão de pausa.

Para uma mulher comum, um convite para jantar significava apenas escolher um vestido; para mim, envolvia coordenar a agenda da minha mãe, checar o estoque de fraldas, deixar o leite ordenhado, monitorar o termômetro por causa de um dente que estava nascendo e carregar uma culpa invisível, mas esmagadora, por estar longe de casa.

As necessidades do Téo sempre vinham, e sempre viriam, em primeiro lugar. O meu relógio agora rodava no fuso horário dele.

— Lívia? Tudo bem? — Mariana colocou a cabeça para dentro da sala, interrompendo o meu transe. — A tutora do Frederico chegou para o retorno.

— Já estou indo, Mari — respondi, guardando o extrato bancário de volta na gaveta e fechando-a com força.

Ajeitei o jaleco, respirei fundo e assumi a minha postura de Dra. Coimbra. O caos emocional teria que esperar. O Rio de Janeiro podia até ser um ovo podre cheio de coincidências infelizes e herdeiros insistentes, mas eu tinha um plantão para terminar e um filho maravilhoso me esperando em casa. Gustavo Montserrat que jogasse as suas cartas; o meu foco continuava sendo blindar o meu mundo contra qualquer um que achasse que a nossa vida se resumia a números.


Notas finais
Eu não lembro se já mencionei o nome do pai do Téo antes 😅 (Um fato engraçado sobre escrever, eu preciso anotar tudo pq vou esquecendo) Enfim, incialmente era Victor, mas mudei para Lucas pq eu tenho um outro personagem chamado Viktor (O Efeito Volkov) e achei melhor colocar outro nome. Espero que entendam e espero mais ainda que estejam gostando desses dois até aqui 💕